10. O "não-lugar"
1. Introdução
Neste trabalho, nós estamos apresentando a castidade como um dom do amor recebido de Deus. Podemos e devemos cultivá-lo, mas é inicialmente algo que recebemos de presente, quando abrimos espaço para que Deus tome conta de nos-sa interioridade.
Ora, esse dom, por nos fazer amar com o coração de Deus, arrancanos da situação que nas pessoas, em geral, considera-se "normal". Saímos do "lugar" e do "tempo" em que habitualmente vivíamos, para viver no "lugar" e no "tempo" de Deus.
Santo Tomás More, um franciscano secular, deve ter entendido isso quando criou a palavra Utopia. Formada com o grego "u" (=não) e "topos"(=lugar) é uma palavra que quer dizer exatamente "não lugar". Quem descobre Deus vê que não tem lugar no "mundo dos homens". Descobre-se em um não-lugar. Para sermos completos, descobre-se também no tempo de Deus ou, diante das outras pessoas, em um "não-tempo". Não está mais no lugar e no tempo em que os homens que se esqueceram Deus estão construindo o seu próprio mundo.
2. Sair do século
Minha maneira de falar pode soar um tanto nova, mas o seu conteúdo sempre foi entendido pelos santos. No seu Testamento, São Francisco escreveu que, depois da experiência com os leprosos "me demorei um pouco e saí deste século". É claro que ele estava saindo do "tempo" e do "lugar" dos homens. Uma expressão muito mais antiga era "fuga mundi": quem passava para Deus tinha que fugir do "mundo".
A santidade sempre comporta uma "fuga mundi" mesmo quando o indivíduo não sai do meio das outras pessoas, como aconteceu com Francisco de Assis. Mas também acho que os que entraram no "não-lugar" e no "não-tempo" abriram o espaço interior para Deus, acolheram o Deus que é Liberdade e que é Amor, começaram a enxergar o mundo com os olhos de Deus e, como Jesus Cristo, são enviados de novo ao mundo de todos os homens e mulheres. Não para se identificarem com ele: para o transformarem. Por isso, já foi dito que "estão no mundo sem ser do mundo".
Talvez seja mais compreensível, hoje, não falar em "fuga" mas em mudança de perspectiva. No "lugar", amar é possuir ou é responder a uma necessidade; no "não-lugar" ama-se a partir de Deus, depois de ter acolhido Deus no espaço interior. Aliás, o "não-lugar" é o jeito de criar o "espaço de Deus dentro do coração. É uma outra perspectiva para o amor. A pessoa é acolhida como parte da presença de Deus e recebe o nosso amor no mesmo ato em que estamos amando a Deus. Para um amor verdadeiro, é preciso estar no "não-lugar" e no "não-tempo" de Deus.
Quando conheceu Jesus Cristo através de São Francisco, Clara teve consciência nítida de que não tinha mesmo lugar no mundo de seus parentes e de sua cidade. Digo consciência nítida, porque ela já conhecia Jesus Cristo numa intimidade muito grande e já estava dando, desde pequena, demonstrações de que era umapessoa "diferente". Na medida em que foi passando para Jesus Cristo, foi ficando em um "não-lugar". Sim, porque não se tratava simplesmente de mudar de lugar: todos os lugares conhecidos eram "lugares dos homens", não eram o "lugar de Deus". Havia até presença de Deus no mundo dos homens, mas o "lugar de Deus" parecia mesmo ser outra coisa.
A saída da casa paterna teve para Clara um alto valor simbólico: foi o momento em que deixou o lugar que não era dela e começou a viver de fato no "não-lugar". São Paulo das Abadessas, Santo Ângelo de Panço, São Damião... nenhum desses lugares era importante em si mesmo. Eles eram apenas tentativas de mostrar para Deus, para si mesma e para todas as pessoas que ela estava saindo do lugar de todo mundo. Nem o mosteiro e nem mesmo o grupo de Irmãs foram para ela um "lugar" em que podia estar no mundo. Foram o "não-lugar" de Deus. O que não a impediu, pelo contrário, levou-a a ser uma amiga da sua cidade.
O "não-lugar" dela não foi exatamente São Damião mas o mundo da contemplação de Jesus Cristo. São Damião, como as outras casas das Irmãs Pobres era um abrigo simbólico, como já tinha sido o deserto para os eremitas, como já tinha sido o mosteiro para os monges. A única coisa importante era que, ao atravessar a porta daquela casa, uma mulher vivia o sacramento de estar saindo de todos os lugares para entrar no "não-lugar" de Deus. É provável que Francisco, que também se sentira "sem-lugar" quando se desvaneceram seus sonhos de riqueza e glória e quando conviveu com os leprosos, também tenha tido a primeira experiência concreta de "entrar" no não-lugar de Deus ao passar a porta de São Damião e dar de cara com aquele Crucificado.
3. Companhia no "não -lugar"
Clara teve companheiras porque "Deus lhe deu Irmãs" como tinha feito com Francisco. Aliás, uma das primeiras revelações do nãolugar simbolizado em São Damião fora justamente essa: Deus queria encher aquele "não-lugar" de mulheres que renovariam a Igreja e o mundo. Outras mulheres também quiseram estar com Jesus Cristo mesmo perdendo o seu lugar neste mundo.
É verdade que, com o tempo, também entraram pessoas que simplesmente queriam estar ao abrigo de um mundo que lhes parecia difícil ou hostil, sem nunca vir a ter consciência de que o importante era sair para o "não lugar".
Clara lutou com todas as forças para manterse no não-lugar de Deus. Por isso, com ajuda de Francisco, criou um eremitério ou espaço de recolhimento em São Damião. Quando lhe deu uma "forma de vida" que, aliás, foi crescendo com a experiência quis deixar concreto como é que se vivia no "não-lugar". Creio que é nessa perspectiva que devemos entender tudo que ela escreveu. Era a perspectiva da "Forma de Vida" dada por Francisco em 1212, tão igual a sua "Antífona de Nossa Senhora": o lugar deles era a Trindade, o tempo deles era a Trindade.
Creio que o cardeal Hugolino pode ser considerado um amigo apesar de também ter sido um dos que não conseguiram entender o "não-lugar" de Deus, mesmo compreendendo muitas das propostas de Francisco e Clara. Talvez tenha até querido ajudar sinceramente quando protegeu o seu "não-lugar" com uma clausura. Era o que cabia em sua cabeça de homem do mundo (o mundo eclesiástico, inserido no mundo social e político dos homens, era decididamente um lugar dos homens).
dos homens porque estou convivendo com eles e tentando traze-los para o tempo de Deus. Mas, enquanto a maioria vive o curto tempo que passa, eu já estou vivendo o eterno, que não tem começo nem fim. Por isso São João disse que "quem vive o amor de Deus já está na vida eterna".
5. O Reino do "não-lugar"
Quando veio anunciar o seu Reino, Jesus quis estabelecer dentro do lugar e do tempo dos homens uma situação nova em que pudéssemos, todos, ir aprendendo a viver o lugar e o tempo de Deus. Ao pé da letra, uma "igreja" (do grego ekklesia = conjunto dos convocados para uma assembléia) seria um grupo de pessoas que aceitaram o convite de Jesus e passaram a constituir um lugar de Deus no meio dos homens. Os homens de fora podem não entender isso, mas as pessoas que estão dentro só podem ser consideradas "chamadas" (de kaléo) se tiverem a consciência de viver em um não-lugar" no meio do mundo.
Nessa perspectiva, como poderemos falar em "não-lugar" de Deus, em "não-tempo" de Deus? Parece que os que nunca conseguiram entender nada disso só podem falar em aspectos pequenos, como "clausura", "tempos fortes de oração" ou "horas de contemplação". E não vão ser as nossas explicações que vão poder deixar essas coisas claras, porque isso não depende de compreensão, depende da graça.
Um bom exercício é procurar nos escritos de Clara e Francisco algumas manifestações de que eles viviam no "não-lugar" e no "não-tempo" de Deus e tentavam falar disso às pessoas que não conseguiam entendê-los. Creio que uma dessas passagens é justamente a de Santa Clara dizendo-se "peregrina e forasteira". Mas todo o seu viver pobre e feliz, enclausurada e feliz, era um grito de apelo para o "não-lugar".
Uma história contemporânea interessante nesta perspectiva é a do Fernão Capelo Gaivota que, voando até se superar, passava para um outro tempo e lugar e depois voltava para ajudar as outras gaivotas que não sabiam sair do mundo simples e normal das gaivotas de todos os tempos.Outra história moderna é a do As Brumas de Avalon em que a fada Morgana e outras personagens estão passando constantemente do mundo real dos homens para o Reino de Avalon, que é paralelo e misterioso.
Mas o mito do Graal, começando com a história do príncipe que prova um salmão delicioso e se transforma em "rei pescador" porque nunca mais vai ter sossego enquanto não voltar a provar o mesmo gosto que só será alcançado quando o cavaleiro ideal libertar o Santo Graal é a história máxima para a compreensão do "não-lugar". E era conhecidíssima para Francisco e Clara.
Francisco e Clara se tornaram outros Cristos justamente por isso: entraram no "não-lugar" e no "não tempo" de Jesus Cristo.
Para quem está no não lugar e no não tempo de Jesus Cristo, que valor têm as conquistas, as riquezas, as vantagens do mundo dos homens? São como areia, são menos do que pó. Eles gostavam de lembrar isso.
Os contemplativos não são pessoas que fogem do mundo. Verdadeiros "con-templativos", quer vivam em mosteiros quer estejam no meio do mundo, são pessoas do "não-lugar" e do "não-tempo" que nos fazem viver desde já a eternidade e a liberdade de Deus.