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COMO NUM ESPELHO

INTRODUÇÃO

Jesus Crucificado abriu a porta mais profunda de nossa interioridade, mostrando que seu conteúdo vital tem a forma da cruz: um jogo de opostos.

Mas ele não se contentou em mostrar, ele assumiu. Por isso não basta olhar e compreender, é necessário abismar-se.

É aqui que Francisco e Clara dão a lição mais fundamental da sua contemplação: eles se identificam com o Cristo da Cruz pelos olhos.

1. A PROPOSTA DE CLARA

Para a identificação, na dor e no amor, com Jesus Crucificado, Santa Clara vai direto ao cerne da experiência que ela partilha com São Francisco, quando propõe ver, olhar, considerar, contemplar:

"Veja como por você ele (Jesus Crucificado) se fez desprezível e siga-o, fazendo-se também desprezível pelo amor dele neste mundo... Olhe, considere, contemple, desejando imitar o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito pela sua salvação o mais vil dos homens, desprezado, ferido e flagelado em todo o corpo de muitos modos, morrendo por entre as angústias da cruz. Se você partilhar os seus sofrimentos, vai reinar com ele na cruz da tribulação, vai possuir com ele as moradas celestes nos esplendores dos santos"1.

A oração de Francisco e de Clara deixou belíssimas formas orais, mas eles mesmos rezavam muito menos com a boca e com a cabeça do que com o corpo. E, no corpo, usavam principalmente os olhos. Por isso, um dos símbolos mais interessantes que Clara usou, foi o do espelho. Na carta seguinte, insistiu com Inês de Praga:

"Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da sua divindade. Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam..." 2.

Ela não estava falando em espelho por acaso ou simplesmente porque, sendo mulher e escrevendo para uma mulher, caía bem falar de um objeto que sempre fascinou tanto, principalmente as mulheres. Depois de ter tido uma longa experiência desse acolhimento e absorção de Cristo Crucificado através dos olhos e dentro do coração, sua vida foi marcada por dois fatos extraordinários. No primeiro, ela esteve todo um dia assistindo a paixão de Jesus 3 e no segundo teve uma visão tão interessante da celebração do Natal 4 que, por isso, foi aclamada por Pio XII como padroeira da televisão. Portanto, estava escolhendo um simbolo realmente inspirado para a peculiaridade da contemplação dos dois santos de Assis e estava usando uma imagem que lhe era muito cara, pois retorna a ela diversas vezes.

O espelho não diz nada para os cegos: é um instrumento de ver, que não cai sob a experiência do tato. Mas, com o espelho, não se vê o que está fora, enxerga-se quem olha, vê-se o que está dentro. E foi na quarta e última carta, escrita pouco antes de sua morte, que Clara insistiu mais fortemente em acompanhar pelo espelho toda a história da entrega de amor feita pelo Cristo que acabou na Cruz:

"Olhe dentro desse espelho todos os dias... e perscrute sempre nele o seu rosto, para se adornar com convém, inteira, interior e exteriormente, vestida e cingida de cores variegadas, enfeitada também com flores e as vestes de todas as virtudes, você que é filha e esposa do Rei Supremo. Porque nesse espelho refulgem a pobreza bem-aventurada, a humildade santa e a caridade inefável, como você pode contemplar em todo o espelho, pela graça de Deus".

"Considere o começo desse espelho, a pobreza daquele que foi posto em um presépio e envolvido em fraldas. Ó admirável humildade, ó estupenda pobreza! O rei dos anjos, o Senhor do céu e da terra repousando num presépio. Considere no meio do espelho a humildade, pelo menos a bem-aventurada pobreza, os incômodos sem conta e as penas que teve que suportar pela redenção do gênero humano. No fim do espelho, contemple a caridade inefável pela qual quis padecer na árvore da cruz, quis nela morrer a morte mais infamante".

"Por isso o próprio espelho, erguido no lenho da cruz, admoestava os passantes sobre o que era preciso considerar, dizendo: Ó vós todos que passais pelo caminho, prestai atenção e vede se existe dor igual à minha dor. É como se dissesse: vamos responder num só espírito ao que grita e se lamenta numa só voz: Vou guardar na minha memória, minha alma vai se desfazer dentro de mim" 5.

Mas o símbolo era tão importante que ela o deixou consignado também no Testamento, dirigido a todas as Irmãs:

"Com que solicitude, então, com que zêlo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e pelo nosso pai, para podermos res-tituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor!  Pois o próprio Senhor não nos colocou como um modelo, exemplo e espelho só para os ou­-tros, mas também para as nossas irmãs, que o Senhor vai chamar para a nossa vocação para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, es­-tamos bem obrigadas a bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor. Por isso, se vivermos de acordo com essa forma, daremos aos outros um nobre exemplo e vamos conquistar o prêmio da bem-aventurança eterna com um trabalho muito breve" 6.

2. SÃO FRANCISCO E OS OLHOS

Os escritos e as palavras de São Francisco transbordam de imagens visuais. Os verbos relacionados a ver, enxergar, olhar, parecem ser os mais freqüentes em sua boca. Todos os biógrafos, a partir de Celano, já tinham observado que Francisco vivia o seu Deus com os próprios olhos:

"Usava o mundo... como um espelho claríssimo da bondade de Deus... Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e enxergava a razão e a causa vivificante dos espetáculos que lhe davam prazer. Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo, e que todas as coisas clamavam: Quem nos fez é ótimo!" 7.

Mas não eram só as coisas bonitas que, para ele, espelhavam Deus. Francisco também usou o símbolo do espelho para descobrir a presença do seu amado Jesus Crucificado:

"Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. Também nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa" 8. "Quando vês um pobre, tens que pensar na­que­le em nome do qual ele vem, ou seja, Cristo, que assumiu a nossa pobreza e a nos­sa enfermidade. A pobreza e enfermidade deste homem são como um es­pe­-lho, onde devemos ver e considerar, com respeito, a pobreza e enfermida­de que Nosso Senhor Jesus Cristo suportou para a salvação do gênero huma­no" 9.

A força do símbolo está no fato de o pobre refletir a imagem de Cristo que se fez pobre, a mesma imagem que também se reflete em nossa interioridade. Francisco tinha aprendido no Evangelho que "A lâmpada do corpo é o olho. Se o olho é sadio, o corpo inteiro fica iluminado. Se o olho está doente, o corpo inteiro fica na escuridão. Assim, se a luz que existe em você é escuridão, como será grande a escuridão" (Mt 6, 22-23). E tratara de ter a saúde dos olhos interiores, não se importando de perder, para isso, a saúde dos olhos do corpo. Como lemos na sua biografia escrita por São Boaventura:

"Atingira extraordinária pureza da alma e do corpo, embora nunca deixasse de purificar sua visão espiritual com lágrimas em profusão e não levasse em consideração o fato de isso lhe custar a saúde dos olhos. Em con­-seqüência de suas constantes lágrimas, veio a sofrer dos olhos, mas quando o médico disse que deveria restringir as lágrimas se quisesse evitar a perda da visão, ele replicou: "Irmão médico, usufruimos da luz deste mundo em co­-mum com as moscas; não devemos rejeitar a presença da luz eterna apenas pa­ra preservá-la. Nosso corpo recebeu a faculdade da visão por causa da al­-ma; a visão de que goza a alma não foi dada por causa do corpo". Preferia per­der a visão dos olhos a sufocar a devoção do espírito, refreando as lá­-grimas, que limpam os olhos da alma e os tornam capazes de ver Deus" 10.

Ver Deus era o imenso desejo que ele expressava todos os dias quando rezava o Pai-nosso: "Venha a nós o vosso Reino... e nos deixeis entrar no vosso reino, onde veremos a vós mesmo sem véu, sem sombras..." 11. Ele suspirava por essa felicidade e por isso comentou: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus" (Mt 5,8). Têm o coração puro os que, desprezando as coisas terrenas, procuram as celestiais e, de coração e espírito puros, não cessam de adorar e de ver sempre o Deus vivo e verdadeiro" 12. E assim conseguiu "ver" constantemente o grande objeto de seu desejo:

"A recordação de Jesus Crucificado permanecia constantemente em sua alma... e na veemência de seu amor extático ele desejava ser inteiramente trans­formado nesse Cristo crucificado... Nutria por Cristo um amor tão ar­-dente... que julgava ter diante dos olhos a presença quase contínua do Sal­-vador. Ele mesmo por diversas vezes o disse confidencialmente a seus irmãos" 13.

É nessa perspectiva que entendemos porque ele sempre estava ocupado em buscar formas de ver a presença de Deus, quer forçando os olhos da fé através de imagens propostas pela Igreja... "Pois nada temos nem vemos corporalmente dele, do próprio Altíssimo, neste mundo, senão o corpo e o sangue, os nomes e as palavras pelas quais fomos criados e remidos “da morte para a vida" 14... quer buscando encenar um conjunto vivo que o ajudasse a não tirar os olhos do objeto de seu desejo:

"Se você quiser que nós celebremos o Natal em Greccio, é bom começar a preparar diligentemente desde já o que eu vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro" 15.

E extendia o convite a todas as outras pessoas, chamando a atenção para verdades quotidianas que costumam passar despercebidas:

"Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa outra criatura, o nosso irmão fogo, que nos alumia no meio das trevas. Somos todos cegos, e o Senhor, por estas duas criaturas, ilumina os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador" 16.

Tinha isso tão a peito, que insistia até nas cartas que enviava e pedia que fossem copiadas para atingir o maior número possível de pessoas:

"Sabei que existem algumas coisas que aos olhos de Deus são sumamente superiores e sublimes, as quais os homens por vezes julgam vis e abjetas; e outras existem que os homens têm em alto preço e admiração, ao passo que Deus as vê como as mais vis e abjetas" 17.

Muitos dos seus irmãos compreenderam a sua mensagem, pois tinham diante dos próprios olhos o resultado dessa contemplação tão ardorosa, tão inflamada e tão constante: São Boaventura comentou que "havia chegado a contemplar já aqui o espelho da eterna Luz cujo brilho permitia aos olhos de sua alma enxergar como se estivessem presentes acontecimentos distantes no espaço e no tempo" 18. E Celano completou:

"Livre da escuridão das coisas terrenas, não submisso aos desejos da carne, sua inteligência voava para as coisas mais altas e penetrava na luz com pureza. Iluminado pelos esplendores da luz eterna, tirava da palavra o que ressova em suas palavras. Ai, como somos diferentes... Quem se revira na lama tem que ver lama; quem puser os olhos no céu terá que ver forçosamente as coisas celestiais" 19.

Quando ele estava para morrer, os irmãos acharam muito natural consolá-lo dizendo: "Passarás... da morte temporal à vida imortal, onde verás para sempre, face a face, o teu Senhor, que neste mundo contemplaste com tanto fervor, desejo e amor" 20. E Clara também sabia disso, pois se referiu ao Cristo amado dizendo: "... cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha" 21.

Foi com toda essa experiência que Francisco deixou em sua primeira Admoestação, sobre a Eucaristia, a única frase em que usou a palavra contemplar: "E do mesmo modo que eles (os Apóstolos), enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus..." 22. Eles tinham aprendido um caminho de contemplação com os olhos espirituais partindo dos olhos do corpo.

Para abençoar com carinho Frei Leão, o amigo especial, escolheu imagens visuais no livro dos Números (6,24-26):  "...o Senhor te mostre a sua face e se compadeça de ti. Volva a ti o seu olhar e te dê a paz" 23.

3. O ITINERÁRIO PARA DEUS

A experiência de Clara e Francisco, totalmente mística, haveria de encontrar, poucos anos após a sua morte, uma expressão magistral através de um de seus filhos, ao mesmo tempo teólogo e místico, São Boaventura, que escreveu uma jóia da literatura religiosa, o "Itinerário da mente a Deus", em que explica a contemplação na perspectiva franciscana. Ele mesmo assim se expressa sobre a sua experiência:

"Levado por impulso divino... fui para o monte Alverne... Estando ali... veio-me ao pensamento o milagre que no mencionado lugar se deu com o bem-aventurado Francisco, a visão de um Serafim alado, em figura do Crucifixo. Con­siderando-a, sem demora me pareceu que tal visão indicava o êxtase do mes­mo bem-aventurado pai na contemplação, e o caminho por que a ele se chega...

Quanto ao caminho, não é senão o do mais ardente amor do Crucifixo. Esse amor transformou de tal modo em Cristo a São Paulo, "arrebatado até o terceiro céu", que ele veio a dizer: "estou pregado com Cristo na cruz; vivo, mas já não eu; é Cristo que vive em mim". Absorveu esse amor a tal ponto a mente de Francisco, que esta se manifestou na carne, ao trazer ele no seu corpo durante dois anos, antes da morte, as sacratíssimas chagas da Paixão...

De fato, ninguém é de modo algum apto para contemplações divinas que levam aos arrebatamentos extáticos, se não for, como Daniel, "homem de desejos" (Dn 9,23). Ora, os desejos inflamam-se em nós de dois modos, a saber, mediante o clamor da oração, que leva a romper em gritos, "por força do gemido do coração", e mediante o fulgor do espelhamento, pelo qual a mente se volta para os raios da luz, de modo mais direto e intenso" 24 .

Onde pusemos espelhamento, São Boaventura usa uma palavra cha­ve de seu trabalho: speculatio. A tradução direta seria especulação que, hoje, em português, tem outro sentido. O termo joga com spe­culum (espelho) e com specus (caverna), dando a idéia tanto de uma reflexão ou reflexo (o que se faz com o espelho) como o de uma busca.

O místico doutor franciscano parte da afirmação bíblica de que aqui na terra só vemos a Deus "como em um espelho" e desdobra cada passo da contemplação de São Francisco em uma visão "pelo espelho" e "no espelho". Ele considera os três pares de asas do Serafim que apareceu no Alverne e vai ensinando como subir da contemplação das coisas exteriores para a das coisas interiores e destas para as que estão acima de nós. No final, a pessoa chega ao êxtase, isto é, à Paz, tão desejada e anunciada por São Francisco.

Nós conhecemos Deus "pelo espelho" quando, admirados pela variedade e a beleza das coisas, proclamamos a grandeza e a sabedoria do Criador. Mas o conhecemos "no espelho" quando, encantados pelo aspecto providencial de todas as coisas, proclamamos a infinita bondade do Criador. Mas São Boaventura deixa claro como podemos usar o espelho quando diz:

"Nós precisamos entrar na verdade de Deus, isto é, precisamos retirar-nos no interior de nossa mente, que é imagem perene e espiritual de Deus e se encontra dentro de nós" 25.

4. O GRITO DA PROFUNDIDADE

No mesmo Prólogo do "Itinerário da Mente a Deus", de que tiramos acima uma longa citação, São Boaventura também diz:

"A figura das seis asas seráficas insinua as seis iluminações graduais, que começam pelas criaturas e levam até Deus, a quem pessoa nenhuma tem devidamente entrada senão por meio do Crucificado. Na verdade, "aquele que não entra pela porta, mas sobre por outra parte, é ladrão e salteador"... Por isso diz São João no Apocalipse: "Bem-aventurados os que lavam as suas vestes no sangue do Cordeiro, para terem direito à árvore da vida e entrarem pelas portas da cidade". Como se dissesse que não se pode entrar pela con­-templação na Jerusalém celeste a não ser que se entre pelo sangue do Cordeiro, à maneira de uma porta" 26.

Lavar-se no sangue do Cordeiro é participar de toda a "aventura" da Encarnação e da Salvação. É viver assumidamente o choque dos desejos que se cruzam em nossa vida, com a dor e com o amor, até chegar à identificação com Jesus, como fizeram Francisco e Clara. Quando se chega ao nó dos conflitos chega-se ao ponto de partida porque na cruz se descobre, com amor, onde nasce, de fato, o desejo.

E vai ser preciso que o sonho de nossa vida percorra o começo, o meio e o fim, como ensinava Clara. O que pressupõe sensibilidade para ouvir o grito do Crucificado, que sobe de todos os necessitados do mundo, dos necessitados de salvação.

O espelho é um símbolo de auto-conhecimento, porque é a única forma física de ver o próprio rosto. Mas a proposta é olhar o próprio in-

terior para se identificar até o fim com o Cristo. Se isso acontecer, teremos realizado o nosso desejo. Mas o espelho é a Cruz e pressupõe o amor e a dor. Sem isso, não nasce a libertação do mundo.

Essa libertação vem da profundidade do homem salvador como um grito de dor. Mas é o grito de alegria que anuncia o nascimento da vida em plenitude para o mundo.

CONCLUSÃO

Contemplar é ter os olhos abertos para descobrir todos os sinais da presença da cruz fora, dentro e acima de nós.

E é essa descoberta do Cristo que se deixou crucificar com o mais infinito amor que nos revela a genuina interioridade de nós mesmos.

Quando o ser humano consegue realizar sua dimensão de contemplação, passa pela dor mas começa a ser de verdade o construtor da Paz.

PRÁTICAS

Procure passar bastante tempo contemplando o rosto de um Crucificado: o de São Damião, o do Santo Sudário, ou qualquer outro que você tenha à mão. Não fuja dele.

Tente trabalhar na sua interioridade os textos do Espelho de Santa Clara. Também alguns dos textos de São Francisco.

Coloque um crucifixo em cima do jornal do dia e tente ler, nos dois, os sonhos e desejos da humanidade.

Descreva por escrito os seus desejos, olhando para Jesus Crucificado. Conversando com ele.

ORAÇÃO

Eu vos dou graças, Senhor, pelos meus olhos. Como toda a minha pele, que me põe em contacto com o universo sentindo o gosto na boca, o aroma pelas narinas, a música pelos ouvidos e, por todo o corpo, toda essa variedade de frio e quente, de duro e mole, de grande e pequeno, os olhos me fazem descobrir a luz e as cores.

Foi assim que eu descobri o vosso mundo maravilhoso e continuo a vos descobrir todos os dias por trás de cada flor, de cada mínimo sinal de forma, de vida. Pelos meus olhos, toda essa infinidade de coisas grandes e pequenas, mesmo quando se perdem de vista, entraram para dentro de mim.

E foi então que eu olhei lá para dentro e me descobri. Encanto-me cada dia ao perceber que o universo inteiro se repete em miniatura no meu ser e na minha interioridade, porque eu posso refletir tudo.

E foi a partir desse encantamento que eu vos descobri. Eu vos descubro cada dia: fora de mim, dentro de mim, acima e muito além de mim. Eu descobri a vossa imagem em todas essas variações e sei que ela é o meu Senhor Jesus. Sei que estou diante do desejo mais profundo que constitui todo o meu ser. Eu devia ter encontrado a Paz.

Mas ainda não a encontrei. Porque a imagem límpida que eu olho cruza-se com a imagem turva que me reflete.

O jardim ao meu redor é maravilhoso, é o vosso paraíso. Mas o meu rosto no espelho d’água está desfocalizado pela dor do mundo. Como eu posso ter a paz contemplando o rosto de vosso Filho Crucificado enquanto houver tantos filhos vossos longe de vossa casa, longe de vossos sonhos, passando fome e morrendo de frio, enfermos, prisioneiros e desabrigados?

Como eu posso descansar se estou sabendo que a minha imagem é turva porque ainda não me dei inteiro, ainda não me esvaziei para descobrir que sou servo, como fez Jesus?

Muito obrigado pelos meus olhos, Senhor. Eu já sei que a minha felicidade infinita vai ser contemplar-vos sem cessar, mas ela só vai ser realizada em plenitude quando todos nós pudermos assistir juntos, tranqüilos, o mesmo espetáculo do Amor sem fim.

NOTAS

1 Segunda Carta a Inês de Praga 19-23, Fontes Clarianas p. 206.

5 Quarta Carta a Inês de Praga 15-26. Fontes Clarianas p. 211-212.

6 Testamento de Santa Clara 18-23. Fontes Clarianas, p. 191. 

7 Segunda Celano 165. Vozes p. 404.

12 Admoestação 16. Vozes p.  66.

13  Legenda Maior  9,2. Vozes p. 525.

14 Carta aos Clérigos 3. Vozes p. 75.

15 Primeira Celano 84. Vozes p. 239.

16 Legenda Perusina 43. Vozes p. 775.

17 Carta II a todos os Custódios 2. Vozes p.  78.

18 Legenda Maior 11,10. Vozes p. 545.

19 Segunda Celano 54. Vozes p. 328.

20 Legenda Perusina 100. Vozes p. 830.

21 Quarta Carta a Inês de Praga 13-14. Fontes Clarianas p. 211.

22 Admoestação 1, 20. Vozes p. 60.

23  Bênção a Frei Leão. Vozes p. 73.

24 Itinerarium Mentis, prólogo.