TRATADO DOS MILAGRES

(excertos)

Tomás de Celano

Começam os milagres de São Francisco

CAPITULO 1

A maravilhosa origem de sua Ordem

1. No primeiro capítulo desta narração, na qual nos propomos abordar os milagres de nosso santíssimo pai Francisco, pareceu- nos bom colocar com o maior destaque possível aquele prodígio que foi para o mundo uma advertência, um despertar e um estremecimento. Refiro-me ao nascimento da Ordem, fecundidade da mulher estéril (cf. 1Sm 2,5), geração de uma descendência com tantas ramificações.

O velho mundo se decompunha na podridão do vício; todas as classes da Igreja, entorpecidas , dormitavam, ao invés de seguir as pegadas dos apóstolos; a noite do pecado, na sua maior escuridão, havia reduzido ao silêncio as sagradas disciplinas, quando, repentinamente, despontou na terra um homem novo (cf. Ef 4,24) e ao súbito aparecimento de um novo exército, os povos se encheram de estupor diante dos sinais da renovada era apostólica. E logo vem à plena luz a perfeição já sepultada da Igreja primitiva; do esplendor dessas primeiras comunidades encontrava o povo ainda nos livros a narrativa, mas não tinha exemplos vivos diante de si. A partir de então começam elas a reflorescer.

E como não lhes aplicar o versículo: "os últimos serão os primeiros" (Mt 19,30; 20,16), já que verificamos esta maravilha: "transformaram-se os corações dos pais nos filhos, e os dos filhos nos pais" (Ml 4,6)? Ou se poderá acaso desconsiderar a brilhante missão das duas Ordens e não pressentir o anúncio de um próximo acontecimento extraordinário? Realmente, desde os tempos dos apóstolos, não foi proposto ao mundo ensinamento tão autorizado, tão estupendo.

Admirável fecundidade de uma estéril! Pois era de fato estéril e árida esta fundação religiosa, distanciada de toda terra úmida e das torrentes dos bens terrestres; estéril porque "não semeia nem colhe nem guarda em celeiros" (Mt 6,26), tampouco "leva pelo caminho sacola" (Lc 9,3; 10,4) farta de dinheiro. Apesar de tudo, "esperando contra toda esperança" (Rm 4,18), o santo acreditou na promessa de "herdar o mundo" (Rm 4,13) e não considerou sem virilidade seu corpo nem estéril o seio de Sara (cf.Rm 4,19), certo de que o poder de Deus podia fazer gerar dela o povo judeu.

Mas não um povo com as adegas bem providas, com as despensas bem fornidas, com propriedades enormes, mas um povo recebendo milagrosamente sua alimentação, neste mundo, da própria pobreza, que o torna digno do céu. O' fraqueza de Deus, superior à força dos homens, que dá glória à nossa cruz e oferece riquezas à nossa pobreza!

E por fim vimos esta vinha que, tendo crescido rapidamente, estendeu de mar a mar seus ramos frutíferos. De toda parte acorreram os homens em grande número, em multidões. E todas essas pedras vivas, reajuntadas como por encanto, compõem a magnífica arquitetura desse templo maravilhoso. E a Ordem não só viu crescer em pouco tempo o número de seus filhos, mas também sobre ela própria repercutiu a glória deles: muitos dentre eles conquistaram já a palma do martírito, e no catálogo dos santos veneramos hoje a muitos pela prática perfeita da virtude.

Mas dito isso, voltemo-nos agora para aquele que é sua cabeça; é dele que cumpre agora falar.

CAPITULO II

O milagre dos estigmas e como o Serafim lhe apareceu

2. O homem novo, Francisco, tornou-se famoso por um novo e estupendo milagre: por um singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, ele foi marcado, ou ornado, com os sagrados estigmas "tornando-se semelhante em seu corpo mortal ao do Crucificado" (Rm 7,24). Tudo o que se possa humanamente dizer dele sempre estará aquém do louvor de que ele é digno. Inútil procurar as razões de um tal milagre: podemos apenas admirar. Inútil procurar precedentes: ele é único.

O homem de Deus tinha pela cruz do Senhor um amor apaixonado, quer em público, quer em particular. Apenas começara a servir sob o estandarte do Crucificado, e já a cruz gravava em sua vida as marcas de seu mistério. Com efeito, no início de sua conversão, tomada já a decisão de abandonar todas as vaidades do mundo, da cruz Cristo lhe falou, enquanto o santo orava: "Vai, Francisco, repara minha casa que, como vês, está em ruínas". Desde então ficou impressa em seus coração, em marcas profundas, a paixão do Senhor, e realizada plenamente a sua conversão interior, "sua alma começou a se derreter quando lhe falava o bem-amado" (Ct 5,6).

Não terá a cruz desejado estabelecer nele seu refúgio, quando o santo adotou o hábito da penitência que reproduz a forma dela? Certamente, tal vestimenta lhe era adequada, uma vez que ela correspondia à sua sede de pobreza; mas o santo nos dá dessa forma uma certeza de que o mistério da cruz encontra nele sua plena realização: assim como sua alma tinha revestido o Senhor Crucificado, da mesma forma seu corpo revestia a cruz. Seguindo seu exemplo, seu exército serviria a Deus, desde então, nas mesmas vestes uniformes, que representavam o estandarte vencedor dos demônios.

3. De fato, Frei Silvestre, um de seus primeiros irmãos, e homem de grande virtude, viu sair da boca de Francisco uma cruz dourada, que abrangia, na extensão de seus braços, todo o universo. Frei Monaldo, conhecido por sua generosidade, pureza e austeridade, viu com os olhos de sua carne o bem-aventurado Francisco crucificado. Este fato nos é atestado por escrito num relato digno de fé. E tal sucedeu durante um sermão de Santo Antônio, que estava pregando sobre o tema da cruz.

Ele mesmo tinha o costume e o prescrevera a seus irmãos de prestar a qualquer imagem da cruz que eles percebessem as honras e o respeito que lhe são devidos.

O sinal Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes de todas as celas. Frei Pacífico, homem de Deus, agraciado por visões do céu, viu com os olhos de seu corpo um grande Tau de várias cores que brilhava com brilho de ouro sobre a fronte de seu bem-aventurado pai.

E não há nada de espantoso, nem aos olhos da razão, nem aos da fé, de que a cruz, objeto de tanto amor, em compensação, tenha cumulado Francisco de tantas honras. Por esse motivo, é muito normal tudo o que nos é relatado sobre os estigmas.

4. E eis como aconteceu a aparição. Dois anos antes de entregar sua alma ao céu, teve uma visão de Deus, em que viu um homem, com aparência de Serafim de seis asas, o qual pairou acima dele com os braços abertos e os pés juntos, pregado numa cruz. Duas asas elevavam-se sobre a cabeça, duas estendiam-se para voar e duas cobriam o corpo inteiro. Quando o servo do Altíssimo viu isso, ficou sobremaneira admirado, mas não compreendia o sentido dela. Sentia um grande prazer e uma enorme alegria por ver que o Serafim olhava para ele com bondade e afável respeito. Sua beleza era indizível, mas o fato de estar pregado na cruz e a crueldade de sua paixão atormentavam-no imensamente. De modo que se levantou triste e ao mesmo tempo alegre, alternando em si os sentimentos de alegria e de dor. Tentava descobrir o significado da visão e seu espírito estava muito ansioso para compreender o seu sentido. Sua inteligência não chegara ainda a nenhuma clareza, mas seu coração estava inteiramente dominado por esta visão, quando em suas mãos e pés começaram a aparecer, assim como as vira antes no homem crucificado, as marcas de quatro cravos.

Suas mãos e pés subitamente apareceram atravessados bem no meio por cravos, surgindo as cabeças no interior das mãos e em cima dos pés com as pontas saindo do outro lado. Os sinais eram redondos no interior das mãos e longos no lado de fora, deixando à mostra um pedaço de carne como se fossem pontas de cravos entortadas e rebatidas, saindo da carne. Também nos pés viam-se os sinais dos cravos, sobressaindo da carne. O lado direito parecia atravessado por uma lança, com uma cicatriz fechada que muitas vezes sangrava, de maneira que sua túnica e calças estavam muitas vezes banhadas no sagrado sangue.

Com efeito, o homem de Deus Rufino, de pureza angélica, quando certa vez tratava as feridas do santo com filial afeto, escapando-lhe a mão, tocou-lhe a chaga. Não pouco sofreu o servo de Deus com isso e, afastando de si a mão, pediu gemendo que o Senhor lhe perdoasse.

5. Dois anos se passaram, e Francisco em sua feliz morte, trocou este vale de lágrimas pela pátria celeste. A notícia do estupendo milagre chegou ao conhecimento do povo, e as pessoas acorriam em multidões, louvando e glorificando o nome do Senhor. Toda a cidade de Assis e toda a província se precipitaram ávidas de contemplar esse espetáculo inaudito realizado por Deus havia pouco. A novidade do milagre transformava o pranto em júbilo e arrebatava os olhos corporais em estupor e êxtase. Contemplavam o corpo bendito, que se tornara precioso pelos estigmas de Cristo, viam nas mãos e nos pés não os furos dos cravos, mas os próprios cravos formados por divino poder de sua própria carne, de modo que, pressionados de qualquer parte, reagiam logo ressaltando da outra parte. Podia-se ver igualmente seu lado direito banhado na púrpura de seu sangue.

O que acabamos de afirmar, "nós vimos. E tocamos com nossas mãos" (1Jo 1,1-4; cf.Jo 3,11) aquilo que nossas mãos aqui descrevem; com os olhos cheios de lágrimas registramos aquilo que nossos lábios atestam; e sustentamos sempre a verdade daquilo que outrora juramos com a mão sobre os objetos sagrados. Diversos de nossos irmãos, durante a vida do santo, tinham percebido seus estigmas. No dia de sua morte, mais de quinhentos irmãos e incontáveis fiéis puderam venerá-los. Portanto não pode haver margem ao ceticismo. Ninguém ponha em dúvida esta graça do Amor eterno. Ao contrário, que inúmeros cristãos se unam solidamente à sua cabeça, a Cristo, por um amor tão ardente, um amor que lhes dê semelhante armadura para as guerras deste mundo antes de os arrastar para semelhante glória no céu.

Tudo isso tem em vista a glória de Cristo; que homem são de espírito ousaría negá-lo? No entanto, houve incrédulos. Mas contemos o castigo que tiveram a fim de convencermos os céticos e confirmar em sua devoção os já convencidos.

6. Havia em Potenza, cidade do reino da Apúlia, um clérigo chamado Rogério, homem digno e cônego da igreja principal. Abatido por muito tempo pela doença, entrou certo dia numa igreja, com a intenção de rezar e recuperar a saúde. Havia aí um quadro que representava São Francisco estigmatizado; ele se ajoelhou diante da imagem, orando e suplicando com todo fervor de que era capaz. Mas, enquanto tinha os olhos fixos nos estigmas do santo, subitamente sua imaginação começou a trabalhar e sua razão não se deu ao trabalho de repelir uma tentação de dúvida que suavemente se insinuava. Joguete que parecia nas mãos do antigo inimigo, seu coração estava dividido. Dizia de si para si: "Terá este santo realmente sido objeto de semelhante milagre, ou não foi acaso uma piedosa ilusão criada por parte dos seus devotos? Não, pensava ele, deve ser uma montagem, uma pura invenção, uma fraude criada pelos frades. Isso transcende muito os limites da inteligência humana; contraria demais os dados da sã razão!"

Ó loucura humana! Quando mais profundo o mistério, ó homem, tanto mais humilde deveria ser a tua veneração do milagre! Um pouco mais de reflexão, e terias compreendido como é fácil a Deus renovar continuamente este mundo por seus milagres e operar entre nós, para a sua maior glória, maravilhas que Ele em outros tempos nunca operou.

Estava o cônego no enleio de tais elucubrações, quando Deus o atingiu com uma dolorosa ferida, a fim de lhe ensinar, pelo sofrimento, a não mais blasfemar. Efetivamente, ele sentiu ferida de súbito a palma de sua mão esquerda (era canhoto) e percebeu ao mesmo tempo o sibilar, por assim dizer, de uma flecha atirada por um arco. Perpassado de dor por causa de sua ferida e de espanto por causa de tal ruído, ele tira a luva (pois estava de luvas). Não havia anteriormente nenhum sinal de golpe em sua palma e de repente, bem no meio da mão, ele vê uma chaga que parecia feita por uma flecha; a dor e a febre eram tão fortes que ele pensava que ia desmaiar. E, ó maravilha! A luva tinha ficado prodigiosamente intacta, para dar a entender assim que a ferida oculta era um castigo simbólico da outra chaga escondida também no fundo de seu coração.

7. Durante dois dias, sob o efeito da dor intolerável, ele gritava e urrava; a todos que o quisessem ouvir ele revelava a incredulidade de seu coração, confessava que agora acreditava firmemente na veracidade dos estigmas de São Francisco, jurava que todas as alucinações ilusórias da dúvida o tinham abandonado de uma vez por todas. E rogava ao santo de Deus, por seus sagrados estigmas, que lhe viesse em socorro; e misturava às suas orações o oferecimento eficaz de suas lágrimas. Maravilha: ele abjurou de sua incredulidade, e a cura do corpo se seguiu à da alma. A dor cessou, a febre desapareceu e se desfez toda marca de ferimento. O homem se tornou humilde diante de Deus, devotamente fiel ao santo, afetuosamente afeiçoado para sempre à ordem dos frades.

O fato milagroso foi atestado e confirmado sob juramento, inclusive pelo bispo local. Bendito seja o admirável poder de Deus, tão espantoso na bela cidade de Potenza!

8. As nobres senhoras romanas, viúvas ou casadas, principalmente aquelas às quais a riqueza permite o privilégio da generosidade e em quem Cristo infunde seu amor, têm o costume de reservar em suas casas um cubículo ou um refúgio apropriado para a oração, no qual conservam alguma imagem pintada e a efígie daquele santo que veneram de modo especial. Uma dessas senhoras, que unia a nobreza da virtude à do sangue, escolhera por patrono a São Francisco. Em seu oratório privado, onde "ela rezava a Deus no oculto" (Mt 6,6), possuía ela um quadro que representava o santo. Certo dia, ao orar neste lugar, seus olhos procuravam atentamente os sinais dos sagrados estigmas, sem conseguir; ficou muito espantada e triste. Mas nada havia que justificasse seu espanto e pesar, uma vez que o pintor os havia omitido. Ficou pesarosa por diversos dias sem se abrir a ninguém a propósito; mas voltava muitas vezes para diante do quadro, sempre a procurá-los e toda vez se afligindo. Mas eis que um dia, as marcas maravilhosas apareceram de repente nas mãos, assim como as representam geralmente as outras imagens do santo: o poder de Deus tinha suprido a negligência do artista.

9. Maravilhada e trêmula, a senhora chama imediatamente a filha, que também era sua discípula em devoção e generosidade, coloca-a ao par do ocorrido, e lhe pergunta se até então ela havia visto o quadro sem os estigmas. A jovem afirma e jura que os estigmas até então estavam ausentes e que eles apareciam bem reais agora. Mas, precisamente porque a mente humana muitas vezes se confunde e cai, pondo em dúvida a verdade, entra novamente no coração daquela senhora uma dúvida ansiosa de que desde o princípio a imagem estivera assim. Mas o poder divino, para evitar que fique desconhecido o primeiro milagre, acrescenta um segundo. De fato, desapareceram imediatamente os sinais, e a imagem ficou sem aqueles ornamentos, de maneira que através de um segundo milagre se tornasse evidente aquele anterior. Eu mesmo encontrei essa senhora; reconheço e atesto que, vestida com as roupas do século, era uma alma verdadeiramente consagrada a Deus.

10. Desde seu despertar, a razão humana se deixa enredar ora por sensações grosseiras, ora por fantasias falaciosas, e, dominada por uma imaginação instável, se vê obrigada a pôr em dúvida aquilo que se deve acreditar. Esta a razão por que às vezes temos dificuldades em crer nos fatos maravilhosos da vida dos santos e por isso igualmente nossa fé encontra tantos obstáculos em aderir aos mistérios da salvação.

Um frade menor, pregador por ofício e de vida íntegra, estava firmemente persuadido a respeito do milagre dos sagrados estigmas. Mas, um dia, foi dominado pela dúvida sobre o milagre do santo. Podemos bem imaginar a luta que surge em seu espírito, quando a razão de um lado defende a verdade e de outro a fantasia sugere sempre o contrário. A razão sustentada por muitos apoios, admite que é exatamente assim como se diz, e, na falta de ulteriores argumentos, se apóia na verdade proposta pela santa Igreja. Por outro lado, é inegável a conspiração das sombras dos sentidos contra a credibilidade do milagre: o milagre parece totalmente contrário às leis da natureza e, além disso, jamais se verificou coisa igual nos séculos anteriores.

Certa noite, cansado de tantas ansiedades e dividido entre a razão vacilante e a imaginação provocadora e temerária, entra em sua cela. São Francisco lhe aparece durante o sono, com os pés cobertos de lama, e lhe fala com humilde rudeza e paciente cólera: "Que são esses conflitos em tua alma, que são essas dúvidas indignas? 'Olha minhas mãos' (Jo 20,27) e repara em meus pés!" Ele via perfeitamente as mãos perfuradas, mas nos pés a lama impedia-o de ver os estigmas. "Tira a lama de meus pés, disse o santo, e 'reconhece o lugar dos cravos' (Jo 20,25)!" E o irmão, em seu sonho, tomou os pés do santo, limpou-lhes a lama e, com suas próprias mãos, apalpou os cravos. Ao acordar, chorou e, mediante confissão pública, recobrou a limpeza de sua alma, que a lama de suas dúvidas, por assim dizer, havia manchado.

11. Cristo não quis que os sagrados estigmas de seu invencível cavaleiro fossem interpretados apenas como um sinal de afeição toda particular e um privilégio de seu amor supremo; Ele os utilizou também como armas poderosas ao serviço de Deus, como mostra, com toda evidência, um milagre sem precedentes acontecido na Espanha, no reino de Castilha.

Dois homens aí viviam num ódio implacável um contra o outro; nada havia que pudesse acalmar sua irritação, refrear suas clamorosas injustiças, nem remediar, sequer por uma hora, o seu ressentimento, enquanto um dos dois não fosse barbaramente eliminado pelo outro. E como não era possível assassinar em público, cada qual vestia muitas vezes a couraça, se fazia acompanhar de seus espadachins e armava a seu adversário uma emboscada durante a noite. Mas, certa vez, já tendo caído a noite negra, um homem de santa vida e excelente reputação entra por uma rua em que um dos dois inimigos havia armado uma cilada para assassinar o outro. Era depois das Completas. O homem, segundo seu costume, ia à igreja dos frades, pois nutria por Francisco uma grande devoção. E eis que os "filhos das trevas" se precipitam sobre o "filho da luz" (1Ts 5,5), julgando ser ele a vítima que espreitavam havia muito tempo. Traspassaram-no barbaramente com suas espadas e o deixaram semimorto. Para concluir seu trabalho, o chefe do bando lhe enterrou profundamente a faca na garganta e, incapaz de retirá-la, deixou-a fincada na ferida.

12. Acodem as pessoas de toda parte; e com grandes clamores, toda a vizinhança chora a morte do inocente. O mísero ainda tinha um leve respirar de vida e, a conselho dos médicos, não lhe retiraram a adaga da garganta; esperavam talvez permitir-lhe que assim pudesse confessar-se por sinais. Toda a noite, até Matinas, os médicos se empenhavam em estancar o sangue e aplicar curativos aos ferimentos, tantas e profundas eram as feridas; enfim, vendo que de nada adiantavam seus cuidados, deixaram-no. Junto com os médicos estavam à sua cabeceira os frades menores, muito tristes, à espera do último suspiro de seu amigo.

E eis que o sino do convento tocou para Matinas. A esposa do ferido ouve o sino e gemendo corre ao leito e exclama: "Meu senhor, levantai-vos, depressa, e ide às Matinas: vosso sino vos chama!" Imediatamente, aquele que todos criam moribundo deu dois profundos suspiros, tentou balbuciar algumas palavras, que eram mais estertores e, mostrando com o dedo a faca enfiada na garganta, parecia pedir a alguma pessoa presente que a retirasse. O' milagre: imediatamente, diante dos olhos de todos os presentes, a faca se projeta para fora como lançada por um homem robustíssimo, e se crava na madeira da porta. O moribundo se ergue, com perfeita saúde, como se acabasse de acordar, e começa a contar as maravilhas do Senhor.

13. O espanto dominou os espíritos; assombrados e fora de si, pensavam ser vítimas de uma alucinação. Mas ele falou: "Não temais, nem penseis ser pura ilusão o que vedes. São Francisco, por quem sempre tive grande devoção, acaba de sair daqui e foi quem me curou de todos os ferimentos. Ele aplicou em cada um deles os seus sagrados estigmas; a suavidade deles foi um alívio para minhas feridas; o contato deles, como vedes, devolveu milagrosamente a força a tudo que estava ferido em mim. Quando me ouvistes suspirar, todas as minhas chagas estavam curadas e o pai parecia querer ir-se embora, deixando a adaga na minha garganta. Foi para ele, com minha mão ainda fraca, que eu fazia sinal, pois eu era incapaz de pronunciar qualquer palavra para lhe pedir que tirasse a faca que punha minha vida seriamente em perigo. Ele a tirou, e como vistes, a lançou com mão fortíssima. Com seus estigmas, suavizou-me as dores na garganta, como fizera com os outros ferimentos, e curou-a tão bem, que não se vê mais diferença entre a carne retalhada e a que nunca foi ferida".

Quem, pois, não ficaria pasmado diante de tais fatos? Quem ousaria inventar e sustentar que Deus, e somente Deus, não foi a causa e o artífice dos estigmas e de todo seu cortejo de milagres?

CAPITULO III

O poder que teve sobre as criaturas insensíveis e em especial sobre o fogo

14. A cauterização sem dor (= 2C 166).

15. A água que brotou da rocha (= 2C 46).

16. A fonte milagrosa de Gagliano (= LM mil.10, 1).

17. A água mudada em vinho, em Santo Urbino (1C 61).

18. A epizotia do vale de Rieti (= LM 13,6).

19. Pães benzidos que curam enfermidades (= 1C 63).

Tempestades e granizos afastados (=2C 35-36).

Poderes milagrosos de seu cordão (= 1C 64; de retalhos de seuhábito (= 1C 63); e do feno da gruta de Greccio (= 1C 84-87).

CAPITULO IV

Poder que teve sobre as criaturas sensíveis

20. Sermão aos pássaros, em Bevagna (= 1C 58).

21. Silêncio imposto às andorinhas, em Alviano (= 1C 59).

22. O mesmo milagre operado em seu nome, em Parma (= LM 12,5).

23. Diálogo e oração com um pássaro, no lago de Rieti (= 2C 167).

24. Idêntica cena com um peixe, no mesmo lago (= 1C 61).

25. O falcão que despertava para matinas (= 2C 168).

26. O faisão domesticado (= 2C 170).

27. A cigarra que cantava com ele na Porciúncula (0 2c 171).

28. As abelhas que fazem o mel na sua bilha (= 2C 169).

29. A lebre amansada, em Gréccio (1C 60).

30. A mesma cena com um coelho, no lago de Perúsia (0 1C 60).

31. Um rebanho de ovelhas festeja-o no caminho de Sena para Espoleto (= LM 8,7).

32. Revoada de andorinhas na tarde de sua morte (= LM 14,6).

CAPITULO V

Como a bondade de Deus se punha à disposição de Francisco

33. Multiplicação de víveres durante uma travessia (= 1C 55).

34. De regresso da Espanha, Deus sustenta-o com uma ave (=1C 56).

35. Dá-lhe Deus como se cobrir, em Rieti (= 2C 43).

36. Multiplicação de víveres em favor do seu médico (= 2C 44).

CAPITULO VI

Senhora Jacoba de Settesoli

37. A dama romana Jacoba de Settesoli, notável por sua nobreza e santidade, merecera por suas virtudes o privilégio de uma afeição toda particular da parte de Francisco. Não preciso lembrar aqui, para honrá-la, suas origens ilustres, a glória de sua família, o esplendor de suas riquezas, muito menos a perfeição de suas virtudes nem tampouco sua vida exemplar durante longa viuvez.

Poucos dias antes da morte do santo, este, prostrado pela doença prolongada, que devia pôr um fecho glorioso a tão bela corrida em direção à santidade, quis ele enviar uma mensagem a Roma dirigida à Senhora Jacoba, comunicando-lhe que se apressasse caso desejasse ver retornar a sua pátria aquele que ela tanto amara em sua condição de exilado. Escreveu-se uma carta, procurou-se um mensageiro capaz de ir a todo galope a Roma. Descobriu-se uma pessoa que se dispôs a partir imediatamente. Diante da porta, no mesmo instante, ouvem-se os cascos de cavalos chegando, o estrépito de soldados e o rumor de uma comitiva. Um dos companheiros do santo, justamente aquele que preparava a partida do mensageiro, vai abrir a porta: encontrava-se diante daquela que ele pretendia mandar chamar.

Maravilhado como estava, corre para o santo e, sem se conter de tanta alegria, lhe diz: "Boas novas, pai!" Antes mesmo de ouvir o que o outro lhe ia dizer, o santo responde imediatamente: "Bendito seja Deus que nos enviou nosso irmão, Senhora Jacoba! Abri as portas e introduzi-a, pois o artigo que proíbe a entrada de mulheres não vale para Frei Jacoba".

38. Todo o nobre cortejo dos hóspedes ficou muito feliz e emocionado; alegria e consolo espiritual faziam correr muitas lágrimas. E para que nada faltasse ao milagre, tudo que a carta pedia que fosse trazido para as exéquias do pai esta santa mulher o fizera: uma peça de pano cinza para seu sepultamento, algumas velas, um sudário para cobrir o rosto, um travesseiro para a cabeça, e mesmo alguns daqueles bolos que o santo apreciava. Tudo o que Francisco desejara, sem o dizer, Deus havia sugerido a esta senhora que o trouxesse.

Mas, prossigamos a narrativa desta peregrinação - pois na verdade o era - para consolo daquela que a realizou. Uma grande multidão, sobretudo da população fervorosa de Assis, esperava o próximo nascimento no céu do bem-aventurado Francisco. Mas a chegada da piedosa romana deu-lhe certa força, e havia motivos de se acreditar que ele viveria ainda um pouco mais. Esta senhora queria por isso despedir toda a sua comitiva, mantendo junto a si apenas seus filhos e alguns escudeiros. O santo a dissuadiu: "Não, disse-lhe ele, porque vou morrer no sábado; partirás domingo de volta com tua comitiva".

Tudo aconteceu exatamente assim: na hora anunciada, aquele que com tanta bravura servira nas fileiras da Igreja militante entrou na Igreja triunfante. Não quero falar do incontável número de povo, dos cânticos de alegria, do dobrar de todos os sinos, das torrentes de lágrimas; nada direi do pranto de seus filhos, dos soluços de seus amigos, dos gemidos de seus companheiros; limitar-me-ei a narrar como a peregrina, sem o conforto do pai, foi consolada.

39. Estava banhada em lágrimas. O vigário do santo fê-la entrar discretamente e lhe entregou nos braços o cadáver de seu amigo. "Vem, disse-lhe ele, para que possas ter nos braços, depois de morto, aquele a quem amaste quando vivo". Chorando amargamente, gemia, soluçava e o abraçava; em seguida, afastando o sudário, pôde contemplar as cinco pedras preciosas, verdadeiro tesouro até então escondido, cinzeladuras que só o Onipotente realizara para espanto do universo. Esse espetáculo arrebatou-a numa alegria intensa e desconhecida. A morte de seu amigo robustecia sua coragem e lhe dava nova vida. Logo lhe pareceu que tão inaudito milagre não devia permanecer oculto por mais tempo, e que a divina Providência iria patenteá-lo aos olhos do mundo. E todos começaram a acorrer em multidões para admirar tal espetáculo; podia-se tocar com o dedo realmente "a maravilha que Deus não havia feito a nenhuma outra nação" (Sl 147,20), todos estavam pasmados.

Mas suspendo aqui minha pena: não pretendo balbuciar toscamente sobre aquilo em que deveria ser claro e eloqüente. João de Frangipani, então menino, futuro procônsul de Roma e conde do Sagrado Palácio, atesta com juramento, para confusão de todos os céticos, tudo o que ele então livremente em companhia de sua mãe pôde ver com seus olhos e tocar com suas mãos.

Retorne então agora a peregrina à sua cidade, consolada com o privilégio de tamanha graça, e nós, depois de havermos narrado a morte do santo, passemos a outros fatos.

CAPITULO VII

Os mortos ressuscitados pelos méritos de São Francisco

40. Vou falar dos mortos ressuscitados pelos méritos do confessor de Cristo e peço aos leitores o favor da sua atenção. Para ser breve, omitirei muitos pormenores e passarei em silêncio as reações e manifestações de testemunhas maravilhadas, anotando somente os fatos milagrosos.

Na aldeia de Monte Marano, perto de Benevento, uma dama de nobre linhagem, e mais nobre ainda pelas suas virtudes, tinha particular devoção a São Francisco e rendia-lhe um culto fiel e reverente. Caiu enferma, a enfermidade agravou-se em extremo e, por fim, seguiu também ela o caminho de toda carne. Como tivesse morrido ao entardecer, foi o funeral adiado para o dia seguinte, a fim de dar tempo aos muitos familiares de se juntarem.

'A noite, com a chegada do clero para a celebração das exéquias, com ele comparece também uma multidão de homens e mulheres em oração. De repente, à vista de todos, levanta-se do leito a mulher, chama um dos sacerdotes presentes, seu padrinho, e diz- lhe: "Pai, quero confessar-me; ouve o meu pecado. Eu morri, de fato, e deveria estar agora encerrada numa escura masmorra por não ter confessado o pecado que desejo revelar-te, mas São Francisco, de quem sempre fui muito devota, orou por mim e foi-me concedido voltar ao meu corpo para poder confessar-me e obter o perdão do meu pecado. Logo que o tenha confessado, partirei na vossa presença para o descanso prometido". A tremer, confessa-se ao sacerdote que treme também, e, recebida a absolvição, torna a recostar-se no leito, adormecendo tranqüilamente no Senhor.

Perante este milagre, quem poderá celebrar condignamente a bondade de Cristo? Quem poderá enaltecer bastantemente a eficácia da confissão e os méritos do santo?

41. Em Celano, um cavaleiro (= LM 11,4).

42. Em Roma, um menino de sete anos (= LM mil.2,4).

43. Em Nocera Umbra, um menino (= LM 2,3).

44. Em Cápua, um menino afogado (= LM mil.2,5).

45. Em Sesa Aurunca, um jovem esmagado (= LM mil.2,6).

46. Em Pomarico, uma menina (= LM mil.2.2).

47. Em Sicília, um jovem esmagado num lagar (= LM mil 2,7).

48. Na Alemanha, ressuscita um morto (= LM mil.2,8).

CAPITULO VIII

Desastres evitados por sua intercessão

49. Em Roma, queda de um homem do alto de uma torre (= LM mil3,1).

50. Em Pofi, um sacerdote em perigo de se afogar (= LM mil3,2).

51. Em Celano, queda de um menino ao poço (= LM mil3,3),.

53. Em Netuno, mulher salva na derrocada de uma casa (= LM 3,11).

54. Em Corneto, um menino salvo em iguais circunstâncias (= LM mi.l3,5).

55. Em Corneto, um menino que tinha engolido um alfinete.

56. Em Ceprano, um ferido grave (= LM mil.3,9).

57. Em Lentini, um canteiro esmagado (= LM mil.3,6).