LEGENDA MAIOR

(Vida de São Francisco de Assis)

São Boaventura

parte terceira

ALGUNS MILAGRES REALIZADOS APOS A MORTE DE SÃO FRANCISCO

 1. O poder dos estigmas

1. Cabendo-me narrar, para honra e glória de Deus onipotente e do bem-aventurado Pai Francisco, alguns dos milagres aprovados, que sucederam após sua glorificação no céu, julguei necessário principiar com aquele que mais do que qualquer outro revela o poder da cruz de Cristo e renova a sua glória. Homem novo e celestial, brilhou Francisco com um milagre novo e estupendo, ao ser distinguido com um privilégio jamais concedido a criatura humana antes dele: a impressão dos sagrados estigmas que conformava seu corpo mortal ao do Crucificado. Tudo o que se possa dizer com a língua de um mortal a respeito desse prodígio estará sempre aquém daquilo que exige o mérito de seu louvor. Todo o esforço do santo, em público como em particular, era pensar na cruz do Senhor. E a fim de marcar exteriormente seu corpo com o sinal da cruz, que desde o princípio de sua entrega total ao Senhor levava impressa no coração, quis, encerrar-se na própria cruz, vestindo-se com o hábito de penitência feito em forma de cruz, para que, assim como em seu espírito ele se havia revestido interiormente de Cristo, assim também seu corpo se fortificasse com as armas da cruz, e para que o exército de Francisco militasse sob aquela gloriosa insígnia com que o invicto chefe Cristo havia triunfado sobre os poderes infernais. Com efeito, desde aquele primeiro instante em que o santo decidiu militar sob o estandarte do Crucificado, começaram a realizar-se nele os grandes mistérios da cruz, como claramente pode compreender todo aquele que considere com atenção toda a sua vida em que foi mudando completamente seus pensamentos, ações e afetos e. por impulso de seu amor seráfico, se transformou em imagem perfeita do Crucificado por força das repetidas aparições da cruz. A misericórdia divina condescendeu, pois, com seu servo Francisco, tal como faz com os demais que de fato o amam, e imprimiu no corpo do santo o sinal da cruz, para que aquele que havia sido prevenido com amor tão intenso à cruz também se tornasse admirável pela honra maravilhosa que a própria cruz havia de proporcionar.

2. A fim de afastar qualquer sombra de dúvida e comprovar a autenticidade desse milagre estupendo e inconteste, aí estão não só os testemunhos absolutamente dignos de fé daqueles que viram e tocaram as chagas do santo, mas também as admiráveis aparições e prodígios, ocorridos depois da sua morte. O Papa Gregório IX, de feliz memória, a quem o santo profetizara a eleição à cátedra de São Pedro, nutria em seu coração, antes de canonizar ao porta-estandarte da cruz, algumas dúvidas a respeito da chaga do lado. Uma noite, porém, como ele mesmo referia entre lágrimas, apareceu-lhe em sonhos o bem-aventurado Francisco, mostrando na fisionomia certa amargura e repreendendo-o por causa da dúvida que alimentava em seu coração, levantou o braço direito, descobriu a chaga e pediu-lhe que chegasse com uma taça para nela receber o sangue que dela brotava. O papa aproximou da chaga a taça, a qual parecia encher-se até às bordas de sangue que corria em abundância. Desde então nutriu tal devoção a esse extraordinário milagre e sentiu tanto zelo por ele, que de nenhum modo podia consentir que alguém se atrevesse a impugnar com temerária ousadia aquelas chagas benditas sem repreendê-lo com grande severidade.

3. Certo irmão, menor pela profissão, pregador por ofício e eminentíssimo pelas famas das suas virtudes, acreditava firmemente na realidade dos estigmas. Mas procurando em si uma explicação para esse milagre segundo a lógica humana, sentiu nascer em si uns vislumbres de dúvida. Sentindo-se abatido por muitos dias com essa luta e incerteza por ter a sensualidade aumentado, apareceu-lhe em sonho o bem-aventurado Francisco com os pés enlameados, humilde e severo, paciente e irado. E disse-lhe: "Que incertezas são essas que te afligem e que dúvidas são estas que te molestam? Vê minhas mãos e meus pés". Mas, embora visse as mãos chagadas, não podia ver as chagas dos pés por causa do lodo que as cobria. Então lhe disse o seráfico Pai: "Tira o lodo de meus pés e poderás contemplar a ferida produzida pelos cravos". O irmão tomou em suas mãos os pés e parecia-lhe que realmente estava separando deles a lama e que estava tocando com as próprias mãos os cravos. Logo que despertou daquele sonho, começou a chorar amargamente e purificou, não só com suas lágrimas copiosas mas também com a confissão pública de suas dúvidas, os primeiros afetos de sua alma, de certa forma prejudicados pelo lodo da incredulidade.

4. Havia na cidade de Roma uma senhora, nobre pela pureza de seus costumes e por suas raízes ancestrais. Ela escolhera São Francisco como seu advogado e tinha um quadro dele em seu quarto, onde orava a Deus em segredo. Certo dia ao orar, olhou ela com atenção a imagem do santo e não viu nenhum sinal dos estigmas. Ficou surpreendida e contrariada. Na verdade não havia motivo nenhum para ficar surpresa, pois o artista havia omitido as chagas. Por alguns dias esteve ela ponderando qual teria sido a razão daquela omissão. Um dia, porém, os estigmas apareceram de repente no quadro, tal como aparecem em outras pinturas do santo. Ficou atemorizada e imediatamente chamou a filha, que também era muito religiosa, e perguntou-lhe se os estigmas realmente estavam no quadro anteriormente. Ela respondeu que não e jurou que os estigmas tinham sido omitidos e que agora aí estavam. No entanto, muitas vezes acontece que o coração humano arma uma cilada para si mesmo pondo em dúvida a verdade. E foi o que aconteceu a ela: começou com incertezas e vacilações, duvidando se a imagem já não estaria com as chagas desde o início. Mas o poder de Deus acrescentou mais um milagre, para que não ficasse desprezado o primeiro. De repente desapareceram aquelas chagas, ficando o quadro desprovido de tão singular privilégio, para que pelo prodígio seguinte ficasse o anterior perfeitamente confirmado.

5. Aconteceu também na cidade de Lérida, na Catalunha, que certo homem chamado João, muito devoto de São Francisco, andava por um caminho ao anoitecer, quando lhe saíram ao encontro uns homens com intenção de matá-lo, não precisamente a ele, que não tinha inimigos, mas a um outro que lhe era muito parecido e costumava andar em sua companhia. Aproximando-se um dos homens que estavam ocultos, pensando ser seu inimigo, causou-lhe tão graves ferimentos, que o deixou sem esperança alguma de recuperar a saúde, pois ao primeiro golpe que lhe deu, quase lhe cortou o braço à altura do ombro, e o outro golpe lhe causou tão profunda ferida no peito, que o ar que por ali escapava bastou para apagar a luz de seis velas que ardiam juntas.

Os médicos estavam convencidos de que ele não poderia salvar-se porque, tendo gangrenado, a ferida exalava um mau cheiro tão intolerável, que a própria esposa mal agüentava. Nem havia remédio humano que pudesse aliviar-lhe a dor. Então recorreu a São Francisco pedindo sua intercessão tão fervorosamente quanto pôde. E mesmo quando atacado, recomendara-se a ele e à Santíssima Virgem. Enquanto estava deitado sozinho em seu leito de dor, perfeitamente consciente e repetindo o nome de Francisco continuamente, entrou pela janela um homem vestido do hábito franciscano e se pôs a seu lado. Assim lhe pareceu. A visão lhe falou, chamando-o pelo nome: "Tiveste confiança em mim e por isso Deus te há de curar". Quando o homem lhe perguntou quem era ele, disse que era Francisco e logo se inclinou para ele e desatou-lhe as feridas. Em seguida, parecia untá-las com ungüento. Logo que sentiu o suave contato daquelas mãos, que por virtude das chagas do Senhor tinham força para restituir a saúde, desapareceu a gangrena, sua carne ficou sã e cicatrizaram-se as feridas, voltando ao estado de perfeita saúde de que anteriormente gozava. Depois disso desapareceu São Francisco. Ao perceber que tinha sido curado, João chamou a esposa e prorrompeu alegre em louvores a Deus e a seu santo servo Francisco. Ela veio correndo e ao ver de pé seu marido, que supunha ter que enterrar no dia seguinte, ficou amedrontada, e com seus clamores chamou a atenção de toda a vizinhança. Quando as pessoas da família chegaram, tentaram reconduzir João para a cama, pensando que estivesse louco, mas ele não quis ouvir a ninguém, procurando explicar-lhes que estava curado. Tão grande foi o pavor que os dominou, que ficaram como fora de si, parecendo-lhes estar vendo um fantasma, pois aquele a quem há pouco haviam contemplado cheio de chagas e mais ou menos já corrompido, apresentava-se a eles agora alegre e completamente restabelecido. "Não temais, disse-lhes. "Não penseis que estais vendo fantasma. São Francisco acaba de sair daqui e foi ele quem curou todas as minhas chagas com o contato de suas santas mãos". Divulgada a fama desse milagre, reuniu-se todo o povoado e. reconhecendo nesse estupendo prodígio a virtude das santas chagas de Francisco, ficaram todos cheios de admiração e alegria e com grandes manifestações aclamavam e bendiziam o porta-estandarte de Cristo.

Francisco levou os estigmas de Cristo, que por nós morreu em sua grande misericórdia e ressuscitou milagrosamente dos mortos e pelo poder de suas chagas curou o gênero humano que tinha sido ferido e estava semimorto. Era justo, portanto, que aquele que morrera para este mundo e vivia com Cristo curasse um homem ferido aparecendo-lhe milagrosamente e tocando-o com suas mãos.

6. Em Potenza, na Apúlia, havia um clérigo de nome Rogério, homem respeitável e cônego da igreja maior. Encontrando-se aflito por causa de uma enfermidade, e tendo certo dia entrado na igreja na qual existia um quadro do seráfico Pai, representado com as sagradas chagas, começou a duvidar daquele estupendo milagre, como de coisa praticamente impossível por seu caráter extraordinário, quando, de repente, ao discorrer em seu espírito sobre essas dúvidas, sentiu como se alguém o ferisse gravemente na palma da mão esquerda que tinha, coberta com uma luva, ouvindo ao mesmo tempo o ruído do golpe, semelhante ao que produz a seta ao sair da balista. Estava atônito ao ouvir o som e sentiu a mão doer. Tirou a luva para ver com seus próprios olhos o que ele havia percebido pelo ouvido e pelo tato. Não havia nem sequer sinal de ferimento em sua mão anteriormente, mas no meio da palma da mão viu uma fericla como se tivesse sido feita por uma seta. A dor era tão intensa, que ele pensou que ia desfalecer. E o estranho é que não se via sinal algum de ferida na luva. A dor de uma ferida que lhe tinha sido infligida sem deixar sinal era o castigo pela ferida oculta da dúvida que ele nutria em seu coração. Aguilhoado pela terrível dor, passou dois dias gritando e dizendo às pessoas o quanto tinha sido descrente. Firmou sua fé nos sagrados estigmas de Francisco e jurou não haver mais nem sombra de dúvida na alma. E humildemente rogou ao santo que o ajudasse por suas santas chagas, acompanhando sua oração com abundantes lágrimas. E tendo ele renunciado à incredulidade, seguiu-se à saúde interior do espírito a cura definitiva da mão. Desapareceu a dor, não mais lhe ardeu a palma da mão e já não havia mais sinal sequer do ferimento. Por providência divina o mal oculto em sua alma estava curado, havendo-se-lhe cauterizado visivelmente a carne, e uma vez curada a alma, também curado estava o corpo. Dessa forma aquele cônego tornou-se mais humilde, consagrou-se mais intensamente ao Senhor e cresceu nele o amor a Francisco juntamente com a íntima familiaridade e benevolência para com os irmãos. Esse milagre tão estupendo foi testemunhado por muitas pessoas sob juramento e o bispo dele fala em carta selada com seu sinete episcopal. Não tem lugar, portanto, a menor dúvida acerca das sagradas chagas; ninguém as considere tampouco com prevenção culposa, pois Deus é infinitamente bom, nem se julgue que a realização de semelhante prodígio não esteja em conformidade com sua bondade. Muitos membros do corpo de Cristo unem-se à sua cabeça com o mesmo amor seráfico que Francisco e por isso são dignos de usar a mesma armadura na batalha e serão elevados à mesma glória no céu. Nenhum desses membros deixaria de reconhecer que tais milagres se deram para honra e glória de Cristo.

II. Alguns mortos que ressuscitaram

1. Em monte Marano, perto de Benevento, morrera uma senhora muito devota de São Francisco. A noite veio o clero celebrar-lhe as exéquias e cantar o oficio dos mortos, quando, de repente, à vista de todos os presentes, levantou-se a senhora do leito e chamou um dos sacerdotes, que era seu padrinho, e disse-lhe: "Padre, desejo confessar-me: ouve os meus pecados. Depois de minha morte devia ser encerrada num cárcere tenebroso, porque nunca havia confessado o pecado que te vou contar; mas tendo o bem-aventurado Francisco orado por mim, pois eu era muito devota dele em vida, me foi concedido que a alma voltasse a unir-se ao corpo, a fim de que, manifestado em confissão o pecado, mereça eu alcançar a vida eterna; e por isso, depois de confessar minha falta à vista de todos vós, irei ao descanso prometido". O sacerdote amedrontado recebeu a confissão contrita daquela senhora, que, depois de absolvida, estendeu-se novamente em seu leito e adormeceu na paz do Senhor.

2. Na aldeia de Pomarico, nas montanhas da Apúlia, um pai e uma mãe tinham uma filha bastante nova a quem amavam extremamente. Caiu ela de cama muito doente e faleceu. Seus pais, que não tinham nenhuma esperança de terem outro filho, julgavam que iriam morrer com ela. Reuniram-se seus amigos e parentes para realizar os funerais tão dignos de pranto. Mas a mãe infeliz, cheia de indizível dor e mergulhada numa tristeza infinita, parecia estar fora de si. No entanto, São Francisco, em companhia de um só irmão, dignou-se visitar com uma visão a desolada senhora, que bem conhecia como sua devota. E falou-lhe amavelmente: "Não chores, pois a luz de tua vida, que lamentas como perdida, ser-te-á restituída por minha intercessão". Levantou-se então a senhora imediatamente e contando a todos o que o santo lhe dissera, proibiu que se realizasse o sepultamento da falecida; em seguida, invocando com grande fé o nome de São Francisco, tomou a mão da filha morta e a fez levantar viva, sã e salva, para grande espanto de todos.

3. Certa vez os irmãos de Nocera (Úmbria) precisavam de uma carroça e pediram-na emprestada por algum tempo a um certo Pedro. Mas este os insultou e blasfemou contra o santo, em vez de atender ao pedido de uma esmola feita em nome de Francisco. Logo se arrependeu o homem do que fizera, porque Deus lhe fez sentir em seu coração o medo de sua vingança, que, aliás, não tardou a vir. De fato, seu filho mais velho adoeceu de repente e em pouco tempo morreu. Revolvia-se no chão o infeliz pai e não cessava de invocar a São Francisco, o santo de Deus, gritando e chorando: "Eu é que pequei, eu é que falei tão impiamente: deverias punir-me diretamente, na minha própria pessoa. Ó santo, agora que estou arrependido, restitui-me o que me levaste, quando eu blasfemava como ímpio! Consagro-me a ti, submeto-me para sempre a teu serviço e sempre oferecerei a Cristo um devoto sacrifício de louvor para honra de teu nome!" A essas palavras, levantou-se o menino e havendo acalmado o pranto do pai, contou que ao separar-se sua alma do corpo, foi acolhida pelo bem-aventurado Francisco e devolvida ao corpo.

4. O filho de sete anos de um notário em Roma desejava seguir a mãe, que estava indo à igreja de São Marcos; mas, obrigado pela mãe a ficar em casa, atirou-se pela janela na rua. Quebrou a cabeça e morreu no local. Ainda não se encontrava a muita distância a mãe, quando, ao ouvir o baque do corpo do filho que caíra, voltou às pressas, encontrando-o morto. Começou então a recriminar-se e com seu comovido pranto movia à compaixão a todos os vizinhos. Ao mesmo tempo chegou à cidade para pregar um irmão chamado Raho, da Ordem dos Frades Menores. Este aproximou-se do menino e perguntou confidencialmente ao pai: "Acreditas que São Francisco possa ressuscitar teu filho pelo amor que ele tinha a Cristo que restituiu a vida aos homens por sua cruz?" O pai respondeu que ele acreditava e estava disposto a confessar esta fé e consagrar-se para sempre ao serviço do santo, se por sua intercessão chegasse a alcançar um favor tão extraordinário. O irmão e seu companheiro puseram-se em oração exortando aos circunstantes que fizessem o mesmo. Terminada a oração, notou-se algum movimento no cadáver; o menino abriu os olhos, levantou os braços, sentou-se no leito e, saindo daí, começou a andar em presença de todos com perfeita saúde em virtude do poder milagroso do santo.

5. Na cidade de Cápua, um menino que brincava com um grupo de outros às margens do rio Volturno caiu na água. A corrente o arrastou para baixo imediatamente e o enterrou no fundo, debaixo da areia e da lama. As crianças que com ele brincavam começaram a gritar e logo se ajuntou uma multidão de pessoas em volta. Humilde e devotamente invocaram a intercessão de São Francisco para que considerasse favoravelmente a fé que tinham os pais da criança, seus devotos, e a salvasse da morte. Então um homem que estava nadando a certa distância, ouviu as vozes comovidas daquelas pessoas, aproximou-se delas e perguntou onde havia desaparecido o menino. Invocou o nome de Francisco e enfim descobriu o lugar onde o lodo fizera uma espécie de túmulo para a criança. Puxou-o para fora e tirou-o da água, mas para sua tristeza viu que estava morto. Todos podiam ver que ele estava morto, mas continuavam clamando entre lágrimas: "São Francisco, devolve o menino vivo a seu pai". Inesperadamente, o menino pôs-se de pé para grande alegria e espanto geral. Pediu que o levassem à igreja de São Francisco para agradecer-lhe o grande favor porque por sua força sabia agora que havia recuperado a vida milagrosamente.

6. Em Sessa. num bairro chamado Alle Colonne, ruiu uma casa, sepultando nos escombros um jovem que faleceu no mesmo instante. O povo que ouvira o ruído acorreu de toda parte. removeu as vigas e pedras retirando de lá o corpo do filho morto e entregou-o à sua mãe. Mas a infeliz suspirava amargamente e clamava: "São Francisco, São Francisco, devolve-me o filho!" Os circunstantes junto com ela rogavam o socorro do santo, mas a vítima não abria a boca nem dava sinal de vida. Então depuseram o cadáver num leito e se prepararam para enterrá-lo no dia seguinte. Sua mãe, porém, punha sua confiança em Deus e nos méritos do seu santo e prometeu que cobriria o altar de São Francisco com toalhas novas, se ele restituísse a vida a seu filho. Então, por volta de meia-noite, o jovem começou a bocejar, o corpo foi se aquecendo, ele se levantou e começou a louvar a Deus. Deu assim ensejo ao clero e a todo o povo de louvar a Deus e agradecer a Ele e a São Francisco com toda a alegria.

7. Um jovem de Ragusa, chamado Gerlandino, tinha ido à vinha em tempo de vindima para encher seus odres em um lagar. De repente, todo o madeirame cedeu e desabou. As pesadas pedras caíram por cima dele esmagando-lhe a cabeça fatalmente. O pai correu logo, mas, perdida toda a esperança, nada pôde fazer para socorrê-lo; e deixou-o lá onde havia caído debaixo daquele peso. Acudiram pressurosos os trabalhadores de uma vinha perto, atraídos pelos gritos que ouviram, e, compadecidos também tal como o pai do rapaz, retiraram o cadáver dentre aquelas pedras. Entretanto, o pai, prostrado aos pés de um crucifixo, lhe pedia instantemente que, pelos méritos do bem-aventurado Francisco, cuja festa estava próxima, lhe devolvesse vivo o único filho que tinha; repetia suas preces, fazia promessas e, não contente com isso, prometeu visitar com seu filho o sepulcro do santo se ele voltasse a viver. De repente, o jovem cujo corpo estava todo esmagado se reanimou e voltou à sua perfeita forma física. Levantou-se diante de todos, alegremente, e reprovou as lamentações por sua morte, dizendo que havia sido restituído à vida pelas preces de São Francisco.

8. São Francisco também ressuscitou um homem na Alemanha, como atesta o Papa Gregório numa carta apostólica dirigida aos irmãos que haviam acorrido a um capítulo no tempo em que o santo teve seus restos mortais trasladados. Não incluo o relato aqui porque o ignoro, julgando que o testemunho do papa vale muito mais do que qualquer descrição.

III. Alguns que São Francisco salvou do perigo da morte

1. Vivia perto de Roma um nobre de nome Rodolfo com sua mulher, muito devota, os quais receberam certa vez em sua casa alguns irmãos menores, não apenas por espírito de hospitalidade, mas particularmente por seu amor e devoção ao santo. Naquela mesma noite descansava no mais alto ponto da torre a sentinela do castelo sobre um monte de lenha colocado sobre o ressalto do muro, quando se desfez o monte e ele caiu sobre o telhado do palácio e daí no chão. Ao ruído, toda a família despertou e, sabendo da desgraça da sentinela, o senhor do castelo, sua esposa e os irmãos acudiram rápidos em seu auxílio. Mas o infeliz estava com tanto sono, que não despertou com a dupla queda nem com o clamor de toda aquela família desconsolada. Acordando, enfim, pelos movimentos dos que o levavam e moviam de um lado para o outro, começou a queixar-se amargamente de ter sido privado de seu suave repouso, dizendo que se encontrava dormindo tranqüilamente nos braços de São Francisco. Mas vindo a saber pelos circunstantes de sua queda e vendo-se em terra, ele que se achava no mais alto da torre, ficou muito admirado por não se ter dado conta do que lhe sucedera; e como prova de seu agradecimento a Deus e a São Francisco, prometeu, em presença de todos, consagrar-se aos rigores da penitência.

2. Numa pequena aldeia chamada Pofi, na Campânia, um sacerdote chamado Tomás estava consertando o moinho de propriedade da igreja. Caminhando incautamente ao longo do conduto da água, por onde esta se precipitava com grande força, formando um sorvedouro profundo, caiu de repente e ficou preso entre as pás da roda que fazia girar o moinho. Deitado assim com o ventre para cima, caíam-lhe as águas sobre a boca. Não podendo abri-la, invocava com o coração o nome de Francisco. Muito tempo ficou nessa posição, até que seus companheiros, que acudiram ao lugar do acidente, desesperaram de poder salvar-lhe a vida, embora fizessem a roda girar para trás. Com isso conseguiram livrá-lo daquela espécie de prisão, mas o sacerdote, quase asfixiado, revolvia-se na corrente das águas. Entretanto, um irmão menor, vestido de branca túnica e cingido de uma corda, tomou-o suavemente pelo braço e. tirando-o para fora da água, lhe disse: "Eu sou Francisco, a quem com tanta fé invocaste". Vendo-se livre o sacerdote, admirou-se muito e desejando beijar as pegadas dos pés de Francisco, corria de um lado para outro, perguntando a seus companheiros: "Onde está o servo de Deus? Por que lugar andou o santo? Por que caminho saiu?" Atemorizados, os companheiros caíram de joelhos no chão, anunciando as grandes maravilhas do Altíssimo e os extraordinários méritos de seu servo.

3. Alguns jovens de Celano tinham ido cortar pasto num campo, onde havia um velho poço cuja boca estava coberta de mato abundante. Tinha mais ou menos quatro metros de profundidade. Andavam trabalhando separadamente pelo campo, quando um deles repentinamente caiu no poço. Mas enquanto seu corpo descia àquelas profundezas, seu espírito subia invocando a proteção de São Francisco. E já ao sair gritava: "São Francisco, socorro!". Todos os outros, não o vendo mais, começaram a procurá-lo por toda parte,. gritando e chorando. Quando descobriram que ele havia caído no poço, correram a comunicar o acidente e pedir socorro. E voltaram com muita gente. Um homem desceu ao fundo do poço atado com uma corda e viu o jovem sentado tranqüilamente sobre as águas, sem o menor ferimento. Tirado com grande facilidade daquele lugar, disse aos circunstantes: "Quando caí tão inesperadamente, invoquei o auxílio de São Francisco, o qual logo me apareceu em pessoa e. estendendo a mão, tomou-me com grande cuidado e não me abandonou até que juntamente convosco me tirou do poço".

4. Na igreja de São Francisco de Assis, enquanto o bispo de Óstia, que seria mais tarde Alexandre IV, estava pregando diante da Cúria Romana, uma grande pedra, deixada por descuido no púlpito que era muito alto, desprendeu-se repentinamente e caiu em cima da cabeça de uma senhora. Julgando os presentes que ela estava morta por causa da violência da pancada e que tinha a cabeça esmagada, cobriram-na com o manto que ela levava, dispostos a levar para fora da igreja aquele cadáver, logo que terminasse o sermão. Entretanto, ela se encomendava a São Francisco, diante de cujo altar se encontrava. E quando terminou a pregação, a mulher se levantou em presença de todos sã e salva, não encontrando-se nela nenhum sinal de lesão física. E o mais curioso é que as dores de cabeça contínuas de que sofria até então cessaram definitivamente, como ela mais tarde atestou.

5. Em Corneto, estavam reunidas diversas pessoas devotas num lugar próximo ao convento dos irmãos para presenciar a fundição de um sino, e um menino de oito anos, chamado Bartolomeu, ocupava-se em levar material aos irmãos que trabalhavam. Levantou-se um furacão que fez tremer a casa e arremessou com tanta força uma das pesadas portas sobre a criança que, vendo-a debaixo daquele enorme peso, todos julgavam.na morta, pois não aparecia dela nenhuma parte do corpo oculto atrás daquela carga pesadíssima. Acorreram todos para socorrê-la, invocando ao mesmo tempo a poderosa intercessão de São Francisco. O próprio pai da criança, que por ter os membros tolhidos não podia mover-se por causa da dor, oferecia em altas vozes seu filho a São Francisco, fazendo-lhe várias promessas. Removeram, por fim, não sem grande labuta, a pesada porta que esmagava o menino. E para admiração de todos, lá estava o pequeno, muito alegre, como se houvesse despertado de um suave sono, sem apresentar no corpo a menor lesão. Aos quatorze anos, o menino miraculado entrou na Ordem e foi homem de grande saber e pregador eloqüente.

6. Em Lentino, alguns homens cortaram no monte uma grande pedra que devia ser colocada sobre o altar de uma igreja dedicada a São Francisco e que em breve seria consagrada. Uns quarenta homens procuraram colocar a pesada pedra em certa carroça para transportá-la ao lugar apropriado. Infelizmente, depois de tantos esforços, caiu a pedra sobre um dos homens que ficou debaixo daquele enorme peso. Perplexos e totalmente confusos, não sabiam os trabalhadores o que fazer. E a maior parte fugiu desesperada. Só dez tiveram coragem de ali permanecer e com voz lastimosa invocaram a proteção de Francisco, rogando-lhe que se compadecesse da desgraça daquele homem que trabalhava para honra dele. Animados e confiantes, removeram com tanta facilidade a pedra, que logo se percebeu que ali interviera a virtude milagrosa do santo. Logo se levantou aquele homem sem nenhum dano físico. Aliás, até mesmo recuperou uma das vistas, que antes estava quase cega. Manifestou-se assim claramente que a intercessão de São Francisco é eficaz ainda mesmo nos casos mais desesperadores.

7. Em São Severino, povoado da Marca de Ancona, ocorreu prodígio semelhante. Levavam muitos homens uma grande pedra trazida de Constantinopla para a basílica de São Francisco, com grande esforço físico, quando ela caiu sobre um dos homens. Tão violento foi o golpe, que os companheiros pensaram que ele tivesse sido esmagado e morto. Mas, por favor do bem-aventurado Francisco, que o livrou daquele enorme peso, saiu são e sem a mínima lesão corporal.

8. Bartolomeu, cidadão de Gaeta, trabalhava com muito empenho na construção de uma igreja em honra de São Francisco, quando desgraçadamente lhe caiu no pescoço uma grande viga mal colocada, esmagando-o e deixando-o gravemente ferido. Sabendo estar iminente a morte e sendo homem fiel e de grande piedade, pediu a um irmão que lhe administrasse o santo viático. Mas, parecendo ao irmão que a urgência do caso não dava tempo para isso, pois pensava estar bem perto a morte, aproximou-se do enfermo e lhe sugeriu estas palavras de Santo Agostinho: "Crê e já comungaste". À noite, apareceu-lhe São Francisco com outros irmãos, trazendo um cordeirinho nos braços. Colocou-o junto ao doente, chamou-o por seu nome dizendo: "Bartolomeu, não temas, porque não poderá prevalecer contra ti o inimigo que pretendia inutilizar-te em meu serviço. Este é o Cordeiro que pedias e recebes pelo teu bom desejo e que por sua virtude te concede a saúde do corpo e a da alma". E tomando o ferido com suas mãos chagadas, o conduziu são e salvo ao trabalho onde antes estava ocupado. Bartolomeu levantou-se muito cedo e aparecendo alegre e são aos que pouco antes o haviam visto meio morto, encheu-os de espanto e admiração, inflamando seus corações em reverência e amor ao seráfico Pai, não só com seu exemplo, mas também com o milagre do santo que acabavam de presenciar.

9. Certo dia, um homem chamado Nicolau, de Ceprano, caiu nas mãos de seus inimigos. Estes o crivaram de ferimentos de tal forma que lhes parecia bem morto. Mas Nicolau, ao receber o primeiro golpe, exclamara em alta voz: "São Francisco, socorro! São Francisco, socorro!" Ouviram estas palavras muitos que estavam à distância, mas não puderam socorrê-lo. Levado por fim à sua casa e todo ensangüentado, afirmava cheio de confiança que não morreria em conseqüência daquelas feridas e que no momento não sofria nada porque São Francisco lhe estava prestando socorro e havia conseguido de Deus a vida para fazer penitência. Confirmou-se tudo isso em breve, pois uma vez que lhe lavaram aquele sangue, levantou-se ele completamente curado, contra toda expectativa dos presentes.

10. Em São Geminiano, havia um nobre que tinha um filho tão gravemente enfermo que, perdida toda a esperança, parecia nos últimos momentos de vida. Saía de seus olhos um fio de sangue, como acontece quando se abre uma veia no braço, e em todo o corpo apareceram os sinais que prenunciam a morte. Ao vê-lo sem movimento, sem uso dos sentidos e mesmo da respiração, todos o consideravam morto. Os parentes e amigos já se haviam reunido para prantear o morto e dar-lhe sepultura. Mas o pai do jovem, cheio de confiança no Senhor, foi apressadamente à igreja de São Francisco, edificada no mesmo povoado, e com o cíngulo no pescoço, prostrou-se em terra com toda humildade. E nessa atitude longamente orou, multiplicando suas promessas e obtendo por suas lágrimas e suspiros ter a São Francisco como seu advogado diante de Deus. Voltou ao lugar onde se encontrava o filho e. encontrando-o inteiramente curado, trocou as lágrimas pela alegria.

11. Prodígio semelhante operou Deus pelos méritos de São Francisco numa menina natural de Tamarit, na Catalunha, e com outra dos arredores de Ancona, as quais encontravam-se tão gravemente enfermas, que quase já haviam entrado na fase da agonia. Mas tendo os pais invocado a proteção do bem-aventurado Francisco, ficaram repentinamente curadas.

12. Em Alba, havia um clérigo, chamado Mateus, que tendo bebido um veneno mortífero, ficou tão doente, que, não podendo falar de modo algum, só lhe restava exalar o último suspiro. Um sacerdote aconselhou-o que se confessasse. Mas não conseguiu pronunciar uma só palavra. Contudo, orava o enfermo com todo fervor a Deus no íntimo de seu coração, pedindo-lhe se dignasse livrá-lo da morte por intermédio de seu servo Francisco. No mesmo instante, confortado pelo Senhor, pronunciou com grande devoção diante de todos os presentes o nome de Francisco, expeliu o veneno e deu graças a seu libertador.

IV. Náufragos socorridos

1. Certos marinheiros, surpreendidos por uma violenta tempestade a dez milhas do porto de Barletta, viram-se em grave perigo e. já sem esperança de sobreviver, lançaram âncoras. Os ventos, porém, enfureceram-se ainda mais levantando ondas enormes, que acabaram rompendo as amarras deixando a embarcação sem âncora e ao léu das correntes do mar revolto. Serenado enfim o mar por disposição divina, esforçaram-se os marinheiros por recuperar as âncoras, cujos cabos flutuavam sobre o mar. E como não podiam conseguir seu intento por próprias forças, invocaram a proteção de vários santos. Apesar de tudo e dos esforços ingentes, não conseguiram em todo um dia recolher nenhuma das âncoras. Entre os navegantes havia um chamado Perfeito, mas que estava muito distante ainda de o ser nas atitudes. Este, em tom chístoso disse aos companheiros: "Vede, camaradas! Invocastes o auxílio de todos os santos e. como percebeis, nenhum deles nos socorre. Que tal invocarmos um certo Francisco, um santo bem novo. Quem sabe se ele não dá um mergulho nas águas e nos traz de volta as âncoras perdidas?" Concordaram os companheiros, não jocosamente, mas aceitando de verdade a proposta de Perfeito, e repreendendo-o por suas palavras desrespeitosas, fizeram todos uma promessa ao santo. No mesmo instante, sem que os marinheiros fizessem qualquer coisa, viram flutuar as âncoras, como se a natureza pesada do ferro se houvesse transformado na leveza da madeira.

2. Certo peregrino, extremamente debilitado por causa de uma febre muito forte, da qual apenas estava se recuperando, seguia viagem a bordo de um navio procedente de além-mar. Era muito devoto de São Francisco e o havia escolhido como advogado ante o Rei celeste. E como ainda não se livrara da enfermidade, sentia-se abrasado de uma sede ardente, quando, faltando água para se refrigerar, começou a exclamar: "Ide, marinheiros, tende confiança; trazei-me água a beber, porque o bem-aventurado Francisco encheu de água meu vaso". Foram os marinheiros e efetivamente encontraram cheio de água até as bordas o vaso que pouco antes haviam deixado inteiramente vazio. Outro dia, tendo-se levantado uma tempestade violenta, as ondas enfurecidas ameaçavam afundar o navio, e todos temiam o naufrágio. Mas aquele mesmo enfermo começou repentinamente a gritar: "Levantai-vos todos e ide ao encontro de Francisco. Eis que ele vem nos salvar!" E assim falando, caiu em terra, com grandes clamores e lágrimas, para venerá-lo. No mesmo instante, com a aparição do santo, o enfermo ficou são e o mar serenou.

3. Frei Tiago de Rieti, depois de atravessar um rio numa pequena barca, e deixando na margem os companheiros, dispunha-se a desembarcar. A barca, porém, virou, salvando-se a nado o que a dirigia, enquanto Frei Tiago ia ao fundo. Entretanto, os irmãos, postos de joelhos na margem, invocavam com grande fervor o seráfico Patriarca, pedindo-lhe entre lágrimas se dignasse socorrer aquele que era seu filho. Da mesma forma, Frei Tiago, submerso nas profundezas das águas, implorava em seu coração, já que não podia com os lábios, o auxílio de seu piedosíssimo Pai. Então, protegido pela presença de São Francisco, caminhava no fundo como se fora por um caminho real e, entrando na embarcação, chegou de novo à margem. Seu hábito, por incrível que pareça, não estava molhado. Nem uma gota d’água atingira sua túnica.

4. Um irmão chamado Boaventura estava atravessando com outros dois homens um lago, quando a pequena embarcação se partiu por causa da força da corrente, indo ao fundo a barca e seus tripulantes. Do fundo daquele lago de miséria, invocavam com grande confiança o misericordioso Pai São Francisco, e subitamente apareceu o santo conduzindo-a sobre a água, e felizmente chegou ao porto com seus tripulantes. Semelhantemente ficou livre por intercessão de São Francisco um irmão de Áscoli que caíra no lugar mais fundo de um rio.

Aconteceu também no lago de Rieti que, encontrando-se vários homens e mulheres em semelhante perigo, invocaram o nome de Francisco e ficaram felizmente livres de um iminente naufrágio.

5. Alguns marinheiros de Ancona, surpreendidos por uma tremenda tempestade, encontravam-se em perigo de afundar-se. Desesperados, suplicaram humildemente a São Francisco. Apareceu então sobre a nau uma grande luz e com ela a bonança, como a indicar que o homem de Deus possui o estupendo poder de ordenar aos ventos e ao mar.

Parece-me impossível narrar um a um os grandes prodígios que operou e ainda opera no mar nosso bemaventurado Pai, como também as muitíssimas vezes que salvou milagrosamente aos que estavam para naufragar. E não admira que se tenha concedido poder sobre as águas àquele que reina no céu, quando sabemos que a ele mesmo, enquanto vivia neste mundo, lhe serviam as criaturas como faziam com o primeiro homem nos felizes dias da inocência.

V. Prisioneiros e encarcerados postos em liberdade

1. Na Grécia, aconteceu que o servo de um senhor foi falsamente acusado de roubo. O senhor o acorrentou e o pôs em duro cárcere. Mas a senhora da casa teve piedade dele. Estava convencida de que ele era inocente da acusação feita contra ele e rogou ao marido que o soltasse. Ele, porém, obstinadamente recusava-se a libertá-lo. Então aquela senhora recorreu a São Francisco e recomendou o homem inocente à sua intercessão. Francisco, protetor dos pobres, respondeu imediatamente e foi visitar o prisioneiro. Soltou-lhe as correntes que o prendiam e abriu as portas da prisão. Em seguida, conduzindo-o pela mão, levou-o para fora e lhe disse: "Sou Francisco. Tua senhora confiou-te à minha intercessão". O prisioneiro ficou amedrontado. Como tivesse que fazer a volta pelo lado de um rochedo muito alto, repentinamente se encontrou, por auxílio de seu libertador, em terra plana. Voltou à casa de sua senhora e referiu a ela, alegre e minuciosamente, os pormenores do milagre, de sorte que ela se tornou mais devota ainda no seu amor a Cristo e a São Francisco.

2. Em Massa de São Pedro, um homem pobre devia a um cavaleiro uma certa quantia de dinheiro. Na sua pobreza, não tinha recursos para lhe pagar a dívida. O credor então mandou prendê-lo. O pobre lhe rogava que tivesse compaixão dele e lhe desse outra oportunidade, por amor a São Francisco. O nobre, no entanto, cheio de orgulho, fazia-se surdo às súplicas do outro, desprezando como ridículo o amor do santo. E respondeu-lhe desdenhosamente: "Vou colocar-te num cárcere tão oculto e seguro, que nem esse Francisco nem outro qualquer poderão socorrer-te". E fazendo o que ameaçara, procurou um cárcere escuro, e lá encerrou o desgraçado, carregado de pesadas cadeias. Pouco depois, apareceu-lhe São Francisco, livrou-o daqueles ferros, abriu-lhe as portas e o deixou ir livre para sua casa. O senhor orgulhoso ficou humilhado pela virtude poderosa de Francisco, que libertou o preso que se lhe havia recomendado e trocou, por verdadeiro milagre, a petulância daquele cavaleiro em mansidão exemplar.

3. Alberto de Arezzo foi lançado na prisão por dívidas que ele jamais contraiu; encomendou-se a São Francisco em sua inocência com toda humildade; era muito afeiçoado à Ordem e tinha veneração especial ao santo de Assis acima de qualquer outro. O credor blasfemo afirmou que ninguém nem Deus nem São Francisco seriam capazes de livrá-lo de suas mãos. Alberto, no entanto, na vigília da festa do santo, fez um jejum rigoroso e deu sua ração de comida a um mendigo por amor a São Francisco. Naquela noite, enquanto vigiava, apareceu-lhe o santo. Assim que ele entrou na cela, caíram as cadeias das mãos e dos pés do prisioneiro, as portas se abriram por si mesmas e as tábuas do teto saltaram. Libertou-se então aquele homem e voltou para casa. Cumpriu desde então a promessa que fez de sempre jejuar na véspera da festa de São Francisco e. como testemunho de seu crescente amor ao santo, a cada ano que passava acrescentava uma onça ao volume do círio que acendia em sua honra.

4. Quando o Papa Gregório IX pontificava, certo homem chamado Pedro, natural dá cidade de Alife, acusado de heresia, foi preso em Roma por ordem do papa, e levado ao bispo de Tívoli para ser custodiado. Recebeu-o o bispo e, para não perder o bispado, mandou pôr-lhe cadeias e prendeu-o num cárcere escuro para não escapar, dando-lhe um pouco de pão e um pouco d’água para sobreviver. Vendo-se o prisioneiro em situação tão penosa, começou a invocar entre lágrimas e suspiros a proteção de São Francisco para que o socorresse, tanto mais porque ouvira que era a véspera da festa do santo. E como a pureza de sua fé vencera a contumácia de seus erros e se unira a Francisco com todas as veras de sua alma, mereceu ser ouvido por Deus pelos méritos de seu advogado Francisco. Efetivamente, aproximando-se a noite da festa, e quando a luz do crepúsculo começava a desvanecer-se, apareceu ao prisioneiro no cárcere o seráfico Patriarca com semblante misericordioso, chamou-o por seu próprio nome e mandou-lhe que se levantasse imediatamente. Atemorizado, perguntou quem era, e a aparição lhe disse que era Francisco. Percebendo que estava livre das cadeias e que as portas do cárcere estavam abertas para sair, ficou tão perturbado, que não conseguia acertar o caminho de saída, e dando gritos diante da porta, fez correr os guardas que, às pressas, foram participar ao bispo que o preso estava livre das cadeias. Logo chegou a notícia aos ouvidos do bispo, o qual, movido por sua devoção, foi até ao cárcere e, inteirado do acontecido, só teve que reconhecer a mão de Deus, adorando-o com ação de graças pelo prodígio. As cadeias que haviam prendido aquele homem foram apresentadas ao Senhor Papa e aos cardeais que, vendo o sucedido, ficaram muito admirados e deram graças ao Senhor.

5. Guidolotto de São Geminiano foi acusado falsamente de ter envenenado um homem e de ter a intenção de exterminar do mesmo modo o filho dele e toda a família. O magistrado decretou sua prisão e mandou acorrentá-lo num cárcere escuro. Ele, porém, entregou-se a Deus, encomendando-se à intercessão de São Francisco, seguro de sua inocência. Entretanto, o magistrado refletia de que modo poderia melhor arrancar ao suposto culpado a confissão do crime, por meio de torturas, e a que gênero de morte o condenaria assim que ele confessasse o crime. Estava já determinado que no dia seguinte o réu seria levado ao lugar do suplício; mas naquela mesma noite foi visitado por São Francisco, que iluminou a prisão com uma luz esplêndida durante toda a noite; encheu-o de gozo e confiança e lhe deu segurança para se evadir. Pela manhã chegaram os carrascos, os quais tiraram o prisioneiro do cárcere e o suspenderam ao cavalete, agravando seus tormentos com grandes ferros. Várias vezes o faziam baixar e subir para que, revezando-se as penas, se visse obrigado a confessar o crime. Mas a convicção de sua inocência se refletia alegremente em seu rosto, sem deixar transparecer sombra alguma de tristeza em meio de suas penas. Depois fizeram uma grande fogueira debaixo do condenado e não conseguiram queimar-lhe um só cabelo, apesar de ter a cabeça voltada para o chão. Por fim. lançaram-lhe óleo fervente em grande quantidade, mas ele superou todos esses tormentos, ajudado por Francisco, a quem havia confiado sua defesa. Com isso ficou livre de tudo e se foi são e salvo.

VI. Mulheres socorridas na hora do parto

1. Havia na Eslavônia certa condessa, ilustre por sua nobreza, muito devota de São Francisco e afeiçoada à Ordem franciscana. Veio a hora de ela dar à luz e sentia tantas dores e angústias, que o nascimento da criança prenunciava já a morte da mãe. Não era possível que a criança nascesse viva, salvando-se a mãe. Era mais um perecer do que aparecer aquele parto. Vieram-lhe então à memória e mais ainda ao coração a fama, a virtude e a glória de São Francisco. Cresceu sua confiança e aumentou sua devoção. Recorreu ao auxílio eficaz, ao amigo fiel, ao consolo de seus devotos, ao refúgio dos aflitos e disse: "Glorioso São Francisco, à tua piedade recorro com todas as veras da alma e não consigo explicar o que desejo prometer-te". E com extraordinária prontidão, às últimas palavras daquela mulher, cessaram as dores e foram o princípio de um parto feliz. No mesmo instante acabaram-se as angústias e deu à luz sem nenhum sofrimento. Mandou construir uma linda igreja com seu dinheiro e depois de construída cedeu-a aos irmãos para honrar o santo.

2. Uma senhora chamada Beatriz que vivia perto de Roma estava às portas do esperado parto, mas a criança morrera no ventre materno havia alguns dias. Por isso se viu a infeliz atormentada por angústias mortais e dores intoleráveis. O feto morto provocava a morte; sem ter visto a luz do dia, punha em risco a vida da mãe. Recorreu a vários médicos, mas não se encontrava remédio humano para ela. A infeliz mulher arcava com uma maldição pesada demais, devida ao pecado original: transformada em sepultura de seu filho, ela mesma estava certa de em breve parar na sepultura. Por fim, pondo toda sua esperança nos irmãos menores, mandou pedir deles, com toda fé e humildade, uma relíquia de São Francisco. Conseguiram encontrar um pedacinho de corda que o santo durante certo tempo usou como cíngulo. Mal colocaram sobre o corpo aquele pedacinho de corda, a mulher em trabalho de parto sentiu desaparecer toda dor, expeliu com extrema facilidade o feto morto e causa de morte, e recuperou a saúde.

3. A esposa de um cavaleiro de Calvi, chamada Juliana, vivia sempre triste e desconsolada ao ver que não conseguia nenhum filho, pois todos eles morriam pouco depois de nascidos. Como estivesse já no quarto mês de gestação, começou a temer, pela experiência dos casos anteriores, que seu futuro parto seria antes a morte e não o nascimento de um filho; mas com grande confiança suplicava a São Francisco pela vida daquela criança que ainda não nascera. Sucedeu, porém, que estando dormindo certa noite, apareceu-lhe em sonhos uma mulher que trazia em suas mãos um menino muito lindo e o oferecia a ela com grandes mostras de prazer. Mas como ela se negasse a recebê-lo, por medo de perdê-lo logo, aquela mulher lhe acrescentou: "Recebe-o sem medo, porque, compadecido de tuas lágrimas, é o próprio São Francisco quem te envia este, e tem plena certeza que viverá e gozará de perfeita saúde". Acordou Juliana naquele instante e pela visão celeste compreendeu que o bem-aventurado Francisco viera em seu auxílio. Desde então, repleta de extraordinária alegria, multiplicou suas orações e promessas pelo filho que esperava ter. Chegou enfim o tempo do parto, e ela deu à luz um menino, que a seguir cresceu, cheio de força e juventude vigorosa, como se São Francisco lhe houvesse dado um reforço de saúde e foi para os pais motivo de devoção ainda mais sentida para com Cristo e o santo.

Prodígio análogo realizou São Francisco na cidade de Tívoli. Uma mulher, mãe de muitas filhas, era atormentada pelo desejo de ter um filho homem. Voltou-se a São Francisco com orações e votos e obteve a graça, superior a todas as suas esperanças, de dar à luz dois gêmeos.

4. Uma mulher de Viterbo, aproximando-se a hora do parto, estava para morrer, atormentada de dores nas visceras, além de angustiada com o trabalho normal do parto. Baldados todos os recursos da medicina, por causa de sua debilidade, invocou com grande fervor a São Francisco. No mesmo instante ficou livre de suas dores e deu à luz com felicidade. Obteve a graça, mas esqueceu-se de agradecer, entregando-se no dia seguinte, festa do santo, a trabalhos servis. De repente, o braço direito da mulher ficou árido e tolhido e ao tentar colocá-lo em movimento com o esquerdo também este ficou inflexível. Atemorizada a mulher com esse castigo, repetiu seu voto e pela segunda vez se consagrou ao misericordioso e humilde santo, obtendo, pelos méritos dele, recuperar o uso dos membros, que havia perdido pela ingratidão e irreverência.

5. Uma senhora de Arezzo durante sete dias se encontrava nas dores de um parto perigoso, e todos a supunham desenganada, pois o corpo já estava completamente negro. Fez promessa a São Francisco e, estando para morrer, começou a invocar o nome do santo. Assim que fez a sua promessa, adormeceu e viu em sonho ao bem-aventurado Francisco que lhe falava suavemente. Perguntava-lhe o santo se lhe reconhecia a fisionomia e se sabia recitar a salve-rainha. Respondeu-lhe a senhora que o reconhecia e sabia aquela oração. E o santo lhe disse: "Começa a oração e. antes de terminá-la, terás dado à luz sem dificuldades. Enquanto suplicava "esses olhos misericordiosos a nós volvei’? e mencionava "bendito fruto do vosso ventre", a mulher, livre de toda angústia, deu à luz um menino. Deu então graças à "Rainha, Mãe de misericórdia", que pelos méritos de São Francisco tivera misericórdia com ela.

VII. Cegos que recobraram a vista

1. No convento dos franciscanos de Nápoles, havia um irmão chamado Roberto, que por muitos anos viveu cego. Em seus olhos haviam-se formado umas excrescências carnosas que impediam o uso e o movimento das pálpebras. Muitos irmãos por lá costumavam passar como hóspedes ao se dirigirem a diversas partes do mundo, quando aconteceu que o bem-aventurado Francisco, espelho de perfeita obediência, a fim de animar os irmãos em seus empreendimentos por meio de um milagre, curou em presença de todos aquele irmão cego, da seguinte maneira: Frei Roberto, às portas da morte, jazia em sua cama e já se lhe havia feito a encomendação da alma, quando se aproximou o seráfico Pai com três outros irmãos, homens de grande santidade: Santo Antônio, Frei Agostinho e Frei Tiago de Assis, que assim como o tinham seguido perfeitamente durante a vida, assim também o acompanharam alegres após a morte. São Francisco tomou de uma faca e cortou ao enfermo toda a carne supérflua dos olhos, restituiu-lhe a saúde junto com a vista, livrou-o da morte e lhe disse: "Roberto, meu filho, esta graça que te concedi servirá de sinal para nossos irmãos que partem para regiões distantes onde os precederei e dirigirei todos os seus passos. Irão, pois, felizes, e cumprirão com ânimo alegre o mandamento da santa obediência".

2. Em Tebas, cidade da Grécia, havia uma mulher cega, que costumava jejuar a pão e água na vigília de São Francisco. Ao amanhecer de um desses dias festivos, foi ela conduzida por seu marido à igreja dos irmãos menores. Ouvia ela a missa, e à hora da elevação do corpo de Cristo, abriu os olhos e o viu com toda clareza, fez um ato de profunda adoração, e disse em voz alta: "Graças sejam dadas a Deus e a seu servo Francisco, pois tenho a felicidade de ver a hóstia consagrada". A essas palavras os presentes prorromperam em exclamações de alegria. Terminada a missa, voltou a mulher para sua casa com imenso júbilo na alma e claríssima luz nos olhos. A felicidade daquela senhora era enorme não só por haver recuperado a vista corporal, mas também porque mediante a intercessão de São Francisco e ajudada por sua fé merecera contemplar acima de tudo aquele augusto e divino sacramento, que encerra em si aquele que é a Luz verdadeira e inextinguível das almas.

3. Um menino de quatorze anos de Pofi, na Campânia, por um trauma repentino, ficou totalmente cego do olho esquerdo. Pela violência da dor, saíra-lhe o olho da órbita, pendendo oito dias sobre a face na largura de um dedo, por causa do afrouxamento do nervo. Não havia outro remédio senão operar, na opinião dos cirurgiões. Vendo isso, o pai do menino apegou-se confiante à proteção de São Francisco, que não deixou de atender às súplicas de seu devoto, advogado que é sempre dos necessitados. Com um prodígio extraordinário, recolocou em seu lugar o olho enfermo, restituindo-lhe a visão perfeita.

4. Naquela mesma região, em Castro dei Volsci, uma viga muito pesada se desprendeu de uma altura e caiu sobre a cabeça de um sacerdote, cegando-lhe o olho esquerdo. Caído no chão, o paciente começou a chamar em alta voz e angustiado a São Francisco: "Socorro, Pai santíssimo, para que eu possa ir à tua festa, como prometi aos teus irmãos!" Deu-se isso na vigília da festa do santo, e o sacerdote levantou-se inteiramente são, dando gritos de alegria e ação de graças, causando grande surpresa e júbilo a todos os presentes que se haviam compadecido de sua miséria. Assistiu à festa do santo, narrando a todos a estupenda maravilha que com ele havia realizado.

5. Certo homem de Monte Gargano trabalhava em sua vinha e, ao cortar uma acha de madeira, feriu-se na vista, de modo que esta se partiu ao meio, ficando uma parte pendente. Perdeu a esperança de curar seu mal por meios humanos, e prometeu solenemente a São Francisco jejuar em sua festividade caso o socorresse. Fez a promessa e logo ficou curado: o olho se recompôs em seu devido lugar, adquiriu perfeita visão e nenhum sinal ficou de lesão.

6. O filho de um nobre, cego de nascença, conseguiu a visão tão desejada pelos méritos de São Francisco. E por haver conseguido assim a visão, deram-lhe o nome de Iluminado. Ao chegar mais tarde à idade competente, e muito grato pelo benefício recebido, vestiu o hábito da Ordem de São Francisco e adiantou-se tanto em luz de graça e virtudes, que com razão parecia filho da própria Luz. Enfim, pelos méritos de Francisco, aquele princípio tão santo teve um fim ainda mais santo.

7. Em Zancato, perto de Anagni, um cavaleiro de nome Geraldo perdera totalmente a vista. Dois irmãos menores que acabavam de chegar de além-mar foram à casa daquele cavaleiro pedir hospedagem. Toda a família os recebeu com devoção e com grande afabilidade foram tratados por amor a São Francisco. Depois, de dar graças ao Senhor e a seus bons hóspedes, foram ao convento mais próximo. Algum tempo depois, São Francisco apareceu certa noite em sonho a um daqueles irmãos, dizendo-lhe: "Levanta-te e vai depressa à casa de nosso hóspede que na vossa pessoa nos recebeu a Cristo e a mim, pois quero cumprir com ele os deveres da piedade. Sabei que ficou cego por suas culpas, que não procurou expiar com a confissão sacramental". Desapareceu São Francisco e o irmão, sem perda de tempo, se levantou para cumprir junto com seu companheiro a ordem recebida. Chegados à casa do hóspede, referiram todos os detalhes do sonho que um deles havia tido. O homem ficou admirado, confirmando ser verdade tudo o que lhe referia o irmão, e. derramando copiosas lágrimas, confessou-se com viva dor de suas culpas. Por fim, prometeu emendar-se e mudar de vida, e no mesmo instante recobrou a vista. Espalhou-se por toda parte a fama deste milagre. Muito cresceu a devoção a São Francisco e grande número de pessoas sentiu-se estimulado à humilde e sincera confissão de seus pecados.

Acréscimo posterior

7a. Em Assis, um homem acusado falsamente de furto foi condenado à cegueira total por decreto do juiz de Assis, Otaviano; a sentença foi executada pelo cavaleiro Otão e oficiais de justiça. Estes forçaram ao condenado os olhos para fora das órbitas e lhe amputaram os nervos oculares com uma faca. A seguir o pobre homem foi levado diante do altar de São Francisco a quem o infeliz pediu que o socorresse. Disse que era inocente e pela intercessão do santo recebeu novos olhos dentro de três dias. Eram menores, mas a visão era a mesma de sempre. O cavaleiro Otão prestou juramento acerca do estupendo milagre diante de Tiago, abade de São Clemente, que estava fazendo investigações a respeito por autoridade do bispo Tiago de Tívoli. Também prestou depoimento Frei Guilherme Romano, ao qual Frei Jerônimo, ministro geral da Ordem, ordenou por obediência e sob pena de excomunhão que referisse veridicamente tudo quanto sabia a respeito. Obrigado a um juramento assim tão solene, em presença de muitos ministros provinciais e de outros irmãos que gozavam de autoridade, afirmou o que segue: Quando ainda era leigo, conheceu o homem em questão e verificou que ele tinha os dois olhos. Assistiu em seguida à operação com que o cegaram; e até mesmo, por curiosidade, chegou a revirar com um bastão aqueles olhos lançados no chão. Depois viu o mesmo homem dotado de novos olhos, que ele recebera por graça da misericórdia divina e com os quais via muito bem.

VIII. Enfermos curados de várias doenças

1. Em Città della Pieve, havia um jovem mendigo, surdo-mudo de nascença, com uma língua tão curta e delgada, que parecia cortada na raiz, como puderam verificar muitas pessoas que o examinaram. Vendo-o nessa miséria, um homem caridoso, chamado Marcos, recolheu-o por caridade em sua casa e, constatando que com isso Deus o favorecia, resolveu mantê-lo sempre consigo. Certa noite, ao cear com sua mulher, disse na presença do pobre: "Reconheceria ser um grande milagre se o bem-aventurado Francisco se dignasse devolver a fala e a audição a este homem". E em seguida acrescentou: "Prometo a Deus nosso Senhor que, se São Francisco fizer esse milagre, consignarei por amor dele a nosso pobre, de meus bens, a pensão necessária para viver". No mesmo instante cresceu a língua daquele pobre e falou claramente, dizendo: "Glória seja a Deus e a seu servo Francisco por haver-me devolvido a fala e a audição!"

2. Frei Tiago de Iseo, enquanto menino e morando em casa de seu pai, contraiu uma forma muito grave de hérnia. Seguindo a inspiração de Deus, embora fosse jovem e enfermo, consagrou-se a Deus entrando na Ordem de São Francisco, não revelando a ninguém o mal que o afligia. No tempo da trasladação do corpo do seráfico Pai ao lugar onde se venera o precioso tesouro de suas santas relíquias, esse irmão assistiu também às festas celebradas por motivo da trasladação, para prestar a devida honra ao corpo santíssimo do seráfico Pai, já glorificado no céu. Aproximando-se da caixa onde se guardavam as sagradas relíquias, abraçou, movido de fervor de espírito, o féretro, e de repente voltaram a seu lugar milagrosamente os órgãos lesados, sentindo-se inteiramente são. Por isso lançou fora o suspensório, sem voltar a sentir mais tarde a mínima dor. Também se curaram de enfermidades semelhantes, milagrosamente, pela misericórdia divina e pelos méritos de São Francisco, os irmãos Bartolomeu de Gúbio, Ângelo de Todi, Nicolau de Ceccano, João de Sora, um homem de Pisa e outro de Cisterna, Pedro da Sicília e um homem de Spello perto de Assis, juntamente com outros.

3. Uma mulher de Marítima padeceu por espaço de cinco anos de alienação mental, ficando além disso privada da visão e da audição. Destruía a roupa com os dentes, não tinha medo de cair no fogo ou na água e chegou a sofrer freqüentes e terríveis ataques de epilepsia. Compadeceu-se dela a misericórdia divina, e uma noite ela viu, cheia de luz celestial e divina, ao bemaventurado Francisco, sentado num trono sublime, diante do qual ela pedia de joelhos e com grande instância a saúde. Vendo que o santo não parecia propício a suas fervorosas orações, a mulher fez solene promessa de jamais negar, enquanto possível, farta esmola a quantos lhe pedissem por amor de Deus e de Francisco. Nessa generosa promessa, logo reconheceu Francisco a que em outros tempos ele mesmo fizera ao Senhor e traçando sobre a enferma o sinal-da-cruz, restituiu-lhe a saúde integralmente. Além disso, sabe-se, por testemunho fidedigno, que São Francisco livrou milagrosamente de enfermidades parecidas a uma menina de Núrsia, ao filho de uma pessoa nobre e a outros mais.

4. Pedro de Foligno um dia foi visitar em peregrinação uma ermida de São Miguel, não porém em espírito e fervor convenientes; mas depois de haver bebido água de uma fonte, ficou possesso dos demônios que o atormentaram por três anos, rasgando com fúria o corpo, pronunciando palavras escandalosas e praticando verdadeiros horrores. Mas, como em meio a tudo isso gozava de intervalos de lucidez e como, por outro lado, sabia da eficácia da proteção de São Francisco contra todos os poderes infernais, implorou humildemente a intervenção do santo. Foi visitar o sepulcro de São Francisco e logo que o tocou com a mão ficou livre dos espíritos malignos que o atormentavam. De modo semelhante socorreu o misericordioso Francisco a uma mulher de Narni, possessa do demônio, e a outros muitos, cujos tormentos e curas milagrosas seria impossível enumerar.

5. Um leproso chamado Bonomo de Fano, que estava paralítico, foi levado à igreja de São Francisco por seus pais e ficou completamente curado de ambas as moléstias.

Um jovem chamado Ato de São Severino, que estava coberto de lepra, ficou curado pelos méritos de São Francisco, ao fazer promessa e ser levado ao sepulcro do santo.

O santo teve uma virtude especial para curar esse tipo de enfermidade, porque, movido por seu amor à humildade e à compaixão, se consagrara totalmente ao serviço dos leprosos.

6. Uma mulher nobre, chamada Rogada, natural do bispado de Sora, sofria já por vinte e três anos de fluxo de sangue, tendo passado por inúmeros tratamentos dolorosos. As dores eram tão fortes, que muitas vezes parecia que a mulher ia expirar, e se por vezes se podia conter o fluxo, todo o corpo inchava monstruosamente. Mas, ouvindo um menino cantar na língua local os milagres que Deus havia operado por mediação de Francisco, cheia de grande dor, começou a chorar amargamente. Em seu interior dizia com toda fé: "Ó bem-aventurado São Francisco, que realizas tantos milagres! Se te dignares livrar-me desta doença, alcançarás muito maior glória, pois até agora ainda não fizeste um milagre tão estupendo!" Que efeito tiveram estas palavras? A enferma ficou instantaneamente curada pelos méritos do seráfico Patriarca. Um filho desta senhora, chamado Mário, que tinha um braço paralítico, fez uma promessa a São Francisco e por sua intercessão ficou inteiramente são. Também curou o servo de Deus a uma mulher da Sicília, que por espaço de sete anos padecia de uma doença muito incômoda.

7. Havia em Roma uma senhora de nome Praxedes muito conhecida por sua vida devota, a qual vivera quase quarenta anos num cárcere estreito por amor a seu Esposo eterno e recebera favor especial de São Francisco. Com efeito, certo dia ela subiu ao ponto mais alto do seu cárcere, à procura de coisas necessárias, quando teve um mal súbito, caiu ao solo, fraturando o pé e a rótula, além de deslocar o ombro. Apareceu-lhe então São Francisco, vestido de glória e falando-lhe com inefável suavidade: "Levanta-te, amada filha, levanta-te e não temas". Tomou-a pela mão e, levantando-a da terra, desapareceu. Praxedes, no entanto, caminhava de um lado para outro no cárcere pois imaginava ser um sonho aquilo que estava vendo. Começou então a gritar, de modo que alguns acudiram com luz, e vendo-se ela completamente sã por virtude dos méritos de São Francisco, relatou tudo aos presentes a respeito do milagre.

IX. Os que não quiseram honrar o santo respeitando sua festa como dia santo de guarda

1. Na cidade de Le Simon perto de Poitiers, um sacerdote chamado Reginaldo, que tinha grande devoção a São Francisco, disse aos paroquianos que a festa do santo devia ser celebrada solenemente. No entanto, um dos paroquianos, que nada conhecia do poder milagroso do santo, não deu ouvidos àquela ordem. Foi ao campo cortar lenha. E quando se preparava para o trabalho, ouviu três vezes alguém lhe dizer: "Hoje é dia santo de guarda e não é lícito trabalhar". Como de nada adiantassem a ordem do pároco e o oráculo celeste, a Providência divina operou, para glória do santo, um milagre e um terrível castigo. Efetivamente, segurava numa das mãos o forcado para amontoar a colheita, quando quis levantar a outra que sustinha um instrumento de ferro para começar seu trabalho. Aconteceu, por virtude divina, que ambos os instrumentos ficaram de tal forma presos nas mãos dele, que não conseguia fazê-los desprender-se dos dedos. Atemorizado e sem saber o que fazer, foi à igreja, à qual haviam concorrido muitos outros, ansiosos por ver o milagre. Diante do altar e muito arrependido pelas exortações de um dos sacerdotes presentes (pois muitos se haviam reunido para a solenidade), consagrou-se inteiramente a Francisco, e, em atenção às três vezes que ouviu aquela voz, fez também outras três promessas: observar como dia santo de guarda a festa de São Francisco, vir no dia da festa a essa mesma igreja onde se encontrava e visitar pessoalmente o sepulcro do santo. Para grande espanto de todos, feita a primeira promessa, desprendeu-se um dos dedos; ao pronunciar a segunda, soltou-se o outro, e formulada a terceira, ficou livre o terceiro dedo e depois a mão inteira. A seguir aconteceu o mesmo com a outra mão. Havia uma grande multidão ali implorando o patrocínio do taumaturgo. Dessa forma, aquele homem, completamente livre, depôs os instrumentos, enquanto as outras pessoas louvavam ao Senhor e admiravam a maravilhosa virtude do santo, que podia castigar tão facilmente como conceder a saúde. Aqueles instrumentos ainda hoje estão suspensos ao lado do altar construido ali em honra de São Francisco, para perpétua memória de fato tão prodigioso.

Grande número de outros milagres que se realizaram aí e na vizinhança mostra claramente ser Francisco um dos santos mais gloriosos do céu e com quanta razão se deve celebrá-lo com toda reverência nesta terra.

2. Uma mulher em Le Mans tomou em suas mãos a roca e o fuso, na festa de São Francisco, e logo ficaram-lhe paralisadas as mãos, enquanto sentia nos dedos um ardor insuportável. O castigo serviu-lhe de lição. Reconheceu o poder do santo e, arrependida, correu até os irmãos, que, como filhos devotos, imploraram a clemência do seráfico Pai em favor daquela mulher, que repentinamente ficou curada. Não se notava em suas mãos outro sinal do mal padecido a não ser uma pequena marca, como de queimadura, bastante para recordar o estupendo milagre.

Três outras mulheres, da Campânia, de Olite (Valladolid) e de Piglio, foram milagrosamente punidas por sua obstinação em não quererem respeitar o dia santo de guarda na festa do santo e milagrosamente livres do castigo por intercessão dele, ao se arrependerem.

3. Um cavaleiro de Borgo San Sepolcro, na província de Massa Trabaria, ridicularizava os milagres de São Francisco; injuriava os peregrinos que visitavam seu sepulcro e difamava os irmãos, zombando deles. Certa ocasião, ao atacar a fama do santo, cometeu o crime ainda maior de blasfemar. Dizia: "Se é verdade que São Francisco é um santo, que eu morra hoje pela espada. Se não é verdade, que eu nada sofra". A ira de Deus não tardou em puni-lo como merecia, pois até mesmo sua oração era pecaminosa. Pouco tempo depois, o cavaleiro injuriou gravemente um sobrinho seu, que tomou uma espada e lhe traspassou o corpo com ela. Morreu naquele mesmo dia em seus crimes, escravo do demônio e filho das trevas, para que os outros aprendessem, não a desprezar com blasfêmias as obras maravilhosas de Francisco, mas a lhes prestar os devidos louvores.

4. Um juiz, chamado Alexandre, tudo fazia com sua língua venenosa para impedir que o povo honrasse o santo. Por isso foi privado do uso da língua e ficou mudo durante seis anos. Sentindo-se castigado naquilo mesmo com que havia pecado, arrependeu-se sinceramente de haver falado tão nesciamente por sua boca contra os milagres do santo. São Francisco teve compaixão dele e sua indignação se desfez. Admitiu novamente o pecador a participar de sua graça, o qual, penitente e humilhado, invocava sua proteção. Restituiu-lhe misericordiosamente a fala que havia perdido. Desde então aquela língua, antes blasfema, se consagrou aos louvores do santo. O castigo que ele sofrera serviu para convertê-lo num homem devoto.

X. Outros milagres diversos

1. Em Gagliano Aterno, na diocese de Sulmona, uma mulher chamada Maria, consagrada ao serviço de Deus e de São Francisco, saiu certo dia, para, com o trabalho de suas mãos, conseguir algo à sua sobrevivência. Fazia muito calor, e começou a sentir uma sede abrasadora. Não lhe sendo possível satisfazer esta necessidade por encontrar-se só no monte e não encontrar água, deitou-se não chão quase inconsciente, e começou a invocar a São Francisco com toda a devoção. O trabalho, a sede e o calor, no entanto, fizeram-na adormecer em meio às suas preces humildes e contínuas. Apareceu-lhe então em sonho São Francisco e chamou-a pelo nome: "Levanta-te, bebe da água que Deus dá a ti e a muitos". A mulher acordou a estas palavras e sentiu-se reanimada. Pegou uma planta medicinal (feto) que crescia a seu lado e arrancou-a pela raiz. Depois com um pau escavou a terra e logo encontrou água fresca, que a princípio era um fiozinho correndo, mas logo cresceu como um manancial abundante. Bebeu a mulher e. satisfeita à saciedade, lavou os olhos com aquela água, os quais estavam doentes de longa data e recuperou-os com perfeita visão. Voltou pressurosa para casa, publicando o estupendo milagre diante de todos para glõria de São Francisco. Espalhada a fama deste milagre, reuniu-se uma imensa multidão que pôde experimentar o poder de cura daquela água, pois muitos dos que se lavaram na fonte prodigiosa, depois de fazerem humilde confissão de seus pecados, ficavam livres de várias enfermidades. Ainda hoje existe essa fonte e junto dela se construiu uma pequena capela em honra de São Francisco.

2. Numa cidadezinha da Espanha; chamada Sahagún, o santo fez reverdecer milagrosamente contra toda expectativa, dando-lhe de novo flores e frutos, uma cerejeira completamente seca, pertencente a um morador daquele lugar. Livrou também de modo admirável aos moradores de Villasilos da invasão de insetos que destruíam as vinhas. Um sacerdote de Palencia colocou o celeiro de sua propriedade sob a proteção de São Francisco e o santo o livrou dos insetos que anualmente o invadiam. Extinguiu também totalmente em todo o território de um certo senhor de Petramala, na Apúlia, por lhe haver suplicado esse favor, a terrível praga dos gafanhotos, que devoravam os campos todos em redor.

3. Um certo Martinho havia conduzido o gado a pastar longe da aldeia. Um dos seus bois caiu e fraturou uma perna de tal modo que não podia curá-lo. Querendo, porém, tirar-lhe a pele e não tendo como o fazer, voltou à sua casa para buscar um instrumento apropriado, encomendando, porém, a São Francisco o animal ferido para que não fosse devorado pelos lobos durante sua ausência. Na manhã seguinte, bem cedo, voltou com o instrumento para esfolar o boi ao local onde deixara o animal e encontrou-o pastando, tão sadio que não se distinguia a pata fraturada da que não estava. Vendo tal maravilha, o homem deu graças ao Bom Pastor pelo cuidado solícito que tivera com seu boi e por tê-lo sarado de modo tão prodigioso. O humilde santo sabe socorrer sempre aos que o invocam e não se nega a atender às necessidades mais insignificantes dos homens. Efetivamente, a um homem de Amiterno devolveu o jumento que lhe haviam roubado; a uma :senhora de Antrodoco restituiu-lhe inteiro o prato que quebrara; e a um homem de Monte dell’Olmo, na Marca de Ancona, consertou-lhe o arado que se quebrara em várias partes.

4. Na diocese de Sabina, havia uma velhinha de oitenta anos, cuja filha ao morrer deixou uma criança de peito. Sendo muito pobre, sem recurso nem leite, e não encontrando mulher alguma que pudesse amamentar o menino, não sabia o que fazer. Por fim, chegou uma noite em que, destituída de todo recurso humano, via enfraquecer-se cada vez mais o netinho, pelo qual começou a suplicar, banhada de lágrimas e cheia de confiança, a proteção de São Francisco. O amante dos inocentes não tardou em atender, dizendo à anciã: "Boa senhora, eu sou Francisco, a quem com tantas lágrimas tens invocado. Põe teu peito na boca da criança, pois o Senhor se dignou conceder-te leite em abundância". Fez ela como o santo lhe ordenara e no mesmo instante os peitos da octogenária deram leite em grande quantidade. Logo se espalhou a fama do milagre e acudiram muitos homens e mulheres para constatarem o prodígio. E como a língua não podia contradizer o que os olhos contemplavam, porfiavam todos em bendizer a Deus pela virtude e piedade admirável que ele fazia resplandecer em seu santo.

5. Em Scoppito um casal tinha um único filho, nascido com os braços presos ao pescoço, os joelhos ao peito e os pés às nádegas, de modo que não parecia criatura humana, mas um monstro. A mãe vivia acabrunhada de tristeza e implorou a Cristo, invocando o auxilio de São Francisco, que tivesse piedade dela em sua miséria e desgraça. Certa noite, oprimida de tristeza, abandonou-se a um triste sono. Apareceu-lhe o santo, confortou-a com suaves palavras e exortou-a a levar o filho a um lugar vizinho dedicado ao seu nome, e o aspergisse em nome do Senhor com a água do poço que ali encontraria: assim ficaria ele totalmente sadio. A senhora, porém, não quis cumprir a ordem do santo que lhe apareceu uma segunda e uma terceira vez. Desta última, ele a conduziu com seu filho até a porta do lugar indicado, indo à sua frente e servindo-lhe de guia. Algumas senhoras haviam acorrido à igreja por devoção, e quando a mulher lhes referiu tudo acerca da visão, elas levaram a criança aos irmãos. Eles então tomaram água do poço e a mais nobre entre aquelas senhoras lavou o menino. No mesmo instante os membros voltaram cada qual a seu lugar, ficando a criança inteiramente sã e causando o estupendo milagre estranha admiração em todos os que o presenciaram.

Acréscimo posterior

5a. Em, Susa, um jovem chamado Ubertino, de Rivarolo Canavese, entrou para a Ordem dos Frades Menores. Durante o noviciado, por causa de grande susto, ficou louco e paralisado em seu lado direito, totalmente, de modo que não podia ouvir nem falar. Era incapaz de qualquer movimento e nada sentia. Com grande tristeza dos irmãos, ficava numa cama confinado. Entretanto, aproximava-se a festa de São Francisco, e na véspera ele teve um período de lucidez. Apelou para o santo o mais que pôde, cheio de fé, embora sua voz emitisse sons indistintos.; Na manhã seguinte, enquanto os irmãos cantavam na igreja, São Francisco, com o hábito da Ordem, apareceu ao noviço na enfermaria, fazendo brilhar uma grande luz naquela casa. E pondo-lhe a mão no lado direito suavemente a fez deslizar da cabeça aos pés; colocou os dedos nos ouvidos do enfermo e lhe deixou um sinal particular no ombro direito, dizendo: "Este será para ti sinal que Deus, servindo-se de mim, a quem quiseste imitar entrando na religião, te restituiu completa saúde". Depois, pondo-lhe o cíngulo que o noviço não havia cingido por estar acamado, disse-lhe: "Levanta-te e vai à igreja celebrar devotamente, junto com os outros, as laudes de Deus prescritas". Dito isso, enquanto o jovem procurava tocá-lo com as mãos e beijar-lhe os pés, em sinal de agradecimento, o bem-aventurado Pai desapareceu de sua vista. Uma vez readquiridas a saúde e a lucidez da mente, a sensibilidade e a palavra, entrou na igreja, para grande admiração dos irmãos e dos leigos, presentes às solenidades e que o conheciam paralítico e demente; participou da recitação das laudes e depois contou-lhes tudo acerca da cura milagrosa, estimulando-os à devoção a Cristo e a São Francisco.

6. Um habitante de Cori, na diocese de Óstia, perdera o uso da perna não podendo andar nem se locomover. Em tão dura provação e sem encontrar remédio humano, começou certa noite a se queixar tão amargamente na presença do santo, como se ele estivesse diante de si, dizendo: "Ajuda-me, glorioso São Francisco, e lembra-te da sincera devoção que sempre tive por ti e dos serviços que te prestei; pois bem sabes que um dia te levei em meu jumentinho, que te beijei as mãos e os pés, sempre fui teu devoto, sempre me mostrei benigno contigo e agora aqui estou morrendo pela violência destas dores". Movido por essas amorosas queixas, logo atendeu aquele que não esquece os benefícios e se apresentou, acompanhado de um religioso, ao homem devoto e reconhecido, garantindo-lhe que vinha por ter sido chamado e que trazia os remédios eficazes para sua enfermidade. Tocou-o com um pequeno bordão, que tinha a forma de tau, no local da dor, e tendo-lhe aberto o tumor que ali se formara, lhe devolveu perfeita saúde. Mais espantoso ainda é que deixou gravado sobre o lugar do tumor curado, como testemunho do milagre, o sinal do tau, com que São Francisco costumava assinar suas cartas, todas as vezes que a caridade o obrigava a enviar alguma missiva.

7. Nossas mentes se distraíram com a variedade de fatos narrados em torno dos milagres realizados por São Francisco. Mas agora por intervenção do glorioso porta-estandarte da cruz, se voltam mais uma vez para a cruz, guiadas por Deus. E serve isso para nos lembrar que assim como a cruz representa a culminância de tudo o que realizou Francisco para conquistar a salvação, lutando no exército de Cristo, assim também se tornou a marca de tudo aquilo que lhe confere glória, agora que ele participa do triunfo de Cristo.

8. Efetivamente, este mistério grande e admirável da cruz, em que se ocultam os carismas da graça, os méritos das virtudes, os tesouros da sabedoria e da ciência, inacessíveis aos sábios e aos prudentes deste mundo, foi revelado a este pequenino de Cristo em toda a sua plenitude, pois em toda a sua vida ele sempre seguiu unicamente os vestígios da cruz, e sempre pregou unicamente a glória da cruz. Já desde o princípio de sua total entrega ao Senhor podia dizer com o Apóstolo: "Não queira Deus que eu me glorie senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Gl 6,14). Também pôde ao longo de sua vida afirmar com não menos verdade: "A todos os que seguiram esta Regra, a paz e a misericórdia" (Ib. 16). E ao chegar o termo de sua existência, pôde repetir com a mais profunda convicção: "Trago em meu corpo as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Ib. 17). De nossa parte só desejamos poder ouvir todos os dias de seus lábios estas consoladoras palavras: "Irmãos, que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre convosco. Amém" (Ib. 18).

9. Gloria-te, pois, na glória da cruz, excelso porta-estandarte de Cristo, porque, tendo iniciado pela cruz, progrediste segundo a regra e ensinamento da cruz, e por fim, encerrando tua carreira pela cruz, por ela provas aos fiéis a glória singular de que gozas no céu. Sigam-te em toda confiança os que abandonam o Egito, pois, divididas as águas do mar com o báculo da cruz, atravessarão seguros o deserto desta vida, e. uma vez passado o Jordão desta existência mortal, encontrarão, pela virtude admirável da cruz, a terra dos vivos que lhes foi prometida. Digne-se introduzir-nos nela nosso verdadeiro Salvador e Guia, Cristo Jesus crucificado, pelos méritos do seráfico Pai São Francisco, e para a glória de Deus uno e trino, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.