11. A Eucaristia

1. Introdução

A liberdade para amar alimentase na Eucaristia, reunião festiva da fraternidade. Tem nela também o principal ponto de passagem entre o "lugar" dos homens e o "não-lugar" de Deus.

Não há verdadeira celebração eucarística sem uma verdadeira fraternidade. E a fraternidade não cresce sem a celebração eucarística. A Eucaristia não se esgota na Missa: tem que ser vivida o dia inteiro no relacionamento fraterno.

A Eucaristia é algo sem valor para os "sistemas" do nosso "mundo", que olha tudo a partir da produção e do econômico. Mas, para nós, é ela que forma o Povo, porque começa formando a família.

Para criar o mundo novo, Deus mesmo se fez comida e se pôs à disposição dos pequenos, clamando: Vocês tratem de me comer, de me assimilar, para que o "mundo" dos homens seja mudado na fraternidade dos filhos de Deus.

Os irmãos e irmãs que estão se libertando cada dia para amar, aplicam a Vida que comeram na Eucaristia à salvação do Povo. Transformam o mundo a partir da ceia do ágape, em que todos devem unir-se, sem excluir ninguém da mesa.

2. São Francisco e o Jesus da Eucaristia

"Homenzinho simples e iletrado", como ele mesmo se chamava, São Francisco deixou escritos que nos impressionam e Deus fala em tudo que existe. Fala até nas plantas, nos animais, em nós mesmos e no que acontece em nossa vida. Mas para Francisco era evidente que, quanto mais a Palavra chegava perto do Jesus Pessoa revelado no Evangelho, mais era Palavra. Por isso, tinha uma veneração especial pela palavra revelada na Bíblia.

Entretanto, Francisco ainda venerava mais as Palavras usadas na liturgia e de maneira muito especial as que fazem os sacramentos. A essas chamava de "santíssimas palavras" do Senhor Jesus Cristo.

Na Eucaristia: devolvemos os dons

Se Jesus Cristo é a manifestação de Deus Trindade feito pobre, que vem ao nosso encontro, é em Jesus Cristo que damos a resposta de amor ao Deus Trindade. E só conseguimos responder ao Pai, em Jesus Cristo, porque mora em nosso coração o Espírito Santo, que é o Amor de Deus. De fato, a Eucaristia quer dizer "ação de graças". Mas em São Francisco essa ação de graças é muito original:

Em primeiro lugar, ela é "obediência", no sentido mais fundamental de "prestar ouvidos" (obaudire). Deus fala uma Palavra de Amor, a gente ouve e responde com outra palavra de Amor. Deus se dá inteiro, nós devemos dar tudo que pudermos de nós mesmos. Para Francisco, Jesus foi o maior exemplo de obediência ao Pai. E, com ele, nós obedecemos respondendo ao Amor.

Em segundo lugar, para Francisco obediência é devolução. Como só Deus é bom, Ele é todo o Bem, todo bem vem dele, nosso amor só pode ser uma devolução do Bem que dele recebemos. O fundamento de sua pobreza é sempre devolver a Deus tudo que não estamos precisando. Só que, na Eucaristia, a gente "devolve" até o que está usando.

3. Santa Clara e o Jesus da Eucaristia

Clara escreveu pouco sobre a Eucaristia. Mas são fundamentais suas ações eucarísticas, porque vivia em todas as circunstâncias o esforço de transformar o seu mundo em mundo de Deus.

a) A mesa da família

Rublev pintou a obra prima dos ícones, a sua famosa Santíssima Trindade, representando a mesa do almoço que Abraão preparou para o Deus Trino (representado pelos anjos) sob o carvalho de Mambré. Mas, para ele, esse almoço era a ceia eucarística, tanto que o cálice contendo vinho em forma de cordeiro está em cima da toalha branca e a mesa tem o lugar reservado para a pedra de ara. A Trindade vive uma ceia de amor e a Eucaristia é o nosso jeito de – fraternalmente – tomar parte nessa ceia.

Nos cultos judaicos, é a mãe que prepara a mesa, na qual acende as velas quando surge a primeira estrela da noite. Clara foi uma mãe eucarística. Cuidou de pôr a mesa e cuidou de suas filhas para se sentarem ao redor da mesa.

Com Clara, em São Damião, tudo era eucaristia: cuidar da capela e cuidar da casa, da horta e – mais ainda – lavar as mãos e os pés das Irmãs, cobrir quem tinha frio, curar as doentes, porque é mais importante cuidar dos que vão se sentar à mesa com a Trindade do que deixar a mesa bonita e fazer a comida gostosa. É nessa perspectiva que entendemos todo o seu dedicado e carinhoso tratamento com todas as suas Irmãs.

b) O cordeiro imolado

A Eucaristia é um sacrifício. Substituiu os da Lei antiga. O povo judeu imolava cordeiros, desde o tempo de Abel,

4. Nós e a Eucaristia hoje

A reflexão que fizemos sobre a maneira de Francisco e Clara viverem a Eucaristia não nos deixa dúvida nenhuma: para eles, não há nada mais concreto de Deus neste mundo do que o mistério do corpo e do sangue de Cristo que nós celebramos em nossos altares. Foi vivendo intensamente essa presença transformadora de Jesus Cristo que eles renovaram o mundo, com uma força que não se esgota oitocentos anos depois.

E nós? Que é que fazemos com a Eucaristia? Não é verdade que, apesar do nosso encontro diário com Deus vivo o mundo continua sempre o mesmo?

a)Renovar a sociedade

Tanto Francisco quanto Clara, pelo que sabemos, foram pessoas que, ao se encontrarem de um forma mais consciente com Jesus Cristo, perceberam que o mundo em que estavam vivendo não era o mundo de Deus. Tiveram a coragem de "sair do mundo". Mas não saíram nem do lugar nem do tempo em que estavam vivendo: saíram da mentalidade, saíram das ideologias, saíram do que "todo mundo" achava certo.

Não pegaram armas nem faixas. Sabiam que a questão não era substituir os poderosos de plantão: era mudar a si mesmos e a todas as pessoas que fosse possível pela sabedoria do Evangelho e pela força da Eucaristia. O "mundo" da maioria continua mau. Mas, para Francisco, Clara e seus seguidores já não é o mesmo. Podemos começar a deixar o mundo diferente hoje mesmo. Como?

Em primeiro lugar é preciso convencer, pessoa por pessoa, que é burrice ser cada dia dono de mais coisas e cada dia mais poderoso. Se nos convencermos de que a salvação do mundo, mesmo do poção e morte cada vez que celebramos a Eucaristia, é a presença da Vida que vence a Morte e nos liberta.

Uma das "mortes" mais cruéis no tempo de Clara, como no nosso tempo, era a das guerras e das violências. Ela deu um magnífico exemplo de como vencer essa morte: fez levar o Santíssimo Sacramento ao encontro do medo das Irmãs e da agressividade dos sarracenos.

Outra morte de uso quotidiano é nossa capacidade de nos isolarmos, até com a desculpa de servir a Deus e ao próximo, deixando nossos irmãos e nossas fraternidades privadas do nosso amor fraterno. Santa Clara venceu essa morte com a Eucaristia, quando rompeu as tradições seculares para tornar o refeitório um lugar de encontro, recreio e trabalho, para fazer as doentes terem a consolação da conversa fraterna, para abrir a possibilidade de comunicação amiga e cheia de ternura.

Outra morte que costumamos infligir aos irmãos é a da soberba e da divisão. Clara estendeu a mesa da Eucaristia ao refeitório para dar uma saída de penitência e reconciliação.

Pistas para reflexão

  1. Se participamos da Eucaristia, é fundamental buscar união e identificação com o Cordeiro em tudo. Como estamos assumindo os sofrimentos do nosso povo? Como estamos nos imolando?
  2. Se temos acesso diário à comunicação entre o nosso mundo e o mundo de Deus naquele pão que nos transforma, como estamos sendo – diante de Deus e diante dos homens – voz do povo que não tem voz?
  3. Gostamos de um ambiente agradável, fraterno. Como o estamos construindo para que todos se sintam uma família reunida para a Ceia do Senhor?

 

4. Nós e a Eucaristia hoje

A reflexão que fizemos sobre a maneira de Francisco e Clara viverem a Eucaristia não nos deixa dúvida nenhuma: para eles, não há nada mais concreto de Deus neste mundo do que o mistério do corpo e do sangue de Cristo que nós celebramos em nossos altares. Foi vivendo intensamente essa presença transformadora de Jesus Cristo que eles renovaram o mundo, com uma força que não se esgota oitocentos anos depois.

E nós? Que é que fazemos com a Eucaristia? Não é verdade que, apesar do nosso encontro diário com Deus vivo o mundo continua sempre o mesmo?

a)Renovar a sociedade

Tanto Francisco quanto Clara, pelo que sabemos, foram pessoas que, ao se encontrarem de um forma mais consciente com Jesus Cristo, perceberam que o mundo em que estavam vivendo não era o mundo de Deus. Tiveram a coragem de "sair do mundo". Mas não saíram nem do lugar nem do tempo em que estavam vivendo: saíram da mentalidade, saíram das ideologias, saíram do que "todo mundo" achava certo.

Não pegaram armas nem faixas. Sabiam que a questão não era substituir os poderosos de plantão: era mudar a si mesmos e a todas as pessoas que fosse possível pela sabedoria do Evangelho e pela força da Eucaristia. O "mundo" da maioria continua mau. Mas, para Francisco, Clara e seus seguidores já não é o mesmo. Podemos começar a deixar o mundo diferente hoje mesmo. Como?

Em primeiro lugar é preciso convencer, pessoa por pessoa, que é burrice ser cada dia dono de mais coisas e cada dia mais poderoso. Se nos convencermos de que a salvação do mundo, mesmo do poderoso mundo tecnológico, é aquele pedacinho de pão que se perde em nossas mãos, nós mesmos vamos nos convencer de que precisamos ser bem menores do que somos. E quem é menor, colocase a serviço dos outros. Quem freqüenta Jesus Cristo tem que sair cada dia mais parecido com ele: cada dia mais a serviço dos outros. E aprendendo com Ele a paciência milenar de esperar mas empurrar decididamente todo mundo para estar a serviço dos outros. Se conseguirmos isso, a sociedade já começará a mudar.

Em segundo lugar, vai ser preciso valorizar os pequenos. Como Jesus fez quando esteve no mundo. Agora ele está no mundo através dos que comem o seu pão. Estes, embora reconheçam que são seus irmãos até os que têm qualquer tipo de poder para fazer maldades aprendem com Jesus e com Francisco a ter prazer em estar no meio dos desprezados, dos excluídos e dos que não têm vez. Para convencêlos de que são amados, de que têm um valor infinito, de que também eles podem mudar o mundo.

Em terceiro lugar, é preciso arregimentar os pequenos para se unirem ao Jesus pequeno da Eucaristia para ir vencendo, mesmo em doses bem pequenas, todas as situações de morte que costumam cercar a nós todos, mas especialmente aos mais excluídos deste mundo. É preciso saber agarrar cada situação de morte, apresentá-la como um pedido de perdão na hora da Eucaristia, transformá-la na consagração, devorá-la na comunhão e sair de lá com alguma solução concreta e imediata para que a morte se transforme em vida.

Em quarto lugar, é preciso ser uma contínua força de libertação. Se as pessoas com quem convivemos e com quem trabalhamos não estão sendo libertadoras dentro de suas possibilidades, vai ser preciso lembrar a palavra dura de Jesus: É melhor deixar a sua oferta aí na frente do altar e ir resolver primeiro os problemas com os seus irmãos.

b) Na sua santa memória

Em todas as Missas repetimos mais de uma vez as palavras litúrgicas - algumas do próprio Jesus - lembrando que estamos fazendo aquilo "na sua santa memória". Não pode ser apenas nostalgia. Tem que ser uma recordação viva do que ele fez no seu tempo para libertar os oprimidos daquela situação, isto é, tem que ser uma oportunidade para nós lembrarmos os oprimidos de hoje, do nosso meio, e fazermos alguma coisa de concreto, como o Jesus que curava doentes, dava pão aos famintos, salvava perseguidos, esclarecia as situações.

Celebrar na memória de Jesus também é dar-se conta do que Deus está conseguindo fazer no meio do seu povo. Todo mundo está acostumado a ouvir as piores notícias. Precisamos conhecer o que Deus está fazendo através dos seus mártires de hoje, de suas comunidades perdidas no interior, nas periferias ou mesmo no centro das cidades.

Os que vão às reuniões eucarísticas são pessoas desgastadas pela desunião: em suas casas, no mundo do trabalho, nas escolas, nos problemas sem conta dos bairros e das cidades, além de oprimidas pela comunicação de todas as divisões e guerras do planeta. A memória de Jesus tem que fazer aquele pedacinho de pão levar as pessoas de volta para os seus problemas mais fortes, mais unidas, mais confiantes em suas possibilidades.

c) Ponto culminante

Todas as cidades têm igrejas em que está presente a Eucaristia. Muitas de nossas casas têm um lugar sagrado em que guardamos esse pedaço de matéria que é presença da ressurreição de Jesus e da nossa. Todos os dias ou, pelo menos, todas as semanas, vamos nos encontrar ao redor do Cristo da Eucaristia.

Não há nenhum feito humano que possa comparar-se ao fato de conseguir ter Deus em um pedacinho de pão. Então, esse lugar e esse momento são os mais importantes e precisam ser o ponto de luz de tudo que se faz na casa, na cidade, nas nossas lutas e nas nossas conquistas.

Pistas para reflexão

  1. Até que ponto temos consciência de que o tipo de sociedade em que vivemos não é o sonho de Deus? E não é só mudar o sistema político, econômico, cultural, ou o que seja. É questão de reconstruir tudo na ótica da vida eterna, dos "olhos do espírito". Estamos convencidos disso? Se não estamos, é claro que nossas Eucaristias vão mudar nada.
  2. Até que ponto vale a pena estar celebrando Missas com massas de anônimos, mesmo que todos estejam se movimentando e cantando? Não seria preferível que, em torno de Jesus Eucarístico, todos procurassem se conhecer, saber os problemas que têm que ser resolvidos, conhecer as forças presentes com que se pode contar, e sair como alguma decisão?
  3. Não haverá nada errado quando tantas pessoas deixam suas casas e seus trabalhos, ainda que pelo reduzido tempo de um hora, para ir ao encontro de Jesus Eucarístico e saem de lá sem uma comunicação de vida nova, sem uma palavra concreta de esclarecimento, sem uma disposição diferente de união e de serviço ao próximo?
  4. Como é que o nosso Pão está fazendo crescer o não-lugar de Deus?