Segunda Parte

AS BIOGRAFIAS DE SÃO FRANCISCO

Apresentação geral

Fazer uma biografia quer dizer escrever (gráfein) a vida (bíos) de alguém. Já os antigos gregos e romanos escreveram biografias, julgando que era importante que se soubesse como tinha sido a vida de algumas pessoas ilustres.

Mas as biografias mudaram muito dos primeiros tempos para os nosso dias. Demorou para que fosse crescendo um espírito crítico que veio a exigir que os autores das biografias fizessem uma pesquisa científica, apresentando datas exatas e tentando provar todas as afirmações que fazem.

Nos primeiros tempos, a única coisa que se queria saber era que bons exemplos determinada personalidade tinha deixado para os que vieram depois.

Nesse sentido, o cristianismo conheceu, quase que desde os primeiros séculos, o que até se convencionou chamar de "hagiografia", ou vida de santo: hágios, em grego, quer dizer santo.

É bom notar que, no início, nunca se escreveu uma biografia de Jesus. Os evangelhos dão muitas notícias sobre ele, mas nenhum teve a pretensão de contar em ordem a sua vida.

Entre as vidas de santos mais antigas, podemos destacar a de Santo Antão abade, que foi escrita pelo famoso santo Atanásio de Alexandria. Outra que sempre foi conhecida é a autobiografia de Santo Agostinho, contida em seu livro "As Confissões". Depois dessas, marcaram época a vida de São Martinho de Tours, escrita por Sulpício Severo e a vida de São Bento, patriarca do monaquismo ocidental, escrita por São Gregório Magno. Um santo pouco anterior a São Francisco e que teve sua vida escrita foi São Bernardo de Claraval, que encontrou seu biógrafo em Guilherme de Saint Thierry.

Todas essas vidas famosas serviriam de modelo aos que contaram a história de São Francisco ainda no seu século, ou pouco depois.

Os hagiógrafos queriam edificar o leitor. Não tinham nenhum escrúpulo de inserir fatos da vida de um santo na vida de outro. O que importava era que o leitor também resolvesse ser santo.

Hoje em dia, valorizamos as hagiografias pelo que contaram sem querer: tudo que referem sobre os costumes e a maneira de pensar do tempo é importante como vestígio histórico.

Foi só por volta do ano de 1607 que os famosos Bolandistas começaram a publicar as Acta Sanctorum, as primeiras informações biográficas sobre os santos que, embora ainda não fossem científicas, tinham a preocupação de só apresentar fatos pesquisados e possivelmente comprovados.

Um trabalho científico com a história de São Francisco, Santa Clara e o movimento franciscano, só começou a aparecer no fim do sec. XIX. Nós, neste caderno de Fontes Franciscanas, e nesta seção de biografias, estamos apresentando apenas os livros que foram escritos nos séculos XIII e XIV e que trazem informações para a biografia de São Francisco.

Em alguns casos, a pesquisa feita pelos autores consistiu em narrar fatos que eles mesmos presenciaram ou foram presenciados por pessoas com quem puderam conversar. Em outros casos, a pesquisa limitouse a juntar em "compilações" o que já tinha sido contado por outros.

Evidentemente, cada autor foi marcado por sua própria história, pelos fatos que estavam acontecendo quando escreveu, pela finalidade que teve ao preparar o seu livro. Por isso, depois de apresentar uma lista completa das fontes biográficas de São Francisco no seu século, vamos ter o cuidado de estudar cada um dos principais livros, apresentando o autor, o seu tempo, os motivos que o levaram a escrever.

Três grupos de biografias

Podemos dividir as fontes biográficas em três grupos, de acordo com três grandes personalidades que se ocuparam em contar a vida de São Francisco: Frei Tomás de Celano, que entrou na Ordem em 1215, conheceu São Francisco, e foi encarregado de escrever as primeiras biografias; São Boaventura, que não chegou a conhecer o santo mas teve oportunidade de falar com muitos que o conheceram e, além disso, como um competente doutor da Igreja, escreveu a biografia que foi oficial por muitos séculos; Frei Leão, companheiro e secretário de São Francisco nos momentos mais importantes.

O grupo celanense

1. Tomás de Celano escreveu:

1a. Vida I de São Francisco. Que ele trabalhou em 1228 e apresentou ao papa Gregório IX no começo de 1229. Essa biografia esteve perdida de 1266 até 1768.

1b. Legenda ad usum chori. Um resumo da Vida I, feito em 1230, para os frades lerem no coro.

1c. Vida II de São Francisco. Que ele escreveu entre 1246 e 1247. Também esteve perdida entre 1266 e 1806.

1d. Tratado dos Milagres (3Cel). Foi escrito entre 1250 e 1252 e também esteve perdido de 1266 até 1899.

1f. Também se atribui a Tomás de Celano a Legenda de Santa Clara Virgem.

Nota: quando dizemos que alguns livros ficaram perdidos foi porque o Capítulo Geral da Ordem, celebrado em 1263, em Pisa, adotou a Legenda Maior de São Boaventura como biografia oficial, e o Capítulo Geral de Paris (1266) mandou eliminar todas as outras.

2. Juliano de Spira escreveu:

2a. Um Officium rythmicum, com música, para festejar São Francisco. Continha dados da I Celano e foi composto entre 1231 e 1232.

2b. Uma Vida de São Francisco, escrita na mesma época, entre 1231 e 1232 e também dependente de I Celano.

3. Henrique de Abranches, um cônego, não franciscano, escreveu em 1230 uma Legenda Sancti Francisci versificata. Baseada nas informações de I Celano, era dividida em 14 livros e abrangia 2.585 versos hexâmetros, o tipo clássico de poesia histórica.

4. João de Celano (ou de Ceprano), possivelmente um irmão de Tomás de Celano, escreveu a legenda Quasi stella matutina (Como a estrela da manhã), entre os anos 1235 e 1240, mas essa foi perdida e ainda não a encontraram.

O grupo bonaventuriano

1. São Boaventura Fidanza, de Bagnoreggio, escreveu:

1a. A Legenda Maior Sancti Francisci, em que ele trabalhou de 1260 a 1263.

1b. A Legenda minor ad usum chori. Um resumo que ele preparou na mesma época para os frades lerem no coro.

2. Bernardo de Bessa escreveu:

Um Liber de Laudibus Sancti Francisci, entre 1280 e 1285. Bernardo foi secretário de São Boaventura.

O grupo leonino

1. A Carta dos Três Companheiros de Grécio, de 11 de agosto de 1246. Costuma ser publicada como introdução ao livro seguinte.

2. A Legenda dos Três Companheiros, que é bastante posterior, podendo ser situada entre os anos 1290 e 1310.

3. O Sacrum Commercium (nome completo Sacrum commercium Beati Francisci cum domina paupertate). A data de sua composição é discutida, mas deve ter sido escrito entre 1260 e 1270.

4. Os Dicta beati Aegidii assisiensis (Ditos de Frei Egídio). Não sabemos quando se compôs o livro, mas sabemos que Frei Egídio morreu aos 23 de março de 1262.

5. O Anônimo perusino (nome correto: De inceptione Ordinis minorum), escrito provavelmente entre 1266 e 1270.

6. A Legenda perusina (também conhecida como Legenda antiqua, Flores trium sociorum, Scripta Leonis ou Compilatio assisiensis. Ficou conhecida como Legenda perusina porque foi descoberta no códice 1046 de Perusa. Deve ter sido escrita entre 1290 e 1311.

7. O Speculum perfectionis, datado de 1318.

8. Os Actus beati Francisci et sociorum eius, em 76 capítulos, escritos entre 1327 e 1340.

9. Os Fioretti de São Francisco, em 53 capítulos, uma tradução italiana feita a partir dos Actus Beati Francisci em 1380 ou 1396.

Observações gerais

1. Não pertence a nenhum desses três grupos mas também é uma fonte biográfica a Carta de Frei Elias, que o Vigário Geral da Ordem escreveu em 1226 como uma circular anunciando aos frades do mundo inteiro que São Francisco tinha morrido.

2. Algumas dessas biografias são compilações anônimas. Nos secs. XIII e XIV eram muito comuns essas obras não originais mas compostas de textos alheios. O Espelho de Perfeição, por exemplo, consta de 124 capítulos, dos quais: um deriva da 1Cel; 29 da 2Cel; 90 de uma coleção precedente de lembranças dos primeiros companheiros [talvez a que foi transmitida pela "Legenda Perusina"]; dois são originais; dois não identificados mas com ressonâncias de fontes conhecidas.

3. O capítulo de Pádua (1276) autorizou a recomeçar as pesquisas e publicações a respeito de São Francisco. Assim, não ficamos só com a Legenda Maior.

Tomás de Celano

1. A grande obra de Celano

Com o nome de Frei Tomás de Celano conhecemos cinco livros nas Fontes Franciscanas. A Vida I (1Cel), a Vida II (2Cel), o Tratado dos Milagres (3Cel), a Legenda Chori (4Cel) e o a Legenda de Santa Clara Virgem. Não vamos falar, aqui, da Legenda de Santa Clara, que estudamos amplamente nas Fontes Clarianas.

A Primeira Vida foi escrita a pedido do Papa Gregório IX em 1228 e apresentada ao pontífice no dia 25 de fevereiro de 1229. Por ordem do Capítulo Geral de Paris, em 1266, foi lançada ao fogo, com todos os exemplares de obras escritas sobre São Francisco antes da Legenda Maior de São Boaventura. Só veio a ser encontrada de novo em 1768, graças aos estudiosos bolandistas.

Em 1230, Celano escreveu também uma versão abreviada da Primeira Vida, que se chamou Legenda ad usum chori, e foi usada pelos frades até 1263.

A Vida Segunda foi escrita em 1247, aproveitando material apresentado pelo ministro geral Crescêncio de Iesi, que o tinha pedido a toda a Ordem. Dessa vez, Tomás de Celano trabalhou com uma equipe, encarregando-se, porém, da redação final. A Vida Segunda, destruída em 1266, só foi reencontrada em 1806.

O Tratado dos Milagres foi escrito por ordem do ministro geral João de Parma, entre os anos 1250 e 1253. Também foi destruído em 1266 e só foi reeencontrado em 1899. Esses quatro livros tiveram sua primeira edição crítica publicada em 1941, no vol. X da Annalecta Franciscana.

2. Quem foi Tomás de Celano?

O primeiro biógrafo de São Francisco nasceu por volta de 1185 na cidadezinha de Celano, nas montanhas dos Abruços, não longe de Roma. Acolhido na Ordem em 1215, pelo próprio São Francisco, como ele conta (1Cel 57) foi para a Alemanha como missionário em 1221, como se lê no n. 19 da Crônica de Jordão de Jano.

Deve ter entrado na Ordem já muito preparado, porque sua maneira de escrever demonstra muito bons conhecimentos literários e um amplo domínio do latim. Não foi sem motivo que papas e superiores recorreram a ele.

Em 1223 foi nomeado custódio de Worms, Mogúncia, Colónia e Espira, como diz Jordão de Jano no n. 30, e passou a vice provincial da Alemanha, na ausência de Cesário de Espira. É provável que estivesse em Assis em 1228 para a canonização de São Francisco. Parece que pertenceu a uma equipe de copistas que a Ordem manteve em Assis.

Passou uns trinta anos trabalhando na biblioteca do Sacro Convento, em Assis, e dando assistência às Clarissas de Tagliacozzo, nas Marcas de Ancona. Em 1256, assim acreditam muitos críticos, completou a Legenda de Santa Clara Virgem. Pelo estilo, há quem lhe atribua também a autoria da bula de canonização de Santa Clara.

É possível que João de Celano, autor da Quasi stella matutina, fosse seu irmão.

Tem-se como certo que morreu em 1260, e está sepultado em Tagliacozzo.

Quadro Geral da Primeira Biografia

de Tomás de Celano

 

Na Introdução, divide o trabalho em três partes.

 

A primeira parte (1-87) abrange os primeiros dezoito anos da conversão de Francisco.

1. Sua vida vã (1-2): "A mão de Deus o transformou...".

2. Deus lhe apresenta suas armas (3-5): "para que... liberte o seu povo".

3. Francisco abraça o Reino de Deus (6-7).

4. Renuncia ao dinheiro, família e bens (8-15).

5. Não queria negar nada a ninguém (16-17).

6. Não queria ser um ouvinte surdo do Evangelho (18-22).

7. Francisco recebia a todos (23-31).

8. Francisco era um modelo para os frades (32-54).

9. Francisco foi missionário para o mundo inteiro (55-61).

10. Francisco fez muitos milagres (62-70).

11. Sua vida simples (71-83).

12. Sua maior aspiração era seguir a Cristo (84-87).

A segunda parte (88-118): fala dos dois últimos anos de Francisco.

0. Introdução (88-90): Sua sabedoria, renovação da vida evangélica.

1. A sabedoria divina revela sua paixão (91-93).

2. As chagas (94-96): "não costumava revelar a ninguém..." .

3. Dores físicas (97-98): "o homem exterior... vai se consumindo...".

4. Fiel à Igreja (99-101).

5. Francisco ensina os irmãos (102-104): "Comecemos, irmãos... ".

6. Sua enfermidade e morte em Assis (105-111).

7. Depois de sua morte (112-118).

A terceira parte (119-151): é a conclusão.

1. A canonização (119-126)

2. Os milagres (127-150)

Epílogo (151)

3. Objetivo da Vida Primeira

Celano quis mostrar Francisco como um renovador da Igreja. Para ele, Francisco, "tomado pelo novo e especial espírito" (6), era "o novo soldado de Cristo" (9), que dirigia os "novos discípulos de Cristo" (34, 38), os "primeiros e melhores frutos" da "vinha escolhida", "que a mão do Senhor tinha plantado havia pouco neste mundo" (74). Esse "homem do outro mundo" (82), dizia até o fim: "Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada" (103). Celano está sempre lembrando a novidade de Francisco. A idéia de "soldado de Cristo" é uma reminiscência da vida de São Martinho de Tours.

Essa "novidade" pode ser apreciada nos números 10, 11, 18, 26, 33, 37, 41, 92, 85, 89, 98, 114, 119, 121 e 122. Apresentamos um trecho interessante que está na segunda parte:

Como um dos rios do paraíso, este novo evangelista dos últimos tempos irrigou o mundo inteiro com as fontes do Evangelho e pregou com o exemplo o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade. Nele e por ele, o mundo conheceu uma alegria inesperada e uma santa novidade: a velha árvore da religião viu reflorir seus ramos nodosos e raquíticos. Um espírito novo reanimou o coração dos escolhidos e neles derramou a unção de salvação ao surgir o servo de Cristo como um astro no firmamento, irradiando uma santidade nova e prodígios inauditos. Por ele renovaram-se os antigos milagres, quando foi plantada no deserto deste mundo, com um sistema novo mas à maneira antiga, a videira frutífera, que dá flores com o suave perfume das santas virtudes e estende por toda parte os ramos da santa religiosidade (1Cel 89).

4. Circunstâncias em que foi escrita a Vida I

Tem um valor especial o conhecimento das circunstâncias em que se tornaram disponíveis os testemunhos usados pelo hagiógrafo e também as circunstâncias em que ele escreveu.

Celano foi encarregado de escrever a Legenda para que se conhecesse o novo santo: São Francisco morreu em 1226; no ano seguinte, seu amigo Hugolino foi eleito papa (Gregório IX) e o canonizou no dia 16 de julho de 1228, em Assis.

O autor trabalhou com recordações pessoais e testemunhos de pessoas que julgava dignas de fé. Como esteve na Alemanha desde 1221, foi pelos testemunhos que soube dos últimos fatos.

O santo tinha passado o ano de 1223 trabalhando para redigir uma versão da sua Regra que pudesse ser aprovada pelo papa. Sabe-se que muitos irmãos temiam que ele fizesse uma regra mais rígida. Acabou conseguindo a sua aprovação no dia 29 de novembro de 1223, pela bula Solet annuere, do Papa Honório III. Pouco depois, foi celebrar o Natal em Greccio, na comemoração que ficou famosa.

Apresentou a Regra bulada aos frades no capítulo de Pentecostes de 1224. Foi o mesmo capítulo que enviou os primeiros frades para a Inglaterra e Santo Antônio de Lisboa para a França, como pregador e professor de teologia.

Pouco depois, em agosto, Francisco foi para o Alverne, onde teria a experiência do Crucificado em setembro. Ainda encontrou forças para sair em missão, indo pregar nas Marcas de Ancona no inverno de 1224-1225. Em março de 1225 recolhe-se a São Damião, onde fica até maio e escreve o Cântico de Frei Sol.

Nesse meio templo, uma sublevação em Roma obrigava o papa Honório III a sair da cidade e se refugiar em Rieti, de junho de 1225 a fevereiro de 1226. Francisco é acolhido em Rieti pelo cardeal Hugolino e se submete a um doloroso tratamento dos olhos.

Aos 3/12/1224, Honório III autoriza missas públicas nas capelas franciscanas. Aos 7/10/1225, manda franciscanos e dominicanos como missionários.

Logo no começo de 1226, o papa dá dois documentos sobre as missões: permite que os frades usem dinheiro, vistam as roupas próprias do lugar e até que alguns sejam bispos. Em abril, Francisco vai para Sena, onde escreve o pequeno testamento. Em julho-agosto passa por Cortona e volta para Assis. Escreve o Testamento e morre pouco depois. Frei Elias escreve sua circular.

Em 1227, Hugolino foi eleito papa, João Parenti foi feito ministro geral e Santo Antônio provincial. Juliano de Espira, que era cortesão de Luís VIII, entrou na Ordem. No dia 8 de setembro, os cruzados vão para o Oriente levando uma praga que quase acaba com as tropas. Uma das vítimas é o landgrave da Turíngia, marido de Isabel da Hungria.

Na Páscoa de 1228, o povo de Roma se rebela, obrigando Gregório IX a ficar fora da cidade até 1230. Entre junho e julho, estando em Perusa, o papa aproveita para completar a causa de canonização de Francisco. Nessa ocasião, confirmou o Privilégio da Pobreza para Santa Clara e, provavelmente, encarregou Celano de escrever a legenda. Nesse mesmo ano, Isabel de Hungria entra na Ordem da Penitência em Eisenach.

Nos últimos anos, a Ordem, que já tinha mais do que cinco mil frades, começara a dar sinais de divisão interna. Mas a primeira biografia, dirigida a toda a Igreja, não os leva em consideração.

5. Fontes da Primeira Biografia

No Prólogo, dizendo que ia contar a vida de Francisco, Celano declara:

Procurei apresentar pelo menos o que ouvi de sua própria boca, ou soube por testemunhas de confiança. Fiz isso por ordem do glorioso papa Gregório, conforme consegui, embora em linguagem simples.

Não dá para saber o que ele ouviu da boca de Francisco. Só faz uma referência a seu relacionamento com o santo, quando agradece a Deus por ter sido recebido com um grupo de letrados e nobres (1Cel 56-57). Mas em geral em se têm a sua narrativa da canonização (1228) como trabalho de uma testemunha ocular.

Entre as testemunhas "dignas de confiança" podemos ver o próprio papa (73-75, 99, 100, 118 e 121-126), Frei Elias (98, 105, 108, 109), Frei Bernardo (24, 30, 102), Frei Leão (6, 50, 102), Frei Ricério (49-50), e Frei Rufino (95).

Também podemos pensar que Celano usou como fontes as atas da canonização, ainda que ele dê a entender, no n. 124, que nem foi feito um processo. Além disso, deve ter usado a bula "Mira circa nos" de 19 de julho de 1228, e a Carta de Frei Elias.

6. A cronologia de São Francisco

O Prólogo da Vida 1 começa dizendo:

Quero contar a vida e os feitos de nosso bem-aventurado pai Francisco. Quero fazê-lo com devoção, guiado pela verdade e em ordem, porque ninguém se lembra completamente de tudo que ele fez e ensinou.

Esse "ordenadamente" aparece no texto latino como "seriatim", isto é, em série, em ordem cronológica. E, de fato, uma das maiores colaborações que recebemos de Celano foi darnos uma cronologia básica para a vida de São Francisco.

Para marcar as datas, ele se baseia sempre na conversão de São Francisco, um fato que os historiadores situam entre junho de 1205 e junho de 1206, relacionando a conversão de Francisco com sua expedição militar à Apúlia.

O comandante do exército papal em que Francisco se arrolou para buscar a glória era Gualter de Brienne e hoje se sabe que ele morreu em junho de 1205. Francisco deve ter sido informado desse fato quando estava a caminho, em Espoleto. Foi aí que ele se perguntou: "Quem pode mais, o senhor ou o servo?"e começou a mudar o rumo da vida.

 Cronologia de São Francisco segundo a Primeira Celano

Ano

1181-2

1205

1206-24

1206-24

1207-08

1209-10

1211

1212

1213-14

1219

1223

1224-26

1224

1224

1226

1226

1226

1228

Acontecimento

nascimento

começa a conversão

Tema 1 de Cel. 1a parte

carne sem descanso

repara a Porciúncula

passa o imperador

vai para a Síria

recebe Santa Clara

vai para a Espanha

vai para Damieta

Natal em Greccio

Tema 2 de Cel. 2a parte

Alverne

revelação de sua morte

doente em Sena

morte

morte

canonização

. Texto

...quase até os vinte cinco anos...

...quase até os vinte e cinco anos...

...até o ano 18 ano de sua conversão...

...durante dezoito anos...

...no terceiro ano de sua conversão...

...por ali, naquele tempo...

No sexto ano depois da conversão...

...quase seis anos depois da conversão..

Passado não muito tempo...

No décimo terceiro ano da conversão...

...três anos antes da gloriosa morte...

...últimos dois anos de sua vida...

...dois anos antes de entregar sua alma...

...só mais dois anos nesta vida...

Seis meses antes de sua morte...

...tendo completado vinte anos...

...decorridos vinte anos desde suaconversão

...no segundo ano do pontificado..

Número

2

2

88

97

21

43

55

18

56

57

84

88

94

108-109

105

88

109, 119

126

7. Observações sobre a Primeira Biografia de Celano

A Vida I de Tomás de Celano é considerada uma publicação "oficial" por ter sido feita a pedido do papa e para ser conhecida em toda a Igreja, com a imagem de santo que se tinha oficialmente . Ele, de fato, segue o modelo das hagiografias antigas, além de usar o "cursus", uma espécie de melodia rítmica comum nas leituras que se faziam oficialmente na igreja.

Mas o seu trabalho é muito sério, o melhor que se podia esperar de um "historiador" no seu tempo. A principal diferença talvez seja a de envolver tudo na novidade da proposta franciscana.

Tendo dividido a obra em três partes, deu importância maior aos anos de 1225 a 1226. Mas, justamente aí, reconhece que seu trabalho não é completo e pode ser aperfeiçoado por outros (1Cel 88).

Soube dar conta da tarefa de apresentar um santo cuja vida serviria para edi ficar os fiéis. Podemos supor que o próprio papa tenha indicado a Celano quais as virtudes de Francisco que ele devia ressaltar, pois destaca a simplicidade e lembra (1Cel 73) que Hugolino ficou admirado principalmente por essa qualidade do santo.

Talvez tenha tido que defender essa sua posição, porque, no n. 189 da 2Cel, explica amplamente o que entendia por simplicidade de São Francisco.

A Vida I trata da simplicidade nos números 26, 27, 32, 44, 45, 48, 49, 50, 69, 72, 73, 75, 78, 80, 83, 84, 91, 99, 104, 114, 119, 120 e 125.

Também ressalta muito a humildade, do santo e de seus companheiros, nos números 17, 18, 29, 30, 31, 33, 34, 38, 39, 48, 54, 58, 77, 83, 84, 85, 93, 98, 101, 103, 122.

Mas fala muito menos da pobreza (19, 26, 31, 35, 39, 51, 75, 76, 85, 99, 117), talvez porque se dirige aos cristãos em geral e não aos franciscanos.

8. A "Legenda ad usum chori"

Era apenas um resumo da Vida I feito para os frades lerem nas suas celebrações. Não dá nenhuma informação nova mas compendia muito bem a experiência religiosa do homem que se apaixonou por Deus, pela criação, e experimentou tudo que Jesus "tinha feito na carne".

O texto latino publicado na AF X em 1941 e reapresentado nas "Fontes Franciscani" foi reconstruído pelos estudiosos de Quaracchi a partir de onze manuscritos, inclusive o 338 de Assis.

9. A "Vida II" de Celano

No Capítulo Geral de Gênova, em outubro de 1244, foi decidido que se pedisse a colaboração de todos os frades para complementar a biografia de São Francisco. O geral então eleito, Frei Inocêncio Grizzi de Iesi, mandou uma circular pedindo que mandassem "tudo que pudessem saber de verdade sobre a vida os sinais e os prodígios de São Francisco".

As respostas devem ter sido muitas, destacando-se, no nosso conhecimento, a colaboração que foi enviada de Grécio, aos 11 de agosto de 1246, pelos famosos "três companheiros".

Todo o material deve ter sido entregue pelo ministro geral a Frei Tomás de Celano, para que escrevesse uma nova "Vita" de Francisco. O escritor deve ter trabalhado nessa tarefa em 1247.

Apresentou uma obra em dois "livros", ou duas partes, que se diferenciam. A primeira, mais curta (1-25) é obra pessoal de Celano, segue uma ordem cronológica e refaz alguns pontos de "Vida I". A segunda (26-224), com a ajuda de colaboradores, pois o autor demonstra ter mantido contato com os informantes, apresenta uma coleção bastante variada de

episódios inéditos que vão apresentando as virtudes, as vontades, os ditos e os feitos do santo, visando mostrar como os frades deviam viver.

Queimada em 1266, a Vida II só foi descoberta e publicada por S. Rinaldi, em 1806. A edição crítica, apresentada pela AF X em 1941, só conseguiu trabalhar sobre dois códices e mais algumas citações de outros livros. Pode ser encontrada, em latim, nas "Fontes Franciscani".

Todo o conteúdo da Vida II é um excelente testemunho da imagem que se tinha de Francisco nesse tempo, vinte anos depois de sua morte, principalmente quanto aos problemas que estavam sendo vividos dentro da Ordem.

10. A situação da Ordem

Através dos comentários apresentados dentro da própria biografia, descobrimos que, mesmo reconhecendo todo o bem que Deus está realizando na Ordem, Celano está preocupado com alguns abusos:

Há frades que se vestem com panos finos e peles (69, 130) e até invejam os que têm coisas melhores (84). Alguns são imprudentes com as mulheres (112) e mesmo com as religiosas (207). Há irmãos que buscam os elogios das pessoas (139) e, entre eles, há ciúmes, ambição, disputas e ódio (149), como críticas (182 e muito falatório (162).

Há preguiça no trabalho, no apostolado e na contemplação (162) e abusos até nos eremitérios (179). Os superiores são muito tolerantes (162), não corrigem os que erram e só querem mandar (173), deixando de ajudar os caídos e feridos (177). Há frades que se esquecem da humildade (194) na busca da ciência, visando o próprio proveito (195).

No final, vai dizer a Francisco que:

O pequeno rebanho já te segue com passo inseguro. Nossos pobres olhos ofuscados não suportam os raios da tua perfeição (221).

Apesar disso, o autor acredita na sinceridade dos frades mesmo quando se queixa deles diante de Francisco.

11. O Primeiro Livro da Vida II

O primeiro "livro" da Vida II insiste na mesma apresentação de Francisco encontrada na Vida I, ainda que se esqueça de sua juventude dissipada, mostrando-o como o mais santo dos fundadores.

Francisco é, agora, um jovem muito diferente daquele da Vida I, "criado pelos pais no luxo desmedido e na vaidade do mundo". É "servo e amigo do Altíssimo", "filho da graça", admirado pela "honestidade e magnanimidade" (3). Até imitou São Martinho (5) e, por amor aos pobres decidiu nunca negar nada que fosse pedido em nome de Deus (17).

A visão do palácio (1Cel 5) é iluminada por outra visão (2Cel 6); o abraço ao leproso é iluminado pela oração que o faz trasnformar o amargo em doce (9). A cena da entrega da roupa ao pai (1Cel 15) volta mas agora ele declara: "Irei nu para o Senhor" , porque Cristo lhe basta.

Na Vida I (18-19) reparar São Damião está mais ligado à fundação das Irmãs Pobres, enquanto na Vida II (10-11) já é Cristo que intervém para ele repare a Igreja de todo o mundo.

É interessante comparar a entrada de Frei Bernardo. Na Vida I (24), ele cumpre os conselhos conhecidos; na Vida II (15), abre os Evangelhos três vezes com Francisco e Pedro Catani, em uma sugestiva cerimônia.

A Porciúncula passa de um lugar simplesmente muito santo (1Cel 106) a um centro de luz e salvação para os frades e para todo mundo (2Cel 18-20).

Mas apresenta dois fatos novos muito importantes: o colóquio de Francisco com o Crucifixo de São Damião e o sonho de Inocêncio III, que viu o pobrezinho sustentando a igreja do Latrão. São dois pontos escolhidos para mostrar a importância de Francisco e de seu movimento na renovação da Igreja. Em 1247, essa verdade já podia ser reconhecida.

Não é à-toa que o primeiro livro termina contando que Francisco pediu um cardeal protetor ao Papa e que a isso se deve todo amor e cuidado que a Igreja sempre demonstrou para com os frades.

Mas o mais importante é observar desde o primeiro livro como Celano vai respondendo a duas grandes preocupações da Ordem no seu tempo: conhecer os milagres de Francisco e, acima de tudo, conhecer suas verdadeiras intenções. Certamente porque já havia muitas situações novas, muitos caminhos diferentes e muita discussão sobre o que ele ensinara. São pontos para ler com atento espírito crítico.

É bom reler o que ele deixou escrito no Prólogo:

Este opúsculo contém, em primeiro lugar, alguns fatos admiráveis da conversão de Francisco, que não foram colocados nas biografias anteriores porque não tinham chegado ao conhecimento do autor. Além disso, queremos contar e explicar diligentemente qual foi a vontade boa, agradável e perfeita do santo pai tanto em relação a si mesmo como aos seus, em toda a prática da disciplina celeste e no esforço da perfeição, que sempre teve para com Deus em seus afetos e para com os homens em seus exemplos.

12. O Segundo Livro da Vida II

Na segunda parte, em 199 parágrafos, a Vida II deixa de seguir a ordem cronológica e lembra, com episódios inéditos, as virtudes, as vontades, os ditos, a ação do santo, com a intenção evidente que compor uma obra correspondente à ética franciscana. Esses contos fazem pensar nas "flores" dos Três Companheiros, mas não podem provir todos de Greccio.

Para apresentar o trabalho da equipe de Celano, vamos resumir o conteúdo dos grandes temas:

  1. Espírito profético: (27-54) "... não só sabia por revelação divina o que devia fazer, mas predizia muitas coisas com espírito profético, penetrava os segredos dos corações, estava informado das coisas ausentes, previa e contava coisas que deviam acontecer" (27).
  2. Pobreza (55-93): "...desprezou as míseras riquezas... e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza" (55).56-59 — pobreza das casas; 60-62 — dos utensílios; 63-64 — das camas; 65-68 — contra o dinheiro; 69-70 — das roupas; 71-79 — a mendicância; 80-81 — renúncia dos bens; 82 — visão da pobreza; 83-93 — compaixão com os pobres.
  3. Amor à oração (94-101): "Afastado do Senhor pelo corpo, o homem de Deus, Francisco, procurava fazer seu espírito estar presente no céu" (94).
  4. Compreensão das Escrituras e valor de sua palavra (102-111): "não era pouco o que entendia das Sagradas Escrituras".
  5. Familiaridade das mulheres (112-114): "Mandava evitar totalmente o mel venenoso que é a familiaridade com as mulheres" (112).
  6. Tentações (115-118): "Na medida em que cresciam os méritos de Francisco, crescia também sua discordância com a antiga serpente". Sua luta (119-124).
  7. Alegria espiritual (125-129): "tratava de viver sempre no júbilo do coração, conservando a unção do espírito e o óleo da alegria" (125). - A falsa alegria (130-134). - Como escondia as chagas (135-139).
  8. Humildade (140-150): "Era humilde de presença, mais humilde de sentimento e muito mais humilde no modo de pensar" (140).
  9. Obediência (151-154): "O Senhor me deu a graça de ser capaz de obedecer a um noviço de uma hora tanto quanto ao mais antigo e mais discreto dos frades" (151).
  10. Bom exemplo (155-158): "... os frades menores foram enviados... para dar exemplos de luz aos pecadores envolvidos nas trevas" (155). - Contra a ociosidade (159-162).
  11. Os ministros da Palavra (163-164): "foram escolhidos por um grande rei para transmitir aos povos as palavras que colhessem de sua boca" (163).
  12. Contemplação (165-171): "Reconhecia que todas as coisas clamavam: Quem nos fez é ótimo" (165).
  13. Caridade (172-181): "... a caridade de Cristo fez dele um irmão ainda maior daqueles que foram distinguidos pela semelhança com o Criador" (172). - Contra a detração (182-183).
  14. Descrição do Ministro (184-188): "quero traçar para vós o retrato...
  15. A santa Simplicidade (189-195): "era o ideal a que desejava chegar o santo" (189).
  16. Devoções particulares (196-203): amor a Deus, a os anjos, a Maria, ao Natal, Eucaristia, relíquias e cruz.
  17. Relacionamento com as Senhoras Pobres (204-207): "Não penseis que não as ame com perfeição. Se fosse crime ajudá-las em Cristo, não seria crime maior tê-las unido a Cristo?" (205).
  18. Recomendação da Regra (208-209): "Tinha um zelo ardente pela profissão e pela Regra" (208).
  19. Doenças (210-213): "Pregoeiro de Deus, seguiu os passos de Cristo no meio de trabalhos sem conta e de fortes sofrimentos, e não arredou o pé... (210).
  20. Passamento (214-220): "Amou os seus até o fim e recebeu a morte cantando" (214).
  21. Oração dos companheiros (221-224).

13. "Francisco" e as Mulheres

Um exemplo interessante de como devemos fazer uma leitura crítica das biografias pode ser o das opiniões sobre as mulheres que Celano atribui a Francisco.

A seção "Contra a familiaridade das mulheres" (112-114) e mesmo a que trata das Senhoras Pobres (204-205) apresentam um Francisco contraditório com o que lemos em seus escritos e em muitas outras passagens de sua vida. Ele parece até ter medo das mulheres, julgando sua companhia um "mel venenoso".

É preciso lembrar que Celano está escrevendo vinte anos depois da morte do santo, quando a comunidade do tem-po de Francisco se transformara em uma multidão e, como capelão das Clarissas em Tagliacozzo, pode ter mesmo observado abusos por parte dos frades.

Mais importante: ele está escrevendo no tempo mais quente da pendência entre o papa e os superiores da Ordem por causa das Irmãs. Inocêncio IV mandara, em 1245, que os frades assumissem o cuidado de todas as Clarissas do mundo. Por esse tempo, os mosteiros podiam ser cerca de duzentos. Como colocavam habitualmente um capelão e seu auxiliar, mais dois esmoleres, teriam que destinar oitocentos frades para trabalhar nos mosteiros, cortando uma porção de oportunidades de missões e de estudos. Por isso, os superiores da Ordem resistiram quanto puderam. Em 1247, no mesmo ano em que Celano estava escrevendo, o Papa fez o ministro geral Crescêncio de Iesi renunciar por causa disso. É bem provável que Celano estivesse expressando as idéias dele pessoalmente e de alguns superiores da Ordem. Mas as atribuiu a Francisco, cuja autoridade era reconhecida por todos.

14. Pessoas citadas na Vida II

Uma observação interessante: escrita em 1247-48, a Vida II nunca cita pelo nome pessoas vivas, só as mortas. De São Francisco, que tinha morrido em 1226, ela fala 200 vezes; de Hugolino, morto em 1241, fala sete vezes. Frei Pacífico, que morreu em 1236, também é mencionado sete vezes. Pedro Catani, lembrado seis vezes, tinha morrido em 1221; mas Frei Bernardo, morto em 1242, também é lembrado seis vezes. Frei Silvestre , falecido em 1240, merece quatro menções, enquanto Frei João, o Simples, que não sabemos quando morreu, aparece três vezes. Inocêncio III, lembrado duas vezes, tinha morrido em 1216, enquanto o papa Honório III, que terminou seus dias em 1227, só é citado uma vez. Aparece também o nome de Frei Morico, que morreu em 1236.

15. O "Tratado dos Milagres"

Os frades e seus superiores gostavam de saber os fatos maravilhosos realizados na vida de São Francisco. Celano apresentou muitos na sua Vida II, mas os irmãos continuaram a pedir mais. Ele conta que João de Parma, que foi feito ministro geral em 1247, lhe escreveu diversas vezes pedindo esses milagres. Foi por isso que publicou o "Tratado dos Milagres" (3Cel) entre os anos de 1250 e 1254.

O Tratado só é conhecido integralmente por um códice (que traz também a Vida II) encontrado em 1899 quando foi feito um leilão da Biblioteca de Baldassare Boncompagni e que está hoje no Instituto Histórico dos Capuchinhos. A primeira edição foi feita por Van Ortroy. Temos o texto em latim na AF X (1941) reeditado nas "Fontes Franciscani".

É um livro importante por mostrar como o culto de Francisco estava espalhado pela Europa poucos anos depois de sua morte. Mas, além de glorificar o Santo e seu movimento, documenta um momento histórico atribulado e difícil, em que a Ordem sofre ataques externos por parte do clero secular e ameaças internas pelas idéias joaquimistas.

Insiste em identificar Francisco com Cristo, falando especialmente dos estigmas e continua a mesma visão dos outros livros - a novidade de Francisco:

... repentinamente, despontou na terra um homem novo (cf. Ef 4,24) e ao súbito aparecimento de um novo exército, os povos se encheram de estupor diante dos sinais da renovada era apostólica (3Cel 1).

16. Conclusões sobre Celano

Como a obra de Celano é a mais antiga e a primeira que estamos estudando, é bom recapitular e aclarar alguns pontos:

  1. Na medida em que foi sendo redescoberto, Celano causou primeiro entusiasmo e depois desconfiança. Acusaram-no, no fim do sec. XIX, de ter feito uma obra literária de ficção só para passar a visão oficial dos poderosos da Igreja. A influência dos modelos hagiográficos era mesmo inegável.
  2. Hoje, depois de tantas discussões e estudos, nós sabemos que a obra de Celano é fundamental. Na prática, todos os outros biógrafos de São Francisco dependeram dele e as suas informações, de maneira geral, são seguras. Até São Boaventura, apesar de ter dar uma nova interpretação ao conjunto, usou intensamente a obra de Celano.
  3. Mas é claro que é preciso ler com espírito crítico. Não é um livro moderno, tem mais de setecentos anos. A Vida I quer exaltar o santo; a Vida II também quer defender posições. É bom lembrar que ninguém consegue escrever história totalmente objetiva, isenta: a "história" é sempre uma "leitura" pessoal.
  4. Grande parte do valor da obra de Celano está nas informações indiretas que nos deu. Ele é um homem do tempo de Francisco e dos primeiros companhei-ros e mostra como se vivia, como se pensava e falava, mesmo sem querer passar explicitamente essas coisas.
  5. Mesmo Santa Clara, que pode ter sido uma colaboradora de Celano, pois teria informações preciosas, leu a obra de Celano, a Vida I quando tinha apenas 34 dos 60 anos que haveria de viver.
  6. Até 1266, isto é, nos primeiros quarenta anos depois da morte de Francisco, Celano foi a referência básica para a história do Santo. E continua a ser. Ele marcou para sempre a visão de Francisco como "um outro Cristo".

São Boaventura

1. A "Legenda Maior"

A "Vida de São Francisco de Assis" publicada em 1263 ficou conhecida como Legenda Maior. São Boaventura, que tinha sido eleito ministro geral em 1257, no capítulo de Roma, encarregou-se de escrever uma nova vida de São Francisco no capítulo de Narbona (o mesmo que publicou as primeiras constituições franciscanas), em 1260. Apresentou-a à Ordem no capítulo de Pisa, em 1263, já em 34 cópias (uma para cada província) bem revistas e já acompanhada por uma Legenda ad usum chori, que ficou conhecida como "Legenda Menor".

O livro deve ser posterior ao dia 23 de abril de 1262, porque fala da morte de Frei Egídio, que ocorreu nesse dia.

Por oposição aos trabalhos de Tomás de Celano, ficou conhecido também, nos primeiros tempos, como "Legenda Nova", considerando-se os livros de Celano como "Legenda Antiqua".

Na verdade, apesar de se apresentar como novidade, historicamente é uma compilação de fatos tirados das biografias anteriores. Mas se apresenta numa reinterpretação tão interessante que pode ser tida como um resumo de espiritualidade. Teve tanto êxito que o capítulo de Paris, em 1266, mandou queimar todas as outras "vidas" de São Francisco então existentes. A Legenda Maior sempre foi amplamente reproduzida e traduzida.

Sua edição crítica foi publicada em 1941, no vol. X da Annalecta Franciscana e está disponível no volume "Fontes Franciscani", de 1995.

2. O autor

João Fidanza nasceu em Bagnorregio, perto de Viterbo, na Itália, em 1221. Muito jovem, foi mandado para estudar em Paris. Em 1240, sendo já "mestre em artes", começou a teologia. Entrou na Ordem provavelmente em 1243, impressionado por seus mestres franciscanos. Em 1248 obteve a licença para lecionar teologia. Por volta de 1250 obteve o bacharelato em Bíblia e por volta de 1253 passou a ser catedrático. Aos 2 de fevereiro de 1257, recomendado pelo geral resignatário, João de Parma, foi eleito ministro geral no capítulo de Roma.

Em 1265, foi nomeado bispo de York, mas conseguiu que o papa voltasse atrás. Em 1273, foi eleito cardeal e sagrado bispo de Albano, para dirigir o Concílio de Lião em companhia de Santo Tomás de Aquino.

Seu colega dominicano morreu em 7 de março. Sobrecarregado de trabalho, Boaventura não resistiu e morreu no dia 14 de julho de 1274. Sucedeu-lhe como ministro geral Frei Jerónimo de Áscoli, que depois foi papa com o nome de Nicolau IV (1288-1292).

ESQUEMA DE LEGENDA MAIOR

Introdução

Prólogo

1. Sua vida no mundo

2. Conversão definitiva e restauração de três igrejas

3. Fundação da Ordem e aprovação da Regra

4. Progresso da Ordem sob sua direção e confirmação da Regra

A. Via Purgativa

5. Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionam consolo (o prêmio por sua austeridade exterior e interior é o domínio sobre a natureza).

6. Humildade e obediência, favores com que Deus o cumulava (o prêmio por imitar Jesus Cristo pobre é conseguir o domínio sobre os demônios).

7. Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades (o prêmio pela pobreza nas coisas e mesmo no conhecimento é sua confiança na Providência).

B. Via Iluminativa

8. Seu sentimento de compaixão e o amor que as criaturas lhe devotavam (o prêmio por estar integrado com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com as criaturas e o domínio sobre as aves e os outros animais).

9. Fervor de sua caridade e desejo do martírio (o prêmio por viver o amor de Deus, de Nossa Senhora, dos anjos e dos apóstolos, por seu desejo de martírio, são as chagas).

10. Zelo na oração e poder de sua prece (o prêmio por viver sempre entregue à oração foi ter visto Jesus menino presente em Greccio).

C. Via Unitiva

11. Conhecimento das Escrituras e espírito de profecia (o prêmio por sua dedicação às sagradas Escrituras foi a união com a sabedoria eterna).

12. Eficácia de sua pregação e poder de curar (o prêmio por sua dedicação à pregação foi ter sido um enviado de Deus).

13. Os sagrados estigmas (o prêmio por sua união com Cristo crucificado foi obter os sete sinais da cruz, prova de que chegou à perfeição evangélica).

Conclusão

14. Sua admirável paciência e morte

15. Sua canonização e trasladação de seus restos mortais

Alguns milagres realizados após a morte de São Francisco

3. O Livro

O trabalho de São Boaventura é certamente riquíssimo, como literatura e como teologia, embora suas idéias possam estar bem longe do que Francisco e seus companheiros viveram de fato: ele escreveu e trabalhou para que a Ordem mudasse. Tinha desenvolvido sua teologia da vida espiritual no livro "As três Vias", em que apresentava os passos para chegar a Deus: pirificação, iluminação e união. Na mesma época, trabalhara no livro "Itinerario da Mente a Deus", en que mostraba a vida contemplativa de Francisco crescendo en sete degraus que simbolizavan as asas do Serafim. Na sua Legenda, procurou mostras como isso aconteceu na vida de São Francisco. Além do esquema que mostramos no quadro abaixo, em que acompanha as três vias, São Boaventura também aproveita os sete degraus apresentando sete episódios da vida de Francisco relacionados com a cruz (LM 13,10). Mas Francisco também é apresentado, desde o Prólogo, como o "Anjo do sexto selo". Só isso já mostra como é forte a linguagem simbólica na Legenda Maior, aliás repleta de alusões bíblicas e litúrgicas, de figuras e de símbolos, que o tornam um pouco compacto.

O livro não pode ser entendido como uma narrativa histórica atual. Além do mais, ele parece querer tirar São Francisco das contingências históricas e colocá-lo fora do tempo. Pode ter sido influenciado por sua fonte principal, a Vida II de Celano, mas ele mesmo diz:

"A história nem sempre segue a ordem cronológica dos fatos. A fim de evitar confusão, preferi ser mais sistemático. Por isso, ora agrupei acontecimentos que se deram em tempos diferentes, mas se referiam a assuntos semelhantes, ora separei outros que ocorreram ao mesmo tempo, mas se referiam a assuntos diferentes" (LM, prólogo).

Mesmo afirmando que visitou os lugares em que o santo viveu e que conversou com pessoas do seu tempo, a maior parte dos fatos narrados pela Legenda Maior são tirados de Celano. Apresentamos, no quadro ao lado, uma lista do que, de fato, pode ser considerado original de Boaventura.

Pontos originais na L. Maior

2,6: cura de um doente pelo beijo nos pés.

4,6: Clara suas Irmãs

4,7: um sarraceno admira a pobreza

4,8: a cura e vocação de Frei Morico

5,2: o desejo do céu ajuda a suportar o frio

5,5: conselhos para tratar com as mulheres

5,8: doente dos olhos por muito chorar

5,12: luz que ilumina na escuridão da noite

7,11: conserta a casa de um médico

7,13: ajuda uns marinheiros

8,5: ajuda os pobres

8,7: histórias de cordeiros

8,9: Silencia os pássaros em Veneza

8,10: os pássaros do Alverne

9,2: jejum por amor a Cristo

9,3: devoção aos santos

9,8: Francisco e o sultão

10,4: envolto numa nuvem resplandecente

10,7: licença para o Natal em Greccio

11,1: Francisco e os estudos

11,4: avisa um cavaleiro sobre sua morte

12,5: o estudante e a andorinha

12,6: o barco anda sozinho

12,9: dois milagres novos

12,10: dois milagres em favor de cegos

13,4: dúvida sobre revelação das chagas

13,7: milagres relacionados às chagas

13,8: testemunhas das chagas

13,9: louvor das chagas

13,10: as sete manifestações da cruz

14,2: agradecimento pelas doenças

15,1: o programa espiritual de Francisco

15,4: testemunhas das chagas em Assis

15,7: o exame dos milagres do santo

4. O Joaquimismo

Para compreender melhor a obra de São Boaventura, vamos lembrar que foi escrita em um momento em que muitos frades eram acusados de "joaquimistas".

Joaquim de Fiore foi um abade do sul da Itália, que viveu de 1135 a 1202. Ficou muito conhecido por suas profecias, em que dividia a história em grandes eras:

A Era do Pai abrangia todo o tempo antes de Cristo. Foi governada pela lei e a atitude fundamental era a obediência serviçal. A virtude era o temor de Deus. Seus responsáveis eram os sacerdotes.

A Era do Filho devia chegar até 1260. Governada pela graça, tinha como atitude fundamental a obediência filial: A virtude era a fé e os responsáveis eram a hierarquia com o clero secular.

A Era do Espírito Santo começaria em 1260. Regida pelo amor, sua atitude fundamental seria a liberdade. A virtude era o amor e os responsáveis seriam os religiosos.

No último decênio antes de 1260, os religiosos estavam entusiasmados com essa proposta. Mas a hierarquia se sentiu ameaçada e condenou a obra do francis cano Geraldo de Borgo San Donino, que publicara Joaquim de Fiore. Também fez João de Parma renunciar, em 1257.

Apresentando São Francisco como "Anjo do sexto Selo", São Boaventura faz dele a figura central dessa história. Na Legenda Maior, mostra que ele foi um "homem do outro mundo", "quase angelical", o "angélico Francisco".

5. Situação histórica em que foi escrita a Legenda Maior

São Boaventura se encarregou de escrever a sua biografia de São Francisco justamente no ano de 1260, em que devia começar a terceira era joaquimista. Em toda a década anterior, a Ordem tinha sofrido violentos ataques de fora, principalmente por parte da Universidade de Paris. Criticavam justamente às novidades do franciscanismo: a pobreza, o dinamismo, a mobilidade pastoral, a vontade de pregar, o fato de se misturar com o povo, participando de sua vida e religiosidade.

Frei Boaventura licenciara-se em teologia justamente nessa Universidade, em 1253, o ano que Santa Clara morreu, e em que foi feito o seu Processo de Canonização. E entrara de corpo e alma na defesa dos mendicantes.

Em 1257, ano em que foi eleito geral, Tomás de Eccleston escreveu sua Crônica sobre os frades da Inglaterra.

Em 1258 morreu Frei Junípero e, em 1259, Frei Filipe Longo. Nesse tempo, Frei Boaventura esteve no Alverne e escreveu o seu "Itinerário". No mesmo ano, os dominicanos escreveram uma nova biografia de seu fundador e o seu capítulo geral mandou acabar com as outras antigas.

No mesmo capítulo de Narbona, em que foi encarregado da biografia, Boaventura tinha apresentado as "Constituições Narbonenses". Em setembro desse ano, consagrou a igreja do Alverne e, logo depois, foi a Assis presidir a mudança das Clarissas de São Damião para a nova basílica de Santa Clara. Nesse ano morreram Luquésio e Buonadona, conhecidos como os primeiros terceiros franciscanos.

Do inverno de 1260 até 1262, Boaventura ficou em Paris e escreveu o livro sobre as "Três Vias" e a Legenda Maior.

Em 1262 morreu Frei Egídio e Jordão de Jano ditou sua Crônica sobre os frades na Alemanha.

Em abril de 1263, pouco antes de entregar, em Pisa, a Legenda Maior, São Boaventura tinha presidido a mudança do corpo de Santo Antônio para Pádua.

6. As "respostas" da Legenda Maior

Mesmo que não tenha tido uma intenção declarada, Boaventura deu, em seu livro sobre São Francisco, uma forte resposta tanto aos problemas externos quanto aos internos da Ordem.

Aos de fora, que chamavam os mendicantes de "nuntii Antichristi" (embaixadores do Anticristo), ele apresentou um Francisco que era "nuntius Christi" e mesmo "signifer Christi" (portabandeiras de Cristo).

Para os que se opunham intransigentemente ao joaquimismo dos franciscanos, apresentou São Francisco como anjo de sexto selo.

Para os que viam os franciscanos como "gêmeos" dos dominicanos, ele cuidou de nem lembrar São Domingos em sua Legenda.

Para os que, dentro da Ordem, choravam os "velhos tempos" de São Francisco, ele exaltou o Santo mas tirando-o do tempo contingente que passa e colocando-o numa dimensão transcendental.

Aliás, é bem característico um texto que Boaventura, devoto de São Francisco desde criança porque, por sua intercessão, sua mãe o livrara da morte, escreveu no seu livro "Epistula de Tribus Quaestionibus" (n. 13):

Confesso diante de Deus que foi isto que mais me fez amar a vida de São Francisco: porque é parecida com o começo e com a perfeição da Igreja, que começou com simples pescadores e chegou a doutores tão famosos e tão competentes. É isso que vemos na ordem de São Francisco, pois Deus mostra que ela não nasceu pela prudência dos homens mas através de Cristo e, como as obras de Cristo nunca decaem, só crescem, fica demonstrado que essa obra é divina, pois na companhia dos homens simples entraram também os sábios, sem achar que estavam se humilhando, pois, como fiz o Apóstolo: Se houver algum sábio entre vós, que se faça estulto para ser sábio".

7. A Legenda Menor

Apresentada à Ordem já pronta e multiplicada, a Legenda ad usum chori de São Boaventura logo ficou conhecida como Legenda Menor. Substituiu a de Tomás de Celano desde 1263.

Consta de 63 pequenas leituras, divididas em sete títulos, porque era usada na oração comum dos frades, que as liam nos sete dias da oitava de São Francisco.

Foi um dos escritos mais difundidos, porque era copiada em todos os breviários franciscanos, tanto no tempo dos manuscritos como depois da invenção da imprensa. Em 1898, quando quiseram publicar uma Opera Omnia de São Boa ventura, os estudiosos franciscanos de Quaracchi chegaram a examinar 43 manuscritos antigos. No fim, chegaram à conclusão de que dois eram de uma garantida fidelidade ao original. Essa mesma versão foi aproveitada na edição crítica da AF X, de 1941 e republicada em latim nas Fontes Franciscani de 1995.

A Legenda Menor é um resumo fidelíssimo da Legenda Maior, feito pelo próprio São Boaventura ou por algum seu auxiliar e teve a maior influência nos frades e, através deles, no público. Foi principalmente a partir dela que se fizeram as pinturas e outras representações nas igrejas, nos missais e nos breviários, formando a mentalidade popular sobre São Francisco.

Quadro Geral da LTC

A). Antes da conversão: (2-4) predições sobre o futuro de Francisco.

B). O processo de conversão (5-21)

1. Duas visões com armas: "O Senhor ou o servo?" (5-6).

2. Francisco é transformado pela graça de Deus (7-10).

3. Francisco se fortalece na oração (11-15).

4. Francisco se decide (16-20).

5. Francisco faz-se um mendigo (21-24).

C). O começo da fraternidade (24-45)

1. De eremita a pregador (25-26)

2. Os primeiros seguidores (27-32)

3. Primeiras missões, mais irmãos (32-41)

4. O modo de ser dos irmãos (42-45)

D). O papa Inocêncio aprova sua proposta de vida (46-54) (seção eclesial I)

1. A decisão de todos (46)

2. Bons contactos, e a provação do Papa (47-53)

3. Francisco pregador (54)

E). A Porciúncula: foco de relacionamento com a Igreja (55-67) (seção eclesial II)

1. De Rivo Torto para a Porciúncula (55-56)

2. A Porciúncula: fonte de luz para todo o mundo

3. O cardeal protetor, elo entre a Igreja e a Ordem, visitava todos os anos a Porciúncula (61-67)

F). A morte de Francisco: sinal de seu amor a Jesus Crucificado (68-70)

G). A canonização de Francisco em Assis 7(71-73)

 

8. Observações gerais

A Legenda Maior, como compila e reinterpreta os fatos quase quarenta anos depois da morte de Francisco, pois seu autor não conheceu o santo, não é uma fonte direta da vida dele se não soubermos ler até o que está por baixo, o que ela não teve intenção de contar.

É interessante lê-la em confronto com Celano, observando todas as diferenças mas também as sobreposições.

É fundamental perceber as novas interpretações que o movimento franciscano está recebendo. Boaventura coloca-se entre os que promovem e os que contestam a evolução do franciscanismo e sabe fazer um excelente trabalho, enriquecido por sua incontestável capacidade de teólogo e de místico.

Por isso, ele não ajudou apenas porque reduziu a Legenda de Francisco de três para um volume. Seus 17 anos de ministro geral marcaram. Alguns até viram nele um segundo Fundador da Ordem.

A "Legenda dos Três Companheiros"

1. O livro que conhecemos

Um dos documentos biográficos mais importantes sobre São Francisco chama-se Legenda dos Três Companheiros. Recebeu esse nome porque os manuscritos conhecidos começam com uma Carta escrita em Greccio aos 11 de agosto de 1246 e dirigida ao Ministro Geral apresentando as notas biográficas de Francisco dadas por três de seus primeiros companheiros: Frei Leão, Frei Rufino e Frei Ângelo.

Mas a própria Carta parece mostrar que a biografia que a segue não é dos companheiros de Francisco, pois diz:

"Não vamos escrever estas coisas como uma legenda... Antes, como se estivéssemos em um agradável jardim, escolhemos algumas flores que nos pareceram mais bonitas, sem seguir o fio da história e deixamos de propósito muitas coisas que já estão escritas nas referidas legendas...".

Fica claro que os "três companheiros" apresentaram um florilégio, isto é, um conjunto de casos mais ou menos agrupados por temas. Para explicar como a carta foi parar no começo da Legenda que conhecemos como "dos três Companheiros", foram levantadas as mais variadas hipóteses. Vamos falar disso mais adiante.

O importante é que temos em mãos um precioso documento, certamente nascido no sec. XIII, com uma vida de São Francisco pedagogicamente muito bem elaborada, que apresenta o processo de santificação de Francisco e também o processo de evolução da Ordem dentro da Igreja. Colocamos, ao lado, um quadro com o desenvolvimento geral para dar uma visão de conjunto.

A LTC tem 18 capítulos e 73 parágrafos numerados. Dividimos o tema pelos parágrafos, sem levar em consideração os capítulos com seus títulos.2. História da LTC

A Legenda dos Três Companheiros já era conhecida por L. Wadding, quando escreveu os Annales Minorum, no sec. XVII.

A primeira edição impressa, foi feita em 1798 pelo bolandista C. Suyskens, que lhe deu o título de "Apêndice inédito à Vida Primeira, elaborado por três companheiros do próprio São Francisco". Era a transcrição de um códice dos franciscanos recoletos de Lovaina. Desde essa data, a LTC com a carta introdutória foram consideradas fontes autênticas.

No sec. XIX prosperaram edições baseadas no cod. Vaticano 7339 e numa vulgarização italiana transcrita em 1577 pelo oratoriano Muzio Achillei.

O cod. 7339 tem um enorme acréscimo no começo (em relação ao texto que conhecemos hoje). Foi publicado a primeira vez em 1831 por Frei Estêvão Rinaldi e uma segunda vez em 1880 por L. Amoni. A vulgarização italiana, por sua vez, tem um grande acréscimo no final. No fim do sec. XIX havia três publicações: Suyskens, a vulgarização italiana e Rinaldi-Amoni.

No começo de seus estudos, Sabatier dizia que a LTC era o melhor texto sobre São Francisco, embora acreditasse que as autoridades da Ordem tinham mutilado o texto. Depois que achou o Espelho de Perfeição, deixou um pouco de lado a LTC. Acreditava que a Legenda dos Três Companheiros fora escrita em 1246 e o Espelho da Perfeição em 1227.

Em 1898, Faloci Pulignani editou um códice que estava com os capuchinhos de Foligno (agora na cúria provincial). Em 1917, F. Delorme publicou o texto do Friburgense 23 J 60 (só trechos).

Baseados na idéia de Sabatier, de que o texto do bolandistas e o italiano eram anteriores a uma parte dos cortes feitos pelas autoridades, Marcelino de Civezza e T. Menichelli publicaram em 1899 uma edição que tentava recuperar o texto íntegro que, para eles, era fundamentalmente o italiano. Refizeram um texto latino usando o Espelho de Perfeição. Saiu uma tradução desse trabalho pela Vozes em 1954.

Em 1900, o bolandista Van Ortroy sustentou que o texto da LTC dos bolandistas era íntegro e por isso não tinham cabimento nem as dúvidas de Sabatier nem a edição Civezza-Menichelli. Mas disse que, embora íntegro, o texto não era autêntico: era obra de algum hábil autor posterior, que se fez passar pelos primeiros discípulos.

Salvatore Minocchi separou a carta da LTC e disse que o texto que acompanhou a carta era uma primeira versão do Espelho de Perfeição. Para ele, o texto que conhecemos como LTC era o Quasi stella matutina de João de Ceprano (ou Celano), que acham que está perdido. Argumentava que um prólogo reproduzido pelo códice Vaticano 7339 começava assim: "Praefulgidus ut lucifer et quasi stella matutina...". Depois disso, vários autores tentaram fazer recomposições, especialmente na base da Legenda Perusina.

Em 1939, J. Abate publicou o Códice de Sarnano (E60 da biblioteca dessa cidade), tido como mais antigo, pois pode datar do fim do sec. XIII ou começo do XIV. Para Abate, a LTC não poderia ser colocada antes dos anos 70 do sec. XIII, porque depende até da Legenda Maior.

Depois disso, tanto Desbonnets (1972) quanto Sofrônio Clasen acabaram defendendo que uma primeira versão da LTC é mesmo de 1246, na base de comparações com os outros escritos. Mas para Lorenzo de Fonzo, a LTC buscou seu material no Florilégio dos companheiros e no Anônimo Perusino. Para Pierre Beguin, a LTC não representa a totalidade do material enviado pelos Companheiros, nem é uma parte dele, mas foi escrita antes da Vida II de Celano, e aproveitando o Anônimo Perusino.

Para Desbonnets, a Carta dos Companheiros enviou junto com as "Flores" as primeiras versões do que conhecemos hoje como Legenda Perusina e Anônimo Perusino.

Em 1980, Raoul Manselli sugeriu que se desse à LTC o nome de "Legenda de Assis" pois dá muita atenção a detalhes de Assis, fazendo 34 referências à cidade.

3. O Autor da LTC

Como o livro que estamos apresentando é uma verdadeira Legenda, que narra em ordem a vida de Francisco, não deve ter sido escrito pelos três companheiros do santo que escreveram a Carta de Greccio.

Além disso, o autor não parece ser um frade retirado em um eremitério, como era Greccio. Tem acesso a livros que deviam ser raros e redige como um escrivão público. E parece estar vivendo em Assis, pelas observações constantes que faz sobre a cidade. Aliás, morando em Assis e escrevendo como um profissional da caneta, provavelmente foi um frade do Sacro Convento, com acesso à biblioteca que, provavelmente, era a melhor da Ordem.

Por tudo isso, não é sem cabimento a suposição de Minochi de que o autor fosse João de Ceprano ou de Celano. Mas não dá para provar nada.

Na realidade, o autor juntou material recolhido da Primeira Vida de Celano, da Biografia escrita por Juliano de Spira e do Anônimo Perusino (quase a metade da LTC é formada por 96% do AP), acrescentando pouca coisa de próprio, por exemplo, nos números 9-10 e 14-15.

Mas o autor da LTC foi alguém muito capacitado, que deu outra alma a seu livro, apresentando um São Francisco muito mais místico que o do Anônimo Perusino.

4. Indicações cronológicas

Há alguns elementos que nos ajudam a situar a LTC no tempo. Como ela junta ao nome de Gregório IX um "de saudosa memória" (24) e diz que ele foi benfeitor e defensor dos irmãos "até o fim de sua vida" (67), deve ter sido escrita depois de 22 de agosto de 1241, quando esse papa morreu. Para comparar, o Anônimo Perusino chama Gregório IX de "o venerável senhor e pai" (47) e só diz que foi eleito papa (45). Semelhantemente, o AP apresenta Frei Bernardo de Quintavalle sempre como vivo (10, 11, 12, 14, 21, 31), enquanto a LTC diz que ele era de "santa recordação" (27 e 39). Sabemos que Bernardo morreu entre 1241 e 1246.

Por outro lado, se, como sustentam alguns estudiosos, a LTC serviu de fonte para a Segunda Vida de Celano depois de pronta e não quando ainda tinha apenas a forma de "flores" dos companheiros, tem que ter sido escrita até 1246, porque a 2Cel saiu em 1247.

Também é interessante aproveitar as indicações cronológicas que estão dentro do texto da Legenda:

No n. 27: "transcorridos dois anos de sua conversão... certos homens... uniram-se a eles".

No n. 62: "Onze anos haviam decorrido desde o início da Ordem... foram escolhidos ministros".

No 66: "No capítulo seguinte (depois na Regra bulada) Francisco concedeu licença aos ministros para receberem frades...".

No 68: "Vinte anos após... (1226) apresentou-se diante do Senhor".

No 69: "...dois anos antes de sua morte... lhe apareceu um serafim".

No 71: Foi canonizado "no ano do Senhor de 1228...".

No 72: "Dois anos após a canonização... o corpo foi trasladado".

5. Indicações ambientais - Assis

A nossa Legenda faz contínuas referências a Assis, a seus cidadãos e aos seus arredores, sem falar nas referências à Porciúncula. Em geral, coloca numa luz favorável os conterrâneos de Francisco.

6. Circunstâncias históricas

O autor do livro que conhecemos como Legenda dos Três Companheiros parece não tomar conhecimento dos fatos históricos que sacudiam a Ordem e a Igreja no seu tempo. Mas não podemos pensar que fosse imune ao que se passava e, se de fato cremos que o livro foi escrito por volta de 1246, é interessante recordar alguns dos principais fatos do tempo.

Em 1240, o Papa e o Imperador estavam em guerra. As tropas imperiais assediaram Assis. Nessa ocasião, entraram os sarracenos em São Damião. Em 1241, voltaram a cercar Rieti e Assis. Nesse ano, deve ter morrido Frei Bernardo de Quintavalle, no Sacro Convento de Assis.

Em 1243, sendo ministro geral Haimo de Faversham, a Ordem estabeleceu normas litúrgicas. Posteriormente foram publicados um missal e um breviário franciscanos que serviram de modelo para toda a Igreja. Foi em junho desse ano que, após uma vacância de dois anos, foi eleito papa o cardeal Sinibaldo Fieschi, com o nome de Inocêncio IV. - É provável que João Fidanza tenha entrado na Ordem nesse ano, em Paris, tomando o nome de Frei Boaventura.

Em 1244, com a morte de Haymo de Faversham, o capítulo elegeu como geral Frei Crescêncio de Iesi, que mandou recolher tudo que os frades sabiam sobre Sào Francisco. No fim desse ano, fugindo do imperador, o Papa se refugiou em Lião, na França.

Em 1245, Inocêncio IV convocou um concílio para condenar o imperador. Também impôs aos frades que assumissem a responsabilidade por todos os mosteiros das clarissas. Em novembro, escreveu a bula "Ordinem vestrum", em que a Santa Sé assume como seus todos os bens usados pelos frades, e lhes permite que tenham não só o necessário mas também o que for cômodo.

Em 1246, Frederico II atacou todos os que apoiavam o Papa, inclusive os frades. Muitos foram mortos ou, pelo menos, expulsos ou encarcerados. No dia 11 de agosto, Frei Leão, Frei Rufino e Frei Ângelo escreveram em Greccio a carta com que apresentaram ao ministro geral tudo que puderam recolher sobre São Francisco: as "flores" que foram passadas para Celano e talvez o Anônimo Perusino e a Legenda Perusina.

Em 1247, o capítulo geral de Lião (13 de junho) elegeu Frei João de Parma como ministro geral. Ficaria até 1257. Em agosto, o Papa emite outra bula, a "Quanto studiosius" a respeito da pobreza dos franciscanos: institui os "síndicos apostólicos", encarregados de agir em nome do papa para atender às necessidades dos frades. O geral rejeita a bula. Mas Inocêncio IV também escreve uma nova re gra para as clarissas, em que acaba com a sua isenção da propriedade. É o que vai acabar levando Clara a fazer a sua Regra. Assis e Perusa estão em guerra com as tropas do imperador.

7. Francisco místico na LTC

Na Legenda dos Três Companheiros, Francisco já aparece como um santo desde o começo: antes da conversão já punha remendos ordinários em trajes de fazenda caríssima (2), e já achava que ia ser um santo venerado (4). Foi visitado pelo Senhor quando ainda pensava em ser militar (5) e teve êxtases passeando com os companheiros na noite de Assis (7).

Subtraía-se do mundo para guardar Jesus Cristo em seu interior (8). Começou a ter a experiência dos leprosos (11) num dia em que estava "a orar com mais fervor".

Nessa perspectiva estão a oração numa caverna e em outros lugares afastados (12), o encontro com o Crucificado em São Damião (13), e todo seu amor pela paixão de Jesus (14-15).

Seu confronto com o pai (17-19) acontece dentro de um profundo espírito religioso, e sua pobreza está intimamente ligada à experiência de Deus (22 e 24).

São experiências místicas sua missão evangélica (25), seu encontro com o Papa me Roma (51), como também a visão da árvore (53), a da Porciúncula como centro de luz (56), e mesmo os seus sonhos como o da galinha choca (63). A morte (68) e os estigmas (69-70) são o coroamento de sua experiência mística.

8. A experiência da Igreja

Nosso quadro mostra que há um verdadeiro esquema sobre a Igreja, do número 46 ao 67.

Todo o conjunto mostra muito bem porque Francisco escreveu em sua Saudação à Mãe de Deus: "Salve, Virgem feita Igreja!". Isso é demonstrado especialmente quando se fala dos capítulos gerais e, de uma maneira destacada quando se apresenta o papel da Porciúncula.

Nada substitui uma boa leitura do texto, mas chamamos a atenção para o n. 46, quando Francisco diz: "Vamos, pois, à nossa Mãe a Santa Igreja Romana..." e para o n. 56, quando se apresenta a visão que um frade teve: "todos os homens deste mundo estavam cegos e ajoelhados em torno de Santa Maria da Porciúncula...", o lugar "predileto da Virgem gloriosa, entre todos os lugares e igrejas deste mundo".

Como conclusão, o cardeal protetor - elo de comunhão com a Igreja - assistia aos capítulos todos os anos.

9. Uma conclusão

Se os famosos três companheiros mandaram ao ministro geral as suas "flores" e mais os textos que nos deram o Anônimo Perusino e a Legenda Perusina, é porque esses escritos, não oficiais, só tinham cópias particulares, quando alguém se interessava por eles.

É diferente o caso das Legendas de Celano, copiadas por ordem da Santa Sé ou da Ordem e presentes praticamente em todos os conventos, ou também o da Legenda Maior, que já foi apresentada com 43 exemplares justamente destinados à multiplicação.

Por isso se compreende como esse tipo de escrito teve uma história difícil de ser recuperada e com uma abundância de variantes. O estudo dos próximos livros nos ajudará a entender melhor toda essa complicada questão editorial.