4. O caminho da Liberdade -
1. Introdução
Nosso caminho para Deus é um ca-minho de volta. Jesus Cristo já nos deu as condições para voltarmos, mas somos como o filho pródigo que tem saudades da casa do Pai.
Nas outras línguas, não existe a nossa palavra saudades. Usam "nostalgia", uma palavra interessante porque recorda todo um aspecto humano muito desenvolvido pela literatura grega: o de "nóstos", que quer dizer "o caminho da volta". O fa-moso livro "A Odisséia" é um exemplo de "nóstos": conta o aventuroso caminho de volta de Ulisses depois da guerra de Troia. Nostalgia quer dizer exatamente: "a dor da volta".
Os Santos Padres da Igreja primitiva chamaram esse caminho de "ascese", que quer dizer "exercício". Para voltar, já que Jesus nos abriu a possibilidade, temos que trabalhar com entusiasmo a possibi-lidade de refazer nossa vida livre.
2). Como fazer um caminho
O caminho da libertação vai consistir fundamentalmente em ir criando espaços para o Deus Libertador, cada vez maio-res. São espaços que começam na nossa interioridade mas têm que chegar a ocu-par toda a nossa vida. Começamos indi-cando alguns requisitos.
a). Querer e colaborar
Para iniciar, temos que descobrir to-dos os nossos menores anseios de libertação para começar a cultivá-los. Só um i-menso querer vai levar-nos por essa ca-minhada.
Mas a primeira atitude é reconhecer que ter anseios de liberdade já é um sinal da graça de Deus atuando em nossas vi-das. Cultivar esses anseios quer dizer co-laborar com a graça. Note-se que é a graça da Liberdade total, porque é o Deus-Li-berdade que está agindo em nós, mas que nós colaboramos com aquele mínimo de graça que também é dom de Deus e que ainda não perdemos. Quanto mais a nos-sa pequena liberdade de pecadores se juntar à força da infinita Liberdade de Deus mais vamos nos adiantar no cami-nho. Os Santos Padres chamavam essa co-laboração de "sinergismo", palavra que mostra a energia que Deus e nós em-pregamos juntos.
Deus ajuda. Ele tem uma vontade infinita de nos ajudar. Mas não podemos esperar que ele faça tudo sozinho, porque o interesse é mesmo nosso.
b) Dar dinâmica ao crescimento
Como São Francisco e Santa Clara ad-vertem, muitas pessoas já começaram, mas a maioria abandona o caminho. Cada um de nós pode recordar inúmeras oca-siões em que fez isso.
Seria aconselhável anotar os próprios anseios fundamentais e retornar periodicamente a essas anotações para ver quais têm sido os progressos, animando-nos sem cessar.
É bom fazer uma espécie de histórico de nossa vida, para nos darmos conta das inúmeras vezes em que a graça de Deus esteve presente. É interessante ver nos Testamentos de São Francisco e Santa Clara como eles fizeram um caminho ar-doroso porque sempre souberam ver a mão de Deus agindo em suas vidas.
c) Observar a obediência aos mandamentos
Em geral, fomos ensinados a encarar os mandamentos de Deus, tanto o decálogo de Moisés como o mandato de amor de Jesus no Evangelho, como leis pesadas a que temos que nos submeter com sacrifício. Ora, essa atitude é um sinal de nossa escravidão. Temos que virar essa mesa. É preciso ir percebendo que nós só observamos o que Deus nos propõe quando o fazemos com um imenso amor e, é claro, com liberdade. Podemos avaliar o crescimento de nossa liberdade pelo interesse, prontidão, entusiasmo com que formos correspondendo a tudo que vem do Deus que é Amor. Essa foi a atitude fundamental de São Francisco que, mais do que tudo, queria ser obediente como o Filho de Deus sempre foi obediente.
d) A via ascética
Em geral, escutamos a palavra ascese com desconfiança e temor. Parece exigir de nós uma porção de sacrifícios e mortificações. Ora, "ascese" quer dizer simplesmente "exercício, treino". Como não podemos praticar esportes ou tocar instrumentos sem treino, também não podemos viver a liberdade sem a ascese.
Na ascese os exercícios trabalham com nossos impulsos naturais, também chamados de paixões. Consiste em perceber e anotar quais os principais impulsos que costumam agir sobre nós, darse conta de como reagimos a eles e planejar como podemos reagir mais positivamente.
A ascese é um exercício de liberdade. Trabalha com a força de Deus e pode mudar nosso coração e mesmo nossa mente. Dedicandonos a ela, podemos ir reconstruindo progressivamente a imagem de Deus em nós para sermos cada vez mais outros Cristos.
Um dos pontos fundamentais dessa progressiva identificação com Jesus está em trazer para a própria vida quotidiana a presença da morte vivificante de Cristo. Essa é a finalidade básica de nossa participação freqüente na Eucaristia. Isso é o que São Francisco chamava de "seguir os passos de Jesus Crucificado".
e) Algumas reflexões
Jesus disse que ele era o caminho. Evidentemente, o caminho de volta para o Pai depois que, como o filho pródigo, começamos a sentir na carne que não dá para continuar. Então, o nóstos é para a casa paterna, para os braços do Pai de Jesus, que é o Pai de toda ternura. Mas é principalmente uma volta ao Pai que é a Liberdade, até a liberdade de errar abandonando o que era nossa própria casa.
Quando rompemos com o Pai, precisamos criar um mundo novo "à nossa imagem e semelhança". Temos um trabalho enorme para administrar esse mundo porque, na realidade, é um mundo falso: tudo que está fora ou longe de Deus é falso, porque só Deus existe.
Nosso problema concreto é que temos que viver inventando coisas para tapar buracos. Vivemos cheios de ocupações e de remendos. É principalmente por isso que não somos livres.Amar pressupõe um darse contínuo, que não combina com a preocupação obsessiva de estar remendando a barca para não afundar.
As pessoas que fazem voto de castidade querem ser livres para amar, como Deus as criou. A visão do voto como uma negação do sexo é um dos aspectos do mundo que criamos, sem Deus, à nossa imagem e semelhança. É um mundo de receitas fáceis (viver sem relações sexuais pode ser difícil, mas a receita é facílima. É só dizer: tudo que é relativo a sexo é proibido). Também fica evidente que é todo um trabalho de libertação do que nos impede de amar. E podemos cultivar com êxito, numa perspectiva nova, todos os nossos anseios de um amor melhor.
a) O primeiro fruto é a pobreza na interioridade
Consiste em abrir espaço para Deus e para nós mesmos em nossa própria interioridade. Podemos dizer que Santa Clara ensinou a fazer isso quando disse: "Ponha a alma no esplendor da glória".
A pobreza, a primeira bemaventurança e também a fundamental, pois engloba todas as outras, é a imitação direta do exemplo de Jesus Cristo, que todos os seus discípulos devem seguir. Ele mesmo propôs isso no Evangelho. Santos como Francisco e Clara fizeram da imitação de Jesus pobre o fundamento da vida.
Observese que não estamos falando aqui da necessidade da pobreza, da ascese da pobreza. Estamos falando da pobreza como um fruto da liberdade. Quando percebemos que lá dentro de nós mesmos estamos conseguindo nos importar cada vez menos com os nossos sucessos, com as nossas inúmeras "vontades" muito próprias, com a nossa contínua preocupação de estender as mãos e os olhos para dizer "Isso é meu!", a liberdade está dando seu primeiro fruto: a pobreza.
Os Santos Padres também a chamaram, nesse caso, de "apátheia", a capacidade de controlar os nossos impulsos para que , além de nos deixarem livres para fazer o bem, sejam fonte de boas ações.
b) O segundo fruto é a tranqüilidade na Oração
Consiste em abrir espaço para Deus em nossa mente. Podemos dizer que Santa Clara ensinou a fazer isso quando disse: "Ponha a mente no espelho da eternidade". O aspecto fundamental de nossa oração é ouvir Deus. Quando podemos constatar que está ficando cada vez mais fácil ouvilo é sinal de que nosso caminho já está dando o seu segundo fruto: também conquistamos uma mente sossegada para soltar a liberdade de Deus dentro de nós. Os Santos Padres, especialmente na Igreja grega, usavam para essa situação uma série de palavras muito típicas. Falavam em "amerimnia", que é a capacidade de viver sem se deixar dominar pelas preocupações; em "nepsis", que é como um jejum interior que nos faz "comer" menos e apreciar mais o que entra dentro de nós; em "hesiquia", que é o sossego ou paz interior de quem ficou livre para acolher Deus lá dentro de sua casa. Mostravam que só começa a haver uma verdadeira oração (em grego, "proseuqué" quando a gente consegue dar a Deus toda a atenção (em grego "prosoqué").
c) O terceiro fruto é a liberdade para amar
Consiste em abrir espaço em nosso coração para amar a Deus em nosso próximo. Podemos dizer que Santa Clara ensinou isso quando disse: "Ponha o coração na figura da substância divina". Esse fruto vem quando nosso desejo fundamental é acolher Jesus Cristo, que é a figura visível de Deus.
Talvez se possa dizer que o normal é nós irmos aprendendo a amar as pessoas para chegar, pouco a pouco, a amar Deus. Mas a nossa verdadeira liberdade estará chegando, seus frutos estarão bem madurinhos em nossa árvore quando percebermos que depois de ter dado espaço para Deus dentro de nós e depois de o termos acolhido começou a ficar muito mais fácil amar com liberdade as pessoas, todas as pessoas, até as que nos pareciam "mais difíceis".
A esse amor totalmente novo na experiência da humanidade, os primeiros cristãos chamaram de "ágape", uma palavra formada a partir do verbo grego "agapan" que quer dizer: acolher com os braços e com o coração bem abertos.
Quando estivermos começando a colher este fruto, poderemos dizer com São João: "Quem ama já está na vida eterna". Não precisamos de mais nada.
4). Uma conclusão
Não devemos viver a ascese como uma experiência dolorida. A dor não está no caminho da volta, está no fato de ainda estarmos fora de nossa casa.
Por isso, mesmo quando sentimos que estamos sendo esvaziados por dentro, podemos e devemos festejar. Estamos chegando cada vez mais perto e podemos perceber que estamos dando à luz uma nova presença de Deus e uma nova presença das outras pessoas em nossa vida. Não sendo mais presenças possessivas, passaram a ser presenças libertadoras.
Por isso, é bom ter bem claro que, ao pé da letra, não temos que pensar em conquistar uma vida de oração melhor, ouuma vida espiritual melhor. Só temos que deixar que Deus, que vem ao nosso encontro, possa entrar em tudo que somos e fazemos sem encontrar obstáculos.
5). Pontos para a reflexão
Tudo que foi dito acima merece uma profunda reflexão. Mas gostaria de concluir dando algumas sugestões práticas que só lhe poderão fazer bem:
Outro caminho é ir aumentando progressivamente os espaços vazios (sem fazer nada e mesmo sem pensar) reservados para Deus em cada dia.
Outra proposta é dedicar tempo para servir os outros em ocasiões em que não podemos contabilizar nenhum mérito a nosso favor.
Mas, no fundo, o que é preciso é reforçar a vivência de que "só uma coisa é necessária". Se não estivermos ocupados com Deus, estamos jogando vida fora.