SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO
Tomás de Celano
Parte segunda
A POBREZA
CAPITULO 25
Louvor à Pobreza
55. Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza.
Vendo que era estimada pelo Filho de Deus e estava sendo desprezada por toda a terra, quis desposá-la com um amor eterno. Apaixonado por sua beleza e querendo unir-se mais estreitamente a sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe mas tudo. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não quis deixar de ser seu esposo em nenhum momento. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas.
Jamais houve alguém tão ambicioso de ouro quanto ele de pobreza, e nunca houve guarda mais cuidadoso de um tesouro do que ele o foi da pérola evangélica. O que mais o ofendia era ver, dentro ou fora de casa, alguma coisa nos frades que fosse contrária à pobreza. Desde sua entrada na Ordem até à morte, sua única riqueza foram uma túnica, o cordão e as calças. Sua roupa pobre mostrava que riquezas estava amontoando. Por isso, alegre, seguro e livre para correr, tinha o prazer de ter trocado as riquezas que perecem pelo cêntuplo.
POBREZA DAS CASAS
CAPITULO 26
56. Ensinava os seus a construírem habitações pequenas e pobres, de madeira e não de pedra, como as choças das pessoas mais miseráveis. Muitas vezes, falando da pobreza, recordava aos frades aquela passagem do Evangelho: "As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos, mas o Filho de Deus não tem onde repousar a cabeça".
CAPITULO 27
Começa a destruir uma casa na Porciúncula
57. Certa feita, deveria haver um capítulo em Santa Maria da Porciúncula. Já estava em cima da hora e o povo de Assis, achando que não havia um local adequado, construiu rapidamente uma casa para o capítulo, sem que o soubesse o homem de Deus, que estava ausente.
Quando o santo voltou e viu a casa, ficou muito triste e aborrecido. Achou que devia ser o primeiro a eliminar o edifício. Subiu ao telhado e com mão forte pôs abaixo telhas e cobertura. Mandou os frades subirem também para acabar de uma vez com aquele monstro contrário à pobreza. Porque dizia que logo se haveria de espalhar pela Ordem e ser tomado por exemplo tudo que se visse de mais pretencioso naquele lugar.
Teria acabado de uma vez com o prédio se os soldados que lá estavam não tivessem feito frente ao seu fervor dizendo que ele pertencia à comuna e não aos frades.
CAPITULO 28
Na casa de Bolonha, põe os doentes para fora
58. Uma vez, voltando de Verona, ia passar por Bolonha mas ouviu dizer que aí tinha sido construída uma casa nova para os frades. Só de ouvir falar em "casa dos frades", mudou de direção e foi por outro lado, sem passar por Bolonha. Depois mandou que frades saíssem imediatamente da casa: não ficaram nem os doentes, postos para fora como os outros.
E não deu licença para voltarem enquanto o cardeal Hugolino, então bispo de Óstia e legado na Lombardia, não afirmasse em pública pregação que a casa era sua. Quem o referiu e testemunhou também teve que sair doente da casa nessa ocasião.
CAPITULO 29
Nega-se a entrar numa cela com o seu nome
59. Não queria que os frades habitassem lugar algum, pormenor que fosse, a não ser que constasse com certeza quem era o seu dono. Sempre exigiu que seus filhos observassem as leis dos peregrinos: abrigar-se sob teto alheio, passar em paz, ansiar pela pátria.
No eremitério de Sarciano, uma vez um frade perguntou ao outro de onde vinha, e este respondeu que "da cela de Frei Francisco". O santo ouviu e disse: "Já que deste à cela o nome de Francisco, tomando posse dela para mim, que ela arranje outro morador, porque eu não vou mais morar lá. O Senhor, quando esteve no deserto em que orou e jejuou por quarenta dias, não mandou fazer uma cela nem uma casa, mas ficou embaixo de uma rocha da montanha. Nós podemos seguí-lo na forma determinada, deixando de ter qualquer propriedade, embora não possamos viver sem casas".
POBREZA DOS UTENSILIOS
CAPITULO 30
60. Não só abominava a ostentação das casas como tinha horror a utensílios muito numerosos ou de valor. Não gostava de nada que, nas mesas ou nos recipientes, recordasse o mundanismo, para que tudo cantasse a peregrinação e o exílio.
CAPITULO 31
Exemplo da mesa que prepararam em Gréccio no dia da Páscoa. Apresenta-se como peregrino, a exemplo de Cristo
61. Num dia de Páscoa, os frades prepararam no eremitério de Gréccio uma mesa mais bonita, com toalhas brancas e copos de vidro. Quando o santo pai desceu de sua cela e foi para a mesa, viu-a arrumada em lugar elevado e ostentosamente enfeitada: toda ela ria, mas ele não sorriu.
Às escondidas e devagarinho, saiu, pôs na cabeça o chapéu de um pobre que lá estava, tomou um bordão e foi para fora. Esperou à porta até que os frades começaram a comer, porque estavam acostumados a não esperá-lo quando não vinha ao sinal.
Quando iniciaram o almoço, clamou à porta como um pobre de verdade: "Uma esmola, por amor de Deus, para um peregrino pobre e doente". Os frades responderam: "Entra, homem, pelo amor daquele que invocaste".
Entrou logo e se apresentou aos comensais. Que espanto provocou esse peregrino! Deram-lhe uma escudela, e ele se sentou à parte, pondo o prato na cinza. E disse: "Agora estou sentado como um frade menor". Dirigindo-se aos irmãos, disse: "Mais do que os outros religiosos, devemos deixar-nos levar pela pobreza do Filho de Deus. Vi a mesa preparada e enfeitada, e vi que não era de pobres que pedem esmola de porta em porta".
O fato demonstra que ele era semelhante àquele outro peregrino que ficou sozinho em Jerusalém nesse mesmo dia de Páscoa. Mas, quando falou, deixou abrasado o coração de seus discípulos.
CAPITULO 32
Contra a preciosidade dos livros
62. Ensinava que nos livros devemos procurar o testemunho do Senhor e não o seu valor material; a edificação e não a aparência. Queria que fossem poucos e à disposição dos frades que precisavam. Por isso, quando um ministro lhe pediu licença para ter uns livros de luxo e muito preciosos, ouviu esta resposta: "Não quero perder pelos teus livros o livro do Evangelho, que professei. Faz o que quiseres, contanto que não seja com a desculpa da minha licença".
POBREZA DAS CAMAS
CAPITULO 33
Exemplo do bispo de Óstia, e seu elogio
63. Era tão grande a pobreza em questão de camas e cobertas, que alguém que tivesse algum pedaço de pano gasto para pôr em cima da palha achava que estava ocupando um leito nupcial.
Durante um capítulo em Santa Maria da Porciúncula, chegou o bispo de O'stia, com uma multidão de soldados e clérigos, para visitar os frades. Vendo-os deitados no chão e olhando suas camas, que mais pareciam ninhos de feras, chorou muito e disse diante de todos: "Olhem onde dormem os frades. Que será de nós, miseráveis, que tanto abusamos do supérfluo?" Todos os presentes se comoveram até as lágrimas e foram embora muito edificados.
Foi esse o bispo de Óstia que, feito mais tarde porta principal da Igreja, resistiu sempre aos inimigos, até que entregou a Deus sua alma bendita, como uma hóstia sagrada. Que coração piedoso, que entranhas de caridade! Colocado no alto, doía-se por não ter altos merecimentos, mas na realidade era mais sublime pela virtude que pelo cargo.
CAPITULO 34
O que lhe acontece numa noite ao usar um travesseiro de penas
64. Por falar em camas, lembro-me de um outro fato que talvez seja bom contar. Desde o tempo em que o santo se converteu para Cristo e tratou de esquecer as coisas do mundo, não quis mais deitar sobre um colchão ou pôr a cabeça num travesseiro de penas. E não quebrava essa resolução nem quando estava doente ou hospedado em casa de outros.
Mas, no eremitério de Greccio, quando sua doença dos olhos se agravou, foi obrigado contra sua vontade a usar um pequeno travesseiro. Quando amanheceu a primeira noite, chamou seu companheiro e disse: "Irmão, não pude dormir nesta noite, nem ficar em pé para rezar. A cabeça tremia, os joelhos cediam, e o corpo se sacudia todo, como se tivesse comido pão de joio. Acho que o diabo está nesse travesseiro em que pus a cabeça. Leva-o, que não quero mais saber de diabo na cabeça".
O frade se compadeceu do pai, que continuava a se lamuriar, e pegou o travesseiro que lhe foi jogado para levar embora. Quando saiu, perdeu a fala, e se sentiu oprimido e preso por tamanho horror, que nem podia mover os pés do lugar nem mexer os braços de lado algum.
Depois de algum tempo, quando o santo ficou sabendo disso, mandou chamá-lo. Então ficou livre, voltou e contou o que tinha sofrido. Disse-lhe o santo: "'A tarde, quando estava rezando Completas, tive certeza de que o diabo vinha para a minha cela". E acrescentou: "É muito esperto e matreiro o nosso inimigo. Quando não pode fazer o mal dentro da alma, faz com que o corpo tenha oportunidade de murmurar".
Ouçam-no os que espalham almofadas por todos os lados, para caírem sempre no mole. O diabo segue o luxo de boa vontade, gosta de estar ao lado das camas muito cômodas, principalmente quando não há necessidade e quando são contrárias à vida que se professou. Mas a antiga serpente foge com horror do homem despojado, ou porque detesta a companhia dos pobres, ou porque tem medo da grandiosidade da pobreza. Se o frade se convencer de que o diabo está embaixo das penas, ficará contente com palha para a cabeça.
EXEMPLOS CONTRA O DINHEIRO
CAPITULO 35
Dura correção para um frade que o toca com as mãos
65. Verdadeiramente apaixonado por Deus, desprezava profundamente tudo que era do mundo mas, acima de tudo, detestava o dinheiro. Fez pouco dele desde o início de sua conversão, e aos seus seguidores sempre disse que deviam fugir do dinheiro como do próprio demônio. Costumava repetir que deviam dar o mesmo valor ao esterco e ao dinheiro.
Certo dia, entrou um leigo para rezar na igreja de Santa Maria da Porciúncula, e pôs dinheiro de esmola junto da cruz. Quando ele foi embora, um frade pegou o dinheiro com simplicidade e o jogou numa janela. O santo ficou sabendo que o frade fizera isso e ele, vendo-se descoberto, correu pedir perdão e se prostrou no chão pedindo penitência. O santo o repreendeu e lhe disse coisas duras por ter tocado o dinheiro. Depois mandou que o pegasse na janela com a boca e que assim o levasse para fora do terreno e colocasse em cima de esterco de asnos. O frade obedeceu de bom grado e os presentes ficaram cheios de temor. Tiveram ainda maior aversão pelo dinheiro que assim tinha sido comparado ao esterco e se encorajavam a desprezá-lo cada dia com novos exemplos.
CAPITULO 36
Castigo de um frade que apanhou uma moeda
66. Dois frades iam a caminho de um hospital de leprosos. No caminho, encontraram uma moeda, pararam e ficaram discutindo sobre o que deviam fazer com aquele esterco. Um deles, rindo-se dos escrúpulos do confrade, tentou pegar o dinheiro para levá-lo aos enfermeiros dos leprosos. O companheiro disse que não deveria fazer isso, enganado por uma falsa piedade e desprezando temerariamente o preceito da Regra, que dizia muito claramente que dinheiro achado deve ser pisado como pó. Mas o outro não quis ouvir, porque sempre tinha sido de cabeça dura. Desprezou a Regra, abaixou-se e apanhou a moeda. Mas não escapou ao julgamento divino. Perdeu a fala na hora, rangia os dentes e não podia se comunicar.
Dessa maneira, o castigo fez bem para o louco, e a punição ensinou o soberbo a obedecer às leis do pai. Finalmente, jogou fora aquele fedor, e seus lábios lavados na água da penitência prorromperam em louvores. É velho o ditado: "Corrige o néscio e terás um amigo".
CAPITULO 37
Repreende a um frade que quer guardar dinheiro com a desculpa de que é necessário
67. Uma ocasião, Frei Pedro Cattani, vigário do santo, considerando que uma multidão de frades de fora freqüentava Santa Maria da Porciúncula, e que as esmolas não eram suficientes para prover o necessário, disse a São Francisco: "Irmão, não sei o que fazer quando vêm grupos de irmãos de toda parte e não tenho o suficiente para lhes oferecer. Peço que permitas guardar algumas coisas quando entram noviços, para recorrer a elas no tempo oportuno".
- "Irmão caríssimo - respondeu o santo -, longe de nós essa piedade. Não vamos ofender a Regra para servir quem quer que seja".
- "Que farei, então?", disse o frade.
- "Se não houver outro meio de prover às necessidades, despe o altar da Virgem e tira seus ornamentos. Podes crer que é melhor guardar o Evangelho de seu Filho e despojar o altar do que deixar o altar ornado e seu Filho desprezado. O Senhor mandará que alguém restitua à sua Mãe o que ela nos tiver emprestado".
CAPITULO 38
O dinheiro transformado numa cobra
68. Passando o homem de Deus com um companheiro pela Apúlia, perto de Bari, encontrou no caminho uma bolsa grande, dessas que chamam de alforje de negociante, cheia de moedas. O companheiro chamou a atenção do santo e insistiu com ele para recolher a bolsa e dar o dinheiro aos pobres. Falou em piedade para com os necessitados e fez o elogio das obras de misericórdia que podiam ser feitas com aquele dinheiro.
O santo se recusou absolutamente e disse que aquilo era manha do diabo. Disse: "Filho, não é lícito pegar o que é dos outros. Dar o que não é nosso é pecado e não merecimento".
Afastaram-se, apressando-se para terminar a viagem. Mas o frade não sossegou, iludido por sua falsa piedade. Continuou a sugerir a obra má.
Então o santo concordou em voltar, não para cumprir a vontade do frade, mas para esclarecer àquele insensato o mistério divino. Chamou um rapaz que estava sentado em cima de um poço à beira da estrada, para dar testemunho da Trindade "na boca de duas ou três testemunhas". Quando os três chegaram onde estava a bolsa, viram-na gorda de dinheiro.
Mas o santo não deixou nenhum deles se aproximar, querendo demonstrar com a força da oração a ilusão diabólica. Afastou-se à distância de uma pedrada e se pôs a rezar. Quando voltou, mandou o frade pegar a bolsa que, por efeito de sua oração, continha uma cobra no lugar do dinheiro.
O frade começou a tremer de medo, tomado de estranho pressentimento. No fim, por respeito à santa obediência deixou de duvidar e pegou a bolsa. Não era pequena a cobra que saiu lá de dentro, convencendo o frade da falsidade do demônio.
Disse o santo: "Irmão, para os servos de Deus, o dinheiro é apenas o diabo e uma cobra venenosa".
POBREZA DAS ROUPAS
CAPITULO 39
Repreensão do santo, por palavras e por exemplo, aos que se vestem com luxo
69. Revestido da virtude do alto, o santo se aquecia mais com o fogo divino que tinha por dentro do que com a roupa que lhe recobria o corpo. Não suportava os que, na Ordem, usavam roupas a mais ou de qualidade mais fina. Afirmava que a necessidade que não se firma em razões válidas mas na veleidade é sinal de perda do espírito: "Quando o espírito está frio e se vai esfriando na graça, a carne e o sangue precisam procurar o que é seu".
Também dizia: "Que resta para a alma que só encontra prazer nas delícias da carne? É então que a vontade animal se disfarça em necessidade, e o sentido da carne forma a consciência". Acrescentava: "Se um de meus frades tiver uma necessidade verdadeira, próxima da indigência, e se apressar em satisfazê-la, em afastá-la de si, qual será o seu mérito? Teve uma oportunidade de merecimento, mas procurou demonstrar que não a apreciou". Submetia os principiantes a essas necessidades e a outras semelhantes, porque não suportá-las com paciência é o mesmo que retornar ao Egito.
Afinal, não queria que em nenhuma oportunidade os frades tivessem mais que duas túnicas, embora permitisse que as reforçassem com remendos. Ensinava a detestarem os panos luxuosos, e aos que faziam o contrário repreendia fortemente diante de todos. Para escarmentar tais frades com seu exemplo, costurou sobre sua túnica um saco rude. Mesmo na hora da morte pediu para cobrirem a túnica que seria sua mortalha com outro pano mais pobre.
Mas aos frades que eram forçados pela doença ou por outra necessidade permitia que usassem outra túnica mais fina junto ao corpo, mas de forma que exteriormente se observasse a aspereza e pobreza. Dizia: "Ainda vai haver tamanho relaxamento no fervor, e um domínio tão grande da tibieza, que filhos do pobre pai não vão se envergonhar de usar até púrpura, cuidando apenas de mudar a cor". Com isso, pai, não é a ti que enganamos como filhos falsos; nossa maldade engana a si mesma. E isso está aumentando e se fazendo cada dia mais evidente.
CAPITULO 40
Diz que os que se afastam da pobreza serão corrigidos pela necessidade
70. Algumas vezes, o santo se lamentou dizendo: "Quanto mais os frades se afastarem da pobreza, mais o mundo se há de afastar-se deles. Procurarão e não hão de encontrar. Mas, se estiverem abraçados à minha senhora pobreza, o mundo os alimentará, pois foram dados para a salvação do mundo". Também dizia: "Há um contrato entre o mundo e os frades: os frades dão bom exemplo ao mundo e o mundo provê suas necessidades. Quando forem infiéis e deixarem de dar bom exemplo, o mundo retirará sua mão, em justa repreensão".
Pelo zelo da pobreza, o homem de Deus tinha medo do número muito grande, que pode demonstrar riqueza, se não de fato, pelo menos na aparência. Por isso, dizia: "Oh! se fosse possível que o mundo só visse os frades raramente e se admirasse de serem tão poucos!"
Unido à senhora pobreza por um vínculo indissolúvel, esperava seu dote futuro, não o presente. Cantava com maior fervor e alegria os Salmos que falam da pobreza como: "Não ficará o pobre em eterno esquecimento", e "Olhai, pobres, e alegrai-vos".
A MENDICANCIA
CAPITULO 41
Recomendação da mendicância
71. O santo pai gostava mais das esmolas pedidas de porta em porta do que das que eram dadas espontaneamente. Dizia que a vergonha de mendigar era inimiga da salvação, embora afirmasse que a vergonha de mendigar que não impede de fazê-lo é coisa santa. Louvava o rubor que vem ao rosto por candura, mas não a vergonha que deixa confundido. Às vezes, quando exortava os seus a pedirem esmolas, usava estas palavras: "Ide, porque nesta última hora os frades menores foram dados ao mundo para que os eleitos cumpram com eles aquilo que vai ser elogiado pelo Juiz: "O que fizestes a um destes meus irmãos menores, foi a mim que fizestes".
Dizia que a Ordem tinha tido o privilégio de ter o seu nome citado tão claramente pelo Grande Profeta. Por isso queria que os frades morassem não só nas cidades mas também nos eremitérios, para dar oportunidade a todos e acabar com as desculpas dos relaxados.
CAPITULO 42
Exemplo do santo ao pedir esmola
72. Para não ofender uma vez sequer a pobreza, sua esposa, o servo de Deus altíssimo costumava agir assim: quando era convidado por senhores e sabia que ia ser distinguido com mesas mais lautas, primeiro pedia pedaços de pão pelas casas vizinhas e depois corria para a mesa, enriquecido pela miséria.
Quando lhe perguntavam por que tinha feito isso, respondia que não queria perder a herança firme por um favor de uma hora. Dizia: "É a pobreza que faz os herdeiros e os reis do reino dos céus, e não vossas falsas riquezas".
CAPITULO 43
Seu exemplo no palácio do bispo de Óstia. Resposta ao bispo
73. Numa ocasião em que São Francisco foi visitar o papa Gregório, antes de ser promovido a esse cargo, saiu já na hora da refeição para pedir esmolas e, quando voltou, colocou os pedaços de pão preto na mesa do bispo.
Quando viu isso, o bispo ficou um pouco envergonhado, especialmente por causa dos convidados que lá estavam pela primeira vez. Mas o santo pai distribuiu com semblante alegre as esmolas que tinha recebido para os cavaleiros e capelães. Todos receberam com admirável devoção. Uns comeram na hora e outros guardaram com respeito.
No fim da refeição, o bispo se levantou e o abraçou, dizendo: "Meu irmão, por que me envergonhaste nesta casa que é tua e dos teus frades, indo pedir esmolas?" Respondeu o santo: "Pelo contrário, eu vos honrei, porque honrei o Senhor maior. O Senhor gosta da pobreza, e principalmente quando a mendicidade é voluntária. Para mim é dignidade e nobreza insigne seguir aquele Senhor que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós". E acrescentou: "Tenho mais prazer numa mesa pobre, posta com poucas esmolas, do que nas grandiosas, em que mal dá para contar o número de pratos".
O bispo ficou muito edificado e disse ao santo: "Filho, continua a fazer o que te parece bom, porque o Senhor está contigo".
CAPITULO 44
Sua exortação a pedir esmolas pelo exemplo e pela palavra
74. No começo, para exercitar a si mesmo e por compaixão da vergonha dos frades, ia ele muitas vezes sozinho para pedir esmolas. Mas quando viu que alguns não estavam dando a devida importância a sua vocação, disse: "Irmãos caríssimos, muito mais nobre era o Filho de Deus, que se fez pobre por nós neste mundo. Por seu amor, nós escolhemos o caminho da pobreza; não nos devemos envergonhar de pedir esmolas. Os herdeiros do reino não podem ficar com vergonha daquilo que lhes está garantindo a herança celestial. Eu vos afirmo que muitos nobres e muitos sábios vão entrar na nossa Ordem e vão se sentir muito honrados por poderem pedir esmolas. Por isso, vós que sois as primícias deles, alegrai-vos e exultai, e não vos negueis a fazer o que estais transmitindo para ser feito por esses santos".
CAPITULO 45
Repreensão a um frade que não quer mendigar
75. São Francisco dizia muitas vezes que o verdadeiro frade menor não devia ficar muito tempo sem ir mendigar. "E quanto mais nobre for meu filho, mais deve gostar de ir, porque é assim que acumulará méritos".
Havia em certo lugar um frade que não era ninguém na hora de esmolar mas valia por vários na hora de comer. Vendo que era comilão, participava dos frutos mas não do trabalho, disse-lhe uma vez: "Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres comer o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho de Deus. Pareces com o irmão zângão, que não ajuda as abelhas a trabalhar mas quer comer o mel por primeiro".
Quando esse homem carnal viu que sua glutoneria tinha sido descoberta, voltou para o mundo, que nunca tinha deixado. Saiu da Ordem: já não era frade nenhum, ele que nunca tinha sido ninguém para esmolar. E o que valia por vários na hora da mesa, passou a ser uma legião de demônios.
CAPITULO 46
Corre ao encontro de um frade que traz esmolas e lhe beija o ombro
76. Numa outra oportunidade, na Porciúncula, um frade vinha voltando de Assis com esmolas e, ao chegar perto, começou a cantar e a louvar o Senhor em voz alta. Quando ouviu isso, o santo se levantou de um salto, correu para fora, beijou o ombro do frade e carregou a bolsa, dizendo: "Bendito seja meu irmão que vai com prontidão, pede com humildade e volta com alegria".
CAPITULO 47
Convence até alguns cavaleiros a pedir esmolas
77. Quando São Francisco estava muito doente e próximo do fim, foi reclamado pelo povo de Assis, que mandou uma solene delegação a Nocera, para não dar a outros a honra de ficar com o corpo do homem de Deus. Os cavaleiros que o levavam a cavalo, com muita reverência, chegaram a uma vila paupérrima, chamada Satriano. Como estavam com fome e já fosse hora de comer, foram comprar alguma coisa mas não encontraram nada. Voltaram e disseram a São Francisco: "Vais precisar dar-nos de tuas esmolas, porque aqui não há nada que se compre".
Respondeu o santo: "Não encontrais nada porque confiais mais em vossas moscas que em Deus" (chamava o dinheiro de "mosca"). "Voltai às casas por onde passastes, oferecei o amor de Deus em vez de dinheiro, e pedi esmola com humildade. Não é preciso ficar com vergonha porque, depois do pecado, tudo que temos nos é dado como esmola, e o grande Esmoler dá com clemente piedade aos dignos e aos indignos".
Os soldados deixaram de lado o respeito humano, foram pedir esmolas e conseguiram mais com o amor de Deus que com o dinheiro. As pessoas, divertidas, até competiram em serví-los e não houve fome onde dominou a opulenta pobreza.
CAPITULO 48
Em Alexandria, transforma um pedaço de frango em peixe
78. Para ele, esmolar visava mais o proveito das almas que o sustento do corpo, e era exemplo para todos quando dava e quando recebia.
Tendo ido a Alexandria da Lombardia para pregar, foi hospedado devotamente por um homem que temia a Deus e tinha muito boa fama. Pedindo-lhe este que, de acordo com o Evangelho, comesse de tudo que lhe fosse servido, concordou bondosamente, vencido pela devoção do hospedeiro.
Este cuidou logo de preparar muito bem um franguinho gordo para o homem de Deus. Estavam sentados á mesa o patriarca dos pobres e a alegre família, quando apareceu à porta um filho de Belial, pobre de toda graça mas feito mendigo por oportunismo.
Usou astuciosamente o nome do Senhor para pedir esmolas e com voz chorosa pediu que o ajudassem por amor de Deus. Ouvindo o nome que para ele era mais doce que o mel e que é abençoado mais que qualquer outro nome, o santo pegou um pedaço de frango com toda a boa vontade, colocou-o num pão e o deu ao pedinte. Ora, o infeliz guardou o que recebera para poder falar mal do santo.
79. No dia seguinte, o santo estava pregando a palavra de Deus ao povo reunido. Rugiu de repente o malvado, querendo mostrar o pedaço de frango a todo o povo. "Vede quem é esse Francisco que está pregando, a quem honrais como um santo. Vede a carne que me deu ontem à tarde quando estava jantando".
Todo mundo o repreendeu, dizendo que parecia um possesso do demônio. Porque, na verdade, todos viam que era peixe aquilo que o homem afirmava que era frango. Até ele, coitado, espantado com o milagre, foi obrigado a confessar o que todos estavam vendo. Envergonhou-se e desfez com a penitência o crime descoberto. Pediu perdão ao santo diante de todos, revelando a má intenção que tinha tido. E a carne voltou a ser o que realmente era, depois que o pecador voltou ao juízo.
OS QUE RENUNCIAM AO MUNDO
CAPITULO 49
O santo reprova um candidato que distribui suas coisas entre os parentes e não entre os pobres
80. Aos que vinham para a Ordem, ensinava o santo que deviam entregar ao mundo a carta de repúdio, pondo primeiro suas coisas para fora para depois poderem oferecer a si mesmos, por dentro, ao Senhor. Só admitia na Ordem os que já se tivessem despojado de toda propriedade, sem ter guardado nada para si, tanto para observar o Evangelho como para evitar que os bens retidos fossem motivo de escândalo.
81. Uma vez, depois de uma pregação em Marca de Ancona, um homem foi ter com o santo pedindo humildemente para entrar na Ordem. O santo disse: "Se te queres juntar aos pobres de Deus, distribui primeiro o que é teu aos pobres do mundo".
Ouvindo isso, ele foi, mas, levado pelo amor carnal, distribuiu o que tinha entre os seus, sem dar nada para os pobres. Quando voltou e contou ao santo sua generosidade, respondeu-lhe o pai: "Vai embora, irmão mosca, porque ainda não deixaste tua casa e teus parentes. Deste o que era teu aos parentes e defraudaste os pobres, por isso não és digno dos pobres santos. Começaste pela carne, puseste um fundamento de ruína para o teu edifício espiritual".
Voltou para casa aquele "homem animal", pediu de volta o que era seu e não tinha querido deixar para os pobres e desanimou logo de seu propósito de virtude. São muitos, hoje, os que se enganam fazendo erradamente a distribuição de seus bens, pois querem entrar numa vida santa e lhe dão um começo material. Ninguém se consagra a Deus para enriquecer os parentes, mas para remir os pecados com o preço da misericórdia e para adquirir a vida pelo fruto das boas obras.
Ensinou muitas vezes que, se os frades passassem necessidade, deveriam recorrer a outras pessoas mas não aos que estavam entrando na Ordem, primeiro para dar exemplo e depois para evitar toda aparência de aproveitamento desonesto.
CAPITULO 50
Uma visão relacionada com a pobreza
82. Vou contar uma visão memorável do santo. Certa noite, depois de longa oração, acabou adormecendo. Sua santa alma foi levada para o santuário de Deus e viu em sonhos, entre outras coisas, uma senhora que assim se apresentava: cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre de cristal e, daí para baixo, de ferro. Era de estatura alta, talhe esbelto e bem proporcionada. Mas cobria suas belas formas com um manto muito pobre. Quando se levantou, pela manhã, o bem-aventurado pai contou a visão ao santo homem que era Frei Pacífico, mas sem revelar o significado.
Muita gente já deu suas interpretações, mas não acho fora de propósito apresentar a que foi dada pelo próprio Frei Pacífico, sugerida pelo Espírito Santo, quando ouviu o caso. Disse: "Essa mulher formosa é a bela alma de São Francisco. A cabeça de ouro é a contemplação e a sabedoria das coisas eternas. O peito e os braços de prata são as palavras de Deus meditadas no coração e postas em prática. A dureza do cristal demonstra sua sobriedade e o esplendor, sua castidade. O ferro é a firmeza da perseverança. E podemos crer que o manto miserável é o pobre corpo que continha aquela preciosa alma".
Muitos outros, que possuem o espírito de Deus, acharam que essa senhora era a pobreza, esposa do santo pai. Dizem que "ela foi feita de ouro pelo prêmio da glória, de prata por sua fama, cristalina por ser a mesma por dentro e por fora sem nada para esconder, e de ferro porque perseverou até o fim. O manto miserável foi tecido para ela pela reputação que tem entre os homens materializados".
Há outros que aplicam esse oráculo à Ordem, de acordo com a sucessão de tempos, como fez o profeta Daniel. Mas podemos acreditar que se referia principalmente ao santo pai, uma vez que, para evitar a vanglória, ele se recusou absolutamente a dar uma interpretação. Não teria deixado
passar em silêncio se se referisse à Ordem.COMPAIXÃO DE SÃO FRANCISCO PARA COM OS POBRES
CAPITULO 51
Sua compaixão dos pobres. Inveja os que são mais pobres
83. Quem poderá contar toda a compaixão que esse homem tinha para com os pobres? De fato, era de uma clemência nata, redobrada pela piedade infusa. Por isso, Francisco se derretia todo pelos pobres e aos que não podia estender a mão nunca deixava de dar seu afeto.
Qualquer necessidade ou penúria que visse em alguém faziam- no pensar na mesma hora em Jesus Cristo. Via o Filho da pobre Senhora em todos os pobres, pois o levava despojado em seu coração como ela o tinha carregado em seus braços.
Apesar de se ter livrado de toda inveja, não conseguiu libertar-se da cobiça da pobreza. Quando via alguém mais pobre do que ele, sentia-se logo invejoso e, disputando em pobreza, ficava com medo de ser vencido pelo outro.
84. Certo dia, em que o homem de Deus andava pregando, encontrou um pobrezinho na rua. Vendo-o sem roupa, ficou compungido e disse a seu companheiro: "A miséria desse homem é uma vergonha para nós, e uma censura à nossa pobreza".
O companheiro respondeu: "Por que, irmão?" E o santo, lamentando-se: "Escolhi a pobreza como minha senhora e toda minha riqueza, e ela está brilhando muito mais nesse homem. Ou não sabes que por todo o mundo correu nossa fama de pobres por amor de Cristo? Pois esse pobre está provando que isso não é verdade".
Invejável inveja! E' uma emulação que deve ser imitada por seus filhos! Pois não se aflige com os bens alheios, não teme a luz do sol, não se opõe à piedade, nem se remói de amarguras. Pensas que a pobreza evangélica não tem nada para ser invejado? Tem o próprio Cristo e, nele, tudo em todas as coisas em. Por que cobiças rendimentos, ó clérigo de nossos dias? Amanhã, quando só tiveres nas mãos os lucros dos tormentos, ficarás sabendo que rico de verdade foi São Francisco.
CAPITULO 52
Correção a um frade que estava falando mal de um pobre
85. Num outro dia de pregação, chegou ao lugar um pobrezinho doente. Compadecido por seu duplo sofrimento, a miséria e a dor, começou a conversar com um companheiro sobre a pobreza.
E quando sua compaixão já se tinha transformado em ternura, disse-lhe o companheiro: "Irmão, é verdade que esse aí é pobre, mas não deve haver outro mais rico em desejo, em toda esta região".
São Francisco repreendeu-o na hora e, quando confessou sua culpa, disse-lhe: "Tira já o teu hábito, ajoelha-te aos pés do pobre e confessa a tua culpa! Não peças apenas o perdão, roga também que reze por ti!" O irmão obedeceu, fez o que tinha sido mandado e voltou. Disse-lhe o santo: "Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. E da mesma maneira, nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa!"
Francisco tinha sempre o "ramalhete de mirra" em seu coração. Estava sempre olhando para o rosto do seu Cristo, sempre agarrado ao homem das dores, que conhece todos os sofrimentos.
CAPITULO 53
Em Celano, dá uma capa a uma velhinha
86. Uma vez, em Celano, no tempo do inverno, São Francisco estava usando como capa uma peça de pano que recebera por empréstimo de um homem de Tívoli, amigo dos frades.
Estava no palácio do bispo dos marsos, quando encontrou uma velhinha pedindo esmolas. Desamarrou imediatamente o pano do pescoço e, embora não fosse seu, deu-o à pobrezinha, dizendo: "Vai fazer um vestido, que bem estás precisando". A velhinha sorriu espantada, não sei de medo ou de alegria. Pegou o pano das mãos dele, foi embora depressa, e, com medo de demorar muito e ter que devolver, passou-lhe a tesoura.
Mas quando viu que o pano cortado não ia dar para o vestido, a experiência do primeiro favor fez com que voltasse ao santo para mostrar que a fazenda era pouca. O santo se voltou para o companheiro, que levava nas costas o mesmo tanto de fazenda e lhe disse: "Estás ouvindo, irmão? Vamos suportar o frio por amor de Deus. Dá o pano para a pobrezinha acabar o vestido". Como ele tinha dado, deu também o companheiro. Despojaram-se os dois para que a velhinha se vestisse.
CAPITULO 54
Outro pobre a quem dá sua capa
87. Outra vez, voltando de Sena, encontrou um pobre e disse ao frade que ia com ele: "Temos que devolver a capa a este pobrezinho, irmão, porque é dele. Nós a recebemos por empréstimo, até encontrarmos alguém mais pobre do que nós". O companheiro, vendo a necessidade em que se achava o santo pai, resistiu firmemente para que não ajudasse o outro à sua custa. Mas o santo retrucou: "Não quero ser ladrão. Seria roubo se não déssemos ao que precisa mais". O outro desistiu, e ele deu a capa.
CAPITULO 55
Age de maneira semelhante com outro pobre
88. Coisa semelhante aconteceu em Celle di Cortona. São Francisco estava com uma capa nova, que os frades tinham conseguido para ele com muito esforço. Chegou um pobre, chorando a morte da esposa e a família que tinha ficado na miséria. Disse o santo:
- "Por amor de Deus, eu te dou esta capa, com a condição de não a dares a ninguém, a não ser que pague bem". Correram os frades para tirar a capa e impedir essa doação. Mas o pobre, animado pela expressão de apoio do santo pai, agarrou-a e defendeu-a como sua. No fim, os frades compraram a capa, e o pobre foi embora com o seu pagamento.
CAPITULO 56
A outro, dá a capa com a condição de não odiar seu patrão
89. Outra vez, em Colle, no condado de Perúsia, São Francisco encontrou um pobrezinho que conhecia desde antes de sua conversão. Perguntou-lhe: "Como vais, irmão?" E ele, mal humorado, começou a amaldiçoar seu patrão, que lhe tinha tirado tudo que era seu: "Estou é muito mal, por causa de meu patrão. Que Deus todo-poderoso o amaldiçoe!"
São Francisco, com mais pena de sua alma que de seu corpo, por causa desse ódio mortal, disse-lhe: "Irmão, perdoa o teu patrão por amor de Deus, para libertares tua alma, e para haver possibilidade de ele devolver o que tirou. Senão, além de perderes tuas coisas, acabarás perdendo tua alma também". Ele respondeu: "Não posso perdoar de maneira alguma se ele não devolver primeiro o que me pertence". Como estava com uma pequena capa nas costas, São Francisco disse: "Eu te dou esta capa e te peço que perdoes teu patrão em nome do Senhor Deus".
Acalmado, e comovido com o presente, o homem recebeu a capa e perdoou as injúrias.
CAPITULO 57
A outro pobre dá um pedaço de seu hábito
90. Solicitado certa vez por um pobre e não tendo nada para dar, descosturou a barra do hábito e a entregou. Algumas vezes deu até sua roupa de baixo. Tanta era a compaixão que tinha para com os pobres, e tanto o afeto que tinha por todas as manifestações de Cristo pobre.
CAPITULO 58
Dá a uma pobre, mãe de dois frades, o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem
91. A mãe de dois frades veio uma vez ao santo, pedindo esmola com toda confiança. Compadecido dela, o santo pai disse a seu vigário Pedro Cattani: "Temos alguma esmola para dar a nossa mãe?" Porque chamava de mãe sua e de todos os frades quem fosse mãe de algum frade. Frei Pedro respondeu: "Não há mais nada em casa, que lhe possamos dar". E acrescentou: "Só temos o Novo Testamento, onde, como não temos breviário, lemos as lições de Matinas".
São Francisco disse: "Dá o Novo Testamento a nossa mãe, para que ela o venda e possa acudir sua necessidade, pois é ele mesmo que nos manda ajudar os pobres. Acho que Deus vai ficar mais contente com a esmola do que com a leitura".
Deram o livro à mulher, e assim, por essa piedade, foi-se embora o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem.
CAPITULO 59
Deu sua capa a uma pobre que sofria da vista
92. No tempo em que São Francisco esteve no palácio do bispo de Rieti, para cuidar de sua doença dos olhos, foi consultar o médico uma pobrezinha de Maquilone, que tinha a mesma doença que o santo. Conversando familiarmente com o guardião, o santo começou a insinuar: "Irmão guardião, precisamos devolver o que não é nosso".
- "Se estivermos com alguma coisa, vamos devolver", respondeu o guardião.
- "Vamos devolver esta capa, que recebemos emprestada desta pobrezinha, porque ela não tem nada em sua bolsa para as despesas".
- "Mas essa capa é minha, disse o guardião, e não foi emprestada por ninguém. Usa-a enquanto te aprouver, mas tens que devolvê-la a mim quando não a quiseres mais". (Na realidade, tinha-a comprado o guardião um pouco antes, para a necessidade de São Francisco).
- "Irmão guardião, insistiu o santo, sempre foste cortês comigo. Peço-te que mostres tua cortesia".
- "Pai, faz como quiseres, tudo que o Espírito te sugerir!"
Então mandou chamar um secular muito devoto e lhe disse: "Toma esta capa e doze pães, e vai dizer àquela pobrezinha: O pobre a quem emprestaste a capa manda agradecer o empréstimo. Agora fica com o que é teu". Ele foi e fez como tinha sido mandado. Mas a mulher, pensando que estava sendo enganada, disse enrubescida: "Deixa-me em paz com tua capa. Não sei o que estás falando". Mas o homem insistiu e lhe colocou tudo nas mãos. Vendo que não havia engano e com medo de perder lucro tão fácil, a mulher se levantou de noite e, esquecendo o tratamento dos olhos, foi embora com a capa.
CAPITULO 60
Aparecem-lhe, no caminho, três mulheres, que o saúdam e desaparece
93. Vou contar em poucas palavras um fato admirável, de interpretação um tanto difícil mas de autenticidade garantida.
São Francisco, o pobre de Cristo, estava viajando de Rieti para Sena, para cuidar dos olhos, e atravessava a planície de Rocca Campília levando como companheiro de viagem um médico ligado à Ordem. Apareceram três pobrezinhas junto ao caminho, na passagem de São Francisco. Eram tão semelhantes no tamanho, na idade e no rosto, que pareciam três exemplares feitos na mesma forma. Quando São Francisco se aproximou, inclinaram reverentemente a cabeça e o saudaram com um cumprimento novo: "Bem-vinda, Senhora Pobreza!" O santo se encheu na mesma hora de incontável alegria, porque não havia nenhuma saudação que mais gostasse de ouvir do que a que elas tinham escolhido.
E pensando que aquelas mulheres fossem realmente pobrezinhas, virou-se para o médico que o acompanhava e disse: "Peço-te, pelo amor de Deus, que me dês alguma coisa para eu dar a essas pobrezinhas". Ele saltou imediatamente do cavalo e deu algumas moedas para cada uma.
Prosseguiram seu caminho mas, voltando-se logo o médico e os frades, não viram sinal das mulheres em toda aquela planície. Muito admirados, juntaram mais esse fato às maravilhas do Senhor, sabendo que não havia mulheres capazes de voar mais rápido que as aves.
AMOR DE SÃO FRANCISCO À ORAÇÃO
CAPITULO 61
Tempo, lugar e fervor de sua oração
94. Francisco, o homem de Deus, afastado do Senhor pelo corpo, procurava fazer seu espírito estar presente no céu. Concidadão dos anjos, só estava separado deles pela parede do corpo. Sua alma inteira tinha sede do seu Cristo e a ele dedicava não só o coração mas também todo o corpo. Das maravilhas de sua oração, vamos contar o pouco que vimos com nossos próprios olhos e tanto quanto é possível transmitir a ouvidos humanos, para imitação dos pósteros.
Empregava todo o seu tempo nessa santa ocupação, para gravar a sabedoria em seu coração porque, se não estivesse sempre progredindo, achava que estava regredindo. Quando era impedido por visitas de seculares ou por outros assuntos, interrompia-os antes do fim e voltava para o retiro. Para ele, que se alimentava da doçura celeste, o mundo era insípido. As delícias celestiais tinham-no tornado incapaz de suportar as grosseiros prazeres dos homens.
Procurava sempre um lugar escondido, onde pudesse entregar a seu Deus não só o espírito mas todo o seu corpo. Quando estava em lugares públicos e era visitado de repente pelo Senhor, para não ficar sem cela, fazia um pequeno abrigo com sua própria capa. Às vezes, quando estava sem capa, para não perder o maná escondido, cobria o rosto com as mangas.
Furtava-se sempre aos olhares dos presentes, para que não se dessem conta da presença do Amado e para poder rezar sem que o percebessem, mesmo nos estreitos limites dum navio. Se não o conseguia, fazia de seu próprio peito um templo. Fora de si e totalmente absorto em Deus, ele parava de tossir, de gemer, de suspirar forte, de se entregar a qualquer manifestação externa.
95. Isso em casa. Quando rezava em florestas ou lugares ermos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda parte, batia no peito e, achando-se mais oculto que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao pai, conversava com o amigo, entretinha-se com o esposo. De fato, para fazer um holocausto múltiplo de todo o interior de seu coração, propunha a seus próprios olhos de muitas maneiras aquele que é sumamente simples. Muitas vezes ficava pensando com os lábios parados, e, levando para dentro todo o seu exterior, elevava-se até os céus. Transformado não só em orante mas na própria oração, unia a atenção e o afeto num único desejo que dirigia ao Senhor.
De que suavidade não era invadido, ele que estava acostumado a orar dessa forma! Só ele é quem sabe. Eu apenas posso admirá-lo. Só quem tem a experiência disso pode saber; para os demais o mistério continua inacessível: com o espírito todo abrasado de ardor, interior e exteriormente absorto, ele já se tornara cidadão dos céus.
Acostumara-se a não perder por negligência nenhuma visita do Espírito, e por isso, quando lhe era oferecida alguma, seguia-a, saboreando a doçura que lhe era dada enquanto o Senhor o permitia. Quando era solicitado por outro afazer ou tinha que prestar atenção na viagem, e pressentia sensivelmente algum toque da graça, saboreava aqui e ali, com a maior freqüência, o dulcíssimo maná. Mesmo na estrada, deixava os companheiros irem à frente, parava e, entregando-se ao gozo da nova inspiração, não deixava passar em vão aquela graça.
CAPITULO 62
Recitação devota das horas canônicas
96. Rezava as horas canônicas com devoção e não menor respeito. Mesmo doente dos olhos, do estômago, do baço e do fígado, negava-se a se encostar no muro ou na parede durante a salmodia. Rezava as horas em pé e sem capuz, sem vaguear os olhos e sem interrupções.
Quando viajava a pé, sempre parava para recitar o ofício. Se estava a cavalo, apeava. Num dia em que vinha voltando de Roma e estava chovendo muito, desceu do cavalo para rezar o ofício e ficou tanto tempo em pé que acabou encharcado. 'As vezes dizia: "Se o corpo tem uma hora de descanso para tomar o alimento que, como ele, vai ser pasto dos vermes, com que paz e tranqüilidade deve a alma tomar seu alimento, que é o seu Deus!"
CAPITULO 63
Como afasta as distrações na oração
97. Achava que cometia uma falta grave quando, entregue à oração, era assaltado por distrações. Se acontecia uma coisa dessas, não se poupava na confissão, para conseguir uma expiação completa. Esse esforço chegou a ser tão habitual que era muito raro ser atormentado por essa espécie de "moscas".
Durante uma Quaresma, fez um pequeno vaso, aplicando nisso muitos pedacinhos de tempo, para não o desperdiçar. Num dia em que estava rezando devotamente a hora de Terça, teve a atenção casualmente distraída para o vaso, e achou que sua interioridade tinha sido prejudicada no fervor. Condoído por ter interrompido a voz do coração que se dirigia a Deus, quando terminou a Terça, disse aos frades que o ouviam: "Que obra tola é essa, que teve tanta força sobre mim para me distrair a atenção! Vou sacrificá-la ao Senhor, porque estorvou o seu sacrifício".
Dizendo isso, pegou a vasilha e a jogou no fogo. Ainda disse: "Devíamos ter vergonha de nos deixar distrair quando estamos conversando com o Grande Rei, na oração".
CAPITULO 64
Êxtases
98. Era muitas vezes arrebatado por tamanho prazer na contemplação, que ficava fora de si, e a ninguém revelava as experiências sobre-humanas que tinha tido. Mas, por um fato, que uma vez chamou a atenção, podemos imaginar com que frequência ficava absorto nos prazeres celestiais.
Ia montado num jumento, e precisou passar por Borgo San Sepolcro. Como quis ir descansar numa casa de leprosos, muita gente ficou sabendo da passagem do homem de Deus. De toda parte correram homens e mulheres para vê-lo, querendo tocá-lo com a costumeira devoção. Apertavam, empurravam e lhe cortavam e repunham pedaços da túnica. Ele parecia insensível a tudo e, como um corpo morto, não tomou conhecimento de nada do que estava acontecendo. Afinal, chegaram ao lugar. Muito depois de terem deixado a povoação, o contemplador das coisas do céu, como se estivesse voltando de longe, perguntou interessado quando chegariam a Borgo.
CAPITULO 65
Como se comporta depois da oração
99. Quando voltava de suas orações particulares, em que quase se transformava num outro homem, esforçava-se por se assemelhar aos demais, para que a veneração dos outros, se o vissem abrasado de fervor, não o levasse a perder o que tinha lucrado.
Muitas vezes dizia a seus mais íntimos: "Quando um servo de Deus é visitado na oração por alguma nova consolação de Deus, deve levantar os olhos para o céu, antes de concluir, e dizer ao Senhor de mãos postas: 'Senhor, a mim que sou pecador e indigno mandaste do céu esta consolação e esta doçura. Eu a devolvo, para que a guardes para mim, porque sou um ladrão de teu tesouro'. E ainda: 'Senhor, tira-me o teu dom neste mundo e guarda-o para o outro'".
- "Assim é que se deve fazer", dizia, "mostrando-se aos outros, quando sair da oração, tão pobrezinho e pecador como se não tivesse conseguido nenhuma graça nova". Pois explicava: "Pode acontecer que, por uma pequena vantagem, a gente perca um dom de valor incalculável, e leve com facilidade aquele que o deu, a não dar mais".
Tinha o costume de se levantar para rezar tão disfarçada e quietamente, que nenhum dos companheiros percebia que se tinha levantado ou que estava rezando. Mas à noite, quando ia dormir, fazia muito ruído para todo mundo saber que tinha ido deitar.
CAPITULO 66
O bispo perde a fala quando o encontra a rezar
100. Estando São Francisco a rezar na Porciúncula, o bispo de Assis foi visitá-lo familiarmente, como costumava. Quando chegou, foi à cela do santo sem muita reverência, pois não tinha sido chamado, empurrou a pequena porta e foi entrando.
Logo que pôs a cabeça para dentro e viu o santo a rezar, foi tomado por um súbito tremor, teve os membros imobilizados e até perdeu a fala. Subitamente, por vontade do Senhor, foi lançado para fora e levado de costas para longe.
Na minha opinião, ou ele era indigno de contemplar o segredo, ou então o santo é que merecia continuar a receber mais do que tinha tido. O bispo voltou espantado para junto dos frades e recuperou a fala logo que confessou a culpa.
CAPITULO 67
Um abade experimenta a força de sua oração
101. Noutra ocasião, o abade do mosteiro de São Justino, da diocese de Perúsia, encontrou-se com São Francisco no caminho. Apeou-se imediatamente e conversou um pouco com ele sobre a salvação de sua alma. Ao partir, pediu humildemente ao santo que rezasse por ele. São Francisco disse: "Vou rezar de boa vontade, meu senhor".
Pouco depois que o abade se afastou, disse o santo a seu companheiro: "Espera um pouco, meu irmão. Vou cumprir o que prometi". Sempre teve esse costume. Quando lhe pediam para rezar nunca deixava para depois, cumpria quanto antes o que tinha prometido.
Pela súplica que o santo dirigiu a Deus, o abade sentiu de repente um calor diferente e uma doçura que nunca tinha experimentado em seu espírito, tanto que ficou arrebatado e os outros viram que desmaiava. Não demorou muito e, voltando a si, reconheceu a força da oração de São Francisco. Por isso sempre teve o maior amor para com a Ordem e contou a muita gente esse fato, dizendo que tinha sido um milagre.
É assim que os servos de Deus devem prestar um ao outro os seus favores. É bom que entre eles haja essa comunhão de dar e receber. A amizade santa, também chamada de amizade espiritual, contenta-se com a oração e dá pouco valor aos favores terrenos. Acho que é próprio de uma amizade santa ajudar e ser ajudado na luta espiritual, recomendar e ser recomendado diante do tribunal de Cristo.
Como não deve ter subido alto a oração de quem foi capaz de elevar assim uma outra pessoa por seus merecimentos!
COMPREENSÃO QUE O SANTO TEVE DAS SAGRADAS ESCRITURAS E DO VALOR DE SUAS PALAVRAS
CAPITULO 68
Conhecimento e memória
102. Embora não tenha tido nenhum estudo, o santo aprendeu do alto a sabedoria que vem de Deus e, iluminado pelos fulgores da luz eterna, não era pouco o que entendia das Sagradas Escrituras. Sua inteligência purificada penetrava os segredos dos mistérios, e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava seu afeto cheio de amor.
Lia os livros sagrados de quando em quando mas, o que punha uma vez na cabeça ficava gravado indelevelmente em seu coração. Sua memória supria os livros: não perdia o que tivesse ouvido uma única vez, pois ficava refletindo com amor em contínua devoção. Dizia que esse modo de aprender e de ler era muito vantajoso, e não o de ficar folheando milhares de tratados. Achava que filósofo verdadeiro era o que preferia mais a vida eterna do que todas as outras coisas. Afirmava que passaria facilmente do conhecimento de si mesmo para o conhecimento de Deus aquele que estudasse as Escrituras com humildade e sem presunção. Era frequente resolver oralmente as dúvidas de algumas questões, porque, embora não fosse culto nas palavras, destacava-se vantajosamente na inteligência e na virtude.
CAPITULO 69
A pedido de um dominicano, interpreta um texto profético
103. Quando estava em Sena, apareceu por lá um frade da Ordem dos Pregadores, homem verdadeiramente espiritual e doutor em sagrada teologia. Foi visitar São Francisco e os dois saborearam uma longa e agradável conversa sobre as palavras do Senhor. Quis o mestre saber sua opinião sobre aquele texto de Ezequiel: "Se não advertires ao ímpio sobre sua impiedade, eu te pedirei contas de seu sangue". E esclareceu: "São muitos, bom pai, os que eu conheço e sei que estão em pecado mortal, mas nem sempre lhes mostro sua impiedade. Será que Deus vai me pedir contas de suas almas?"
São Francisco respondeu que era um ignorante e que por isso estava mais na situação de aprender com ele do que na de dar sentenças sobre as Escrituras, mas o humilde mestre lhe disse: "Irmão, já ouvi a exposição de alguns sábios sobre esse texto, mas gostaria de saber qual é o teu pensamento".
Falou, então, São Francisco: "Se é em geral que devemos entender essa palavra, eu acho que o servo de Deus deve arder tanto na vida e na santidade, que repreenda todos os maus com a luz de seu exemplo e com a voz de seu comportamento. O esplendor da vida e o bom perfume da fama é que vão convencer a todos de sua iniquidade".
O frade foi embora muito edificado e disse aos companheiros de São Francisco: "Meus irmãos, a teologia desse homem, firmada na pureza da contemplação, é uma águia a voar; nossa ciência arrasta-se pela terra".
CAPITULO 70
Respostas a um cardeal
104. Em outra ocasião, estando na casa de um cardeal, em Roma, foi interrogado sobre textos obscuros e os esclareceu de maneira tão profunda que parecia alguém que vivesse estudando as Escrituras. Disse-lhe o cardeal: "Não te interrogo como a um letrado, mas como a um homem que possui o espírito de Deus, e aceito de tão boa vontade a resposta da tua compreensão porque sei que vem apenas de Deus"
CAPITULO 71
Manifesta o que sabe a um frade que lhe recomenda o estudo
105. Quando estava doente e cheio de achaques, disse-lhe um companheiro: "Pai, sempre te refugiaste nas Escrituras, elas sempre foram um remédio para tuas dores. Peço que mandes ler alguma coisa dos profetas, pode ser que teu espírito exulte no Senhor". O santo respondeu: "É bom ler os testemunhos das Escrituras, é bom procurar nelas Deus nosso Senhor, mas eu já aprendi tantas coisas na Bíblia que para mim é mais do que suficiente recordar e meditar. Não preciso mais nada, filho. Conheço o Cristo pobre e crucificado".
CAPITULO 72
Frei Pacífico vê espadas brilhantes em sua boca
106. Havia na Marca de Ancona um secular que, esquecido de sua salvação e ignorante de Deus, entregara-se à vaidade. Chamavam-no "Rei dos Versos", porque se projetara como cantor de coisas desavergonhadas e compositor de canções mundanas. Ficou tão famoso nas glórias deste mundo, que chegou a ser coroado com toda a pompa pelo próprio imperador.
Enquanto assim caminhava, nas trevas e arrastando a iniquidade nas rédeas da vaidade, a bondade divina teve compaixão dele e resolveu chamá-lo para que não viesse a perecer abandonado. Por providência divina, encontraram-se em um mosteiro de pobres reclusas ele e São Francisco. São Francisco fora com seus companheiros para visitar suas filhas. O cantor fora com alguns colegas visitar uma parenta.
A mão de Deus pousou sobre ele, que viu com seus próprios olhos São Francisco assinalado por duas espadas refulgentes e cruzadas, uma da cabeça aos pés e outra atravessando o peito, de uma mão à outra. Não conhecia São Francisco mas, depois de tão surpreendente milagre, identificou-o imediatamente. Espantado pelo que tinha visto, começou imediatamente a fazer bons propósitos, ainda que para o futuro.
O santo pai, por sua vez, tendo pregado primeiro a todos em comum, traspassou o homem com a espada da palavra de Deus. Admoestou-o com bondade a respeito da vaidade do mundo e do seu desprezo, e terminou cravando seu coração com a ameaça dos julgamentos de Deus.
O cantor respondeu na mesma hora: "Para que mais palavras? Vamos aos fatos. Tira-me do meio dos homens e devolve-me ao grande imperador!"
No dia seguinte o santo lhe deu o hábito e, porque tinha voltado para a paz do Senhor, chamou-o de Frei Pacífico. Essa conversão teve enorme repercussão, porque seus admiradores eram inúmeros.
Na companhia do bem-aventurado pai, Frei Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado na fronte com um grande Tau com círculos multicores, bonito como um pavão.
CAPITULO 73
Eficácia de suas palavras e testemunho de um médico
107. Pregador do Evangelho, Francisco costumava falar ao povo simples usando comparações concretas e simples, porque sabia que a virtude é mais importante que as palavras. Mas também era capaz de fazer alocuções profundas e cheias de vida para os que tinham maior aprofundamento espiritual e maior cultura. Sabia di- zer coisas difíceis em poucas palavras e, usando gestos e expressões ardorosos, arrebatava os ouvintes para o céu.
Não usava a técnica das distinções para se preparar, porque não era capaz de apresentar senão o que lhe fosse inspirado. Quem dava a força da virtude à sua voz era o próprio Cristo, que é a verdadeira virtude e a verdadeira sabedoria.
Afirmou certa vez um médico, homem erudito e eloqüente: "Guardo palavra por palavra tudo que os outros pregadores falam, só me escapa o que é dito por São Francisco. Mesmo quando consigo lembrar alguma coisa, já não me parece o mesmo que foi destilado por seus lábios".
CAPITULO 74
Pela virtude de suas palavras, Frei Silvestre espanta demônios de Arezzo
108. As palavras de Francisco não tinham força só quando ele estava presente: mesmo quando eram transmitidas por outros não deixavam de produzir o seu fruto.
Uma vez, chegou a Arezzo e soube que a cidade inteira estava afogada numa luta interna, ameaçada de iminente destruição. Hospedado numa aldeia fora da cidade, o homem de Deus viu, acima daquela terra, demônios exultantes e cidadãos que punham fogo na destruição de seus próprios concidadãos. Chamou Frei Silvestre, um homem de Deus de santa simplicidade, e lhe deu ordem dizendo: "Vai à frente da porta da cidade e, da parte de Deus todo-poderoso, manda aos demônios que saiam de lá quanto antes!"
Piedoso e simples, o frade foi correndo cumprir a ordem, e, encomendando-se a Deus com hinos de louvor, clamou valentemente diante da porta: "Da parte de Deus e por ordem de nosso pai Francisco, ide embora para longe daqui, diabos todos!" A cidade voltou à paz pouco depois e tratou de preservar com grande tranquilidade os direitos dos cidadãos. Mais tarde, dirigindo-se a eles, São Francisco disse, no início da pregação: "Dirijo-me a vós como a homens antes subjugados pelo diabo e prisioneiros dos demônios, mas sei que fostes libertados pelas preces de um certo pobre".
CAPITULO 75
Conversão de Frei Silvestre. Visão com que é agraciado
109. Parece-me oportuno referir aqui como foi a conversão desse Frei Silvestre e como foi levado pelo Espírito Santo a entrar na Ordem.
Silvestre tinha sido um sacerdote diocesano de Assis, de quem o homem de Deus tinha comprado pedras para reparar uma igreja. Quando viu que Frei Bernardo, primeira mudinha da Ordem dos Menores depois do santo de Deus, tinha deixado com perfeição tudo que era seu e o estava dando aos pobres, acendeu-se em voraz cobiça e queixou-se ao homem de Deus de que não tinha pago como devia pelas pedras recebidas. Francisco sorriu, percebendo o veneno da avareza que tinha atacado o padre. Mas, querendo de qualquer jeito dar alívio àquele maldito ardor, encheu-lhe as mãos de dinheiro, sem contar.
O padre Silvestre ficou contente com o que recebera, e mais admirado ainda com a liberalidade de quem o tinha dado. Voltando para casa, pensou muitas vezes no que tinha acontecido e começou a levantar contra si mesmo a feliz acusação de que já estava envelhecendo e amava o mundo, enquanto aquele jovem o espantava por um desprendimento tão grande de todas as coisas. Com isso ficou penetrado do bom perfume do exemplo, e Cristo lhe abriu seu coração cheio de misericórdia.
Mostrou-lhe, através de uma visão, como eram valiosas e eminentes aos seus olhos as obras de Francisco e como enchiam o mundo inteiro. Pois viu, em sonhos, uma cruz de ouro que saía da boca de Francisco, tocava os céus com sua ponta e se abria para os dois lados, abraçando o mundo inteiro.
Tocado pela visão, o sacerdote deixou de lado toda demora perniciosa, abandonou o mundo e se faz um imitador perfeito do homem de Deus. Começou a levar uma vida perfeita na Ordem e, pela graça de Cristo, chegou à mais alta perfeição.
Não admira que Francisco tenha aparecido crucificado, pois sempre esteve unido à cruz. E como teve essa cruz maravilhosa sempre enraizada em seu interior, também não admira que tenha feito desabrochar flores da terra boa e produzido ramos e frutos tão vistosos. Não podia produzir outra coisa esse chão desde o princípio totalmente dominado pela cruz.
Mas vamos continuar agora o nosso assunto.
CAPITULO 76
Um frade libertado do assalto do demônio
110. Havia um frade atormentado continuamente por uma tentação do espírito, que é muito mais sutil e pior que uma tentação da carne. Por fim, foi a São Francisco e se lançou humildemente a seus pés. Banhado em lágrimas muito amargas, não conseguia dizer nada, impedido pelos altos soluços. O pai ficou com pena dele e, vendo que estava sendo molestado por impulsos malignos, disse: "Eu vos mando pela virtude de Deus, ó demônios, que deixeis de atormentar meu irmão, como ousastes fazer até agora".
Dissipou-se imediatamente a escuridão das trevas, o frade se levantou livre e não sentiu mais o tormento, como se nunca o tivesse tido.
CAPITULO 77
A porca malvada que comeu um cordeirinho
111. Já demonstramos, em outros lugares, como sua palavra teve maravilhosa eficácia também com os animais. Mas vou contar um caso que tenho à mão.
Numa noite em que o servo do Excelso se hospedou no mosteiro de São Verecundo, da diocese de Gúbio, uma ovelha deu à luz um cordeirinho. Mas havia ali uma porca muito brava, que não poupou a vida do inocente e o matou com uma cruel mordida.
Quando os homens se levantaram pela manhã, viram o cordeirinho morto e tiveram certeza de que a culpada dessa malvadeza era a porca. Quando soube disso, o piedoso pai ficou muito comovido, lembrando-se de um outro Cordeiro, e chorou o cordeirinho morto, dizendo diante de todos: "Pobre irmão cordeirinho, animal inocente, que sempre nos recordas uma coisa importante para os homens! Amaldiçoada seja a cruel que te matou, e que nem homem nem animal comam de sua carne!"
Incrível! A porca malvada começou logo a ficar doente, passou três dias de tormento e acabou morrendo por castigo. Foi jogada no monturo do mosteiro, onde ficou por muito tempo, seca como uma tábua, sem servir de alimento para nenhum esfomeado.
CONTRA A FAMILIARIDADE COM AS MULHERES
CAPITULO 78
Deve-se evitar a familiaridade com mulheres. Como conversa com elas
112. Mandava evitar totalmente o mel venenoso que é a familiaridade com as mulheres, que induzem ao erro até os homens santos. Temia que, com isso, o fraco se quebrasse depressa e mesmo o forte ficasse muitas vezes enfraquecido em seu espírito. Achava que só escaparia de seu contágio, conversando com elas, o homem que fosse bem provado, capaz de, conforme a Bíblia, andar no fogo sem queimar os pés.
Para dar testemunho, cuidava ele mesmo de ser exemplo de toda virtude. Pois as mulheres o perturbavam tanto que não se podia dizer que fazia isso por precaução ou para dar exemplo, mas realmente porque tinha medo e ficava horrorizado.
Quando sua importuna loquacidade o assaltava com eu falatório, invocava o silêncio falando com brevidade e humildade e baixando os olhos. Outras vezes voltava os olhos para o céu, parecendo trazer de lá as palavras que respondia às resmungadoras da terra.
Dirigia, entretanto, palavras admiráveis, embora breves, àquelas em quem a devoção tinha feito a morada da sabedoria. Quando conversava com mulheres falava o que tinha a dizer em voz alta, para poder ser ouvido por todos. Uma vez disse a seu companheiro: "Confesso-te a verdade, meu caro, não reconheceria nenhuma pelo rosto, a não ser duas. Conheço a fisionomia desta e daquela, de mais nenhuma".
Ótimo, pai, porque o rosto delas não santifica ninguém! Ótimo, porque o lucro não é zero, mas o prejuízo, mesmo de tempo, é enorme! Elas só servem de estorvo aos que querem seguir o caminho árduo da santidade e contemplar a face de Deus, radiante de beleza.
CAPITULO 79
Parábola contra os olhares para as mulheres
113. Verberava os que não tinham olhos castos com esta parábola:
"Um rei poderoso enviou à rainha, um após outro, dois mensageiros. O primeiro voltou e fez seu relatório com as palavras indispensáveis, porque era sábio e tinha segurado os olhos em sua cabeça, sem saltar para qualquer outra coisa. Voltou também o outro e, depois de fazer breve relatório, teceu um longo elogio à beleza da senhora: 'Na verdade, senhor, vi que é uma mulher belíssima. Feliz de quem pode aproveitar'.
O rei respondeu: 'Servo mau, puseste os teus olhos impuros em minha esposa? É claro que querias comprar o que sorrateiramente estiveste apreciando'.
Mandou chamar o primeiro e disse: 'Que achaste da rainha?' Ele respondeu: 'O melhor possível, porque ouviu em silêncio e respondeu com inteligência'. - 'E não é bonita?' - 'Isso sois vós que deveis olhar, senhor. Minha obrigação era levar o recado'.
Então o rei sentenciou: 'Tu, que és casto de olhos, continuarás a meu serviço, e serás ainda mais casto no corpo! Mas esse outro seja posto para fora, para que não me venha a desonrar o leito!'"
Acrescentava o bem-aventurado pai: "Quem é muito seguro não toma cuidado com o inimigo. E o diabo, se consegue se apoderar de um fio de cabelo, logo o faz crescer como uma trave. E mesmo que fique muitos anos sem poder derrubar aquele a quem está tentando, não se importa de esperar, contanto que acabe caindo em suas mãos. Esse é o seu trabalho, e ele não pensa noutra coisa, dia e noite".
CAPITULO 80
Exemplo do santo contra a familiaridade exagerada
114. Numa ocasião em que São Francisco ia a Bevagna, não conseguiu chegar à cidade porque estava muito fraco de tanto jejuar. O companheiro mandou um recado para uma senhora piedosa, pedindo humildemente pão e vinho para o santo. Quando o recebeu, ela foi correndo ao encontro do santo, acompanhada por uma filha, virgem consagrada a Deus, e levou o que era preciso.
Depois que o santo se refez e se sentiu um pouco mais forte, alimentou por sua vez mãe e filha com a palavra de Deus. E durante a pregação não olhou para o rosto de nenhuma das duas. Quando elas foram embora, o companheiro disse: "Irmão, por que não olhaste para essa moça santa, que veio te acudir com tanta devoção?" E o pai respondeu: "Quem não deve temer olhar para uma esposa de Cristo? E se pregamos com os olhos e com o rosto, ela é que tinha que olhar para mim e não eu para ela".
Muitas vezes, tratando desse assunto, dizia que toda conversa com mulheres era frívola, a não ser no confessionário, ou, se fosse o caso, dando conselhos muito breves. Dizia: "Que tem um frade menor a tratar com uma mulher, a não ser quando pede religiosamente uma santa penitência ou uma orientação para viver melhor?"
TENTAÇÖES POR QUE PASSOU
CAPITULO 81
Tentações do santo e como as supera
115. 'A medida em que aumentavam os méritos de São Francisco, mais graves eram os conflitos com a "antiga serpente". Quanto maiores seus carismas mais sutis eram as tentações e mais pesadas as lutas. Porque, embora o demônio tivesse comprovado muitas vezes que ele era combativo e valoroso, e não abandonava a luta por uma hora sequer, estava sempre procurando a agredir o seu vencedor.
A certa altura de sua vida, o santo pai teve uma gravíssima tentação do espírito, certamente para engrandecimento de sua coroa. Angustiado e sofrendo muito, afligia e macerava o corpo, orava e chorava amargamente. Depois de diversos anos nessa luta, estava um dia rezando em Santa Maria da Porciúncula, quando ouviu em espírito estas palavras: "Francisco, se tiveres fé como um grão de mostarda, dirás a uma montanha para se mudar e ela se mudará".
Respondeu o santo: "Senhor, que montanha haveria eu de mudar?" E ouviu outra vez: "A montanha é a tua tentação". Então ele disse, a chorar: "Faça-se em mim, Senhor, como dissestes". A tentação foi expulsa na mesma hora, ele ficou livre e absolutamente sossegado em seu interior.
CAPITULO 82
O demônio o chama, e o tenta para a luxúria. Como o santo vence
116. No eremitério dos frades em Sarciano, aquele malvado que sempre tem inveja dos aproveitamentos dos filhos de Deus preparou para o santo o que vamos narrar.
Vendo que o santo ainda estava se santificando mais e que não descuidava do lucro de hoje pelo de ontem, numa noite em que estava em oração no seu cubículo, chamou-o três vezes dizendo: "Francisco, Francisco, Francisco!"
Respondeu o santo: "Que queres?"
E o demônio: "Não há pecador nenhum neste mundo a quem o Senhor não perdoe, se se converter. Mas nunca vai obter misericórdia quem se matar por uma dura penitência".
O santo logo conheceu, por uma revelação, a astúcia do inimigo, que estava procurando fazer com que voltasse para uma vida morna. O inimigo não desanimou e partiu para um novo ataque. Vendo que não tinha conseguido esconder-se nessa armadilha, armou outra, uma tentação da carne. Em vão, porém, porque aquele que tinha descoberto a malícia do espírito não pôde ser enganado pela carne. Então o demônio lhe aprontou uma gravíssima tentação de luxúria.
Mas o santo pai, logo que percebeu, tirou a roupa e se açoitou duramente com uma corda, dizendo: "Vamos, irmão asno, é assim que te deves comportar, é assim que tens de ser castigado. Esta é a túnica da ordem e não tens o direito de ser falso. Se estás querendo ir para outro lugar, que te vás!"
117. Quando viu que a tentação não ia embora nem com as chicotadas, apesar de já estar com o corpo todo marcado de sangue, abriu a cela, saiu para o bosque e mergulhou, despido, na neve alta. Depois encheu as mãos e fez sete bonecos de neve. Colocou- os à sua frente e começou a dizer a seu corpo:
- "Essa maior é tua mulher, essas outras quatro são teus dois filhos e duas filhas, as outras duas são o servo e a criada que precisas ter para o teu serviço. Trata de vestir a todos, que estão morrendo de frio. Mas, se te parecer molesto todo esse cuidado por eles, tens que servir só a Deus, decididamente!"
O diabo foi logo embora confundido e o santo voltou para a cela glorificando a Deus. Um frade piedoso, que estava rezando nessa hora, viu tudo isso à luz da lua. Mas o santo ficou muito aborrecido quando soube que o frade o tinha visto de noite, e lhe proibiu que o contasse a quem quer que fosse, enquanto ele vivesse neste mundo.
CAPITULO 83
Livra um frade da tentação. Vantagem da tentação
118. Um frade, que era assediado por uma tentação, disse ao santo, um dia em que estavam a sós: "Reza por mim, meu bom pai, porque eu acho que serei libertado imediatamente de minhas tentações se te dignares rezar por mim. Estou sofrendo acima de minhas forças e sei que isso não te é oculto".
São Francisco respondeu: "Podes crer, filho, que isso me faz acreditar ainda mais que és um servo de Deus. Fica certo de que, quanto mais fores tentado, mais te hei de amar". E acrescentou: "Na verdade, ninguém pode dizer-se servo de Deus enquanto não passar por tentações e tribulações. Uma tentação vencida é como um anel com que o Senhor desposa a alma de seu servo. Há muitos que se comprazemcom os méritos que acumularam durante muitos anos e se alegram por não terem encontrado tentações. É bom que saibam que o Senhor levou em conta a fraqueza de seu espírito, se não, teriam morrido de susto, antes do combate. Só há duros combates onde há virtude perfeita".
SUA LUTA COM DEMONIOS
CAPITULO 84
Assalto dos demônios. As cortes devem ser evitadas
119. Não só foi só com tentações que Satanás o assaltou, porque o santo também teve que lutar com ele corpo a corpo.
Numa ocasião em que o Cardeal Leão de Santa Cruz lhe pediu que fosse passar uns tempos com ele em Roma, escolheu uma torre afastada, que era dividida em nove arcadas formando apartamentos que pareciam celas de eremitério.
Na primeira noite, quando estava para descansar depois de ter feito suas orações, vieram os demônios e travaram ferrenhas batalhas contra o santo de Deus. Bateram nele por muito tempo e duramente, deixando-o quase morto.
Quando foram embora e o santo conseguiu recobrar o alento, chamou o companheiro que dormia num dos cubículos e disse: "Irmão, quero que fiques perto de mim, porque estou com medo de estar sozinho. Os demônios me bateram agora mesmo". O santo tremia e tinha calafrios, como se estivesse com febre muito alta.
120. Passaram a noite inteira sem dormir, e São Francisco disse ao companheiro: "Os demônios são os carrascos de nosso Senhor, a quem ele incumbe de punir os excessos. Mas é um sinal a mais da graça de Deus não deixar impune um servo seu enquanto está vivendo neste mundo".
"Para dizer a verdade, eu não me lembro de nenhuma ofensa que, pela misericórdia de Deus, já não tenha lavado pela penitência, porque a sua bondade paterna sempre me tratou assim, mostrando-me na oração e na meditação o que lhe agradava e o que lhe desagradava. Mas pode ser que tenha permitido a seus carrascos que me atacassem porque não fica bem diante dos outros essa minha permanência na corte dos grandes".
"Os meus irmãos, que moram em lugares pobrezinhos, quando ouvirem dizer que estou com cardeais, na certa vão pensar que estou nadando em delícias. Por isso, irmão, acho melhor que aquele que é posto como exemplo fuja das cortes e também acho que os que padecem privações se fortalecem justamente por isso".
De manhã, foram contar tudo ao cardeal e se despediram dele.
É bom que os frades palacianos conheçam esse fato e saibam que são abortivos tirados do seio de sua mãe. Não condeno os que são mandados por obediência, mas repreendo a ambição, o ócio e os prazeres. E proponho Francisco como modelo para todos os que têm que obedecer. Não devemos fazer nada que desagrade a Deus, mesmo que agrade aos homens.
CAPITULO 85
Um exemplo a propósito
121. Lembro-me de um caso que não pode ser deixado de lado. Certo frade, vendo que outros irmãos moravam em um palácio, levado por não sei que vanglória, quis ser palaciano com eles. Estando cheio de curiosidade pela corte, numa noite viu em sonhos os referidos irmãos postos para fora da casa dos frades e separados de sua companhia. Viu-os também a comer numa vilíssima e imunda gamela de porcos, onde havia grão de bico misturado com esterco humano.
Diante disso, o frade ficou assustadíssimo e, quando se levantou pela manhã, já não queria mais saber de palácios.
CAPITULO 86
122. Chegou uma vez o santo, com um companheiro, a uma igreja situada longe das casas, e desejando orar sozinho, disse ao companheiro: "Irmão, gostaria de ficar sozinho aqui. Vai para o hospital e volta aqui amanhã cedinho!"
Depois de ter passado muito tempo sozinho, fazendo devotíssimas e longas orações ao Senhor, olhou ao redor procurando um lugar para descansar a cabeça e dormir. Mas, de repente, começou a se perturbar, a ter medo e fastio, tremendo no corpo inteiro. Sentia com clareza os ataques diabólicos e ouvia bandos de demônios correndo ruidosamente por cima do telhado.
Levantou-se imediatamente, foi para fora e, fazendo o sinal da cruz na fronte, disse: "Da parte de Deus todo-poderoso eu vos digo, demônios, que façais em meu corpo tudo que vos tenha sido permitido. Suportarei de boa vontade porque, não tendo maior inimigo que meu próprio corpo, vingando-se de mim havereis de vingar-me de meu adversário".
Mas eles tinham vindo para o abalar. Quando viram que possuia um espírito decidido naquele corpo frágil, ficaram envergonhados e logo sumiram.
123. O companheiro voltou ao amanhecer e, vendo o santo prostrado diante do altar, ficou esperando fora do coro e aproveitou o tempo para rezar ele mesmo fervorosamente diante da cruz. Entrou em êxtase e viu, entre muitos outros tronos no céu, um que se destacava, ornado de pedras preciosas e refulgente de toda glória. Admirou-se com o trono e ficou pensando consigo mesmo a quem pertenceria. Ouviu, então, uma voz que lhe dizia: "Este trono pertenceu a um dos que caíram, e agora está reservado para o humilde Francisco".
Quando voltou a si, o frade viu o bem-aventurado Francisco sair da oração e, pouco depois, prostrado com os braços em forma de cruz, falou com ele como se dirigisse a alguém que reinava no céu e não que vivia na terra: "Pai, pede por mim ao Filho de Deus, para que me perdoe os pecados!"
O homem de Deus estendeu a mão para que se levantasse, sabendo que alguma coisa lhe devia ter sido mostrada na oração. Depois, quando iam indo embora, o frade perguntou a São Francisco: "Pai, qual é a tua opinião a respeito de ti mesmo?" Ele respondeu: "Acho que sou o maior dos pecadores porque, se Deus tivesse demonstrado a algum criminoso toda a misericórdia que teve comigo, ele seria dez vezes mais espiritual que eu".
Então o Espírito Santo disse no coração do frade: "Fica certo de que tiveste uma visão verdadeira, porque a humildade vai levar o humilde para o trono que foi perdido pela soberba".
CAPITULO 87
Um frade libertado da tentação
124. Um frade piedoso e antigo na Ordem, atormentado por grande tribulação da carne, parecia ter sido arrebatado à profundidade do desespero. Seu sofrimento era cada dia maior, porque tinha uma consciência mais escrupulosa que discreta, que o forçava a confessar ninharias. Deveríamos confessar-nos diligentemente quando caímos nas tentações, não só porque as tivemos. Além disso, o frade se sentia tão envergonhado, apesar de não ter feito nada, que, com medo de contar tudo a uma só pessoa, dividia as suas preocupações e as contava por partes, a diversos sacerdotes.
Num dia em que estava andando com ele, o santo disse: "Irmão, não deves mais confessar teu problema a ninguém. Não tenhas medo, porque se não estás consentindo no que acontece contigo, isso vai ser contado como proveito e não como culpa. Todas as vezes que te sentires atribulado, rezarás sete pai-nossos, por mi- nha conta".
Muito admirado, sem saber como o santo tivera conhecimento disso, o frade ficou todo contente e, pouco depois, já estava livre de todo o problema.