SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO
Tomás de Celano
Parte terceira
A VERDADEIRA ALEGRIA ESPIRITUAL
CAPITULO 88
A alegria espiritual e seu louvor. O mal da tristeza
125. O santo garantia que o remédio mais seguro contra as mil armadilhas e astúcias do inimigo era a alegria espiritual. Costumava dizer: "A maior alegria do diabo é quando pode roubar ao servo de Deus o gozo do espírito. Carrega um pó para jogar nos menores meandros da consciência, para emporcalhar a candura da mente e a pureza de vida. Mas quando os corações estão cheios de alegria espiritual, a serpente derrama à toa o seu veneno mortal. Os demônios não conseguem fazer mal ao servidor de Cristo quando o vêem transbordante de santa alegria. Quem tem o ânimo abatido, desolado e melancólico é facilmente absorvido pela tristeza ou então é dominado pelos falsos prazeres".
Por isso o santo tratava de viver sempre no júbilo do coração, conservando a unção do espírito e o óleo da alegria. Evitava com muito cuidado a horrível doença da tristeza, a tal ponto que, era só sentir fraquejar um pouco, ele já corria a rezar.
Dizia: "Quando o servo de Deus se sente perturbado por qualquer motivo, como pode acontecer, deve levantar-se quanto antes para rezar, e ficar firme diante do Pai supremo até que lhe devolva sua alegria salutar. Porque, se demorar muito na tristeza, fará desenvolver-se esse mal babilônico que, se não for lavado pelas lágrimas, acabará deixando no coração uma ferrugem permanente".
CAPITULO 89
Ouve um anjo tocando cítara
126. Nos dias em que esteve em Rieti tratando dos olhos, chamou um dos companheiros, que tinha sido citarista antes de ser frade, e lhe disse: "Irmão, os filhos deste século não entendem os planos de Deus. A má inclinação dos homens passou a usar os instrumentos de música, destinados antigamente aos louvores divinos, só para agradar os ouvidos. Por isso eu gostaria, meu irmão, que fosses pedir em segredo uma cítara emprestada para tocar alguma canção bonita e dar algum alívio ao irmão corpo cheio de dores". O frade respondeu: "Pai, tenho muita vergonha, porque podem pensar que cedi a uma tentação de leviandade". O santo disse: "Então vamos esquecer isso, irmão. Há muitas coisas que é melhor deixar de fazer para não ferir a boa fama".
Na noite seguinte, estando o santo acordado e a meditar em Deus, soou de repente uma cítara de admirável harmonia e suavíssima melodia. Não se via ninguém, mas dava para perceber pelo ouvido que o citarista estava andando para lá e para cá. Com o espírito arrebatado em Deus, o santo pai sentiu um prazer tão suave com aquela doce música, que parecia ter sido transferido para outro mundo.
Quando se levantou de manhã, o santo chamou o frade de quem falamos acima, contou-lhe tudo direitinho e disse: "O Senhor, que consola os aflitos, nunca me deixou sem consolação. Eu não podia escutar as cítaras dos homens e acabei ouvindo uma outra mais bonita".
CAPITULO 90
Canta em francês quando está entusiasmado
127. Às vezes, acontecia o seguinte: A suavíssima melodia de seu coração se expressava em palavras que ele cantava em francês. E também era em alegres cânticos franceses que ele extravasava o que Deus lhe tinha murmurado furtivamente ao ouvido.
Às vezes - como pude ver com meus próprios olhos - pegava um pedaço de pau no chão, punha-o sobre o braço esquerdo, segurava na direita um arco retesado por um fio, passava-o no pedaço de pau como se fosse um violino e, balançando o corpo com ritmo, cantava ao Senhor em francês.
Freqüentemente essa festa toda acabava em lágrimas, e o júbilo se dissolvia na compaixão para com a paixão de Cristo. Então começava a suspirar sem parar, gemendo muito, e logo, esquecido do que tinha nas mãos, era arrebatado ao céu.
CAPITULO 91
Repreende um frade triste, ensinando-lhe como se comportar
128. Uma vez viu um de seus frades com semblante aborrecido e triste e, sem conseguir suportá-lo, disse: "Um servo de Deus não deve mostrar-se triste ou carrancudo, mas sempre sereno. Resolve teus problemas em tua cela, chora e geme na frente do teu Deus. Quando voltares para junto dos irmãos, deixa de lado o aborrecimento e trata de te comportares como um deles". E acrescentou, um pouco depois: "Os inimigos da salvação humana me odeiam bastante e estão sempre procurando perturbar meus companheiros porque não o conseguem comigo".
Gostava tanto de ver as pessoas cheias de alegria espiritual que em certo capítulo mandou escrever estas palavras de exortação para todos: "Cuidem os frades de nunca se mostrar mal-humorados e hipocritamente tristes. Mostrem-se jubilosos no Senhor, alegres e felizes, simpáticos como convém".
CAPITULO 92
Como tratar o corpo, para que não se queixe
129. Uma vez, o santo também disse: "Devemos cuidar discretamente do irmão corpo, para que não levante a tempestade da tristeza. Para que não se enjoe de vigiar e possa perseverar devotamente em oração, não podemos dar-lhe razões para se queixar: 'Estou morrendo de fome, não agüento o peso de teu sacrifício'. Mas, se vier com essas queixas depois de ter devorado uma ração suficiente, podeis saber que o jumento vagabundo está precisando de esporas, e que o burrinho empacado está esperando chicote".
Só neste ponto o santíssimo pai foi incoerente entre o que disse e o que fez. Porque submeteu seu corpo inocente com pancadas e privações, multiplicando seus ferimentos sem necessidade. Porque o ardor de seu espírito já tinha tornado tão leve seu corpo que, quanto mais sua alma tinha sede de Deus, maior era a mesma sede também em sua carne santificada.
A FALSA ALEGRIA
CAPITULO 93
Contra a hipocrisia e a vaidade
130. Tendo abraçado a alegria do espírito, evitava cuidadosamente a que é falsa, porque sabia que se deve querer com fervor o que aperfeiçoa, e fugir com vigilância ainda maior daquilo que prejudica. Tratava de destruir em seu germe toda vaidade, não deixando sobreviver um só momento qualquer coisa que pudesse ofender os olhos de seu Senhor. Muito freqüentemente, quando o cobriam de elogios, sofria e até gemia, ficando muito triste.
Num dia de inverno em que o santo, para cobrir seu pobre corpo, não tinha mais do que uma túnica remendada com trapos miseráveis, seu guardião, que também era seu companheiro, comprou uma pele de raposa e lha deu, dizendo: "Pai, estás doente do baço e do estômago. Eu te peço por teu amor ao Senhor que me deixes costurar este couro embaixo de tua túnica. Se não o quiseres inteiro, pelo menos permite colocar um pedaço em cima do estômago". São Francisco respondeu: "Se queres que eu agüente isso por baixo da túnica, manda pregar um remendo do mesmo tamanho pelo lado de fora, para mostrar que há uma pele escondida lá dentro".
O irmão não concordou, e ficou insistindo. No fim, o guardião acabou concordando e mandou costurar um remendo por cima do outro, para não mostrar por fora o que não era por dentro.
Sempre puseste em prática o que ensinaste, sempre foste o mesmo por fora e por dentro, sempre foste o mesmo como súdito e como superior! Não apreciavas nenhuma glorificação alheia ou particular, porque te gloriavas no Senhor!
Mas, por favor, quando disse que uma pele foi posta no lugar da outra não quis magoar os que usam peles. Pois sabemos que também aqueles que perderam o estado de inocência precisaram de túnicas de pele.
CAPITULO 94
Confessa-se hipócrita
131. Numa ocasião, ele convidou muita gente para uma pregação no tempo do Natal, e começou dizendo o seguinte: "Credes que sou um santo, e por isso viestes aqui com devoção. Mas eu vos confesso que em toda esta Quaresma minha comida foi feita com banha". E assim se acusava freqüentemente de culpa por concessões que tinha feito devido a sua enfermidade.
CAPITULO 95
Acusa-se de vanglória
132. Com igual fervor, se tinha alguma tentação de vanglória, confessava-o logo com simplicidade diante de todos. Numa ocasião, andando pela cidade de Assis, encontrou-se com uma velhinha que lhe pediu alguma coisa. Não tendo nada a não ser a capa, deu-a com apressada liberalidade. Depois sentiu uma vã satisfação por causa disso e imediatamente se confessou diante de todos dizendo que tinha sido vaidoso.
CAPITULO 96
Palavras contra os que o louvam
133. Esforçava-se para esconder em seu coração os bens do Senhor, não querendo saber de uma glória que podia ser sua ruína. Com muita freqüência, quando era louvado por muita gente, respondia mais ou menos o seguinte: "Ainda posso ter filhos e filhas. Não me louveis como se estivesse seguro! Não se deve louvar ninguém que ainda tem um fim incerto. Se aquele que fez o empréstimo retirar o que deu, sobrarão apenas o corpo e a alma, coisas que até um infiel possui".
Dizia isso aos que o louvavam. A si mesmo dizia: "Francisco, se o Altíssimo tivesse dado tudo isso para um ladrão, ele seria mais agradecido do que tu!"
CAPITULO 97
Palavras aos que se louvam
134. Dizia muitas vezes aos irmãos: "Ninguém deve felicitar-se por coisas que qualquer pecador pode fazer. Um pecador pode jejuar, rezar, chorar, castigar o próprio corpo. Mas não pode ser fiel ao seu Senhor. Disso é que podemos nos gloriar: se prestamos a Deus a glória devida, se o servimos com fidelidade e reconhecemos como seu tudo que nos deu.
O maior inimigo do homem é a carne. Não aprendeu a pensar em nada que cause arrependimento, nem a prever as coisas que deve temer. Sua preocupação é abusar das coisas presentes. E o que é pior: apropria-se e se gloria do que foi dado para a alma, e não para ela. Quer ser elogiada por suas virtudes e granjear o reconhecimento dos outros por suas vigílias e orações. Sem deixar nada para a alma, exige o reconhecimento até das lágrimas".
COMO ESCONDE SUAS CHAGAS
CAPITULO 98
Resposta que dá a uma pergunta sobre os estigmas. Cuidado com que os cobre
135. Não podemos deixar de contar como encobriu e com que cuidado procurou esconder os gloriosos sinais do Crucificado, dignos de serem venerados até pelos espíritos celestiais. Logo que o verdadeiro amor de Cristo transfigurou em sua própria imagem aquele que o amava, ele se empenhou em dissimular e esconder o tesouro com tanto cuidado, que durante muito tempo nem os que conviviam com ele souberam de nada. Foi a providência divina que não quis que isso ficasse escondido para sempre, sem aparecer aos olhos de seus queridos. Ainda mais que o lugar das chagas não permitia que estivessem sempre encobertas. Quando um de seus companheiros viu os estigmas em seus pés, disse: "Que é isso, meu irmão?" Ele respondeu: "Cuida do que é teu!"
136. Outra ocasião, o mesmo frade pediu sua túnica para lavar. Vendo que estava manchada de sangue, perguntou ao santo, quando a devolveu: "Que sangue é esse, que manchou tua túnica?" O santo apontou para um dos olhos e disse: "Pergunta o que é isto, se não sabes que é um olho".
Raramente lavava as mãos inteiras, limitando-se a molhar os dedos, para que os que estavam por perto não as vissem. Lavava os pés ainda mais rara e mais ocultamente. Quando alguém lhe pedia a mão para beijar, apresentava só os dedos e algumas vezes chegou a apresentar a manga no lugar da mão.
Calçava meias de lã para não mostrar os pés, colocando uma pele em cima das feridas para suavizar a aspereza da lã. Apesar de não conseguir esconder os estigmas das mãos e dos pés aos seus companheiros, o santo pai não gostava quando alguém olhava para eles. Por isso, cheios do espírito da prudência, os próprios confrades desviavam os olhos quando ele precisava descobrir as mãos ou os pés.
CAPITULO 99
Um frade consegue vê-las, enganando-o piedosamente
137. Quando o santo morava em Sena, apareceu por lá um frade de Bréscia, que queria muito ver as chagas do santo pai e pediu insistentemente a Frei Pacífico que lhe desse oportunidade.
Frei Pacífico respondeu: "Quando estiver para sair, vou pedir suas mãos para beijar. Quando ele as apresentar eu te farei um sinal com os olhos e verás".
Prepararam-se para sair, foram ter com o santo, ajoelharam- se e Frei Pacífico disse a São Francisco: "Abençoa-nos, mãe caríssima, e dá-me a mão para beijar". Beijou a mão que não lhe foi estendida de boa vontade, e mostrou-a ao frade. Pediu a outra, beijou-a e também a mostrou.
Quando eles saíram, o pai desconfiou de que tinha caído numa santa armadilha, como de fato acontecera. Julgando irreverente aquela piedosa curiosidade, mandou logo chamar Frei Pacífico e lhe disse: "Que Deus te perdoe, irmão, porque às vezes me dás um grande aborrecimento".
Frei Pacífico se prostrou imediatamente e perguntou com humildade: "Que aborrecimento te causei, mãe caríssima?" São Francisco não respondeu e o incidente acabou por aí.
CAPITULO 100
Um irmão vê a chaga do peito
138. Embora as chagas das mãos e dos pés, colocadas em lugar aberto, tivessem ficado à vista de alguns, só houve uma pessoa que viu a chaga do seu peito enquanto esteve vivo, e uma vez só. Porque todas as vezes que tirava a túnica para limpar, cobria com o braço direito a chaga do lado. Mas um companheiro, quando o estava massageando, escorregou a mão para a ferida e lhe causou uma dor muito grande.
Outro frade, cheio de curiosidade por ver o que estava escondido para os outros, disse um dia ao santo pai: "Pai, quer que te limpe a túnica?" O santo respondeu: "Que o Senhor te recompense, irmão, porque de fato estou precisando". Enquanto ele se despia o frade espiou com olhos atentos e viu a chaga marcada no peito. Foi só esse que a viu durante a vida, e mais nenhum até sua morte.
CAPITULO 101
Ocultamento das virtudes
139. Foi assim que esse homem renunciou a toda glória que não tivesse o sabor de Cristo. Foi assim que lançou um anátema eterno contra todos os favores humanos. Sabia que o preço da fama era o desgaste do segredo da consciência e que era muito mais perigoso abusar das virtudes que não as possuir. Sabia que não era menor virtude defender as conquistas já feitas que conquistar novas.
Ai de nós, que somos levados mais pela vaidade que pela caridade, deixando que o reconhecimento do mundo prevaleça sobre o amor de Cristo. Não discernimos nossas afeições, não provamos o espírito e, levados a agir por vanglória, achamos que agimos por caridade. Quando chegamos a fazer algum bem, por menor que seja, não suportamos o seu peso, deixamos escapar tudo nesta vida e chegamos de mãos vazias à eternidade. Conformamo-nos com a nossa falta de bondade, mas não suportamos que os outros o saibam e não acreditem em nós. Vivemos totalmente para os elogios dos homens, porque não somos nada mais que homens.
A HUMILDADE
CAPITULO 102
Humildade de São Francisco no comportamento, no porte e nos costumes. Contra o próprio parecer
140. A humildade é garantia e honra de todas as virtudes. O edifício espiritual que não a tem por base caminha para a ruína mesmo quando parece estar crescendo.
Como não podia faltar a um homem ornado de tantos dons, a humildade tinha-o cumulado com a maior fecundidade. A seu entender, não passava de um pecador, embora fosse um deslumbrante exemplar de toda espécie de santidade. Tratou sempre de edificar a si mesmo sobre a humildade, colocando o fundamento que tinha aprendido de Cristo. Esquecido do que já conseguira, só sabia ver os próprios defeitos, olhando mais o que faltava do que o que possuia. Seu único desejo era ser melhor e conquistar novas virtudes sem se contentar com as que já tinha.
Era humilde de presença, mais humilde de sentimento e muito mais humilde no conceito que fazia de si mesmo. Príncipe de Deus, não se destacava pela posição em que tinha sido posto mas unicamente por uma preciosa jóia: conseguira ser o mínimo entre os menores. Essa era a virtude, esse era o título, esse era o único sinal que indicava ser ele o ministro geral. Tinha afastado de sua boca toda grandiosidade, e também toda pompa de seus gestos e todo fausto de suas ações.
Sabia por revelação o sentido de muitas coisas, mas, diante dos outros, deixava que prevalecesse a opinião deles. Achava que as idéias de seus companheiros eram mais seguras e que a opinião dos outros era melhor que a dele. Dizia que não tinha deixado tudo por amor de Deus aquele que ainda segurava a bolsa de seu próprio modo de pensar. Preferia uma crítica a um elogio, porque a crítica o levaria a emendar-se, e o elogio, a tropeçar.
CAPITULO 103
Sua humildade diante do bispo de Terni e diante de um homem rude
141. Numa ocasião em que foi pregar ao povo de Terni, no fim do sermão o bispo da cidade o elogiou deste modo diante de todos: "Nestes últimos tempos, Deus iluminou sua Igreja com este pobrezinho desprezível, simples e ignorante. Temos que louvar sempre o Senhor, pois sabemos que não agiu dessa maneira com todas as nações".
Ouvindo isso, o santo ficou muito contente: o bispo tinha mostrado bem claro como ele era desprezível. Quando entraram na igreja, lançou-se aos pés do bispo dizendo: "Na verdade, senhor bispo, fizeste-me uma grande honra, porque foste o único que conservou o que é meu. Os outros tiram. Tiveste a discrição de separar o que é precioso do que não presta, dando o louvor a Deus e a mim o desprezo".
142. Mas o homem de Deus era humilde tanto diante dos grandes como de seus iguais e dos mais desprezados, pois estava mais preparado para ser admoestado e corrigido que para dar conselhos.
Num dia em que, fraco e doente, não podendo ir a pé, passou montado num burrinho pelo terreno em que estava trabalhando um rude camponês, este foi correndo perguntar se ele era Frei Francisco. O homem de Deus respondeu humildemente que era ele mesmo, e o outro disse: "Trata de ser tão bom como todos dizem, porque são muitos os que confiam em ti. Por isso te aconselho a não seres diferente daquilo que esperam de ti".
Ouvindo isso, Francisco, o homem de Deus, saltou do burro para o chão, prostrou-se diante daquele homem rude e lhe beijou os pés com humildade, agradecido porque se tinha dignado dar-lhe conselhos.
Apesar de ser tão famoso e tido por muita gente como santo, achava-se um miserável diante de Deus e dos homens, e não se ensoberbecia nem com a fama nem com a santidade e nem mesmo com os muitos irmãos e filhos santos que lhe tinham sido dados como começo da recompensa por seus merecimentos.
CAPITULO 104
Durante um capítulo, renuncia a ser superior. Uma oração
143. Para conservar a virtude da santa humildade, poucos anos depois de sua conversão, durante um capítulo, renunciou ao cargo de superior da Ordem diante de todos os frades, dizendo: "Desde agora, estou morto para vós. Aqui está Frei Pedro Cattani, a quem obedeceremos eu e vós todos". Inclinou-se diante dele e lhe prometeu obediência e reverência. Os frades choraram e deram altos gemidos de dor, vendo que tinham ficado órfãos de semelhante pai.
Mas São Francisco se levantou, juntou as mãos, levantou os olhos para o céu e disse: "Senhor, eu te recomendo a família que até agora tinhas entregue a meus cuidados. Agora, por causa das enfermidades que conheces, dulcíssimo Senhor, não podendo mais cuidar dela, passo-a aos ministros. Que eles sejam obrigados a te prestar contas, Senhor, no dia do juizo, se algum de seus frades tiver perecido por negligência, mau exemplo, ou mesmo por excessiva severidade".
Passou a ser súdito até a morte, comportando-se com mais humildade que qualquer outro.
CAPITULO 105
Renuncia até a seus companheiros
144. Noutra ocasião devolveu a seu vigário todos os companheiros, dizendo: "Não quero me destacar por esse privilégio. Que os frades me façam companhia em cada lugar conforme Deus lhes inspirar". E acrescentou: "Já vi um cego que, para guia de seu caminho, tinha uma cadelinha". Para ele a vantagem era renunciar a toda singularidade e toda jactância, para que a virtude de Cristo morasse nele.
CAPITULO 106
Palavras contra os que querem ser superiores. Descrição do frade menor
145. Vendo que alguns ambicionavam cargos, e achando que só essa vontade de mandar, além do mais, já os tornava indignos, dizia que não eram frades menores, pois tinham perdido o merecimento, esquecidos da vocação recebida. E verberava com muitos argumentos alguns infelizes que recebiam mal a perda dos cargos, porque não estavam querendo a carga mas a honra.
Uma vez, disse a seu companheiro: "Acho que não sou um frade menor se não tiver a disposição que vou descrever. Supõe que sou o superior dos irmãos, vou ao capítulo, prego, admoesto os frades e, no fim, dizem contra mim: 'Não nos convém um iletrado e desprezível, por isso não queremos que reines sobre nós, porque não sabes falar, és simples e idiota'. Afinal, sou vergonhosamente posto para fora, desprezado por todos. Pois eu te digo, se não ouvir essas palavras com a mesma feição, com a mesma alegria interior, com a mesma vontade de ser santo, não sou frade menor".
E acrescentou: "O cargo é um perigo, o louvor é um precipício e a humildade de ser súdito é uma vantagem espiritual. Então, por que vamos preferir os perigos às vantagens, se nos foi dado tempo para tirar proveito?"
CAPITULO 107
Como e porque quer que os frades sejam submissos aos clérigos
146. Embora quisesse que seus filhos estivessem em paz com todos os homens e se apresentassem a todos como pequeninos, ensinou com palavras e comprovou com exemplos que deviam ter a maior humildade diante dos clérigos.
Dizia: "Fomos mandados para ajudar os clérigos na salvação das almas, suprindo a sua deficiência. Cada um vai receber sua recompensa de acordo com o trabalho, não com a autoridade. Sabei, irmãos, que o proveito das almas agrada muito a Deus, e que é mais fácil conseguí-lo pela paz que pela discórdia com os clérigos.
Se eles estiverem servindo de empecilho para a salvação do povo, cabe a Deus o direito de punir e ele há de retribuir-lhes com o tempo. Portanto, sede submissos aos prelados para que, por vossa causa, não surja problema algum. Se fordes filhos da paz, lucrareis para o Senhor o clero e o povo, coisa que o Senhor acha muito mais vantajoso que conquistar o povo escandalizando o clero. Encobri as suas fraquezas, supri as suas muitas falhas e, quando tiverdes feito isso, sede mais humildes ainda".
CAPITULO 108
Respeito que demonstra para com o bispo de Ímola
147. Certa vez, chegando São Francisco a Ímola, cidade da Romanha, apresentou-se ao bispo do lugar, para pedir licença de pregar. O bispo disse: "Irmão, eu mesmo prego a meu povo, e é o quanto basta". São Francisco curvou a cabeça humildemente e saiu.
Mas voltou uma hora depois. O bispo perguntou: "Que desejas, irmão? Que queres, outra vez?" Disse o bem-aventurado Francisco: "Senhor, se um pai põe um filho para fora por uma porta, ele tem que entrar pela outra".
Vencido por essa humildade, o bispo o abraçou com rosto alegre e disse: "Tu e todos os teus frades podeis pregar de agora em diante em minha diocese com uma licença geral de minha parte. Isso foi conseguido pela tua santa humildade".
CAPITULO 109
Humildade e caridade mútuas entre ele e São Domingos
148. Encontraram-se em Roma com o bispo de Óstia, que depois foi Papa, os preclaros luminares do mundo: São Domingos e São Francisco.
Depois de terem conversado coisas muito agradáveis a respeito de Deus, disse-lhes o bispo: "Na Igreja primitiva os pastores da Igreja eram homens pobres e transbordavam de caridade, não de cupidez. Por que não fazemos bispos e prelados os vossos frades que se destacam entre os outros pela doutrina e pelo exemplo?"
Surgiu então entre os dois santos uma porfia, não para ver quem respondia primeiro, mas porque um cedia ao outro a honra e assim queria obrigá-lo a falar antes. Na realidade, superavam-se numa competição de mútua veneração.
Por fim venceu a humildade; em Francisco, porque não tomou a dianteira, e em Domingos porque obedeceu humildemente e respondeu por primeiro.
Disse pois Domingos ao bispo: "Senhor, meus frades já foram promovidos a um bom grau, se o souberem reconhecer, e, se depender de mim, não permitirei que assumam outro tipo de dignidade".
Depois que ele fez esse breve discurso, São Francisco se inclinou diante do bispo e disse: "Senhor, meus frades têm o nome de menores para não desejarem ser maiores. Sua vocação é ficar embaixo, seguindo os passos de Cristo, e dessa maneira, na glorificação dos santos, serão mais exaltados que os outros. Se quereis que produzam fruto na Igreja de Deus, conservai-os no estado de sua vocação. Reduzi-os aos graus inferiores mesmo contrariando suas vontades. Pai, eu vos suplico: para que não sejam tanto mais soberbos quanto mais pobres, nem insolentes com os outros, de maneira alguma permitais que sejam promovidos a prelaturas".
Foi essa a resposta dos santos.
149. Que dizeis disso, filhos dos santos? A presunção e a inveja estão demonstrando que sois degenerados, e a ambição de bens prova que, além disso, sois também bastardos. Vós vos dilacerais e vos devorais mutuamente. Vossas lutas e rivalidades não provêm senão da concupiscência. Há uma batalha contra as trevas, um duro combate contra os exércitos dos demônios, e vós virais a espada uns contra os outros.
Cheios de sabedoria, vossos pais tinham o rosto voltado para o propiciatório e olhavam um para o outro com familiaridade. Os filhos, cheios de inveja, não suportam olhar uns para os outros. Que pode fazer um corpo que tem o coração dividido?
Realmente, o ensino da piedade poderia dar muito mais frutos pelo mundo inteiro se os ministros da palavra de Deus fossem mais fortemente unidos pelo vínculo da caridade. O que falamos e ensinamos torna-se tanto mais suspeito quanto mais se percebe em nós, por sinais evidentes, algum fermento de ódio. Sei que o que estou falando não se aplica a alguns homens bons que existem aqui e ali, mas acho que os maus devem ser extirpados, para não prejudicar os santos.
Que dizer, enfim, dos desejam postos elevados? Que seus pais chegaram ao reino pelo caminho da humildade, não pelo caminho das alturas. Os filhos estão perdidos nas curvas da ambição e não vão encontrar o caminho da cidade em que eles moram. Que podemos esperar? Se não seguimos o seu caminho também não conseguiremos a sua glória.
Longe de nós, Senhor! Fazei-nos discípulos humildes dos mestres humildes. Fazei com que - consangüíneos de espírito - nos queiramos bem e possamos ver os filhos de vossos filhos e a paz sobre Israel.
CAPITULO 110
Como se recomendam um ao outro
150. Quando os servos de Deus deram as respostas que referimos, o bispo de Óstia ficou muito edificado com suas palavras e deu imensas graças a Deus.
Ao saírem, o bem-aventurado Domingos pediu a São Francisco que se dignasse dar-lhe a corda que tinha na cintura. São Francisco custou para fazer isso, negando-se com tanta humildade quanta era a amizade com que o outro fazia o pedido. Mas o pedido devoto acabou vencendo, e ele cingiu a corda com muito respeito embaixo de sua túnica. No fim, deram-se as mãos e fizeram as mais amigáveis recomendações mútuas. Disse um santo ao outro: "Frei Francisco, gostaria que nossas Ordens fossem uma só e vivessem de maneira semelhante na Igreja".
Quando se separaram, São Domingos disse a muitas pessoas que estavam presentes: "Na verdade eu vos digo, os outros religiosos deveriam seguir esse santo homem que é Francisco, pois tão grande é a perfeição de sua santidade".
OBEDIENCIA
CAPITULO 111
Para praticar a verdadeira obediência, quer ter sempre um guardião
151. Como esperto negociante, querendo lucrar de todas as maneiras e aproveitar em merecimentos todo o tempo presente, decidiu viver dentro dos freios da obediência e submeter-se às ordens de outro. Por isso, não só resignou a seu cargo de superior geral, mas, para melhor proveito da obediência, pediu um guardião particular a quem tivesse que respeitar especialmente como superior.
Pois disse a Frei Pedro Cattani, o primeiro a quem prometeu obediência: "Eu te peço, pelo amor de Deus, que encarregues um de meus companheiros de fazer as tuas vezes junto de mim, para que eu lhe obedeça como se fosses tu. Eu sei qual é o proveito da obediência e que não perde nem um pouco de seu tempo quem se submete às ordens de outro".
Conseguiu o que pedia e permaneceu submisso até a morte, obedecendo sempre com reverência ao próprio guardião.
Disse, uma vez, a seus companheiros: "Entre as outras coisas que a bondade de Deus se dignou conceder-me está a graça de ser capaz de obedecer a um noviço de uma hora, se me fosse dado como guardião, tanto quanto ao mais antigo e mais discreto dos frades. O súdito não deve considerar seu superior simplesmente como um homem, mas como aquele a quem se submeteu por amor. Quanto mais desprezível for o que manda, maior deve ser a humildade de quem obedece".
CAPITULO 112
Descrição do obediente. As três obediências
152. Noutra ocasião, sentado com seus companheiros, São Francisco suspirou: "É difícil encontrar no mundo inteiro um religioso que obedeça com perfeição a seu superior". Atingidos, os companheiros disseram: "Diz-nos, pai, qual é a maior e mais perfeita obediência?"
Fazendo uma comparação com um corpo morto, ele descreveu o verdadeiro obediente: "Pegai um cadáver. Ponde-o onde quiserdes. Vereis que não se incomodará de ser movimentado, não se queixará do lugar, nem reclamará por o terem largado. Se for colocado numa cátedra, vai olhar para baixo, não para cima. Se for vestido de púrpura, vai ficar duas vezes mais pálido. Esse é o verdadeiro obediente: não fica pensando em por que foi mudado, não se importa com o lugar onde o puseram, não fica pedindo para ser transferido. Se lhe dão um cargo, mantém a humildade costumeira. Quanto mais honrado, mais se acha indigno".
Uma outra vez, falando do mesmo assunto, disse que a licença dada a pedido é uma verdadeira licença, mas a que for oferecida sem ter sido pedida é uma obediência sagrada. Que uma e outra eram boas, mas a segunda, mais garantida. Mas achava que a melhor de todas, em que nem havia nada de "carne e sangue", era a obediência de ir "entre os infiéis por divina inspiração", tanto para o proveito dos outros como pelo desejo do martírio. Achava que pedir essa obediência era coisa muito aceita por Deus.
CAPITULO 113
Não se deve mandar por obediência em coisas leves
153. Achava que raramente se devia mandar por obediência e que não se devia ir atirando logo no começo uma flecha que devia ser a última. "Não se deve pôr logo a mão na espada", dizia. Mas também achava que não temia a Deus nem respeitava os homens aquele que não se apressasse a cumprir um preceito da obediência.
Nada mais verdadeiro. De fato, a autoridade na mão de um superior temerário é como uma espada na mão de um louco. E não há nada pior do que um religioso que despreza a obediência.
CAPITULO 114
Joga no fogo o capuz de um frade, porque tinha vindo sem obediência, embora trazido pela devoção
154. Uma vez, arrancou o capuz de um frade que tinha vindo sozinho sem obediência e mandou jogá-lo numa fogueira. Com medo do rosto um tanto alterado do santo, ninguém foi pegar o capuz, mas ele mesmo mandou tirá-lo das chamas e não estava nem um pouco estragado.
Isso foi devido aos méritos do santo mas, talvez, também um pouco ao merecimento do frade. Porque tinha sido levado pela devoção de ver o pai santíssimo, embora sem a discrição, que é a guia de todas as virtudes.
BONS E MAUS EXEMPLOS
CAPITULO 115
Exemplo de um bom frade. Costumes dos frades antigos
155. Afirmava que os frades menores tinham sido enviados pelo Senhor nestes últimos tempos, para darem exemplos de luz aos pecadores envolvidos nas trevas. Dizia que se sentia penetrado por suavíssimos perfumes e sentia a força de um precioso ungüento quando ouvia contar os grandes feitos dos santos frades que moravam longe pelo mundo afora.
Uma vez um certo Frei Bárbaro injuriou um outro frade diante de um nobre da ilha de Chipre. Quando viu que o outro tinha ficado magoado com suas palavras, pegou esterco de burro e, para vingar-se de si mesmo, colocou-o na boca dizendo: "Que mastigue esterco essa língua que soltou o veneno da ira em cima do meu irmão".
Vendo isso, o cavaleiro ficou atônito e foi embora muito edificado. Desde então, colocou-se à disposição dos frades, com todos os seus haveres.
Esse era o procedimento inviolável de todos os frades: se alguma vez algum deles perturbava o outro com suas palavras, logo se lançava no chão e beijava os pés do ofendido mesmo contra sua vontade.
O santo ficava exultante quando sabia que seus filhos eram capazes de dar exemplos de santidade, cobrindo com suas melhores bênçãos os que, por palavras ou ações, levavam os pecadores para o amor de Cristo. Transbordante de zelo das almas, queria que seus filhos fossem nesse ponto como ele.
CAPITULO 116
Maldição e sofrimento do santo por causa de alguns de má conduta
156. Da mesma maneira, quem comprometia a Ordem com más ações e maus exemplos incorria na sentença pesada de sua maldição.
Contaram-lhe, um dia, que o bispo de Fondi tinha dito a dois frades que se haviam apresentado com a barba mais comprida a pretexto de melhor desprezarem a si mesmos: "Tomem cuidado para que a beleza da Ordem não se deturpe com novidades desse tipo".
O santo se levantou na mesma hora, ergueu as mãos para o céu e, banhado em lágrimas, prorrompeu nesta oração, ou até melhor, nesta imprecação: "Senhor Jesus Cristo, que escolhestes doze apóstolos. Um deles caiu, mas os outros ficaram unidos a vós e pregaram o Evangelho cheios do mesmo espírito. Senhor, lembrando- vos nesta última hora da antiga misericórdia, plantastes uma Ordem de irmãos, para apoiar a fé e cumprir através deles o mistério de vosso Evangelho. Quem vai poder satisfazer por eles diante de vós, pois não só deixam de dar a todos os exemplos luminosos daquilo para que foram enviados, mas estão até apresentando obras das trevas? Que sejam amaldiçoados por vós, santíssimo Senhor, por toda a corte celestial e também por este vosso pobrezinho, os que por seu mau exemplo confundem e destroem o que por santos irmãos desta Ordem edificastes e de edificar não cessais!"
Onde estão os que se proclamam felizes com sua bênção e se gabam de ter gozado à vontade de sua familiaridade? Que Deus não permita, mas se ficar provado que praticaram as obras das trevas para perigo dos outros, e não se tiverem arrependido, ai deles! ai de sua condenação eterna!
157. Dizia que "os bons frades ficam confusos com as obras dos frades maus e, mesmo não tendo pecado, são postos em julgamento pelo exemplo dos perversos. Por isso me estão atravessando com uma cruel espada, que enterram o dia inteiro em meu coração". Por essa razão, afastava-se o mais que podia da companhia dos frades, para não ter sua dor renovada por ouvir alguma coisa má contada a respeito de algum deles.
E dizia: "Tempo virá em que esta Ordem, amada por Deus, vai ter má fama por causa dos maus exemplos, e os irmãos terão vergonha de sair em público. Mas os que entrarem na Ordem nesse tempo serão trazidos unicamente pela ação do Espírito Santo, sem contaminação da carne e do sangue, e serão verdadeiramente abençoados por Deus. Não realizarão ações de grande mérito, porque haverá um resfriamento da caridade, que é o que dá fervor aos santos, mas terão tentações imensas, e os que forem aprovados nesse tempo serão melhores que seus predecessores. Ai daqueles, porém, que ficam contentes só com a aparência de um comportamento religioso, mas vão se corrompendo na ociosidade e não resistem constantemente às tentações que são permitidas para a provação dos escolhidos: Porque só os que tiverem sido provados vão receber a coroa da vida. Por enquanto, estão sendo exercitados pela maldade dos réprobos".
CAPITULO 117
Revelação divina sobre a situação da Ordem, que nunca há de acabar
158. Mas era consolado abundamente pelas visitas de Deus, que lhe davam a segurança de que as bases de sua Ordem haveriam de permanecer firmes. Recebeu até a promessa de que novos escolhidos haveriam de substituir sempre, garantidamente, os que fossem indo embora.
Numa ocasião em que estava sofrendo por causa dos maus exemplos e se apresentou perturbado na oração, interpelou-o o Senhor: "Por que te perturbas, homenzinho? Será que eu te coloquei como pastor de minha Ordem para desconheceres que o patrono principal sou eu? Foi para isso que eu te escolhi, homem simples, para que os que desejarem sigam as obras que eu fizer em ti e que devem ser imitadas por todos os demais. Eu chamei, guardarei e apascentarei. Para reparar a queda de uns, colocarei outros: se não existirem, eu mesmo os farei nascer. Por isso, não te perturbes, mas cuida de tua salvação porque, mesmo que a Ordem ficasse reduzida a três frades, permaneceria sempre firme pela minha proteção".
Depois disso, ele costumava dizer que a santidade de um só superava a multidão dos imperfeitos, como um só raio de luz basta para dissipar densas trevas.
CONTRA A OCIOSIDADE E OS OCIOSOS
CAPITULO 118
Deus lhe revela quando é seu servo e quando não
159. Desde que este homem começou a se ligar a Deus, desprezando as coisas que passam, não permitiu mais que fosse desperdiçada a menor fração de seu tempo. De fato, apesar de já ter acumulado abundantes méritos nos tesouros do Senhor, estava sempre renovado, cada vez mais disposto para os exercícios espirituais. Achava que já era uma ofensa grave deixar de fazer alguma coisa boa, e que não avançar continuamente era retroceder.
Numa ocasião, em Sena, estando em sua cela, chamou à noite os companheiros que estavam dormindo e lhes disse: "Irmãos, roguei ao Senhor que se dignasse indicar-me quando sou seu servidor e quando não sou. Porque eu não quero ser senão seu servidor. Em sua bondade, Deus me respondeu: 'Podes ter a certeza de que és meu servo quando pensas, falas e executas coisas santas'. Foi por isso que vos chamei, irmãos. Porque quero me envergonhar diante de vós se alguma vez não fizer alguma dessas três coisas".
CAPITULO 119
Penitência contra as palavras ociosas na Porciúncula
160. Outra vez, em Santa Maria da Porciúncula, considerando o homem de Deus que o lucro da oração se perde pelas conversas inúteis depois da oração, indicou o seguinte remédio para se evitar o defeito das palavras ociosas: "Todo frade que disser uma palavra ociosa ou inútil seja obrigado a confessar imediatamente sua culpa e a dizer um pai-nosso por cada uma delas. E quero que diga um pai-nosso por sua própria alma, se for ele mesmo que por primeiro se acusar da própria falta; mas, se for primeiro avisado por outro, aplique-o pela alma dele".
CAPITULO 120
Operosidade do santo e desgosto pelos preguiçosos
161. Dizia que os preguiçosos, que não se ocupam habitualmente com nenhum trabalho, deviam ser logo vomitados da boca de Deus. Nenhum ocioso podia parecer diante dele sem ser asperamente corrigido. Ele mesmo era excelente exemplo de perfeição, estava sempre ocupado e trabalhava com as próprias mãos, sem deixar que se perdesse nada do valioso dom do tempo.
Disse uma vez: "Quero que meus frades trabalhem e estejam sempre ocupados, e os que não tiverem nenhum ofício, que o aprendam". E deu o motivo: "Para sermos menos pesados para as pessoas e para que não fiquem vagando na ociosidade o coração e a língua". Mas não deixava o pagamento ou gratificação pelo trabalho com quem os recebia: tinham que os entregar ao guardião ou à comunidade.
CAPITULO 121
Queixa feita ao santo dos preguiçosos e dos gulosos
162. Seja-me permitido, pai santo, elevar hoje ao céu a minha lamentação por aqueles que se dizem teus. São muitos os que detestam o exercício das virtudes e preferem descansar em vez de trabalhar, provando que não são filhos de Francisco mas de Lúcifer. Temos mais doentes que militantes quando, nascidos para o trabalho, deveriam ver sua vida como um combate. Não gostam de ser úteis pela ação, e pela contemplação não o conseguem. Perturbam a todos com sua singularidade, trabalham mais com a boca que com as mãos, odeiam quem os repreende e não se deixam tocar nem com a ponta dos dedos.
O que mais me escandaliza são aqueles que, como dizia São Francisco, em sua casa só conseguiam viver suando e agora, sem trabalhar, alimentam-se com o suor dos pobres. Mas não são tolos! Não fazem nada mas parecem sempre ocupados. Sabem muito bem as horas das refeições e, quando a fome aperta muito cedo, dizem que o sol é que está atrasado.
Será que posso acreditar, pai bondoso, que as monstruosidades dessas pessoas vão ser dignas de tua glória? Não merecem nem o hábito! Sempre ensinaste que, neste tempo passageiro e fugaz, precisamos nos enriquecer de méritos, para não ter que mendigar no futuro. Mas esses frades, destinados ao exílio, não estão aproveitando nem a pátria. E a doença grassa entre os súditos porque os superiores se omitem, como se fosse possível virem a escapar do suplício desses frades cujos vícios eles sustentam.
OS MINISTROS DA PALAVRA DE DEUS
CAPITULO 122
Como deve ser um pregador
163. Queria que os ministros da palavra de Deus se entregassem totalmente aos estudos espirituais, livres de qualquer outra ocupação. Dizia que tinham sido escolhidos por um grande rei para transmitir aos povos as palavras recebidas de sua boca.
E afirmava: "O pregador tem que haurir primeiro na oração, feita em segredo, aquilo que depois vai derramar em palavras sagradas. Tem que se afervorar primeiro por dentro, para não proferir palavras frias". Afirmava que esse ofício devia ser respeitado e que todos deviam venerar os que o exercem. Dizia: "Eles são a vida do corpo, eles é que combatem os demônios, eles são a luz do mundo".
Achava que os doutores em sagrada teologia mereciam honras ainda maiores. Certa ocasião fez escrever o seguinte, como norma geral: "Devemos honrar e venerar todos os teólogos e os que nos administram as palavras de Deus como aqueles que nos administram espírito e vida". Mandou escrever um dia no cabeçalho de uma carta que ele enviava a Santo Antônio: "A Frei Antônio, meu bispo".
CAPITULO 123
Contra os pregadores ávidos de glória. Explicação de um texto profético
164. Dizia que devíamos chorar pelos pregadores que muitas vezes vendem o seu ministério por um tostão do vanglória. Curava-lhes às vezes os tumores com este remédio: "Por que vos gloriais dos homens que convertestes, se foram convertidos pelas orações de meus irmãos simples?"
Assim interpretava ele o versículo: "Até a estéril deu à luz muitos filhos". "A estéril é o meu irmão pobrezinho, que não recebeu na Igreja o encargo de gerar filhos. Esse vai ter muitos filhos no dia do juízo, porque então o juiz vai computar na sua glória os que agora converte com suas orações particulares. Mas 'a que tem muitos filhos vai desfalecer' porque o pregador que se rejubila como se tivesse gerado a muitos por sua virtude vai saber então que nada teve de seu nessas pessoas".
Não gostava muito dos que falavam bonito e não de coração, desejando mais a glória de oradores que a de pregadores. E dizia que faziam uma má divisão os que davam tudo para a pregação e nada para a devoção. Louvava ao pregador que, a seu tempo, apreciava e saboreava ele mesmo a palavra de Deus.
CONTEMPLAÇÃO DO CRIADOR NAS CRIATURAS
CAPITULO 124
Amor do santo para com as criaturas sensíveis e insensíveis
165. Embora desejasse sair logo deste mundo como se fosse um desterro onde devia peregrinar, este feliz viajante sabia aproveitar o que há no mundo, e bastante. Usava o mundo como um campo de batalha com os príncipes das trevas, mas também como um espelho claríssimo da bondade de Deus.
Louvava o Criador em todas as suas obras e sabia atribuir os atos a seu Autor.
Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e, através dos espetáculos que lhe davam prazer, sabia encontrar aquele que é razão e causa de toda vida. Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo, e ouvia todas as coisas boas clamarem: "Quem nos fez é ótimo". Seguia sempre o amado pelos vestígios que deixou nas coisas e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono.
Abraçava todas as criaturas com afeto e devoção jamais vistos, e falava com elas sobre o Senhor, convidando-as a louvá-lo. Poupava os candeeiros, lâmpadas e velas, porque não queria apagar com sua mão o fulgor que era um sinal da luz eterna. Andava com respeito por cima das pedras, pensando naquele que foi chamado de Pedra. Quando usavam o versículo: "Vós me exaltastes sobre a pedra", para dizer alguma coisa mais reverente, exclamava: "Vós me exaltastes aos pés da Pedra".
Aos frades que cortavam lenha proibia arrancar a árvore inteira, para que tivesse esperança de brotar outra vez. Mandou que o hortelão deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que a seu tempo o verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e para as flores, para lembrarem a suavidade eterna aos que as olhassem.
Recolhia do caminho os vermezinhos, para que não fossem pisados, e mandava dar mel e o melhor vinho às abelhas, para não morrerem de fome no frio do inverno. Chamava de irmãos todos os animais, embora tivesse preferência pelos mais mansos.
Quem poderia contar tudo? Toda aquela Fonte de bondade, que vai ser tudo para todos, já iluminava tudo em tudo para este santo.
CAPITULO 125
As criaturas lhe retribuem o amor. O fogo que não o queima
166. Todas as criaturas procuravam retribuir o amor do santo e recompensá-lo à altura, com gratidão. Sorriam quando as acariciava, atendiam quando chamava e obedeciam quando mandava. Vamos contar alguns casos.
Quando esteve doente dos olhos e teve que permitir que o tratassem, chamaram um médico. Ele veio com um ferro de cauterizar e mandou colocá-lo no fogo até ficar em brasa. O bem-aventurado pai, animando o corpo já abalado pelo medo, assim falou com o fogo: "Meu irmão fogo, o Altíssimo te fez forte, bonito e útil, para emulares a beleza das outras coisas. Sê amigo meu nesta hora, sê delicado, porque eu sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor que te criou, para que abrande um pouco o teu calor, para que queime com suavidade e eu possa agüentar".
Depois da oração, fez o sinal da cruz e ficou esperando intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro em brasa, os frades fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao ferro alegre e sorridente.
O instrumento penetrou crepitando na carne delicada e a cauterização se estendeu desde a orelha até o supercílio. As palavras do santo testemunham melhor a dor que ele mesmo sentiu. Quando os frades, que tinham fugido, voltaram, ele disse sorrindo: "Covardes e fracos de coração, por que fugistes? Na verdade eu vos digo que não senti nem o ardor do fogo nem dor alguma em minha carne". E para o médico: "Se ainda não queimou bem, aplica outra vez!"
Percebendo a diferença daquele caso, o médico exaltou o milagre: "Eu vos digo, irmãos, que hoje vi uma coisa admirável". Acho que tinha recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava, quando queria, o que por si não é manso.
CAPITULO 126
Um passarinho pousa em sua mão
167. São Francisco ia atravessando de barca o lago de Rieti, a caminho do eremitério de Gréccio. Um pescador ofereceu-lhe um passarinho aquático, para que se alegrasse no Senhor.
O bem-aventurado pai recebeu-o com alegria, abriu as mãos e o convidou delicadamente a ir embora. O passarinho não quis ir, mas se aninhou em suas mãos. O santo levantou os olhos e se pôs a orar. Depois de um bom tempo, como se estivesse voltando a si de um outro mundo, ordenou com bondade à ave que voltasse sem medo para sua primitiva liberdade.
Recebendo a licença, e a sua bênção, o passarinho demonstrou sua alegria com um movimento do corpo e voou.
CAPITULO 127
O falcão
168. Uma vez, São Francisco tinha se retirado para um eremitério, como era seu costume, para escapar da vista e da companhia dos homens. Um falcão que por lá tinha o seu ninho fez com ele um grande pacto de amizade. Sempre cantava para acordar o santo e indicar a hora em que costumava levantar-se para os santos louvores. O santo de Deus gostava muito disso, porque toda essa atenção que o pássaro demonstrava para com ele impedia todo atrazo por preguiça.
Quando o santo estava um pouco mais doente que de costume, o falcão o poupava e não vinha dar os sinais das horas de vigília. Como se fosse instruído por Deus, tocava ao amanhecer a campainha de sua voz. Nem é para admirar que as outras criaturas venerassem tanto aquele que mais amou seu Criador.
CAPITULO 128
As abelhas
169. Construíram certa vez em uma montanha uma cabana em que o servo de Deus fez quarenta dias de rígida penitência. Quando terminou o tempo e ele saiu, a cela ficou abandonada e desocupada. Lá ficou largado o pequeno vaso de barro em que o santo tomava água.
Quando algumas pessoas foram àquele lugar para reverenciar o santo, encontraram o vaso cheio de abelhas. Nele tinham construído seus admiráveis favos, simbolizando a doçura da contemplação que o santo de Deus tinha bebido nesse lugar.
CAPITULO 129
O faisão
170. Um nobre do condado de Sena mandou levar um faisão a São Francisco, que estava doente. Este o recebeu alegremente, não pela vontade de comê-lo mas pela alegria que sempre o levava nessas ocasiões ao amor do Criador, e disse ao faisão: "Louvado seja o nosso Criador, irmão faisão!" Depois voltou-se para os frades: "Vamos ver, irmãos, se o irmão faisão prefere morar conosco ou ir para os lugares de costume, que são mais convenientes para ele".
Por ordem do santo, um frade foi levá-lo bem longe, deixando-o em uma vinha. Ele voltou imediatamente para a cela do santo. Este mandou que o levassem mais longe ainda. O pássaro, com a maior teimosia, voltou para a porta da cela e, mesmo tendo que fazer força por entre os hábitos dos frades que estavam na porta, entrou. Então o santo mandou que cuidassem de alimentá-lo, abraçando-o e conversando carinhosamente com ele.
Um médico que era devoto do santo de Deus, quando viu isso, pediu o faisão aos frades, não para come-lo, mas desejando criá-lo por reverência ao santo. Levou-o para casa, mas o faisão, como que ofendido por ter sido afastado do santo, não quis saber de comer enquanto não gozou de sua presença. Maravilhado, o médico levou o faisão de volta ao santo e contou tudo que tinha acontecido. Logo que foi posto no chão, ele olhou para o pai, esqueceu a tristeza e começou a comer com satisfação.
CAPITULO 130
A cigarra
171. Havia na Porciúncula, ao lado da cela do santo, uma figueira onde uma cigarra costumava cantar com suavidade. Uma vez, o bem-aventurado pai lhe estendeu a mão e a chamou bondosamente dizendo: "Cigarra, minha irmã, vem cá!" Como se tivesse razão, ela foi logo para sua mão. E ele: "Canta, minha irmã cigarra, louva com júbilo o Senhor Criador!"
Ela obedeceu depressa, começou a cantar e não parou enquanto o santo, juntando seus louvores ao cântico, não a mandou de volta para o seu lugar. Lá ficou por oito dias, como se estivesse presa. Quando o santo descia de sua cela, tocava-a com as mãos e mandava que cantasse. Ela estava sempre pronta para obedecer-lhe.
Disse o santo a seus companheiros: "Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós". Com sua permissão, ela foi embora, e não apareceu mais.
Os frades ficavam admiradíssimos, vendo tudo isso.
A CARIDADE
CAPITULO 131
Caridade de São Francisco. Apresenta-se como um modelo de perfeição na salvação das almas
172. Já que a força do amor tinha feito dele um irmão das outras criaturas, não nos admiraremos de que a caridade de Cristo tenha feito dele um irmão ainda maior daqueles que foram distinguidos pela semelhança com o Criador.
Dizia que não havia coisa mais importante que a salvação das almas e o provava com freqüência ainda maior lembrando que o Unigênito de Deus dignou-se ser crucificado pelas almas. Daí seu esforço na oração, sua pregação constante e seu excesso nos exemplos que dava.
Achava que não seria amigo de Cristo se não amasse as almas que Cristo amava. Essa era a principal causa de sua veneração pelos mestres de teologia, que eram auxiliares de Cristo e exerciam com ele o mesmo ofício.
Mas amava de maneira especial, profunda, de todo o coração, os próprios irmãos, por conviverem da mesma fé e partilharem da herança eterna.
173. Todas as vezes que lhe chamavam a atenção pelo rigor da vida que levava, respondia que tinha sido dado à Ordem como modelo, para ser como uma águia, animando seus filhotes a voar. Por isso, embora sua carne inocente já se submetesse espontaneamente ao espírito, sem precisar de nenhum castigo por causa de ofensas, ele a cumulava de sacrifícios para dar exemplo, mantendo-se no caminho duro só para animar os outros.
E com razão, porque costumamos olhar mais para as ações que para as palavras dos superiores. E era com as obras, pai, que discursavas mais suavemente, persuadias com mais facilidade e provavas com certeza maior.
Se os superiores falarem as línguas dos homens e dos anjos mas não derem exemplo de caridade, para mim valem pouco, e para si mesmos não valem nada. Mas, onde o que repreende não é temido e o capricho substituiu a razão, será que os selos da autoridade vão ser suficientes para salvar?
De qualquer jeito, devemos fazer o que mandam, para que a água chegue ao canteiro ainda que seja por um canal ressecado. Enquanto isso, vamos colhendo rosas no meio dos espinhos, de maneira que os maiores sirvam os menores.
CAPITULO 132
Solicitude com os súditos
174. Quem é que já teve a solicitude de São Francisco pelos súditos? Levantava sempre as mãos ao céu pelos verdadeiros israelitas e, esquecendo de si mesmo, pensava primeiro na salvação dos irmãos. Lançava-se aos pés da majestade de Deus, oferecia um sacrifício espiritual pelos seus filhos, forçava Deus a beneficiá- los. Tinha todo amor pelo pequeno rebanho que arrastara após si, cuidando que, depois de ter deixado o mundo, não viessem a perder também o céu.
Achava que não seria admitido à glória do céu se não fizesse gloriosos em sua companhia aqueles que lhe tinham sido confiados, pois os estava dando à luz do espírito muito mais trabalhosamente do que as suas mães os tinham posto no mundo.
CAPITULO 133
Compaixão para com os enfermos
175. Tinha muita compaixão para com os doentes e muita solicitude pelas suas necessidades. Quando seculares piedosos lhe mandavam fortificantes, dava-os aos outros doentes, embora precisasse mais que todos. Assumia os sofrimentos de todos os que padeciam, dizendo-lhes palavras de compaixão quando não podia ajudar de outra maneira.
Chegava até a comer nos dias de jejum, para que os doentes não ficassem com vergonha de comer. E não se envergonhava de pedir carne publicamente, pela cidade, para dar a um irmão doente.
Mas exortava os doentes a sofrerem as privações com paciência e a não se escandalizarem quando não eram satisfeitos em tudo. Por isso fez escrever estas palavras numa de suas regras: "Rogo a todos os meus irmãos doentes que em suas enfermidades não fiquem irados ou perturbados contra Deus ou contra os irmãos. Não peçam remédios com muita insistência e não tenham muito desejo de livrar a carne que logo vai morrer e que é inimiga da alma. Saibam ser agradecidos por tudo, desejando ser aquilo que Deus também deseja deles. Porque Deus instrui com os sofrimentos dos castigos e das doenças aqueles que predestinou para a vida eterna, como ele mesmo disse: 'Eu corrijo e castigo aqueles a quem amo'".
176. Uma vez levou para a vinha um doente que sabia estar com vontade de chupar uvas. Sentando-se embaixo da parreira, começou ele mesmo a comer, para dar coragem ao outro.
CAPITULO 134
Compaixão para com os doentes do espírito. Os que fazem o contrário
177. Mas tinha maior clemência e suportava com mais paciência os doentes que sabia serem como meninos atirados dum lado para outro, agitados pelas tentações e enfraquecidos no espírito. Por isso evitava as correções ásperas e, onde não via perigo, poupava a vara para poupar a alma. Dizia que era próprio do superior, que é um pai e não um tirano, evitar as ocasiões de erros e não permitir que viesse a cair aquele que, uma vez no chão, teria dificuldade para se levantar.
Como decaímos em nosso tempo! Não só deixamos de levantar ou de segurar os que estão fracos mas, às vezes, até os empurramos para caírem. Não nos importamos de tirar do pastor supremo uma ovelhinha pela qual clamou fortemente entre lágrimas na cruz. Tu eras diferente, pai santo, que preferias corrigir e não perder os que erravam.
Mas sabemos que, em alguns, as doenças da vontade própria estão profundamente arraigadas e precisam de fogo e não de pomadas. É claro que para muitos é mais saudável quebrar com uma verga de ferro que acariciar com as mãos. Mas tudo tem seu tempo: o óleo e o vinho, a vara e o cajado, o zelo e a piedade, a queimadura e a unção, o cárcere e o colo. O Pai das misericórdias e o Deus das vinganças quer tudo isso, mas deseja mais a misericórdia que o sacrifício.
CAPITULO 135
Os frades espanhóis
178. Às vezes, quando o bom odor de seus filhos chegava até ele, este homem santíssimo sentia-se maravilhosamente arrebatado em Deus e se rejubilava em espírito.
Um clérigo espanhol, devotado a Deus, teve uma vez a alegria de fazer uma visita e de conversar com São Francisco. Contou uma porção de coisas sobre os frades que estavam na Espanha e, entre outras, alegrou-o com esta narração:
"Em nossa terra, os teus frades moram em um eremitério pobrezinho e organizaram a vida de maneira que metade deles cuida dos trabalhos domésticos e metade se entrega à contemplação. Cada semana os que estavam na atividade passam para a contemplação, e os contemplativos substituem o recolhimento pelos trabalhos".
"Certo dia, posta a mesa e dado o sinal para chamar os ausentes, compareceram todos menos um, que era dos contemplativos. Depois de esperar um pouquinho, foram à sua cela chamá-lo para comer, apesar de estar sendo servido pelo Senhor numa mesa muito mais rica".
"Encontraram-no prostrado com o rosto em terra, estendido em forma de cruz, sem demonstrar movimento nenhum, nem respiração. Duas velas ardiam a seus pés e junto da cabeça, iluminando admiravelmente a cela".
"Deixaram-no em paz para não perturbar sua unção, 'para não acordar a esposa enquanto ela não quisesse'. Os frades ficaram espiando pelos buracos da cela, 'ficando atrás da parede e olhando pela fechadura'. Enfim, enquanto 'os amigos auscultavam aquela que morava nos jardins', a luz desapareceu de repente e o frade voltou a si. Levantou-se depressa, foi à mesa e deu sua culpa por causa do atraso".
"Isso aconteceu em nossa terra", disse o espanhol.
São Francisco não se agüentava de alegria, inebriado com o perfume de seus filhos. Levantou-se imediatamente para louvar a Deus e, como se sua única glória fosse essa de ouvir coisas boas sobre os frades, falou do fundo de seu coração: "Dou-vos graças, Senhor, que sois o santificador e o guia dos pobres, que me alegrastes por esta notícia a respeito de meus irmãos! Eu vos peço que abençoeis com a maior bênção aqueles frades e que santifiqueis com um dom especial todos os que valorizam sua profissão pelos bons exemplos!"
CAPITULO 136
Contra os que vivem mal nos eremitérios. Quer que tudo seja comum
179. Embora tenhamos visto até agora como a caridade do santo se alegrava com os sucessos de seus amados irmãos, sabemos que não deixou de corrigir com energia os que, nos eremitérios, não viviam de acordo.
Porque há muitos que transformam o lugar da contemplação em lugar de ociosidade, fazendo do modo de vida eremítico, inventado para aperfeiçoar as almas, uma sentina de seus maus desejos. A lei para esses anacoretas de nosso tempo é cada um viver como quer.
Isso não vale para todos: sabemos que há santos que vivem hoje nos eremitérios observando as leis da melhor forma possível. Sabemos também que os pais que nos precederam foram flores da solidão. Que não decaiam os eremitas de nosso tempo daquela primitiva beleza, cujo merecido louvor permanece para sempre!
180. Aconselhando todos a serem caridosos, São Francisco também mandava que demonstrassem afabilidade e um tratamento familiar: "Quero que meus frades mostrem que são filhos da mesma mãe. Que cada um dê com liberalidade ao outro o hábito, o cordão, qualquer coisa que ele pedir. Ponham em comum os livros e tudo que possam desejar, insistindo até com os outros a que tomem o que precisam".
E era sempre o primeiro a fazer tudo isso, para que também nessas coisas não viesse a dizer o que já não tivesse sido realizado nele mesmo por Cristo.
CAPITULO 137
Dá a túnica a dois frades franceses
181. Dois frades franceses, homens de grande santidade, encontraram-se com São Francisco. Tiveram uma alegria enorme, duplicada pelo fato de se terem esforçado para isso havia muito tempo. Depois de uma carinhosa acolhida e de uma agradável conversação, sua ardente devoção os levou a pedir a São Francisco que lhes desse a túnica. O santo tirou-a na mesma hora, ficando seminu, e lha entregou piedosamente. Recebeu em troca uma outra mais pobre de um deles, e a vestiu.
Estava disposto não só a dar coisas dessas mas até a si mesmo, e entregava com muita alegria tudo que lhe pedissem.
A DETRAÇÃO
CAPITULO 138
Punição para os detratores
182. Como o coração cheio de caridade detesta o que é detestável aos olhos de Deus, essa era a atitude de São Francisco. Execrava os detratores com horror, e dizia que tinham veneno na língua e envenenavam os outros. Por isso evitava encontrar-se com os maldizentes, pulgas que picam quando falam, e desviava os ouvidos para não manchá-los, como nós mesmos vimos.
Certa vez ouviu um frade denegrindo a fama de outro. Virou- se para Frei Pedro Cattani, seu vigário, e proferiu este terrível juízo: "A Ordem corre grande perigo, se não neutralizar os difamadores. Bem depressa o perfume suavíssimo de muitos vai começar a cheirar mal se não for fechada a boca fétida dessa gente. Levanta-te, levanta-te, faz uma inquisição severa e, se descobrires que o frade acusado é inocente, inflige um castigo tão duro no acusador que os outros nunca mais se esqueçam. Se tu mesmo não o puderes punir, entrega-o nas mãos do atleta florentino!" (Chamava de lutador Frei João de Florença, homem grande e muito forte). "Quero que tenhas o maior cuidado, tu e todos os ministros, para que essa peste não se alastre".
Disse diversas vezes que aquele que despojasse seu irmão da boa fama devia ser despojado de seu hábito e não poderia levantar os olhos para Deus enquanto não devolvesse o que tinha tirado. Foi por isso que os frades daquele tempo abominaram esse vício de maneira especial e estabeleceram firmemente que haveriam de evitar com todo cuidado qualquer coisa que diminuísse a honra dos outros ou que soasse a desprezo.
Ótima solução! Que é o detrator senão o fel dos homens, o fermento da maldade, a desonra do mundo? Que é o falador senão o escândalo da Ordem, o veneno do claustro, a quebra da unidade?
Infelizmente a superfície da terra está cheia de animais venenosos, e não se pode esperar que algum dos homens de valor escape das mordidas dos invejosos. Oferecem prêmios aos delatores e às vezes se derruba a inocência para dar a palma à falsidade. Quando alguém não consegue viver com sua honradez, ganha comida e roupas devastando a honradez dos outros.
183. A esse respeito, dizia muitas vezes São Francisco: "Isto é o que pensa o murmurador: 'Minha vida não é perfeita, não tenho ciência nem algum outro dom particular, e por isso não estou bem nem com Deus nem com os homens. Já sei o que vou fazer: porei defeito nos escolhidos, e assim conseguirei o favor dos importantes. Sei que meu superior é também um homem, que já agiu comigo do mesmo jeito, por isso basta cortar os cedros que o meu arbusto há de se destacar na floresta. Vamos, miserável, alimenta-te de carne humana e, como não podes viver de outra maneira, rói as entranhas dos irmãos!'"
"Pessoas assim esforçam-se por parecer, não por ser boas. Acusam os vícios, mas não os corrigem em si mesmas. Só louvam uma pessoa quando querem ser favorecidas por sua autoridade, mas calam os louvores que acham que não vão chegar aos ouvidos dos interessados. Em troca de elogios funestos, vendem a palidez de suas faces macilentas, para parecerem espirituais, com direito de julgarem os outros sem serem julgados por ninguém. Querem ser chamados de santos, sem o ser, e gostam de ter o nome dos anjos, mas sem a sua virtude".
DESCRIÇÃO DO MINISTRO GERAL E DOS OUTROS MINISTROS
CAPITULO 139
Como deve agir com os companheiros
184. Estando já o santo próximo de seu fim e aguardando o chamado do Senhor, um frade que sempre se interessava muito pelas coisas de Deus, levado por sua devoção para com a Ordem, disse- lhe o seguinte: "Pai, tu vais passar, e a família que te seguiu vai ser deixada no vale de lágrimas. Indica alguém que conheças na Ordem, em quem teu espírito possa descansar e a quem possas confiar com segurança a responsabilidade do serviço geral da Ordem".
São Francisco respondeu, entremeando suas palavras de suspiros: "Filho, não vejo ninguém que seja suficientemente capaz de ser o comandante de um exército tão numeroso, pastor de um rebanho tão grande. Mas vou tentar descrever ou, como se diz, fazer para vós o retrato de como deve ser o pai desta família".
185. "Deve ser um homem - prosseguiu - de vida austeríssima, de grande discrição, de fama intocável. Um homem que não tenha amizades particulares, para que não tenha mais amor por uma parte, gerando um escândalo no conjunto. Um homem amigo do esforço pela oração, que reserve algumas horas para sua alma e outras para o rebanho que lhe foi confiado. Deve começar logo de manhã com a missa, recomendando à proteção divina a si mesmo e o rebanho, em longa oração. Depois da oração, deve colocar-se em público à disposição de todos para ser 'depenado', para responder a todos, para atender a todos com mansidão".
"Deve ser um homem que não olhe as coisas pelo ângulo sórdido do favoristismo, que se preocupe tanto com os menores e os simples quanto com os instruídos e os maiores. Um homem que, mesmo que se distinga pelo dom da cultura, se destaque mais ainda pela simplicidade, e que cultive a virtude. Um homem que deteste o dinheiro, que é o que mais prejudica nossa profissão de perfeição, e que, chefe de uma Ordem pobre, possa ser imitado por todos, sem jamais abusar da bolsa".
"Para si mesmo deve contentar-se com o hábito e um livrinho de notas; para o serviço dos frades, com a caixa de penas e o carimbo. Não seja colecionador de livros, nem muito entregue às leituras, para não roubar de seu encargo o que dá aos estudos. Deve ser um homem que console os aflitos, porque é o último refúgio dos atribulados; para que, se não tiver os remédios para a saúde, os enfermos não acabem se desesperando. Para amansar os atrevidos, humilhe-se, ceda alguma coisa de seus direitos, para ganhar sua alma para Cristo. Não feche as entranhas de sua misericórdia para os egressos da Ordem, pobres ovelhas tresmalhadas, sabendo que são muito fortes as tentações que podem levar a essa queda extrema".
186. "Quisera que todos o respeitassem por fazer as vezes de Cristo, e que o atendessem com bondade em tudo que for necessário. Mas também seria oportuno que ele não se alegrasse com as honras e não tivesse maior prazer com os favores que com as injúrias. Quando precisasse comer por estar enfraquecido ou cansado, que preferisse fazê-lo em público e não às escondidas, para que os outros também não fiquem envergonhados de alimentar seus corpos enfraquecidos".
"Cabe principalmente a ele distinguir as consciências escondidas, descobrir a verdade em seus veios mais profundos e guardar seus ouvidos dos falatórios. Enfim, deve ser tal que jamais macule a beleza austera da justiça pelo desejo de preservar a própria honra, e veja em seu alto ofício mais uma carga que um cargo. Mas, para que a excessiva mansidão não favoreça a moleza e para que a indulgência demasiada não acabe com a disciplina, ame a to- dos mas saiba também ser temido pelos que praticam o mal".
"Gostaria que tivesse companheiros cheios de virtude, que, como ele, dessem exemplo de todas as coisas boas: austeros consigo mesmos, fortes diante das angústias, mas também devidamente afáveis, para receberem com santa alegria todos os que chegarem".
"Assim deveria ser o ministro geral da Ordem", concluiu.
CAPITULO 140
Os ministros provinciais
187.O feliz pai queria que todos os ministros provinciais tivessem essas mesmas qualidades, embora devam brilhar de maneira especial no ministro geral. Queria que fossem afáveis com os menores e tão bondosos que os delinqüentes não temessem entregar-se à sua clemência. Queria que fossem moderados nos preceitos, compassivos nas ofensas, mais dispostos a suportar que a devolver injúrias, inimigos dos pecados e médicos dos pecadores. Numa palavra, queria que sua vida fosse para os outros um espelho da disciplina. Mas também queria que todos os respeitassem e amassem, porque carregam o peso das solicitudes e dos trabalhos.
E afirmava que seriam dignos dos maiores prêmios diante de Deus os que governassem as almas a eles confiadas dessa forma e de acordo com essas normas.
CAPITULO 141
Resposta do santo sobre os ministros
188. A um frade que lhe perguntou, uma vez, por que tinha deixado o cuidado de todos os irmãos entregando-os a outrem, como se nada tivessem a ver com ele, disse: "Filho, amo os frades como posso. Mas haveria de amá-los mais ainda se seguissem meus passos, e não me alhearia deles. Porque há alguns superiores que os conduzem por outros caminhos, propondo-lhes exemplos dos antigos e fazendo pouco de meus avisos. Mas depois vão aparecer os resultados do que estão fazendo".
Pouco depois, muito doente, endireitou-se na cama pela veemência do espírito e disse: "Quem são esses que arrebataram de minhas mãos a Ordem que é minha e dos frades? Se eu for ao capítulo geral, vou mostrar-lhes qual é a minha vontade".
O frade a quem nos referimos perguntou: "Não vais mudar os ministros provinciais que há tanto tempo abusam da liberdade?" Gemendo, o pai deu esta terrível resposta: "Vivam como quiserem: é preferível o mal de poucos que a perdição de muitos!"
Não se referia a todos mas a alguns, que estavam havia tanto tempo como superiores que parecia terem o cargo como uma propriedade.
O que mais recomendava aos superiores regulares era isto: não mudar os costumes a não ser para melhor, não se comprometer com favores, não exercer um poder mas cumprir um encargo.
A SANTA SIMPLICIDADE
CAPITULO 142
O que é a verdadeira simplicidade
189. A santa simplicidade, filha da graça, irmã da sabedoria, mãe da justiça, era o ideal a que desejava chegar o santo e a virtude que mais apreciava nos outros. Mas não aprovava qualquer simplicidade: apenas aquela que, contente com o seu Deus, despreza todas as outras coisas.
É aquela que se gloria no temor de Deus, que não sabe fazer nem dizer mal. Aquela que examina a si mesma e não condena ninguém, que entrega o devido comando ao melhor e não deseja mandar em ninguém. Aquela que não acha que as melhores glórias são as da cultura e por isso prefere fazer e não aprender ou ensinar. Aquela que, em todas as leis divinas, deixa para os que vão perecer toda verbosidade, ostentação e preciosidade, enfeites e curiosidades, e vai atrás da medula e não das casca, do conteúdo e não do invólucro, não das muitas coisas mas daquele bem que é o grande, o maior, o estável.
O pai santíssimo exigia essa simplicidade tanto nos frades letrados como nos sem cultura, achando que não era adversária mas irmã da sabedoria, ainda que os pobres de ciência tenham mais facilidade para a adquirir e pôr em prática. Por isso, disse nos Louvores das Virtudes: "Salve, rainha sabedoria! Deus te salve, com tua irmã a pura e santa simplicidade!"
CAPITULO 143
Frei João, o simples
190. Passando São Francisco por uma povoado perto de Assis, um certo João, homem muito simples, que estava arando o campo, foi ao seu encontro e disse: "Quero que me faças frade, porque há muito tempo desejo servir a Deus". O santo ficou muito contente ao ver a simplicidade do homem, e lhe respondeu: "Irmão, se queres ser nosso companheiro, dá aos pobres o que podes ter e, quando não tiveres mais nada, eu te receberei".
Ele soltou os bois na mesma hora e ofereceu um a São Francisco, dizendo: "É justo que demos um aos pobres! Porque essa é a parte que me cabe dos bens de meu pai".
O santo sorriu e gostou dessa prova de simplicidade. Mas os pais e irmãos mais moços, quando souberam disso, apareceram chorando, mais pesarosos de perder o boi que o homem. Disse-lhes o santo: "Não se assustem, eu devolvo o boi e fico com o irmão". E levou o homem consigo, vestiu-o com o hábito da Ordem e o escolheu como companheiro especial por causa da simplicidade.
Quando São Francisco se punha a rezar em algum lugar, o simples João imitava todos os seus gestos e expressões. Cuspia quando ele cuspia, tossia quando tossia, acompanhava-o quando suspirava e quando chorava. Se o santo levantava os braços para o céu, ele também levantava, olhando-o atentamente como um modelo e imitando-o em tudo.
O santo percebeu isso e perguntou, uma vez, por que o fazia. Ele respondeu: "Prometi fazer tudo que fazes: não posso deixar escapar nada". O santo se alegrou com ele por essa simplicidade pura, mas proibiu com brandura que continuasse daí em diante.
O homem simples viveu pouco tempo nessa pureza, e foi para junto do Senhor. O santo propunha freqüentemente sua vida como um modelo e tinha gosto de chamá-lo não de Frei João mas de São João.
Observemos que é próprio da piedosa simplicidade viver de acordo com as leis dos antigos e se apoiar sempre nos exemplos e nos costumes dos santos. Tomara que os sábios deste mundo seguissem São Francisco, agora que reina no céu, com o mesmo empenho que teve esse irmão piedoso e simples para conformar-se a ele na terra! Finalmente, tendo seguido o santo em vida, precedeu-o na glória.
CAPITULO 144
Encoraja a união entre seus filhos. Uma parábola sobre este assunto
191. Sempre manteve um desejo constante e um esforço vigilante para preservar entre seus filhos o vínculo da união, para que fossem formados pacificamente no seio da mesma mãe aqueles que tinham sido atraídos pelo mesmo espírito e gerados pelo mesmo pai. Queria que os grandes se unissem aos pequenos, que os sábios e os simples vivessem em comunhão fraterna e que os que se encontrassem longe sentissem que estavam ligados pelo amor.
Uma vez, contou esta parábola, rica de ensinamentos: "Vamos supor que todos os religiosos da Igreja se reuniram em um só capítulo geral! Estando presentes letrados e analfabetos, sábios e os que sabem agradar a Deus mesmo sem sabedoria, encomendaram um sermão a um dos sábios e a um dos simples".
"O sábio, por ser sábio, calculou consigo mesmo: 'isto aqui não é lugar de demonstrar conhecimentos, porque estão presentes homens perfeitos na ciência, e não convém que eu me faça notar pela afetação, dizendo coisas sutis diante de pessoas mais sutis. Talvez seja mais proveitoso falar com simplicidade'".
"Amanheceu o dia combinado, reuniram-se as congregações de santos, sequiosas de ouvir o sermão. O sábio se apresentou vestido de saco, com a cabeça coberta de cinza e, diante da admiração de todos, pregando mais com o exemplo, foi breve nas palavras. Disse: 'Prometemos grandes coisas, maiores são as que nos foram prometidas. Observemos as primeiras e suspiremos pelas segundas. O prazer é breve, o castigo é perpétuo, o sofrimento é pequeno, a glória não tem fim. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos, todos terão a sua retribuição"'.
"Os ouvintes romperam em lágrimas com o coração compungido e veneraram aquele verdadeiro sábio como um santo.
"'Vejam só, disse o simples em seu coração. O sábio me tirou tudo que eu ia fazer e dizer. Mas já sei o que farei. Conheço alguns versículos de salmos: vou agir como um sábio, já que ele agiu como um simples'".
"Chegou a sessão do dia seguinte, o simples se levantou, propôs um Salmo como tema. Inspirado pelo Espírito Santo, falou com tanto fervor, com tanta sutileza, com tanta doçura, por um dom que só podia vir de Deus, que todos ficaram muito admirados e disseram: 'Deus fala com os simples'".
192. Depois o homem de Deus dava esta explicação para a parábola que tinha contado: "Nossa Ordem é uma assembléia muito grande, um verdadeiro capítulo geral, que se reuniu de todas as partes do mundo para viver de uma maneira comum. Nela os sábios aproveitam o que é dos simples, vendo que os ignorantes buscam as coisas do céu com inflamado vigor e que os não instruídos pelos homens aprenderam com o Espírito as coisas espirituais.
Nela também os simples aproveitam o que é dos sábios, porque vêem que nela convivem com eles homens preclaros, que poderiam gozar de grande conceito no mundo. É isso que faz brilhar a beleza desta bem-aventurada família, cuja variedade tanto agrada ao Pai de família".
CAPITULO 145
Como deseja que cortem o cabelo
193. Quando cortava o cabelo, muitas vezes São Francisco dizia ao barbeiro: "Cuidado para não me fazeres uma coroa grande! Quero que meus irmãos simples tenham uma parte em minha cabeça". Queria, justamente, que a Ordem fosse a mesma tanto para os pobres e os iletrados como para os ricos e os sábios. Dizia: "Diante de Deus não há acepção de pessoas, e o ministro geral da Ordem, que é o Espírito Santo, pousa do mesmo jeito sobre o pobre e o simples". Quis pôr essas palavras na Regra, mas não pôde porque já estava bulada.
CAPITULO 146
Como quer que se despojem os homens cultos que entram na Ordem
194. Certa vez, disse que um homem de grande cultura deveria resignar, de certa forma, até à ciência, quando entrava na Ordem, para que, despojado dessa posse, se lançasse despido aos braços do Crucificado.
"A ciência - dizia - torna muitas pessoas indóceis, fazendo com que alguma coisa rígida nelas resista aos ensinamentos humildes. Por isso gostaria que o homem letrado começasse por me dizer esta prece: 'Irmão, vivi muito tempo no mundo e não conheci de verdade o meu Deus. Peço que me concedas um lugar afastado do barulho do mundo, para que possa rever meus anos na dor, para que recorde as dispersões de meu coração e me reforme para o que é melhor'. Que pensais que vai acontecer com quem começar desse jeito? Como um leão solto, sairá com força para tudo, e a boa seiva que hauriu no começo continuará a se desenvolver para o seu proveito. Este é que seria o mais indicado para o verdadeiro ministério da palavra, porque haveria de derramar do que estivesse fervendo dentro dele".
De fato, é um ensinamento sublime! Que mais precisa quem vem do mundo das dissimulações que limpar e enxugar com exercícios de humildade os afetos seculares que andou ajuntando e arraigando em si mesmo durante tanto tempo? Quem quer que entre nessa escola de perfeição bem depressa alcançará a santidade.
CAPITULO 147
Como deseja que estudem. Aparição a um companheiro ocupado com pregações
195. Sofria quando a ciência era procurada com desprezo da virtude, principalmente se a pessoa não permanecia na vocação que tinha recebido desde o começo. Dizia: "Os meus irmãos que se deixam arrastar pela curiosidade da ciência vão se encontrar de mãos vazias no dia da retribuição. Gostaria que se reforçassem mais com virtudes para que, vindo os tempos de tribulação, tivessem o Senhor consigo na hora da angústia. Porque virá uma tribulação em que os livros não vão servir para nada, e serão jogados nas janelas e nos desvãos".
Não dizia isso porque não gostasse dos estudos das Escrituras, mas para afastar a todos dos estudos supérfluos, pois preferia que fossem bons pela caridade e não sabidos por curiosidade.
Pressentia que não tardariam a vir tempos em que a ciência seria ocasião de ruína, enquanto o espírito seria uma base sólida para a vida espiritual.
A um irmão leigo que foi pedir sua licença para ter um saltério deu cinza em vez do livro. A um de seus companheiros que estava ocupado com pregações apareceu uma vez depois de sua morte, proibiu que continuasse nesse caminho e mandou que seguisse o da simplicidade. Deus é testemunha de que, depois dessa visão, o frade gozou de tal consolação que, por muitos dias, teve a impressão de que as palavras do pai ainda estavam em seus ouvidos como um orvalho penetrante.
DEVOÇÕES PARTICULARES DO SANTO
CAPITULO 148
Como se comove ao lhe falarem do amor de Deus
196. Acho que vale a pena e pode ser interessante falar um pouco das devoções particulares de Francisco. Apesar de ser um homem devoto em todos os pontos, pois gozava da unção do Espírito, tinha especial inclinação por algumas formas de piedade.
Entre outras expressões usadas nas conversas comuns, não podia ouvir falar em "amor de Deus" sem se comover profundamente. Logo que ouvia falar em amor de Deus ficava fora de si, comovido, inflamado, como se suas cordas mais íntimas vibrassem com esse som exterior.
Dizia que era uma prodigalidade de nobres pagar as esmolas com o amor de Deus, e que eram pessoas muito tolas as que davam maior valor ao dinheiro. Ele mesmo observou sem nenhuma falha, até a morte, o propósito que tinha feito quando ainda estava no mundo, de jamais rejeitar um pobre que pedisse por amor de Deus.
Uma vez um pobre lhe pediu por amor de Deus e ele não tinha nada. Pegou escondido uma tesoura e ia dar-lhe um pedaço da própria roupa. Não chegou a fazer isso porque foi surpreendido pelos frades, mas fez com que dessem outra coisa ao pobre. Disse: "Temos que amar muito o amor daquele que tanto nos amou".
CAPITULO 149
Devoção aos anjos. O que faz por devoção a São Miguel
197. Tinha a maior veneração pelos anjos, que estão conosco no combate e caminham ao nosso lado por entre as sombras da morte. Dizia que esses companheiros devem ser reverenciados em toda parte e que devemos invocá-los como nossos guardas. Ensinava a não ofender sua presença, e que não se devia ousar fazer diante deles o que não se faria diante dos homens. Considerando que, no coro, salmodiamos diante dos anjos, queria que todos que pudessem comparecessem ao oratório, e que aí salmodiassem com devoção.
Mas muitas vezes dizia que devemos honrar de maneira toda especial São Miguel, porque é o encarregado de apresentar as almas ao julgamento. Em honra de São Miguel, fazia uma quaresma de jejuns desde a festa da Assunção até o seu dia. E dizia que, "em honra de tão importante príncipe, dever-se-ia oferecer a Deus algum louvor ou algum dom especial".
CAPITULO 150
Devoção a Nossa Senhora, a quem consagra particularmente a Ordem
198. Tinha um amor indizível à Mãe de Jesus, porque fez nosso irmão o Senhor da majestade. Consagrava-lhe louvores especiais, orações, afetos, tantos e tais que uma língua humana nem pode contar. Mas o que mais nos alegra é que a constituiu Advogada da Ordem, e à sua proteção e guia confiou até o fim os filhos que ia deixar.
O' advogada dos pobres, cumpre conosco o teu ofício protetor por todo o tempo que foi predeterminado pelo Pai!
CAPITULO 151
Devoção ao Natal do Senhor. Como quer que atendam a todos nesse dia
199. Celebrava com incrível alegria, mais que todas as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, pois afirmava que era a festa das festas, em que Deus, feito um menino pobrezinho, dependeu de peitos humanos. Beijava como um esfomeado as imagens dessa criança, e a derretida compaixão que tinha no coração pelo Menino fazia até com que balbuciasse doces palavras como uma criancinha. Para ele, esse nome era como um favo de mel na boca.
Certa vez em que os frades discutiam se podiam comer carne porque era uma sexta-feira, disse a Frei Morico: "Irmão, cometes um pecado chamando de sexta-feira o dia em que o Menino nasceu para nós. Quero que nesse dia até as paredes comam carne. Se não podem, pelo menos sejam esfregadas com carne!"
200. Queria que, nesse dia, os pobres e os esfomeados fossem saciados pelos ricos, e que se concedesse uma ração maior e mais feno para os bois e os burros. Até disse: "Se eu pudesse falar com o imperador, pediria que promulgasse esta lei geral: que todos que puderem joguem pelas ruas trigo e outros cereais, para que nesse dia tão solene tenham abundância até os passarinhos, e principalmente as irmãs cotovias".
Não podia recordar sem chorar toda a penúria de que esteve cercada nesse dia a pobrezinha da Virgem. Num dia em que estava sentado a almoçar, um dos frades lembrou a pobreza da Virgem bem- aventurada e as privações de Cristo seu Filho. Ele se levantou imediatamente da mesa, soltou dolorosos soluços e comeu o resto de pão no chão nu, banhado em lágrimas.
Dizia que a pobreza era uma virtude real, pois brilhava de maneira tão significativa no Rei e na Rainha.
Quando os frades lhe perguntaram, em uma reunião, que virtude mais faz de alguém um amigo de Cristo, respondeu, como quem contava um segredo de seu coração: "Ficai sabendo, filhos, que a pobreza é o caminho especial da salvação, que seu fruto é enorme mas são muito poucos os que o conhecem".
CAPITULO 152
Devoção ao Corpo do Senhor
201. Ardia com o fervor do mais profundo de todo o seu ser para com o sacramento do Corpo do Senhor, pois ficava absolutamente estupefato diante de tão amável condescendência e de tão digna caridade. Achava que era um desprezo muito grande não assistir pelo menos a uma missa cada dia, se pudesse. Comungava com freqüência e com tamanha devoção que tornava devotos também os outros. Como tinha toda reverência para com aquilo que se deve reverenciar, oferecia o sacrifício de toda a sua pessoa e, ao receber o Cordeiro imolado, imolava o seu espírito com aquele fogo que sempre ardia no altar de seu coração.
Amava a França por ser devota do Corpo do Senhor, e nela de- sejava morrer por seu amor aos sagrados mistérios.
Certa ocasião quis mandar os frades pelo mundo com preciosas âmbulas para guardarem o preço de nossa redenção no melhor lugar, onde quer que o encontrassem guardado de maneira menos digna.
Queria que se tivesse a maior reverência para com as mãos sacerdotais, pelo poder divino que lhes foi conferido para a confecção do santo sacramento. Dizia freqüentemente: "Se e acontecesse de encontrar ao mesmo tempo um santo descido do céu e um sacerdote pobrezinho, saudaria primeiro o presbítero, e me apressaria a beijar as suas mãos. Até diria: 'Espera, São Lourenço, porque as mãos deste homem tocam a Palavra da vida e têm algo de sobre-humano'"..
CAPITULO 153
Devoção para com as santas relíquias
202. Mostrava-se devotíssimo do culto divino este homem amado por Deus, e não deixava sem a devida honra coisa alguma que com ele se relacionasse.
Quando estava em Monte Casale, na província de Massa, mandou que os frades transportassem com toda reverência para sua casa as relíquias de uma igreja abandonada. Ficava aborrecido por saber que havia tanto tempo estavam sem o culto que lhes era devido. Mas teve que se ausentar por motivos urgentes e os filhos, esquecidos da ordem do pai, deixaram de tomar em consideração o mérito da obediência.
Certo dia, quando os frades levantaram a coberta do altar para celebrar a missa, encontraram uns ossos muitos bonitos e perfumados. Ficaram muito espantados, pois nunca tinham visto nada semelhante.
Pouco depois, o santo voltou e perguntou se tinham cumprido o que mandara a respeito das relíquias. Os frades confessaram humildemente que tinham deixado de obedecer e receberam tanto a penitência como o perdão. O santo disse: "Bendito seja o Senhor meu Deus, que cumpriu por si mesmo o que vós deveríeis ter feito!"
Consideremos a devoção de Francisco, admiremos o cuidado de Deus com o pó que somos, exaltemos o louvor da santa obediência. Os homens não atenderam à sua voz, mas Deus obedeceu a suas preces.
CAPITULO 154
Devoção para com a cruz. Um mistério oculto
203. Finalmente, quem pode contar, quem pode entender até que ponto ele "não queria gloriar-se a não ser na cruz do Senhor?" Só pode compreender quem pôde experimentar.
De fato, ainda que pudéssemos experimentar de alguma forma em nós mesmos essas coisas, nossas palavras não seriam capazes de expressar tantas maravilhas, maculadas que estão pelo uso vil de todos os dias. Talvez seja por isso que o mistério teve que se manifestar em sua carne: com palavras não daria para explicar.
Que o silêncio fale onde a palavra falta, porque até as coisas significadas clamam quando falta uma expressão à altura. Anunciemos apenas aos ouvidos humanos esse mistério que até agora ainda não se sabe com clareza por que foi manifestado no santo. Pelo que ele revelou, só tem explicação e sentido no futuro. Será tido por veraz e digno de fé quem tiver por testemunhas a natureza, a lei e a graça.
AS SENHORAS POBRES
CAPITULO 155
Como queria que os frades tratassem com elas
204. Não podemos deixar de lembrar aquele edifício espiritual que o bem-aventurado pai, levado pelo Espírito Santo, construiu para o desenvolvimento da cidade eterna, muito mais nobre do que a reparação de uma igreja material, e colocado no mesmo lugar.
Não podemos acreditar que Cristo tenha falado da cruz, de maneira tão estupenda que incutiu temor e dor aos que souberam, só para se referir àquela obra perecível que estava em ruínas. Como tinha sido predito pelo Espírito Santo noutra ocasião, ali deveria ser fundada uma Ordem de santas virgens, como uma reserva selecionada de pedras vivas, a serem transferidas depois para a restauração da casa lá do céu.
De fato, depois que começaram a se reunir naquele lugar as virgens de Cristo, vindas de diversas regiões do mundo, professando a maior perfeição pela observância da mais alta pobreza e pelo decoro de todas as virtudes, o santo pai foi diminuindo aos poucos sua presença corporal, mas redobrou seu afeto no Espírito Santo para cuidar delas.
Sabendo o santo que tinham passado por numerosas provas da maior perfeição e que estavam preparadas para suportar por Cristo qualquer dificuldade e a enfrentar qualquer trabalho, e que não queriam jamais se afastar do que lhes tinha sido mandado, prometeu com firmeza, a elas e às outras que viessem a professar essa vida, que lhes haveria de dar sempre auxílio e conselho, por si mesmo e por seus frades. Enquanto viveu cumpriu tudo isso diligentemente e, quando viu que estava para morrer, não descuidou de mandar que o fizessem sempre. Pois afirmava que um só e o mesmo Espírito tinha tirado deste mundo tanto os frades como aquelas senhoras pobrezinhas.
205. Algumas vezes em que os frades se admiraram de que não fosse visitar mais vezes tão santas servas de Deus, ele disse: "Não penseis, caríssimos, que não as ame com perfeição. Se fosse pecado ajudá-las em Cristo, não seria um pecado maior tê-las unido a Cristo? Não as haver chamado não seria mal nenhum, mas não cuidar delas agora que foram chamadas seria a maior maldade. O que eu quero é dar bom exemplo, para que façais como eu faço. Não quero que ninguém se ofereça para ir visitá-las, mas ordeno que só sejam destinados a atendê-las homens espirituais, provados por um comportamento digno e longo, contra sua vontade e só quando resistirem bastante".
CAPITULO 156
Repreensão para alguns que gostam de ir aos mosteiros
206. Certo frade tinha no mosteiro duas filhas de vida exemplar e, uma vez, disse que levaria com prazer um presentinho muito pobre da parte do santo. Este o repreendeu duramente com palavras que não me atrevo a repetir. E mandou o presente por outro frade que não queria ir, ainda que não tenha resistido obstinadamente.
Um outro frade, em tempo de inverno, foi por motivo de compaixão a um mosteiro, ignorando assim a vontade do santo, que não queria que fosse. Quando o santo ficou sabendo, fez com que caminhasse despido por muitos quilômetros no pior frio das nevadas.
CAPITULO 157
A pregação feita mais pelo exemplo que pelas palavras
207. Numa ocasião em que se encontrava em São Damião, o santo pai foi muito instado por seu vigário a propor a palavra de Deus a suas filhas, e acabou concordando.
As senhoras se reuniram como de costume, para ouvir a palavra de Deus, mas com desejo não menor de ver o pai. Ele levantou os olhos para o céu, onde sempre tinha o coração, e começou a rezar a Cristo. Depois mandou buscar cinza e fez um círculo ao seu redor no chão, jogando o resto sobre a própria cabeça.
Vendo o bem-aventurado pai manter silêncio dentro do círculo de cinzas, sentiram não pequeno estupor em seu coração. De repente o santo se levantou e, diante das irmãs atônitas, recitou o salmo 'Miserere mei Deus' em vez de fazer um sermão. Quando acabou, foi embora bem depressa.
As servas de Deus ficaram tão contritas com a força significativa desse episódio que choraram muito e tiveram que se conter para não tirar vingança de si mesmas. Ensinou-as pelo exemplo a se julgarem cinza, e que nada chegava a seu coração a respeito delas que não fosse digno dessa reputação.
Era essa a sua maneira de tratar com as santas mulheres. Fazia-lhes visitas muito proveitosas mas por obrigação e raramente. Dessa maneira queria que as servissem os seus frades, por amor de Cristo de quem eram servidores, mas sempre como aves que tomam cuidado com as armadilhas colocadas por onde passam.
RECOMENDAÇÃO DA REGRA DOS IRMÃOS
CAPITULO 158
Recomendação da Regra de São Francisco. Um frade que a leva consigo
208. Tinha um zelo ardente pela profissão e pela Regra, e deixou uma bênção especial para os que eram zelosos por ela.
Pois dizia aos seus que a Regra era o livro da vida, a esperança da salvação, a medula do Evangelho, o caminho da perfeição, a chave do paraíso, o pacto da aliança eterna. Queria que todos a possuíssem e que todos a conhecessem, para que fosse tema de seu diálogo com o homem interior, servindo para lembrar-lhe o juramento feito. Ensinou que se devia ter sempre a Regra diante dos olhos para dirigir a vida e, até mais, que com ela se deveria morrer.
Houve um irmão leigo que não se esqueceu dessa recomendação, conseguindo assima palma de uma vitória gloriosa, e creio que deve ser venerado entre os mártires. Quando os sarracenos o levavam para o martírio, levantando a Regra nas mãos e humildemente ajoelhado, ele disse ao companheiro: "Irmão caríssimo, diante dos olhos da Majestade e diante de ti, declaro-me culpado de tudo que fiz contra esta santa Regra".
A essa breve confissão sobreveio a espada, e assim morreu martirizado, ficando célebre depois por sinais e prodígios. Tinha entrado na Ordem quase criança, a ponto de mal aguentar o jejum regular. No entanto, apesar de tão jovem, cingia-se de cilício. Feliz menino, que começou bem para terminar ainda melhor.
CAPITULO 159
Uma visão que recomenda a Regra
209. Certa vez o santíssimo pai teve uma visão de um oráculo celeste a respeito da Regra. Foram coisas mostradas em sonhos ao santo, no tempo em que os frades estavam discutindo sobre a confirmação da Regra. Viu-se recolhendo do chão migalhinhas muito pequenas de pão e dando de comer a muitos frades esfomeados que estavam ao seu redor. Ficou com medo de distribuir migalhinhas tão pequenas, achando que iam se desfazer em pó nos seus dedos, mas ouviu uma voz do alto: "Francisco, faz com todas essas migalhas uma única hóstia e dá-a aos que querem comer". Ele obedeceu. Todos os que não recebiam com devoção, ou que desprezavam o dom recebido, ficavam logo cobertos de lepra.
Pela manhã o santo contou tudo isso aos companheiros, lamentando-se por não ter entendido o significado da visão. Pouco depois, enquanto vigiava em oração, recebeu do céu este esclarecimento: "Francisco, as migalhas da noite passada são as palavras do Evangelho, a hóstia é a Regra, a lepra é a iniquidade".
Os frades daquele tempo não achavam duro ou áspero o que tinham prometido e estavam sempre prontos a fazer ainda mais. Porque não existem moleza ou preguiça quando o aguilhão do amor es- tá sempre estimulando para coisas maiores.
AS DOENÇAS DE SÃO FRANCISCO
CAPITULO 160
Conversa com um frade sobre como tratar o corpo
210. Francisco, pregoeiro de Deus, seguiu os passos de Cristo no meio de trabalhos sem conta e de fortes sofrimentos, e não arredou o pé enquanto não terminou com maior perfeição o que soubera começar tão bem.
Mesmo quando estava cansado e com o corpo todo alquebrado, nunca abandonou seu caminho de perfeição e nunca se permitiu uma quebra no rigor da disciplina. Não conseguia ajudar o corpo exausto nem um pouquinho sem ter escrúpulos.
Por isso quando, contra a sua vontade, foi preciso aliviar com remédios os incômodos de seu corpo que já eram maiores que suas forças, voltou-se confiante a um dos irmãos, na certeza de que lhe daria um bom conselho:
"Que pensas, meu irmão, dessas reclamações constantes de minha consciência pelos cuidados com o corpo? Ela tem medo de que eu seja muito condescendente com o enfermo e lhe faça regalos desnecessários. Mas não é porque esse corpo já alquebrado pela longa doença possa receber alguma coisa com prazer: ele já perdeu toda vontade de se satisfazer".
211. O filho respondeu ao pai na mesma hora, certo de que o Senhor era quem o inspirava: "Dize-me, por favor, pai, por acaso não foi com diligência que teu corpo obedeceu a tuas ordens, enquanto lhe foi possível?"
O santo respondeu: "Filho, posso testemunhar que sempre foi obediente, nunca poupou a si mesmo e até se precipitava para obedecer ao que eu queria. Não fugiu de trabalho nenhum, não escapou de nenhum incômodo, só quis cumprir o que eu mandava. Neste ponto estamos completamente de acordo, eu e ele: servimos ao Senhor Cristo sem nenhuma repugnância".
Disse o frade: "Então, pai, onde estão a tua generosidade, a tua piedade, a tua grande discrição? Será que é assim que se tratam os amigos fiéis: com boa vontade na hora de receber o benefício mas sem saber retribuir quando é o outro que precisa? Que serviço pudeste prestar até agora a Cristo teu Senhor sem a colaboração de teu corpo? Não foi para isso que ele se entregou a to- dos os perigos, como tu mesmo estás confessando?"
O pai respondeu: "Meu filho, confesso que essa é a verdade".
E o filho: "E seria conveniente que, na hora da necessidade, faltasses para com tão grande amigo, que por ti se entregou à própria morte com tudo que possuía? Longe de ti, pai! Longe de ti, que és auxílio e apôio dos aflitos, cometer esse pecado diante do Senhor!"
O santo respondeu: "Bendito sejas tu também, meu filho, que com sabedoria puseste remédios tão salutares nas minhas dúvidas!" E, sorrindo, disse ao próprio corpo: "Alegra-te, irmão corpo, e me perdoa, porque agora vou tratar de cumprir com gosto tuas vontades, vou me apressar a atender tuas reclamações!"
Mas o que poderia agradar àquele pobre corpo acabado? O que poderia soerguê-lo, agora que já estava todo derreado? Francisco já tinha morrido para o mundo, mas Cristo estava vivo nele. As delícias do mundo eram uma cruz para ele, porque levava a cruz enraizada em seu coração. Por isso fulgiam exteriormente em sua carne os estigmas, cuja raiz tinha penetrado profundamente em seu coração.
CAPITULO 161
Promessa do Senhor em recompensa de suas enfermidades
212. Derrubado por sofrimentos de todos os lados, causa admiração que tivesse força para suportá-los. Mas chamava essas suas dores de irmãs e não de penas.
E é fora de dúvida que elas provinham de muitas causas. De fato, para aumentar os seus triunfos, o Altíssimo não lhe proporcionou coisas difíceis só enquanto era simples recruta: deu-lhe ocasião de triunfar mesmo depois que já era um soldado experimentado.
Isto também é um exemplo para seus seguidores: nem a idade conseguiu diminuir o seu fervor nem a doença a sua austeridade. Também não foi sem razão que sua purificação foi tão plena neste vale de lágrimas. Ele pagou suas dívidas nesta terra até o último vintém, se é que sobrou algum resto de impureza que devesse passar pelo fogo, para que sua alma, completamente purificada, pudesse voar diretamente para o céu.
Mas eu acho que a razão principal de seus tormentos foi, como ele mesmo afirmava a respeito de outros, a grande recompensa que se tem em suportá-los.
213. Certa noite, atormentado mais que de costume por uma porção de sofrimentos graves de suas doenças, começou a ter profunda compaixão de si mesmo. Mas, para que seu espírito, sempre pronto, não condescendesse com a carne em coisa nenhuma por uma hora sequer, invocou a Cristo e segurou firme o escudo da paciência. Durante essa oração agoniada, recebeu do Senhor a promessa da vida eterna, desta maneira:
"Se a terra e o universo inteiro fossem de ouro puríssimo e soubesses que, livre de toda dor, haverias de receber como prêmio por teus duros sofrimentos um tesouro tão glorioso que, diante dele, todo aquele ouro seria um nada e nem mereceria ser mencionado, não te sentirias feliz de suportá-los de boa vontade por mais alguns momentos?"
O santo respondeu: "É claro que me alegraria, seria o máximo da alegria".
"Podes exultar, então", disse-lhe o Senhor, "porque tua doença é uma garantia de meu reino e, pelos merecimentos da paciência, podes ter a segurança e a certeza que terás essa herança!"
Que alegria imensa terá sentido o homem feliz que recebeu essa promessa! Com quanta paciência, mas também com quanto amor, acolheu os sofrimentos do corpo! Só ele sabe disso, agora, com perfeição, mas naquele tempo não foi capaz de contá-lo. Disse alguma coisa aos irmãos, o que pôde. Nessa ocasião, compôs os Louvores das Criaturas, convidando-as a louvar sempre o Criador.
PASSAMENTO DO SANTO PAI
CAPITULO 162
Exortação e bênção final aos frades
214. Na morte do homem - diz o Sábio - suas obras serão postas às claras. Neste santo vemos que isso se realizou por completo, e gloriosamente. Ele percorreu com alegria interior o caminho dos mandamentos de Deus, chegou ao alto passando pelos degraus de todas as virtudes e atingiu o fim como uma obra amoldável, aperfeiçoada pelo martelo das múltiplas tribulações.
Quando partiu livre para os céus, pisando as glórias desta vida mortal, resplandeceram mais as suas obras admiráveis, e ficou provado que tudo que tinha vivido era de Deus. Achou que viver para o mundo era um opróbrio, amou os seus até o fim e recebeu a morte cantando.
Sentindo já próximos seus últimos dias, em que a luz perpétua substituiria a luz que se acaba, demonstrou pelo exemplo de sua virtude que não tinha nada em comum com o mundo. Prostrado pela doença grave que encerrou todos os seus sofrimentos, fez com que o colocassem nu sobre a terra nua, para que, naquela hora extrema em que ainda podia enraivecer o inimigo, estar preparado para lutar nu contra o adversário nu.
Esperava intrepidamente o triunfo e já apertava em suas mãos a coroa da justiça. Posto no chão, sem a sua roupa de saco, voltou o rosto para o céu como costumava e, todo concentrado naquela glória, cobriu a chaga do lado direito com a mão esquerda, para que não a vissem. E disse aos frades: "Eu cumpri a minha missão. Que Cristo vos ensine a cumprir a vossa!"
215. Vendo isso, os filhos sucumbiram à dor imensa da compaixão, em meio a intensas lágrimas e dando suspiros profundos.
O guardião, contendo os soluços e adivinhando por inspiração divina o que o santo queria, levantou-se, foi correndo buscar uma calça, o hábito de saco e o capuz, e disse ao pai: "Fica sabendo que te empresto, em virtude da obediência, este hábito, as calças e o capuz! Para saberes que não tens nenhum direito de propriedade, tiro-te o poder de dá-los a quem quer que seja".
O santo gostou e se rejubilou de alegria interior, vendo que tinha mantido a fidelidade para com a Senhora Pobreza até o fim. Fizera tudo isso por zelo da pobreza, a ponto de não querer ter no fim nem o hábito emprestado. Usara na cabeça o capuz de saco para esconder as cicatrizes da doença dos olhos, quando teria necessidade de um gorro de lã cara, que fosse bem macio.
216. Depois disso, o santo levantou as mãos para o céu e louvou a Cristo porque, livre de tudo, já estava indo ao seu encontro.
Mas, para demonstrar que era um verdadeiro imitador do Cristo, seu Deus, em todas as coisas, amou até o fim os frades seus filhos, a quem amara desde o começo. Pois fez chamar todos os irmãos presentes e, consolando-os de sua morte, exortou-os com afeto de pai ao amor de Deus. Falou também sobre a observância da paciência e da pobreza, dizendo que o santo Evangelho era mais importante do que todas as normas. Estando todos os frades sentados ao seu redor, estendeu sobre eles a mão e, começando por seu vigário, a impôs sobre a cabeça de cada um.
E disse: "Filhos todos, adeus no temor do Senhor! Permanecei sempre nele! A tentação e a tribulação estão para chegar. Felizes os que perseverarem no que começaram. Eu vou para Deus, a cuja graça recomendo-vos todos". Nos que estavam presentes, abençoou a todos os frades que estavam por todo o mundo e os que haveriam de vir depois deles, até o fim dos tempos.
Que ninguém usurpe para si mesmo essa bênção que, nos presentes, deu aos ausentes. Assim como se acha parece ter em vista uma pessoa particular, mas isso é um desvirtuamento.
CAPITULO 163
Sua morte e o que faz antes de morrer
217. Enquanto os frades choravam amargamente e se lamentavam inconsoláveis, o pai santo mandou trazer um pão. Abençoou-o, partiu-o e deu um pedacinho para cada um comer. Também mandou trazer um livro dos Evangelhos e pediu que lessem o Evangelho de São João a partir do trecho que começa: "Antes do dia da festa da Páscoa", etc. Lembrava-se daquela sagrada ceia que foi a última celebrada pelo Senhor com seus discípulos. Fez tudo isso para celebrar sua lembrança, demonstrando todo o amor que tinha para com seus frades.
Passou em ação de graças os poucos dias que ainda restavam até sua morte, ensinando seus filhos muito amados a louvar Cristo em sua companhia. Ele mesmo, quanto lhe permitiam suas forças, entoou o Salmo: "Lanço um grande brado ao Senhor, em alta voz imploro o Senhor", etc. Convidou também todas as criaturas ao louvor de Deus e, usando uma composição que tinha feito em outros tempos, exortou-as ao amor de Deus. Chegou a exortar para o louvor até a própria morte, que todos temem e abominam, e, correndo alegre ao seu encontro, convidou-a com hospitalidade: "Bem-vinda seja a minha irmã morte!"
Ao médico disse: "Irmão médico, diga com coragem que minha morte está próxima, para mim ela é a porta da vida!" E aos frades: "Quando perceberdes que cheguei ao fim, do jeito que me vistes despido anteontem, assim me colocai no chão, e lá me deixai ficar mesmo depois de morto, pelo tempo que alguém levaria para caminhar sem pressa uma milha".
E assim chegou a hora. Tendo completado em si mesmo todos os mistérios de Cristo, voou feliz para Deus.
Um frade vê a alma do santo pai em seu passamento
217a. Um frade seu discípulo, muito famoso, viu a alma do santíssimo pai como uma estrela, com o tamanho da lua e a claridade do sol, sobrevoando o abismo das águas, levada em cima de uma nuvenzinha branca e subindo direto para o céu.
Houve por isso um grande ajuntamento de povo, louvando e glorificando o nome do Senhor. A cidade de Assis veio em peso, e a região inteira se apressou para ver as grandezas de Deus, que o Senhor tinha demonstrado em seu servo. Lamentavam-se os filhos privados de tão excelente pai e demonstravam com lágrimas e suspiros o piedoso afeto de seu coração.
Mas a novidade do milagre transformou o pranto em júbilo e o luto em comemoração. Viam o corpo do bem-aventurado pai ornado com os estigmas. No meio das mãos e dos pés estavam não os buracos dos cravos mas os próprios cravos, feitos com sua carne e até unidos à sua carne, embora pretos como ferro. O lado direito parecia rubro de sangue. Sua pele, antes escura por natureza, mostrava agora a alvura brilhante que prometia os prêmios da ressurreição. Seus membros podiam dobrar-se, não tinham a rigidez cadavérica, parecendo de um menino.
CAPITULO 164
Visão de Frei Agostinho em sua morte
218. Frei Agostinho era, nesse tempo, ministro dos frades na Terra do Labor. Estava para morrer e já tinha perdido a fala bastante tempo antes, mas de repente todos os que estavam presentes o ouviram clamar dizendo: "Espera-me, pai, espera-me! Já vou contigo."
Os frades ficaram muito admirados e perguntaram com quem estava falando. Ele respondeu com firmeza: "Não estais vendo nosso pai Francisco que vai indo para o céu?" E, na mesma hora, sua santa alma, livre do corpo, seguiu o santíssimo pai.
CAPITULO 165
Aparição do santo pai a um frade, depois de sua morte
219. A um outro frade de vida muito louvável, suspenso em oração naquela noite e naquela hora, o glorioso pai apareceu vestido com uma dalmática de cor púrpura, acompanhado por uma multidão de pessoas.
Muitos, que saíam dessa multidão, disseram ao frade: "Irmão, será que esse é o Cristo?" Ele respondia: "É ele mesmo". Mas outros também perguntavam: "Mas não é São Francisco?"
O frade também dizia que era ele mesmo. E, de fato, tanto para o frade como para todo aquele povo, dava a impressão de que Cristo e São Francisco eram uma só pessoa. Os que sabem entender bem não vão achar temerária essa afirmação, porque aquele que adere a Deus torna-se um só espírito com ele, e o próprio Deus vai ser um só em todos no futuro.
Finalmente o bem-aventurado pai chegou, com aquela admirável multidão, a lugares agradabilíssimos, muito verdes pelo viço de todas as gramíneas irrigadas por água muito límpida, em plena primavera de flores e repletos de árvores de todas as espécies deliciosas. Levantava-se aí um palácio de tamanho admirável e de beleza ímpar, em que o novo habitante do céu entrou alegremente, indo encontrar lá dentro muitos frades. E começou a se banquetear gostosamente com os seus numa mesa esplendidamente preparada e cheia das mais variadas iguarias.
CAPITULO 166
Visão do bispo de Assis na morte do santo pai
220. O bispo de Assis tinha ido nesse tempo em peregrinação à igreja de São Miguel. Estava hospedado em Benevento, na volta, quando o pai São Francisco lhe apareceu em visão na noite de sua morte e lhe disse: "Pai, estou deixando o mundo e vou para Cristo".
Levantando-se, de manhã, o bispo contou a seus companheiros o que tinha visto e mandou chamar um secretário para tomar nota do dia e da hora do passamento. Ficou muito triste e chorou bastante pela dor de ter perdido o melhor dos pais. De volta a sua terra, referiu tudo que tinha acontecido e deu graças sem fim ao Senhor por seus benefícios.
Canonização e translação de São Francisco
220a. Em nome do Senhor Jesus. Amém. No ano 1226 de sua Encarnação, no dia 3 de outubro, dia que tinha predito, passados vinte anos desde que tinha aderido com perfeição a Cristo seguindo a vida e os passos dos apóstolos, o homem apostólico que foi São Francisco, solto das amarras da vida mortal, partiu felizmente para Cristo. Sepultado na cidade de Assis, começou a brilhar por toda parte por tantos e tão admiráveis milagres que, em breve, tinha arrastado grande parte do mundo para essa admiração dos novos tempos.
Quando já estava famoso em diversas regiões pela novidade dos milagres, acorrendo de toda parte pessoas que se alegravam por ter sido liberadas de males por seu benefício, o Senhor Papa Gregório, estando em Perúsia com todos os cardeais e outros prelados das igrejas, começou a tratar de sua canonização. Todos concordaram, demonstrando ser do mesmo parecer. Leram e aprovaram os milagres que o Senhor operou por intermédio de seu servo, e exaltaram a vida e o comportamento do bem-aventurado pai com os maiores elogios.
Foram convocados em primeiro lugar, para tão grande festa, os príncipes da terra, e toda a multidão de prelados, com um povo inumerável e, no dia marcado, entraram com o Santo Papa na cidade de Assis, para aí celebrar a canonização do santo, para sua maior glorificação.
Chegando todos ao lugar preparado para tão solene convênio, pregou em primeiro lugar a todo o povo o Papa Gregório, e anunciou as grandezas de Deus com doce afeto. Louvou também o santo pai Francisco em nobilíssimo sermão e, proclamando a pureza de sua vida, banhou-se em lágrimas.
Portanto, terminado o sermão, estendendo as mãos para o céu, o Papa Gregório clamou em voz alta e sonora...
ORAÇÃO DOS COMPANHEIROS DO SANTO
CAPITULO 167
221. Aqui estão, bem-aventurado pai nosso, os esforços da simplicidade com que procuramos louvar de alguma maneira teus feitos magníficos, e contar pelo menos um pouco de tuas inumeráveis virtudes de santidade, para tua glória. Temos consciência de que nossas palavras tiraram muito do esplendor de teus feios, pois se demonstraram incapazes de manifestar tão grande perfeição. Pedimos, a ti e aos leitores, que pensem tanto em nosso afeto quanto em nosso esforço, alegrando-se porque as alturas de tua santidade superaram nossa pena humana.
Quem poderia, ó egrégio entre os santos, conceber em si mesmo o ardor de teu espírito ou imprimi-lo nos outros? Quem poderia ter os afetos inefáveis que de ti fluíam constantemente para Deus? Mas escrevemos estas coisas deleitados em tua doce lembrança, que procuraremos transmitir aos outros enquanto vivermos, mesmo que seja balbuciando.
Tu, que passaste fome, já te alimentas com a flor do trigo; tu que eras um sedento, já bebes na torrente do prazer. Mas não acreditamos que estejas a tal ponto inebriado com a fartura da casa de Deus, que tenhas esquecido teus filhos, pois até aquele a quem bebes lembra-se de nós. Arrasta-nos, pois, para ti, pai digno, para corrermos no odor de teus perfumes, nós que, de fato, vês mornos pela falta de vontade, lânguidos de preguiça, apenas meio vivos pela negligência! O pequeno rebanho já te segue com passo inseguro. Nossos pobres olhos ofuscados não suportam os raios de tua perfeição. Renova nossos dias, como no começo, ó espelho exemplar dos perfeitos, e não permitas que tenham vida diferente da tua os que são conformes a ti pela profissão!
222. Pedimos agora humildemente, diante da clemência da Majestade eterna, pelo servo de Cristo, nosso ministro, sucessor de tua santa humildade, êmulo verdadeiro da pobreza, que tem o solícito cuidado de tuas ovelhas com doce afeto por amor do teu Cristo. Pedimos, ó santo, que o ajudes e ampares, para que siga sempre os teus passos e consiga para sempre o louvor e a glória que já conquistaste.
223. Também suplicamos com todo afeto do coração, pai bondosíssimo, por aquele teu filho que escreveu com carinho os teus louvores, já uma vez no passado e também agora. Conosco ele te oferece e dedica este opúsculo que coligiu com todo o seu esforço, mesmo que não seja digno por seus méritos. Digna-te conservá-lo e livrá-lo de todo mal, fazendo crescer seus santos merecimentos e agregando-o para sempre ao consórcio dos santos por tuas preces.
224. Lembra-te, pai, de todos os teus filhos, pois tu que és santo sabes quanto andam afastados de teus passos, no meio de intrincados perigos. Dá forças para que possam resistir. Purifica-os para que resplandeçam. Alegra-os para que sejam felizes. Pede que seja infundido sobre eles o espírito da graça e da oração, para terem a verdadeira humildade que tiveste, para observarem a pobreza que tiveste, para merecerem o amor com que sempre amaste o Cristo crucificado. Que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.