INTRODUÇÃO   GERAL

UM   ROTEIRO   DE   CONTEMPLAÇÃO

 

Contemplar não é difícil, pois é uma dimensão do humano, com que todos nós nascemos. Mas é claro que é uma potencialidade que tem que ser desenvolvida e precisa ser trabalhada. Se alguém estiver sentindo dificuldade nessa fundamental dimensão de sua vida, pode saber que tem que cultivar muito melhor sua interioridade. E precisa fazê-lo quanto antes, porque está perdendo uma parte considerável do que é ser profundamente humano.

Quando falamos em contemplação, pensamos em oração, não em uma simples contemplação observadora ou científica. E pensamos numa oração que não é oral nem mental. Claro que são boas as orações em que a gente fala ou medita, mas queremos tratar da oração em que a pessoa simplesmente se abre para acolher Deus em qualquer das suas manifestações. A partir da manifestação do próprio Cristo que ora dentro de nós.

Em todo o mundo, em todas as culturas e religiões, sempre houve muitas maneiras de cultivar o dom da contemplação. Dentro do cristia­nismo, tanto no Oriente como no Ocidente, essas escolas se multiplicaram e algumas sempre tiveram grande destaque. Neste livro, nós estamos focalizando uma delas, a de Francisco e Clara de Assis, com todos os seus seguidores em oitocentos anos, não porque acreditamos que seja a melhor mas porque pode ajudar muita gente que tem grande simpatia pelo Pobrezinho de Assis e porque é bastante simples de se entender, principalmente para começar. Também porque em geral não se encontram livros à mão, como para as escolas orientais ou para as espiritualidades beneditina, carmelita ou inaciana.

Vamos tentar escrever sobre a memória da contemplação de Francisco, de Clara e de seus seguidores, guardando o exemplo vivido. Não queremos apresentar uma teoria do possível mas mostramos o que já foi feito neles por Deus. Eles mudaram de visão quando foram levados para o meio dos leprosos e dos pobres e aprenderam a ver o mundo com o olhar de misericórdia que só Deus tem.

Temos muita consciência da montanha de dificuldades que costumam ser levantadas para quem pensa em contemplação. Desde os que afirmam, com ar autoritário, que contemplar é um privilégio de alguns santos, até os que acham que tudo isso é pura perda de tempo e até uma irresponsabilidade, com tanta coisa para fazer em um mundo tão necessitado.

O que mais nos impressionou foram as dificuldades das pessoas, principalmente jovens, que procuraram com sêde alguma oração mais profunda, mais pessoal, mais silenciosa e, apesar de todo seu espírito de luta, se encontraram com o muro das contradições ou simplesmente com o vazio de pessoas que foram buscadas como “religiosas” e não viviam nem conheciam nada nesse setor.

É por isso que este livro tenta ser o mais fácil possível e se apresenta como um roteiro ou itinerário. Que pode ser usado nos estágios de formação, por grupos ou por pessoas sozinhas. Aliás, a oração sempre foi apresentada como um processo que se desenvolve ao longo de um caminho. Os antigos falavam nas “vias” (purgativa, iluminativa, unitiva) que, no fundo, continuam sempre as mesmas.

Esta nossa proposta parte de algumas bases mestras: a de rezar com os olhos, de cultivar o desejo interior, de fazer um processo e de comprometer-se com as pessoas. Usa intensamente o exemplo de Francisco e Clara de Assis. Como todos os que escreveram sobre este tema na antiguidade, também aproveita os conhecimentos de outras ciências contemporâneas, neste caso, principalmente da psicologia analítica de Jung.

Nosso esquema consta de cinco partes progressivas, em que três são as colunas mestras: o Desejo, a Cruz, a Utopia. Outras duas fazem a passagem intermediária da primeira para a terceira e da terceira para a quinta. Devagar, queremos ajudar a passar de uma visão no mundo dos desejos a uma visão concreta no mundo da realidade, ajudando o olhar a ser transparecedor.

Na primeira parte, a que demos o nome de Desejo e Sonho, estudamos:  1. Como os desejos nascem do Espírito de Deus que vive em cada um; 2. Como Jesus Cristo é o sonho do ser humano realizado; 3. Como se entra no mundo interior dos desejos; 4. Como trabalhar com esse mundo de sonhos.

Na segunda parte, os Choques, em que enfrentamos o choque dos nossos sonhos com os dos outros, são abordados quatro temas: 5. As máscaras; 6). As raízes; 7. O inconsciente coletivo e os quatro arquétipos; 8. A energia dos polos opostos.

Na terceira parte, a Cruz, a fundamental em todo o nosso trabalho, enfrentamos a Cruz da dor e do amor: 9. O Crucificado; 10. O Espelho de Clara; 11. A União profunda; 12. Felizes os Pobres.

Na quarta parte, a Redenção, começamos a ver como tornar os Sonhos Possíveis. Enfrentamos: 13. Livres de tudo; 14. O Caminho da oração; 15). Que é Amar?; 16. O Encontro mais profundo.

Na quinta parte, a realização, vamos à Utopia dos sonhos possíveis. 17. Que é Utopia; 18. A Mãe do Reino e da Contemplação; 19. Celebrar; 20. Anunciar a Conversão.

Em cada capítulo, procuramos situar bem o sentido do tema na introdução e, depois de desenvolver o assunto em um texto com subtítulos, recolhemos o principal em uma Conclusão. Além disso, oferecemos algumas sugestões de atividades práticas e uma oração conclusiva que enfeixa a reflexão numa prece.

A mola mestra de tudo é o cultivo do amor seráfico, fundamento de toda a espiritualidade de Francisco de Assis.

Como nossa grande proposta é aprender a viver no mundo da interioridade, torna-se fundamental, para o nosso caminho, familiarizar-se com a linguagem simbólica, para a qual vamos sempre chamando a atenção.

 

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Olhos do Espírito teve duas pequenas edições, em 1991 e em 1992. Agora chega à terceira, e tem servido em muitos lugares para ajudar a formação de jovens franciscanos e franciscanas. Já foi traduzido na Itália e na Argentina, onde se aguarda para breve a sua publicação.Alegramo-nos com isso mas continuamos a achar que este é um trabalho modesto, sem nenhuma pretensão. Além de algumas pequenas correções e de uma nova apresentação tipográfica, só passou a ter as notas no pé da página, deixando no corpo do texto apenas as citações bíblicas.

         Os livros citados são, quase sempre, as Fontes de São Francisco e de Santa Clara. Para São Francisco, usamos a obra: São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, que citamos sempre de acordo com o nosso exemplar da primeira edição, de 1981. Além do título da Fonte e de sua citação por capítulo ou número, acrescentamos a palavra Vozes e o número da página.

         Para Santa Clara, utilizamos as Fontes Clarianas, publicadas por nós em junho de 1993. Seguimos o mesmo método: damos o título do documento, mais a citação do capítulo e/ou versículo, e colocamos as páginas depois da indicação Fontes Clarianas.

         As citações não seguem a metodologia dos trabalhos científicos. O livro é mais que tudo um texto para a formação, e preferimos citar os documentos por extenso para facilitar a consulta.

 

Piracicaba, 30 de setembro de 1993

Frei José Carlos Corrêa Pedroso