O "Anônimo de Perusa"

1. O livro

O texto do livro que hoje conhecemos como "Anônimo Perusino" foi descoberto em 1671 na Igreja de São Francisco al Prato, em Perusa. O título original é "De inceptione vel fundamento Ordinis et actus illorum Fratrum Minorum qui fuerunt primi in Religione et socii B. Francisci" (sobre o começo ou a fundação da Ordem e alguns feitos dos primeiros frades desta religião, companheiros de São Francisco).

Só existia esse pergaminho antigo. Foi conservado nesse lugar até pouco depois de 1860, quando o convento foi supresso e o códice desapareceu. O interessante é que esse é o convento onde está sepultado Frei Egídio de Assis, que morreu em 1262, e o Anônimo Perusino conteria a tradição de Frei Egídio.

Há uma indicação, um tanto vaga, de que existia na biblioteca do S. Convento em Assis, em 1381, um códice do sec. XIV com o título "De inceptione Ordinis". O livro poderia ter sido levado para Perusa como homenagem a Frei Egídio.

Hoje sabemos que, em 1671, o bolandista Daniel Van Papenbroek (Papebrok) pediu uma transcrição do códice, pois estava trabalhando na vida de Frei Egídio. Consta que foi difícil encontrar em Perusa quem soubesse ler esses caracteres tão antigos e essa escrita tão cheia de abreviações.

Visão Geral

Prólogo

1. Como São Francisco começou a servir a Deus

2. Os dois primeiros seguidores de Francisco

3. O primeiro lugar onde moraram

4. Como admoestou os irmãos e os mandou pelo mundo

5. Dificuldades que os irmãos encontraram durante sua missão

6. Vida comum e amor mútuo dos irmãos.

7. Como foram a Roma e o papa lhes aprovou a Regra e lhes deu a faculdade de pregar

8. Como resolveu que se fizesse capítulo e dos assuntos que nele eram tratados

9. Como os irmãos foram enviados pelo mundo

10. Como os cardeais, favoráveis aos frades, começaram a dar-lhes conselhos e a ajudá-los

11. Como a Igreja o protegeu dos perseguidores

12. Morte de São Francisco, seus milagres e canonização

O primeiro que estudou a sério o AP foi Frei Ubaldo Tebaldi, que expôs sua tese em 1759. Para ele, AP era uma compilação feita no sec. XV, tirada de diversas fontes por um redator não italiano. Em 1765, Tebaldi insistiu nessa tese em carta ao bolandista Suyskens.

O texto completo foi publicado pela primeira vez em 1902 por Van Ortroy, mas ninguém lhe deu muita importância. Alguns acharam que era uma cópia incompleta da Legenda dos Três Companheiros, porque era parecido.

Em 1972, o livro começou a ser mais bem considerado. Em primeiro lugar, Lorenzo di Fonzo publicou uma edição crítica e mostrou que, na verdade, foi o Anônimo Perusino que serviu de fonte para a Legenda dos Três Companheiros. Como, nesse mesmo ano, Sofrônio Clasen e Theophille Desbonnets estabeleceram que a LTC foi escrita em 1246, o AP tinha que ser mais antigo.

Em 1979, Pierre Beguin demonstrou que o AP foi escrito entre 1240 e 1241. Se for verdade, trata-se da primeira "vida de São Francisco" escrita para os frades.

2. Conteúdo do livro

AP apresenta uma vida de São Francisco do nascimento à morte. Mas seu assunto é a Ordem e não santo. E deixa de lado muitos fatos que o autor achava que todos os seus leitores conheciam.

Como o livro contém os relatos de um discípulo dos primeiros companheiros de Francisco, fala sempre dos primeiros frades, citando muitas vezes Frei Egídio de Assis e Frei Bernardo de Quintavalle. Como suas informações históricas foram retomadas depois e ampliadas por outros autores, hoje muitos não lhe dão importância como biografia de Francisco, achando que não contém novidades.

3. Autor

Sobre o autor, o próprio texto informa no Prólogo que se trata de um discípulo dos primeiros companheiros:

"Os servos do Senhor não devem ignorar o comportamento e a doutrina dos santos, para melhor unirse a Deus. Por isso, em honra de Deus e para a edificação dos leitores e ouvintes, eu, — que vi suas obras, ouvi suas palavras e fui discípulo deles – recolhi e conto alguns fatos do nosso bem-aventurado Pai Francisco e de alguns frades vindos no princípio da Ordem; e o faço seguindo a inspiração divina".

Os casos contados mostram que se trata de um discípulo de Frei Egídio. Isso aponta para Frei João de Perusa, sobre quem diz a carta introdutória da LTC:

"... Frei João, companheiro do venerável pai Frei Egídio, que veio a conhecer muitas destas coisas do próprio santo Frei Egídio e também de Frei Bernardo, de santa memória, primeiro companheiro do bem-aventurado Francisco".

Os Fioretti (48) também informam:

"Tive grande desejo de vê-lo (a Frei Tiago de Massa), porque, pedindo eu a Frei João, companheiro do dito Frei Egídio, que me expusesse certas coisas do espírito, ele me disse: "Se quiseres ser informado na vida espiritual, procura falar com Frei Tiago de Massa; pois Frei Egídio mesmo desejava ser iluminado por ele e às suas palavras nada se pode ajuntar nem tirar; porque sua mente penetrou nos segredos celestes e suas palavras são palavras do Espírito Santo, e não há homem na terra a quem eu deseje tanto ver".

Como o autor se baseia nas reminiscências de Frei Egídio, é bom lembrar que ele foi o terceiro companheiro de São Francisco, admitido na Ordem no dia 23 de abril de 1208, e sempre foi tido como um santo.

Na primeira saída apostólica, Egídio foi com Francisco às Marcas de Ancona. Na terceira, foi com Bernardo de Quintavalle a Florença. Esteve com o grupo apresentando a regra a Inocêncio III. Fez peregrinações a Compostela e à Terra Santa. Na época em que Francisco foi a Damietta, ele foi a Túnis. Os muçulmanos o devolveram num barco como néscio. Passou a vida em eremitérios. Nos últimos anos, esteve no eremitério de Monterípido, onde morreu. Aí foi visitado em 1234 por Gregório IX e em 1260 por São Boaventura.

De Egídio também se conservam os os famosos "Ditos", às vezes publicados junto dos Fioretti. De fato, tanto o Anônimo Perusino quanto os Ditos parecem transmitir a mesma simplicidade.

Desbonnets supõe que Leão, Rufino e Ângelo podem ter enviado com sua Carta a Crescêncio de Iesi um conjunto de escritos que incluiria as suas "Flores" (que depois foram usadas para escrever a 2 Celano e para constituir a Legenda Perusina), uma versão antiga do que depois se chamou Legenda dos Três Companheiros e o que hoje chamamos de Anônimo Perusino.

4. Fundo histórico

Se aceitamos, com Pierre Beguin, que o Anônimo Perusino foi escrito por volta de 1240-1241, o livro adquire um significado bastante especial.

Tanto a Ordem como a Igreja estavam vivendo um momento particularmente difícil. A Igreja estava chegando aos últimos dias do papa Gregório IX, o cardeal Hugolino, amigo de Francisco e Clara.

Foi um pontificado conturbado especialmente pelo relacionamento com Frederico II, o imperador da Alemanha. Depois de muito insistir, o papa tinha conseguido que Frederico II fosse para a cruzada. Mas, em maio de 1229, ele fez uma paz inesperada com o sultão Melek-el-Kamel, que dava aos cristãos uma certa soberania sobre Jerusalém, Belém e Nazaré. E voltou para a Europa, sendo excomungado pelo papa.

Aos 23 de julho de 1230, os dois fizeram as pazes pelo Tratado de São Germano, que não haveria de durar muito.

Mas em 1231 surgiu outro problema, porque o imperador promulgou as Constituições de Melfi, um código de leis civis. E também impôs novas exigências às cidades do norte da Itália. A situação estava tão boa para ele que mandou cunhar uma medalha de ouro, a primeira que se fazia desde o século VIII.

Em 1232, cinco frades tiveram que pedir refúgio, na volta da Terra Santa, ao patriarca Germano II de Nicéia. Este os enviou ao papa para dialogar.

Em 1233, Frei João de Vicenza trabalhou para estabelecer a paz entre os exércitos do papa e do imperador, que estavam outra vez em luta.

Em 1234, Gregório IX mandou dois franciscanos e dois dominicanos como seus legados a Nicéia. No mesmo ano, promulgou as suas Decretales, um código de Direito canônico. Também foi em 1234 que canonizou São Domingos.

Em 1237, Frederico II estava vencendo o papa na Itália. Em 1238, morreu o sultão Melek-el-Kamel.

No dia 24 de março de 1239, o papa excomungou Frederico II, a quem também interditou.

Nos anos de 1240 e 1241, o imperador esteve saqueando cidades do domínio papal. Foi assim que suas tropas invadiram São Damião em 1240, com os sarracenos, e sitiaram Assis em 1241, sob o comando de Vital de Aversa. Nesse tempo, Frei Elías, que tinha sido demitido de ministro geral, estava aliado ao imperador.

No começo de 1241, o papa convocou um concílio para a Páscoa, mas Frederico II prendeu dois cardeais e cem bispos que estavam viajando para Roma. Preparou-se para invadir Roma mas, antes que o fizesse, Gregório IX morreu aos 21 de agosto de 1241, "quase centenário".

Os cardeais elejeram Celestino IV, que morreu depois de duas semanas. A Igreja ficou sem papa até junho de 1243.

Na Ordem, os grandes fatos dos últimos doze anos tinha sido os seguintes: Em março de 1229, Simão de Pucciarello doou o terreno para se construir a basílica de São Francisco em Assis. Nesse mesmo ano, Beatriz, irmã de Clara, entrou em São Damião. Franciscanos começaram a estudar em Paris e Oxford. Um documento já fala nos herdeiros de Ângelo, o irmão de São Francisco.

Em 1230, Gregório IX começa a enviar paramentos preciosos para a basílica de Assis. Por ordem do ministro geral João Parenti, os restos de São Francisco são enterrados secretamente na basílica.

No capítulo geral desse ano, distribuiram-se umas vinte cópias do novo breviário, para serem copiadas nas províncias. Nomeou-se uma comissão, formada, entre outros, por Santo Antônio, Frei Leão e Frei Haymo de Faversham, então professor em Paris, para perguntar ao papa se os frades tinham que obedecer o Testamento e os últimos desejos de Francisco. Gregório IX respondeu aos 28 de setembro, com a bula Quo elongati. Nesse ano, também começaram a juntar livros e outros manuscritos para formar a biblioteca do sacro convento, junto da basílica.

O ano de 1231 viu morrerem Antônio de Lisboa e Isabel da Hungria. No dia 21 de agosto, o papa promulgou a bula Nimis iniqua, em que declarou os franciscanos isentos da juridisção dos bispos, inclusive para dispor das esmolas recebidas, pois estavam fazendo coletas para construir a basílica de Assis.

O capítulo geral de 1232 elegeu Frei Elías como ministro geral (no tempo de São Francisco ele tinha sido apenas vigário geral). Nesse ano, houve a canonização de Santo Antônio. Os dominicanos publicaram a primeira vida de São Domingos e seus companheiros. Em 1233 entraram na Ordem dois catedráticos de Paris: Alexandre de Hales e Adão Marah.

Em 1235, Juliano de Spira escreveu o seu Ofício Rítmico de São Francisco. Frei Elias chegou a estabelecer 72 províncias na Ordem. Gregório IX canonizou Santa Isabel de Hungria.

Em 1236 morreram dois dos frades dos primeiros tempos: Frei Morico aos 30 de março e Frei Pacífico aos 20 de julho. Foi o ano em que o jovem João Fidanza (futuro São Boaventura) começou a estudar em Paris. São Francisco e Santa Isabel da Hungria já constam no catálogo dos santos feito pelos cistercienses.

1238 foi o ano em que Clara e suas Irmãs assinaram uma procuração para Opórtulo de Bernardo vender para o cabido da catedral de Assis um terreno que elas tinham recebido. O governo de Frei Elias já está causando problemas. Jordão de Jano vai a Roma denunciar o visitador enviado pelo ministro geral. Bernardo de Quintavalle, perseguido por Frei Elias, tem que se esconder.

Em 1239, foi convocado um capítulo geral em que Gregório IX destituiu Frei Elias. No seu lugar, foi eleito Alberto de Pisa, o primeiro ministro geral que foi sacerdote. Uma comissão se reuniu antes do capítulo para elaborar Constituições.

Em 1240 morreram Frei Silvestre e o novo geral, Alberto de Pisa. No dia 1o. de novembro foi eleito Haymo de Faversham, inglês, mestre em Paris.

Em 1241, o papa publicou seis bulas dando poderes e missões aos frades. No capítulo geral, em Montpelier, cada província foi convidada a apresentar dúvidas sobre a observância. O ministro geral mandouas para os famosos "quatro mestres": Alexandre de Hales, João de la Rochelle, Roberto de Báscia e Odo Rigaldo, que deram uma resposta jurídica, em que deixavam de considerar situações concretas mas defendiam a "pobreza perfeita" dos franciscanos, alertando para o perigo de que o "núncio" estabelecido por Gregório IX em 1230 para ser um intermediário entre os que davam esmolas e os frades, pudesse vir a agir como um banqueiro.

5. Observações gerais

O bolandista Papenbroke tinha anotado no sec. XVII sobre este livro: "É de Frei Leão". Mas não aprofundou a questão. Em nosso tempo, Lazzeri (1923) e Barbi (1984) também defenderam essa posição. Mas não é fácil crer que Frei Leão, o companheiro devotado, pensasse mais na Ordem que em São Francisco.

João de Perusa (ou quem quer que tenha sido o Anônimo) deve ter escrito o seu trabalho "Sobre o começo da Ordem..." justamente durante esse período difícil em que a fraternidade procurava se recuperar do furacão que tinha sido o governo de Frei Elias, e o papa estava cercado em Roma, esperando que os bispos fossem soltos pelo imperador.

Com a desculpa de que a Igreja precisava dos frades como legados, bispos e pregadores, a Ordem tinha multiplicado as casas de estudo, as bibliotecas... De fato, já não era mais uma "religio fratrum" (que podemos traduzir como "um grupo religioso de irmãos"), mas uma Ordem, estabelecida e organizada.

O Anônimo Perusino não é polêmico. Tem uma enorme solicitude pelos valores originais da Ordem, mas se limita a apresentá-los de maneira simples, como uma boa sugestão para os frades.

Em comparação com a Vida I de Celano, que era anterior e dirigida aos leigos, o autor parece querer sublinhar com força dois aspectos: a pobreza e a alegria de São Francisco e de seus primeiros companheiros.

É muito importante notar que o Anônimo Perusino está incluido praticamente inteiro no Espelho da Perfeição e que constitui o núcleo da Legenda dos Três Companheiros. É bom confrontar os números 10-35 do AP com os números 26-50 da LTC. Mas essas obras reelaboraram o que tinham encontrado e é evidente que a LTC conseguiu apresentar um livro mais interessante e mais ligado ao próprio São Francisco.

Mas dá para sentir nele algo de mais genuino. O estudioso Luigi Pellegrini afirmou: "é único pela coerência, organicidade e originalidade do desenvolvimento narrativo".

Assim mesmo, não é difícil perceber que o seu retrato encantado dos primeiros frades, contido nos números 25-30, está projetando no passado algumas si-tuações bem próprias de seu tempo.

Foi uma pena que se perdeu, no século passado, o códice, provavelmente escrito em Assis mas por um frade de origem alemã. Ele estava acorrentado ao túmulo de Frei Egídio como uma oferta votiva e continha o nosso livro e mais outros documentos sobre o santo companheiro de Francisco.

Mas vamos guardar sempre os seus testemunhos simples, como este:

Qualquer coisa que tivessem, fosse um livro, fosse uma túnica, estava à disposição de todos, e ninguém dizia que eram suas as coisas que possuia, exatamente como se fazia na Igreja primitiva dos apóstolos (27).

A "Legenda de Perusa"

1. O livro

Entre as fontes biográficas, é a de mais recente descoberta. A primeira publicação foi feita em 1922 por Fernando Delorme, a partir de um códice descoberto na biblioteca municipal de Perusa, onde tinha o número 1046.

Na realidade, já tinha sido inventariado em 1381 por João de Iolo, como o códice VIII da livraria pública da Biblioteca do S. Convento, em Assis. Daí passou para o convento de Monterípido, em Perusa e, a partir de 1860, quando os conventos foram supressos, foi parar na biblioteca municipal de Perusa. Os peritos acham que ele foi copiado em Assis entre 23/3/1310 e 31/5/1312.

Inicialmente, devia constar de 21 fascículos divididos em quatro seções. Como faltam cinco fascículos, várias seções estão mutiladas. Mas o códice contém diversas bulas de interesse dos franciscanos, além de uma cópia da Legenda Maior e do nosso documento, identificado por Delorme como Legenda Antiqua.

Visão Geral

I. A Obediência de Francisco (1-8)(...98-101)

II. Humildade e Pobreza (9) (102)

A Humildade (10-11) (103-106)

A Pobreza (12-16) (107-112)

De 16 a 22 estão os Ditos de Francisco, escritos por Frei Leão. Só o n. 16 se refere à Pobreza, mas deve ter trazido todos os outros consigo. (107-112)

A pobreza contínua: (23-40) (...)

III. Nossa missão: ser modelo (41-64) (...1-22)

O Ministro Geral (42-43) (...)

Francisco, como modelo (44-55) (...1-7)

A Porciúncula - modelo (56-64) (8-22)

57-59 inserção sobre edifícios pobres (13-17)

IV. História de admiração (65-76) (23-36)

V. Historias sobre as doenças de São Francisco (77-94) (37-57)

86-88: inserção: Francisco e a Criação (46-51)

90-93: inserção sobre a generosidade (53-60)

VI. Francisco pede esmolas (96-98) (59-63)

um acréscimo sobre a alegria (99-100) (64-65)

VII. O que Francisco queria para a Ordem: que fossem pobres (101-117) (66-92)

De 101 a 106 está a famosa Intenção da Regra (não ter nada) atribuída a Fr. Leão (66-77)

Francisco reafirma a Pobreza evangélica (102) (69)

Francisco queria guia-los pelo exemplo (106-117) (77-92)

inserção - devoção à Eucaristia (108) (79-82)

inserção: histórias admiráveis (115-117)(90-92)

VIII. Histórias do demônio (118-120) (93-97)

Sabe-se que o escrito é uma cópia de uma compilação feita anteriormente, provavelmente por um frade que morava em Assis. Como tinha acesso à biblioteca, onde estariam guardados muitos cadernos e rolos de pergaminhos (talvez grande parte do material enviado a partir de 1244 para Crescêncio de Iesi e já usado por Celano), ele pode ter querido guardar para uso próprio alguns textos que lhe pareceram interessantes.

Para dar uma idéia geral do conteúdo, apresentamos o quadro ao lado. Não é um texto que se possa por muito em ordem. As "inserções" foram postas depois. Em geral, vieram de 2Cel.

Delorme fez uma primeira edição em 1922 com o nome de Legenda Antiga de São Francisco, mas selecionou só o que era inédito, deixando de lado trechos copiados de Celano. Em 1926 fez uma segunda edição, mudando completamente a ordem para tentar recuperar o livro como ele achava que tinha sido antigamente, quando saiu da mão dos companheiros de São Francisco. Mas afirmou que tinha havido um redator único: Frei Leão.

Nesse caminho, Jacques Cambell publicou em 1967 um livro chamado "As flores dos três companheiros", e Rosalind Brooke apresentou outro, em 1970, com o nome de "Os escritos de Leão, Rufino e Ângelo, companheiros de São Francisco".

Foram trabalhos bem feitos, mas que não convenceram. Em 1975, Marino Bigaroni prestou a enorme colaboração de publicar o texto na ordem e exatamente como está no Códice de Perusa. Mas disse que era preferível chamálo de "Compilação de Assis", nome que também foi aceito por outros autores.

No quadro que demos na página anterior, usamos a numeração de Bigaroni, que é a original do pergaminho da LP e foi usada pela edição latina "Fontes Franciscani" e pela espanhola da BAC. Como a nossa edição brasileira seguiu a italiana, que usou a "ordem" de Delorme, colocamos essa numeração ao lado, em algarimos de tamanho reduzido. Quando, no lugar dos números, está uma reticência ... é porque esse trecho foi omitido na edição Delorme e na das Vozes.

2. Os Autores

O que estamos chamando de Legenda Perusina, ou Legenda de Perusa, para ficar com o nome mais conhecido entre nós, na verdade não é uma "legenda", porque não apresenta uma biografia do começo ao fim mas uma série de episódios soltos. Justamente por isso, muitos quiseram ver nela o verdadeiro texto dos três companheiros, que deveria estar em seguida à famosa Carta de Greccio.

Podemos aceitar essa opinião contanto que fique claro que não chegou até nós o texto como foi escrito por eles. Muitos trechos devem ter sido acrescentados e muitos outros omitidos.

Como dissemos, o texto da Legenda Perusina que conhecemos é de um manuscrito de 1311. Um pouco mais antigo do que o Espelho da Perfeição, cujo texto conhecido é de 1318, os dois devem ser considerados compilações feitas no início do sec. XIV, quando fervia a questão dos espirituais e se sentiu a necessidade de apresentar, para modelo ou "espelho" dos frades, uma "Legenda antiga", isto é, com material anterior à "Legenda nova" de São Boaventura.

Mas uma compilação usa, evidentemente, material mais antigo. Deve ter recolhido material que se pode atribuir aos "três companheiros". Aí podem ter entrado o "Florilégio" escrito em 1246, alguns capítulos da Vida Segunda de Celano e certamente outros textos dispersos, mesmo atribuíveis a Frei Leão, como os "Ditos de São Francisco" (Verba Sancti Francisci) e a "Intenção da Regra".

Mas há fortes indicações de que um mesmo autor escreveu a maior parte do livro. O estilo é marcado pelo mesmo linguajar em todo o conteúdo não apresentado como "inserção" no nosso esquema. Repete-se oito vezes a laetitia utriusque hominis, 18 vezes nos qui cum eo fuimus, 21 vezes multotiens, 46 vezes maxime quia, todas expressões que não se encontram com facilidade em outros livros. Mas o escritor fala sempre no plural.

Frei Leão entrou na Ordem em 1210 e foi ordenado por esse tempo. Foi confessor, secretário e companheiro de Francisco, que admirava sua "simplicidade e pureza" (EP 85). Recebeu os três autógrafos do santo que ainda temos.

Frei Rufino, primo de Santa Clara, era considerado um santo por Francisco, porque estava em contínua oração. Diz-se que era baixinho e delicado.

Frei Ângelo era estimado por Francisco por sua cortesia de cavaleiro. Estava junto do santo quando ele pregou aos pássaros, quando visitou o cardeal Brancaleone (1223), no Alverne (1224), em Rieti (1225) e em Assis (1226).

3. Os Ditos de São Francisco

O texto incluído na LP do número 16 ao 22 é atribuído pessoalmente a Frei Leão e já foi editado à parte, em 1901, por Leonardo Lemmens, com o título "Verba Sancti Francisci", a partir do manuscrito 1/73 encontrado na biblioteca do Colégio Irlandês Santo Isidoro, de Roma. Também foi estudado por Edith Pásztor em 1974, 1980 e 1988. Calculase que seja posterior a 1246, porque Celano o ignorou. Mas sabe-se que deve ser anterior a 1260 porque São Boaventura demonstra conhece-lo. Frei Leão pode ter escrito mais tarde um texto à parte, porque viveu até 1276.

Mas são textos polêmicos, que refletem a luta entre os espirituais e a comunidade. É no n. 113 (88) que está a famosa história em que o próprio Jesus teria clamado dos céus diante dos ministros que a Regra tinha que ser obedecida "à letra, à letra e sem glosa, sem glosa, sem glosa". Deve ser sinal do uso pelos espirituais o fato de o texto citar duas vezes o nome de Frei Leão.

4. A Intenção da Regra

A famosa "Intentio Regulae", que também foi publicada em 1901 por Lemmens e estudada por Edith Pásztor, está nos números 101-106. Também é polêmica e muito usada na luta dos espirituais. Note-se que os dois textos podem ter sido tirados da coleção de 1246 e depois aumentados, como também podem ter sido escritos mais tarde por Frei Leão e só incluídos na LP em 1311.

5. História do Texto

Os chefes dos espirituais – Pedro João Olivi, Hubertino de Casale e Ângelo Clareno – alegam muitas vezes os rotuli (rolos) de Frei Leão, e Hubertino chega a citar "um livro conservado no armário dos frades de Assis" com textos escritos pela própria mão de Frei Leão. Entre outros estão a Intentio Regulae, citada por Hubertino, e o Verba Sancti Francisci, citado por Clareno.

Um estudo mostrou que há 53 capítulos que estão presentes tanto no Espelho de Perfeição quanto na 2Cel. Eles devem ter uma fonte comum e a LP pode ser uma cópia dessa fonte. Nessa época, deviam correr diversas cópias um tanto variadas que, depois, acabaram confluindo nas mais famosas. É provável que fizessem cópias um pouco diferentes de acordo com as regiões e os grupos.

O material que forma o texto da LP pode ser dividido em cinco seções. As duas primeiras são cópia direta da Vida II de Celano. As três últimas devem ser uma cópia do material que serviu para Celano escrever a sua Vida II. Uma outra cópia deve ter servido para escrever o Espelho da Perfeição (edição maior, ou de Sabatier). Mas também é possível demonstrar que a Legenda de Perusa, o Espe lho da Perfeição Menor (edição de Lemmens) e o manuscrito de Little são três famílias provenientes do mesmo texto original.

Entre 1248 e 1311, outro recopilador reestruturou o material dos tres companheiros para destacar o papel de Francisco como modelo de obediência, humildade e pobreza. Pode ter sido influenciado nisso pela obra de São Boaventura.

De qualquer jeito, é fundamental ter por certo que a LP não reuniu todos os rolos, fichas etc. de Frei Leão que se conservavam na passagem do sec. XIII para o XIV, segundo vários testemunhos, ou na biblioteca do S. Convento, ou em São Damião, ou com Hubertino de Casale, ou alhures. Isso faz pensar que houve uma tradição manuscrita anterior, composta de pequenas "síloges". Dela podem depender tanto a LP quanto o EP, quanto o que foi testemunhado pelos espirituais.

É certo que a figura de Francisco apresentada na LP deve ter influenciado bastante os espirituais, mas eles depois passaram para frente uma imagem mais exacerbada por suas convicções joaquimistas, com aspectos mais proféticos e carismáticos.

Talvez os próprios autores não tenham tido consciência de que apresentaram o santo mas também o peso do movimento que se tornou tão grande que ele não conseguiu controlar, embora tenha rejeitado até o fim o uso da força. Isso não aparece em testemunhos individuais e em apresentações esquemáticas mas no contexto geral. Por isso digo que talvez não tiveram consciência clara.

6. O conteúdo da L. Perusina

A Legenda Perusina distingue-se das biografias anteriores por não contar nada da juventude de São Francisco. Só fala dele como membro da Ordem.

É uma preciosidade por dar os testemunhos dos primeiros companheiros, que estavam vivendo uma vida conventual e tinham saudades dos tempos heróicos. Só ela mostra o sofrimento de Francisco diante da atitude dos "prudentes" e dos problemas que surgiam com a evolução da fraternidade. O n  63 (21) chega a dizer que ele ficou gravemente perturbado e fugia do convívio dos irmãos por não poder apresentar seu sorriso habitual. Celano parece ter suavizado esses problemas, apesar de ter escrito: "Quem são esses que me arrancaram das mãos a Ordem que é minha e de meus frades? Se for ao capítulo geral, mostrarlhes-ei qual é a minha vontade" (2Cel 188).

Mas São Francisco aparece como modelo da vida franciscana. Na década de 1240, a Ordem estava se estabelecendo como uma força universitária, com estudantes e catedráticos em Paris, Bolonha, Cambridge e Oxford. Mas, ao mesmo tempo, os eremitérios tentavam continuar a vida contemplativa dos primeiros tempos e, por isso, crescia a distinção entre os orantes e os pregadores ou estudantes.

A maior parte dos relatos dos três companheiros situase nos eremitérios ou se apoia neles. A Porciúncula, que com Francisco é modelo de pobreza e de vida, aparece trinta e uma vezes. Mas também aparecem eremitérios como Fonte Colombo, Greccio, Poggio Bustone, Rivo Torto, Alverne, Le Celle de Cortona, Rocca di Brizio e Santo Eleutério. Para os companheiros, está bem claro: os santos feitos de Francisco foram fruto da contemplação. Estudos e pregações são importantes, mas a fonte da salvação está nos eremitérios.

Os frades mais lembrados são Bernardo (17 vezes), Pedro Catani (12) e Pacífico (9). Ângelo só aparece 4 vezes, Leão duas e Rufino nenhuma.

É bom observar que, mesmo tendo fontes comuns, a Legenda dos Três Companheiros, o Espelho de Perfeição e a Legenda Perusina sempre têm uma maneira própria de apresentar São Francisco.

Um dos pontos específicos da Legenda Perusina é sua maneira de apresentar Francisco em sua relação com a Igreja. Há doze parágrafos que falam disso, especialmente do relacionamento com a hierarquia. O 19, sem correspondente na edição de Delorme, porque vem de 2Cel 146, fala da humildade e reverência que os frades devem ter para com o clero.

Mas há textos que mostram que ele nem sempre concordava com tudo. No n. 18 (114), por exemplo, resiste ao cardeal Hugolino e aos que queriam que adotasse uma das regras monacais.

Também não concordou com a idéia do cardeal que queria elevar alguns frades ao episcopado, como vemos no n. 49 (sem correspondente em Delorme). Situações semelhantes vemos nos números 54 (6), 84 (44), 94 (57) e 108 (80).

Parece que o relacionamento que tinha sido tão exaltado no Anônimo Perusino e na Legenda dos Três Companheiros já perdera muito de sua força, pelo menos na redação final (de 1311) da Legenda Perusina.

Também são saborosas as informações dadas pelo nosso livro sobre o Cântico do Irmão Sol e a exortação Ouvi, Pobrezinhas, nos números 83-85 (43-45), além de tudo que fala sobre o amor e respeito de São Francisco por todas as criaturas, nos números 86-88 (46-49).

7. Conclusões

A Legenda Perusina, como a Legenda dos Três Companheiros, o Anônimo Perusino e o Espelho de Perfeição são conhecidos em suas versões do início do século XIV embora contenham material que vem dos contemporâneos de São Francisco, podendo ser anteriores pelo menos à Vida II de Celano. Testemunham a reação que houve dentro da Ordem, pelo menos por parte dos mais apegados à tradição ou ao espírito de Francisco, diante da Legenda Maior. É claro que o tempo em que as cópias foram feitas (e provavelmente manipuladas) lembra a luta dos espirituais. Mas não pode ser só isso: é uma demonstração de que o movimento franciscano sempre sobreviveu porque sempre houve irmãos e irmãs que lutaram para ser fiéis ao espírito genuino de Francisco de Assis.

Apesar de ser marcada por um sentimento de que a Ordem está perdendo devagarinho seu clima de rigorosa ascese e o fervor apostólico do franciscanismo primitivo, podemos concluir, com o historiador Estanislau de Campagnola, que a Legenda Perusina "é um documento de segura e extraordinária beleza, de indiscutido e indiscutível valor biográfico, justamente porque está repleto de uma comunicação simples e persuasiva que faz dele, como o Espelho de Perfeição, um dos textos mais imediatos e significativos a respeito dos gestos, da maneira de agir, da vontade de São Francisco. Suas narrativas são marcadas por um espírito devoto e constituem um agradável entretenimento, ricas principalmente de fatos edificantes e maravilhosos - humanamente, não sobrenaturalmente milagrosos - marcados por uma presença e por uma participação humana dos companheiros, concreta e intensamente vivida".

O "Espelho da Perfeição"

1. O livro

Em 1898, depois de comparar 45 códices antigos, Paul Sabatier publicou a primeira edição do Speculum perfectionis, no volume I da Collection de documents pour l'histoire religieuse et lettéraire du Moyen Âge. Para ele, o livro tinha sido escrito em 1227 por Frei Leão, companheiro de São Francisco. Afirmava que foi para refutar esse livro que Frei Tomás de Celano escreveu a sua Vida I.

Esquema do Espelho da Perfeição

1. A perfeição da pobreza (nn. 2-26)

2. A caridade, compaixão e condescendência para com o próximo (nn. 27-38)

3. A perfeição da santa humildade e da obediência em si mesmo e em seus irmãos (nn. 39-75)

4. Seu zelo pela profissão da regra e por toda a religião (nn. 76-84)

5. Seu zelo pela perfeição dos irmãos (nn. 85-90)

6. O contínuo fervor do amor e da compaixão pela paixão de Cristo (nn. 91-93)

7. Seu zelo pela oração e pelo ofício divino e para conservar a alegria espiritual em si e nos outros (nn. 94-97)

8. Algumas tentações que Deus lhe permitiu (nn. 98-100)

9. O espírito de profecia (nn. 101-109)

10. A providência divina sobre ele em coisas exteriores (nn. 110-112)

11. Seu amor pelas criaturas e das criaturas por ele (nn. 113-120)

12. Sua morte e a alegria que demonstrou quando teve certeza de estar perto da morte (nn. 121-124)

Essa publicação fez furor, e deu início à famosa questão franciscana, mas, na realidade, o livro já tinha sido estudado desde o sec. XVI e especialmente no sec. XVII. Os observantes Henrique Sedúlio e Filipe Bosquier tinham-no atribuído a companheiros ou discípulos de Francisco, mas o conventual Lucas Wadding afirmara que não passava de uma compilação feita certamente depois de 1310.

De fato, os eruditos franciscanos que discutiram o livro no sec. XVII só conheciam uma versão mais tardia, que tinha por título Speculum vitae beati Francisci et sociorum eius, que parece ter sido elaborada com partes do Speculum perfectionis e partes do Actus beati Francisci.

Em 1726, o recoleto Matias Growels, mesmo usando esse livro, que tivera várias edições, mostrou que também conhecia o Speculum perfectionis. Para ele, a obra continha trechos de diversos autores e de diversas épocas, incluindo um núcleo que podia ser atribuído a companheiros de São Francisco. Também os bolandistas estudaram o Espelho em diversas oportunidades, mas concluiram que o livro não podia servir para se conhecer o verdadeiro São Francisco, por ser tardio.

No fim do sec. XVIII, o franciscano Irineu Affó distinguiu com clareza o Espelho de Perfeição, depois de ter feito estudos comparativos com textos esparsos. Já se impressionou com as expressões do tipo "Nós que vivemos com ele...". Em 1886, A. Molinier tinha descrito o códice Mazzarino 1743, o principal dos usados por Sabatier. Em 1895, Ildebrando Della Giovanna estudou o códice Mazzarino, mostrou que a data 1227 devia estar errada e desconfiou da autenticidade das expressões "Nós que vivemos com ele...".

Entretanto, pouco depois da publicação de Sabatier, foram descobertos outros pergaminhos que davam a data do Espelho de Perfeição como 1318, em vez de 1228. A cópia de Sabatier devia ter trocado um C por X (MCCCXVIII em vez de MCCXXVIII). De fato, se a data estivesse certa, devia ser lida 1227, porque seguia o calendário pisano.

Nos primeiros anos do sec. XX, Leonardo Lemmens publicou outro manuscrito do Espelho, mais breve (45 parágrafos em vez de 124). Julgouo anterior ao texto de Sabatier, mas a maioria dos estudiosos não concorda com isso e lhe dá uma existência paralela. Hoje, para distinguir, os estudiosos falam em Espelho maior (o de Sabatier) e Espelho menor (o de Lemmens). A edição brasileira, como a maioria das outras, não apresenta o Espelho menor, de Lemmens, mas a nova edição latina das Fontes Franciscani não deixou de incluílo.

2. O Texto

O Espelho de Perfeição consta de 124 capítulos distribuídos em 12 partes, incluindo o capítulo 1, que é um acréscimo colocado posteriormente. Trata-se do famoso texto em que Francisco invoca Jesus Cristo para dizer aos ministros que têm que observar a Regra à letra. Esse texto devia ter cópias autónomas, que acabaram na LP e no EP.

Noventa capítulos vieram da Legenda de Perusa ou de uma fonte comum ao dois livros. Vinte nove vieram da Vida II de Celano. Os capítulos que não puderam ser encontrados em outras fontes são: o 73, sobre as virtudes que devem ter os superiores e os pregadores; o 79, em que São Francisco fala de quatro privilégios da Ordem (esse assunto, não o texto, está na Crônica de Tomás de Eccleston Sobre a chegada dos frades na Inglaterra; o 84 que canta a glória da Porciúncula em poesia; o 85 em que Francisco descreve o verdadeiro frade menor tomando qualida des de alguns de seus companheiros; o 119 que fala do amor ao sol e ao fogo; e o 120, que apresenta o Cântico do Irmão Sol.

Além disso, há uma interpolação posterior entre os capítulos 71 e 72. Traz umas profecias que São Francisco teria feito e que Frei Leão teria comunicado a Frei Bernardo de Ofida. É um dos pontos de mais evidente influência dos Espirituais, como quase todas as passagens em que se cita esse Frei Bernardo.

3. Autor

Não se sabe quem organizou essa coleção de textos. Mas parece que copiou as diversas passagens praticamente como as encontrou, limitando-se a organizálas em doze partes sem ordem cronológica, como tinha feito São Boaventura e, antes dele, Tomás de Celano na sua Vida II.

Naturalmente, trabalhou dentro do propósito que deixou claro tanto no Incipit (primeiras palavras): "Aqui começa o Espelho da Perfeição do estado de

Para construir esse espelho dos franciscanos, o autor - ou recopilador - selecionou textos antigos da literatura franciscana. É claro que São Francisco está muito presente nisso tudo. Mas, atenção! São Francisco não é o espelho nem a razão principal do trabalho. São Francisco é apenas um argumento, uma prova de como devia ser o frade menor no princípio do século XIV.

Por que se pensou em construir esse espelho? Porque a Ordem estava dividida e o autor sentiu a necessidade de concretizar as suas convicções para conseguir que seus irmãos seguissem o bom caminho.

Considerando que seriam essas as intenções de quem construiu o Espelho de Perfeição entre os anos 1310 e 1320, é preciso pensar que ele usou todo o material disponível que lhe servia. Não se preocupou apenas em resgatar as tradições atribuídas a Frei Leão. Por isso, não parece que seja uma boa metodologia usar os textos do Espelho de Perfeição nem para reconstruirmos o retrato do "verdadeiro" São Francisco e nem mesmo do São Francisco que Frei Leão e os companheiros quiseram passar.

6. O que é um frade menor?

Diante do que via em seu tempo, o autor do EP sabia muito bem o que o frade menor não devia ser:

1. Não devia ser alguém que morasse em casas boas, grandes, numerosas;

2. Não devia ser alguém que assumia cargos eclesiásticos;

3. Não devia pedir privilégios na corte papal;

4. Não devia buscar ser importante pelo saber. Então, o que devia ser? Isso está muito bem demonstrado nas partes 1-4:

1. Devia estar comprometido pela vida comum marcada pela pobreza perfeita, sem livros, vivendo de esmolas, morando em casas pobres (ver 2-26);

2. Devia ter como referências exemplares as figuras características da pobreza da época (ver 27-38);

3. Devia ser uma figura típica, marcada pela obediência aos papéis estruturados dentro do grupo (ver 39-49);

4. Devia ser um tipo consolidado dentro de normas precisas e imutáveis estabelecidas pela Regra (ver 76-84).

São Francisco aparece constantemente para justificar esses princípios, seja pelo seu exemplo, seja pelas suas palavras. E-le não é o espelho, mas é um bom exemplar do espelho dos frades.

Creio que a atitude do autor é clara por este trecho do capítulo 2:

Nós que vivemos com ele lhe diremos o que ouvimos de sua própria boca, porque o santo disse estas coisas a muitos frades e fez inserir na Regra muitas prescrições, que em suas preces e meditações havia implorado do Senhor no interesse da Ordem, afirmando serem todas elas conformes à vontade de Deus. Mas, ao apresentá-las aos frades, estes julgaram-nas demasiado rígidas e insuportáveis. Ignorando o que havia de suceder depois de sua morte e temeroso do escândalo que podia advir, não só para si como também para os demais irmãos, não quis questionar com eles e não poucas vezes condescendia contra sua vontade, e se desculpava a si mesmo na presença do Senhor.

A partir desse pensamento, apresentou inúmeras instruções que São Francisco teria dado.

As "Florinhas de São Francisco"

1. O livro

O que hoje conhecemos como "Florinhas de São Francisco", e que muita gente prefere chamar com o nome italiano Fioretti, começou com um outro livro, ainda não traduzido em português. Chama-se Actus beati Francisci et sociorum eius, o que quer dizer: "Feitos de São Francisco e de seus companheiros".

Esse livro foi escrito entre os anos 1331 e 1337 por Frei Hugolino de Montegiorgio, também chamado Frei Hugolino de Santa Maria, como conta ele mesmo no capítulo 45 dos Fioretti. Ele era um dos franciscanos chamados "espirituais" e aproveitou muitas histórias contadas por outros frades que, por sua vez, tinham conhecido Francisco, Clara e outros irmãos dos primeiros tempos. Damos abaixo o nome desses frades, quem cada um deles conheceu e em que capítulo dos Fioretti aparecem suas histórias:

Frei Tiago de Massa conheceu Santa Clara, Frei Leão, Frei Masseu e Frei Egídio (16, 41, 47, 51). Frei João de Perusa conheceu Frei Bernardo de Quintavalle e Frei Egídio de Assis (48). Frei João de Pena conheceu Frei Filipe Longo (45). Frei João do Alverne conheceu Frei Masseu (49-53). Ao todo, os Actus tinham 26 narrativas sobre São Francisco e seus companheiros e mais 50 sobre frades da Marca de Ancona conhecidos de Frei Hugolino.

Os Actus Beati Francisci foram publicados pela primeira vez por Paulo Sabatier, em 1902. Mas a traduçãso em italiano, que se chamou "I Fioretti di San Francesco", é conhecida desde a Idade Média. Não se sabe quem foi o tradutor, embora se tenha por certo que foi um frade da Toscana. Fez uma tradução bem livre, em que algumas narrativas foram omitidas, outras resumidas e mais algumas acrescentadas. O livro ficou com 53 capítulos: 40 sobre São Francisco e seus companheiros e 13 sobre os frades das Marcas.

Durante muito tempo, a maior parte das pessoas conheceu São Francisco através dos Fioretti, que foram traduzidos em muitas outras línguas.

Há contos interessantes sobre Santa Clara (15, 16, 19, 33, 35), Santo Antônio (39-40), Frei Bernardo de Quintavalle (1-6, 27-28), Frei Masseu (4, 10-13, 16, 27, 29, 32), Frei João de Capela (1, 31), Frei Leão (8-9, 27, 30, 36), Frei Silvestre (2, 16), Frei Elias (4, 6, 31, 38), Frei Egídio de Assis (6, 28, 34), Frei Rufino (29-31), Frei Ângelo (16, 26).

Fioretti quer dizer "ramalhete de flores", e flores, na linguagem medieval, lembra a narrativa tanto de bons exemplos como de milagres. No mesmo senti-do deve ser entendida a palavra Actus.

Na página seguinte, vamos apresentar uma divisão dos Fioretti em seis grandes partes, tentando resumir o tema de cada capítulo que, no original, sempre tem um título bastante longo.

Mas, para entender este livro, vai ser muito importante levar em conta a história tumultuada que os franciscanos estavam vivendo na época em que ele foi escrito. Vamos apresentar isso depois do quadro geral.

Esquema das "Florinhas de São Francisco"

Parte 1 - Francisco, como Cristo, escolheu doze discípulos (1-6)

1 - Alguns dos companheiros de Francisco; 2. Frei Bernardo dá seus bens aos pobres; 3. Respeito de Francisco por Frei Bernardo; 4. Frei Bernardo na Espanha, mau gênio de Frei Elias; 5. Frei Bernardo estabelece a Ordem em Bolonha; 6. Francisco abençoa Frei Bernardo mas não Frei Elias.

Parte 2 - Francisco, como Cristo, era humilde (7-12)

7. Francisco jejua, come meio pão por humildade; 8. Francisco descreve a perfeita alegria; 9. Francisco exige que Frei Leão o despreze; 10. Frei Masseu põe à prova a humildade de Francisco; 11. Francisco corrige Frei Masseu; 12. Francisco encarrega Frei Masseu de ensinar a humildade.

Parte 3 - Francisco, como Cristo, envia os frades sem nada (13-24)

13. Francisco e Frei Masseu descobrem o tesouro da pobreza; 14. Deus fala através dos simples; 15. Clara está disposta a ir aonde for preciso; 16. Francisco disposto a qualquer missão, sem nada possuir; 17: A oração é a fonte da missão; 18. Os frades vão confiantemente para suas províncias; 19. O povo cristão produz frutos; 20. A pobreza abre a porta da glória; 21. A missão franciscana é amansar o feroz; 22. A missão franciscana é domesticar o que já é manso; 23. A missão franciscana é enfrentar o demônio; 24. A missão mais alta: pregar ao sultão.

Parte 4 - Francisco, como Cristo, cura interiormente (25-30)

25. Francisco liberta o leproso de seu ódio; 26. Francisco converte três ladrões; 27. Frei Ricério é libertado do desespero; 28. Frei Bernardo contempla coisas celestiais; 29. Francisco esclarece as dúvidas de Frei Rufino; 30. Francisco e Rufino pregam nus.

Parte 5 - Francisco, como Cristo bom pastor, conhece os seus (31-40)

31. Francisco conhece o bom e o mau dos irmãos; 32. Frei Masseu esforça-se para ser humilde; 33. Santa Clara abençoa e cura por obediência; 34. Frei Egídio conhecia os corações; 35. Clara, doente, assiste a missa do Natal; 36. Francisco interpreta uma visão de Frei Leão; 37. Francisco reza por Elias e consegue sua salvação; 39. Santo Antônio conhece muitas línguas; 40. Santo Antônio prega aos peixes.

Parte 6 - Histórias de frades santos de Ancona (41-53)

2. Circunstâncias históricas

Os franciscanos "espirituais" foram condenados pelo papa João XXII no dia 30 de dezembro de 1317. O grande problema era sua maneira de explicar a pobreza franciscana. Para eles, os franciscanos só eram pobres quando levavam uma vida verdadeiramente pobre.

Do outro lado, os frades da "comunidade" aceitavam que os podiam considerar-se pobres se não fossem os donos legais de nenhuma propriedade.

Em 1321, apareceu em Narbona um pregador que acabou sendo condenado porque ensinava que Jesus Cristo e seus discípulos não tinham possuído nada, nem em comum nem em particular. Esse era o ensino franciscano, já defendido por São Boaventura e contido na bula Exiit qui seminat, do papa Nicolau III. Mas João XXII declarou, no dia 26 de março de 1322, que um papa podia mudar o que outro tinha dito.

O Capítulo Geral dos Franciscanos, reunido em maio desse ano, assumiu a mesma doutrina: Cristo e seus discípulos não possuiram nada, nem em comum nem em particular. Era uma declaração polêmica.

No fim do ano, aos 8 de dezembro, João XXII declarou que a Santa Sé não queria mais ser dona dos bens que estavam nas mãos dos franciscanos. Mais tarde, concordou em ser proprietária só dos bens imóveis. Mas, em 1323, declarou que era herética a doutrina de que Jesus não tinha tido propriedades.

Em 1324, o rei Luís da Baviera tomou o partido dos frades. O Capítulo Geral de 1325 proibiu os frades de fazerem qualquer publicação a respeito, recomendando-lhes que mantivessem reverência e silêncio sobre esse tema.

Mas, em 1326, João XXII mandou prender o ministro geral, Miguel de Cesena e também Frei Guilherme de Occam. Quando veio outro capítulo geral, em 1328, os frades foram instruídos a eleger outro geral, mas relegeram Miguel de Cesena. O papa o excomungou e mandou fazer outra eleição, em 1329. Elegeram Geraldo Eudes, que era amigo de João XXII, não apreciava o ideal da pobreza e acabou permitindo aos frades que recebessem dinheiro.

Em 1330, numa defesa de si mesmo, Ângelo Clareno exortou a Ordem a voltar aos escritos, ditos e exemplos de São Francisco, o que pode ter pesado na confecção dos Actus-Fioretti ou, pelo menos, demonstra uma mentalidade do tempo. Clareno declarou, na mesma oportunidade, que amava a Igreja e queria ser obediente, "menos no que é mau ou leva ao mal".

Em 1336, os franciscanos receberam novas constituições, elaboradas pelo papa Bento XII, que tinha sido cisterciense e insistiu nos valores da vida monástica: ofício divino, clausura, silêncio, estudo, abstinência de carne. Nem falava em pobreza. Em 1337, o capítulo de Cahors teve que aceitar essas constituições.

De 1348 a 1350, a peste negra, que atingiu toda a Europa, reduziu os franciscanos a um terço do que eram antes. Nos conventos vazios, os frades tiveram que viver como monges.

Em 1354, os franciscanos conseguiram voltar a observar as Constituições de Narbona (do capítulo de 1260), mas tiveram que continuar administrando seus bens.

3. Edição

A tradução italiana dos Actus Beati Francisci tornou-se clássica por sua linguagem e consagrou o nome "Fioretti". As diversas línguas não costumam traduzir o livro original, os Actus, que tem uma infinidade de variantes. Sabatier tinha feito uma edição em 1902, da melhor forma que foi possível. Outra edição, bastante melhorada e bilíngüe foi apresentada em 1988 por Marino Bigaroni e Giovanni Boccali, que publicaram postumamente o trabalho feito por Jacques Cambell. A tradução brasileira, apresentada pela Editora Vozes no conjunto das Fon tes, também tem uma tradução de valor literário, feita pelo poeta Durval de Morais. Já era conhecida antes de entrar na coleção.

Além dos 53 capítulos feitos de acordo com a versão italiana, apresenta diversos acréscimos:

1. Dos Sacrosantos Estigmas de São Francisco e de suas considerações.

É um acréscimo apresentado já pelo tradutor toscano dos Actus. Tem algum apoio nas páginas desse livro mas o tradutor usou de ampla liberdade para respigar em outras fontes, como, por exemplo, a Legenda Maior. São páginas muito bonitas, que reconstroem com muita unção o prodígio do Alverne. Em Francisco, Jesus Crucificado fica mais ao nosso alcance.

Além dessas "Considerações" que são apresentadas por todas as edições dos Fioretti nas diversas línguas, a edição brasileira inclue outros textos:

2. Vida de Frei Junípero.

Esse companheiro de Francisco, tão simples, parece até simplório por alguns relatos muito conhecidos. Mas também foi um santo e seus casos nos levam àquele mundo do começo da Ordem.

3. Vida do Bem-aventurado Frei Egídio, companheiro de São Francisco.

Terceiro discípulo do Santo, pois entrou logo depois de Bernardo de Quintavalle e Pedro Cattani, Frei Egídio não chegou a ser canonizado mas sempre foi tido como um grande santo pelos seus contemporâneos e pelos que guardaram sua tradição. Notemos que se trata da mesma pessoa que algumas biografias de São Francisco apresentam como Frei Gil, provavelmente influenciadas pelo francês.

4. A Verdadeira Doutrina e os Ditos Notáveis de Frei Egídio.

Os "ditos de ouro" desse inspirado confrade da primeira hora são uma riqueza espiritual do franciscanismo.

4. Conclusão - o valor

As Florinhas, como os seus apêndices, não são biografia de São Francisco, a não ser ocasionalmente. São Francisco não é mais uma figura central, ainda que esteja quase sempre presente.

A obra, escrita cem anos depois da morte do Santo, embora tenha usado muito material que pode provir dos seus dias ou, certamente, das recordações de seus primeiros companheiros, reflete muito mais o que estava acontecendo com o movimento franciscano (praticamente restrito à I Ordem) naqueles anos de decadência e adaptação. Reflete profundamente a influência dos Espirituais.

Se partirmos de uma visão moderna da história, seus dados são pouco aproveitáveis para refazer a figura autêntica de Francisco e de seus companheiros. Há uma mistura muito grande de lendas com episódios verídicos, ainda que amontoados sem a menor ordem cronológica e, talvez, sem nenhuma outra ordem.

Os historiadores não costumam dar valor aos Fioretti e a seus apêndices. Acreditamos, entretanto, que pertencem às fontes do franciscanismo: expressam a maneira de pensar e de sentir de muitos franciscanos dos primeiros tempos e mostram até mesmo como lhes foi difícil enfrentar a mudança inexorável dos tempos.

É uma "fonte" para ser lida com os "olhos do espírito" e as intuições do coração.

Terceira Parte

CRÔNICAS E OUTROS DOCUMENTOS

As crônicas são fontes do movimento franciscano original, mais do que de São Francisco, a que se se referem, em geral, só ocasionalmente. Podem ter ou não esse nome, mas sempre vão apresentando os fatos em ordem cronológica.

Também estamos colocando nesta parte alguns outros documentos que não podem ser ser classificados como biografias mas também constituem fontes históricas para os franciscanos.

Distinguimos dois grandes grupos: o dos autores franciscanos e o dos autores não franciscanos.

Autores Franciscanos

1. Tomás de Eccleston escreveu, entre 1258 e 1259, a história dos primeiros frades na Inglaterra: Liber de Adventu fratrum minorum in Angliam.

2. Jordão de Jano escreveu, em 1262, a história dos primeiros frades na Alemanha: Chronica.

3. Salimbene de Adam, de Parma, escreveu, entre 1281 e 1288, uma Crônica.

4. Um grupo anônimo escreveu, entre 1280 e 1305, um Liber exemplorum fratrum minorum (Livro de exemplos dos frades menores).

Um frade anônimo da Úmbria escreveu, entre 1330 e 1350, uma Vida do pobre e humilde servo de Deus Francisco.

6. Arnaldo de Sarrant escreveu, em 1365, o livro De cognatione sancti Francisci.

7. Um frade anônimo escreveu, entre 1369 e 1373, a Chronica XXIV generalium Ordinis Minorum.

8. Bartolomeu de Pisa escreveu, entre 1385 e 1390, o Liber de conformitate vitae beati Francisci ad vitam Domini Iesu, que foi aprovada pelo capítulo de 1399.

9. Antônio de Rieti escreveu, entre 1385 e 1416, o Actus Beati Francisci in Valle Reatina.

10. Fabiano da Hungria escreveu, entre 1400 e 1443, o Speculum vitae beati Francisci et sociorum eius.

11. Tiago Oddi de Perusa escreveu, em 1475, a Franceschina, biografia de figuras ilustres da Ordem.0

amplo repertório é oferecido pelos Annales Minorum (1625s) de Lucas Wadding.

Autores não franciscanos

Nossa edição brasileira das Vozes apresenta oito pequenos testemunhos de autores não franciscanos dos sec.s XIII e XIV. Quem tiver acesso à edição italiana poderá encontrar 28 interessantes testemunhos de fora da Ordem:

De quando São Francisco estava vivo: Duas cartas de Jacques de Vitry e algumas páginas de sua Historia Occidentalis. A Cronica de Ernoul, o testemunho de Bernardo, o Tesoureiro e a História de Heráclito. Os testemunhos de Buoncompagno de Signa e de Burcardo de Usperg. As crônicas de Monte Sereno e de São Martinho de Tours.

Posteriores à morte do Santo, há testemunhos de Odon de Cheriton, de Lucas de Tuy, de Tomás de Spalato e de Estêvão de Bourbon, além da Paixão de São Verecundo.

Sobre as origens a difusão da Ordem temos uns sermões de Jacques de Vitry aos frades menores, testemunhos de Cesário de Heisterbach e de Alberico de Trois Fontaines, além de um trecho da Vida do Papa Gregório IX, dos Anais de Santa Justina e das crônicas normandas.

Também foram escritas diversas pequenas biografias de São Francisco por Rogério de Wendover e Mateus de Paris, por Ricério de Sens, por Filipe Mousket, por Gualter de Gisburn, além de uma crônica rítmica austríaca e de uma crônica da Dinamarca.

Além disso, a edição italiana apresenta diversos outros testemunhos franciscanos, menores mas muito interessantes, como a Crônica menor de Erfurt, a

Além desses, são fontes de informações para os séculos futuros as seguintes crônicas e escritos: Arbor vitae crucifixae Iesu (1305) de Hubertino de Casale; o Chronicon seu Historia septem tribulationum ordinis minorum (1325/1330) de Ângelo Clareno; os escritos de Pedro de João Olivi; a Chronica de Nicolau de Glassberger (1508); as numerosas obras de Mariano de Florença (início do sec. XVI); a Crônica de Marcos de Lisboa [ed. It. 1581]; Seraphicae religionis libri tres (1586) de Rodolfo de Tossignano; De origini seraphicae religionis... (1587) de Francisco Gonzaga. Um

Crônica de Lanercost, a Série de Mestres gerais OFM, os testemunhos de Frei Peregrino de Bolonha, Frei Tomás Toscano, Frei Estêvão, Frei Nicolau de Assis, Frei Lucas de Bitonto, Frei Bonaparte e Frei João. As lembranças de Frei Iluminato, uma oração de São Francisco, as lembranças de Frei Leão, o texto escrito por Frei Leão no breviário de São Francisco, uma miscelânea de São Boaventura e um texto de João Olivi.

Destaques

Entre todos esses textos, nós destacamos como uma leitura importante alguns documentos:

1. A Carta de Frei Elias - Escrito logo depois da morte de São Francisco, para anunciála a toda a Ordem, é um documento característico e importante. Está na edição das Vozes.

2. A Crônica de Jordão de Jano A edição das Vozes dá alguns trechos. É um documento pitoresco, sincero, interessante de ler e, mais do que tudo, muito fraterno. Quando o Capítulo de 1221 designou frades para a Alemanha, Jordão foi olhar por curiosidade os "futuros mártires" e o agregaram ao grupo. Testemunha um fato fundamental das origens.

3. A Crônica de Tomás de Eccleston - Também é uma gostosa história dos primeiros frades na Inglaterra, entre 1224 e 1258: paupérrimos mas muito fraternos.

4. A Crônica de Salimbene de Adam - Contemporâneo de São Boaventura, Salimbene se interessava por tudo e anota como um jornalista tudo que viu acontecer ao seu redor, em diversos lugares. Tem informações muito próximas de Francisco e seus companheiros através de frades que os conheceram.

Sacrum Commercium

Ainda que não tenha nenhuma contribuição para a biografia de São Francisco, este é um dos livros mais bonitos e interessantes das Fontes Franciscanas. O Sacrum commercium beati Francici cum domina Paupertate é uma obra literária de original valor teológico. Expressa um dos primeiros pensamentos fundamentais franciscanos sobre seu papel na Igreja.

Se nos baseássemos nas traduções italianas que vêm desde o sec. XIV, em que o livro aparece como "Mistiche nozze" a-presentaríamos a tradução: "Núpcias místicas de São Francisco com a Senhora Pobreza". Mas isso não expressaria o conteúdo do livro.

Commercium é um intercâmbio de mercadorias ou outros bens. Celano usa essa palavra em 1Cel 35, quando diz "Começaram a familiarizar-se (habere commercium) com a santa pobreza". Nossa tradução das Vozes diz: "iniciaram aí sua aliança".Em 2Cel 70, diz: "Há um trato (commercium) entre o mundo e os frades". A palavra pode significar até relacionamento sexual, mas uma boa tradução seria "A Sagrada Aliança" porque a figura típica do livro é a aliança bíblica entre Deus e o seu povo.

Sua autoria já foi atribuída a João Parenti, a Crescêncio de Iesi e a João de Parma, que foram ministros gerais. Também a Santo Antônio e a João de Peckham, bispo de York. Não se pode afirmar nada.

Também lhe deram a data de 1227, anterior à 1Cel, mas, na realidade, deve ter sido escrito entre 1260 e 1270. Ficou conhecido por ser citado no Arbor Vitae Crucifixi Iesu, de Clareno, e também por Dante, na Divina Comédia.

É uma alegoria. Os frades buscam a Pobreza e chegam a encontrá-la numa montanha em que vive abandonada. Ela conta sua história desde a criação do mundo até Cristo, depois desde Cristo até as Ordens religiosas, então decadentes. Depois, deixa-se convencer a ir fazer um banquete com os frades e fica feliz de estar com Francisco e seus companheiros. Espécie de representação cênica ou de auto sacramental.

Van Cornstanje começou a lê-la diferente, em 1964. Repassou, do ponto de vista teológico, as principais fontes franciscanas, dos escritos às legendas, procurando as passagens onde era mais evidente a idéia da aliança entre Deus e o povo dos pobres: os frades menores.

Viu-se, assim, que temos uma alegoria teológica da opção franciscana pela pobreza. Esser retomou a idéia, em 1966, e desenvolveu o significado bíblico-teo-lógico da obra na base da aliança salvífica. Desbonnets, em 1968, deixou claro que o autor não pode ser João de Parma e a data não pode ser 1227.

Sete dos 14 manuscritos que trazem o texto dizem que ele foi terminado em julho de 1227. Mas todos dependem de dois mais antigos (só um dá a data), hoje perdidos. Os estudiosos hoje, em geral, não aceitam essa data.

Ao ironizar o oratório, o claustro, a sala capitular, o refeitório, a cosinha, parece referirse a um tempo posterior, porque os franciscanos começaram a viver

uma vida de tipo claustral no tempo do ministro geral Haymo de Faversham (1240-44).

Não parece referir-se a uma polêmica dentro da Ordem, com leituras diferentes sobre a pobreza proposta na Regra, mas a uma luta da Ordem com opositores externos. Isso o leva para a década de 50 ou 60 no sec. XIII, quando a Ordem foi atacada pelo clero secular, e especialmente pelos professores de Paris.

No Sacrum Commercium, a Pobreza é esposa de Cristo. Francisco é um apaixonado por ela e a saúda como rainha das virtudes (cfr. 18, 23 e 64).

De fato, São Francisco não vê a Pobreza como sua esposa e sim como sua Dama ou Senhora, nos termos feudais. Pelo menos é o que encontramos em seus escritos, na Vida I de Celano e nos textos de origem leonina. Foram a Vida II de Celano e a Legenda Maior que começaram a usar essa imagem (2Cel 55.72.82, LM 7,1), vinte anos depois de Francisco.

O texto básico de Francisco sobre a pobreza é o Testamento. Nele, a pobreza é sempre concreta, não figurada: 1. Francisco se converte porque vai viver no meio dos leprosos; 2. os frades, antes de entrar, vendiam e davam tudo que tinham; 3. trabalhando com as próprias mãos, partilhavam a vida dos pobres. Para Francisco, a pobreza é uma virtude de Jesus Cristo: para ele, não é uma virtude, é um programa.

No Sacrum Commercium, em vez, a perspectiva é teológica: 1. Francisco bus-ca a pobreza porque foi a ela que Deus deu a chave do Reino dos Céus; 2. a po-breza aparece como uma virtude que, por si, não requer a participação na vida dos pobres (ver 5,4 "constituída rainha de todas as virtudes).

Francisco dialoga com a Pobreza (5-6), desenvolvendo uma teologia absolutamente pauperista. A Pobreza fundamenta sua dignidade no fato de ser esposa de Cristo. Evoca episódios em que sempre foi companheira de Cristo. E Cristo a confirma quando sobe ao céu.

A Pobreza reconstroi a história da salvação desde Adão através da história da fidelidade ou da traição do povo para com ela. Adão era o pobre por excelência, que até vivia sem roupa. Mas, na Igreja, o que importa é a pobreza comunitária, não apenas pessoal.

O livro apresenta muitos juizos severos e mesmo temerários. Pressupõe uma teologia pauperista que, certamente foi vivida por Francisco, ainda que ele não a tenha expressado.

A análise da Igreja a partir da pobreza é interessante, mas, será que Francisco teve esse "programa"?

É interessante confrontar a alegoria do Sacrum Commercium com os fatos mais marcantes do encontro da Pobreza por parte de Francisco: com os leprosos, com os pobres, contando ao Papa a parábola da moça pobre do deserto e se identificando com ela, contando o sonho em que viu uma estatua belíssima de uma mulher vestida de trapos, encontrando no caminho três moças pobrezinhas que o saúdam como "Senhora Pobreza" (uma teofania feminina que lembra a visita dos três anjos a Abraão em Mambré) .

J. Bórmida apresentou um interessan-te estudo do Sacrum Commercium em seus livros "La no propiedad" e "Eclesiologia Franciscana".

Sem dúvida, os irmãos e irmãs de Francisco e Clara têm uma colaboração muito própria a dar no Povo de Deus.

A "Questão Franciscana"

As Fontes Franciscanas estão envolvidas em um aceso acontecimento que se chamou "Questão Franciscana" e ocupou todo o começo do nosso século.

Quem a começou foi o pastor calvinista Paulo Sabatier. Encarregado por seu mestre, o famoso literato Ernesto Renan, de continuar seus estudos sobre Francisco de Assis, Sabatier, que se preparou muito bem, já chamou a atenção de todo o mundo ocidental quando publicou, em 1895, sua "Vida de São Francisco".

Em 1898, quando apresentou uma edição cientificamente bem preparada do "Espelho da Perfeição", levantou a "Questão Franciscana". Ele estava partindo de um documento que encontrara em um códice antigo da biblioteca Mazzarino, em Paris, e a que dera o nome de Legenda Antiquíssima.

O fato é que Sabatier amava São Francisco mas não aceitava a Igreja Católica. Atribuindo o Espelho de Perfeição ao ano de 1227, dizia que Celano escrevera sua obra para contradizer essa legenda, mais antiga e mais genuina que a dele.

Também dava um valor especial à Legenda dos Três Companheiros e ao Sacrum Commercium, mas não aceitava as Legendas de São Boaventura. Concretamente, despertou o interesse pelo valor dos testemunhos de Frei Leão e outros companheiros de Francisco na primeira hora. Tudo isso foi altamente benéfico porque movimentou os estudiosos para descobrir praticamente tudo que conhecemos atualmente sobre São Francisco e sobre seu movimento nos primeiros tempos.

Os últimos anos do sec. XIX e o começo do sec. XX, até o início da guerra mundial de 1914 foram fecundíssimos.

Em 1900, o bolandista Van Ortroy critica severamente a Legenda dos Três Companheiros, que mostra ser um "pastiche" de outros documentos, dependente da Vida II de Celano e cheirando até influência da Legenda Maior.

No mesmo ano, aparece outra cópia do Espelho da Perfeição, a do códice Ognissanti, que já dá uma data mais aceita, 1318.

Em 1901, Lemmens publica uma versão mais curta e, segundo ele, mais antiga, do Espelho da Perfeição. A partir daí, encontramse documentos franciscanos antigos numa média de quase um por mês. Em 1904, saem as primeiras edições críticas dos Escritos de São Francisco, certamente a base mais confiável para conhecer seu verdadeiro pensamento.

Mas é bom lembrar que o conhecimento das obras de Celano era recente e o Tratado dos Milagres tinha sido encontrado naquele tempo, como o Anônimo Perusino, as Crônicas de Tomás de Eccleston, de Jordão de Jano e de Salimbene de Adam. A Legenda de Perusa só viria a ser conhecida depois da grande guerra.

Mas a grande questão não era simplesmente descobrir e conhecer fontes novas: o problema era avaliar qual o seu grau de credibilidade, qual o relacionamento de umas com as outras, por que nasceram e as circunstâncias históricas do primeiro século franciscano em que elas foram aparecendo.

Para os franciscanos e franciscanas de hoje, fica até difícil imaginar que idéia se podia fazer de São Francisco quando a maior parte dos seus escritos eram desconhecidos, quando não se podia ler Celano ou uma Legenda Perusina, quando as informações históricas sobre o seu tempo eram quase nulas, quando o santo que todos admiravam e a quem rezavam era o dos Fioretti ou o que tinha sido representado nas igrejas a partir da leitura assídua da Legenda Menor.

Hoje, não se fala mais em "Questão Franciscana". Ela produziu numerosos frutos e nos deixou muitos desafios: o maior é refazer uma história franciscana protagonizada não só pelos frades menores mas também pelas Irmãs da segunda e da terceira Ordem, pelos Irmãos da Ordem Terceira Regular e Secular.

O maior valor da "Questão Franciscana" foi despertar-nos para um espírito crítico no estudo das Fontes.

Os primeiros biógrafos, de fato, mesmo tendo sido testemunhas diretas dos fatos narrados, foram condicionados por muitos fatores, como: as vidas de santo que estavam na moda, a mentalidade devota e preocupada em edificar, a intenção de atualizar o protagonista conciliando o ideal primitivo com a realidade do momento em que estavam vivendo, com todos os seus problemas.

Alguns dos "companheiros"parecem presos à primitiva experiência franciscana e toda evolução lhes parece traição. Mas a história é viva e não pode parar. Muitas coisas mudam depressa mesmo na história franciscana. E também as fontes se ressentem dessas mudanças.

Para serem mais incisivos, os hagiógrafos servem-se de tudo que é eficaz e popular: elementos literários, litúrgicos, homiléticos, simbólicos, lendários. Não interessa tanto a história objetiva, de fatos, quanto a eficácia da mensagem. Essa metodologia didática foi adotada por escritores, educadores, pregadores, pais, etc.

Talvez possamos enumerar alguns princípios práticos para ler as Fontes:

1. Para conhecermos o autêntico São Francisco, nada se compara aos seus Escritos, hoje reconhecidos como autênticos e publicados em edições críticas. Mas é preciso saber le-los, pois foram escritos oito séculos atrás, em outro país.

2. O elemento mais seguro que temos, hoje, para interpretar São Francisco, é o conhecimento de Santa Clara e de seus escritos.

3. Não basta conhecer Francisco. Ele não caiu do céu como um meteorito: faz parte dos movimentos penitenciais que o precederam e só se entende dentro da história do movimento franciscano.

4. Todas as biografias devem ser lidas com espírito crítico e conhecimento das circunstâncias em que surgiram. Seu enorme valor não está só no que informam, mas talvez até mais no que os autores nos transmitem inconscientemente.

5. Tomás de Celano, lido também com todo cuidado crítico, tem adquirido cada vez maior credibilidade na medida em que vai sendo conhecido.

6. Os testemunhos de Frei Leão e outros companheiros do santo é preciosíssimo. Mas é preciso garimpá-los como pequenas pepitas de ouro no meio de muita areia.

7. O melhor conhecimento que se pode adquirir sobre São Francisco e o seu movimento é com o coração: buscando a transformação da própria vida.