9. A pureza do coração

1. Introdução

Podemos dizer que São Francisco tinha outra maneira de expressar o que hoje estamos chamando de castidade.

Ele só usou a palavra castidade uma vez em seus escritos, quando disse, na Regra, que os frades deviam viver "em obediência, sem nada de próprio e em castidade". Evidentemente estava empregando uma expressão consagrada para a vida religiosa, exigida pela Igreja para indicar que os frades não se casavam.

No Cântico de Frei Sol chama a Irmã Água de casta. As biografias contam que também chamou de casta a Irmã Cinza.

A sua expressão pessoal, amplamente usada é "pureza de coração". Mas também essa palavra pureza não deve ser entendida no sentido recente de uma certa "limpeza" diante do sexo, que foi considerado "sujo". Quando ele fala em coração puro, pensa na "pura, simples e verdadeira paz do espírito" (RNB 17,15).

Com essa expressão, entramos no coração da espiritualidade franciscana, porque somos levados a considerar que nos deixamos levar pelo "espírito da carne" - o nosso egoísmo - e nos afastamos do "Espírito do Senhor" - que é todo o sonho de Deus para nós.

Acredito que, neste capítulo, vamos mostrar a base da nossa visão da liberdade para amar. Se só somos livres quando amamos com o coração de Deus, vamos ver como São Francisco ensinava isso.

2. Carne e espírito

O texto principal em que São Francisco fala da pureza do coração já estava na Regra não bulada desde 1215 e ficou para história no capítulo X da Regra bulada e da Regra de Santa Clara.

Na versão atual da Regra não bulada (de 1221) o tema está ligado aos pregadores, mas é fácil perceber que a proposta é o fundamento de toda a espiritualidade franciscana. Na RNB 17, 9-16 lemos:

Por isso, todos os frades tomemos cuidado com toda soberba e vanglória; e nos defendamos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne (Rm 8,6); porque o espírito da carne quer e busca muito ter palavras, importando-se pouco com a ação, e o que quer não é a religião e a santidade no espírito interior, mas vive buscando uma religião e uma santidade que apareçam por fora para as pessoas. É desses que o Senhor falou: Eu vos digo, já receberam o que mereciam (Mt 6,2). Pois o Espírito do Senhor quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E busca a humildade, a paciência, a pura, simples e verdadeira paz do espírito. E deseja acima de tudo o temor divino e a sabedoria divina e o amor divino do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Toda a questão está na oposição entre o "espírito da carne" e do "espírito do Senhor".

A linguagem de São Francisco é forte, falando em desprezar, mortificar, ter a carne como vil e abjeta. Para que isso fique bem claro, é preciso lembrar que carne é tudo que nós somos sem Deus. De fato, tudo que construímos sem o Deus do amor só pode ser vil e abjeto, merecendo todo o nosso desprezo e um forte esforço de desmontagem. É essa carne que nos tira a liberdade para amar. Precisamos acabar com ela, ajudados pelo Espírito do Senhor. O tema é tratado muitas vezes nos escritos de São Francisco, mas outro texto muito significativo é o seguinte:

Assim pode conhecer o servo de Deus se tem o espírito do Senhor: quando o Senhor fizer através dele algum bem, se seu orgulho não se exaltar por isso, porque sempre é contrário a todo bem, mas se se tiver ainda mais diante dos olhos por mais vil e se estimar como menor do que os outros homens (Adm 12).

A chave está aí. Deus é o Bem, o sumo Bem, todo o Bem. Se Ele quer se dar a nós e nos encontra livres para receber o seu Amor e passá-lo adiante, estamos seguindo o "Espírito do Senhor". Se nos encontra presos, tentando segurar o Bem de Deus como se fosse uma conquista nossa, estamos sendo levados pelo "espírito da carne".

Em outras palavras: se eu amo uma pessoa ou gosto de uma coisa porque as recebo como um bem que veio com amor das mãos de Deus e vai ser aberto por mim para que todo mundo aproveite, tenho o "Espírito do Senhor". Se me aproprio de alguém, de alguma idéia ou de algum objeto achando que tenho o direito da conquista, fiquei no "espírito da carne".

O Espírito do Senhor só entra em quem tem a pura simplicidade.

3. A pura simplicidade

São Francisco fala muitas vezes da simplicidade. Uma das mais interessantes é na Saudação às Virtudes:

Salve, rainha Sabedoria, o Senhor te guarde por tua irmã, a pura Simplicidade.

Para São Francisco, a virtude mais importante, porque melhor expressa a qualidade de Jesus Cristo, é a rainha Sabedoria. Mas ela não existe sem a sua irmã, a pura Simplicidade. Simplicidade é uma palavra muito interessante. Vem da raiz greco-romana PL, que dá a idéia de abundância. No grego, temos palavras significativas derivadas dessa raiz, como plous = navegação (feita na abundância das águas marítimas) e ploutos = riqueza (lembrando a abundância de bens). Em latim temos a palavra plica, que na evolução linguística deu a palavra portuguesa prega. Nós não a usamos mais isoladamente, mas está presente em nosso cotidiano em palavras compostas. Se uma coisa é dobrada, duplica. Se a multiplicamos, triplica, quadruplica, etc. Se multiplicamos demais, complica.

Simples veio do latim sine plica, sem pregas, sem dobras, liso, descomplicado.

Creio que todos nós conhecemos pessoas sábias e sabemos que a sabedoria não consiste em ter uma montanha de conhecimentos mas em ser capaz de saborear as coisas da vida. Mesmo uma pessoa analfabeta pode ser sábia. O que não dá é para encontrar um sábio complicado, isto é, que não seja simples.

O adjetivo pura junto da simplicidade está recordando principalmente que a simplicidade não se mistura, porque não tem dobras para esconder coisa nenhuma. Quem é simples, é extremamente livre, porque nem está sonhando em guardar nada. Vai usar e passar para frente com alegria, saboreando o dom de Deus e saboreando a alegria das outras pessoas a quem o comunicamos.

No Testamento, 19, Francisco tem uma expressão interessante sobre os primeiros frades:"Éramos simples e submissos a todos". Em latim, o simples está como "idiotas". Eles se consideravam como pessoas sem valor na sociedade, que só prestavam para servir aos outros todos os dons que tinham recebido de Deus.

4. A verdadeira paz do espírito

Segundo São Francisco, quem se abre ao Espírito do Senhor busca sempre a pura simplicidade mas também a verdadeira paz do espírito.

O Santo está sempre insistindo em que todas as coisas devem ser "verdadeiras", provavelmente porque percebia, já em seu tempo, que temos a tendência de buscar virtudes que "apareçam por fora", como ele diz, mas que não produzem fruto, porque vêm do espírito da carne e não do Espírito do Senhor.

Mas ele também faz questão de lembrar sempre que a obediência é do Espírito, a humildade é do Espírito, as coisas boas são todas do Espírito. Por isso, a paz que ele deseja também é do Espírito e é verdadeira.

Ele contou no Testamento (23) que essa paz foi uma revelação do Senhor. Nas suas Regras (RNB 14,2 e RB 3,13) mandou que os frades desejassem a paz onde quer que chegassem. É muito conhecida a Bênção a Frei Leão, em que ele, inspirandose na bênção de Aarão, deseja a paz. Também sabemos como Santa Clara repetiu e desenvolveu essa bênção da paz para todas as suas filhas presentes e futuras.

Na segunda Carta aos Fiéis São Francisco já saúda a todos desejando "a verdadeira paz do céu e sincera caridade no Senhor" (2CtFi 1).

Temos uma explicação melhor na Admoestação 15:

Bemaventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Verdadeiramente pacíficos são aqueles que, com todas as coisas que sofrem neste mundo, por amor de nosso Senhor Jesus Cristo guardam a paz na alma e no corpo.

É muito interessante que, neste texto, não fale apenas em uma paz da alma mastambém na paz do corpo. E é bom observar que tanto a paz da alma quanto a paz do corpo são paz do espírito.

Quanto à paz da alma, poderíamos lembrar que a Admoestação 13, na edição crítica de Esser, também começa com "Bemaventurados os pacíficos" para dizer que nossa paciência e nossa humildade têm o tamanho que demonstram quando os outros nos fazem sofrer. Uma expressão parecida está na Admoestação 19: "... quanto é o homem diante de Deus, tanto é não mais", também com referência aos momentos em que somos desprezados.

Mas, e a paz do corpo? Seria bom lembrar que muitas de nossas doenças são devidas ao fato de não sabermos deixar o Espírito do Senhor perpassar até as menores células de nosso ser material.

Acho que ainda seria importante lembrar pelo menos mais duas oportunidades em que São Francisco mostrou seu profundo desejo da paz. Estão no Cântico de Frei Sol e na Exortação Audite Poverelle, que, aliás, foram feitos na mesma ocasião.

No Cântico de Frei Sol, ele chama de bemaventurados os que suportam em paz as enfermidades e tribulações, numa evidente alusão ao exemplo de Jesus em sua paixão. O texto é importantíssimo porque essa é a apresentação do ser humano no contexto das criaturas que louvam a Deus: aparecemos como os que, a exemplo do Crucificado, perdoam pelo amor de Deus e suportam em paz as enfermidades e tribulações.

O texto do Ouvi, pobrezinhas, é paralelo:

As que estão agravadas de enfermidades e as outras que por elas estão fatigadas, umas e outras suportai-o em paz porque vendereis caro essa fadiga... cada uma será rainha no céu coroada com a V. Maria.

Sabemos que Francisco, que estava passando muito mal, escreveu comovido para as clarissas porque soube que, devido ao forte inverno, muitas estavam doentes e as que não tinham caído de cama já estavam cansadas demais. Ele se esqueceu das próprias dores para animar as Irmãs a permanecerem na paz do Espírito.

Faço notar que essa atitude lembra pelo menos mais um exemplo da visão franciscana da paz: o da Carta a um Ministro. Nela São Francisco diz ao confrade que todo sofrimento enfrentado pelo amor aos irmãos é uma graça, que ele deve irradiar misericórdia nos olhos e oferecer misericórdia. Mais ainda: diz que cuidar dos irmãos com humildade, paciência, pureza de coração e verdadeira paz de espírito, é muito melhor do que estar em oração no eremitério.

Poderíamos ir longe se quiséssemos apresentar tudo que Francisco e Clara entendem pelo coração puro, tudo que vivem no seu desejo insaciável da Paz que é Deus. Mas o que vimos até agora já é suficiente para entendermos que viver a castidade é viver a vida fraterna como um dom. Quando, em vez de disputar ou concorrer uns com os outros, estamos a serviço, porque nos deixamos mover pelo Espírito do Senhor, somos aqueles bemaventurados construtores da paz de que Jesus falou no Evangelho.

6. Abençoar e desejar a paz

Uma das maiores diferenças entre os que são movidos pelo espírito da carne e os que são movidos pelo Espírito do Senhor está no fato de que os primeiros são apropriadores e puxam tudo para si, enquanto os segundos difundem quanto podem o Bem que é Deus e que chegou a eles de qualquer modo. É nessa perspectiva que devemos ver o mandato da Regra franciscana de sempre desejar a paz e também o costume de Francisco, de Clara e de toda a Família Franciscana através dos séculos de dar a bênção, abençoar, bendizer.

O mesmo capítulo 17 da Regra não bulada que traz a colocação fundamental da oposição entre o espírito da carne e o Espírito do Senhor conclui com uma exortação de anorme transcendência e de valor prático:

Atribuamos ao Senhor Deus altíssimo todos os bens... a Ele pertence todo bem.. só Ele é bom... De nossa parte, quando vemos e ouvimos alguém amaldiçoar, abençoemos; fazer o mal, façamos o bem; blasfemar, louvemos o Senhor, que é bendito por toda a eternidade. Amém (RNB 17 17-20).

É uma norma bem prática para quem quiser cultivar a presença do Espírito do Senhor em um mundo tão dominado pelo espírito da carne. Nós vamos vendo o bem que Deus faz, através de quem quer que seja, e o ressaltamos, proclamamos, louvamos, promovemos.Vamos vendo a presença do mal e do negativismo onde quer que seja e tentamos substituilo pela presença do bem. Muitas vezes, nem é preciso denunciar o mal.

A liberdade para amar foi dada de presente por Deus, foi recuperada por Jesus Cristo e é conquistada aos pouquinhos por cada um de nós. Mas é algo que não dá para ninguém conquistar sozinho: nós crescemos no amor na mesma medida em que somos capazes de ajudar todas as outras pessoas, e de modo especial as mais próximas, a também crescerem no amor.

Nesse sentido, é fundamental que estejamos sempre desejando o bem a todos e que também saibamos proclamálo em todas as oportunidades possíveis.

7. Algumas faltas de paz

Há uns pontos concretos em que muitas vezes vivemos mal a castidade por não termos uma verdadeira paz do espírito. Na realidade, são pontos em que nós já cedemos ao "espírito da carne". Vejamos os mais importantes:

1. Busca das comodidades –

Quando só se fica vendo televisão, buscando distrações e férias, procurando comer do bom e do melhor, exigindo conforto na casa e nos objetos de uso, querendo os melhores instrumentos de trabalho...

2. Compensações indevidas –

Se precisamos nos consolar comprando coisas com avidez consumista, dando ou recebendo presentinhos pouco justificados, metendonos em namoros irresponsáveis, cedendo a outras tentações de auto-satisfação.

3. Desvios da afetividade –

Quando precisamos ver nos outros um pai ou uma mãe que nos fazem falta, quando abusamos de nossas amizades só para nos divertir ou passar tempo, quando queremos tratar nossos companheiros como crianças...

4 Acédia

É um sinônimo de preguiça, mas não é material e sim intelectual e espiritual. A pessoa perde a vontade de crescer, de se desenvolver, de se aperfeiçoar.

5.. Solidão do coração

Quando não se vive nenhuma amizade séria, profunda, empenhativa. Quando se é fechado demais. Quando se foge sempre de tomar parte em recreações e outras atividades comunitárias.

É fácil perceber que, se nos deixamos levar por uma ou mais dessas situações, estamos precisando de um coração puro.

É aí que o Espírito do Senhor precisa entrar. Só ele pode nos trazer uma vida nova, a penitência, abrindonos para amar a Deus e ao próximo com liberdade. Considerando esses pontos, conseguimos entender porque São Francisco falou em desprezar e mortificar a carne, em considerála vil e abjeta. Claro! com todas essas cargas negativas, ficamos sem a liberdade dos filhos de Deus.

8. Pontos para a reflexão

  1. Quais são os bens que você poderia distribuir aos outros? Você tem medo de ficar sem nada? Dá para você pensar que todos os bens são emprestados por Deus? Você já pensou que tudo que você guarda só serve para complicar, não para enriquecer?
  2. Quais são as idéias e convicções que você poderia modificar para poder viver melhor o amor? Faça uma lista do que não pode mudar. Mas também faça a lista do que dá para mudar. Os construtores da paz sabem muito bem o que querem e o que pode ser cedido.
  3. Você consegue ter um comportamento transparente no ambiente em que está vivendo? Se há alguma coisa que o impede, o que é? Os de "coração puro" são livres principalmente porque não têm nada para esconder. Animam também os outros a serem transparentes e promovem a liberdade para amar.
  4. Para saber se você é uma pessoa simples ou complicada, procure examinar se em suas ações vai sempre ao que é essencial ou se costuma perder-se em detalhes secundários.
  5. Há pessoas que habitualmente transmitem uma sensação de paz aos ambientes em que vivem, mesmo quando têm que discordar e fazer correções. Você é uma delas? O que precisaria para ser uma evidência da paz de Deus para as pessoas que vivem com você?