4ª PARTE - A REDENÇÃO

Quando Jesus morreu na Cruz, remiu o mundo. Isto é, pagou com a sua vida o preço da liberdade do ser humano. Que estava dominado pela morte e precisava da vida em plenitude para a qual fora criado. Foi o maior acontecimento da história da humanidade.

Mas a liberdade que Jesus ganhou para nós tem que ser conseguida por cada um, tem que ser conquistada pelo Povo. E ninguém vai conseguí-la se não souber, primeiro, em que ela consiste.

Comumente, pensamos na liberdade como qualquer coisa que nos solte de qualquer amarra ou dominação. A impressão é a de que estaremos livres quando pudermos fazer tudo que desejarmos. Mas é claro que a liberdade não pode ser tão vaga. Quem se soltar da polaridade, da tensão entre os polos opostos, estará morto.

E a vida em plenitude é encontrar-se na maior das polaridades: no amor entre a humanidade e o seu Deus. Quando alguém descobre que a cruz não é apenas o instrumento da libertação mas também a situação vivificante da plenitude, estará crescendo no maior desejo e na maior paixão que o ser humano pode ter: Deus. Mas esse é um longo caminho.

Redenção e libertação só foram feitos como um ato na oferta total de amor que Jesus Cristo fez de sua vida na Cruz. Nesse momento, verdadeiramente crucial, ele conquistou de uma vez tudo que nós podemos precisar. Mas, para nós, elas são sempre um processo em que vamos conquistando a vida nova a partir da interioridade e tanto quanto nossa interioridade estiver comprometida com todo o amor: de tudo, de todos e de Deus. Com o amor do Reino.

Francisco escreveu na Regra não bulada este trechinho bastante significativo:

"E nós vos rendemos graças porque, se por vosso Filho nos criastes, pelo mesmo verdadeiro e santo amor com que nos amastes o fizestes nascer como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, da gloriosa, beatíssima, santa e sempre Virgem Maria, e quisestes que nós cativos fôssemos remidos por sua cruenta morte na cruz" 1.

Ele não perdia de vista que toda a nossa libertação vem da entrega de Jesus na Cruz. Como Clara, que o lembrou a Inês de Praga:

"Ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente. Ele suportou por todos nós a paixão da cruz e nos arrancou do poder do príncipe das trevas, que nos acorrentava pela transgressão de nosso primeiro antepassado, e nos reconciliou com Deus" 2.

Nesta quarta parte, sempre guiados por Francisco e Clara, vamos considerar um pouco mais profundamente o sentido das liberdade conquistada pela Cruz, o sentido do caminho de libertação e renascimento que é fundamental em nossa vida, e como crescer na liberdade é crescer no amor, em todos os amores, porque todos constroem o único amor de Deus. Mas vamos dar um destaque especial ao amor interior, que é a base de toda libertação e redenção que podemos trazer ao mundo.

Nossos capítulos serão: 13. A liberdade que nasce da cruz; 14. O caminho; 15. Deus é amor; 16; Irmão Sol, Irmã Lua.

Mas o nosso tema é sempre a contemplação. Em toda esta quarta parte queremos manter os olhos abertos para interiorizar o processo de libertação que Deus está sempre realizando em nós e ao nosso redor.

 

NOTAS

1 Regra não bulada 23, 5-6. Vozes p. 161.

2 Primeira Carta a Inês de Praga 13-14. Fontes Clarianas p. 202.

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A LIBERDADE

QUE NASCE DA CRUZ

INTRODUÇÃO

Só os livres podem ser libertadores. Falamos de uma Liberdade que nasce do vazio e da não-apropriação e que transforma o mundo, abrindo possibilidade de se falar em uma Utopia concreta.

Para ser livre, cada um tem que assumir a sua cruz interior, o que só pode fazer graças ao Cristo que assumiu primeiro a nossa cruz, dando a sua morte pela nossa Vida.

Essa liberdade é base da Contemplação porque, sem olhos livres, não enxergamos as coisas na visão do Espírito de Amor e não entramos na oração de Jesus. É, antes de tudo, a grande liberdade de poder abrir os olhos.

1. VIVEMOS EM UM MUNDO ESCRAVO

Como Jesus ao contemplar Jerusalém do alto da colina, precisamos ter misericórdia da humanidade em que vivemos, pois parecem todos ovelhas sem pastor. Ou sem senhores que os amem como um pai ou uma mãe. Milhões de pessoas, a imensa maioria, têm que esquecer seus sonhos - ou desconhecê-los - porque está forçadamente empenhada em realizar os sonhos dos poucos que assumiram o poder de sonhar, em todos os níveis.

Ficamos divididos entre uma parte do mundo que tem tudo e uma periferia da humanidade que vai ficando cada vez mais sem nada. Não é apenas uma questão de ricos e pobres mas de pessoas que podem decidir e pessoas que têm que executar, de pessoas que podem sonhar e têm como realizar seus sonhos enquanto outras pessoas têm que se limitar a sonhar.

Uma das situações mais constrangedoras é encontrar, em aumento, a presença de um trabalho escravo mesmo depois que a escravidão oficial caiu em desuso. Mas o pior é que há ditadores em todos os níveis. Não só como chefes de coligações e de nações mas também nas empresas, nas famílias, no próprio âmbito do que ainda se chama de amizade ou mesmo de amor.

Grande parte das escravidões podem até ser vividas sem pêso consciente, pela maioria. Em um mundo de informação intensa e de lazer sofisticado, muito poucos se dão conta de que só ficam sabendo das notícias manipuladas pelos poderosos e de que, muitas vezes, só se divertem com as sobras das alegrias dos que se alimentam de seu consumismo.

Mas o pior é dar-se conta de que a maior parte das pessoas parece não gozar de liberdade interior. Não vive tranqüilidade, está sempre preocupada, agita-se ao sabor de ideologias sem conta ou vive o desespero, mesmo acomodado, de quem não acredita mais em nada ou em ninguém.

Quando pensamos que Jesus Cristo é o Redentor, aquele que compra a nossa liberdade, e que o sentido de toda presença de Deus devia ser libertador, é duro constatar que a religião costuma ser um dos instrumentos de escravização do homem moderno, tantas vezes até através de homens da Igreja.

2. JESUS CRISTO LIBERTADOR

A Bíblia, que contém basicamente a história da salvação, mostra que Deus sempre ouviu o clamor do seu Povo escravizado e sempre desceu para libertá-lo:

"Javé disse: "Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípicios e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel... O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam" (Ex 3,7-9).

Mas a maior presença libertadora de Deus chegou com a encarnação de Jesus Cristo e seu anúncio do reino. Fazia séculos que o povo esperava esse salvador e, oprimido na ocasião pelos romanos, não conseguiu aceitar Jesus Cristo porque ele não se apresentou como libertador político. Ele foi nascer na periferia do poder e se misturou aos pobres, aos publicanos, às prostitutas, sem deixar de anunciar a libertação a todos, mesmo aos que dominavam o povo.

De fato, foram quase que só os fracos e pequenos que entenderam e aceitaram esse libertador pobre e vazio, que curava as doenças, multi-

plicava comida, tinha misericórdia dos que tinham sido esquecidos por todos. No fim, até os discípulos estavam cegos para a sua libertação: "Nós esperávamos que fosse ele o libertador de Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que tudo isso aconteceu" (Lc 24,21).

Mas a verdade é que "Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres" (Gal 5,1). Ele queria que tivéssemos vida, vida em plenitude e a partir de nossa interioridade. Não pensava em uma li­-bertação social só daquele momento mas em uma transformação para sempre: "Ele entrou de uma vez por todas no santuário, e não com sangue de bodes e de touros e cinzas de novilha, mas com o seu próprio sangue, depois de conseguir para nós uma libertação definitiva" (Hb 9,12).

Ele quer salvar conosco até mesmo as outras criaturas: "Entregue ao poder do nada - não por sua própria vontade, mas por vontade daquele que a submeteu - a criação abriga a esperança, pois ela também será liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus" (Rm 8,20-21).

Mas a liberdade começa dentro de cada um, com o Espírito que tem lá dentro o seu templo. "A lei do Espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, nos libertou da lei do pecado e da morte" (Rm 8,2). "Uma vez que o Espírito de Deus habita em vocês, vocês já não estão sob o domínio dos instintos egoistas, mas sob o Espírito, pois quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a ele" (Rm 8,9).

Parece inacreditável que ainda hoje, em um mundo que se diz tão liberado, que se orgulha de não obedecer nenhuma autoridade ou lei, seja tão constante o encontro com pessoas que não entenderam uma das advertências mais simples de Jesus Libertador: "O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". Porque é evidente que são escravas das mais infantis convenções sociais e até de manias sem nenhuma explicação.

3. A LIBERTAÇÃO COMEÇA LÁ DENTRO

Em um mundo em que o computador vai se tornando rotina na vida de muita gente, fica mais fácil fazer uma comparação para ajudar a compreender como a liberdade está ficando reduzida. Eu diria que há pessoas que já tem a cabeça programada. Isto é, não fazem as coisas porque querem e quando querem, mas quase automaticamente, como se fossem um programa de computador, já pré-estabelecido e calculado. A gente poderia extender a comparação, lembrando que os animais jánascem "programados" para a maior parte das coisas e, por isso, por exemplo, mesmo um gatinho separado bem cedo da mãe, vai se comportar exatamente como todos os gatos. É claro que o ser humano também já nasce com muitas dessas "programações". O problema é que muitas pessoas estão usando muito pouco a parte não programada. Ou se deixam programar muito depressa pelo mundo que as rodeia e não mudam mais.

É fácil perceber que, tanto quanto somos programados, deixamos de ser livres. E também cortamos a liberdade dos outros. Basta lembrar as pessoas que todos conhecemos, cegas pelas ideologias que as encantaram. Já não cultivam mais desejos livres e parece que têm uma tabelinha para medir tudo que vem dos outros, incapazes de perceber que pessoas - especialmente na dimensão do desejo - nunca podem ser aferidas por tabela nenhuma, porque são absolutamente originais.

É impressionante perceber como esses programados ideologizados, mesmo quando a programação é para serem libertadores, atropelam a vida de todo mundo por não terem a possibilidade de parar e contemplar com calma o que está acontecendo de fato no mundo ao seu redor: a torrente viva e incessante da criatividade que vem de Deus e brota da interioridade de cada ser humano, sempre original.

Os desejos legítimos, principalmente os desejos fundamentais que constituem a especificidade de cada pessoa, têm que ser sempre livres, soltos de qualquer programação. Mesmo o choque de desejos é sempre altamente positivo quando acontece entre desejos livres. Um não corta nem limita o outro, apenas faz com que ele se esclareça, perceba suas limitações, reforce suas raízes, re-dirija seu curso... o absurdo é que possam ser dominados ou programados por quem quer que seja.

Por isso, além de me manter livre, eu tenho que perceber que o outro, com seus desejos diferentes, sempre pode ser um libertador ou um escravizador. É libertador quando entra em processo de cruz e de polarização comigo. É escravizador toda vez que fugimos da cruz e chegamos a acomodações que impedem o fluxo das grandes idéias ou forças dominadoras.

Creio que a primeira coisa a libertar são os próprios olhos. Os olhos da contemplação. Porque os olhos são as janelas por onde entra tudo dentro de nós: entram as coisas, entram as pessoas, entra a presença de Deus e entramos nós mesmos. Nossos olhos constumam ser filtros poderosos, por onde só deixamos entrar o que nós queremos que entre, e como nós queremos que entre. Só vemos o que queremos, e a sabedoria popular já descobriu há muito tempo que "o pior cego é aquele que não quer ver".

O que mostra que, para libertar os olhos, é preciso libertar o próprio eu. E São Francisco ensina que é preciso libertar-se até do próprio eu, porque um eu inflacionado ou inchado está pensando que é Deus, e daí partem todos os seus enganos. Não se apropriar do próprio eu é deixar o caminho livre para o sonho de Deus a respeito de nós mesmos. É preciso abrir um vazio no eu, para poder acolher a infinidade de Deus. Eu chamaria isso de desprogramar o cérebro. É só livrar-se do eu inflacionário. Para libertar, não é preciso mudar, é preciso começar acolhendo-se, mesmo que seja preciso reconhecer-se pequeno.

4. A LIBERDADE DE SÃO FRANCISCO

São Francisco, através de toda sua vida, foi se tornando um homem essencialmente livre. Logo que entregou a roupa a seu pai, exclamou: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso que estais no céu, e não meu pai Pedro Bernardone, a quem devolvo não só o meu dinheiro mas também toda a roupa. Irei nú para o Senhor" 1. Mesmo quando se pôs a pedir esmolas, comenta São Boaventura: "Não era o desejo do ganho que o animava a pedir esmolas, mas a liberdade de espírito; por isso Deus, Pai dos pobres, sempre teve com ele um cuidado todo particular" 2. Tam­-bém foi por isso que pôde escrever:

"De igual modo, em tempo de manifesta necessidade, procedam todos os irmãos com relação ao que lhes for necessário para a vida, conforme o Senhor lhes der a sua graça, pois a necessidade desconhece a lei" 3 (RnB 9,20).

É típico de seu espírito o episódio em que chegou a uma encruzilhada com Frei Masseu e o fez escolher o caminho "girando como uma criança a brincar" 4. Mas ele não era um irresponsável: “Queixava-se dos que no começo tinham procurado com ardor as coisas do alto mas tinham acabado por cair em ambições vulgares e terrenas e, deixando as verdadeiras alegrias, corriam atrás de frivolidades e ambições pelo campo das pretensas liberdades. Suplicava a clemência de Deus pela libertação de seus filhos e pedia com ardor que os conservasse na graça que tinham recebido" 5. Era um homem que, mesmo nesta vida, tinha amadurecido na liberdade da vida definitiva:

"Afinal, chamava todas as criaturas de irmãs, e de uma maneira especial, por ninguém experimentada, descobria os segredos do coração das criaturas, porque na verdade parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus" 6.

Esse foi um princípio que ele soube respeitar e fazer os frades respeitarem em todas as oportunidades. Eram expressões suas: "Faze o que o Senhor te inspirar", "como parecer melhor a ti e a Deus", "faze-o com a bênção de Deus", "consoante o teu agrado". Quando alguém entrava na Ordem, ele instava para que vendesse tudo e o distribuisse aos pobres, mas dizia: "...se não puderem, basta-lhes a boa vontade" 7. Na mesma ocasião, dizia aos outros frades: "E abstenham-se os irmãos e seus ministros de se incomodar com as suas coisas temporais, para que eles, como o Senhor lhes inspirar, disponham delas com liberdade". E cada um era livre de ir ou não por entre os infiéis 8, de comer o que lhe apresentassem 9, de ter ou não os instrumentos do trabalho 10, de usar calçados 11, de remendar ou não o próprio hábito 12, etc.

O tipo de profetas livres que Francisco de Assis trouxe ao mundo do Povo de Deus vem de um respeito profundo por tudo que o Espírito Santo inspirar a cada um. É interessante recordar o episódio da Legenda Perusina em que o cardeal Hugolino e diversos frades insitiram com Francisco para aceitar normas já estabelecidas na Igreja e ele proclamou diante de todo o capítulo:

"Irmãos meus, irmãos meus, o Senhor convidou-me a seguir a via da humildade e mostrou-me o caminho da simplicidade. Não quero que me faleis noutra Regra, nem de Santo Agostinho, nem de São Bento, nem de São Ber­-nardo. O Senhor me disse que queria fazer de mim um novo louco no mundo e não quer conduzir-nos por outro caminho senão por esta sabedoria" 13.

Podemos lembrar também o caso do lobo de Gúbio 14. Francisco se apresenta como um libertador totalmente original, porque não se coloca nem do lado do povo de Gúbio contra o lobo e nem do lado do lobo contra os gubienses. Ele trata os dois lados com cortesia mas faz com que saibam compreender que estão praticando o mal. É a partir dessa aceitação ou reconhecimento do próprio mal, com uma possível abertura para a conversão, que Francisco constroi a paz da libertação.

A obra da libertação precisa de homens livres em si mesmos e de si mesmos para seguir por onde o Espírito soprar. Neste sentido, vamos reler o que São Francisco pensava da liberdade dos pregadores:

"Certa vez disse que um dignitário eclesiástico deveria resignar até à ciência quando entrava na Ordem, para que, despojado dessa posse, se lançasse despido aos braços do Crucificado. "A ciência torna muitas pessoas indóceis, impedindo que alguma coisa de rígido nelas se dobre aos ensinamentos humildes. Por isso gostaria que o homem letrado começasse por dizer esta prece: Irmão, vivi muito tempo no mundo e não conheci de verdade o meu Deus. Peço que me concedas um lugar afastado do barulho do mundo, para que possa rever meus anos na dor, para que recorde as dispersões de meu coração e me reforme para o que é melhor". Que pensais que vai acontecer com quem começar desse jeito? Como um leão solto, sairá com força para tudo, e a boa seiva que hauriu no começo continuará a se desenvolver para o seu proveito. Esse seria o mais indicado para o verdadeiro ministério da palavra, porque haveria de derramar o que estivesse fervendo dentro dele" 15.

Mas concluimos citando a Carta a Frei Leão. Quem quer cultivar a liberdade deveria lê-la repetidamente:

"Frei Leão, do teu irmão Francisco saudação e paz! Assim te falo, meu filho, como mãe, porque o que dissemos no caminho, brevemente, resumo nesta palavra e conselho: e se ainda precisares vir a mim tomar conselho, eis o que te recomendo: tudo o que te parecer conveniente para melhor agradares ao Senhor Deus, imitares os seus passos e a sua pobreza, faze-o com a bênção de Deus e a minha aprovação. E se por causa da tua alma ou para qualquer outra consolação precisares e quiseres vir a mim, Frei Leão, vem!" 16.

5. O SONHO DE UM POVO LIVRE

Mas o Deus do Êxodo queria um povo livre. E nos liberta ao mesmo tempo como indivíduos e como povo. Não conseguimos ser pessoalmente livres e não estamos despertando o povo para ser livre, se não estamos construindo essa liberdade diariamente ao nosso redor. A liberdade de um sustenta a libertação de muitos e todos temos que ir despertando outros libertadores.

Precisamos considerar a importância de viver e de implantar a liberdade para quem se entregou ao Espírito de Deus na contemplação: "O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade" (2Cor 3,17).

Nós nos entregamos a um Deus de Liberdade, como já lembrava o Antigo Testamento: "Foi ele (o Senhor) que, no princípio, fez o homem e o entregou às mãos do seu próprio arbítrio. Se quiseres, podes observar os mandamentos: ser fiel depende da boa vontade. Diante de ti, pôs o fogo e a água: e tu estenderás a mão para onde quiseres. Diante dos homens está a vida e a morte: a cada um será dado o que lhe agradar" (Eclo 5,14-17).

Mas é no Novo Testamento, quando já conhecemos o Espírito, que podemos entender com maior clareza o que é ser livre: "Os que vivem segundo os instintos egoistas inclinam-se para os instintos egoistas; mas os que vivem segundo Espírito inclinam-se para aquilo que é próprio do Espírito. Os desejos dos instintos egoistas levam à morte; enquanto os desejos do Espírito levam para vida e a paz. De fato, os desejos dos instintos egoistas estão em revolta contra Deus, porque não se submetem à lei de Deus; e nem mesmo o podem, porque os que vivem segundo os instintos egoistas não podem agradar a Deus. Uma vez que o Espírito de Deus habita em vocês, vocês já não estão sob o domínio dos instintos egoistas, mas sob o Espírito, pois quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a ele" (Rm 8, 5-11).

O contemplativo também age pacificamente sobre o mundo, com liberdade, por um outro motivo: a gratuidade. Ele não precisa contabilizar realizações, não tem que fazer o que aparece e nem mesmo o que rende. Aliás, mais que fazer, tem que viver. Este é um dos pontos mais difíceis de entender para a nossa "cultura" ocidental contemporânea e, justamente por isso, constitui um dos testemunhos mais importantes que têm que ser dados pelo contemplativo.

Como já fomos afastados do nosso povo por uma formação um tanto elitista e alienante, temos que redescobrir os caminhos do povo. Por exemplo, como viver a Palavra de Deus sendo parte do povo que ouve, como ser povo participando das festas, como viver a fraternidade e a intercessão dos santos do povo, como viver o dia a dia de um povo "fraco", "menor". A libertação vem das raízes do povo, que podem ser raízes feridas mas ainda estão mergulhadas em Deus nosso Salvador.

Sempre é preciso dar uma atenção bem grande aos que só pensam em liberdade política e econômica. Não são libertadores nem livres, mas precisam ser ajudados com muito carinho e muita prudência para chegar a entender a liberdade evangélica e que não se trata simplesmente de mudar os poderosos. Quem quer libertar tem que começar deixando de ser tirano e compreendendo que, onde começa a liberdade do outro, acaba a sua. Todo movimento de libertação é válido mas só chegaremos a uma liberdade completa quando os homens forem livres por dentro. Quando uma pessoa é livre interiormente, não há cadeia nem regime ditatorial que possam torná-la escrava.

É preciso libertar cada um para sua própria liberdade, sem nenhum medo do que possa vir a acontecer. Mas, é claro que para isso precisamos de libertadores livres, quem tenham começado por si mesmos, que não se deixem arrastar por ideologias e que dêem tudo de si para serem libertadores preparados e competentes.

CONCLUSÃO

A maior vantagem prática da Cruz é a liberdade. Quem se pretende cristão tem que ser livre e libertador.

A liberdade começa pela necessidade de não se apropriar e de não ter que acumular. Mesmo interiormente.

A libertação só existe se é comunicativa e se, de acordo com o sonho de Deus, cria um povo livre.

PRÁTICAS

Fazer uma lista concreta das liberdades que parecem faltar ao nosso redor.

Fazer uma lista concreta das liberdades que faltam dentro de mim mesmo.

Tentar ver em quê minha mentalidade pode estar condicionada pelas ideologias e outras programações.

ORAÇÃO

Ajudai-me, Senhor, a amar a liberdade dos meus irmãos. De todos: dos que convivem comigo e de qualquer pessoa que pertença à humanidade como eu. Ajudai-me a acreditar na liberdade de todos, a não ter medo da liberdade de ninguém.

Ajudai-me a entender cada um como ele é, sem medí-lo pelos meus próprios parâmetros. Ajudai-me a ter a coragem de aumentar os meus horizontes cada vez que encontro alguém que é diferente.

Ajudai-me a abrir os olhos para toda a surpresa que cada pessoa pode ser cada dia e a lutar para que todos possam continuar a surpreender para sempre. Ajudai-nos a valorizar as conquistas do passado e a ter coragem de deixar outras novas para o futuro.

Ajudai-me a saber distinguir com clareza quando a liberdade de alguém está impedindo a liberdade de outros e a não me calar nem omitir. Ajudai-me a tirar o vosso povo da terra da escravidão para que todos os povos cheguem ao país do sem limites.

Ajudai-me, antes de tudo, a me libertar por dentro de todas as amarras que eu mesmo inventei de medo que me criticassem e rejeitassem. Amém.

NOTAS

1 Segunda Celano 12. Vozes p. 295-296.

2 Legenda Maior  7,9. Vozes p. 512.

3 Regra não bulada 9,20. Vozes p. 149.

4 I Fioretti 11. Vozes p. 1101.

5 Primeira Celano 104. Vozes p. 254.

6 Primeira Celano 81.Vozes p. 236.

7 Regra bulada 2,9. Vozes p. 132.

8 Regra bulada 12. Vozes p. 137.

9  Regra bulada 3,4. Vozes 134; Regra nãobulada 3,17. Vozes p. 142; Fioretti 4. Vozes p. 1088.

10 Regra não bulada 7,10. Vozes p. 146.

11 Regra bulada 2,16. Vozes p. 133.

12 Regra bulada 2,17. Vozes p. 133.

13 Legenda Perusina 114. Vozes p. 844.

14 I Fioretti 21. Vozes pp. 1123-1125.

15  Segunda Celano 194. Vozes p. 424.

16 Carta a Frei Leão, Vozes p. 90.