14
O CAMINHO
INTRODUÇÃO
O ser humano é dinâmico por natureza e, por isso, uma das maiores desgraças que pode enfrentar é a de estar bloqueado, sem conseguir crescer e desenvolver-se. Livre, tem que caminhar.
São muitos os caminhos que podemos fazer neste mundo, mas um é o essencial, base de todos os outros: o caminho interior.
A humanidade tem antigas e sólidas experiências de caminho interior. Precisamos rever essas rotas de libertação.
1. VIVER É CAMINHAR
Nossa vida tem uma história: ela é um caminho. E é muito importante que cada um de nós tenha consciência do caminho que está fazendo.
Lembremos que, nos Atos dos Apóstolos, quando ainda não tinha sido inventado o nome "cristão", os seguidores de Jesus eram conhecidos como "os seguidores do caminho". E com razão, pois ele mesmo diz: "Eu sou o caminho...". "Quem quer ser seu discípulo tem que renunciar a tudo para poder seguí-lo". E ele "não tem casa nem um lugar onde repousar a cabeça", porque não pára.
Muitas religiões antigas têm essa forte idéia de caminho. O Taoismo chinês tem seu segredo na palavra Tao: Caminho. Também São Francisco teve um sentido agudo dessa nossa aventura com Deus, e insistiu em que os seus irmãos deviam ser sempre "peregrinos e forasteiros".
E é fácil de ver como, no Antigo Testamento, o caminho da História constitui o maior dos sacramentos de Deus. O Senhor sempre se manifestou nos momentos mais duros da história do Povo para estar com ele e conduzí-lo com segurança à terra Prometida, a Jerusalém, a sua vocação universal.
É muito significativo que o Doutor Seráfico, São Boaventura, tenha visto um profundo sentido de caminho na experiência contemplativa de Francisco de Assis, descrevendo-a no "Itinerário da Mente a Deus".
Caminho nunca é completo, porque vai sempre se fazendo. Mas quem já está a caminho soltou-se na situação dos livres e já vai podendo descobrir progressivamente a vivência do amor, até chegar à plenitude de Deus. A pessoa vai ampliando a capacidade de enxergar o invisível e pode levar seu desejo à realização de todo um mundo melhor.
Vamos levantar, com coragem, o tapete que cobre a nossa interioridade, mesmo sabendo que em primeiro lugar vamos encontrar o lixo enganosamente varrido. O que encontramos, e sempre achamos que é caótico, pode ser confuso como um arabesco, mas há quem entenda de arabescos. Pode ser complicado como um motor de carro para quem não é mecânico. Até mais: pode ser deslumbrante e assustador como as vísceras vivas e palpitantes de um ser humano. Mas nós temos é que olhar com confiança, dando-nos tempo, todo o tempo que for preciso. Devagar, veremos o arabesco transformar-se em labirinto. E todo labirinto, por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, acaba revelando que, com um fio de Ariadne, pode ser vencido. É isso que nós temos que descobrir: um caminho.
2. CAMINHAR É DIALOGAR
Um dom fundamental do ser humano é a capacidade de dialogar. Mas, em geral, sabemos muito pouco dessa vantagem que nos abre para o infinito, e a usamos deficientemente. Vamos ver se aprendemos algo mais, para ser mais humanos, para nos realizarmos em plenitude.
Muita gente pensa que um diálogo é uma "conversa a dois", por oposição a monólogo, que é quando uma pessoa fala sozinha. Não, não se trata apenas da conversa entre duas ou mais pessoas. Diá-logo não tem nada que ver com dois. Trata-se de um avançar comparando opostos. O sentido está mais no debate e no avanço que nos interlocutores.
Etimologicamente, a palavra diálogo vem do grego: tanto de "lego", que quer dizer juntar (de onde provêm muitas palavras, desde ler, lógica, e tudo que termina em -logia e -légio), como também da partícula "diá", que dá um sentido de atravessar, caminhar, como na palavra diagonal, por exemplo. A dialética é a arte de dialogar e ninguém a confunde com uma conversa a dois.
Nós fomos criados para dialogar. Quando nos chamou à vida, Deus começou a dialogar conosco, com cada um de nós. Por isso, já viemos com uma energia imensa e imortal, que nos impele a uma busca infinita. E viemos cheios de interrogações, que se manifestam na medida em que vamos crescendo, se formos crescendo.
Essa energia pessoal e profunda, chamada por Jung de libido (em sentido diferente do de Freud, e abrindo bastante para o que entendemos por "Eros" e "Pathos") realiza-se sobretudo quando é mais amplamente liberada para todo e qualquer tipo de diálogo. Porque é força que nos leva a uma auto-transcendência, a ultrapassarmos uma visão estreita de nosso próprio eu. Não só a ir-adiante mas também a ser-mais.
Justamente por isso, um de nossos esforços tem que ser o de soltar todos os bloqueios que possam estar impedindo nossa força propulsora. Fomos ensinados a ajustamentos para saber parar e nos comportar, e temos que aprender ajustamentos para crescer e nos desenvolver. Dialogar é caminhar atravessando uma região em que vamos juntando coisas aos lados do caminho, ou em que vamos sendo impelidos pelo jogo dos opostos, que nos rebatem de um lado para o outro.
Podemos lembrar as alusões ao diálogo entre os primeiros companheiros de São Francisco, como estão nas biografias. E São Francisco deixou o mandamento de fazer um diálogo espiritual todos os dias, justamente na Regra para os Eremitérios. O diálogo parece ser o único método geral na escola franciscana de oração.
Enquanto outras grandes "escolas" de espiritualidade apresentam seus "métodos", a escola franciscana não chega a ter um método propriamente dito. Não podemos dizer que seja um método rezar como São Francisco rezou. O método é um sistema para atingir determinada finalidade. Na minha opinião, se perguntarmos: Mas, como é que os filhos de São Francisco fizeram para crescer na oração, através dos séculos? a melhor resposta seria: através do diálogo fraterno.
Parece que o diálogo franciscano sempre foi espontâneo e ingênuo, sem uma vontade consciente de atingir alguma meta. Mas sempre foi contínuo e eficiente. Os irmãos sempre se reuniram não só para louvar a Deus mas também para andar pelo mundo e para trabalhar. Sempre foram grandes conversadores e sempre confiaram muito uns nos outros. São Francisco deu o exemplo, contando freqüentemente seus sonhos, que ele entendia como "revelação do Espírito Santo", ou participando suas inspirações ou palpites, que ele via como dons especiais: "O Senhor me deu", "O Senhor me conduziu"...
3. EXPERIÊNCIA DO PASSADO
LANÇAMENTO PARA O FUTUROToda a história, com seu sentido de encontros, desencontros, retrocessos e crescimentos, é uma prova de que a humanidade está dialogando desde tempos imemoriais. Continua a haver homens cometendo erros fatais, mas a humanidade como tal está avançando e crescendo.
A experiência dos diálogos está registrada também nos mitos, nas fábulas e em toda a literatura. A religião, em todas as suas manifestações, fala do diálogo do homem com Deus. Se temos dificuldade para captar toda a riqueza dessas experiências é porque são sistemas que usam preferentemente a linguagem simbólica.
No Ocidente, passamos progressivamente para a linguagem lógica, exata e limitada. A psicologia, em todas as suas formas, fala do diálogo entre as pessoas e com a interioridade da pessoa. Da mesma forma, em todas as outras ciências podemos ver resultados do diálogo da humanidade com tudo que foi encontrando através dos séculos, estendendo-se pela terra, mergulhando nos oceanos ou voando para o espaço.
Chegamos a um ponto em que se acumulou tanta experiência que se tornou difícil conhecê-la. Todos os dias descobrimos que muitas coisas já eram sabidas pelos que nos precederam. É uma experiência acumulada que fala de acertos e desacertos. Que facilita o nosso diálogo de hoje mostrando caminhos melhores e advertindo para perigos e becos sem saída. Mas é sempre uma experiência de outros. Cada um de nós tem o direito e a possibilidade de fazer pessoalmente o seu diálogo. Podemos olhar os modelos e as experiências, mas a nossa experiência pessoal é imprescindível.
Há um duplo aspecto na sabedoria de voltar ao passado para conhecer a experiência dos mais velhos. Um deles é o óbvio: é bom conhecer o que já fizeram para não repetir erros, ainda que a experiência tenha que ser nossa, pessoal. O outro - ainda que difícil de aceitar para muita gente - revela um traço da história franciscana bastante original: Os seguidores de São Francisco sempre estiveram bastante próximos dos heterodoxos porque, mais ligados a pessoas que a doutrinas, nunca tiveram medo de ir vasculhar no que a humanidade rejeitou para sua sombra. Quando mudam as pessoas e as circunstâncias, sempre é possível descobrir coisas velhas no tesouro do Pai de Família para criar alguma coisa renovada.
Mas, além da necessidade de fazer o próprio caminho, a história da humanidade não está acabada. Estamos sempre enfrentando problemas atuais, novos, que são outros tantos desafios e nos fazem caminhar. Há muitas interrogações a que nossos antepassados não precisaram responder. Nós temos é que manter desbloqueado o nosso caminho pessoal e o de tudo que vive ao nosso redor. Tudo que não dialoga está bloqueado e bloqueia a passagem de todos.
Por um lado, cada um continua seu diálogo para sempre. Por outro, todos levamos adiante o diálogo da humanidade, que é insaciável, uma vez que sua sêde é do Infinito, e que vai fazendo crescer a plenitude para todos. Por mais insignificante que cada um de nós possa parecer, sua simples existência e crescimento ajuda a somatória do caminho comum.
Também o desafio é importante. Em todas as boas experiências do passado houve perigo e ainda haverá risco se as repetirmos. Da mesma forma, em todas as más experiências do passado sempre pode haver algo a ser recuperado. Mas o ser humano não quer ser preservado do desafio. Sem novos desafios, deixaríamos de ser humanos.
É aí que aparece mais um de nossos recursos inesgotáveis, que vamos precisar aprender a usar melhor: a criatividade, a capacidade de fazer algo novo e muito pessoal onde milênios de história e bilhões de pessoas já fizeram suas tentativas e suas conquistas. Se nos interessarmos, ficaremos sabendo a cada dia que alguém inventou algo novo onde parecia que já tinham feito tudo.
A família franciscana sempre teve uma história um bocado confusa, porque quase sempre foi fiel às suas origens e estimulou a criatividade dos irmãos. Em nossos dias, estamos abrindo caminhos novos em culturas muito diferentes e, praticamente em todo o mundo, estamos redescobrindo a vida com os pobres da nova sociedade deste fim de século. Que outros desafios pareceriam estar nascendo? Que podemos começar a entrever para nossos irmãos mais novos?
4. O CAMINHO INTERIOR
O caminho que leva a Deus não é uma viagem exterior, nem no tempo - porque não há prazos nem datas para encontrá-lo, nem no espaço - porque não há lugar nenhum do mundo que possa apresentar-se como ponto único e final do encontro. Encontramos o Senhor no caminho que penetra na interioridade. É lá dentro que a pessoa se transforma e vai acertando a rota de sua meta eterna: o infinito. Mas também não se trata de um caminho cerebral, de um roteiro intelectual ou literário. É um avanço contínuo, do corpo e da alma, do que fazemos fora e do que fazemos dentro, descobrindo sem cessar o sentido da vida, da vida concreta de cada um, além do sentido da vida do povo e da humanidade.
Os antigos, e todos os povos que ainda chamamos de "primitivos" têm mais facilidade do que nós, ocidentais, para perceber como é a interioridade que nós vivemos na exterioridade. Por isso sempre tiveram uma infinidade de caminhos rituais que, como gestos simbólicos que são, demonstram concretamente como podemos nos integrar às conquistas interiores daqueles que nos precederam.
É nessa perspectiva que devemos entender todas as peregrinações que sempre foram feitas por todos os povos, inclusive aqueles que constituem as nossas mais variadas raízes, ou que sempre conviveram com nossos antepassados e ainda convivem conosco. Os hebreus antigos dirigiam-se às diversas cidades em que foi localizada a Arca da Aliança como tinham seguido essa mesma Arca através do deserto, buscando a Terra Prometida, ou o grande encontro com Deus. Viveram durante séculos as peregrinações a Jerusalém, que ainda continuam e são símbolo de nossa busca da Jerusalém Celeste - após a morte e no fundo da interioridade de cada um. Gregos e Romanos tiveram suas peregrinações aos santuários para saber a vontade dos deuses. Nossos ancestrais foram a Jerusalém, a Roma, a Santiago de Compostela e, continuam a buscar Lourdes, Fátima, Assis e tantos outros lugares. Mesmo nossos contemporâneos vão a Aparecida, a Pirapora, ao Canindé, como a uma porção de outros santuários nacionais, de Lujan a Meca, ou ao Ganges.
Hoje, sabemos que até o homem das cavernas fazia peregrinações. Um exemplo bastante interessante foi descoberto em grutas muito antigas dos Pirineus, habitadas milhares de anos atrás, quando a região estava coberta de neves como o polo norte. Naturalmente, as pessoas passavam praticamente todo o tempo dentro das cavernas. Pois souberam descobrir caminhos que se tornaram caminhos rituais, até chegar a uma caverna especial, consagrada como lugar sagrado. O importante é que, para essas pessoas mais "primitivas" é muito pequena ou inexistente a distinção entre o exterior e o interior. Fazer um caminho por dentro do útero da Mãe Terra era como fazer um caminho por dentro da própria interioridade, nascendo para uma vida nova. Mesmo as procissões que chegaram até nós mantêm para o povo mais simples esse forte sentido de caminho ritual que mexe com a interioridade.
Descobrir o caminho interior é voltar ao seio materno (lembremos Jesus falando com Nicodemos) e descobrir o renascimento em uma vida mais verdadeira, que não é visível mas liberta o espírito e leva à realização total do self, o núcleo do nosso ser mais completo, que só vamos descobrindo aos poucos. Aliás, como nos fez ver Teillard de Chardin, é toda a natureza que tem um caminho eterno de complexificação, no qual nós nos incluímos.
É lá dentro que cada um faz seu caminho pessoal, em que, ao superar obstáculos, está superando a si mesmo. Celano soube mostrar isso em Francisco quando disse: "Embora fraco como qualquer um de nós, não se contentou com a observância dos preceitos comuns mas, cheio de ardente caridade, partiu pelo caminho da perfeição, contemplou o cume da santidade e conseguiu ver o fim de toda realização" 1.
5. SITUAÇÕES LIMINARES
Somos inclinados a nos acomodar, a evitar toda tensão que exija de nós um equilíbrio dinâmico. Por isso, nossa maior dificuldade já é a saída. Se somos conservadores demais, não saimos. Se somos adeptos da mudança exagerada, também não saímos. Só equilibrando o pêndulo entre a rigidez e o caos temos um sentido dinâmico de caminho.
Todas as religiões, sofisticadas ou mais simples e todas as culturas (porque têm sua base na religião) sempre conheceram os "ritos de passagem", que são usados até hoje, mesmo na sociedade secularizada. Lembram os grandes momentos de transformação, em que se sente a intervenção de Deus em nossas vidas. Nossos sacramentos são ritos de passagem. Há muitos outros que podemos apresentar como exemplo.
Para entendê-los, é interessante tomar contacto com a noção de situação liminar. É a situação de quem está passando pela porta: entrando ou saindo, não está parado e está mudando de condição. As situações liminares não podem durar muito, e nelas somos extremanente pobres, porque ainda não temos o que vamos usar na nova vida e já deixamos o que usávamos na vida anterior.
Dois bons exemplos de situações liminares: o noivado, em que a pessoa já é não mais solteira e ainda não é casada, e o noviciado, em que a pessoa já não é mais leiga e ainda não é religiosa. Mas a nossa própria vida na terra está numa situação liminar: já nascemos, mas ainda não nascemos para a vida eterna. Não temos nesta terra nossa morada permanente, caminhamos para a Jerusalém do alto.
O que faz o diálogo caminhar é a insatisfação com as posições obtidas. Cada vez que consolidamos uma conquista, nasce em nós a vontade de partir para o seu oposto. São os opostos que impedem o pêndulo de parar, fazendo com que esteja sempre na busca de seu equilíbrio dinâmico.
Em tudo podemos encontrar opostos. Dentro de nós há o próprio grande oposto do masculino e do feminino. Fora de nós, encontramos a criativa e identificadora posição do Outro. Nossa própria interioridade é um oposto para o que habitualmente chamamos de “real” e estamos segurando em nossas mãos.
Nossa energia vital abre caminho justamente através das antíteses. Tem um força inata para unir polos opostos e para descobrir a chama de uma nova oposição em tudo que for sendo progressivamente unificado. Caminhamos para a unidade, mas para uma unidade cada vez mais complexa.
Um dos aspectos mais interessantes da fraternidade evangélica franciscana é que ela sempre abriga uma variedade muito grande de irmãos, não só velhos e novos mas também de mentalidades e até de espiritualidades muito diferentes. Pois é esse um dos pontos fundamentais do nosso diálogo: esses opostos não devem ser eliminados nem dominados: têm que ser cultivados para que todos cresçam. E todos têm direito a viver em fraternidades bem variadas, onde sua vida espiritual não possa nunca estagnar-se.
Mas o grande desafio do diálogo, até o sem fim, será o mesmo oposto que o fez nascer: Deus, isto é, o Infinito.
6. PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO
Lendo no Gênesis que Deus nos criou à sua imagem e semelhança, alguns autores afirmam que semelhança não passa de um sinónimo de imagem, ou até que seria uma palavra mais débil. Mas, apoiando-me em 1Jo 3,2, afirmo que poderíamos entender o caminho cristão como um processo que nos leva da impressão de uma imagem inicial à realização de uma semelhança que vai nos levar a poder "ver a Deus como Ele é".
No fundo, o grande caminho que temos a fazer é o caminho para sermos aquele indivíduo sonhado por Deus, aquele indivíduo único, que expressa toda a nossa significância. Podemos falar de duas grandes metades da vida. Na primeira, buscamos afirmar-nos no mundo exte-rior. Vai até os 30 ou 35 anos. É uma fase afirmativa, ativa. A segunda é a fase da maturidade. Vai dos 35 anos para frente. Não há mais o que afirmar exteriormente. Temos é que descobrir o caminho da interioridade. Vamos descobrindo a nós mesmos sempre por comparação, mesmo na interioridade. E é lá dentro que temos que encontrar nosso próximo, Deus e nós mesmos.
Nós estamos acostumados com diálogos pequenos: aqueles em que confrontamos algum pensamento com alguém para chegar a alguma pequena conclusão, para resolver algum problema. Digo que são diálogos pequenos, por mais importância que a pessoa lhes atribua, porque precisamos expandir a visão para perceber que todo o nosso viver é um dialogar. Até calados dialogamos. Até nossa maneira de vestir dialoga. Tudo em nós dialoga, e nós dialogamos com tudo. Dialogamos até sozinhos dentro de nós mesmos. A contemplação, com todo o seu silêncio, é um imenso diálogo: lançamo-nos desamparadamente no jogo dos opostos com o Outro Infinito. É verdade que talvez o estejamos fazendo com muito pouca consciência. Nesse caso, sempre é bom aumentar a consciência do que estamos fazendo, porque a infinidade de diálogos que estamos travando a todo momento leva ao infinito. Isto é, à plenitude.
Não vamos confundir plenitude com saciedade. Saciedade é um ter tudo que faz parar; plenitude é um ter tudo que abre possibilidades infinitas. É algo que vai nos realizando cada vez mais e que... não tem fim. Como nós também não temos fim. Pensemos, por exemplo, na plenitude do amor e de um bom casamento, na plenitude aberta por uma amizade, pela nossa pertença a um grupo, a uma cultura, à humanidade. Maior será sempre a nossa plenitude interior. Trata-se de uma "satisfação" que, em vez de dizer "basta!", quer sempre mais.
Todos têm direito à plenitude. Não podemos cercear ninguém. Podemos nos unir aos que têm alguma semelhança conosco, e isso é bom. Mas o diálogo mais rico de experiência é com os diferentes. E precisamos lembrar que, às vezes, a gente dialoga bem até uma certa idade. Depois se enche de manias e se encosta na cadeira de balanço. Esse é justamente o tempo de aprender de novo, porque é a ocasião em que o diálogo pode encontrar a sua melhor abertura para a interioridade.
CONCLUSÃO
É Deus quem nos conduz por um caminho, e Ele mesmo é o caminho. Viver em união com Ele é viver uma dinâmica constante de libertação, a partir do interior.
Quando se cruzam, se encontram, se acompanham, nossos caminhos crescem porque são encontros do diálogo que os balizou e lhes dá força para prosseguir.
Deus é amor e todos os seus caminhos - é bom abrir os olhos para isso - são sempre caminhos do Amor.
PRÁTICAS
Programe uma peregrinação pessoal. Vá a algum lugar especial, mas prepare com carinho a saída, a caminhada, a chegada, o encontro e até a volta. Confirme assim as mudanças de sua vida.
Anote as etapas de sua vida, através das quais Deus foi revelando quem é você. Quais seriam as próximas etapas?
Recorde as pessoas que, de alguma forma, mesmo negativa, ajudaram a sua caminhada ao longo da vida. Agradeça.
ORAÇÃO
Senhor, mergulhado nas águas profundas eu me volto para vós e vos louvo. Eu vos louvo por esta torrente que abriu caminho na terra seca, mesmo quando teve que fazer curvas e dar saltos nas pedras. Da nascente ao Oceano, o rio flui desimpedido e vai me levando para a Vida.
Já tive medo do caminho, dos choques, da força que arrasta. Mas, à medida em que vou fluindo, também vou reconhecendo o meu desejo no ímpeto da fonte, a minha vida no próprio caminhar do rio e vós no Oceano. Eu jorrei e corro Espírito neste rio que é o Cristo e vou levando comigo toda a história do vale para culminar em vós.
É o rio do vosso Povo que me leva despojado para a vida em plenitude. É ele que dá sentido a toda a minha aventura da montanha ao mar. Nele eu me sepulto e eu renasço, salto para a luz e me abismo no infinito.
Este é o caminho do louvor sem fim. Nesta água eu me lavo, a partir dela tenho uma visão cristalina. Ela passa pelo mais profundo de mim mesmo e jorra para a vida eterna.
Livrai-me, Senhor, da bolsa, do calçado e do bastão. Ajudai-me a ser portador livre da vossa Paz. O deserto vai florir.
NOTAS
1 Primeira Celano 90. Vozes p. 242.