1. Testemunho de vida eterna
1. Introdução
Quando a Igreja se redefiniu, no Concílio Vaticano II, para corresponder melhor aos nossos tempos, recordou, de acordo com a Bíblia, que ela é principalmente o Povo de Deus, sempre em marcha para chegar a Ele. Aliás, disse que tem que ser a "Luz dos Povos".
Nessa mesma recolocação de todo o seu ser e agir, lembrando que todos os seus membros são chamados à santidade, destacou que os que professam a castidade são os que, dentro do Povo, dão o testemunho especial da vida eterna.
Testemunhar é ser uma pessoa que é prova. É ser uma pessoa que mostra, só com o seu comportamento, que alguma coisa é possível e melhor. Os que professam a castidade devem ser prova de que a vida eterna, isto é, a fraternidade perfeita que vamos viver definitivamente na casa de Deus, é um bem ao qual todas as pessoas podem e devem aspirar.
Este nosso trabalho quer ser uma ajuda para todos aqueles e aquelas que, devendo dar esse testemunho, não o conseguem fazer em plenitude, por não se sentirem totalmente livres.
2. Nossa falta de liberdade
Tendo ouvido durante muitos anos um número incontável de pessoas consagradas, tanto na vida religiosa como na matrimonial, anotei muitas faltas de liberdade que as pessoas costumam ter.
É o que estou expondo daqui para frente. Também anotei muitos anseios ou sonhos de maior liberdade para amar, que vou colocar no subtítulo seguinte.
Todos nós fomos dotados de um coração enorme para amar e para ser amados, mas dificilmente estamos contentes com o amor que vivemos, porque nos sentimos pouco livres para amar.
Também não nos sentimos livres para ser "castos". Por exemplo:
Gostaríamos de manifestar nossa afetividade mas temos medo de como as pessoas vão reagir, e do que vão dizer.
Trazemos da infância (e de outros ambientes) preconceitos que estigmatizam e distanciam as pessoas: não somos como elas!
Costumamos rotular as pessoas e dar títulos às atitudes. Fulano é vagabundo, sicrana é fofoqueira, beltrano é carismático, isso é machismo, aquilo é ignorância, etc... Ora, rótulos servem para produtos de consumo nos supermercados e não para pessoas; títulos servem para achar livros nas bibliotecas, não para interpretarmos e julgarmos a maneira de ser de nossos irmãos e irmãs. Quem é livre não precisa se apoiar nessas muletas para se relacionar com os outros.
Temos medo de nos entregar ao amor e não saber parar. De nos perder. De que os outros abusem da gente.
Há muita insegurança marcando nossos relacionamentos. Daí vêm muitas agressões.
Há muito patrulhamento dentro de nossas famílias e de nossos grupos. Há pessoas sempre observando e criticando atitudes que consideram incorretas.
Não sabemos ouvir. Por isso, não sabemos acolher. Não nos abrimos com facilidade para o diferente.
imaginações que não levam a nada. Gostaria de não ficar imaginando tantas coisas más que, no fim, em geral nem acontecem.
Gostaria de ter uma visão clara do que os outros pensam de mim. Do que eu mesmo quero.
3. A proposta de São Francisco
Em São Francisco, encontramos uma excelente proposta, que parte da oposição entre o "espírito da carne" e o "Espírito do Senhor.
Nós temos dificuldades para a castidade, isto é, sentimos que não somos livres para amar, porque, desde crianças, somos dirigidos pelo "espírito da carne".
É o espírito da carne que leva Adão e Eva, isto é, nós todos, a esquecermos a maravilha de sermos "imagem e semelhança de Deus" para querer ser "como Deus". Ora, para sermos deuses, só fazendo o verdadeiro Deus desaparecer. Depois, somos obrigados a criar um mundo novo, feito "à nossa imagem e semelhança". A conseqüência é que criamos tantos mundos separados quantos nós somos, e deixamos de nos entender, porque, se não fizermos dos outros os nossos pequenos "deuses", seremos os "deusinhos" deles.
E não entendemos nem a nós mesmos, porque já partimos do conceito de um falso Eu e, se continuarmos a viver levados pelo "espírito da carne", nunca vamos aprender a amar.
Se, ao contrário, aprendermos a seguir o "Espírito do Senhor", estaremos destruindo pouco a pouco o falso Eu. Quando ele já não for nada, teremos reconquistado o verdadeiro Eu, aquele que sempre viveu nos sonhos de Deus desde que fomos criados. Então, ruirão os nossos mundos falsos e teremos o amor de verdade, que nunca se apropria de ninguém, mas só se entrega de maneiras infinitas a todas as pessoas. Seguindo São Francisco, só vamos aprender a amar quando fizermos uma opção clara pelo Espírito do Senhor. Como ele disse:
"Todos nós, irmãos, procuremos evitar toda soberba e vanglória; e guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne (Rm 8,6); pois o espírito da carne se esforça e busca muito ter as palavras, mas pouco a ação, e não busca a religião e a santidade no espírito interior, mas quer e deseja ter uma religião e uma santidade que apareçam por fora para as pessoas. São aqueles de quem diz o Senhor: Na verdade vos digo, já receberam o seu prêmio (Mt 6,2). Mas o Espírito do Senhor quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E busca a humildade, a paciência, a pura, simples e verdadeira paz do espírito. E sempre deseja acima de tudo o temor divino, a sabedoria divina e o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (RNB 17, 9-16).
Seu sonho, como na proposta da Forma de Vida feita às Clarissas e como na Carta aos Fiéis, é que vivamos em plenitude o amor que reina na Santíssima Trindade. E esse vai ser o nosso caminho.
4. A proposta de Santa Clara
Santa Clara vem ajudarnos a ser castos e nos ensina a amar quando exorta a "abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre" (2CtIn 18). É a sua maneira de nos ensinar a seguir o "Espírito do Senhor" e não o "espírito da carne".
Não se trata de ter uma virgindade física e formal mas de ser uma pessoa que pouco a pouco vai se esvaziando de si mesma para dar espaço a Deus em sua interioridade.
Quem não se apropria mas vai ficando vazio, deixa de querer mandar e dispor procura Deus na simplicidade, faz de tudo para te-lo incessantemente na memória, para conhecê-lo amando-o e para amá-lo conhecendo-o".
Antes dele, São Gregório de Nissa já tinha dito:
"Se não conheces a ti mesma, ó bela entre todas as mulheres, sais das trilhas dos rebanhos [...]. Mas é bom saberes quanto te honrou o teu Criador. Não foi o céu que foi feito à imagem de Deus, não foi a lua, nem o sol, nem a beleza das estrelas, nenhuma das outras coisas criadas. Só tu foste feita à imagem do Ser que supera todo conhecimento, semelhança da beleza incorruptível, marca da divindade, imagem da verdadeira Luz, que, quando olhas, transformas-te no que Ele é".
Precisamos redescobrir Deus a partir da Bíblia. Neste trabalho usaremos especialmente o Cântico dos Cânticos. Mas o nosso fundamento é o ensino de Jesus sobre o amor que reina entre as Pessoas da Santíssima Trindade.
6. Uma proposta de releitura
Na primeira parte deste capítulo, apresentamos alguns problemas de nossa liberdade para amar e alguns dos nossos grandes anseios.
Depois, apresentamos as propostas de São Francisco e Santa Clara. Tudo isso vai nos servir para aprofundar o tema nos capítulos seguintes, mas é muito importante que nossos leitores e leitoras comecem a reler seus problemas pessoais e seus sonhos pessoais na perspectiva da visão de Deus (o Espírito do Senhor), que nos é dada por Francisco e Clara.
Revendo os problemas e os anseios que colocamos mais acima, é fácil perceber que praticamente tudo está ligado a nossa preocupação com o que os outros vão pensar ou dizer de nós. É isso que nos prende.
Não é questão de deixar de pensar em nós mesmos, mas de descobrir o nosso verdadeiro "eu mesmo".
Deus é Amor. Só Ele pode nos dar a liberdade para amar.
Como ler tudo isso à luz de Deus? Deus é Amor e me colocou neste mundo para amar. Deus quer que um dia eu ame e seja amado em plenitude. Como é que isso está acontecendo? Ou deixando de acontecer?
7. Pontos para reflexão