12. O Cântico dos Cânticos

1. Introdução

Quero concluir este caderno sobre a liberdade para amar, como nos é dada pela visão franciscana da castidade, recordando o livro bíblico do Cântico dos Cânticos. Porque viver a castidade é um cântico, é transbordar de júbilo.

A pessoa que soube acolher o dom da liberdade para amar descobriu que a vida tem um sentido muito bonito. Viu que Deus está sempre vindo ao seu encontro: em cada objeto, em cada planta, em cada animal, em todos os acontecimentos mas, principalmente, em cada uma das pessoas que vai entrando em nossa vida. Tudo canta o Deus que nos ama.

A Bíblia encontrou esse símbolo do amor entre o homem e a mulher como a melhor maneira de falar do amor entre Deus e o seu Povo, entre Deus e cada um de nós. Por mais pálido e insuficiente que seja, é um símbolo válido de toda a intimidade que Deus quer ter conosco.

Por isso, quem o descobriu vive cantando. E, segundo o livro do Apocalipse, vai continuar seguindo o Cordeiro, Jesus Cristo, onde quer que ele vá por toda a eternidade, cantando a alegria sem fim. O Apocalipse fala de "cântico dos virgens". Não são os que não se "sujaram" no contato com mulheres, como poderia fazer crer uma leitura literal, mas os que souberam deixar todo espaço para Deus que vinha ao seu encontro. São os que se deixaram encontrar pelo Libertador.

2. O livro dos Cantares

"Cântico dos cânticos" quer dizer o cântico por excelência. No sec. I depois de Cristo, quando os judeus discutiram se esse livro devia mesmo constar na Bíblia, pois havia quem o lesse como obsceno e indecoroso, um rabino chamado Akiba disse que "o dia em que foi composto o Cântico dos Cânticos valia mais do que qualquer coisa deste mundo".

De fato, teve a preferência dos grandes místicos, como São Bernardo e São João da Cruz e expressou de uma maneira muito bonita uma das idéias centrais da Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento: a de que Deus nos ama como um esposo.

Considerandoo materialmente, ele deve ter sido composto pela reunião de trechos de diversos cânticos de casamento tanto da Palestina como da Babilônia e do Egito. É uma espécie de diálogo entre um noivo e uma noiva, intercalado às vezes por comentários de grupos de amigos do esposo ou companheiras da esposa. Os dois exaltam o amor, mas mais do que tudo os dotes físicos um do outro.

Numa leitura espiritual, ele fala de Deus. Está repleto de símbolos, mas é preciso alertar que, mais do que uma alegoria (em que pedacinho por pedacinho pode querer estar dizendo alguma coisa simbólica) ele é uma parábola (em que o importante é o sentido geral). Nesse sentido parabólico, o Cântico foi escrito para falar do amor de Deus-Esposo por Israel, o Povo que Ele assumiu como esposa. Só que o sentido mais pleno seria entendido apenas depois do Novo Testamento: é o amor de Jesus Cristo pela Igreja, é o amor entre Deus e cada um de nós.

Eu diria que esse livro é o cerne da Bíblia, porque a Bíblia é a comunicação do amor de Deus. Nós só ouviríamos falar disso claramente através de Jesus, e principalmente na Primeira Carta de São João, mas ele já estava lá, pelo menos uns quinhentos anos antes de Cristo.

Mesmo hoje, o que ele devia ensinar-nos é a clamar o que Santa Clara escreveu a Inês de Praga em 1253:

Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando, com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, tua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca (4CtIn 27-32).

Todas as Cartas de Santa Clara vibram com reminiscências do Cântico dos Cânticos e nos ensinam uma prática do amor que nossa cultura parece ter perdido: amar não é lutar com pecados, é deixar-se invadir por Deus e saber saborear e fruir de todas as manifestações de sua bondade que nos convida.

3. A Bíblia ilumina

O mesmo Deus que é o Autor da Bíblia foi antes o autor do mundo. Sua revelação entregue ao Povo constitui, digamos, uma nova chave de leitura: podemos reler o que o mundo sempre nos dis-se mas com os "olhos do espírito" abertos pelo Espírito do Senhor, em vez de ficarmos simplesmente com a visão negativa que nos dá o "espírito da carne".

Foi Deus quem inventou o homem, a mulher e o amor entre eles (éros) só para que pudéssemos entender o seu Amor pelo gênero humano. Esse amor nos dá a possibilidade de entendermos que somos o povo que Deus ama como uma esposa.

As pessoas que Deus põe em nossa vida com um amor especial são a melhor experiência dele que Ele nos faz ter. Seja mãe, seja pai, seja namorado ou namorado, seja amigo ou amiga.

Se eu sou uma mulher, posso até ter uma experiência, ao ser amada por um homem, de como é que Deus me ama. Eu sei como posso amar, como posso retribuir o seu amor.

Se eu sou um homem, ao amar uma mulher, posso ter experiência de como Deus ama a nós todos. Ao ser amado por uma mulher, posso experimentar o que Deus espera de nós todos.

Todo povo é feminino diante de Deus. Toda alma é feminina diante do Esposo.

Mas todo homem pode ter uma experiência de Deus como mulher, assim como toda mulher pode ter uma experiência de Deus como homem.

Mas o amor entre o homem e a mulher nunca chega a saciar, porque é apenas uma iniciação a um amor que tem que ser muito maior, pois foi feito para ser infinito.

Quando a mulher arranca o homem de dentro dele mesmo, prova-lhe que ele nasceu para o Infinito. Quando o homem arranca a mulher de dentro dela mesma, prova-lhe que também ela nasceu para o Infinito.

Há um ponto em que podemos alcançar a saciedade: o encontro corporal. Mas há mil outros pontos que clamam que nós somos e temos que ser insaciáveis.

Mesmo que um homem encontre em uma mulher a sua companheira ideal, para todos os dias de sua vida, jamais consegue fechar-se ao encanto de todas as outras mulheres, porque todas elas são aspectos variados do Infinito que o atrai. Mesmo que uma mulher encontre em um homem o companheiro ideal para toda a sua vida, jamais conseguirá esquivar-se à atração de todos os homens, porque eles também são aspectos do Infinito.

4. O Amor infinito

O homem e a mulher enamoram-se porque encontram um no outro partes consideráveis de Infinito. E ficam com uma sede cada vez maior do Semfim.

Sentimonos limitados pelo tempo. Vamos precisar estar no "não-tempo" para que o nosso amor encontre o caminho da saciedade, ou da não-saciedade infinita.

Sentimo-nos limitados pelo espaço, pelas separações, pelos setores desconhecidos... vamos precisar de uma multidão de homens e de mulheres – no "não-lugar" – para termos uma idéia de como Deus nos ama, de como somos amados por Ele e podemos amá-lo.

Castidade é o amor que nunca se prende ao tempo nem ao espaço. Castidade é o amor que se abre em profundidade para as pessoas sem as possuir, sem querer apropriarse delas, porque a apropriação mata o amor. Castidade é conseguir beber tudo que for possível do Infinito em cada gota de amor que qualquer pessoa for capaz de nos apresentar. E toda pessoa pode apresentar um oceano, se soubermos encontrar a chave de seu coração. E todos os corações se abrem quando nós temos um coração que sabe ouvir.

Muitos santos e santas, como Francisco e Clara, já viveram uma boa amostra do Cântico (uma coisa que todas as pessoas podem provar) e uma multidão já o tem em plenitude (isso é "vida em plenitude") no não-lugar e no não-tempo, que são o céu, vivido mesmo antes da morte, porque é o encontro com Deus.

Por isso, longe de ser medo de amar, como muita gente parece pensar, a castidade é a entrega sem limites à liberdade de amar. De amar todos, de amar tudo, porque é a liberdade de amar Deus em tudo e em todas as pessoas.

Ela existe quando recebemos esse dom de enxergar por trás de tudo o amor infinito de Deus que nos busca como se fôssemos sua única criatura.

5. Dodí lí wa aní lô.

Quem decidiu ser de Deus e já fez um esforço sério para encontrá-lo, teve mil oportunidades de constatar que Deus começou a nos procurar primeiro. Sua força está nessa frase curta e transcendente que o livro do Cântico dos Cânticos repete várias vezes: Dodí lí wa aní lô - O meu Amado é meu e eu sou dele!

Vamos recordar um pequeno trecho, para amostra:

A voz de meu amado!

Vejam: vem correndo pelos montes, saltitando pelas colinas!

Meu amado é como um gamo, um filhote de gazela.

Ei-lo postando-se atrás de nossa parede, espiando pelas grades, espreitando pela janela.

O meu amado fala e me diz:

"Levante-se, minha amada, formosa minha, venha a mim! Veja: o inverno já passou! Olhe: a chuva já se foi! As flores desabrocham na terra, o tempo da poda vem vindo, e o canto da rola já se ouve em nosso campo. Despontam figos da figueira e a vinha florida exala perfume. Levante-se minha amada, formosa minha, venha a mim! (Cant 2,813).

Apesar de todos os problemas que enfrentamos cada dia em nosso mundo, Deus é aquele que não nos esquece, que está sempre mostrando os aspectos bonitos deste jardim em que nos colocou. Deus é aquele que vem despertarnos do sono para sairmos ao encontro da primavera. Ele sabe mostrar como podemos caminhar seguros no meio de todas as trevas porque aprendemos a enxergar a luz do seu rosto.

Ao ler o Cântico não podemos nos prender ao sentido material de expressões que lembram as "curvas das tuas coxas", nem " os teus seios que parecem meias romãs", ou "ao beijo mais doce de tua boca". Como ninguém de hoje pensa em elogiar o cabelo de outra pessoa dizendo que ele "parece um rebanho de cabras que saíram do banho", nem acha que uma mulher é bonita porque se parece "com a égua atrelada ao carro do faraó" e jamais vai dizer, por mais carinho que tenha, que o nariz da pessoa amada é "como uma torre". Temos que captar o conteúdo total. Se o captarmos, todos os detalhes podem até ajudar, porque teremos olhos do espírito para entende-los.

Com os olhos abertos pelo Espírito do Senhor, conseguiremos ler nas expressões idílicas do rapaz e da moça apaixonados que estão no Cântico dos Cânticos à luz da famosa página do capítulo 25 de São Mateus: Quando o menor dos irmãos de Jesus estava passando fome, Deus, o meu Amado, estava declarando o seu amor por mim. Quando tantas pessoas estão sem casa, sem trabalho, sem a dignidade de uma roupa decente, sem o respeito pela sua raça... Deus, o meu Amado, está perguntando ansioso se, de verdade, eu também sou dele.

Quando a maioria tenta me convencer de que as pessoas têm que ser avaliadas por seu dinheiro, por seu sucesso, ou execradas por suas "culpas", se eu souber deixar tudo para construir um mundo melhor nem que seja dando alguns minunutos de minha inteira e amorosa atenção a quem precisa, estarei podendo repetir com muita propriedade: "O meu Amado é meu, e eu sou dele!".

6. Uma contribuição específica

O tema tratado neste caderno não está restrito a uma dimensão pessoal (como eu vou dar conta do meu dever de castidade?) e nem à vida interna de uma fraternidade franciscana. Os seguidores de Francisco e Clara de Assis estão no mundo para fazerem as pessoas acreditarem que podemos construir uma alegre fraternidade universal. Para durar eternamente, mas que começa desde já.

Quem acredita que o Esposo-Deus já chegou na pessoa de Jesus Cristo e já está presente no mais profundo de seu coração, podendo ser olhado como aquele espelho interior em que Santa Clara ensinou a pôr a mente, a alma e o coração, leva a liberdade de amar para todos os setores da vida humana, sem se importar com a profissão que exerce ou com o tipo de pessoas que encontra.

A imensa família franciscana, que consta de tanto de religiosos e religiosas como de leigos e leigas, está presente no mundo para oferecer a todos essa alternativa de vida que teve a graça de aprender quando abriu o coração pela pobreza franciscana e acolheu o Deus de Amor que traz para dentro todos os seus filhos e filhas.

Vivemos em um mundo que segue o "espírito da carne", mas não fomos deixados nele para sermos os seus críticos e sim para despertarmos, pelo nosso testemunho, aquela sede que está sepultada mas não morta no fundo do coração de todos os seres humanos: o desejo de gritar com o Espírito: Vem, Senhor Jesus, vem! Maranathá!

6. Hino aos livres

Este caderno quer ser um hino a todos os que aprenderam a amar. A todos os que, solteiros ou casados, consagrados ou simples membros do Povo de Deus, nunca deixaram de oferecer uma alternativa palatável e bonita a um mundo que desvalorizou a palavra amor porque a envolveu em escravidões consumistas.

Estas páginas querem ser um estímulo de coragem para tantos homens e mulheres que souberam renunciar ao que era mais pessoal para se abrir ao serviço de tantos outros que ficaram sem nada.

Querem chegar ao coração dos que, às vezes, sentem-se sozinhos em momentos difíceis porque muitas pessoas nunca pensam em retribuir o amor. Construir o Reino é mesmo um parto doloroso, mas vale a pena.

Querem lembrar que foi graças à castidade oferecida como dom votivo, tanto a Deus em pessoa como a Deus em suas infinitas manifestações nas pessoas, que foi possível termos homens e mulheres que deixaram tudo que tinham para ir a outros povos, para cuidar de pobres e crianças e doentes com quem ninguém queria se envolver.

É graças a pessoas assim consagradas que muitos dos pequenos, dos excluídos e dos esquecidos puderam encontrar quem lhes desse atenção.

É claro que muita gente não os entendeu e que parecem até aumentar os que têm cada vez mais dificuldades para entende-los. Mas não importa. Quanto o Filho de Deus veio ao mundo também não foi entendido pela maioria e também realizou muito pouco se quisermos medir suas atividades pelos padrões dos sistemas de eficiência que já existiam e foram sendo exacerbados na história.

Neste hino aos que enfrentaram lutas e vivem se libertando para amar, também penso em tantos homens e mulheres que fizeram a sua consagração mas, por problemas diversos, nunca conseguiram libertar-se. Ou ainda não conseguiram libertar-se. Ou até ficaram mais presos do que antes de deixar suas famílias para buscar um caminho de Deus.

Não devem desanimar nunca, porque sempre é tempo. Nós sabemos que estamos todos em um processo de libertação. Não importa se alguns já conseguiram muito e se outros ainda estão precisando começar. O que importa é que o Deus de Amor quer que todos sejam livres para amar.

7. Propostas práticas

  1. Não se deixe levar pelo clima hedonista (do prazer só pelo prazer) e consumista (de comprar de tudo só para se consolar) tão violentamente inculcado em nossos dias pelos meios de comunicação.
  2. Não se deixe dominar pela visão moralista (que só enxerga pecados e julgamentos) que reina em alguns ambientes religiosos. Viver Deus é viver o amor e a liberdade.
  3. Você tem que ser uma alternativa nos ambientes em que vive. Seu exemplo deve convencer as outras pessoas de que é possível ao mesmo tempo ser muito livre e, justamente por isso, amar com intensidade sem abusar de ninguém.
  4. Não prenda ninguém. Anime todas as pessoas a se soltarem. Mostre como é que a gente se liberta. Nunca se esqueça de que o Filho de Deus deu a vida para que nós pudéssemos ser livres.
  5. Comece com as pessoas mais próximas. É em casa que se aprende a amar, que se ensina a amar, que se vive um amor livre de máscaras e de rodeios.