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POBRES COMO O CRUCIFICADO

INTRODUÇÃO

No espelho da cruz, vemos que Deus opta por coisas que nos repugnam e assume o pior do humano, que é o pecado, com todas as suas conseqüências.

Deus se esvazia, não está interessado em ser onipotente (Fl 2,5-8), não quer ser dono dos outros e nem das criaturas. Não quer possuir. Aparece como fraco, vulnerável, sem poder.

Francisco e Clara entram por essa loucura de não se apropriar de nada e, na sua simplicidade, parecem ensinar-nos a grande verdade: nosso desejo tem que ficar aberto e livre, porque só Deus sacia o coração do ser humano.

1. O QUE É SER POBRE

Quando criança, li em numa revista uma historinha que me faria pensar a vida toda: Em um colégio de meninas ricas, foi dado o tema para uma composição: descrever uma família pobre. Uma das alunas não teve dúvidas: "Era uma vez uma família pobre: o pai era pobre, a mãe era pobre, todos os filhos eram pobres. A cozinheira era pobre, a babá era pobre, o mordomo era pobre, o motorista era pobre, o jardineiro era pobre...".

Só bem mais tarde, fui descobrir que muitas comunidades religiosas são pobres justamente desse jeito: os carros são pobres, o bairro onde moram é pobre, as casas de praia são pobres, as propriedades são pobres, todos são pobres. Só que não falta nada para ninguém. Por isso, precisamos inventar uma tal "pobreza espiritual": temos, mas não é nosso; temos, mas não estamos apegados; temos, mas a propriedade é da Santa Sé.

Ora, não devemos desvirtuar o verdadeiro sentido da pobreza. Pobre é mesmo quem não tem o necessário: não tem um lugar razoável para morar, não tem comida que o sustente, não tem roupa que o proteja do frio, que lhe permita apresentar-se com dignidade. E essa é a situação da maior parte da humanidade, da imensa maioria do povo brasileiro e la-tino-americano. Não podemos fazer essa desfeita na sua cara, dizendo que "nós" somos pobres.

Mas, de fato, temos um ideal de pobreza, podemos até ter um voto de pobreza. Não devemos falar em "pobreza espiritual" desligada da realidade mas precisamos viver uma pobreza "segundo o Espírito". Pobres "segundo o espírito", por impulso do Espírito Santo, foram Jesus Cristo, São Francisco e tantos outros santos: viveram a pobreza material por opção: podiam ter sido ricos e se fizeram pobres. A pobreza material, a pobreza do necessário nunca é ideal, nunca é justificável, a não ser para ajudar Jesus Cristo a redimir a humanidade.

Essa mesma pobreza inspirada pelo Espírito de Deus é que deve levar-nos a juntar-nos a outros pobres: aos que têm o mesmo ideal e aos que estão tendo que ser pobres por necessidade. Nós também deveríamos sentir a necessidade de ser pobres, de verdade, para responder a nossa vocação de construir o Reino.

Um aspecto inicial, muito importante, é que estamos fazendo uma consideração sobre os pobres. Isso já é uma demonstração cabal de que nós mesmos não somos pobres. Pobre é aquele a quem falta o mínimo e até o razoável. E, em geral, não pode sair dessa situação. Está praticamente preso nela e sua condição tende a piorar. E não fica falando sobre pobreza; o que ele quer é ser rico.

Nós, por mais que queiramos ser pobres e estejamos decididos a partilhar a vida dos pobres, temos pelo menos a liberdade de não ser pobres. Suas principais limitações não nos atingem e, normalmente, podemos escapar de todas as limitações no momento em que o desejarmos. De muitas delas já escapamos para sempre: escapamos da mortalidade infantil, tivemos comida suficiente quando crianças, pudemos ir à escola e chegar a cursos superiores, fomos defendidos de muitas doenças, tivemos oportunidadede conhecer outras terras e outros ambientes, de freqüentar outros grupos, e de conhecer outras maneiras de ser.

Por outro lado, podemos ter o privilégio e a vantagem de tentar ser pobres por opção livre, por desejo, por amor, por um impulso que só pode vir do mesmo Espírito de Deus. Com um cuidado extremo, porque as grandes massas pobres têm força e estão sendo visadas e exploradas por aventureiros cujo espírito é unicamente o de servir a seus próprios interesses, políticos, económicos, e mesmo religiosos.

2. POBRES COMO JESUS E MARIA

Francisco e Clara de Assis, grandes mestres da vida em pobreza, abrem um caminho muito interessante: Eles nunca quiseram, exatamente, ter pobreza, como quem possui uma virtude. Também não se arvoraram em reformadores sociais, apesar da revolução que acabaram provocando por sua atitude pessoal. O grande impacto que sofreram foi descobrir no rosto de Jesus Crucificado a maior cruz que se poderia imaginar: Deus, Altíssimo, se faz pequeno e pobre. Eles nem duvidaram de que teriam que seguir Jesus e sua Mãe, que foram pobres, entrando na linha dos "anawin", ou pobres de Javé, do Antigo Testamento. Vale a pena recordar alguns textos significativos:

"E quando for preciso, que vão pedir esmola. E não se envergonhem disto, mas antes recordem que Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo e todo-poderoso, "enrijeceu sua face como pedra duríssima (Is 50,7) e não se envergonhou de se tornar pobre para nós e peregrino; e vivia de esmola, ele e a mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" 1.

"Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e nela perseverar até o fim" 2.

"Quando tu vês um pobre, tens que pensar naquele em nome do qual ele vem, ou seja, Cristo, que assumiu a nossa pobreza e a nossa enfermidade. A pobreza e enfermidade deste homem são como um espelho, onde devemos ver e considerar, com respeito, a pobreza e enfermidade que Nosso Senhor Jesus Cristo suportou para a salvação do gênero humano" 3.

"Todos os irmãos procurem seguir a humildade e pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo e se lembrem de que nada mais convém que tenhamos em todo o mundo, a não ser, como diz o Apóstolo, (os alimentos) e as vestes com que nos cubramos e fiquemos satisfeitos" (1Tm 6,8). E devem alegrar-se quando freqüentam pessoas vis e desprezadas, entre pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pelo caminho" 4.

2. ASSUMIR O PECADO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

Este aspecto é fundamental. Se Jesus só tivesse mostrado que queria ser pobre sem casa e sem riquezas, podia estar levando a outra ilusão: a de uma pobreza só "espiritual" desencarnada. Mas ele assumiu o pecado, a condição, as conseqüências do pecado do homem. Ele está mostrando que não quer aceitar a situação de pobreza e miséria em que o homem se encontra, porque isso não é ter vida plena. Está aqui a base de toda a revolução evangélica e franciscana, pacífica, não armada, mas tremendamente violenta porque não aceita a injustiça dos que cederam às tentações de possuir para não mais depender.

Quando assumiu a nossa cruz, Jesus ficou pobre porque assumiu os espíritos em choque: é bom que o homem deseje toda plenitude mas, se ele arrebata também a plenitude dos outros, cria a pobreza, desumana e altamente ofensiva ao Pai de todos. O espírito do mal cria a pobreza desumanizadora quando cede à tentação de ser poderoso e não precisar mais de ninguém e, possivelmente, de nada. Levado pelo espírito do bem, Jesus Cristo assume a pobreza para vencê-la, para transformá-la em oportunidade de salvação. Ou para mostrar o aspecto bom que ela pode ter.

Levado aos leprosos, Francisco muda de vida porque aprende a olhar e a agir com misericórdia, o amor infinito de Deus. O amor se cruza com a dor. E tira daí a vida sem limites, plena. Só dor não dá, só amor não dá. Podemos encontrar isso em quem se deixou mover pelo amor na direção da dor: dos leprosos, aidéticos, doentes, pobres - dos que se aproximam deles, deles mesmos quando acolhem com amor. Temos que descobrir a oração de quem vive essa cruz.

Ninguém tem que pensar em acolher a pobreza que, em si, é um mal. A questão é acolher Jesus Cristo, que é o libertador dos pobres para que tenham vida em plenitude. O desejo enfrenta a força negativa do anti-desejo. O desejo desenfreado de alguns criou e cria os pobres, os doentes, os sofredores, a própria dor. Cristo vem mostrar que não basta não criar mais dores, ou mais pobres. É preciso ir ao encontro para remir. Não importa se não temos culpa. Importa que nossos irmãos estão em necessidade e nós somos cristãos, outros cristos.

Não bastam as razões sociais ou políticas, porque as mais importantes são as evangélicas, as do espirito. É importante perceber que, quando foi para o meio dos leprosos, Francisco mudou de lugar social, mas também é preciso descobrir que nesse momento ele estava mudando fundamentalmente para o Cristo pobre.

Francisco foi um comerciante, para quem enriquecer é a norma fundamental da vida. Deve ter tido muito contacto com ricos. Foi, inclusive, perdulário. Viveu em uma comuna em que os mais ricos esestavam se unindo, com toda exclusão dos pobres. Sua cidade estava cheia de mendigos. Um dia deve ter aberto os olhos para a diferença, deve ter tido um choque. Amontoava pão para dar aos pobres. Sua mãe parece que o encorajava. Moveu-se pelo pedido de uma esmola por amor de Deus. Foi levado para os leprosos e teve misericórdia.

Clara era mais rica e de costumes mais refinados. Tinha comida boa e percebeu bem cedo que outros não tinham o que comer. Não comia e mandava escondido para os pobres. A mãe era piedosa e deveria compreender, mas talvez tivesse que mandar escondido para não perceberem que jejuava ou por causa do pai e outros da casa.

Francisco tem os episódios de tentar identificar-se com os pobres: pedir emprestada a roupa de pobre, mesmo antes da “conversão”. Quando ele fez uma revolução, e bastante grande, foi uma revolução sem proclamações. Foi uma revolução que passou por dentro dele e teve a força mais do exemplo que da palavra. Ele tem mesmo a idéia de não se exibir, de esconder os dons em vez de se vangloriar. Ele acolheu nobre e cavalheirescamnente a pobreza como se fosse um dama, porque se tratava da pobreza que Jesus Cristo assumiu.

3. SEM SE APROPRIAR

Com seu olhar contemplativo, Francisco penetrou até na interioridade de Deus. E foi lá que descobriu que Deus é "pobre", porque dá tudo que é e não guarda nada. Foi a partir dessa consideração de que "Deus é bom" e nos dá tudo que temos, que Francisco deduziu a base prática mais importante de sua pobreza: Não devemos nos apropriar de nada. Não devemos ser proprietários de nada porque tudo que recebemos é um "empréstimo" de Deus. Tem que ser usado e devolvido. Vale enquanto não aparecer outro que necessite mais do que nós. Porisso Francisco nunca "dava", sempre "restituia":

"E como em todos os pobres ele via a semelhança com Cristo, não só dava generosamente ao primeiro que aparecia todas as esmolas recebidas, com o risco de passar necessidade, mas a isso chamava restituir, como se os pobres fossem os prorietários de tais esmolas. Não retinha para si nada do que recebia: túnicas, livros, toalhas do altar, enquanto houvesse quem lhe pedisse esmola; e para chegar à perfeita realização de seu amor, ele mesmo, além disso, se doava e se distribuia aos outros" 5.

Foi justamente isso que ele expressou de forma lapidar quando concluiu o Canto do Irmão Sol com aquele verso: "Agradecei, servi ao Senhor com grande humildade". No original ele diz "rengratiate" no lugar de agradecei, isto é, dai de volta a graça, devolvei tudo que Deus fez de bom. Sua vida foi um exemplo contínuo desse "não apropriar-se". Ele estava convencido de que "quem para si retém alguma coisa, esconde o dinheiro de seu amo" 6.

Essa maneira de ver está profundamente ligada à confiança que ele depositava em Deus que é Pai. Quem confia na bondade de Deus não precisa guardar para amanhã, porque sabe que o Pai que cuida dos passarinhos do céu e dos lírios do campo não vai deixar faltar o necessário para seus filhos.

A partir dessa consideração, que inclusive nos mostra um Francisco que se propôs a viver sem propriedade e nunca fez um voto de pobreza como o nosso, é muito importante desmontar toda uma rede de falsidades que costumamos montar para falar da nossa pobreza mesmo quando, de fato, estamos vivendo nas missões ou nas favelas. A desapropriação de Francisco inclui o aspecto importante e fundamental de "ser fraco", de não ter a capacidade de fazer tudo que se deseja e mesmo o que é necessário.

Neste ponto - do não apropriar-se - é impressionante a radicalidade de Clara. Ela chegou a obter duas vezes do Papa um "Privilégio da Pobreza", garantindo que deixariam suas Irmãs viverem sempre sem propriedade. Quando Gregório IX resolveu insistir com ela para que aceitasse alguma coisa e se ofereceu para dispensar seu voto de pobreza, ouviu a resposta: "Pai santo, por preço algum quero ser dispensada de seguir Cristo para sempre" 7. E, quando o mesmo papa fez igual proposta a Santa Inês de Praga, Clara lhe escreveu: "Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre" 8.

Francisco admoesta diversas vezes a não se apropriar nem das graças e dos bens espirituais, tambem porque só espera alguma recompensa da parte de Deus:

"Bem-aventurado o servo que "entesoura no céu" (Mt 6,20) os bens que o Senhor lhe concede e não procura manifestá-los ao mundo na esperança de ser recompensado, pois o próprio Altíssimo manifestará as suas obras a todos quantos lhe aprouver. Bem-aventurado o servo que guarda em seu coração os segredos do Senhor" 9.

4. É BOM SER VAZIO

A pobreza de Jesus Cristo, que encantou Francisco e Clara, é definida pela Epístola aos Filipenses (2, 5-8) como "esvaziamento", um tornar-se vazio que fez Deus se assemelhar à condição de servo do homem. Ora, o sentimento de vazio é algo que está sempre nos acabrunhando. Para fugir dele, costumamos amontoar não só bens e riquezas mas mesmo um acervo brutal de conhecimentos e uma carga insuportável de ocupações e atividades. Muita gente parece esses terrenos vazios das cidades em que se colocou uma placa: Aceita-se entulho.

É nesta perspectiva que podemos entender mais um dos pontos básicos de Francisco e Clara sobre a pobreza:

"Bem-aventurado o servo que entrega todos os seus bens ao Senhor seu Deus; porquanto, quem para si retém alguma coisa, "esconde o dinheiro do seu amo" (Mt 25,18), e "o que julgava possuir lhe será tirado" (Lc 8,18) 10..

"Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor. Se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois seu próprio eu é sempre inimigo de todo bem, mas antes considerar como e­le próprio é insignificante e se julgar menor que todos os outros homens" 11.

Na Admoestação 14 ele tem a sua visão de "pobreza de espírito": "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mat 5,3). Muitos há que são zelosos na oração e no culto divino, e praticam muito a abstinência e a mortificação corporal. Mas por causa de uma única palavra que lhes pareça ferir o próprio eu, ou de alguma coisa que se lhes tire, logo se mostram escandalizados e perturbados. Estes não são pobres de espírito, pois quem é deveras pobre de espírito odeia a si mesmo (cf.Lc 14,26; Jo 12,25) e ama aos que lhe batem na face (Mt 5,39) 12.

Para Francisco, que viveu para louvar a Deus, vangloriar-se de qualquer coisa própria é opor-se frontalmente ao louvor. Para ele, o júbilo do louvor tinha que estar unido à pobreza: "Onde à pobreza se une a alegria, não há cobiça nem avareza" 13. Ele era apaixonado pela pobreza de Jesus Cristo, e a deixou como uma das principais recomendações: "Quero elucidar... qual a minha vontade: que, em sinal de minha memória, de minha bênção e de meu testamento, sempre se amem; que guardem sempre amor e fidelidade a nossa senhora Santa Pobreza..." 14. Mas vamos concluir ouvindo o testemunho de Celano:

"Colocado no vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza. Vendo que era estimada pelo Filho de Deus e estava sendo desprezada por toda a terra, quis desposá-la com um amor eterno. Apaixonado por sua beleza, uniu-se a ela mais fortemente, como a uma esposa, com se fossem dois em um só espírito, e abandonou não só pai e mãe mas largou todas as coisas. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não suportou esperar por uma hora sequer para ser seu esposo. Dizia a seus discípulos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas..." 15 .

CONCLUSÃO

O olhar contemplativo de Francisco e Clara enxerga em Jesus Cristo Crucificado uma pobreza muito diferente das que estamos sempre proclamando.

Ser como pobre como o Crucificado é ser vazio, sem poder, vulnerável, solidário, disponível à mudança, comprometido com a dor das pessoas e de todo o mundo. É manter um vazio que só Deus pode saciar.

Ser contemplativo é acolher o cruzamento da dor com o amor sabendo ver o valor positivo de estar crucificado e resistindo à tentação de descer dessa cruz.

PRÁTICAS

Se você nunca fez isso, experimente ir visitar o lixo da cidade, principalmente de qualquer uma de nossas cidades maiores. Contemple o desperdício da parte da população que tem lixo para jogar fora. Contemple a arrasadora alegria dos irmãos do Crucificado que se alimentam e vivem das últimas sobras.

Tente chegar o mais perto possível de outros desses nossos irmãos que fizeram Deus descer do céu: pobres, doentes, atormentados... são tantos.

Experimente anotar num papel quais as suas tentações mais freqüentes de riqueza.

Faça uma lista das coisas, exteriores e interiores, com que você costuma se encher.

ORAÇÃO

Jesus Crucificado, como Francisco e Clara, vou seguir o seu exemplo e quero me casar com a Pobreza. Não quero mais ser rico porque estou cansado de ser saciado e preciso de um coração aberto.

Quero ficar ouvindo essa oração muda que sobe da sua Cruz para o Pai e quero me identificar com ela.

Do seu jeito, eu também quero olhar para todas as coisas deste mundo sem ganância. Quero olhar com amor sem o desejo imediato da posse.

Quero que o meu olhar também seja de paz. Sem agressividade. Sem o desejo de destruir. Sem a necessidade de se livrar dos outros.

Quero que meus olhos refuljam justiça. Alegrando-me com o que os outros receberam de Deus. Ajudando-os a usar alegremente o que receberam de Deus.

Quero manter os olhos maravilhados das crianças. Quero viver o encanto de descobrir como o Pai é maravilhoso em todas as suas criaturas.

Quero olhar com transbordamento. Feliz de poder aclamar, louvar, felicitar, mesmo que não possa possuir, usufruir, gastar.

Quero olhar com gratidão. Convencido de que nada me é devido. Tudo vem por acréscimo e por bondade. Tudo é dom. Quero dar de graça como recebo de graça.

Quero olhar com resignação. Deus dá, Deus tira. Louvado seja Deus. Os seus dons são uma surpresa de todos os dias. Não é o caso de possuí-los e guardá-los com medo dos ladrões. Que outros os usem.

Quero aprender a olhar sem segundas intenções. Sem estar comprando ajudas futuras. Sem me preocupar com a recompensa que o outro possa dar. Até sem a preocupação de formular conceitos sobre o que estou vendo.

Quero olhar com compreensão. Sabendo que todos somos fracos e só em Deus está a nossa força. Sem me escandalizar com os erros e as fraquezas dos outros. Sem julgar.

Quero olhar com amor. Afligindo-me quando o irmão está afastado de Deus e não só porque me faz mal.

Quero olhar com fé. Sabendo ver na transparência de todos e de tudo o Pai de Bondade que nunca nos abandona mas, pelo contrário, sabe descobrir cada dia as coisas mais inesperadas para nos ajudar a ser plenos.

NOTAS

1 Na edição das Vozes São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, está nas pp. 1045-1078.

2 Segunda Celano 219. Vozes p. 443.

3 Segunda Celano  95. Vozes p. 355.

4 Paráfrase à Oração do Senhor, 6. Vozes p. 100.

5 Regra não bulada 23,23. Vozes p. 162.

6 Carta aos Fiéis (2) 9,48-51, 54. Vozes p. 87. 

7 Legenda Maior  9,2. Vozes p. 525.

8 Legenda Maior 11,1. Vozes p. 538.

9 Terceira carta a Santa Inês de Praga 12-13. Fontes Clarianas p. 208.

10 Cf. Regra não bulada 23, 27-34. Vozes p. 163.

1 Regra não bulada 9,4-6. Vozes p. 148.

2 Regra de Santa Clara 6,7. Fontes Clarianas p. 180. Cfr. Última vontade , Vozes p. 171.

3 Legenda Perusina 89. Vozes p. 817.

4 Fragmentos. Vozes p. 108.

5 Legenda Menor 3,7. Vozes p.  625-626.

6 Admoestação 19. Vozes p. 67.

7 Legenda de Santa Clara 14. Fontes Clarianas p. 39.

8  Segunda Carta a Inês de Praga 17. Fontes Clarianas p. 205.

9 Admoestação 28. Vozes p. 70.

10 Admoestação 19. Vozes p. 67.

11 Admoestação 12. Vozes p. 65.

12 Admoestação 14. Vozes p. 66.

13 Admoestação 27. Vozes p. 69.

14 Testamento de Sena. Vozes p. 173.

15  Segunda Celano 55. Vozes p. 328.