1ª PARTE - DESEJO E SONHO

 

Toda oração é, fundamentalmente, algo que sai lá de dentro de nós e se encaminha para Deus, arrastando-nos. Ora, a primeira coisa que sentimos brotando lá de dentro de nós são os desejos, é a capacidade profunda que temos de desejar. Na vida e nos escritos de Francisco e de Clara de Assis, surpreendemo-nos com a freqüência da palavra ou da idéia de desejo, uma das mais usadas. Só para dar alguma amostra, vamos ver em seus biógrafos:

“Estava cheio de fervor e, se houve no passado alguém que o igualasse na vontade, ainda não se encontrou quem o igualasse no desejo” 1.

“Passado algum tempo nesse lugar e havendo conseguido por uma oração contínua e uma contemplação freqüente uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade. Essa foi sempre a sua maior filosofia, seu maior desejo, em que ardeu enquanto durou sua vida” 2.

“...Doçura e suavidade, que a tão poucos são dadas mas que a ele tinham sido infundidas do alto, arrancavam-no de si mesmo e lhe davam tanto prazer que desejava de qualquer maneira passar de uma vez para o lugar onde uma parte de si mesmo já estava vivendo” 3.

“Foi esta sua filosofia particular, foi esse seu mais ardente desejo enquanto viveu: consultar os sábios e os simples, os perfeitos e os imperfeitos, os grandes e os pequenos, de que maneira poderia chegar mais facilmente ao cume da perfeição...” 4.

Na medida em que uma pessoa vai conseguindo ter consciência de seus desejos, costuma elaborá-los como um sonho, um grande sonho de acordado. Nossas grandes realizações são realizações de sonhos que alimentamos a partir de nossos desejos. Mesmo dos desejos inconscientes, que nunca sabemos quanto se misturam aos desejos conscientes.

Entretanto, sabendo que o grande desejo é o desejo de Deus, podemos descobrir que a presença do desejo de Deus em nós é o Espírito Santo que nos habita como em um templo. E que o objeto do seu e nosso desejo é Jesus Cristo, a plenitude do homem perfeito.

Nossa proposta é justamente a de descobrir dentro de nós a medula do que desejamos para nós mesmos, que pessoa queremos ser ou que Cristo é o nosso ideal. Para isso vamos tentar aprofundar um pouco tanto o Cristo que se propõe no Evangelho como o mundo de nossos sonhos.

Vamos tentar um caminho de contemplação justamente a partir dos desejos que constituem o nosso sonho de Deus, um sonho que precisa ser realidade.

 

1 Primeira Celano 93. Vozes p. 245.

2 Primeira Celano 92. Vozes p. 244.

3 Primeira Celano 92. Vozes p. 244.

4 Legenda Maior 12,2. Vozes p. 548.

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A ENERGIA DO DESEJO

INTRODUÇÃO

São Francisco enxerga o seu desejo com os "olhos espirituais". Começamos vendo qual o uso da palavra "espírito" em nosso linguajar quotidiano.

Depois de percorrer em grandes linhas a atuação do Espírito de Deus no Antigo e no Novo Testamento, estudamos também a presença do Espírito na obediência franciscana.

Concluimos considerando que o Espírito é a grande energia que move o ser humano, pois é dele que nascem os nossos desejos.

1. QUE É O ESPÍRITO?

Estamos iniciando uma proposta de oração contemplativa na visão de São Francisco. Em seus escritos, o santo usa apenas uma vez a palavra "contemplação". É na primeira Admoestação, quando diz: "Eles... (os apóstolos), enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais, creram nele como seu Senhor e Deus (cfr. Jo 20,28)..." 1.

É preciso recordar que São Francisco usa as palavras "corpo" e "espírito" com o sentido que têm na Bíblia (mais em São Paulo que no Gênesis) e não no sentido pós-platônico em que costumamos usá-las, fazendo separação entre o corpo e a alma.

Vai ser muito importante, em todo o nosso estudo de São Francisco, ter bem em mente esta oposição entre "carne" e "espírito", que é constante em sua boca 2. Mas, a grande razão é a importância da presença constante do Espírito no pensamento e na vida de Francisco de Assis. Uma presença positiva e muito forte, base de toda a sua "espiritualidade".

É interessante começarmos, desde já, com uma reflexão sobre o sentido etimológico da palavra espírito, que também nós usamos bastante. Falamos de coisas espirituais mas também de “espírito de nosso tempo”, “espírito de um povo”, “espírito da coisa”, e mesmo “espírito de porco”.

“Espírito de porco” tem quem é sempre do contra, quem faz exatamente o oposto do que lhe pedem. É uma observação da natureza do animal. Curiosamente, observamos esses “impulsos” ou “jeitinhos” especiais de cada animal. Outro exemplo conhecido é o da palavra “capricho”, que lembra a teimosia das cabras, tanto no sentido pejorativo como no sentido positivo.

Nosso povo também fala muito nos espíritos por causa das religiões africanas, baseadas na possessão pelos espíritos ou orixás, que “fazem a cabeça”, numa interessante maneira de entender os “deuses” que pode ser comparada à dos deuses gregos.

Espírito vem do latim “spiritum”, que quer dizer sopro, vento, energia, impulso. Tem, em grego, duas palavras correspondentes: “ánemos”, de onde vêm nossas palavras anemologia, anemógrafo e mesmo ânimo e animal (através do latim), e até alma (também através do latim ánima), e “pneuma”, de onde temos pneumonia, pneu, pneumatologia. Algumas pessoas ainda se lembram de uma palavra que foi muito usada: espiriteira, um pequeno fogareiro a álcool, pois o álcool também já foi chamado de “espírito” do vinho ou da cana.

Para darmos base ao nosso estudo, será interessante fazer uma revisão geral, mesmo que apenas em grandes passos, da presença do Espírito na Bíblia. Gostaria de recordar que os “olhos espirituais” de São Francisco são como os olhos dos discípulos de Emaús, que Jesus abriu explicando as Escrituras e realizando com eles o sinal simbólico da partilha do pão.

2. O ESPÍRITO NO ANTIGO TESTAMENTO

A primeira vez que encontramos o espírito na Bíblia é logo na primeira página. Depois de dizer que “No princípio Deus criou o céu e a terra”, o Gênesis continua: “A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o Oceano e um vento impetuoso soprava sobre as águas” (Gn 1,1 e 2). Muitas traduções dizem: “o Espírito de Deus” (tradução ao pé da letra) soprava sobre o caos”. É interessante o uso da imagem simbólica de uma ave que “paira”, isto é, não consegue pousar os pés na confusão. Ainda mais se formos ao texto hebráico e constatarmos que o verbo usado está mais para “chocar” do que para pairar. A energia de Deus estava infundindo vida à criação ainda informe.

É pouco depois que encontramos uma segunda apresençação do espírito: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou ser vivo” (Gn 2,27). A palavra usada é a mesma: “ruah”, uma palavra interessantemente feminina, que quer dizer sopro, vento, impulso.

A mesma palavra está na famosa expressão do Salmo 103 (hbr.104): “...Se retiras o teu espírito, morrem e voltam ao pó. Envias o teu espírito, e são recriados, e renovas a face da terra” (Sl 103,29-30). Daí tiramos nossa tão usual invocação: “Enviai Senhor o vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra”.

Mais adiante, pouco depois de Moisés e o povo partirem do Sinai, Deus resolve dar auxiliares ao guia de sua gente e diz: “Retirarei um pouco do espírito que há em ti e incutirei neles, para que te ajudem a carregar o fardo do povo e já não o suportes sozinho” (Nm 11,17). Logo adiante se diz que: “Apenas sobre eles pousou o espírito, puseram-se logo a profetizar...” (Nm 11,25).

Um dos pontos mais interessantes é quando vamos encontrar o Espírito agindo nos patriarcas e nos profetas e formando o Povo, um povo comparado por Deus a uma noiva muito amada, mesmo não sendo fiel e boa 3. Mas Deus a ama com firmeza, quer levá-la para o deserto (Os 2,16), vai procurando santificá-la. A partir daí, fica bem claro que Deus não é apenas um Deus sempre presente mas também unido ao seu Povo, uma vez que o seu próprio Espírito é o companheiro da Esposa e começa a se manifestar em toda a plenitude do Amor em Deus para com a humanidade. É muito bonita, neste sentido, a página que podemos ler no cap. 62 de Isaias.

O Antigo Testamento ainda vai dizer muito sobre o Espírito, mesmo não chegando a revelar que se trata da terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ponto alto é a profecia de Isaias 11,2 ss: “Repousará sobre ele o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor do Senhor”, e também a visão sapiencial da Sabedoria de Deus.

3. O ESPÍRITO NO NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento o Espírito aparece logo no episódio da Anunciação, e como o “Espírito Santo”, graças ao qual o filho de Maria será chamado “Filho de Deus”.

Outra manifestação solene é a do Batismo de Jesus, em que ele aparece sob a forma de pomba (cfr.Mt 3,16). Mas há diversas expressões demonstrando uma presença constante e misteriosa do Espírito: Isabel, tomada pelo Espírito... falando em Espírito, Nicodemos ouvindo Jesus dizer que “O vento sopra onde quer e lhe ouves a voz mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,7-8). Também “tomado pelo espírito”, “em espírito”, “não sabeis de que espírito sois”, etc.

É da maior importância o anúncio de Jesus dizendo que “enviaria outro Paráclito” (Jo 14,16) para nos ensinar todas as suas palavras (Jo 16,5-15). E, finalmente, a vinda miraculosa, transformadora, de Pentecostes.

No Novo Testamento inteiro a presença do Espírito Santo é muito forte. Nós aprendemos que, mesmo quando levados diante dos tribunais, deveremos deixar que o Espírito fale em nós (cfr. Mt 10,20). E toda a nossa oração será ensinada por ele: “Também o Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza porque não sabemos pedir o que nos convém. O próprio Espírito é que advoga por nós com gemidos inefáveis, e aquele que esquadrinha os corações sabe qual o desejo do Espírito porque ele intercede pelos santos segundo Deus” (Rm 8,26-27).

Mas ainda haverá uma extraordinária manifestação do Espírito no livro da Revelação, em que ele vai ser o companheiro da Esposa (cfr. Ap 21) para, no fim, clamarem a uma só voz: “Vem, Senhor Jesus” (cfr. Ap.22,17 e 20). É um longo caminho desde quando o Espírito nem podia pôr os pés na terra até o dia em que a Esposa, o Povo, aprendeu tanto com Ele que já sabe que tudo de que necessita se chama Jesus.

De fato, aprendemos que somos o “templo do Espírito Santo” (cfr. 1Cor 3,16-17; 2Cor 6,14) e que não conseguimos sequer dizer “Jesus é o Senhor!” senão no Espírito Santo (1Cor 12,3). Na liturgia católica as grandes orações são todas dirigidas ao Pai, quem reza é Jesus Cristo e quem nos une a Jesus Cristo para rezar é o Espírito Santo.

Esse é o Espírito que vai constituir toda a nossa energia interior, tudo que em nós vive e quer crescer.

4. O ESPÍRITO NA OBEDIÊNCIA FRANCISCANA

São Francisco teve uma enorme intuição, ou revelação, quando disse, na Primeira Regra 4, que todo frade que vem a nós é trazido pelo espírito para nos renovar. Quis até colocar na Regra que o Espírito Santo é o Ministro Geral da fraternidade: “Diante de Deus não há acepção de pessoas, e o ministro geral da Ordem, que é o Espírito Santo, pousa do mesmo jeito sobre o pobre e o simples” 5.

Levado pelo Espírito, Francisco conseguiu ver a diferença entre os “maiores” e os “menores” do seu tempo, e optar pelos últimos. Conseguiu ver alguma coisa nova nos leprosos. Conseguiu ter alegria em estar com eles e com os desprezados. Nas mais diversas culturas e ambientes, podemos descobrir que os que se esvaziam levados pelo espírito são os que conseguem ter uma visão diferente, ampla, global, contemplativa de todas as pessoas e de todas as coisas.

Daí Francisco tirou sua nova visão da obediência fraterna, em que não há superiores mas apenas “empregados” (ministros), que têm por missão reunir os irmãos para fazê-los falar e ouvir, descobrindo o que Deus quer de nós através do Espírito que mora em cada um. Daí a importância dos capítulos e da vida fraterna para os seguidores de Francisco.

Uma fraternidade formada pelo Espírito de Deus certamente não é um simples clube de amigos. Não podemos selecionar só os que nos são simpáticos, só os que concordam conosco, só os que não criam problemas. Não partimos das boas qualidades de cada um. Não nos constituimos como sociedade para obter determinadas finalidades ou vantagens.

Uma fraternidade formada pelo Espírito de Deus acolhe cada um como enviado pelo mesmo Espírito, acredita que cada um traz uma comunicação muito especial do mesmo Espírito, quer ouvir a todos para continuar a alimentar a presença do Espírito em si mesma, sempre dócil e obediente a tudo que ele inspirar, aos menores impulsos que dele possam provir. Na vida franciscana, sem os irmãos nem podemos discernir os espíritos. O próprio “ministro”, servidor dos irmãos porque servidor do Espírito, tem como função primordial a de fazer os irmãos falarem e ouvirem, para saberem por onde sopra a vontade de Deus.

Esse ponto não é válido só para os franciscanos, pois a igreja é a assembléia dos fiéis, que são o templo do Espírito. São Francisco não fez mais do que trazê-la para o quotidiano da vida, devido a sua especial sensibilidade. Eu me limito, aqui, a dar um exemplo curioso. Quando, nos fins do século IV, tendo falecido o bispo de Milão, o povo reuniu-se para eleger um sucessor, houve muita discordância e foi solicitada a presença da autoridade civil, que trouxe a ordem. Uma criança aclamou como novo bispo justamente esse “delegado”, e o povo o aceitou como indicação de Deus, embora se tratasse de um simples catecúmeno. Assim foi eleito bispo o famoso Santo Ambrósio de Milão.

Em todo caso, são muito variados os espíritos que podem nos levar - e já nos levaram - a considerar os outros homens como “irmãos”. A Revolução Francesa, declaradamente anti-religiosa, tinha a Fraternidade como um de seus grandes princípios. Nós mesmos podemos formar fraternidades com espírito de sobrevivência, de apôio mútuo, de amizade, de camaradagem, de pastoral, como também por espírito de conforto e de sossego, por espírito de irresponsabilidade e mesmo por espírito de negócios. Maçons e mafiosos também se tratam como irmãos, mas o seu espírito não é o nosso.

5. ENERGIA INTERIOR

Sobre a oração de São Francisco, encontramos em Celano este texto característico:

“Procurava sempre um lugar escondido, onde pudesse entregar a Deus não só o seu espírito mas todo o seu corpo. Quando estava em lugares públicos e era visitado de repente pelo Senhor, para não ficar sem cela, fazia um pequeno abrigo com sua própria capa. Às vezes, quando estava sem capa, para não perder o maná escondido, cobria o rosto com as mangas. Sempre interpunha alguma coisa aos circunstantes, para não perceberem o toque do Amado, e para poder rezar sem que o percebessem, mesmo nos estreitos limites dum navio. Se nada disso conseguia, fazia de seu próprio peito um templo. Fora de si e totalmente absorto em Deus, ele parava de tossir, de gemer, de suspirar forte, de se entregar a qualquer manifestação externa” 6.

Já se disse que o mundo "real" e o mundo do espírito são duas esferas que se tocam em um diminuto ponto comum. Por esse ponto, aberto, podemos entrar no mundo do espírito. Em latim, esse tipo de passagem por onde entrava ar em um ambiente fechado, chamava-se "spiraculum", respiradouro. Como tantos outros, São Francisco parece ter encontrado essa abertura, penetrando no mundo da contemplação e descobrindo to-da uma outra dimensão das coisas e das pessoas, a dimensão do espírito.

Nessa perspectiva podemos entender a “Janua Coeli”, a Nossa Senhora Porta do Céu. Por sua ligação tão profunda com o Espírito Santo, ela é a passagem para o mundo em que sopra não só a iluminação mas também o calor do Amor que vive na Trindade, no infinito, e dentro do coração de cada um de nós. Totalmente humana, mas também cheia de graça, Maria é a porta da contemplação porque é, para cada um, a porta da interioridade. Com ela, temos que descobrir esse respiradouro na história do povo, na profundidade da própria história pessoal, nos nossos sonhos e aspirações, nas nossas angústias e nas nossas esperanças.

Para todo um trabalho posterior de aprofundamento na vida de nossa interioridade, teremos que considerar que o Espírito de Deus é a fonte de toda a nossa energia, sem a qual não vivemos, em nenhuma de nossas dimensões.

Com Francisco aprendemos que o mundo do Espírito é tanto ou mais real que esse mundo “concreto”, “real”, com que lidamos todos os dias. Espírito não se opõe a real, a concreto, nem a humano. Nossos impulsos, influências, são realidades. A família, a raça e a cultura vivem dentro de nós mais realmente do que fora. Mesmo que a humanidade for destruída, se nós continuarmos vivos, ela continuará a existir dentro de nós. A figura materna, por exemplo, é algo mais vivo dentro de nós do que a mulher que nos gerou, mesmo depois da morte da pessoa “real”.

O que nós temos que aprender é a descobrir como cultivar o Espírito interior para ter uma consciência cada vez maior de sua realidade concreta. Ele é o caminho, através de nossa história pessoal, de nossos sonhos, de nossos ideais, de nossa sombra interior, de nossa imagem pessoal... para o encontro do Eu mesmo de cada um de nós, para o encontro com a profundidade unificante de Deus.

Tarefa transcendental é o discernimento: saber distinguir os espíritos bons dos espíritos maus. É preciso lembrar a exortação de São João: “Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito. Examinai primeiro se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas surgiram no mundo. Nisto conheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus. Mas todo espírito que não confessar Jesus, não é de Deus, é do anticristo...” (1Jo 4,1-3). Na selva de nossos impulsos, desejos, aspirações, ideais, sonhos, discernir o que é que nos une e o que é que nos separa. Tudo que separar é diabólico (“diábolos” quer dizer separador). Tudo que nos unir é simbólico, é do Espírito de Deus que, em Jesus, disse: “Pai, que todos sejam um, como também nós somos um” (Jo 17,11).

É bom ter consciência de que há muitos “sopros de Deus” em nossa vida concreta de cada dia. Há muitos “jeitos de soprar” nos diversos tempos, nos diversos países, nas famílias, nos grupos religiosos, nas situações pessoais de cada um no tempo e no lugar. Daí a importância de conhecermos nosso temperamento, nosso tipo, tanto quando as linhas da Igreja, de nossos grupos concretos. Nós temos que viver contemplando com discernimento e amor todas essas vozes do Espírito, que vive dentro de nós e no nosso meio.

O Amor na Trindade leva o Filho ao Pai e o Pai ao Filho. E nos leva a todos em Jesus Cristo, que é nosso irmão mais velho e medida do homem perfeito - ao Pai. Por isso, viver a oração contemplativa é viver o Espírito: ser levado a ter consciência de Jesus, e com amor, sem precisar fazer nada. O que fazemos, vem depois, por acréscimo.

Mas esse é um tema que vamos desenvolver em outros capítulos. Agora é interessante observar que as palavras mais usadas para o espírito das trevas nem sempre têm um sentido muito claro. “Demônio” era uma palavra usada no grego clássico até como expressão de carinho  ou para indicar uma espécie de anjo da guarda 7. “Diabo”, querendo dizer “o atravessador”, ou o “divisor”, já dá uma boa idéia do “espírito de contradição”, pois o espírito de Jesus é espírito de união. Já a palavra “satã” é empregada pelo próprio Jesus quando diz a São Pedro que está impedindo o seu caminho. E é muito repetida na página do livro dos Números (33,22) em que se fala de Balaão e de sua mula, pois o próprio Deus se apresenta como um satã que corta o caminho do falso profeta.

Para concluir esta reflexão, apresento uma página da Primeira Carta aos Coríntios, que merece uma reflexão pessoal:

“Todavia, falamos entre os perfeitos de uma sabedoria que não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que perecem, mas ensinamos uma sabedoria divina, misteriosa, escondida, predestinada por Deus antes dos séculos para nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a houvessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória. Porém, segundo está escrito:

Nem olho viu, e nem ouvido ouviu,

nem jamais penetrou no coração do homem

o que Deus preparou para os que o amam.

A nós, porém, Deus revelou pelo Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, até as profundezas de Deus. Pois quem dos homens conhece o que há no homem senão o espírito do homem, que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece senão o Espírito de Deus. E nós recebemos não o espírito do mundo, mas o Espírito de Deus, para que conheçamos os dons que Deus nos concedeu. É deles que vos falamos, e não com estudadas palavras de sabedoria humana, mas com as palavras aprendidas do Espírito, adaptando aos espirituais os ensinamentos espirituais. O homem animal, porém, não percebe as coisas do Espírito de Deus: são para ele loucura, e não pode julgá-las espiritualmente. Ao contrário, o espiritual julga tudo, mas a ele ninguém pode jugar. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor, para poder ensinar-lhe? Mas nós temos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,6-16).

 

CONCLUSÃO

Cada indivíduo é um mundo de desejos. E uma mensagem sempre renovada para os outros. Cada um de nós, de forma original, é um sonho de Deus que nos quer ver outros Cristos.

Tudo começa com o Espírito, mesmo dentro de cada um. É impossível orar sem o impulso inicial do Espírito Santo, mesmo em quem não o reconhece.

O Espírito não é agarrável, não porque é obscuro mas porque é infinito. É preciso discernir os espíritos. Nem sempre é possível rotular bem e mal. Nem conveniente.

EXERCÍCIOS PRÁTICOS

Tente enumerar, em uma folha de papel, quais são os seus maiores desejos. Tente perceber a ligação entre uns e outros.

Enumere também as mensagens que você acha que o Espírito de Deus tem para as outras pessoas através de você, em toda a sua vida.

Que mensagem concreta e única você é capaz de ler em cada pessoa que convive com você. Anote.

Procure descobrir em quê e como a energia interior atua a partir de dentro de você.

ORAÇÃO

No silêncio da minha interioridade, Senhor, reconheço que sois a presença que toma conta de tudo. Eu não conheço o que há nas minhas profundidades, nem sei até onde elas vão, mas sinto que em tudo estais presente.

Ajudai-me a conhecer tudo que for possível dessa presença. Ajudai-me, pelo menos, a reconhecer quando antes tudo que sai de mim e tem presença atuante no mundo lá fora.

Para que eu reconheça que a vossa presença irradia de cada ser do mundo e principalmente da pessoa de cada um de meus irmãos e irmãs. Para que eu reconheça e ajude o diálogo dessas presenças e me entregue inteiro a esse aluvião de desejo.

Para que eu deixe passar, completamente livres, os sussurros e os clamores do Cristo que está presente em tudo que eu sou. Para que ele me atravesse, me transforme, e chegue ao Pai. Ajudai-me a silenciar para que ele possa passar com toda a sua plenitude, realizando tudo que quiser realizar.

Ajudai-me a reconhecer os meus desejos, dos mais superficiais aos mais profundos para que eu reconheça o desejo que eu sou. E o realize. E seja o que foi sonhado para mim desde toda a eternidade.

Acendei-me inteiro para que eu deseje o bem, todo o bem, o sumo Bem. Vós, que sois a relação de amor entre o Pai e o Filho, envolvei-me nessa presença vibrante da Trindade. Quero deixar-me arrastar pela fonte de energia que só de Vós pode brotar para o universo inteiro. Amém.

NOTAS

1 Admoestação 1. Vozes p. 60.

2. Cfr. Admoestação 12. Vozes p. 65 e também Regra não bulada 6:"Se uma mãe ama e nutre seu filho carnal, com quanto maior diligência não deve cada um amar e nutrir seu irmão espiritual?'. Vozes, p.38.

3 Cfr. especialmente os três primeiros capítulos de Oséias, o cap.16 de Ezequiel e Jeremias 2,2.

4 Regra não bulada 2,1. Vozes p. 140.

5 Segunda Celano 193. Vozes p. 424.

6  Segunda Celano 94. Vozes p. 355.

7 Na Ilíada, Heitor despede-se carinhosamente de sua mulher chamando-a de meu demônio. Em Platão, Sócrates fala do demônio que o orientava.