6. Como trabalhar o corpo
1. Introdução
Uma visão errada de castidade já nos fez fugir do corpo e até nos levou a negálo. Uma visão franciscana vai nos ensinar a nos voltar mais positivamente para esse dom de Deus que é o nosso corpo. Ou, melhor, que somos nós, porque somos espírito e corpo. Seremos mais castos usando melhor o corpo e não negando-o; valorizando-o, e não reduzindo-o.
Por outro lado, em nosso tempo, somos levados a um novo culto do corpo que, mesmo contraditório com o que ainda podemos estar carregando lá dentro, também nos faz mal. Refirome aos exageros com comida, roupas, comodidades, requinte dos ambientes, culto de uma forma corporal padrão ou neurose por não poder ostentála.
Vamos levantar algumas perspectivas positivas a respeito do nosso corpo, mostrar como São Francisco e Santa Clara nos ensinaram a viver o corpo e dar pistas para que trabalhemos melhor o nosso corpo. Procuraremos ver tudo isso na grande perspectiva da verdadeira castidade positiva: na perspectiva do Cântico dos Cânticos.
1). Pontos Positivos
a. O corpo revela o seu Autor
A contemplação de nosso corpo, parte por parte, sistema por sistema, ou em todo o seu conjunto, é a melhor revelação que encontramos de quem o fez: Deus.
Nós somos uma presença viva do Criador e o ponto mais concreto e mais à mão que temos para contemplá-lo é o nosso próprio corpo, que não é simplesmente algo que possuímos. Somos nós.
b. O corpo revela o inconsciente
Nossa interioridade é um mundo misterioso. É a dimensão em que não sabemos quem nós somos, porque entramos no nosso mistério, que nunca acabamos de descobrir, mas também porque passamos quase a vida toda tratando de esconder e falsear o que vem de lá de dentro. Pois o nosso corpo é justamente o melhor telescópio ou microscópio em que podemos estudar nosso mundo interior. O psicólogo Wilhelm Reich chegou a afirmar que o corpo "é o nosso inconsciente visível".
c. O corpo não mente
Podemos conhecer a interioridade pelo corpo, porque ele não sabe mentir. O ser humano foi desenvolvendo através dos milênios a sua capacidade lógica, a expressão verbal, e acabou desenvolvendo também, nessa perspectiva, a capacidade de mentir. Como descuidamos bastante de nosso corpo, ele não aprendeu a mentir. Hoje, é um tesouro para nós descobrirmos a verdade, sobre os outros e sobre nós mesmos. Basta aprender com cuidado a sua linguagem. Nosso corpo, com freqüência, desmente o que afirmamos com a boca.
d. O valor de nossa pele
O corpo faz a comunicação entre o mundo exterior e o interior através do seu envoltório: o extenso sentido da pele. Um sentido que se especializa para enxergar nos olhos, para captar os sons nos ouvidos, para perceber os perfumes no nariz, para saborear na boca mas que, em toda a sua extensão, percebe o que é duro e o aventurado pai manter o silêncio dentro do círculo de cinzas, sentiram não pequeno estupor em seu coração. De repente o santo se levantou e, diante das irmãs atônitas, recitou o salmo "Miserere mei Deus" em vez de fazer um sermão. Tendo-o acabado, foi embora muito depressa. As servas de Deus ficaram tão contritas diante desse episódio que choraram muito... Ensinou-as pelo exemplo a se julgarem cinza... (2Cel 207).
Também poderíamos lembrar a pregação do silêncio, que fez com um companheiro pelas ruas de Assis; o fato de ter se jogado na neve e feito os bonecos de neve (2Cel 116); o fato de ter se jogado nas roseiras; a cinza que esfregou na cabeça diante do noviço que queria um breviário (LP 79); a lição das couves com a raiz para fora; o fato de ter feito Frei Masseu (Fior 11) girar como um pião para saber em que direção deviam ir; a pregação diante do papa e dos cardeais em que ele se manifestou mais dançando do que falando (1Cel 73).
É saborosa a narrativa do Natal de Grécio, em que se diz que ele revirava na boca no nome de Jesus:
Muitas vezes, quando queria chamar Cristo de Jesus, chamava-o também com muito amor de "menino de Belém"ou "Jesus", saboreando a doçura dessas palavras (1 Cel 86).
Como são inesquecíveis as descrições de como pediu que um frade tocasse cítara para consolar seu corpo sofrido (2Cel 126); e a de tocar violino com pedaços de pau (2Cel 127).
Sobre Santa Clara temos, entre muitos exemplos de seus escritos, um testemunho da Ir. Angelúcia, que declarou no Processo de Canonização que, quando ela "enviava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente, quando vissem os homens e as outras criaturas, sempre louvassem a Deus por todas e em todas as coisas" (ProcC 14,9).
Por isso, São Francisco queria que seus frades testemunhassem alegria:
Gostava tanto de ver o homem espiritual cheio de alegria que em certo capítulo mandou escrever estas palavras, para exortação de todos: "Cuidem os frades de nunca se mostrar malhumorados e hipocritamente tristes, mostremse jubilosos no Senhor, alegres e felizes, convenientemente simpáticos (2Cel 128. Ver também RNB 7,15-16).
3). Como trabalhar o corpo
É claro que estamos precisando recuperar um uso mais livre do corpo que nós somos. Creio que um exercício interessante é o de aproveitar nosso tempo de oração para rememorar diante de Deus a história de parte por parte do que foi vivido em nosso corpo mas não se limitou só ao físico: entrou pelos aspectos psíquicos e espirituais.
Vou tentar dar dois exemplos interessantes, só para começar a ter uma idéia do que é possível fazer. A gente começa fazendo uma recordação dos pés sob o ponto de vista corporal: tenta lembrar tudo que já aconteceu com eles: se foram quebrados, torcidos, destroncados, feridos... No aspecto psicológico pode lembrar quantas vezes, por exemplo, a gente sentiu que alguém, em alguma situação nos "cortou os pés", isto é, nos deixou sem possibilidade de ação. Ou alguma outra coisa que se refira psicologicamente aos pés. A recordação espiritual vai lembrar como Deus tem dirigido nossos pés para que encontremos o caminho da Vida. Podemos lembrar passagens bíblicas como "Bemaventurados os pés dos que anunciam a paz".