ESCRITOS DE SANTA CLARA

PORTUGUÉS

FORMA DE VIDA DE SANTA CLARA

[Inocêncio, bispo, servo dos servos de Deus, às diletas filhas em Cristo: a abadessa Clara e as outras Irmãs do mosteiro de São Damião em Assis, saudação e bênção a-postólica.

Costuma a Sé Apostólica aceder aos votos piedosos e conceder benévolo favor aos desejos honestos dos que a imploram. De fato, diante de nós está uma súplica humilde da vossa parte para que tenhamos o cuidado de confirmar com o apoio apostólico a forma de vida que o nosso venerável irmão bispo de Óstia e de Velletri julgou que deveria aprovar. De acordo com ela, dada pelo bem-aventurado Francisco e por vós espontaneamente acolhida, deveis viver comunitariamente em espírito de unidade e com o voto da altíssima pobreza, como está melhor explicado na carta que o mesmo bispo escreveu.

Por isso, inclinados para as preces da vossa devoção, tendo por ratificado e agradável o que foi feito pelo referido bispo neste assunto, nós o confirmamos com autoridade apostólica e o munimos com a patrocínio do presente escrito, fazendo inserir neste documento, palavra por palavra, o teor da própria carta, que é o seguinte:

Reinaldo, por misericórdia divina bispo de Óstia e de Velletri, à sua caríssima mãe e filha em Cristo, dona Clara, abadessa de São Damião de Assis, e às suas Irmãs tanto presentes como futuras, saudação e bênção paternal.

Porque vós, amadas filhas em Cristo, desprezastes as pompas e prazeres do mundo e, seguindo os vestígios do próprio Cristo e de sua Mãe santíssima, escolhestes uma vida enclausurada e o serviço do Senhor na mais alta pobreza, para poder ser servas do Senhor com espírito livre, nós, recomendando no Senhor vosso santo propósito, queremos de boa vontade, com afeto paterno, conceder benévolo favor aos vossos votos e aos vossos santos desejos.

Por isso, movidos por vossas piedosas preces, confirmamos para sempre, com a autoridade do senhor papa e a nossa, para vós todas e para as que vos haverão de suceder no vosso mosteiro, e munimos com a proteção do presente escrito a forma de vida e o modo de santa unidade e altíssima pobreza que o vosso bem-aventurado pai Francisco, em palavras e por escrito, vos transmitiu para que observásseis. Que é a seguinte:]

[Capítulo I]

[Em nome do Senhor! Começa a forma de vida das irmãs pobres]

1 A forma de vida da Ordem das Irmãs Pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta: 2 Observar o santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.

3 Clara, serva indigna de Cristo e plantinha do bem-aventurado pai Francisco, promete obediência e reverência ao senhor papa Inocêncio e aos seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana.

4 E, como no princípio de sua conversão, juntamente com suas Irmãs, prometeu obediência ao bem-aventurado Francisco, assim promete guardá-la inviolavelmente para com seus sucessores.

5 E as outras Irmãs sejam sempre obrigadas a obedecer aos sucessores de São Fran-cisco, à Irmã Clara e às outras abadessas canonicamente eleitas que a sucederem.

[Capítulo II]

[Sobre as que quiserem aceitar esta Vida e como deverão ser recebidas]

1 Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs. 2 E se a maioria concordar, poderá recebê-la, tendo obtido a licença do nosso cardeal protetor. 3 Se achar que deve ser recebida, examine-a diligentemente, ou a faça examinar sobre a fé católica e os sacramentos da Igreja. 4 Se crer em tudo isso e quiser confessá-lo fielmente e observá-lo firmente até o fim, 5 não tiver marido ou, tendo-o, já houver entrado na vida religiosa com autorização do bispo diocesano, e feito o voto de continência, e se não for impedida de observar esta vida pela idade avançada ou alguma enfermidade ou deficiência mental, 6 que lhe seja exposto diligentemente o teor de nossa vida.

7 Se for idônea, digam-lhe a palavra do Santo Evangelho: que vá vender tudo que é seu e procure dá-lo aos pobres. 8 Se não puder fazer isso, baste-lhe a boa vontade. 9 Mas a abadessa e suas Irmãs evitem preocupar-se com suas coisas temporais, para que possa livremente fazer do que for dela o que o Senhor lhe inspirar. 10 Se pedir conselho, mandem-na a pessoas discretas e tementes a Deus para dar os bens aos pobres de acordo com sua orientação.

11 Depois, cortados os cabelos em círculo e depostas as roupas seculares, dêm-lhe três túnicas e um manto. 12 Depois disso, não lhes seja permitido sair do mosteiro sem um motivo útil, razoável, manifesto e aprovado. 13 Mas, terminado o ano da provação, seja recebida na obediência prometendo observar para sempre a vida e a forma da nossa pobreza. 14 Nenhuma receba o véu durante o tempo da provação.

15 As Irmãs podem ter também aventais por comodidade ou conveniência do serviço e do trabalho. 16 Proveja-as a abadessa de roupas com discrição, conforme a situação das pessoas, os lugares, tempos e regiões frias, como lhe parecer exigido pela necessidade.

17 As jovens recebidas no mosteiro antes da idade legítima tenham o cabelo cortado em círculo e, deixando a roupa secular, sejam vestidas com um pano religioso, como parecer melhor à abadessa. 18 Mas, quando chegarem à idade legítima, vestidas à maneira das outras, façam a sua profissão. 19 Tanto para elas como para as outras noviças, a abadessa providencie com solicitude uma mestra entre as mais discretas de todo o mosteiro, 20 que as forme diligentemente, por um comportamento santo e bons costumes, de acordo com a forma de nossa profissão.

21 Para examinar e aceitar as Irmãs que servem fora do mosteiro observe-se a mesma forma. 22 E estas poderão usar calçados. 23 Ninguém poderá morar conosco no mosteiro, se não tiver sido recebida segundo a forma de nossa profissão.

24 E, por amor do santíssimo e diletíssimo Menino deitado no presépio envolto em panos pobrezinhos, e de sua santíssima Mãe, admoesto, peço e exorto minhas Irmãs a se vestirem sempre de roupas vis.

[Capítulo III]

[Sobre o Ofício Divino e o Jejum, Sobre a Confissão e a Comunhão]

1 As Irmãs que sabem ler rezem o Ofício Divino conforme o costume dos frades menores, 2 pelo que poderão ter breviários, lendo sem canto. 3 E aquelas que, por causa razoável, alguma vez não puderem dizer suas Horas lendo, possam dizer os Pai-nossos como as outras Irmãs. 4 E as Irmãs que não sabem ler digam vinte e quatro Pai-nossos pelas Matinas; cinco pelas Laudes, por Prima, Terça, Sexta e Noa, por cada uma dessas horas, sete; pelas Vésperas doze e pelas Completas sete. 5 Pelos defuntos rezem também nas Vésperas sete Pai-nossos com o "Requiem aeternam" e doze nas Matinas, 6 quando as Irmãs letradas tiverem que rezar o ofício dos mortos. 7 Quando morrer uma Irmã de nosso mosteiro, digam cinqüenta Pai-nossos.

8 As Irmãs jejuem em todo o tempo. 9 Mas no Natal do Senhor, seja em que dia for, podem alimentar-se duas vezes. 10 As adolescentes, as fracas e as que servem fora do mosteiro sejam misericordiosamente dispensadas, como parecer à abadessa. 11 Mas em tempo de manifesta necessidade as Irmãs não sejam obrigadas ao jejum corporal.

12 Com licença da abadessa, confessem-se pelos menos doze vezes por ano. 13 E devem ter o cuidado de não falar de outras coisas senão das que dizem respeito à confissão e à salvação das almas. 14 Comunguem sete vezes, a saber: no Natal do Senhor, na Quinta-feira santa, na Ressurreição do Senhor, no dia de Pentecostes, na Assunção de Nossa Senhora, na festa de São Francisco e na festa de todos os santos. 15 Para dar a comunhão às Irmãs, sãs ou doentes, seja permitido ao capelão celebrar dentro (da clausura).

[Capítulo IV]

[Sobre a Eleição e o Ofício da Abadessa, Sobre o Capítulo e as Oficiais e Discretas]

1 Na eleição da abadessa, as Irmãs sejam obrigadas a observar a forma canônica. 2 Procurem elas mesmas com antecedência ter o ministro geral ou provincial da Ordem dos Frades Menores, 3 que as prepare pela palavra de Deus para toda concórdia e utilidade comum na eleição a fazer.

4 Ninguém seja eleita se não for professa. 5 E se fosse eleita ou nomeada de outra forma uma não professa, não se lhe obedeça, se primeiro não fizer a profissão da forma de nossa pobreza. 6 Quando ela morrer, eleja-se outra abadessa.

7 E se alguma vez parecer à totalidade das Irmãs que a sobredita não é suficiente para o serviço e a utilidade comum delas, sejam obrigadas as referidas Irmãs a eleger quanto antes outra para ser sua abadessa e mãe, de acordo com a forma predita.

8 A eleita pense no ônus que assumiu e naquele a quem deverá prestar contas pelo rebanho que lhe foi confiado. 9 Empenhe-se também em estar à frente das outras mais pelas virtudes e bons costumes do que pelo cargo, para que, estimuladas por seu exemplo, as Irmãs lhe obedeçam mais por amor que por temor.

10 Não tenha amizades particulares para não amar mais uma parte, escandalizando no conjunto. 11 Console as aflitas.

12 Seja também refúgio final das atribuladas de modo que, se faltarem junto a ela os remédios da saúde, não prevaleça nas enfermas a doença do desespero. 13 Conserve a vida comunitária em tudo, principalmente na igreja, no dormitório, no refeitório, na enfermaria e nas roupas. 14 E isso tem que fazer do mesmo modo a sua vigária.

15 Pelo menos uma vez por semana, a abadessa tenha que convocar suas Irmãs para um capítulo. 16 Aí, tanto ela quanto as Irmãs devem confessar humildemente suas faltas e negligências comuns e públicas. 17 E tratem aí, de acordo com todas as Irmãs, o que for necessário para a utilidade e o bem do mosteiro, 18 porque muitas vezes o Senhor revela à menor o que é melhor.

19 Não se contraia nenhuma dívida grave sem o consenso comum das Irmãs e sem manifesta necessidade, e isso através de um procurador. 20 Mas a abadessa e suas Irmãs devem guardar-se de receber algum depósito no mosteiro; 21 porque disso nascem muitas vezes perturbações e escândalos.

 

22 Para conservar a unidade do amor mútuo e da paz, elejam-se todas as responsáveis pelos cargos do mosteiro de comum acordo de todas as Irmãs. 23 Do mesmo modo elejam-se ao menos oito Irmãs das mais discretas21, de cujo conselho a abadessa tenha sempre que servir-se nas coisas requeridas por nossa forma de vida. 24 As Irmãs podem, e até devem, se lhes parecer útil e conveniente, remover alguma vez as responsáveis e discretas e eleger outras no lugar delas.

[Capítulo V]

[Sobre o Silêncio, o Locutório e a Grade]

1 As Irmãs, com exceção das que servem fora do mosteiro, observem o silêncio desde a hora de Completas até a Terça. 2 Calem-se também continuamente na igreja e no dormitório; no refeitório, só enquanto comem; 3 com exceção da enfermaria, em que as Irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas. 4 Mas podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa22.

5 Não seja permitido às Irmãs falar no locutório ou na grade sem licença da abadessa ou de sua vigária. 6 As que tiverem licença não ousem conversar no locutório a não ser na presença de duas Irmãs que as possam ouvir. 7 Mas não se atrevam a chegar à grade se não estiverem presentes pelo menos três Irmãs escolhidas pela abadessa ou por sua vigária entre as oito eleitas por todas as Irmãs para o conselho da abadessa. 8 A abadessa e sua vigária têm que observar essa mesma forma de falar.

9 E isso só se faça raríssimamente na grade, e de maneira nenhuma na porta. 10 Por dentro dessa grade ponha-se um pano, que não será removido a não ser quando se prega a palavra de Deus ou quando alguma Irmã falar a alguém.

11 Deve ter também uma porta de madeira, bem defendida por duas fechaduras de ferro diferentes, ferrolhos e trancas,12 para que sejam fechadas, máxime de noite, com duas chaves, uma das quais ficará com a abadessa, e a outra com a sacristã. 13 E fique sempre fechada, menos quando se ouve o ofício divino ou pelas causas acima lembradas.

14 Ninguém deve falar com alguém na grade, de modo algum, antes do nascer do sol ou depois do pôr do sol. 15 Mas no locutório fique sempre por dentro um pano, que não deve ser removido. 16 Na quaresma de São Martinho e na quaresma maior, ninguém fale no locutório, 17 a não ser ao sacerdote para se confessar ou por outra necessidade manifesta, o que está reservado à prudência da abadessa ou de sua vigária.

Capítulo VI]

[Não devem ter propriedades]

1 Depois que o altíssimo Pai Celeste se dignou iluminar o meu coração pela sua graça para que eu fizesse penitência conforme o exemplo e o ensinamento de nosso pai São Francisco, pouco depois da conversão dele, eu lhe prometi obediência voluntariamente, junto com minhas Irmãs.

2 Vendo o bem-aventurado pai que não temíamos nenhuma pobreza, trabalho, tribulação, humilhação e desprezo do mundo, antes tínhamos tudo isso como um prazer, movido de piedade escreveu-nos uma forma de vida deste modo: 3 "Desde que por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, 4 eu quero e prometo, por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles". 5 Cumpriu-o diligentemente enquanto viveu, e quis que fosse sempre cumprido pelos frades.

6 E para que nem nós nem as que viriam depois de nós jamais nos afastássemos da santíssima pobreza que assumimos, pouco antes de sua morte escreveu-nos de novo expressando sua última vontade: 7 "Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim; 8 rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. 9 Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja".

10 E como eu sempre fui solícita com minhas Irmãs, na observância da santa pobreza que ao Senhor Deus e ao bem-aventurado Francisco prometemos guardar, 11 assim sejam obrigadas as abadessas que me sucederem no cargo e todas as Irmãs a observá-la inviolavelmente até o fim: 12 isto é, a não aceitar nem ter posse ou propriedade nem por si, nem por pessoa intermediária, 13 e nem coisa alguma que possa com razão ser chamada de propriedade, 14 exceto aquele tanto de terra requerido pela necessidade para o bem e o afastamento do mosteiro. 15 E essa terra não será trabalhada a não ser para a horta e a necessidade delas.

[Capítulo VII]

[O modo de trabalhar]

1 As Irmãs a quem o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem com fidelidade e devoção, depois da hora de Terça, em um trabalho que seja conveniente à honestidade e ao bem comum, 2 de modo que, afastando o ócio, inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual as outras coisas temporais devem servir31.

3 A abadessa ou a vigária devem indicar em capítulo, diante de todas, o que cada uma deverá fazer com as próprias mãos. 4

O mesmo se faça se alguém enviar alguma esmola para as necessidades das Irmãs, para que pelo bem dessas pessoas se faça uma recomendação em comum. 5 E todas essas coisas sejam distribuídas pela abadessa ou por sua vigária, com o conselho das discretas, para a utilidade comum32.

[Capítulo VIII]

[Que as Irmãs de nada se apropriem, Sobre o pedir esmolas e sobre as Irmãs doentes]

1 As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. 2 E como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade, mandem pedir esmola confiadamente, 3 e não precisam ficar com vergonha, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. 4 Esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas caríssimas Irmãs, herdeiras e rainhas do reino dos céus, pobres em coisas, mas sublimadas em virtudes. 5 Seja esta a vossa porção, que vos conduz à terra dos vivos. 6 Aderindo totalmente a ela, queridas Irmãs, nada mais queirais possuir em perpétuo abaixo do céu, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe.

7 A nenhuma Irmã seja permitido mandar cartas, receber ou dar alguma coisa fora do mosteiro sem licença da abadessa. 8 Nem seja lícito ter alguma coisa que não tenha sido dada ou permitida pela abadessa. 9 Se algo for enviado a alguém por parentes ou por outros, faça a abadessa que isso lhe seja dado. 10 Ela mesma, se tiver necessidade, poderá usá-lo; se não, que o dê com caridade a uma Irmã que precise. 11 Mas se lhe for mandado algum dinheiro, a abadessa, com o conselho das discretas, faça provê-la do que tiver necessidade.

12 Quanto às Irmãs doentes, a abadessa seja firmemente obrigada a informar-se solicitamente por si mesma ou por outras Irmãs, do que é exigido por sua enfermidade, tanto em conselhos como em alimentos e outras necessidades 13 e a prover com caridade e misericórdia, de acordo com as possibilidades do lugar. 14 Porque todas devem prover e servir suas Irmãs enfermas, como gostariam de ser servidas, se tivessem alguma doença.

15 Manifeste com segurança, uma à outra, sua necessidade. 16 E se uma mãe ama e nutre sua filha carnal, quanto mais diligentemente deve uma Irmã amar e nutrir sua irmã espiritual? 17 As que estão doentes deitem-se em colchões de palha e tenham à cabeça travesseiros de penas; 18 e as que precisarem podem usar meias de lã e acolchoados.

19 As referidas enfermas, quando forem visitadas por quem entra no mosteiro, podem, cada uma por si, responder com algumas palavras breves aos que lhes falarem.20 Mas as outras Irmãs que têm licença não ousem falar com os que entram no mosteiro, a não ser estando presentes duas Irmãs discretas designadas pela abadessa ou por sua vigária. 21 A abadessa e sua vigária também sejam obrigadas a observar essa forma de falar.

[Capítulo IX]

[A penitência a impor-se às irmãs que pecam e sobre as irmãs que servem fora do mosteiro]

1 Se uma Irmã, por instigação do inimigo, pecar mortalmente contra a forma de nossa profissão e, admoestada duas ou três vezes pela abadessa ou por outras Irmãs, 2 não se emendar, deve comer pão e água, no chão, diante de todas as Irmãs, por quantos dias for contumaz; 3 e, se assim parecer à abadessa, seja submetida a pena mais grave. 4 Enquanto for contumaz, reze-se para que o Senhor ilumine seu coração para a penitência. 5 Mas a abadessa e suas Irmãs devem tomar cuidado para não se irar nem se perturbar pelo pecado de alguém, porque a ira e a perturbação impedem a caridade em si e nos outros.

6 Se acontecer, tomara que não, que surja alguma vez entre duas Irmãs uma ocasião de perturbação ou de escândalo por causa de alguma palavra ou gesto, 7 a que tiver causado a perturbação imediatamente, antes de oferecer o dom de sua oração diante do Senhor, não só se prosterne humildemente aos pés da outra, pedindo perdão, 8 mas também rogue com simplicidade que interceda por ela diante do Senhor para que a perdoe. 9 Mas a outra, lembrando a palavra do Senhor: Se não perdoardes de coração também o Pai do céu não vos perdoará, 10 perdoe generosamente sua irmã por toda ofensa que lhe tenha feito.

11 As Irmãs que servem fora do mosteiro não se ausentem por muito tempo, a não ser que o exija uma manifesta necessidade. 12 Devem caminhar com honestidade e falar pouco, para poderem edificar sempre os que as virem. 13 E guardem-se firmemente de ter relacionamentos ou encontros suspeitos com alguém. 14 Nem se façam comadres de homens ou de mulheres, para que isso não dê ocasião para murmuração ou perturbação.

15 Não ousem trazer os boatos do mundo para dentro do mosteiro. 16 E sejam firmemente obrigadas a não contar fora do mosteiro o que se fala ou se faz dentro que possa causar algum escândalo. 17 Se alguma incorrer nesses dois pontos por simplicidade, cabe à prudência da abadessa dar-lhe a penitência, com misericórdia. 18 Mas se tiver o mau costume de fazer isso, imponha-lhe a abadessa uma penitência com o conselho das discretas, de acordo com o grau da culpa.

[Capítulo X]

[A admoestação e a correção das irmãs]

1 A abadessa exorte e visite suas Irmãs e as corrija com humildade e caridade, não lhes prescrevendo nada que seja contra sua alma e a forma de nossa profissão. 2 Mas as Irmãs súditas lembrem-se de que, por Deus, renunciaram a sua própria vontade. 3 Por isso devem obedecer firmemente a suas abadessas em tudo que prometeram ao Senhor observar e que não é contrário a sua alma e à nossa profissão. 4 A abadessa, porém, tenha tanta familiaridade com elas que possam falar e fazer com ela como as senhoras com sua serva. 5 Pois assim deve ser, que a abadessa seja servidora de todas as Irmãs.

6 Admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo, que se guardem as Irmãs de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissensão e da divisão. 7 Antes, sejam sempre solícitas em conservar, umas com as outras, a unidade do amor mútuo, que é o vínculo da perfeição.

8 E as que não sabem letras não procurem aprendê-las; 9 mas lembrem que, acima de tudo, devem desejar ter o espírito do Senhor e sua santa operação, 10 orar sempre a ele com coração puro e ter humildade, paciência na tribulação e na doença, 11 e amar os que nos perseguem, repreendem e acusam, 12 porque, diz o Senhor: Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus. 13 E quem perseverar até o fim, esse será salvo.

Capítulo XI]

[A observância da Clausura]

1 A porteira seja de comportamento maduro, discreta e de idade conveniente; de dia deve permanecer lá, numa pequena cela aberta, sem porta. 2 Seja-lhe designada uma companheira idônea que, se necessário, a substitua em tudo.

3 A porta deve ser bem defendida por duas fechaduras diferentes de ferro, por trancas e trincos, 4 de modo que, principalmente de noite, fique fechada com duas chaves, uma das quais esteja com a porteira e a outra com a abadessa. 5 De dia não se deixe jamais sem guarda e seja fechada seguramente com uma chave.

6 Cuidem com toda diligência que a porta nunca fique aberta, a não ser o mínimo possível, segundo a conveniência. 7 E não se abra absolutamente a quem quiser entrar, a não ser que lhe tenha sido permitido pelo Sumo Pontífice ou pelo senhor nosso Cardeal37.

8 E as Irmãs não permitam que alguém entre no mosteiro antes do nascer do sol nem que nele permaneça depois do ocaso, se isso não for exigido por uma causa manifesta, razoável e inevitável. 9 Se a algum bispo for permitido celebrar missa dentro do mosteiro para a bênção da abadessa, para a consagração de alguma das Irmãs como monja38 ou por outro motivo, contente-se com o menor número possível de companheiros e ministros, e com os mais honestos.

10 Mas quando for necessário introduzir no mosteiro alguns homens para fazer algum trabalho, a abadessa deve ter o cuidado de colocar na porta uma pessoa bem indicada, 11 que só abra aos encarregados da obra e não a outros. 12 Todas as Irmãs tenham o maior cuidado para não serem vistas pelos que entrarem nessa ocasião.

[Capítulo XII]

[Sobre o Visitador, o Capelão e o Cardeal Protetor]

1 Nosso visitador seja sempre da Ordem dos Frades Menores, de acordo com a vontade e o mandato de nosso Cardeal. 2 Sua honestidade e bons costumes devem ser muito bem conhecidos. 3 Seu encargo será o de corrigir, tanto na cabeça como nos membros, os excessos cometidos contra a forma de nossa profissão. 4 Estando em lugar aberto, para poder ser visto pelos outros, poderá falar sobre o que diz respeito à visita com várias Irmãs ou com cada uma, como lhe parecer melhor.

5 Também um capelão, com um companheiro clérigo de boa fama, de previdente discrição, e dois irmãos leigos de santo comportamento e amantes da honestidade, 6 para socorrerem nossa pobreza, como sempre nos foi dado com misericórdia pela referida Ordem dos Frades Menores, 7 pedimos como uma graça da mesma Ordem, por amor de Deus e do bem-aventurado Francisco. 8 Não seja permitido ao capelão entrar no mosteiro sem o companheiro. 9 E quando entrarem, estejam em um lugar aberto, para poderem ser vistos sempre um pelo outro e pelos demais. 10 Eles podem entrar para a confissão das enfermas que não puderem ir ao locutório, como também para sua comunhão, extrema unção ou encomendação da alma.

11 Mas para as exéquias e a celebração da missa de defuntos, para cavar, abrir a sepultura, ou mesmo para ajustá-la, podem entrar as pessoas suficientes e capazes segundo a disposição da abadessa.

12 Para isso sejam as Irmãs firmemente obrigadas a ter sempre como nosso governador, protetor e corretor o cardeal da santa Igreja romana que for designado pelo senhor Papa para os Frades Menores, 13 a fim de que, sempre submissas e subordinadas aos pés da mesma santa Igreja, firmes na fé católica, observemos para sempre a santa pobreza e humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e o Santo Evangelho, que prometemos firmemente. Amém.

[Dado em Perusa, no dia 16 de setembro, no décimo ano do pontificado do senhor Papa Inocêncio IV. Portanto, a ninguém seja permitido infringir esta página por nós confirmada ou, com temerária ousadia, contradize-la. Se alguém tiver a presunção de fazer isso, saiba que há de incorrer na indignação de Deus todo-poderoso e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Assis, no dia nove de agosto, no décimo primeiro ano de nosso pontificado.]

TESTAMENTO DE SANTA CLARA

1 Em nome do Senhor! (cf. Col 3,17) Amém!

 

2 Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia (cf. 2Cor 1,3) e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, 3 está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida. 4 Por isso diz o Apóstolo: "Reconhece a tua vocação" (cf. 1Cor 1,26).

5 O Filho de Deus fez-se para nós o Caminho (cf. Jo 14,6), que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo (1Tim 4,12).

 

6 Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, 7 mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco, 8 não só depois de nossa conversão mas também quando estávamos na miserável vaidade do mundo. 9 Pois, quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou companheiros, 10 estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o mundo, 11 numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde.12 Pois, nessa ocasião, subindo ao muro da igreja, ele disse em voz alta e em francês para uns pobres que moravam ali perto: 13 "Venham me ajudar na obra do mosteiro de São Damião, 14 porque nele ainda haverão de morar umas senhoras cuja vida famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial (cf. Mt 5,16) em toda a sua santa Igreja".

 

15 Nisso nós podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, 16 pois, em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição (cf. 2Pd 1,10), através do seu santo. 17 E o nosso bem-aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou.

 

18 Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! 19 Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, 20 para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. 21 Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, 22 estamos bem obrigadas a bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor. 23 Por isso, se vivermos de acordo com essa forma, daremos aos outros um nobre exemplo (cf. 2Mac 6,28.31) e vamos conquistar o prêmio da bem-aventurança eterna com um trabalho muito breve.

 

24 Depois que o Altíssimo Pai celestial, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência segundo o exemplo e ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco, 25 pouco depois de sua conversão, com algumas irmãs que Deus me dera logo após a minha conversão, eu lhe prometi obediência voluntariamente, 26 como o Senhor nos concedera pela luz da sua graça através da vida admirável e do ensinamento dele.

 

27 Vendo o bem-aventurado Francisco que nós, embora frágeis e fisicamente sem forças, não recusávamos nenhuma privação, pobreza, trabalho, tribulação, nem humilhação ou o desprezo do mundo, 28 e até julgávamos tudo isso as maiores delícias, como pôde comprovar freqüentemente em nós a exemplo dos santos e dos seus frades, alegrou-se muito no Senhor. 29 E movido de piedade para conosco, assumiu o compromisso, por si e por sua Ordem, de ter sempre por nós o mesmo cuidado diligente e a mesma atenção especial que tinha para com seus irmãos.

 

30 E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião, 31 onde em pouco tempo o Senhor nos multiplicou por sua misericórdia e graça, a fim de que se cumprisse o que tinha predito por seu santo. 32 Pois antes tínhamos morado em outro lugar, embora por pouco tempo.

 

33 Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. 34 E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos sermões (cf. At 20,2) e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, 35 como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da santa pobreza. 36 Também o nosso bem-aventurado pai Francisco, imitando os seus passos (cf. 1Pd 2,21), pelo exemplo e pelo ensinamento, nunca se desviou, em toda a vida, de sua santa pobreza, que escolheu para si e seus irmãos.

 

37 Por isso eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, 38 como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio (cf. 1Tm 3,15), 39 repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela.

 

40 E como sempre fui cuidadosa e solícita em observar a santa pobreza que prometemos ao Senhor e ao nosso bem-aventurado pai Francisco, e em fazer que fosse observada pelas outras, 41 assim sejam obrigadas até o fim aquelas que vão me suceder no ofício a observar e fazer observar sua santa pobreza, com o auxílio de Deus. 42 Para maior segurança, tive a preocupação de conseguir do senhor papa Inocêncio, em cujo tempo começamos, e dos seus outros sucessores, que corroborassem com os seus privilégios a nossa profissão da santíssima pobreza, que prometemos ao Senhor e ao nosso bem-aventurado pai, 43 para que em tempo algum nos afastássemos dela de maneira alguma.

 

44 Por isso, de joelhos dobrados e prostrada de corpo e alma, recomendo todas as minhas Irmãs atuais e futuras à santa mãe Igreja Romana, ao Sumo Pontífice e principalmente ao senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós,

 

45 para que, por amor daquele Deus

que pobre foi posto no presépio (cf. Lc 2,12),

viveu pobre no mundo

e ficou nu no patíbulo,

 

46 faça com que sempre o seu pequeno rebanho (cf. Lc 12,32), que o Senhor Pai gerou em sua Igreja pela palavra e o exemplo do nosso bem-aventurado pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade do seu Filho dileto e da Virgem, sua gloriosa Mãe, 47 observe a santa pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco e nela digne-se encorajá-las e conservá-las.

 

48 E como o Senhor nos deu nosso bem-aventurado pai Francisco como fundador, plantador e auxílio no serviço de Cristo e naquilo que prometemos ao Senhor e ao nosso pai, 49 e como ele durante a sua vida mostrou tanto cuidado em palavras e obras para tratar e cuidar de nós, sua plantinha, 50 assim recomendo e confio minhas Irmãs, presentes e futuras, ao sucessor do nosso bem-aventurado pai Francisco e a toda a Ordem, 51 para que nos ajudem a crescer sempre mais no serviço de Deus e principalmente a observar melhor a santa pobreza.

 

52 Se em algum tempo acontecer que as Irmãs tenham que deixar este lugar para se estabelecer em outro, sejam obrigadas, em qualquer lugar em que estiverem depois da minha morte, a observar a referida forma de pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco.

 

53 A que estiver no ofício deve ser tão solícita e previdente como as outras Irmãs para não adquirir nem receber junto a esse lugar nenhuma terra a não ser a que for exigida pela extrema necessidade para a horta em que temos que cultivar verduras.

 

54 Mas se em algum lugar, para honestidade e para isolamento do mosteiro for conveniente ter mais terreno além da cerca da horta, não permitam que seja adquirido ou mesmo recebido mais do que for pedido pela necessidade extrema. 55 E essa terra não deve ser trabalhada nem semeada mas ficar sempre baldia e inculta.

 

56 No Senhor Jesus Cristo, aconselho e admoesto a todas as minhas Irmãs, presentes e futuras, que sempre se empenhem em seguir o caminho da santa simplicidade, da humildade, da pobreza e também uma vida honesta e santa, 57 como aprendemos de Cristo e de nosso bem-aventurado pai Francisco desde o início de nossa conversão. 58 Foi dessas coisas que, não por nossos méritos mas só por misericórdia e graça de quem o deu, o Pai das misericórdias, espalhou-se o perfume (cf. 2Cor 1,3; 2,15) da boa reputação, tanto para os de longe como para os de perto. 59 E amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai por fora, por meio das boas obras, o amor que tendes dentro, 60 para que, provocadas por esse exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade.

 

61 Rogo também à que estiver a serviço das Irmãs que trate de estar à frente das outras mais por virtudes e santos costumes do que pelo ofício, 62 de forma que suas Irmãs, provocadas por seu exemplo, não obedeçam tanto por dever como por amor. 63 Seja também previdente e discreta para com suas Irmãs, como uma boa mãe faz com suas filhas, 64 tratando especialmente de provê-las de acordo com as necessidades de cada uma, com as esmolas que forem dadas pelo Senhor. 65 Também seja tão bondosa e acessível que possam manifestar com segurança suas necessidades 66 e recorrer a ela confiadamente a qualquer hora, como lhes parecer conveniente, tanto por si mesmas, como por suas Irmãs.

 

67 Mas as Irmãs que são súditas lembrem-se de que renunciaram à própria vontade por amor de Deus. 68 Por isso quero que obedeçam à sua mãe, como prometeram ao Senhor, espontaneamente, 69 de modo que sua mãe, vendo o amor, a humildade e a unidade que as Irmãs têm entre si, possa levar mais facilmente o peso que tem que suportar por causa do ofício, 70 e o que é molesto e amargo mude-se em doçura para ela pelo bom comportamento das Irmãs.

 

71 E como é estreito o caminho e apertada a porta por onde se vai e se entra na vida, são poucos os que (cf. Mt 7,13.14) por aí passam e entram. 72 E se há alguns que nele andam por um tempo, são pouquíssimos os que nele perseveram. 73 Mas felizes são aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar até o fim (cf. Sl 118,1); Mt 10,22).

 

74 Tomemos cuidado, portanto, para que, se entramos pelo caminho do Senhor, de maneira alguma nos afastemos dele em algum tempo por nossa culpa e ignorância, 75 para não ofendermos a tão grande Senhor, a sua Virgem Mãe, a nosso bem-aventurado pai Francisco, à Igreja triunfante e mesmo à militante. 76 Pois está escrito: "Malditos os que se desviam de vossos mandamentos" (Sl 118,21).

 

77 Por isso dobro os joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (cf Ef 3,14) para que, pela intercessão dos méritos de sua Mãe, a gloriosa Virgem Santa Maria, de nosso bem-aventurado pai Francisco e de todos os santos, 78 o Senhor que deu o bom começo dê o crescimento (cf. 1Cor 3,6.7) e também a perseverança até o fim. Amém.

 

79 Deixo-vos isto por escrito, minhas queridas e amadas Irmãs, presentes e futuras, para que seja melhor observado em sinal da bênção do Senhor e do nosso bem-aventurado pai Francisco, e da minha bênção de mãe e vossa serva.

BÊNÇÃO DE SANTA CLARA

1 Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

2 O Senhor as abençoe e guarde. 3 Mostre-lhes o seu rosto e tenha misericórdia de vocês.

4 Volte a sua face para vocês e lhes dê a paz, a vocês minhas irmãs e filhas, 5 e a todas as outras que vierem e permanecerem em sua comunidade, e a todas as outras, tanto presentes quanto futuras, que perseverarem até o fim nos outros mosteiros das senhoras pobres.

6 Eu, Clara, serva de Cristo, plantinha do nosso bem-aventurado pai São Francisco, irmã e mãe de vocês e das outras irmãs pobres, embora indigna, 7 rogo a nosso Senhor Jesus Cristo, por sua misericórdia e por intercessão de sua santíssima Mãe Santa Maria, de São Miguel Arcanjo e de todos os anjos de Deus, do nosso bem-aventurado pai Francisco e de todos os santos e santas, 8 que o próprio Pai celeste lhes dê e confirme esta sua santíssima bênção no céu e na terra: 9 na terra, fazendo-as crescer na graça e em virtude entre seus servos e servas na sua Igreja militante; 10 no céu, exaltando-as e glorificando-as na Igreja triunfante entre os seus santos e santas.

11 E as abençôo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com todas as bênçãos 12 com que o Pai das misericórdias abençoou e abençoará seus filhos e filhas no céu e na terra, 13 e com os quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais. Amém.

14 Amem sempre as suas almas e as de todas as suas Irmãs, 15 e sejam sempre solícitas na observância do que prometeram a Deus.

16 O Senhor esteja sempre com vocês e oxalá estejam vocês também sempre com Ele. Amém.

PRIMEIRA CARTA A INÊS DE PRAGA

1 À venerável e santa virgem, dona Inês, filha do excelentíssimo e ilustríssimo rei da Boêmia, 2 Clara, indigna fâmula de Jesus Cristo e serva inútil das senhoras enclausuradas do mosteiro de São Damião, sua serva sempre submissa, recomenda-se inteiramente e deseja, com especial reverência, que obtenha a glória da felicidade eterna.

 

3 Sabedora da boa fama de vosso santo comportamento e vida, que não só chegou até mim, mas foi esplendidamente divulgada em quase toda a terra, muito me alegro e exulto no Senhor. 4 Disso posso exultar tanto eu mesma como todos os que prestam serviço a Jesus Cristo ou desejam faze-lo.

 

5 Porque, embora pudésseis gozar, mais do que outros, das pompas e honras deste mundo, desposando legitimamente, com a maior glória, o ilustre imperador, como teria sido conveniente à vossa excelência e à dele, 6 rejeitastes tudo isso e preferistes a santíssima pobreza e as privações corporais, com toda a alma e com todo o afeto do coração, 7 tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta.

 

8 Amando-o, sois casta; tocando-o, tornar-vos-eis mais limpa; acolhendo-o, sois virgem.9 Seu poder é mais forte, sua generosidade mais elevada, seu aspecto é mais belo, o amor mais suave, e toda a graça mais elegante.

 

10 Já estais tomada pelos abraços daquele que ornou vosso peito com pedras preciosas e colocou em vossas orelhas pérolas inestimáveis. 11 Ele vos envolveu de gemas primaveris e coruscantes e vos deu uma coroa de ouro marcada com o sinal da santidade.

 

12 Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, 13 destacada pelo esplendor do estandarte da inviolável virgindade e da santíssima pobreza, ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente. 14 Ele suportou por todos nós a paixão da cruz e nos arrancou do poder do príncipe das trevas, que nos acorrentava pela transgressão de nosso primeiro antepassado, e nos reconciliou com Deus Pai.

 

15 Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas

 

16 Ó santa pobreza, aos que a têm e desejam Deus prometeu o reino dos céus, e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e a vida feliz!

 

17 Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo dignou-se abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito! 18 Pois disse que as raposas têm tocas e os passarinhos têm ninhos mas o Filho do Homem, Jesus Cristo, não tem onde reclinar a cabeça. Mas, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

 

19 Portanto, se tão grande e elevado Senhor, vindo a um seio virginal, quis aparecer no mundo desprezado, 20 indigente e pobre, para que os homens, paupérrimos e miseráveis, na extrema indigência do alimento celestial, nele se tornassem ricos possuindo os reinos celestes, 21 vós tendes é que exultar e vos alegrar muito, repleta de imenso gáudio e alegria espiritual, 22 pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras, preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar tesouros no céu que na terra, 23 porque lá nem a ferrugem consome nem a traça rói, e os ladrões não saqueiam nem roubam. Vossa recompensa será enorme nos céus, 24 e merecestes ser chamada com quase toda a dignidade de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem.

 

25 Creio firmemente que sabeis que o reino dos céus não é prometido e dado pelo Senhor senão aos pobres, porque, quando se ama uma coisa temporal, perde-se o fruto da caridade. 26 Sabeis que não se pode servir a Deus e às riquezas, porque ou se ama a um e se odeia às outras, ou serve-se a Deus e desprezam-se as riquezas. 27 Sabeis que vestido não pode lutar com nu, pois vai mais depressa ao chão quem tem onde ser agarrado. 28 Sabeis que não dá para ser glorioso no mundo e lá reinar com Cristo, e que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico subir ao reino do céu.

 

29 Por isso vos livrastes das vestes, isto é, das riquezas temporais, para não sucumbir de modo algum ao lutador e poder entrar no reino dos céus pelo caminho duro e pela porta estreita.

 

30 Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais pelas eternas, merecer os bens celestes em vez dos terrestres, e possuir a vida feliz para sempre!

 

31 Por isso achei bom suplicar vossa excelência e santidade, na medida do possível, com humildes preces, nas entranhas de Cristo, que vos deixeis fortalecer no seu santo serviço, 32 crescendo de bem para melhor, de virtude em virtude, para que aquele que servis com todo desejo do coração digne-se dar-vos os desejados prêmios.

 

33 Quanto me é possível, também vos suplico no Senhor que vos lembreis em vossas santas preces de mim, vossa serva, embora inútil, e das outras Irmãs que vivem comigo no mosteiro e vos apreciam. 34 Que com a ajuda dessas preces possamos merecer a misericórdia de Jesus Cristo, para gozar junto a vós da eterna visão.

 

35 Que o Senhor vos guarde. Orai por mim.

SEGUNDA CARTA DE SANTA CLARA DE ASSIS A INÊS DE PRAGA

1,2 Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza.

3 Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito, pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, 4 para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito, mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito.

5 É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. 6 Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, 7 você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.

8 Mas eu sei que você é rica de virtudes e vou ser breve para não a sobrecarregar de palavras supérfluas, 9 mesmo que não lhe pareça demasiado nada que lhe possa dar alguma consolação19. 10 Mas, como uma só coisa é necessária, é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa e agradável. 11 Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel:

Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe 12 mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, 13 confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. 14 Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou.

15 Nisso, para ir com mais segurança pelo caminho dos mandamentos do Senhor, siga o conselho de nosso venerável pai, o nosso Frei Elias, ministro geral. 16 Prefira-o aos conselhos dos outros e tenha-o como o mais precioso dom.

17 Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. 18 Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.

19 Veja como por você ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo. 20 Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz.

21 Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele na cruz da tribulação vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos. 22 E seu nome, glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida.

23 Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecedouros, e viverá pelos séculos dos séculos.

24 Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo. 25 Em suas piedosas preces, procure lembrar-se de mim e de minhas Irmãs, que nos alegramos com os bens que o Senhor realiza em você por sua graça. 26 Recomende-nos também, e muito, às suas Irmãs.

TERCEIRA CARTA DE SANTA CLARA DE ASSIS A INÊS DE PRAGA

1,2 Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das damas pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus. Desejo-lhe as alegrias da salvação e o melhor que se possa desejar no autor da salvação.

3 Tenho a maior alegria e transbordo com a maior exultação no Senhor ao saber que está cheia de vigor, em boa situação e obtendo êxitos no caminho iniciado para obter o galardão celeste. 4 Ouvi dizer e estou convencida de que você completa maravilhosamente o que falta em mim e nas outras Irmãs para seguir os passos de Jesus Cristo pobre e humilde.

5 Eu me alegro de verdade, e ninguém vai poder roubar-me esta alegria, 6 porque já alcancei o que desejava abaixo do céu: vejo que você, sustentada por maravilhosa prerrogativa de sabedoria da própria boca de Deus, já suplantou impressionante e inesperadamente as astúcias do esperto inimigo: o orgulho que perde a natureza humana, a vaidade que torna estultos os corações dos homens. 7 Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual compra-se aquele por quem tudo foi feito do nada. 8 Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável.

9 Quem vai me dizer, então, para não exultar com tão admiráveis alegrias? 10 Por isso, exulte sempre no Senhor também você, querida. 11 Não se deixe envolver pela amargura e o desânimo, senhora amada em Cristo, gozo dos anjos e coroa das Irmãs.

12 Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória. 13 Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade.

14 Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. 15 Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, 16 aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim. 17 Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto. 18 Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, 19 mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.

20 Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que, pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do que o céu? 21 Pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a alma do homem fiel, é maior do que o céu. 22 Pois os céus, com as outras criaturas, não podem conter o Criador: só a alma fiel é sua mansão e sede. E isso só pela caridade que os ímpios não têm, pois, 23 como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.

24 Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, 25 assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma, poderá traze-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. 26 Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu.

27 Nisso enganam-se certos reis e rainhas deste mundo: 28 sua soberba pode chegar ao céu e sua cabeça pode tocar as nuvens mas, no fim, serão reduzidos ao esterco.

29 Quanto às coisas sobre as quais você pediu a minha opinião, 30 acho que posso responder o seguinte. Você pergunta que festas nosso glorioso pai São Francisco nos aconselhou a celebrar especialmente, pensando, se entendi bem, que é possível variar os pratos.

31 Em sua prudência você certamente saberá que, com exceção das fracas e das doentes, para quem exortou-nos e até mandou usar de toda discrição possível com respeito a qualquer alimento, 32 nenhuma de nós que fosse sadia e forte deveria comer senão alimentos quaresmais, tanto nos dias feriais como nos festivos, jejuando todos os dias, 33 com exceção dos domingos e do Natal do Senhor, em que deveríamos comer duas vezes.

34 Também nas quintas-feiras, em tempo ordinário, fica à vontade de cada uma; quem não quiser não é obrigada a jejuar. 35 Mas nós, sadias, jejuamos todos os dias, exceto nos domingos e no Natal. 36 Mas não somos obrigadas ao jejum, de acordo com um escrito do beato Francisco, por todo o tempo da Páscoa e nas festas de Santa Maria e dos santos Apóstolos, a não ser que essas festas caiam em sexta-feira. 37 Mas, como disse, as que somos sãs e fortes sempre comemos alimentos quaresmais.

38 Entretanto, como não temos carne de bronze nem a robustez de uma rocha, 39 pois até somos frágeis e inclinadas a toda debilidade corporal, 40 rogo e suplico no Senhor, querida, que deixe, com sabedoria e discrição, essa austeridade exagerada e impossível que eu soube que você empreendeu, 41 para que, vivendo, sua vida seja louvor do Senhor, e para que preste a seu Senhor um culto racional e seu sacrifício seja sempre temperado com sal.

42 Eu lhe desejo tudo de bom no Senhor, como desejo a mim mesma. Lembre-se de mim e de minhas Irmãs em suas santas orações.

QUARTA CARTA DE SANTA CLARA DE ASSIS A INÊS DE PRAGA

1 À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras, 2 eu, Clara, serva indigna de Cristo e inútil servidora das suas servas que vivem no mosteiro de São Damião em Assis, 3 desejo saúde e que possa cantar o cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, juntamente com as outras santas virgens, e seguir o Cordeiro onde quer que ele vá.

4 Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam, não estranhe 5 nem pense que o fogo do amor está ardendo menos no coração de sua mãe. 6 A dificuldade é esta: faltam portadores e o perigo nas estradas é conhecido.

7 Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito. 8 Pois, como Inês, a outra virgem santa, você desposou de modo maravilhoso o Cordeiro imaculado que tira o pecado do mundo, deixando todas as vaidades desta terra.

9 Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele 10 cuja beleza todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar, 11 cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, 12 cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, 13 cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, 14 pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha.

15 Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, 16 para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, 17 ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. 18 Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça de Deus.

19 Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! 20 Admirável humildade, estupenda pobreza! 21 O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. 22 No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. 23 E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa.

24 Assim, posto no lenho na cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar: 25 Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há outra dor igual à minha. 26 Respondamos a uma voz, num só espírito, ao que clama e grita: Vou me lembrar para sempre e minha alma vai desfalecer em mim.

27 Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! 28 Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, 29 proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor:

30 Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!

31 Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, 32 até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça40, sua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca.

33 Posta nessa contemplação, lembre-se de sua mãe pobrezinha, 34 sabendo que eu gravei sua feliz recordação de maneira indelével no meu coração porque você, para mim, é a mais querida de todas.

35 Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito. 36 Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, 37 peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas. 38 Minhas filhas também, de modo especial a virgem prudentíssima Inês, minha irmã, recomendam-se no Senhor, quanto podem, a você e suas filhas.

39 Adeus, filha querida, a você e a suas filhas, até o trono de glória do grande Deus. Rezem por nós.

40 Pela presente, recomendo quanto posso à sua caridade os portadores desta carta, nossos caríssimos Frei Amado, querido por Deus e pelos homens, e Frei Bonagura. Amém.

CARTA DE SANTA CLARA DE ASSIS A ERMENTRUDES DE BRUGES

1 Clara de Assis, humilde serva de Jesus Cristo, deseja saúde e paz a sua querida irmã Ermentrudes.

2 Soube, irmã querida, que você teve a felicidade de fugir da lama do mundo, pela graça de Deus. 3 Alegro-me por isso e me congratulo com você, como me alegro porque você e suas filhas seguem com valor os caminhos da virtude.

4 Querida, seja fiel até a morte àquele com quem você se comprometeu, pois é ele que vai coroá-la com o louro da vida.

5 Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra. 6 Não perca a cabeça com as imagens vazias do mundo enganador; tape os ouvidos aos assobios do inferno e, forte, quebre seus assaltos. 7 Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem. 8 Entregue fielmente a Deus o que prometeu, e ele retribuirá.

9 Querida, olhe para o céu que nos convida, tome a cruz e siga o Cristo que vai à nossa frente. 10 Na realidade, depois de muitas e variadas tribulações, vamos entrar por meio dele na sua glória.

11 Ame com todo coração a Deus e a seu filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que ele saia de sua recordação. 12 Trate de meditar sempre nos mistérios da cruz e nas dores de sua Mãe que estava ao pé da cruz.

13 Ore e vigie sempre. 14 Complete apaixonadamente a obra que você começou bem e dê conta do serviço que você assumiu na santa pobreza e na humildade sincera.

15 Não se assuste, filha. Deus, fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras, vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. 16 Vai ser o seu auxílio e o seu melhor consolador, porque ele é o nosso redentor e a nossa recompensa eterna.

17 Oremos mutuamente a Deus, pois assim uma carregará o peso da outra e vamos cumprir com facilidade a lei de Cristo. Amém.