2. Deus é Liberdade

e nos faz livres

1. Introdução

Um dos fundamentos da espiritualidade franciscana é a vivência da liberdade. Não é uma proposta teórica. É muito prática, porque sem liberdade é impossível falar em um verdadeiro amor.

Há um sentido comum de liberdade, que consiste em "poder fazer o que se quer, não ter impedimentos". Mas a teologia católica tem um ensinamento ainda mais profundo: Deus é Liberdade por sua própria natureza trinitária e criou o ser humano para que pudesse ser participante dessa liberdade, recebida como um dom.

O cristianismo traz para o mundo a tremenda novidade de ser a religião da liberdade. Infelizmente nós não temos entendido isso, fazendo com que a nossa vida e a dos outros seja muitas vezes tão limitada. Ora, Jesus disse que veio para que tivéssemos vida em plenitude e isso é o que nós podemos viver e transmitir para o mundo.

Francisco foi um homem livre. Por isso nos encanta: ele mostra como deveríamos ser e como podemos ser. No fundo, a espiritualidade franciscana é uma espiritualidade de libertação, para sermos livres como Deus é livre, tanto quanto formos conseguindo.

2). Deus é Liberdade

Deus é Amor –

Essa revelação do Novo Testamento, tão repetida que parece banal, é uma das mais espetaculares novidades do cristianismo. Antes do anúncio do Evangelho, os que refletiam sobre Deus achavam que Ele não podia amar, pois amar era considerado sinal de uma carência. Jesus revela que a essência de Deus é amar, pois Ele é Trindade: uma comunidade que se ama por sua própria natureza. Deus é comunhão. Descobrimos que Deus é comunhão porque aprendemos que Deus é Trindade.

Descobrindo Deus ficamos sabendo que somos pessoas –

Foi o Evangelho que nos abriu para esta perspectiva totalmente nova: Deus são três Pessoas livres para amar. Os cristãos expressaram sua descoberta cunhando uma palavra nova para dizer amor: a palavra ágape. Antes só se conhecia o amor entre pais e filhos, entre homem e mulher, entre amigos. O Amor que é Deus, e que nós podemos viver, é novo, é "ágape".

Na filosofia grega antiga, pessoa era "prósopon" = aquilo que a gente tem diante do rosto, ou máscara. Para os antigos, não havia pessoa no sentido de hoje, o que havia era "personagem", isto é, fulano era o "padeiro", ou o "comandante", sicrana era a "cozinheira", ou a "mãe": estavam exercendo um papel. Perguntava-se pelo papel de cada um na família, na sociedade, não pela sua essência, pelo que ele era em substância. O que se esperava de cada um era que cumprisse bem o seu papel.

Claro que eles sabiam que, por baixo do papel que cada um exercia, estava o fato de todos serem gente, pelo menos os "cidadãos", excluindo escravos e estrangeiros. A isso, que estava por baixo, os gregos chamavam de "hypóstasis" (em latim: substantia): era comum a todos.

Entretanto, para entender e explicar o que Jesus tinha ensinado sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os primeiros pensadores cristãos foram obrigados a aprofundar e mesmo a buscar mudar os conceitos.

Começaram a pensar no conceito de pessoa como algo muito maior do que uma simples função: como alguma coisa que tem existência própria, que subsiste, que tem substância. Então aplicaram a palavra "hypóstasis" a cada uma das pessoas da Santíssima Trindade. Depois "descobriram" que há uma substância comum às três, que faz delas um só Deus. Para diferenciar de "hypóstasis", chamaram-na de "ousía", que passou a ser o novo conceito de essência-substância.

Desde esse tempo, ensina-se que não somos simples personagens executando papéis: cada um de nós é único. Mudou o conceito de "pessoa". Como as pessoas da Trindade, cada um de nós é único, é livre, e pode amar.

Importância da "pessoa" (hypóstasis) –

O Deus dos cristãos, revelado por Jesus Cristo é primeiramente trinitário – depois se descobre que ele é Uno. Se o que constitui Deus é ser "pessoa", a pessoa se conhece especialmente por ser alguém que ama, que doa toda a plenitude do seu bem. O Pai é fundamentalmente aquele que se dá no Filho e no Espírito Santo. O Filho e o Espírito Santo também se dão no Pai, eternamente. Então, a essência do nosso Deus é ser Amor. Ele seria amor mesmo que nós não existíssemos. Aliás, ele já era Deus plenamente antes de nós existirmos.

3. A Criação como ato de Amor

Nessa nova visão, dada pelo Evangelho, Deus não criou por necessidade, como pensavam os antigos, só porque o bem é algo que necessariamente se difunde. Ele criou por amor, livremente, quando e como quis. "Deus é Amor" é uma tremenda novidade para a qual ainda não demos a devida atenção.

Deus criou o mundo do nada –

É outra novidade da nossa revelação. Para os gregos antigos (as outras culturas e religiões pensaram nisso menos do que eles) tanto Deus como o mundo eram eternos, sempre existiram. O papel de Deus era pôr ordem no mundo, que, no começo, era puro "caos", ou confusão. Como não gosta do feio, Deus "criou" enfeitando, deixando o mundo bonito. Por isso, em grego, a palavra mundo era "cosmos", uma palavra que usamos até hoje. Ora, cosmos quer dizer bonito, enfeitado, adornado, tanto que chamamos de cosméticos os produtos de beleza.

Há coisas fundamentais na verdade cristã que estamos apresentando: 1). O mundo não é uma emanação que saiu de Deus necessariamente, sem que ele tivesse liberdade para deixá-lo sair ou não sair; 2) Deus fez o mundo porque quis transmitir o seu amor ao ser humano: preparou toda a criação para que nascêssemos em um ninho de amor. O mundo não é deus: é um dom do livre amor de Deus. Podia não existir.

A liberdade de Deus é para amar –

Deus está livre de diversas realidades que nos prendem. Está livre, por exemplo, do espaço e do tempo. Também está livre das paixões. Mas o importante não é estar livre de alguma coisa e sim ser livre para alguma coisa. Deus é livre para amar e nos fez livres para amar. Se nós estamos presos para amar, não é por vontade de Deus. Ele até quer nos livrar de tudo que nos impede de amar. Só que ele faz isso sem quebrar em nada a nossa liberdade. Se nós nos confundimos é porque, separados de Deus, tivemos que criar um outro mundo à nossa imagem.

4). O ser humano livre

Teologia e economia –

Para os santos Padres, "teologia" é o conhecimento de Deus, é o viver com Deus. A partir da teologia, eles procuraram iluminar a "economia", que, ao pé da letra, é o nosso jeito de "morar", de viver. Temos que iluminar nosso conhecimento da economia (como vivemos) aprofundando a teologia (como Deus vive, como Ele é).

Não há verdadeira liberdade sem a vivência da Trindade. Como a Trindade, nós somos, antes de tudo, relacionamento. Quando há, em nosso meio, pessoas diminuídas, excluídas, injustiçadas, há falhas - algumas muito graves - em nosso relacionamento.

Nós tiramos a liberdade dos outros sempre que não somos livres e liber-tadores. Se quisermos saber quanto somos livres, temos que observar como vivemos com os outros, dentro de uma sociedade habitualmente injusta.

Mas é bom lembrarmos que não existem apenas pessoas que desafiam nossos relacionamentos. Todos os que trazem algum amor para dentro de nossas vidas trazemnos a presença da Trindade.

Imagem e Semelhança –

A grandeza do ser humano é ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Somos pessoas co-mo ele, somos livres como ele. É claro que ele é pessoa, é livre, é amor por natureza, enquanto nós somos pessoas, livres e amor por participação. Nós podíamos deixar de ser, de existir, como já não fomos, não existimos. A história do paraíso e do pecado é para entendermos que, por amor, Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Essa era sua idéia inicial. Mas essa é também a nossa meta.

Somos imagem de Deus tanto na alma quanto no corpo. Nossa sexualidade, por exemplo, sendo um dos meios e uma das condições mais fundamentais de nossos relacionamentos, é uma excelente expressão de nossa vida trinitária concreta.

Quando nos descobrimos como gente, como humanos, como pessoas, descobrimos que não estamos sendo livres para amar (por isso, não estamos sendo pessoas em plenitude, não estamos sendo comunhão). Mas fomos feitos para isso e nossa meta é chegar lá.

Liberdade estrutural e liberdade funcional –

Os Santos Padres do Oriente distinguiam dois tipos de liberdade em nós: a "eleuteria", ou liberdade estrutural, que lembra que nós somos liberdade por natureza, à imagem de Deus, e a "proáiresis" ou liberdade funcional, que se refere aos nossos comportamentos livres. Isso quer dizer que eu posso viver totalmente desligado de Deus pelo pecado mas não perco minha liberdade de ir e vir, de usar esta ou aquela roupa, de falar ou ficar calado. Posso fazer tudo isso com liberdade sem ser livre para amar em profundidade. É importante essa distinção porque nos faz ver que, mesmo que não estejamos usando a liberdade na prática, pelos impedimentos de nossa situação de pecadores, a liberdade de estrutura pode ser até obscurecida mas nunca é perdida. Podemos sempre desenterrar esse tesouro.

O ser humano estruturalmente livre –

saiu assim das mãos de Deus mas só vai chegar a usar tudo que é na escatologia, quando os tempos se concluírem. É nesse sentido que devemos entender Adão e Eva livres no paraíso: é nossa firme utopia. Entretanto, precisamos entender que Deus já nos quis assim desde o início. A "escatologia" (= últimas coisas) coincide com a "protologia" (= primeiras coisas). Criado à imagem de Deus, o ser humano tem as qualidades que caracterizam Deus.

Por isso, não podemos confundir nossa liberdade com a simples capacidade de fazer escolhas, que é conseqüência. A liberdade não é nem uma pretensão nem uma conquista dos humanos: é dom de Deus, é graça. Fora da visão cristã, não há verdadeira liberdade – o que é há é apenas determinismo (achar que tudo já está determinado e só nos resta cumprir destinos) ou liberalismo (achar que se pode fazer qualquer coisa, porque não há princípios eternos ou divinos)..

Do que temos que ser livres –

O fundamental é sermos livres para amar. Podemos amar mesmo sendo presos ao espaço e ao tempo, mesmo tendo que trabalhar nossas paixões ou impulsos. Os Santos Padres antigos diziam que podemos nos libertar pela "ataraxia" (= não se deixar perturbar), e pela "amerimnia" (não viver pré-ocupado). Nossa liberdade é um dom que aprendemos a usar. Por isso, é um dom cujo uso temos que conquistar. Como o dom da música, que tem que ser cultivado.

Mas - e aí vem outro capítulo - nem sempre se trata só de conquistar o dom. Nós também temos que nos livrar do pecado, que feriu nossa imagem e semelhança de Deus e, por isso, nos fez perder nossa liberdade. Já nascemos usando mal a liberdade e por isso a liberdade tem que ser reconquistada. Quem a reconquista para nós e conosco é Jesus Cristo.

5. Francisco e Clara - A Fraternidade Pobre

Na experiência de Francisco e Clara, podemos dizer que o fundamento foi terem descoberto Jesus Cristo como uma pessoa da Trindade. Através dele, conheceram que Deus é o Sumo Bem, conheceram o Pai e o Espírito Santo, aprenderam a ser livres para corresponder ao Amor Infinito.

Por isso a Trindade está sempre presente em seus escritos e orações.Uma das que melhor expressam esse amor trinitário de Francisco é a oração de Louvores para todas as Horas, que ele dividiu em três partes, subdividindo as duas primeiras em outras três partes, terminando cada uma com um louvor explícito à Trindade e concluindo tudo com a sua melhor oração sobre Deus como único Bem.

A Trindade é o núcleo da Antífona de Nossa Senhora, da Forma de Vida para Santa Clara, da Carta aos Fiéis. Mas não se tratava de considerar Deus trino lá longe no céu: era uma forma de vida. Eles sabiam que nossos relacionamentos humanos são um reflexo da vida trinitária de Deus e os cultivavam assim.

Daí nasceu todo o movimento franciscano que, para ser uma vivência do amor trinitário, é vida fraterna. E, para amar como Deus ama, é pobre.

Nosso mundo fala muitas vezes em fraternidade, tanto que o lema da Revolução Francesa foi "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". Habitualmente o que entendem pela palavra é a busca de um entendimento cada vez maior entre as pessoas. Para os cristãos, é muito mais do que isso, pois já partem do princípio de que Jesus Cristo nos fez filhos do Pai Eterno e seus irmãos.

Para os Franciscanos, lembrando a Forma de Vida para Santa Clara, o capítulo 17 da Regra não bulada e a Carta aos Fiéis, a fraternidade é uma proposta muito clara de viver com os irmãos e irmãs como o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem entre eles: entregandose ao amor total, saboreando todo o encanto de Deus que se multiplica nas diversas pessoas.

Ora, o amor total pressupõe entrega total, isto é, que cada pessoa dê tudo no amor sem reservar para si mesma nenhuma apropriação. Como as Pessoas da Santíssima Trindade fazem entre si. Daí nasce a pobreza franciscana.

De fato, quem vive na fé o fato de ter irmãos e irmãs, não precisa guardar nada para si, pode entregar-se confiantemente ao amor dessas outras pessoas que entraram na mesma aventura.

Por isso, a vida franciscana pode ser uma excelente escola da verdadeira castidade: a que vai nos ensinando a amar com a mais perfeita liberdade. É realmente uma pena que, para muitas pessoas, ser franciscano ou franciscana muitas vezes só significou pertencer a um grupo de trabalho apostólico.

Santa Clara escreveu toda a sua Regra para a vida das Irmãs Pobres em cima da Forma de Vida trinitária que Francisco lhe dera logo no começo. Depois de dizer, formalmente, no início, que as Irmãs seguiam o Evangelho vivendo em castidade, constrói, para isso, a sua vida fraterna na pobreza.

Para Francisco e Clara, o pecado não estava em todos esses tabus que nós costumamos cultivar, muitos deles ligados à nossa sexualidade e aos nossos amores. Pecado era tentar viver fora da Trindade, perdendo o dom de ser livres para amar.

Quando rezava o Pai-nosso, Francisco lembrava a Trindade inteira logo de início, dizendo: Santíssimo Pai nosso: criador, redentor, consolador e salvador nosso... unindo dessa maneira os atributos que a teologia católica reserva a cada Pessoa do único Deus.

Quando a saúde não lhe permitiu mais correr os povoados falando do seu querido Deus Pai, Filho e Espírito Santo, teve a inspiração de escrever muitas cartas que mandava distribuir:

...me propus, por meio desta carta e de mensageiros, anunciar-lhes as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Palavra do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida (2CtFi 3).

6). Pontos para reflexão

  1. Se nós somos "estruturalmente" livres, nosso problema não é conquistar pequenas liberdades mas soltar, usar a liberdade que nós somos. Isto é: temos que descobrir como Deus é liberdade dentro de nós, a partir de dentro de nós. É uma liberdade sem limites, mas que precisamos cultivar. Em outras palavras: temos que ser a pessoa livre que Deus criou com amor como se fosse a única.
  2. Todo o nosso imenso desejo de liberdade está revelando: a) que não estamos sendo livres como poderíamos ser; b) que nascemos para a liberdade e que ela é possível.
  3. Toda a falta de liberdade que percebemos em nós mesmos e nos outros está mostrando que nem estamos sabendo ser imagem de Deus nem estamos permitindo aos outros que sejam imagem de Deus, ou, pelo menos, não os estamos ajudando como podemos e devemos.
  4. Francisco e Clara foram pessoas profundamente livres. Descobriram que o fundamental em Deus era o amor vivido pela Trindade: tiveram uma noção clara e constante das pessoas da Trindade. Também tiveram uma noção clara de que toda a nossa grandeza está em termos sido criados à imagem e semelhança de Deus, no corpo e na alma. Também nos ensinaram a sermos livres pela pobreza e pelo amor fraterno. E deixaram claro que é o pecado que nos rouba o dom e a possibilidade de sermos livres.estivermos caminhando para a nossa realização em Deus, estamos em situação de pecado. Por outro lado, se estivermos em situação positiva de caminho, mesmo as nossas quedas eventuais podem ser relativizadas. Nosso verdadeiro prejuízo são os pecados que se tornaram vícios, porque nos excluem da Vida plena.