O "Anônimo de Perusa"  

INTRODUÇÃO:  

1. O livro

O texto do livro que hoje conhecemos como "Anônimo Perusino" foi descoberto em 1671 na Igreja de São Francisco al Prato, em Perusa. O título original é “De inceptione vel fundamento Ordinis et actus illorum Fratrum Minorum qui fuerunt primi in Religione et socii B. Francisci” (sobre o começo ou a fundação da Ordem e alguns feitos dos primeiros frades desta religião, companheiros de São Francisco).

Só existia esse pergaminho antigo. Foi conservado nesse lugar até pouco depois de 1860, quando o convento foi supresso e o códice desapareceu. O interessante é que esse é o convento onde está sepultado Frei Egídio de Assis, que morreu em 1262, e o Anônimo Perusino conteria a tradição de Frei Egídio.

Há uma indicação, um tanto vaga, de que existia na biblioteca do S. Convento em Assis, em 1381, um códice do sec. XIV com o título “De inceptione Ordinis”. O livro poderia ter sido levado para Perusa como homenagem a Frei Egídio.

Hoje sabemos que, em 1671, o bolandista Daniel Van Papenbroek (Papebrok) pediu uma transcrição do códice, pois estava trabalhando na vida de Frei Egídio. Consta que foi difícil encontrar em Perusa quem soubesse ler esses caracteres tão antigos e essa escrita tão cheia de abreviações.

O primeiro que estudou a sério o AP foi Frei Ubaldo Tebaldi, que expôs sua tese em 1759. Para ele, AP era uma compilação feita no sec. XV, tirada de diversas fontes por um redator não italiano. Em 1765, Tebaldi insistiu nessa tese em carta ao bolandista Suyskens.

O texto completo foi publicado pela primeira vez em 1902 por Van Ortroy, mas ninguém lhe deu muita importância. Alguns acharam que era uma cópia incompleta da Legenda dos Três Companheiros, porque era parecido.

Em 1972, o livro começou a ser mais bem considerado. Em primeiro lugar, Lorenzo di Fonzo publicou uma edição crítica e mostrou que, na verdade, foi o Anônimo Perusino que serviu de fonte para a Legenda dos Três Companheiros. Como, nesse mesmo ano, Sofrônio Clasen e Theophille Desbonnets estabeleceram que a LTC foi escrita em 1246, o AP tinha que ser mais antigo.

Em 1979, Pierre Beguin demonstrou que o AP foi escrito entre 1240 e 1241. Se for verdade, trata-se da primeira "vida de São Francisco" escrita para os frades.

2. Conteúdo do livro

AP apresenta uma vida de São Francisco do nascimento à morte. Mas seu assunto é a Ordem e não santo. E deixa de lado muitos fatos que o autor achava que todos os seus leitores conheciam.

Como o livro contém os relatos de um discípulo dos primeiros companheiros de Francisco, fala sempre dos primeiros frades, citando muitas vezes Frei Egídio de Assis e Frei Bernardo de Quintavalle. Como suas informações históricas foram retomadas depois e ampliadas por outros autores, hoje muitos não lhe dão importância como biografia de Francisco, achando que não contém novidades.

Visão Geral

Prólogo

1. Como São Francisco começou a servir a Deus

2. Os dois primeiros seguidores de Francisco

3. O primeiro lugar onde moraram

4. Como admoestou os irmãos e os mandou pelo mundo

5. Dificuldades que os irmãos encontraram durante sua missão

6. Vida comum e amor mútuo dos irmãos.

7. Como foram a Roma e o papa lhes aprovou a Regra e lhes deu a faculdade de pregar

8. Como resolveu que se fizesse capítulo e dos assuntos que nele eram tratados

9. Como os irmãos foram enviados pelo mundo

10. Como os cardeais, favoráveis aos frades, começaram a dar-lhes conselhos e a ajudá-los

11. Como a Igreja o protegeu dos perseguidores

12. Morte de São Francisco, seus milagres e canonização  

3. Autor

Sobre o autor, o próprio texto informa no Prólogo que se trata de um discípulo dos primeiros companheiros:

“Os servos do Senhor não devem ignorar o comportamento e a doutrina dos santos, para melhor unir-se a Deus. Por isso, em honra de Deus e para a edificação dos leitores e ouvintes, eu, — que vi suas obras, ouvi suas palavras e fui discípulo deles – recolhi e conto alguns fatos do nosso bem-aventurado Pai Francisco e de alguns frades vindos no princípio da Ordem; e o faço seguindo a inspiração divina”.

Os casos contados mostram que se trata de um discípulo de Frei Egídio. Isso aponta para Frei João de Perusa, sobre quem diz a carta introdutória da LTC:

“... Frei João, companheiro do venerável pai Frei Egídio, que veio a conhecer muitas destas coisas do próprio santo Frei Egídio e também de Frei Bernardo, de santa memória, primeiro companheiro do bem-aventurado Francisco”.

Os Fioretti (48) também informam:

“Tive grande desejo de vê-lo (a Frei Tiago de Massa), porque, pedindo eu a Frei João, companheiro do dito Frei Egídio, que me expusesse certas coisas do espírito, ele me disse: “Se quiseres ser informado na vida espiritual, procura falar com Frei Tiago de Massa; pois Frei Egídio mesmo desejava ser iluminado por ele e às suas palavras nada se pode ajuntar nem tirar; porque sua mente penetrou nos segredos celestes e suas palavras são palavras do Espírito Santo, e não há homem na terra a quem eu deseje tanto ver”.

Como o autor se baseia nas reminiscências de Frei Egídio, é bom lembrar que ele foi o terceiro companheiro de São Francisco, admitido na Ordem no dia 23 de abril de 1208, e sempre foi tido como um santo.

Na primeira saída apostólica, Egídio foi com Francisco às Marcas de Ancona. Na terceira, foi com Bernardo de Quintavalle a Florença. Esteve com o grupo apresentando a regra a Inocêncio III. Fez peregrinações a Compostela e à Terra Santa. Na época em que Francisco foi a Damietta, ele foi a Túnis. Os muçulmanos o devolveram num barco como néscio. Passou a vida em eremitérios. Nos últimos anos, esteve no eremitério de Monterípido, onde morreu. Aí foi visitado em 1234 por Gregório IX e em 1260 por São Boaventura.

De Egídio também se conservam os os famosos “Ditos”, às vezes publicados junto dos Fioretti. De fato, tanto o Anônimo Perusino quanto os Ditos parecem transmitir a mesma simplicidade.

Desbonnets supõe que Leão, Rufino e Ângelo podem ter enviado com sua Carta a Crescêncio de Iesi um conjunto de escritos que incluiria as suas "Flores" (que depois foram usadas para escrever a 2 Celano e para constituir a Compilação de Assis, ou Legenda Perusina), uma versão antiga do que depois se chamou Legenda dos Três Companheiros e o que hoje chamamos de Anônimo Perusino.

4. Fundo histórico

Se aceitamos, com Pierre Beguin, que o Anônimo Perusino foi escrito por volta de 1240-1241, o livro adquire um significado bastante especial.

Tanto a Ordem como a Igreja estavam vivendo um momento particularmente difícil. A Igreja estava chegando aos últimos dias do papa Gregório IX, o cardeal Hugolino, amigo de Francisco e Clara.

Foi um pontificado conturbado especialmente pelo relacionamento com Frederico II, o imperador da Alemanha. Depois de muito insistir, o papa tinha conseguido que Frederico II fosse para a cruzada. Mas, em maio de 1229, ele fez uma paz inesperada com o sultão Melek-el-Kamel, que dava aos cristãos uma certa soberania sobre Jerusalém, Belém e Nazaré. E voltou para a Europa, sendo excomungado pelo papa.

Aos 23 de julho de 1230, os dois fizeram as pazes pelo Tratado de São Germano, que não haveria de durar muito.

Mas em 1231 surgiu outro problema, porque o imperador promulgou as Constituições de Melfi, um código de leis civis. E também impôs novas exigências às cidades do norte da Itália. A situação estava tão boa para ele que mandou cunhar uma medalha de ouro, a primeira que se fazia desde o século VIII.

Em 1232, cinco frades tiveram que pedir refúgio, na volta da Terra Santa, ao patriarca Germano II de Nicéia. Este os enviou ao papa para dialogar.

Em 1233, Frei João de Vicenza trabalhou para estabelecer a paz entre os exércitos do papa e do imperador, que estavam outra vez em luta.

Em 1234, Gregório IX mandou dois franciscanos e dois dominicanos como seus legados a Nicéia. No mesmo ano, promulgou as suas Decretales, um código de Direito canônico. Também foi em 1234 que canonizou São Domingos.

Em 1237, Frederico II estava vencendo o papa na Itália. Em 1238, morreu o sultão Melek-el-Kamel.

No dia 24 de março de 1239, o papa excomungou Frederico II, a quem também interditou.

Nos anos de 1240 e 1241, o imperador esteve saqueando cidades do domínio papal. Foi assim que suas tropas invadiram São Damião em 1240, com os sarracenos, e sitiaram Assis em 1241, sob o comando de Vital de Aversa. Nesse tempo, Frei Elias, que tinha sido demitido de ministro geral, estava aliado ao imperador.

No começo de 1241, o papa convocou um concílio para a Páscoa, mas Frederico II prendeu dois cardeais e cem bispos que estavam viajando para Roma. Preparou-se para invadir Roma mas, antes que o fizesse, Gregório IX morreu aos 21 de agosto de 1241, "quase centenário".

Os cardeais elegeram Celestino IV, que morreu depois de duas semanas. A Igreja ficou sem papa até junho de 1243.

Na Ordem, os grandes fatos dos últimos doze anos tinha sido os seguintes:

Em março de 1229, Simão de Pucciarello doou o terreno para se construir a basílica de São Francisco em Assis. Nesse mesmo ano, Beatriz, irmã de Clara, entrou em São Damião. Franciscanos começaram a estudar em Paris e Oxford. Um documento já fala nos herdeiros de Ângelo, o irmão de São Francisco.

Em 1230, Gregório IX começa a enviar paramentos preciosos para a basílica de Assis. Por ordem do ministro geral João Parenti, os restos de São Francisco são enterrados secretamente na basílica.

No capítulo geral desse ano, distribuíram-se umas vinte cópias do novo breviário, para serem copiadas nas províncias. Nomeou-se uma comissão, formada, entre outros, por Santo Antônio, Frei Leão e Frei Haymo de Faversham, então professor em Paris, para perguntar ao papa se os frades tinham que obedecer o Testamento e os últimos desejos de Francisco. Gregório IX respondeu aos 28 de setembro, com a bula Quo elongati. Nesse ano, também começaram a juntar livros e outros manuscritos para formar a biblioteca do sacro convento, junto da basílica.

O ano de 1231 viu morrerem Antônio de Lisboa e Isabel da Hungria. No dia 21 de agosto, o papa promulgou a bula Nimis iniqua, em que declarou os franciscanos isentos da juridisção dos bispos, inclusive para dispor das esmolas recebidas, pois estavam fazendo coletas para construir a basílica de Assis.

O capítulo geral de 1232 elegeu Frei Elias como ministro geral (no tempo de São Francisco ele tinha sido apenas vigário geral). Nesse ano, houve a canonização de Santo Antônio. Os dominicanos publicaram a primeira vida de São Domingos e seus companheiros.

Em 1233 entraram na Ordem dois catedráticos de Paris: Alexandre de Hales e Adão Marah.

Em 1235, Juliano de Spira escreveu o seu Ofício Rítmico de São Francisco. Frei Elias chegou a estabelecer 72 províncias na Ordem. Gregório IX canonizou Santa Isabel de Hungria.

Em 1236 morreram dois dos frades dos primeiros tempos: Frei Morico aos 30 de março e Frei Pacífico aos 20 de julho. Foi o ano em que o jovem João Fidanza (futuro São Boaventura) começou a estudar em Paris. São Francisco e Santa Isabel da Hungria já constam no catálogo dos santos feito pelos cistercienses.

1238 foi o ano em que Clara e suas Irmãs assinaram uma procuração para Opórtulo de Bernardo vender para o cabido da catedral de Assis um terreno que elas tinham recebido. O governo de Frei Elias já está causando problemas. Jordão de Jano vai a Roma denunciar o visitador enviado pelo ministro geral. Bernardo de Quintavalle, perseguido por Frei Elias, tem que se esconder.

Em 1239, foi convocado um capítulo geral em que Gregório IX destituiu Frei Elias. No seu lugar, foi eleito Alberto de Pisa, o primeiro ministro geral que foi sacerdote. Uma comissão se reuniu antes do capítulo para elaborar Constituições.

Em 1240 morreram Frei Silvestre e o novo geral, Alberto de Pisa. No dia 1o. de novembro foi eleito Haymo de Faversham, inglês, mestre em Paris.

Em 1241, o papa publicou seis bulas dando poderes e missões aos frades. No capítulo geral, em Montpelier, cada província foi convidada a apresentar dúvidas sobre a observância. O ministro geral mandou-as para os famosos "quatro mestres": Alexandre de Hales, João de la Rochelle, Roberto de Báscia e Odo Rigaldo, que deram uma resposta jurídica, em que deixavam de considerar situações concretas mas defendiam a "pobreza perfeita" dos franciscanos, alertando para o perigo de que o "núncio" estabelecido por Gregório IX em 1230 para ser um in-termediário entre os que davam esmolas e os frades, pudesse vir a agir como um banqueiro.

5. Observações gerais

O bolandista Papenbroke tinha anotado no sec. XVII sobre este livro: "É de Frei Leão". Mas não aprofundou a questão. Em nosso tempo, Lazzeri (1923) e Barbi (1984) também defenderam essa posição. Mas não é fácil crer que Frei Leão, o companheiro devotado, pensasse mais na Ordem que em São Francisco.

João de Perusa (ou quem quer que tenha sido o Anônimo) deve ter escrito o seu trabalho "Sobre o começo da Ordem..." justamente durante esse período difícil em que a fraternidade procurava se recuperar do furacão que tinha sido o governo de Frei Elias, e o papa estava cercado em Roma, esperando que os bispos fossem soltos pelo imperador.

Com a desculpa de que a Igreja precisava dos frades como legados, bispos e pregadores, a Ordem tinha multiplicado as casas de estudo, as bibliotecas... De fato, já não era mais uma "religio fratrum" (que podemos traduzir como "um grupo religioso de irmãos"), mas uma Ordem, estabelecida e organizada.

O Anônimo Perusino não é polêmico. Tem uma enorme solicitude pelos valores originais da Ordem, mas se limita a apresentá-los de maneira simples, como uma boa sugestão para os frades.

Em comparação com a Vida I de Celano, que era anterior e dirigida aos leigos, o autor parece querer sublinhar com força dois aspectos: a pobreza e a alegria de São Francisco e de seus primeiros companheiros.

É muito importante notar que o Anônimo Perusino está incluído praticamente inteiro no Espelho da Perfeição e que constitui o núcleo da Legenda dos Três Companheiros. É bom confrontar os números 10-35 do AP com os números 26-50 da LTC. Mas essas obras reelaboraram o que tinham encontrado e é evidente que a LTC conseguiu apresentar um livro mais interessante e mais ligado ao próprio São Francisco.

Mas dá para sentir nele algo de mais genuíno. O estudioso Luigi Pellegrini afirmou: "é único pela coerência, organicidade e originalidade do desenvolvimento narrativo".

Assim mesmo, não é difícil perceber que o seu retrato encantado dos primeiros frades, contido nos números 25-30, está projetando no passado algumas situações bem próprias de seu tempo.

Foi uma pena que se perdeu, no século passado, o códice, provavelmente escrito em Assis mas por um frade de origem alemã. Ele estava acorrentado ao túmulo de Frei Egídio como uma oferta votiva e continha o nosso livro e mais outros documentos sobre o santo companheiro de Francisco.

Mas vamos guardar sempre os seus testemunhos simples, como este:

Qualquer coisa que tivessem, fosse um livro, fosse uma túnica, estava à disposição de todos, e ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, exatamente como se fazia na Igreja primitiva dos apóstolos (27).  

O Anônimo Perusino está dividido em 48 parágrafos, citados de AP 1 a AP 48.

Sobre o começo ou fundação da Ordem e sobre os atos daqueles frades menores que foram os primeiros na religião e companheiros do Bem-aventurado Francisco.

2

1 Como os servos de Deus não devem ignorar o caminho e doutrina dos santos varões, pela qual possam chegar até Deus,

2 por isso, para a honra de Deus e para a edificação dos que lêem e ouvem, eu, que vi seus atos, ouvi suas palavras, fui discípulo deles, narrei e compilei algo dos atos do bem-aventurado Pai nosso Francisco e de alguns dos frades que vieram no começo da religião, na medida em que minha mente foi divinamente instruída.  

Capítulo 1 – O modo como o bem-aventurado Francisco começou a servir a Deus.

3

1 Depois que se completaram 1207 anos da Encarnação do Senhor, no dia 16 de abril, vendo Deus que seu povo, remido com o sangue precioso de seu Filho unigênito, vivia esquecido de seus mandamentos e ingrato por seus benefícios, depois de ter tido misericórdia para com ele, que merecia a morte, durante longo tempo, “não querendo a morte do pecador, mas que se converta e viva” (cfr. Ez 33,11), movido por sua infinita misericórdia, decidiu enviar operários para a sua messe (cfr. Mt 9,38).

2 E iluminou um homem, que havia na cidade de Assis, chamado Francisco, mercador por profissão, esbanjador muito vaidoso da riqueza mundana.

4

1 Certo dia, estava na loja, onde costumava vender panos, solicitamente absorvido nos negócios, quando apareceu um pobre pedindo que lhe desse uma esmola por amor de Deus.

2 O sobredito Francisco, entregue ao pensamento das riquezas e ao cuidado do que dissemos, negou-lhe a esmola, mandando-o embora.

3 Enquanto o mendigo saía, o jovem, tocado pela graça, começou a reprovar-se por sua grande grosseria,

4 dizendo: “Se aquele pobre te houvesse pedido uma contribuição em nome de algum conde ou grande barão, lhe darias o que pediu.

5 Quanto mais o devias ter feito pelo Rei dos reis e Senhor de tudo!”

6 Por esse motivo propôs, no coração, não recusar mais nada, daí em diante, que fosse pedido em nome de tão grande Senhor.

7 Chamou o dito pobre e lhe deu uma boa esmola.

8 Ó coração cheio de toda graça, frutuoso e iluminado!

9 Ó firme e santo propósito, que foi seguido por admirável e inesperada, iluminação singular do futuro!

10 Nem é de admirar, se pela voz do Espírito Santo Isaías proclamou: Quando derramares tua alma pelo esfomeado e saciares a alma aflita, nascerá nas trevas a tua luz, e tuas trevas serão como o meio dia (Is 58,10),

11 E: Quando repartires teu pão com o que tem fome, tua luz romperá como a da manhã, e tua justiça precederá tua face (Is 58,7-8).

5

1 A este homem bem-aventurado aconteceu posteriormente um fato admirável, que acho indigno deixar passar em silêncio.

2 Dormia, uma noite, em sua cama, quando lhe apareceu alguém chamando-o pelo nome, que o levou a um palácio de e indizível e belo conforto, cheio de armas militares e também escudos resplandecentes e cruzados, pendurados por toda parte na parede.

3 Perguntou de quem eram essas armas que refulgiam com tamanho esplendor e o palácio tão confortável, recebendo esta resposta de quem o conduzia: — “Tudo isso é teu, com o palácio dos teus soldados”.

4 Acordado, começou a pensar mundanamente, como alguém que ainda não tinha provado plenamente o espírito de Deus, achando que nisso teria um principado magnífico.

5 Pensando muito sobre essas coisas, resolveu fazer-se cavaleiro, para que um principado como aquele lhe fosse ofertado como militar.

6 Por isso resolveu partir para a Apúlia, junto ao conde Gentil, preparando panos preciosos como pôde, para ser feito cavaleiro pelo referido conde.

7 Tornou-se, por isso, mais alegre ainda do que de costume e encantava a todos.

8 Aos que perguntavam de onde vinha essa nova alegria, respondia: “Sei que vou ser um grande príncipe”.

6.

1 Arranjou um escudeiro, montou a cavalo e se dirigiu para Apúlia.

2 Mas, quando chegou a Espoleto, preocupado com a viagem, apeou, noite feita, para dormir. Meio adormecido ouviu uma voz perguntando onde queria ir.

3 Explicou, por ordem, todo o seu plano.

4. A voz insistiu: -- “Quem te pode fazer melhor, o senhor ou o servo?” Ele respondeu: “O senhor”.

5 “Então, por que abandonas o Senhor pelo servo; o Príncipe pelo cliente?”

6 Francisco respondeu: “Senhor, que queres que eu faça?”

7 “Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar”.

8 Por graça divina sentiu-se mudado de repente, assim lhe parecia, num outro homem.

7.

1 Quando amanheceu, voltou para casa, como lhe tinha sido mandado.

2 De viagem, chegando a Foligno, vendeu o cavalo em que montava e os trajes que pusera para ir para a Apúlia, vestindo roupas mais vis.

3 Feito isso, pegando o dinheiro adquirido, voltou de Foligno para Assis, aproximou-se de uma igreja edificada em honra de São Damião e, encontrando a morar aí um pobre sacerdote de nome Pedro, entregou-lhe o dinheiro para guardar.

4 O padre não quis guardar o dinheiro, por não ter lugar adequado para guardá-lo.

5 Ouvindo isso, Francisco, homem de Deus, jogou-o com desprezo numa janela daquela igreja.

6 Levado pelo espírito de Deus, vendo a igreja a ameaçar ruína e pobre, resolveu usar o dinheiro para restaura-la, e morar ali, querendo libertar e aliviar sua pobreza.

7 Com o passar do tempo também realizou essa obra, com a aprovação prévia de Deus.

8.

1 Quando ouviu isso, seu pai, amando-o carnalmente e desejando o referido dinheiro, começou a maltrata-lo e, cobrindo Francisco de muitos impropérios, pedia-lhe o dinheiro.

2 Na presença do bispo de Assis, entregou alegremente ao pai o dinheiro e a roupa que vestia, ficando nu sob o manto do bispo, que o abraçou despido.

3 Deus enriqueceu-o quando estava pobre e desprezado, já vazio de coisas temporais, vestido com uma roupa pobríssima e desprezível, ao voltar para morar na referida igreja;

4 enchendo-o do seu Espírito Santo e colocando-lhe na boca a palavra de vida, para que pregasse e anunciasse aos povos o juízo e a misericórdia, a pena e a glória, recordando-lhes os mandamentos de Deus, que tinham esquecido.

5 “Deus o constituiu príncipe de uma multidão de povos” (Gn 17,4), que Deus reuniu através dele de todo o mundo.

6 O Senhor o conduziu pelo caminho direito e estreito, pois não quis possuir ouro nem prata, nem dinheiro nem coisa nenhuma,

7 mas seguiu o Senhor em humildade, pobreza e simplicidade de coração.

9.

1 Andava descalço, com um hábito desprezível, cingido também com um cinto vilíssimo.

2 Em qualquer lugar em que o pai o encontrasse, cheio de uma dor veemente, amaldiçoava-o.

3 Mas o homem bem-aventurado assumiu um pobre velho, chamado Alberto, pedindo-lhe a bênção.

4 Muitos outros zombavam dele, dizendo-lhe palavras ofensivas; quase todos achavam que tinha enlouquecido.

5 Mas ele não se preocupava e também não lhes respondia; mas procurar com toda solicitude cumprir o que Deus lhe mostrava.

6 “Não se apoiava doutas palavras da sabedoria humana mas na manifestação e na força do Espírito”. (1Cor 2,4.13).

CAPITULO 2 - Os dois primeiros frades que seguiram o Bem-aventurado Francisco

10.

1 Vendo e ouvindo isto, dois homens daquela cidade, inspirados pela visita da graça divina, aproximaram-se humildemente dele.

2 Um deles foi Frei Bernardo, o outro Frei Pedro.

3 E disseram-lhe com simplicidade: “De agora em diante queremos ficar contigo e fazer o que fazes. Explica-nos o que devemos fazer com nossas coisas”.

4 Exultando pela vinda e o desejo deles, respondeu-lhes bondosamente: --“Vamos pedir o conselho do senhor”.

5 Dirigiram-se a uma igreja da cidade, entraram e se ajoelharam para rezar:

6 “Senhor Deus, Pai da glória, nós vos suplicamos que em vossa misericórdia, nos mostreis o que devemos fazer”.

7 Terminada a oração, disseram ao sacerdote da dita igreja, que aí estava:

8 “Senhor, mostra-nos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

11.

1 Tendo o sacerdote aberto o livro, porque eles ainda não sabiam ler bem, logo encontraram o lugar onde estava escrito: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Mt 19,21).

2 Virando outras páginas, encontraram: “Quem quiser vir após mim (Mt 16,24), etc.

3 E voltando mais outras páginas, encontraram: “Não leveis coisa alguma para o caminho (Lc 9,3), etc.

4 Ouvindo isso tiveram uma alegria muito grande e disseram: “Eis o que desejávamos, eis o que procurávamos”.

5 E o bem-aventurado Francisco disse: “Esta será nossa regra”.

6 Depois disse àqueles dois: “Ide e ponde em prática o conselho do Senhor, como ouvistes”.

7 Frei Bernardo foi e, como era rico, vender tudo que possuía e fez muito dinheiro.

8 Frei Pedro, porém, era pobre de bens terrenos, mas já era rico em bens espirituais.

9 Também ele fez como lhe fora aconselhado pelo Senhor.

10 Ajuntando os pobres da cidade, distribuiram entre eles o dinheiro arrecadado com a venda de suas propriedades.

12.

1 Enquanto faziam isso, com a presença do bem-aventurado Francisco, veio um sacerdote chamado Silvestre, de quem o bem-aventurado Francisco comprara pedras para reformar a igreja de São Damião, junto à qual morava antes de ter irmãos companheiros.

2 Vendo-os dispor do dinheiro daquele jeito, o sacerdote, desejoso pelos ardores da avareza, quis que lhe dessem daquele dinheiro e começou a murmurar: --- “Francisco, não pagaste bem as pedras que me compraste”.

3 Ouvindo-o murmurar injustamente, o bem-aventurado Francisco que repelira de si toda avareza, aproximou-se de Frei Bernardo e, pondo a mão em seu manto, onde estava o dinheiro, tirou a mão cheia de moedas e deu-as ao sacerdote.

4 Pondo de novo a mão na capa tirou moedas, como já tinha feito uma vez, e deu-as de novo ao presbítero, dizendo: “Agora está tudo pago?”. “Está”, disse ele.

5 Feio isso, o sacerdote voltou alegre para sua casa.

13.

1 Poucos dias depois, o mesmo sacerdote, inspirado pelo Senhor, começou a pensar no que o bem-aventurado Francisco tinha feito, dizendo: -- “Será que não sou um miserável, eu que, sendo velho, desejo e procuro essas coisas temporais, enquanto esse jovem despreza-as e as aborrece por amor de Deus?

“2 Na noite seguinte viu uma cruz imensa demais, cuja ponta tocava os céus, enquanto o seu pé estava na boca do bem-aventurado Francisco”.

3 Mas os lados da cruz se estendiam de uma extremidade do mundo até a outra.

4 Ao acordar, o sacerdote acreditou que o bem-aventurado Francisco era de fato amigo de Deus e que a religião que iniciara deveria estender-se ao mundo inteiro.

5 Começou assim a temer a Deus e a fazer penitência em sua casa.

6 E pouco tempo mais tarde entrou na Ordem dos frades, onde viveu bem e terminou gloriosamente.

CAPITULO 3 – Sobre o primeiro lugar onde moraram e sobre a perseguição de seus parentes

14.

1 Mas depois que Frei Bernardo e Frei Pedro, tendo vendido suas propriedades deram o seu valor aos pobres, como dissemos, vestiram-se como o homem de Deus bem-aventurado Francisco e se associaram a ele.

2 Não tendo casa para ficar, foram e acharam uma igreja pobrezinha quase abandonada, que se chamava Santa Maria da Porciúncula.

3 Construíram ali uma cabana. onde moraram juntos.

4 Oito dias depois, veio a eles de novo um outro chamado Egídio, da mesma cidade, homem devotíssimo e fidelíssimo, a quem o Senhor deu muita graça.

5 De joelhos, com grande devoção e reverência, pediu a Francisco que se dignasse recebe-lo em seu grupo.

6 Ouvindo e vendo isso, o bem-aventurado Francisco ficou contente, e recebeu-o alegremente e de boa vontade.

7 E assim os quatro tiveram uma imensa alegria e um gozo espiritual muito grande.

15.

1 Depois o bem-aventurado Francisco tomou Frei Egídio e o levou consigo para a Marca de Ancona. Os outros dois ficaram.

2 Enquanto iam, exultavam não pouco no Senhor.

3 Francisco, homem de Deus, exultou com voz claríssima, cantando em francês, louvando e bendizendo o Senhor.

4 Assim transbordava neles uma grande alegria, como se tivessem adquirido o maior tesouro.

5 De fato, podiam alegrar-se muito, porque tinham deixado muitas coisas e julgavam esterco as coisas que contristavam as pessoas, considerando as amarguras que os amantes do século sofrem nos deleites das coisas seculares, em que se encontra muita miséria e tristeza.

6 Francisco disse ao seu companheiro Frei Egídio: “Nossa Religião vai ser como o pescador, que lança sua rede na água, pegando uma grande quantidade de peixes.

7 Vendo a quantidade de peixes, escolhe os grandes para as suas vasilhas, deixando os pequenos na água”.

8 O referido Egídio estava admirado com aquela profecia que o Santo soltou de sua boca, sabendo que o número dos irmãos era pequeno.

9 O homem de Deus ainda não pregava ao povo.

10 Entretanto, quando passavam pelas cidades e aldeias, exortava homens e mulheres a temerem e amarem o Criador do céu e da terra, e a fazerem penitência por seus pecados.

11 Frei Egídio respondia dizendo: -- “Ótimo; acreditai nele”.

16. Os que ouviam comentam entre si: “Quem são estes? O que estão dizendo?”.

2 Alguns deles diziam que eram doidos ou pareciam bêbados. Mas outros diziam: -- (Não são palavras de doidos as proferidas por sua boca”.

3 Um deles disse: “Por causa da maior perfeição aderiram ao Senhor ou se fizeram insanos, porque a vida de seu corpo parece desesperada. Andam descalços, vestem roupas vis, usam pouca comida”.

4 Mas ainda não os seguiam.

5 As mulheres moças, vendo-os de longe, fugiam temendo que fossem loucos.

6 Entretanto, embora nos os seguissem, ficavam temerosos por ver a forma de santo comportamento que pareciam ter recebido do Senhor.

7 Depois de ter percorrido aquela província, voltaram ao citado lugar de Santa Maria dos Anjos.

17. Passados poucos dias, vieram a eles três outros hommens da cidade de Assis: Frei Sabatino, Frei João e Frei Morico, o Pequeno, suplicando humildemente ao bem-aventurado Francisco que os recebesse no seu grupo.

2 E ele os acolheu, bondosa e alegremente.

3 Quando iam pela cidade para pedir esmola, mal havia quem lhes quisesse dar; mas diziam-lhes: -- “Deixastes as vossas coisas e quereis comer as dos outros”.

4 E assim passavam uma penúria muito grande.

5 Seus pais e parentes também os perseguiam; e os outros daquela cidade, pequenos e grandes, homens e mulheres, desprezavam-nos e riam-se deles como se fossem doidos. Menos o bispo da cidade, e o bem-aventurado Francisco o procurava muitas vezes para pedir conselho.

6 O motivo da perseguição dos pais e parentes e das zombarias dos outros: porque naquele tempo não se via ninguém que abandonasse seus bens e fosse pedir esmola de porta em porta.

7 Certa vez, quando Francisco foi procurar o bispo, este disse-lhe: “Vossa vida me parece dura e áspera demais: não possuir nem ter nada neste mundo”.

8 O santo de Deus respondeu-lhe: “Senhor, se tivéssemos posses, para protegê-las precisaríamos de armas, porque é daí que nascem as questões e muitas brigas, e o amor de Deus e do próximo costuma ficar impedido.

9 Por esta razão decidimos não possuir nada de temporal neste século”.

10 Esta resposta agradou ao bispo.

CAPITULO 4 - Como admoestou os irmãos e os mandou pelo mundo.

18.

1 Mas São Francisco, já cheio da graça do Espírito Santo, predisse o que aconteceria aos seus irmãos.

2 Chamou para si os seis frades que tinha e, na floresta junto da igreja de Santa Maria da Porciúncula (onde eles iam freqüentemente rezar),

3 disse-lhes: -- “Caríssimos irmãos, consideremos a nossa vocação, porque Deus nos chamou misericordiosamente, não tanto para a nossa mas para a utilidade e também para a salvação de muitos.

4 Portanto, vamos pelo mundo exortando e instruindo homens e mulheres com a palavra e com o exemplo, para que façam penitência de seus pecados e se lembrem dos mandamentos do Senhor, que já por longo tempo esqueceram”.

5 E disse mais: “Pequeno rebanho, não tenhais medo (Lc 12,32), mas tende confiança em Deus.

6 Não digais entre vós: “Somos homens rudes e sem instrução: como faremos para pregar?”

7 Mas lembrai-vos das palavras que o Senhor dirigiu a seus discípulos: “Não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai fala em vós” (Mt 10,20).

8 O próprio Senhor vos comunicará espírito e sabedoria para exortar e pregar aos homens e mulheres o caminho e as obras dos seus preceitos.

9 Encontrareis fiéis mansos, humildes e benévolos, que receberão a vós e a vossas palavras com alegria e amor.

10 Outros encontrareis infiéis, soberbos e blasfemos, resistindo e exprobrando a vós e a vossas palavras.

11 Por isso, colocai em vossos corações que tendes que suportar tudo isso com paciência e humildade”.

12 Quando ouviram estas palavras, os irmãos ficaram com medo.

13 Percebendo o temor deles, o bem-aventurado Francisco disse-lhes: -- “Não tenhais medo!

14 Sabei que dentro de não muito tempo virão ter conosco muitos sábios, prudentes e nobres, e ficarão conosco.

15 Pregarão às multidões e aos povos, aos reis e aos príncipes, e muitos se converterão ao Senhor.

16 E o Senhor fará multiplicar e crescer sua família pelo mundo inteiro”.

17 Quando acabou de dizer todas essas palavras, deu-lhes a bênção e eles partiram.

CAPITULO 5 – Sobre as perseguições que os frades sofreram quando iam pelo mundo.

19.

1 Quando os devotíssimos servos de Deus caminhavam pela estrada e encontravam alaguma igreja habitável ou abandonada, ou mesmo uma cruz junto do caminho, inclinavam-se para elas com toda devoção, dizendo:

2 Nós te adoramos, Cristo, e te bendizemos, aqui e em todas as tuas igrejas que há no mundo inteiro, porque por vossa santa cruz remiste o mundo”.

3 Acreditavam e sentiam que tinham encontrado um lugar do Senhor.

4 Quem os via maravilhava-se: “Nunca vimos religiosos vestidos desta maneira”.

5 Mas pareciam homens do mato, por ter roupa e vida diferentes de todos.

6 Entrando numa cidade, num castelo numa casa, anunciavam a paz.

7 Onde encontravam homens ou mulheres, nos caminhos ou nas praças, animavam-nos a temerem e a amarem o Criador do céu e da terra, e para que, recordando os mandamentos dele que tinham esquecido, tratassem de cumpri-los agora.

8 Eram interrogados por muita gente, e era muito trabalhoso para eles responder a tantas e tão variadas perguntas, porque em coisas novas sempre nascem questões novas.

10 Alguns perguntavam: -- “De onde sois?”. Mas outros diziam: “De que Ordem sois?”.

11 Eles respondiam com simplicidade: -- “Somos penitentes, e nascemos na cidade de Assis”.

12 Pois a Religião dos irmãos ainda não se chamava Ordem.

20.

1 Muitos, ao vê-los e ouvi-los, achavam que eram uns impostores ou loucos.

2 Algum deles dizia: -- “Não quero recebe-los em minha casa, para que não roubem o que é meu”.

3 E por isso, em muitos lugares, faziam-lhes muitas injúrias.

4 Por isso se alojavam mais vezes nos pórticos ou casas das igrejas.

5 Nesse tempo, na cidade de Florença, dois frades andavam procurando onde se hospedar na cidade mas não conseguiram encontrar nada.

6 Chegando a uma casa, que tinha na frente um alpendre com um forno, disseram um ao outro: “Podemos ficar aqui”.

7 Pediram à dona da casa que se dignasse recebê-los em sua casa.

8 Como ela se recusasse na mesma hora, suplicaram-lhe que os deixasse passar aquela noite junto do forno.

9 Ela consentiu. Mas quando o marido dela chegou e viu os frades perto do forno, disse-lhe: -- “Por que deste hospedagem a esses malandros?”.

10 Ela respondeu: -- “Não quis alojá-los dentro de casa, mas permiti que ficassem no alpendre: não poderão roubar-nos nada, a não ser lenha”.

11 Por causa dessa desconfiança, não quiseram emprestar aos frades nada para se cobrirem, lhes deram nada para cobrir-se, embora fizesse muito frio naquele tempo.

12 Durante a noite os frades se levantaram para Matinas, e foram à igreja próxima.

21.

1 Quando amanheceu, aquela senhora foi à igreja para ouvir missa, e viu-os permanecer em oração, devota e humildemente.

2 Disse consigo mesma: “Se esses homens fossem malfeitores, como disse meu marido, não insistiriam na oração tão reverentemente”.

3 Quando a mulher estava pensando nisso, eis que um homem chamado Guido andava pela igreja, dando esmolas aos pobres que encontrava.

4 Chegando aos frades, queria dar uma moeda a cada um, como aos outros, mas eles não quiseram receber.

5 Então ele disse: -- “Mas por que não aceitais as moedas, como os outros pobres, pois vejo que são carentes e necessitados?”.

6 Um deles, chamado Bernardo, respondeu: -- “É verdade que somos pobres, mas a nossa pobreza não é grave como a dos outros, porque foi pela graça de Deus e para cumprir se conselho que nos fizemos pobres”.

22.

1 Admirado dessas coisas, aquele homem perguntou-lhes se ainda tinham alguma coisa mundo.

2 Eles responderam que tinha tido alguma coisa mas que, por amor de deus, tinham entregado aos pobres.

3 A mulher, vendo que os frades tinham recusado as moedas, aproximou-se deles e disse: -- “Cristãos, se quiseerem voltar à minha hospedagem, eu vos receberei de boa vontade dentro de casa”.

4 Os frades responderam humildemente: “Que o Senhor te retribua!”

5 Mas quandoo o homem viu que os frades não podiam encontrar hospedagem, tomou-os, levou-os para sua casa e disse-lhes:

6 “Eis a morada que Deus vos preparou!

7 Ficai aqui como quiserdes”.

8 Mas eles deram graças a Deus, que fora misericordioso para com eles e ouvira o clamor dos pobres.

9 E ficaram ali por alguns dias.

10 E assim, por causa das muitas palavras que ouviu deles e dos bons exemplos que viu, posteriormente deu muitas coisas aos pobres.

23.

1 Entretanto, apesar de terem sido tratados tão bondosamente por esse homem, entre outras pessoas então os frades eram comumente tidos como vis, e muitos, pequenos e grandes, tratavam-nos e falavam com eles como senhores com seus servos.

2 Embora tivessem roupas miseráveis e paupérrimas, muitos as tiravam de boa vontade.

3 Como ficavam despidos, porque só tinham uma túnica, observaram sempre a forma evangélica, não as reclamando dos que tinham tirado.

4 Mas se eles queriam restituir, movidos de piedade, recebiam de boa vontade.

5 Alguns lhes jogavam barro na cabeça; colocaram dados nas mãos de um deles, convidando-o a jogar.

6 Um frade foi carregado pelo capuz nas costas de um outro, por quanto tempo lhe aprouve.

7 Faziam-lhes essas coisas e muitas outras, afligindo-os, mas não as contamos para que nossa narração não se alongue demais.

8 Julgavam-nos tão desprezíveis, que os afligiam com segurança e audácia, como se fossem malfeitores.

9 Além disso, suportavam muitas tribulações e angústias, com fome, sede, frio e nudez.

10 Mas agüentavam tudo isso com constância e paciência, como tinham sido ensinados pelo bem-aventurado Francisco.

11 Não ficavam tristes nem perturbados mas, como homens que estivessem numa situação de grande vantagem, exultavam nas tribulações e se alegravam, orando solicitamente a Deus por seus perseguidores.

24.

1 Quando as pessoas viam-nos exultar no meio das tribulações e tolera-las pacientemente pelo Senhor, sem abandonar uma oração devotíssima, sem receber nem levar dinheiro, como faziam os outros pobres indigentes, e o grande amor que tinham entre si, no qual percebiam que eram discípulos do Senhor, muitos se compungiram em seus corações pela bondade do Senhor; e se aproximavam deles para pedir perdão pelas ofensas que lhes tinham feito.

2 Eles perdoavam de coração, respondendo com alegria: -- “O Senhor vos perdoe!”

3 E assim os ouviam, depois, de boa vontade.

4 Alguns rogavam que se dignassem recebe-los em sua companhia, e receberam muitos, pois naquele tempo, como os frades eram poucos, cada um tinha recebido do bem-aventurado Francisco o poder de receber os que quisesse.

5 No tempo determinado, voltaram para Santa Maria da Porciúncula.

CAPITULO 6 - Sobre o comportamento dos irmãos e o amor que tinham entre si.

25.

1 Quando se reviam, ficavam tão repletos de contentamento e alegria espiritual, que não se lembravam mais das adversidades sofridas nem se preocupavam com a sua enorme pobreza.

2 Eram solícitos todos os dias na oração e no trabalho com as próprias mãos, para afugentar toda forma de ociosidade, inimiga da alma.

3 De noite também eram solícitos em levantar-se à meia-noite, segundo a palavra do Profeta: “Levantava-me à meia-noite para te louvar”, rezavam com muita devoção e, freqüentemente, com lágrimas.

4 Amavam-se com afeto profundo, um servia e nutria o outro, como uma mãe serve e nutre seu filho.

5 Era tão ardente neles o fogo da caridade que lhes parecia fácil entregar seus corpos não só pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, mas também um pelo outro, de boa vontade.

26.

1 Certo dia, quando dois frades caminhavam por uma estrada, encontraram um louco que jogou pedras neles.

2 Um dos frades, vendo vendo jogarem pedras em seu irmão, correu e se pôs na frente das pedradas, perefrindo que fosse ferido ele e não seu irmão, pela ardente caridade mútua.

3 Faziam mais vezes coisas dessas e semelhantes.

4 Estavam enraizados e fundamentados na caridade e na humildade, e cada um respeitava o outro como se fosse seu senhor.

5 Quem se destacava entre eles pelo ofício ou pela graça parecia mais humilde e m ais desprezível.

6 Todos também se entregavam totalmente à obediência: quando se abria a boca de quem mandava, preparavam imediatamente seus pés para ir e suas mãos para agir.

7 Qualquer coisa que se lhes mandasse, achavam que era um preceito segundo a vontade de Deus; por isso, cumprir era suave e fácil para eles.

8 Abstinham-se dos desejos carnais e se apresentavam solicitamente para não julgarem a si mesmos.

27.

1 Se por acaso um deles dissesse uma palavra que pudesse desagradar ao outro, sentia tal remorso que não ficava em paz enquanto não fosse pedir desculpas. Prostrava-se por terra e pedia que o irmão colocasse o pé em sua boca, mesmo que relutasse em fazê-lo.

2 Se ele não quisesse pôr de jeito nenhum, se era um prelado o que tinha dito a palavra, preceituava que o fizesse, se não, fazia que fosse mandado pelo prelado, para afastar deles a malícia e e para que a plena afeição entre eles fosse mantida.

3 E assim cuidavam de opor contra os vícios cada uma das virtudes.

4 Qualquer coisa que tivessem, livro ou túnica, usavam em comum, e ninguém dizia que alguma coisa era sua, como se fazia na Igreja primitiva dos Apóstolos.

5 Embora abundasse entre eles uma enorme pobreza, eram sempre generosos e compartilhavam com todos que o pediam por amor de deus as esmolas que lhes tinham sido dadas.

28.

1 Quando iam pelo caminho e encontravam pobres que lhes pediam, alguns deles, não tendo o que dar, dando uma parte de sua própria roupa para os pobres.

2 Um deles soltou o capuz da túnica e o deu e um pedinte; outro arrancou a manga e deu; outros davam um pedaço da túnica, para observar a palavra do Evangelho: “Dá a todo que te pedir” (Lc 6,30).

3 Um dia, veio um pobre à Igreja de Santa Maria da Porciúncula, onde eles moravam, e pediu esmola aos frades.

4 Havia lá um manto, que tinha sido de um deles enquanto ainda estava no século.

5 O bem-aventurado Francisco disse àquele frade, a quem pertencera o manto, que a desse ao pobre.

6 Ele deu, de boa vontade e depressa.

7 Imediatamente, por causa da reverência e devoção que o frade tivera ao dar, pareceu-lhe que aquela esmola subia ao céu e se sentiu repleto por um espírito novo.

29.

1 Quando ricos deste mundo os procuravam, recebiam-nos com alegria e benevolência, e os convidavam a afastar-se do mal e fazer penitência.

2 Naquele tempo, os frades pediam solicitamente que não fossem mandados aos lugares onde tinham nascido, para fugir da companhia e familiaridade dos parentes, de acordo com a palavra do Profeta: “Tornei-me um estranho para meus irmãos, um peregrino para os filhos de minha mãe” (Sl 68,9).

3 Alegravam-se muito na pobreza, porque não cobiçavam outras riquezas senão as eternas.

4 Nunca tinham ouro e prata, e embora desprezassem todas as riquezas deste mundo, dinheiro era o que mais calcavam aos pés.

30.

1 Certo dia, quando os frades moravam em Santa Maria da Porciúncula, vieram algumas pessoas e entraram na igreja e, sem que eles o soubessem, deixaram moedas sobre o altar.

2 Um frade, entrando na igreja, pegou as moedas que achou e as colocou em uma janela da mesma igreja.

3 Mas um outro frade, achando o dinheiro onde o irmão o pusera, foi contar a São Francisco.

4 Quando o bem-aventurado Francisco ouviu isso, mandou investigar diligentemente qual dos frades tinham posto o dinheiro lá.

5 Quando descobriu, mandou que viesse a ele e disse: -- “Por que fizeste isso?”.

6 “Não sabias que eu não só não quero que os frades usem dinheiro, mas que nem mesmo toquem nele?”

7 Ouvindo isso, o frade se inclinou e disse de joelhos a sua culpa, rogando que lhe desse a penitência.

8 Ele mandou que levasse aquele dinheiro para fora da igreja na própria boca até que encontrasse esterco de asno e o pusesse em cima com a boca.

9 E o frade cumpriu isso com diligência.

10 A partir disso, admoestou os frades a que, onde quer que encontrassem dinheiro, desprezassem-no e o tivessem por nada.

11 Desse modo, estavam sempre alegres, porque não tinham por que se perturbar.

12 Pois, quanto mais estavam separados do mundo, tanto mais ficavam unidos a Deus.

13 Estes entraram pelo atalho, estreitaram o caminho e guardaram sua aspereza.

14 Quebraram pedras, pisaram espinhos, e assim deixaram um caminho plano para nós que os sucedemos.

CAPITULO 7 - Como foram a Roma e o senhor papa lhes concedeu a Regra e pregação.

31.

1 Vendo o bem-aventurado Francisco que a graça do Salvador aumentava seus frades em número e merecimento, disse-lhes: -- “Estou vendo, irmãos, que o Senhor quer fazer de nós uma grande congregação.

2 Por isso vamos a nossa mãe, a Igreja Romana, contemos ao Sumo Pontífice o que o Senhor está fazendo por nós, e vamos fazer o que começamos por vontade e preceito dele”.

3 Como lhes agradou o que dissera, tomou consigo os doze frades e foram para Roma.

4 Quando iam pelo caminho, disse-lhes: -- “Vamos fazer um de nós como nosso guia e o tenhamos como um vigário de Jesus Cristo para nós.

5 Para onde lhe agradar virar, vamos virar, e quando quiser parar, vamos parar”.

6 Elegeram Frei Bernardo, o primeiro que tinha sido recebido pelo bem-aventurado Francisco e, como dissera, puseram em prática.

7 Iam alegres, falando palavras do Senhor; nenhum deles ousava dizer nenhuma coisa que não fosse para louvor e glória do Senhor, e que fosse para utilidade de suas almas, ou se entregavam à oração.

8 E o Senhor lhes preparava, em tempo oportuno, o alimento e hospedagem.

32.

1 Quando chegaram a Roma, encontraram o bispo da cidade de Assis, que nesse tempo estava em Roma.

2 Ao vê-los acolheu-os com grande alegria.

3 O bispo era conhecido de um Cardeal, chamado dom João de São Paulo, homem bom e religioso, que amava muito os servos do Senhor.

4 A ele o bispo já falara sobre o projeto e a vida do bem-aventurado Francisco e de seus frades.

5 O qual, tendo ouvido isso, Com estas informações, tinha um grande desejo de encontrar o bem-aventurado Francisco e alguns de seus irmãos.

6 Sabendo que estavam na cidade, mandou chamá-los e os fez vir a sua casa.

7 Vendo-os, recebeu-os com devoção e amor.

33.

1 Depois de terem morado uns poucos dias com ele, e de ter visto refulgir em obras o que ouvira falar sobre eles, amava-os profundamente.

2 E disse ao bem-aventurado Francisco: -- “Recomendo-me às vossas orações, e quero que me tenhais como um de vossos irmãos. Por isso, dizei-me, a que viestes?”.

3 Então o bem-aventurado Francisco contou-lhe todo o seu propósito, e que queria falar ao Senhor Apostólico, para prosseguir o seu modo de vida segundo o querer e mandamento dele.

4 Ele respondeu: “Quero ser vosso procurador na cúria do senhor Papa”.

5 Então foi à cúria e disse ao senhor Papa Inocêncio III: “Encontrei um homem perfeitíssimo, que quer viver segundo a forma do santo Evangelho e observar a perfeição evangélica.

6 Creio que o Senhor queira, por meio dele, renovar completamente a Igreja no mundo”.

7 Ouvindo isso, o papa ficou maravilhado e disse-lhe: “Trazei-o a mim”.

34.

1 No dia seguinte levou-o ao Papa.

2 O bem-aventurado Francisco explicou ao senhor Papa todo o seu propósito, como tinha dito antes ao cardeal.

3 O papa respondeu: “Vossa vida é muito dura e áspera, se quereis fazer uma congregação e não quereis possuir nada neste século.

4 De onde virá o que vos é necessário?

5 O bem-aventurado Francisco respondeu: -- “Senhor, eu confio em meu Senhor Jesus Cristo.

6 Porque Aquele que nos prometeu dar a vida e a glória no céu, não vai tirar o que nos é necessário para o corpo na terra no tempo oportuno”.

7 O papa respondeu: -- “O que dizes é verdade, filho; mas a natureza humana é fraca e nunca permanece no mesmo estado”.

8 Mas vai rezar ao Senhor de todo coração para que se digne mostrar o que é melhor e mais útil para vossas almas.

9 Quando voltares me dirás, e depois eu concederei”.

35.

1 Então saiu para a oração, orou ao Senhor com o coração puro, para que por sua inefável piedade se dignasse mostrar-lhe isso.

2 Quando já estava perseverando na oração e tinha recolhido todo o seu coração no Senhor, fez-se a palavra do Senhor em seu coração, e lhe dizze por semelhança:

3 “No reino de um grande soberano havia uma mulher, muito pobrezinha mas bela, que agradou aos olhos do rei, que dela gerou muitos filhos.

4 Um dia a mulher começou a refletir e a dizer consigo mesma: “O que farei, eu pobrezinha, que tenho tantos filhos, mas não tenho nada de que possam viver?’

5 Enquanto estava nestes pensamentos, que davam um aspecto triste ao seu rosto, aparece o e lhe diz: ‘Que tens, pois te vejo preocupada, e triste?’

6 Ela contou tudo que estava pensando.

7 O rei respondeu dizendo: ‘Não tenhas medo por causa da tua grande pobreza e nem te deixes levar pela angústia por causa dos filhos que tens e dos muitos que ainda vão nascer, pois se muitos mercenários têm abundância de pão em minha casa, não quero que meus filhos morram de fome: mas quero que eles ainda tenham mais que os outros”.

8 Francisco, o homem de Deus, compreendeu logo que era designado por aquela mulher pobrezinha.

9 E por isso o homem de Deus confirmou seu propósito de obseervar a santa pobreza daí em diante.

36.

1 E levantando-se na mesma hora foi ao Apostólico e contou o que o Senhor lhe havia revelado.

2 Ouvindo isso, o senhor Papa ficou veementemente admirado, porque Deus revelara sua vontade a um homem tão simples.

3 E soube que ele “não caminhava na sabedoria dos homens, mas na luz e na força do Espírito” (1Cor 2,4).

4 Em seguida o bem-aventurado Francisco inclinou-se e prometeu ao senhor Papa obediência e reverência com humildade e devoção.

5 E os outros frades, poroque ainda não tinham prometido obediência, prometeram semelhantemente ao bem-aventurado Francisco obediência e reverência, conforme o preceiro do senhor Papa.

6 E o senhor Papa concedeu-lhe a Regra, e também para os irmãos que tinha e para os que viriam.

7 Deu-lhe autorização para pregar em qualquer lugar, como lhe concedesse a graça do Espírito Santo, e que também os outros frades, aos quais fosse concedido o ofício da pregação pelo bem-aventurado Francisco, pudessem pregar.

8 Daí em diante o bem-aventurado Francisco começou a pregar ao povo pelas cidades e castelos, como o Espírito do Senhor lhe revelava.

9 O Senhor colocou em sua boca palavras honestas, melífluas e dulcíssimas de modo que mal podia alguém saciar-se de ouvi-lo.

10 O referido Cardeal, pela devoção que tinha para com o Irmão, fez dar a clériga a todos aqueles doze frades.

11 Depois o bem-aventurado Francisco mandou que duas vezes por ano houvesse capítulo, em Pentecostes e na festa de São Miguel, no mês de setembro.

CAPITULO 8 - Como mandou que se fizesse capítulo e dos assuntos que eram tratados no capítulo.

37.

1 Em Pentecostes todos os frades se reuniam em capítulo junto da igreja de Santa Maria da Porciúncula. Nesse capítulo tratavam como poderiam observar melhor a Regra.

2 Dividiam pelas diversas províncias os frades que deviam pregar ao povo, e que frades colocariam em suas províncias.

3 São Francisco fazia admoestações, repreensões e preceitos para os frades, como lhe parecia depois de ter consultado o Senhor.

4 Mas tudo que dizia em palavras, primeiro lhes mostrava por obras, com carinho e solicitude.

5 Venerava os prelados e sacerdotes da santa Igreja.

6 Reverenciava os mais velhos, honrava os nobres e os ricos; e também amava entranhadamente os pobres e tinha compaixão deles.

7 Afinal, mostrava-se submisso a todos.

8 Embora fosse o mais elevado de todos os frades, nomeava como seu guardião e senhor a um dos irmãos que moravam com ele, e lhe obedecia com humildade e devoção, para evitar toda ocasião de soberba.

9 Este Santo humilhava sua cabeça até a terra entre os homens, e por isso Deus o exaltou no céu entre os seus santos e eleitos.

10 Exortava os frades a observarem com solicitude o santo Evangelho e a Regra que tinham prometido; admoestava-os, sobretudo, a serem respeitosos para com os ofícios e ordenações da Igreja, a ouvirem com amor e devoção a missa, a verem o corpo. de Nosso Senhor Jesus Cristo;

11 a honrarem os sacerdotes que tratam esses venerandos e máximos Sacramentos, e em qualquer lugar que os encontrassem, a dobrarem a cabeça e beijar-lhes as mãos.

12 E se os encontrassem andando a cavalo, fizessem-lhes uma reverência, e não só lhes beijassem as mãos, mas até os pés dos cavalos que estavam montando, por reverência ao seu podeer.

38.

1 Exortava-os a não julgar nem desprezar a nenhuma pessoa, nem mesmo aqueles que bebem, comem e vestem-se com luxo, como também está escrito na Regra.

2 “Pois nosso Senhor é o Senhor deles, e quem nos chamou pode chamá-los, e quem quis justificar-nos pode justificá-los”.

3 E dizia: -- “Quero respeitar a todos como meus irmãos e senhores.

4 São meus irmãos, porque somos todos de um único Criador; são meus senhores porque nos ajudam a fazer penitência, dando-nos as coisas necessárias ao corpo”.

5 Também dizia-lhes o seguinte: -- “Tal seja vosso comportamento no meio do povo “de modo que, qualquer um que vos vir ou ouvir glorifique e louve nosso Pai que está nos céus”.

6 Tinha um desejo ardente de realizar sempre, ele e seus irmãos, ações pelas quais o Senhor fosse louvado.

7 Dizia-lhes: -- “Assim como anunciais a paz com a boca, tende maior paz no coração, para que ninguém seja por vós provocado à ira e ao escândalo; mas todos sejam chamados à paz e bondade por vossa paz e mansidão.

8 Porque para isto fomos chamados: para curar os feridos, aliviar os esmagados, chamar de volta os que erraram.

9 Muitos nos parecem membros do diabo, mas ainda vão ser diiscípulos de Cristo”.

39.

1 Repreendia-lhes a excessiva austeridade com que tratavam o corpo. Porque naquele tempo os frades suavam demais nos jejuns, vigílias e exercícios corporais, para reprimir inteiramente os incentivos da carne.

2 Afligiam tanto a si mesmos que algum parecia ter ódio a si mesmo.

3 Mas ouvindo e vendo isso, o bem-aventurado Francisco os corrigia, como dissemos, e mandava que não fizessem tanto.

4 E era tão cheio da graça e sabedoria do Salvador, que fazia a admoestação devotamente; a repreensão, com bom senso; a imposição, com doçura.

5 Entre os irmãos reunidos em capítulo, ninguém ousava discutir negócios seculares com os outros;

6 mas conversavam sobre as vidas dos santos Padres, ou sobre a perfeição de algum frade, ou como poderiam chegar melhor à graça de nosso Senhor.

7 Mas se algum dos frades que tinham ido ao Capítulo tinha alguma tentação da carne ou do mundo, ou outra tribulação, ouvindo o bem-aventurado Francisco que falava fervorosa e docemente e vendo sua presença, desapareciam-lhes as tentações.

8 Pois falava com eles compadecendo-se, não como um juiz, mas como um pai com os filhos e um médico com o doente, para que se cumprisse nele o que foi dito pelo Apóstolo:

9 “Quem é fraco, que eu também não seja fraco? Quem tropeça, que eu não me consuma em febre?” (2Cor 11,29).

CAPITULO 9 – Quando os irmãos foram enviados por todas as províncias do mundo.

40.

1 Terminado o capítulo, abençoava todos os irmãos no Capítulo e destinava cada um deles às províncias, como queria.

2 A todos aqueles que possuíam o espírito de Deus e tinham eloqüência para pregar, clérigos ou leigos, dava-lhes a licença e a obediência de pregar.

3 Eles recebiam sua bênção com grande alegria e contentamento no Senhor Jesus Cristo.

4 Iam pelo mundo como peregrinos e forasteiros, sem levar nada pelo caminho, a não ser os livros em que pudessem dizer suas Horas.

5 Onde quer que encontravam um sacerdote, pobre ou rico, inclinavam-se como tinham sido ensinados pelo bem-aventurado Francisco, fazendo-lhes uma reverência.

6 E quando era hora de se hospedar, preferiam ficar mais entre eles que entre os seculares.

41.

1 E quando não podiam hospedar-se com eles, perguntavam quem naquela terra era homem espiritual e temente a Deus, em cuja casa pudessem hospedar-se honestamente.

2 Pouco tempo depois, o Senhor inspirou um que o temia em cada cidade ou castelo onde deveriam ir, que lhes preparava hospedagens, até que eles mais tarde edificaram seus lugares nas cidades e aldeias.

3 O Senhor lhes deu palavra e espírito conforme a oportunidade do tempo, para proferir palavras agudíssimas que penetravam muitos dos corações dos ouvintes, e mais dos jovens que dos velhos.

4 Eles deixavam pai e mãe e todas as suas coisas, e os seguiam, tomando o hábito da santa religião.

5 E nesse tempo cumpriu-se da melhor maneira neste Religião a palavra do Senhor, que disse no Evangelho:

6 Não vim trazer a paz à terra, mas a espada;

7 pois vim separar o homem de seu pai, a filha de sua mãe” (Mt 10,34-35).

8 Mas os frades levavam os que recebiam ao bem-aventurado Francisco, para serem revestidos por ele.

9 Do mesmo modo, muitas moças e sem marido, ouvindo a pregação dos frades, vinham a eles de coraçã compungido, dizendo: “E nós, o que podemos fazer? Não podemos ficar convosco.

11 Dizei-nos então como devemos fazer para salvar nossa alma”.

12 Para tal fim mandaram fazer em cada cidade mosteiros reclusos para fazer penitência.

13 Também constituíram um dos frades para ser seu visitador e corretor.

14 Da mesma forma diziam homens que tinham esposas: “Nós temos a esposas, que não querem ser dispensadas.

15 Portanto, ensinai-nos que caminho podemos fazer saudavelmente”.

16 Mas eles constituíram com esses uma Ordem que é chamada dos Penitentes, fazendo com que fosse confirmada pelo Sumo Pontífice.

CAPITULO 10 – Quando os cardeais, que se tornaram benévolos para com os frades, começaram a aconselhá-los e ajudá-los.

42.

1 O venerável pai, Cardeal Dom João de São Paulo, que muito freqüentemente dava conselho e apoio a Francisco, recomendava, diante dos outros cardeais, os méritos e a atividade de Francisco e de todos os seus irmãos.

2 Ouvindo isso, comoveram-se as suas entranhas para querer bem aos frades, e cada um desejava ter alguns frades em sua cúria, não para receber algum serviço deles, mas por devoção e pelo grande amor que tinham para com os frades.

3 Certa dia, quando o bem-aventurado Francisco chegou à Cúria, cada um dos cardeais pediu-lhe frades; e ele os concedeu bondosamente, de acordo com a sua vontade.

4 Mas o sobredito Dom João, que amava os santos pobres, morreu e descansou em paz

43.

1 Depois disso, o Senhor inspirou um cardeal de nome Hugolino, bispo de Óstia, que amou profundamente o bem-aventurado Francisco e seus frades, não só como um amigo, mas antes como um pai.

2 Tendo ouvido a sua fama, o bem-aventurado Francisco aproximou-se dele.

3 Quando o viu, o Cardeal recebeu-o com júbilo, dizendo-lhe; -- “Eu me ofereço a vós para conselho, auxílio e proteção à vossa vontade, e quero que me tenham recomendado em vossas orações”.

4 O bem-aventurado Francisco rendeu graças ao Altíssimo, que lhe havia inspirado o coração para dar consewlho, auxílio e proteção, e lhe disse:

5 “Quero, de boa vontade, ter-vos como pai e senhor meu e de todos os meus irmãos, e que todos os frades rezem a Deus por vós”.

6 Em seguida pediu que se dignasse vir ao capítulo de Pentecostes.

7 Ele aceitou e vinha todos os anos.

8 Quando vinha, todos os frades reunidos em Capítulo saíam em procissão ao seu encontro.

9 Ele, quando os frades chegavam, apeava do cavalo e seguia a pé, com os frades, até a igreja, pela devoção que tinha para com eles.

10 Depois fazia-lhes um sermão, celebrava a Missa, e o bem-aventurado Francisco cantava o Evangelho.

CAPITULO 11 - Como a Igreja protegeu-os das mãos dos perseguidores.

44.

1 Depois que passaram onze anos do começo da religião, multiplicado o número dos frades, foram eleitos Ministros e enviados com uns tantos frades por quase todas as províncias do mundo, onde se cultuava a fé católica.

2 Em algumas províncias eram recebidos mas não lhes permitiam edificar habitações.

3 Por alguns, eles eram expulsos, pois temiam que os frades não fossem fiéis cristãos, porque ainda não tinham uma Regra confirmada pelo Papa, mas só concedida.

4 Por isso sofreram muitas tribulações por parte dos clérigos e dos leigos, foram atacados por ladrões, e voltaram para São Francisco angustiados e aflitos.

5 Essas tribulações lhes foram feitas na Hungria, na Alemanha e outras províncias ultramontanas.

6 Os frades notificaram essas coisas ao referido Cardeal senhor ostiense.

7 Este, convocando o bem-aventurado Francisco, levou-o ao Papa Honório, porque o senhor Inocêncio já tinha morrido, e fez com que lhe escrevesse outra Regra e a confirmasse, e que fosse reforçada pelo selo do referido papa.

8 Nessa Regra foi prolongado o prazo do capítulo, para evitar o trabalho dos frades que moravam em regiões longínquas.

45.

1 O bem-aventurado Francisco pediu ao papa um dos cardeais, que fosse guia, protetor e corretor, como está estabelecido na própria Regra.

2 Foi-lhe concedido o supradito senhor ostiense.

3 Depois disso, tendo um mandato do papa, o senhor ostiense estendeu a sua mão para proteger os frades, mandou cartas para muitos prelados junto aos quais os frades tinham passado tribulações, para que não fossem contrários aos frades, mas antes, para que pregassem e morassem em suas províncias, dessem-lhes conselho e auxílio, como a varões bons e religiosos, aprovados pela Igreja.

4 E muitos dos outros Cardeais mandaram suas cartas semelhantemente, para o mesmo fim.

5 E assim, num outro capítulo, quando o bem-aventurado Francisco deu aos ministros a licença de receber frades na Ordem, foram reenviados frades àquelas províncias; levando, como dissemos, a regra confirmada e as cartas do Cardeal.

6 Quando os prelados viram a regra confirmada pelo Sumo Pontífice e também o bom testemunho sobre os frades dado pelo Cardeal ostiense com outros cardeais, concederam que eles edificassem, morassem e pregassem em suas províncias.

7 Feito isso, quando os frades já lá moravam e pregavam, muito,s, vendo o seu comportamento humilde, os costumes honestos e as palavras muito educadas, vieram aos frades e assumiram o hábito da santa religião.

8 O bem-aventurado Francisco, vendo a confiança e o afeto que o senhor de Óstia tinha para com os frades, amava-o de coração;

9 e quando lhe escrevia cartas dizia assim: “Ao venerável pai em Cristo, bispo de todo o mundo”.

10 Passado pouco tempo depois, o referido senhor ostiense, de acordo com a palavra profética do bem-aventurado Francisco foi eleito para a Sé Apostólica, e se chamou Papa Gregório IX.

CAPITULO 12 – Sobre a passagem do bem-aventurado Francisco, seus milagres e canonização.

46.

1 Passados vinte anos depois que o bem-aventurado Francisco aderiu à perfeição evangélica, Deus misericordioso quis que ele descansasse de seus trabalhos,

2 porque trabalhou muito em vigílias, em orações e em jejuns, em súplicas, em pregações, em viagens, em solicitudes, na compaixão pelo próximo; pois entregou todo o seu coração a deus seu Criador, e o amou de todo coração, com toda a alma, com todas as suas entranhas.

3 Levava a Deus no coração, louvava-o com a boca, glorificava-o em suas ações.

4 E se alguém proferia o nome de Deus, dizia: -- “O céu e a terra deviam inclinar-se a este nome”.

5 Querendo o Senhor mostrar o afeto com que o amava, pôs em seus membros e no seu lado os Estigmas de seu diletíssimo Filho.

6 E porque o servo de Deus desejava entrar na sua casa e no lugar onde morava a sua glória, o Senhor o chamou para junto de si, e assim migrou gloriosamente para o Senhor.

7 Depois disso apareceram muitos sinais e milagres no meio do povo, pelos quais os corações de muitas pessoas, que eram duras para crer naquelas coisas que o Senhor se dignara mostrar em seu servo. Foram mudados para a ternura,

8 dizendo: -- “Nós, insensatos, julgávamos sua vida uma loucura e seu fim sem honra.

9 Eis como foi contado entre os filhos de deus e sua sorte está entre os santos”.

47.

1 O venerável senhor e pai, Dom Gregório Papa, venerou, também depois da morte, o santo que amara em vida.

2 E vindo com os cardeais ao lugar onde estava enterrado o corpo do Santo, anotou seu nome no catálogo dos santos.

3 Por causa disso, muitos grandes senhores e nobres, deixando tudo, converteram-se ao Senhor com suas esposas, filhos e filhas, e toda a sua família.

4 As esposas e filhas fecharam-se nos mosteiros.

5 Os maridos e filhos assumiam o hábito dos frades menores.

6 Assim se cumpriu a palavra que tinha predito antes aos frades:

7 “Dentro de não muito tempo virão ter conosco muitos sábios, prudentes e nobres, e ficarão conosco”.

 

[Epílogo]

48.

1 Ee vos peço, caríssimos irmãos, que mediteis diligentemente estas coisas que escrevemos para nossos pais e irmãos caríssimos,

2 que o entendais corretamente e procureis pôr em prática, para que mereçamos ser participantes com eles da glória celeste.

3 À qual nos conduza nosso Senhor Jesus Cristo.