7. Homens e Mulheres

1. Introdução

Espero que, neste altura de nosso trabalho, os leitores já tenham visto com clareza que, embora a mentalidade reinante ligue sempre castidade com sexo, nós temos procurado mostrar uma outra perspectiva, baseados na experiência de Francisco e Clara de Assis.

Precisamos dizer agora porque estamos fazendo isso. Não negamos que há um problema relacionado com o fato de sermos homens e mulheres e com o fato de podermos viver um intenso prazer em nossos corpos. Ao apresentar a castidade como a liberdade para amar, não vamos ignorar que a sexualidade está profundamente envolvida no amor. Mas não podemos simplesmente confundir amor com sexo, sob pena de desvalorizar esses maravilhosos dons de Deus, como costumamos fazer.

Por isso, vamos rever agora algumas noções para ressaltar os seus aspectos positivos.

2. Homens e mulheres

Lembramos que toda a Bíblia apresenta o amor de Deus sob a imagem do amor esponsal entre o homem e a mulher, atingindo seu ponto alto no Cântico dos Cânticos e chegando ao sublime no Novo Testamento. Mas não é fácil dizer o que são homens e o que são mulheres.

Nós nascemos machos ou fêmeas, como os animais e como as plantas, e nos tornamos homens e mulheres de acordo com formas culturais que, muitas vezes, são evidentemente preconceituosas e machistas. Quando a castidade se apresenta problemática é justamente por não saber se livrar desses preconceitos.

Na base, o problema é sempre o mesmo: quando nos dividimos em superiores e inferiores, sob qualquer ponto de vista, matamos a capacidade de nos amar com liberdade. Se a idéia cultural disser, como costuma dizer, que o homem é superior à mulher, está cometendo o mesmo crime que costuma perpetrar quando insiste na superioridade de uma raça ou de uma cultura sobre outra ou de uma classe social sobre outra.

O próprio Deus, para nos amar e ensinar a amar, colocou-se no nosso nível , disse e demonstrou que tinha vindo para servir e não para ser servido.

Muito mais místico que poeta, Francisco de Assis soube perceber que Deus manifesta a perfeição do seu ser através de uma variedade infinita de criaturas. Celano lembra:

Chamava todas as criaturas de irmãs, e de uma maneira especial, por ninguém experimentada, descobria os segredos do coração das criaturas, porque na verdade parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus (1Cel 81).

Se isso pode ser visto nas flores e nos insetos, quanto mais na variedade das criaturas humanas, que são sempre uma surpresa para nós! E de uma maneira muito especial no fato de sermos homens ou mulheres, numa demonstração sem fim do que Deus pode ser, tanto em sua perfeição quanto na união que podemos viver entre nós como Deus vive entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O que está pervertido em nós é a maneira de olharmos todas as coisas, inclusive as pessoas. Se tivéssemos ficado felizes por sermos semelhantes a Deus, olharíamos para tudo sentindo o nosso coração se abrindo para querer darse. Como quisemos ser deuses sem Deus, olhamos para tudo querendo possuir e aproveitar, mesmo que tenhamos que destruir.

É assim que costumamos perder a capacidade de ser livres para amar, principalmente na imagem e semelhança de Deus, que são os seres humanos, e na sua expressão mais bonita e mais profunda, que é a mulher para o homem e o homem para a mulher.

2. Mitos e "mitos"

Quando se referem aos preconceitos reinantes em nossa sociedade, especialmente aos que nos ensinaram de maneira errada o que é ser homem e o que é ser mulher, muitas pessoas falam nos mitos e na necessidade de desmitizar, de acabar com os mitos.

Acho que é bom começar esclarecendo as palavras, porque, no meu modo de ver, a melhor arma que a humanidade sempre teve para vencer os falsos "mitos" foram os verdadeiros e grandes Mitos, com letra maiúscula.

Um "mito" falso é uma afirmação criada pelos poderosos e muitas vezes engolida com certa facilidade pelos demais: visa sempre manter a supremacia dos fortes. São os dogmas culturais que infestam nossa sociedade. Entre eles contamse tanto a afirmação de que as mulheres são o sexo frágil, como a de que o sucesso econômico é sinal de superioridade ou de que algumas raças são evoluidas enquanto outras são atrazadas, preguiçosas ou incapazes.

Os verdadeiros Mitos são histórias muito antigas, que apresentam uma sabedoria profunda elaborada a partir do inconsciente coletivo de uma cultura ou de toda a humanidade.

Enquanto os "mitos" pequenos são quase todos profundamente machistas e destruidores, os grandes Mitos sempre preservaram os valores equilibrados do masculino e do feminino. Só não fomos destruídos até agora por nossos "mitos" porque sempre fomos salvos pelos grandes Mitos.

Neste caderno, já apresentamos a riqueza que se pode tirar de um Mito como o de Édipo. Em outros trabalhos, já mostramos como vão sendo fundamentais para a humanidade, através dos séculos, os mitos de Éros e Psiqué e, muito franciscanamente, o do Santo Graal.

Somos nós que podemos construir uma visão mais libertadora do amor na castidade aprendendo com Francisco e Clara a olhar as pessoas contemplativamente, para descobrir o tesouro inesgotável de presença de Deus (do Deus Amor, dos Deus Liberdade) que cada uma delas representa. Evidentemente, é uma visão que não poderemos dar à sociedade em que vivemos se não estiver profundamente arraigada em nossa compreensão e em nossa vida pessoal.

3. Francisco e Clara

Eles viveram do encontro profundo com Jesus Cristo, que supera todos os mitos, com letra minúscula e até com maiúscula. Foi com Jesus Cristo que aprenderam alguns dos elementos mais originais.

  1. Um de seus pontos mais positivos nesta questão é a pobreza. Conseguindo ser vazios interiormente, eles puderam acolher Deus em toda a plenitude de sua interioridade. As pessoas entraram em seus corações na medida em que Deus encontrou esse espaço. Por isso, foram capazes de amar a todas as pessoas, sem distinção de classe, raça, ou sexo, como parte do dom que é Deus.
  2. Sua visão mítica das realidades ajudou-os a personificar as virtudes e até mesmo as obras da criação. Personificaram-nas no masculino e no feminino, como na Saudação às Virtudes e no Cântico de Frei Sol. Ou na imagem esponsal das Cartas de Clara.
  3. Tudo começa mesmo com a convicção profunda de que Deus é o único Bem, o sumo Bem, todo o Bem. A partir daí, enxergam todas as pessoas e todas as qualidades, todas as coisas, como dons do Senhor, partes do Bem distribuídas com infinita bondade. Quem tem essa visão não consegue distinguir classes, raças, sexos ou estabelecer nenhuma outra discriminação.
  4. De fato, as distinções negativas entre as pessoas vêm do eu falso, criado por nós à nossa imagem e semelhança. Unidos e submetidos ao Deus verdadeiro, Francisco e Clara foram autênticos e deixaram de ver homens e mulheres com os preconceitos sociais de seus contemporâneos.
  5. Isso não quer dizer que foram criaturas privilegiadas, que já nasceram com uma visão diferente. Santa Clara observou que Francisco, certamente levado pelos preconceitos reinantes, tinha temido que as Irmãs fossem mais frágeis do que os frades para enfrentar a vida de pobreza mas, depois, percebeu que não eram. Ele foi se libertando pouco a pouco.
  6. Foi numa fraternidade progressivamente conquistada e aperfeiçoada que Francisco e Clara nos ensinaram e ensinam a olhar as pessoas de maneira diferente, aprendendo uma nova convivência. É na fraternidade que aprendemos a ser homens e mulheres novos.

 

4. Uma visão complementar

Creio que precisamos começar desmontando um preconceito. O de que homens e mulheres são complementares. Uma pessoa nunca é complemento da outra. Não tem cabimento dizer que o homem e a mulher são complementares entre si, embora seja verdade que estamos sempre complementando as tarefas e as contribuições uns dos outros, independentemente de sermos homens ou mulheres.

O que precisamos descobrir e cultivar é que masculino e feminino são elementos complementares da personalidade de cada um de nós, sejamos homens ou mulheres.

Não podemos confundir feminino com mulher e masculino com homem. O fato de sermos machos ou fêmeas nos distingue exteriormente e tem uma função perpetuadora do gênero humano que pode nem ser usada por alguns indivíduos particulares.

Mas o fato de sermos homens e mulheres é a qualidade que nos abre para uma riqueza infinita de relacionamentos, como os que existem entre as Pessoas da Santíssima Trindade.

Nosso tempo está nos dando condições de construir um novo relacionamento. Mas não é porque alguma guerra feminista esteja sendo vencida. Se for assim, não tem futuro. Em toda situação de guerra, ou um dos lados é destruído ou as duas partes costumam se alternar no poder, sem chegar a ponto nenhum.

Uma das maiores contribuições de Francisco de Assis para a humanidade está justamente em ter apresentado uma espiritualidade que inclui o feminino em sua constituição mais profunda, e num excelente equilíbrio com o masculino. Três anos depois de aprovada sua família de Irmãos Menores, abriuse a presença das mulheres com a entrada de Santa Clara e suas companheiras. Mais ou menos pela mesma época, teve início a arregimentação dos grupos de Irmãos Penitentes que viria a constituir a Ordem Franciscana Secular e a Ordem Franciscana Regular. Por isso, desde o começo, a família franciscana é predominantemente constituída por mulheres.

A história mostra que levou séculos para começar a haver um equilíbrio no respeito pela importância das mulheres dentro do movimento. Aliás, o processo não está terminado. Equilíbrio é algo que, por definição, está sempre balançando para que os pesos dos dois lados fiquem correspondentes.

Mas o importante é ver que o exemplo luminoso dos dois fundadores, Francisco e Clara, vai abrindo caminhos novos na medida em que seus seguidores conseguem conhecer e viver a proposta espiritual que eles legaram ao Povo de Deus por um puro dom do Senhor.

São Francisco e Santa Clara foram dois grandes amigos. Talvez seja o exemplo mais luminoso de uma amizade entre um homem e uma mulher em toda a história da humanidade. As visão popular tentou expressar essa maravilha através dos séculos em lendas, em romances ou em filmes em que os dois aparecem como namorados.

A história demonstra que foram muito mais do que isso. Eles não se complementaram um ao outro mas criaram uma proposta de vida espiritual com a colaboração dos dois e que ainda tem uma riqueza enorme a ser explorada.

Os seus seguidores têm o dever de aproveitar e apresentar à humanidade uma nova proposta de relacionamento.

5. Um novo relacionamento

Hoje em dia, diversas circunstâncias que só podemos atribuir à atuação de Deus na história, porque são maiores do que todo esforço que os humanos possam ter empreendido, intensificaram os relacionamentos entre homens e mulheres em setores onde, até pouco tempo atrás, isso era impossível.

É uma conquista, sem dúvida. Mas, como nós mesmos mudamos pouco, intensificou alguns problemas do passado, como o da sedução, do assédio, da exploração, levando a um grau de violência que nos surpreende.

Como seguidores de Francisco e Clara, temos excelentes alternativas para oferecer aos homens e às mulheres do nosso tempo.

1. Temos oitocentos anos de testemunhos de homens e mulheres que conseguiram santificarse com a mesma intensidade vivendo a espiritualidade francisclariana.

2. A partir dessa constatação, podemos mostrar que o serviço de acompanhamento e orientação espiritual pode ser feito da mesma forma tanto pelas mulheres como pelos homens.

3. Também podemos demonstrar que, se não forem cerceados os meios, tanto as mulheres quanto os homens podem ser estudiosos de valor, abrindo caminhos novos para todas as pessoas.

4. Se mulheres e homens podem ser tão santos, podemos demonstrar que há um vasto campo para renovarmos, mesmo dentro das normas da Igreja atual, uma vida litúrgica muito mais participativa e enriquecedora.

5. A vida fraterna já conseguiu escapar dos estreitos limites em que foi mantida durante séculos e mostrou que somos capazes de construir uma Família Franciscana em que a colaboração é intensa e progressivamente equilibrada.

6. A visão do trabalho como uma graça, ensinada por Francisco e Clara, deve renovar todas as nossas relações de patrões e empregados, tanto entre nós mesmos, que devemos ser sempre servidores, como entre nós e pessoas que consideramos subordinadas, tanto dentro de casa como na atividade pastoral.

7. Podemos dar muitos bons exemplos de como superar algumas divisões injustas entre tarefas e atribuições masculinas e femininas. Podemos mostrar como é preciso valorizar mais o trabalho das mulheres na Igreja, quase sempre mais intenso, mais submisso, menos gratificado.

8. Faz parte de nossa visão da castidade melhorar nosso julgamento das ações das outras pessoas, acabando com os patrulhamentos, vigiando as interpretações maldosas, as críticas e mesmo a linguagem desrespeitosa.

9. Aliás, nosso novo relacionamento tem que dar amplo espaço não só à urbanidade mas ao respeito, à gentileza e mesmo ao carinho.

10. É preciso não esquecer que essa atitude de urbanidade e respeito inclui toda a nossa linguagem corporal, sem omitir nem a nossa maneira de nos vestirmos e de nos comportarmos.

11. Como estamos,infelizmente, condicionados por nossos defeitos, é fundamental o testemunho do perdão e da misericórdia. Francisco e Clara nos deixaram exemplos muito válidos.

12. Não melhoraremos nosso relacionamento entre homens e mulheres se não tivermos uma alternativa válida para um mundo que está mercantilizando cada vez mais o corpo humano, principalmente o feminino. Não podemos ser coniventes nem ter atitudes descompromissadas.

É como alegres servidores do Sumo Bem, revelado de maneiras sempre surpreendentemente novas em cada pessoa humana que podemos abrir caminhos novos de uma amizade libertadora.

5). Pontos para Reflexão

  1. Reflita, discuta e anote que elementos negativos estão incluídos no conceito de "homem" e "mulher" que as pessoas ao seu redor costumam manifestar. E sublinhe os que conseguiram influenciar e ainda continuam a mandar em seus próprios comportamentos.
  2. Tente determinar as fontes em que você bebe esses conceitos negativos. Mas tente ver também de que pontos concretos você tem conseguido tirar elementos positivos para sobreviver e para crescer.
  3. Lembre alguns homens e algumas mulheres que marcaram sua vida pelos exemplos que deram. Possivelmente, escolha um número igual de homens e de mulheres. E anote todos os pontos positivos com que eles e elas enriqueceram sua existência e formaram sua personalidade. Valem também figuras históricas, mas não deixe de lembrar algumas pessoas concretas com quem você vive e viveu.
  4. Por quais qualidades boas que as outras pessoas têm, você costuma louvar a Deus? Como é que isso tem ajudado a construir sua personalidade?
  5. Quando você reflete sobre a sua castidade, só pensa em possíveis tentações libidinosas? Ou também lembra a sua maneira de viver com as outras pessoas?