11

UNIÃO MÍSTICA

INTRODUÇÃO

A maior cruz de opostos em nossa vida é a que coloca o homem de um lado e Deus do outro. Para se unirem.

Deus trabalha essa união com a humanidade enquanto povo, e cada um de nós deve trabalhá-la como indivíduo, como o fizeram, por exemplo, Francisco e Clara.

Unido a Deus, o ser humano realiza o seu desejo mais profundo e chega a uma plenitude com que nem podia sonhar.

1. UMA PROPOSTA ORIGINAL

Na sugestão de Clara: contemplar-se no espelho do Crucificado, não podemos deixar de perceber que estamos diante de um Amor incomparável: Deus nos ama tanto que se entrega à morte. Mas também salta aos olhos com violência um dos primeiros contrastes: Por que a atitude do homem e a atitude de Deus são opostas, por que fazem caminho inverso? Por que Deus quer ser homem se o homem quer ser Deus?

Parece que "querer ser como Deus" (Cfr. Gn 3,4) é um erro de pers­-pectiva do homem. Seu verdadeiro desejo não é afastar-se de Deus fazendo-se deus de si mesmo e dos outros mas sim caminhar na direção de uma união com o Deus único. Tanto quanto o desejo do Altíssimo parece ser o de chegar à união conosco. Essa é a trama de toda a aventura da Bíblia, como é a base de toda atitude religiosa.

Mas o homem tateia. A maioria procura simplesmente estar de bem - ou, pelo menos, não estar de mal - com Deus. Enquanto algumas religiões orientais propõem um caminho de absorção total em Deus, outras, como as africanas, tentam o caminho do "entusiasmo" (ter um deus dentro) ou da possessão pelos espíritos. A Bíblia faz a proposta original de uma aliança entre o Homem e Deus parecida com o casamento. Aliás, até propõe que Deus inventou homem-mulher e o casamento

2. COM O POVO E COM CADA UM

A Bíblia transmite uma consciência histórica, uma memória ativa , que preserva a identidade do povo e lhe permite construir o futuro. Para isso, usou uma imagem de profunda união:

"Agora, sou eu que vou seduzí-la, vou levá-la ao deserto e conquistar seu coração... Aí ela vai me responder como nos dias de sua mocidade, como no dia em que saiu da terra do Egito. Nesse dia - oráculo de Javé - você me chamará "Meu marido" e não mais "Meu ídolo"...  Nesse dia, farei em favor deles uma aliança com as feras, com as aves do céu e com os répteis da terra. Eliminarei da terra o arco, a espada e a guerra; e, então, vou fazê-los dormir em segurança. Eu me casarei com você para sempre, me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você conhecerá Javé (Os 2,16-23). "Eu direi... "Você é meu povo". E ele responderá: "Meu Deus" (Os 2, 25).

A Escritura Sagrada é toda uma longa história de amor entre Deus e o seu Povo. Ele ouviu o clamor de tribos miseráveis que estavam sendo espezinhadas por poderosos e se revelou como Javé. Tirou o seu povo do Egito contra o poder dos faraós e o conduziu para uma terra nova. Estabeleceu uma aliança com esse povo e fez com que a memória disso fosse lembrada. Nunca deixou de mandar seus profetas para pedirem o restabelecimento da aliança. Teve infinita paciência com todas as infidelidades desse povo e continuou a ser o seu Deus até a vinda de Jesus, em que se renovou uma nova aliança.

O próprio Cristo se compara com o esposo na parábola do banquete (Mt 22,1-14) e na das dez moças convidadas ao casamento (Mt 25,10). A Epístola aos Efésios (5, 22-32) também usa uma comparação com o casamento para dizer que ele é o esposo do povo. E Paulo escreveu aos coríntios: "Eu os entreguei a um único esposo, Cristo, a quem devo apresentar vocês como virgem pura" (2Cor 11,2). No Apocalipse a imagem simbólica é repetida várias vezes. O casamento de Deus com o Povo é uma dura mas progressiva história que ainda está sendo conduzida até chegar ao Maranatá da última página da Bíblia.

Deus continua a se unir ao seu Povo, hoje aberto a toda a humanidade, através de todas as comunidades que nós vamos criando e cultivando para viver. Mas é claro que esse é um processo que só se cumpre na medida em que cada pessoa vai conseguindo relacionar-se consigo mesma, com Deus, com o outro, com a natureza, na perspectiva que mostramos no capítulo dos quatro arquétipos. Se se afastar de Deus, do próximo e da natureza, deixará de ser ela mesma, humana. Começa desumanizando o mundo e acaba desumanizando a si mesma. Só será profundamente humana se realizar esse múltiplo encontro.

Aí é que vale a experiência dos santos, não só dos grandes místicos que a Igreja canonizou como também a dos homens e mulheres de todos os tempos que, em sua simplicidade, foram profundamente con­tem­plativos e humanos. Eles se abriram para a união com Deus.

Há um caminho progressivo porque a união com Deus não se faz de um dia para o outro, ainda que seja muito mais o fruto da graça do Senhor que dos esforços da pessoa. Fazer o caminho para a união com Deus é crescer na realização da imagem de Deus impressa em nós, ajudando-nos a ser cada vez mais uma verdadeira semelhança, aquela que vai nos ajudar a ver a Deus como ele é (cfr. 1Jo 3,2).

Esse é o mesmo caminho do "processo de individuação", porque cada um de nós tem um "nome próprio", é único na obra da criação, e só chegará à união com Deus na medida em que for mais profunda, mais conscientemente ele mesmo. Quanto mais libertar em sua interioridade o sonho único que Deus tem para ele, mais há de realizar a sua destinação de ser um outro Cristo, único, mas membro do Cristo total, com todos os outros irmãos e irmãs.

Foi esse caminho, aventuroso, por certo, que fez com que nossos irmãos de outros tempos o tivessem simbolizado não só na cavalheiresca conquista do Santo Graal mas até mesmo na linguagem fechada dos alquimistas medievais que, - hoje podemos descobrir com mais facilidade - não estavam buscando fórmulas para fabricar ouro mas falavam do caminho interior para atingir a interioridade e a união com Deus, o melhor ouro que al­guém poderá jamais conquistar.

É todo um trabalho de transformação profunda que surpreendeu os antigos principalmente na vida de Francisco de Assis. Há até, em suas biografias, uma verdadeira preocupação de descobrir todos os pontos que o demonstram como um homem que foi semelhante a Jesus Cristo, e crucificado. Não foi à-toa que se chegou a escrever um livro chamado "De conformitate", título que, inteiro e em português, seria: "Sobre a conformidade entre São Francisco e Nosso Senhor Jesus Cristo".

3. FRANCISCO E CLARA - UNIÃO E ESPONSAIS

Não estamos imaginando uma possibilidade: estamos contando um fato, mostrando uma realidade. Como Deus mandou escrever a Bíblia para ser uma recordação (Ex 17,14). é justamente esse o motivo de estarmos falando de Francisco, Clara e seus seguidores.

Narrando as circunstâncias da morte de São Francisco, Celano apresenta o sonho característico de um frade no dia do nascimento do santo para a vida eterna:

"A um outro frade de vida muito louvável, suspenso em oração naquela noite e naquela hora, o glorioso pai apareceu vestido com uma dalmática cor de púrpura, acompanhado por uma multidão de pessoas. Muitos, que saíam dessa multidão, disseram ao frade: "Ó frade, será que esse é o Cristo?" Ele respondeu: "é ele mesmo". Mas outros também perguntavam: "Mas não é São Francisco?" O frade também dizia que era ele mesmo. E de fato, tanto para o frade como para todo aquele povo, dava a impressão de que Cristo e São Francisco eram uma só pessoa. Os verdadeiros inteligentes não vão achar temerária essa afirmação, porque aquele que adere a Deus torna-se um só espírito com ele, e o próprio Deus vai ser um só em todos no futuro" 2.

Ele tinha cultivado essa identificação através de um contacto cotidiano e íntimo com Jesus Cristo, imagem de Deus:

"Quando rezava nos matos e nos lugares desertos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda parte, batia no peito e, achando-se mais escondido que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao pai, conversava com o amigo, brincava com o esposo..." 3.

Para dar um exemplo, entre tantos que seriam possíveis, basta recordar como ele desenvolveu a oração do Pai-nosso, externando esse pedido de união:

"Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu: a fim de que vos amemos de todo o coração, pensando sempre em vós; de toda a alma, aspirando sempre a vós; de todo o nosso entendimento, ordenando todos os nossos desejos a vós e buscando em tudo a vossa honra; de todas as nossas forças, empenhando todas as virtudes e sentidos do corpo e da alma na obediência a vosso amor e em nada mais..." 4.

A exortação foi transmitida a todos os irmãos na Regra não bulada: "Amemos todos, de todo coração com toda a alma, com todo o espírito,com toda nossa capacidade e força, com todas as virtudes do espírito e do core do corpo, com todo o empenho, todo afeto, todas as entranhas, todos os desejos e vontades, o Senhor nosso Deus..." 5. E também foi passada aos fiéis, numa exortação em que ele lembrou a imagem bíblica dos esponsais:

"E todos os homens e mulheres que assim agirem e perseverarem até o fim... são esposos, irmãos e mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espsírito San­to... Como é santo, consolador e deleitável ter no céu um esposo!" 6.

O tema dos esponsais com Deus é tão importante quanto o da pobreza para Santa Clara em todas as suas cartas. Tanto que os biógrafos, os papas e suas próprias companheiras viram nela uma figura excelente da esposa de Deus, como podemos confirmar a cada passo.

4. UMA PESSOA EM UNIÃO

São Boaventura mostra como essa união transformadora foi sendo opererada durante a vida de São Francisco quando diz: "A recordação de Jesus Crucificado permanecia constantemente em sua alma, como a bolsa de mirra sobre o coração da esposa do Cântico dos Cânticos, e na veemência de seu amor extático ele desejava ser inteiramente transformado nesse Cristo crucificado" 7. E depois desse trecho ainda fala da união no deserto e na comunhão.

"Pelo exercício contínuo da oração e pela prática das virtudes, havia o homem de Deus chegado a uma tal limpidez de alma que, sem haver adquirido pelo estudo o conhecimento dos santos livros, mas iluminado pelas luzes do alto, penetrava com espantosa acuidade o mais profundo das Escritura. Seu espírito, livre de toda mancha, penetrava os mais ocultos mistérios, e onde não podia chegar a ciência adquirida, penetrava o afeto do discípulo amante. Lia às vezes os livros santos, e tudo que sua inteligência captava sua memória retinha tenazmente, pois o ouvido atento de sua alma percebia o que o coração amante repassava sem descanso" 8.

A contemplação leva à transformação da pessoa em uma imagem da divindade. Os santos, que o experimentaram, souberam expressá-lo muito bem e foi por isso que Clara pôde aconselhar Inês de Praga de maneira tão convincente: "Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória, ponha o coração na figura da substância divina e, pela contemplação, transforme-se inteira na imagem da divindade" 9.

De fato, "aquele que adere a Deus torna-se um só espírito com ele". O resultado final da contemplação é uma união profunda e perfeita com Deus, a que chamamos de "união mística", à qual muitos santos, com base na comparação bíblica, referem-se como a um casamento interior com Deus. São Paulo chegou a dizer: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.

Na união mística atuam os maiores opostos: Deus e o Homem. Nela, o Bem absorve totalmente o Mal. Todo o Povo, de pessoa em pessoa, é absorvido na vida da Trindade, sem perder a individualidade de cada um. Ela é a realização eficaz do que Deus instituiu como "vida da Graça", enriquecendo-nos de sua vida através dos sacramentos. Não só dos sete sacramentos básicos da Igreja, mas de todos os sacramentos do dia a dia e inclusive através do grande sacramento bíblico da História do Povo com Deus.

União mística é a que vai existir entre Deus e todas as pessoas na pátria eterna. Os antigos sempre falaram nas "três vias", as três etapas do caminho da oração. Depois da purgativa e da iluminativa, chegava-se à unitiva. Os contemplativos não fazem mais do que abrir-se à consciência dessa ação de Deus, deixando-se envolver por ela desde já. é um jeito de deixar que o mundo do inconsciente seja acolhido no consciente. E isso é contemplação.

O verdadeiro conceito de santidade é esse. Santo não é quem conseguiu nascer sem defeitos ou se livrou deles na luta, substituindo-os por boas qualidades. Santo é que se uniu positivamente a Deus e está partilhando a vida dele, que é o único Santo.

É em Jesus Cristo que, como nos ensina a conclusão da Bíblia na última página do Apocalipse, se unem o Espírito e a Esposa, ou Deus-Amor com o seu Povo, com cada um de nós. A contemplação é o grande meio de orar na união mística, construindo a união mística, porque deixamos Deus agir. Nós só nos unimos à oração de Jesus, como ensinou a tradição da Igreja e Francisco mostrou de maneira tão bela na conclusão da sua Regra não Bulada.

CONCLUSÃO

Aquele desejo profundo em que cada um de nós se descobre chega ao máximo de sua realização quando nos coloca em tensão com a própria divindade.

É o próprio Deus quem nos permite chegar a essa plenitude tanto quanto vivemos a aventura de seu Povo e nos abrimos para Ele em nossa interioridade.

A Paz final da santidade nunca é isolamento. Processa-se na interioridade mas rompe os limites da pessoa.

PRÁTICAS

Procure olhar as dores das pessoas, e principalmente os seus contrastes, e ver a diferença do olhar misericordioso do Deus da união.

Tente confrontar, ao seu redor, o olhar de cobiça, de ódio, de medo... e pense em como pode ser o seu olhar se estiver em união com Deus.

Tente enumerar, mais uma vez, quais são os seus verdadeiros desejos. Confronte-os com os de Deus, à luz da Bíblia.

ORAÇÃO

"Outra coisa não desejo, nem quero, nem me agrade, nem me alegre senão vós, nosso Criador e Redentor e Salvador, o único e verdadeiro Deus, que sois o bem pleno, o bem todo, o bem inteiro, o sumo e verdadeiro bem, que só vós sois bom, carinhoso e meigo, suave e doce, que só vós sois santo, justo, verdadeiro e reto, só vós benigno, inocente e puro; de vós, por vós e em vós é todo perdão, toda graça, toda glória de todos os penitentes e justos, de todos os santos que se alegram juntos no céu.

Nada pois me impeça, me separe, se interponha. Em toda parte, em qualquer lugar, a toda hora e tempo, diária e continuamente, creio sincera e humildamente, retenho no coração e amo, sirvo, louvo e bendigo, glorifico e sobreexalto, magnifico e rendo graças a vós, altíssimo sumo Deus eterno, trino e uno, Pai, Filho e Espírito Santo, Criador de tudo o que existe, Salva­-dor dos que em vós crêem e eperam e vos amam, que não tivestes princípio nem tereis fim, imutável, invisível, inenarrável, inefável, glorioso, sobreexal­tado, sublime, excelso, suave, amável, cheio de delícias e sempre inteiramente desejável acima de todas as coisas por toda a eternidade. Amém" 10