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DEUS É AMOR
INTRODUÇÃO
O grande caminho é o do Amor, que abre os nossos olhos para os outros. O Espírito vai abrindo os olhos do amor até chegarmos a abrir os olhos de misericórdia, o olhar próprio de Deus. Isso é contemplação.
O mundo dos desejos revela que o desejo pessoal não é supremo. Há muitos outros desejos e eles são o amor, fora de nós, muito maior do que nós. Neles nós nos movemos, existimos e somos.
O amor entre as pessoas é confronto, é conflito, mas também é vida. Tudo nasceu para ser um infinito amor.
1. ENXERGAR "DEUS-AMOR" COM OS OLHOS DO ESPÍRITO
A maior descoberta da contemplação, uma descoberta que nunca terminamos, é que "Deus é Amor" (1Jo 4,16). É a grande verdade de toda a nossa existência, para a qual só o Espírito pode abrir nossos olhos. Nós vamos tentar, neste capítulo, ir reunindo alguma coisa da sabedoria que ajuntamos na descoberta progressiva desse amor. Porque é devagar, em etapas, que os nossos olhos vão sendo abertos.
Lembremos, logo de início, que todo amor é relação. E que toda relação é tensão: porque a energia passa com vigor de uma pessoa para outra, sem cessar. Tentaremos ver como o Amor que é Deus vai sendo revelado aos poucos, na medida em que nós vamos sendo capazes de sustentar a tensão que vai crescendo, entre nós e o nosso Criador.
Vamos dar cinco nomes ao amor que, com os olhos do espírito, podemos ver desabrochar em nossa vida, com a nossa colaboração: Píetas, Éros, Filia, Ágape, Hesed.
2. PÍETAS - AMOR GRATÚITO E AMOR EXIGENTE
Hoje, em português, a palavra "piedade" está relacionada com oração e devoção, mas, para os romanos antigos, tinha um sentido muito determinado e específico. Em latim, “píetas” designava o amor especial que só existe dentro da família, entre pais e filhos. A Eneida chama o herói Enéias de pio, ou piedoso, pela dedicação que demonstrou para com seu pai Anquises. Para os povos indo-europeus, que veneravam os antepassados como deuses, religiosidade era o mesmo que piedade.
O que interessa, para nós, é que "píetas" é o primeiro amor da vida. Ainda não somos capazes de nada, e nossos pais já nos amam. Depois, pouco a pouco, vamos aprendendo a retribuir.
Em nosso primeiro encontro, Deus é Mãe, ele tem a figura de nossa mãe. E o primeiro amor, cronologicamente, é o materno. À primeira notícia de nossa vinda, já podemos ser amados. Ainda não temos nome e ainda não se sabe nada sobre nossas qualidades fundamentais, nossa personalidade, nem mesmo a que sexo vamos pertencer. A mãe nos ama acolhendo a nossa vida. E acolhendo-nos na vida.
Quem quer que esteja podendo ler isto, foi acolhido por uma mãe, mesmo que não tenha sido aquela que o gerou. Gerar é um ato divino, mas acolher a vida e na vida é muito mais de Deus.
A característica fundamental desse amor é a gratuidade, pois, não sabendo o que seremos, a mãe nos ama de graça. A única recompensa que pode esperar é o vago dom de um filho. Seu amor é tudo para quem está começando a vida, porque não tem nada para oferecer em troca. Estaríamos mal arranjados se tivéssemos que nos fazer amar logo no início, como, depois, vamos ter que provar nosso valor ou pagar o preço em todos os lugares em que quisermos entrar.
Mas o amor materno fundamental não é só acolhimento gratúito. Além de dar a vida, ensina a viver. E, antes de nos ensinar a tomar cuidado com os perigos da vida, o amor materno nos ensina a amar a vida, isto é, ensina a perceber como é bom viver.
Lembremos as mães que preparam comidas gostosas para os filhos e os ensinam a apreciá-las. Isto é tão verdade que os alimentos preferidos variam muito de cultura para cultura, entre as crianças e entre os adultos. Lembremos as mães que ensinam a olhar o que é bonito, a experimentar o que é interessante. As mães ensinam a sorrir.
O sentido de maternidade fica para sempre. Quando já somos adultos e nossa mãe já terminou sua missão conosco, ainda vamos ter que ser acolhidos, ainda vamos ter que continuar aprendendo a viver. Então, cada um de nós tem que ser mãe de si mesmo. Todos nós, mulheres e homens, nascemos com a imagem da maternidade gravada lá dentro. Depois de ver como desabrocha em nossa mãe, podemos passar a cultivá-la mesmo como a Mãe-Terra, mesmo como a descomunal figura materna da vida a que os antigos chamaram de Grande-Mãe.
O mais importante é que esse primeiro amor, essa primeira tensão entre cada um de nós e Deus, que é Mãe, constitui a base imprescindível, sem a qual será impossível falar em amor - quanto mais em caridade! - com quem quer que seja.
Mas o amor-píetas não se esgota com o amor de mãe. Inclui também o amor paterno que, eu diria, distingue-se do amor materno por não ser gratúito. O pai, de certa forma, é o primeiro “outro” de nossa vida e constitui, ao mesmo tempo, um apêlo e uma exigência. Acena com uma possibilidade, mas exige alguma coisa de nós para nos satisfazer.
Lembremos o pai que coloca a criança pequena a uma certa distância e a chama para vir a seus braços. Exige, e ensina-a a andar. Pensemos no pai que ensina o filho a trabalhar. Mostra como se usa a ferramenta e dá oportunidade de experimentar. Se o filho não estiver sabendo imitar, corrige-o. Só aprova quando vê que o esforço foi coroado de êxito.
Nesse exemplo do trabalho, que se repete em tudo que aprendemos de nossos pais, há uma porção de elementos importantes: a) queremos ser como eles; b) imitamos; c) arriscamos, confiados em sua bondade e proteção; d) precisamos da sua aprovação, que se baseia em nosso êxito.
O amor paterno é a base da fé no outro, do passo corajoso na vida, e também do risco. Um bom amor paterno ajuda nos primeiros passos e depois vai se retirando, aos poucos, para que o filho aprenda a viver e a amar sozinho. Em todas as atividades começamos imitando para depois passarmos a ser criativos. E, então, não temos mais limites visíveis. Lembremos que o próprio Deus, feito homem aprendeu as primeiras lições de amor com Maria e José.
Nesta segunda fase do amor-píetas, gostam de mim, mas exigem de mim. Eu preciso me superar. E isso é amor, porque isso é vida. Com o tempo, tenho que aprender a ser pai de mim mesmo, exigindo, recompensando, estimulando o meu próprio crescimento. Quando sou capaz de ser pai e mãe de mim mesmo, posso dizer que renasci para uma vida nova, como aquela de que Jesus falou a Nicodemos (Cfr. Jo 3,1-15).
Como Deus revelado na mãe é o fundamento da caridade, Deus revelado no pai é o fundamento da fé. Porque a fé consiste na confiança que temos nas pessoas, inclusive na pessoa de Jesus Cristo, que nos propõe as grandes verdades da vida sem fim.
3. ÉROS - UMA SEMELHANÇA A RECUPERAR
Éros é a palavra grega para o amor entre o homem e a mulher. Nós a conhecemos no adjetivo "erótico", geralmente expressando algo de sensual ou sexual censurado e visto de maneira negativa. Realmente, expressa o impulso profundo e violento, que vem das regiões desconhecidas de nós mesmos e nos faz vibrar como todos os outros seres da natureza. Talvez tenha parecido muito "animal" aos que queriam ser muito sérios e espirituais. Certamente representava uma paixão pagã, que, para alguns, pareceu incompatível com a nova proposta cristã.
Mas eu o convido, para acompanhar a minha reflexão neste livro, a devolver o sentido bom, rico e criativo à palavra éros. Porque éros é um passo a mais no amor, e supera o que já foi dito sobre o amor-píetas.
Para os gregos, Éros, filho de Afrodite (ou Vênus), era um menininho cego que dava flechadas certeiras nos namorados, despertando o fogo do amor incompreensível e fatal. Nós não somos fatais, nem cegos. Reco-nhecemos um único Deus, autor de tudo que nos diz respeito, e vamos procurar compreender também essa sua maneira de manifestar-se a nós.
O ponto básico do éros é a descoberta do outro, a atração pelo outro: um outro que eu vejo ao mesmo tempo muito semelhante a mim, mas também muito diferente. Por isso, atrai-me forte e profundamente, mais profunda e fortemente do que eu sou capaz de compreender. Percebemos, o homem diante da mulher e vice-versa, que esse não-eu (o outro) me polariza, e que isso interessa profundamente meu próprio eu. Somos como dois pólos de um ímã, e isso é essencial para nós.
Nem o homem nem a mulher são um ser humano completo e, cada um de nós quer ser total e profundamente humano. Somos atraídos pelo outro que, além de ser o que somos, também é o que não somos. Todo o impulso de nossa vida está em identificarmos cada vez mais o que somos, chegar a ser o que ainda não somos, chegar o mais perto possível do que não pensamos que possamos vir a ser, embora nos atraia. Não se trata, exatamente, de complementarmos um ao outro, mas de nos desafiarmos para que cada um busque a sua realização completa e de mostrarmos qual pode ser o caminho.
É evidente que o éros está relacionado com a multiplicação da espécie, como as forças que atraem macho e fêmea entre os animais. Mas o éros, que é humano, não se esgota nem se explica apenas por isso. Homem e mulher sabem que o outro dá a conhecer uma barreira no próprio eu e convida a ultrapassá-la. A atração pelo outro, além de ser uma força de coesão progressiva da humanidade, é uma força de aprofundamento em si mesmo, de superação de si mesmo.
Para pensar no mistério do outro, temos que rever um pouquinho nossa noção de mistério: isso vai ser importante para todas as reflexões deste livro. Em geral, entendemos o mistério como uma porta fechada. Chega um momento em que não conseguimos mais explicar, não conseguimos mais passar: é o mistério. Muita gente foi impedida de continuar a pensar, a pesquisar, porque alguém lhe lembrou (mais ou menos peremptoriamente) que era impossível. Daí para frente vinha o mistério.
Ficou famosa a estória de Santo Agostinho, que passeava pela praia tentando compreender o mistério da Santíssima Trindade, e se encontrou com um anjinho que queria passar o mar para dentro de um buraco na areia. Quando observou que isso era impossível, o menino respondeu que tão impossível era que ele viesse a compreender um mistério.
Mas os mistérios são para viver, não para compreender, e eu prefiro considerá-los uma porta aberta. A diferença é que não se diz: Você não pode compreender! Pelo contrário, você pode entender tanto, pode aprofundar tanto que, ainda que viva mil vidas, não vai esgotar tudo que esse mistério, ou esse ponto, tem para ser entendido. Seria a diferença entre dizer a alguém: Disto você não pode comer! e dizer: Pode comer à vontade que nunca vai faltar. Você não vai conseguir acabar com a provisão.
Aqui, falando em um segundo passo na caminhada do amor que é vida e falando em mistério do outro, é evidente que entendemos tanto a palavra sexo como a palavra éros em um sentido muito mais amplo. Talvez consigamos compreender mais praticamente essa diferença de amplitude, se compararmos os impulsos e atrações que temos no campo da fome, da sede e mesmo no do sexo-genital - que atingem um ponto de saciedade - com uma atração maior, como as do saber, do viver, do amor e de Deus, que nunca chegam a saciar.
Talvez consigamos chegar também a essa amplitude maior lembrando que há uma atração sexual que nos leva a escolher uma mulher, ou um homem, para nos unirmos no matrimônio, mas que o sexo não se esgota aí. Para o homem, mãe, irmãs, colegas... numerosas mulheres, com as quais se relaciona não genitalmente antes e depois do casamento, mantêm sempre viva a polaridade do sexo. O mesmo se diga de uma mulher, lembrando a presença, em sua vida, do pai, irmãos, colegas, de todos os "outros" com os quais com partilha a existência neste mundo.
Mesmo quem não se casa e não se relaciona genitalmente, pode e deve viver em profundidade o mistério do éros. Sem ele, deixaríamos de buscar o nosso eu total. É muito importante ultrapassar a barreira que tantas vezes nos faz pensar que homens e mulheres se unem entre si por mero prazer ou, pelo menos, na busca do bem-estar. No amor éros, como em tantas outras coisas da vida, o prazer e o bem-estar estão presentes e são componentes necessários. Não é mau buscar o prazer. Mau é não perceber que, no éros e em quase tudo na vida, há outra componente fundamental: a necessidade de crescer, de se ultrapassar, de superar barreiras, de ser mais plenamente.
Esse é um ponto importante do éros: que cada um aprenda com o outro, que cada um equilibre com o outro, que cada um inclua cada vez mais a visão do outro. É tão profundo o tesouro que temos a explorar!
4. FILIA - A DESCOBERTA DO TESOURO
Para a Bíblia, quem encontrou um amigo encontrou um tesouro (cfr. Eclo 6, 1-17). É uma experiência importante, em muitos sentidos maior do que a do éros, podendo estabelecer-se entre quaisquer pessoas. O livro sagrado fala da amizade entre Daví e Jônatas e todas as culturas têm bonitas histórias de amigos e amigas. Francisco e Clara foram sem dúvi-da grandes amigos, como Teresa de Ávila e João da Cruz. Os romanos diziam que "a gente conhece um amigo certo nas horas incertas". Eles são aquelas pessoas com quem podemos nos abrir desinteressadamente, que têm até a possibilidade de nos corrigir sem nos magoar.
São Francisco, que teve como amigo até o cardeal Hugolino, pessoa tão diferente dele, "achava que não era amigo de Cristo se não amasse as almas que Jesus amava" 1. Os Três Companheiros dizem que "a fama de uma vida santa tinha unido os dois em mútuo afeto" 2.
É importante perceber como Deus se manifesta nos amigos, como nos ama de formas sempre surpreendentes em cada amigo e como pode provocar o crescimento de nosso amor em experiências que tanto podem ser intensíssimas como muito suaves e quase perdidas no conjunto dos contactos cotidianos.
As amizades longas e profundas talvez sejam as que mais podem comprovar a presença amorosa de Deus em nossa caminhada, mas é bom saber reconhecer essa proximidade mesmo nas pessoas que cruzam rapidamente o nosso caminho mas o deixam marcado por qualquer vislumbre de encontro interior.
5. ÁGAPE - O AMOR NOVO
Quando Jesus veio, revelou ao mundo um amor novo, de que ninguém tinha ouvido falar: "Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,43-44).
Para ele, não se deve nem encolerizar contra o "irmão". Não se pode ofender o "irmão" nem com as palavras mais inocentes (cf. Mt 5,21-24). Começava a revelação de que todos somos irmãos, porque somos todos filhos do Pai dos céus: "Todos vós, pois, sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Pois todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3,26-28).
Nesses poucos textos está contida a maior revolução social que foi trazida por Jesus Cristo. Mudou radicalmente a base do amor, pois não somos mais levados a gostar de quem representa algum bem para nós e sim a amar gratúitamente, fazendo que nosso amor fomente e faça brotar o bem de nosso irmão.
Os primeiros que ouviram Jesus tiveram dificuldade para entender essa proposta que, entretanto, está escrita no mais profundo de nossos corações, por natureza: amar é dar-se, não é saborear o outro como se saboreia um prato gostoso. Mas, bem depressa, os discípulos começaram a entender e a se encantar com a proposta de Jesus. Até acharam que nenhuma das palavras até então freqüentemente usadas servia para expressar esse amor novo. Foram buscar, no grego, um termo pouco usado, "agapan", que quer dizer "acolher amplamente". Daí nasceu a palavra "ágape".
Em português contemporâneo, a palavra pode ser usada como sinônimo de banquete, mas isso é devido ao "banquete eucarístico" celebrado pelos primeiros cristãos na vivência do ágape, o amor novo. A proposta do amor-ágape é de uma superação de nós mesmos, acima do amor-píetas, acima até do amor-éros. Já fica bem mais claro que o Amor que é Deus consiste em um convite que desce até a maior profundidade do nosso ser para dar-nos a mão e elevar-nos até sua altura infinita.
6. VIVER "HESED", O AMOR DE DEUS
Hesed é o próprio amor de Deus, ou o próprio Deus-Amor. Nos livros mais antigos da Bíblia, a palavra só era usada com referência ao amor que Deus tem para conosco. No latim, foi traduzida como "misericórdia", pensando que Deus tem "entranhas de misericórdia", um coração que se compadece e nos oferece um amor que não merecemos. O grego preferiu traduzir Hesed como "éleos" ou, algumas vezes, como "kharis".
Éleos é a idéia contida na invocação "Kyrie, eléison! = Senhor, tende compaixão de nós!" (ou tende misericórdia de nós). Ao pé da letra, lembra o efeito suavizante do óleo (élaion), que os antigos costumavam usar sobre as feridas. Mas também é de "éleos" que vem a palavra em que os olhos de Francisco e Clara enxergaram uma dimensão mágica: eleemósina, esmola, uma oportunidade de viver o amor de Deus entre o que dá e o que recebe.
O grande hino do amor de Deus está na Primeira Epístola de São João, da qual precisamos transcrever pelo menos esta página:
"Caríssimos, amemo-nos uns aos outros. A caridade procede de Deus e quem ama nasce de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é Amor. O amor de Deus para conosco se manifestou por ter enviado ao mundo seu Filho unigênito, a fim de vivermos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ele nos ter amado e enviado seu filho para expiar nossos pecados.
Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor em nós é perfeito. Sabemos que estamos nele e ele está em nós por nos haver dado seu espírito. Nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. ... Amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro" (1Jo 4,7-16.19).
Temos que descobrir que toda a nossa vida é um encontro com Deus. É Amor. Será Amor para sempre. E quem nos fará viver, pouco a pouco, nos passos concretos de cada dia, todo esse Amor será o Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, apresentado justamente como o próprio amor entre o Pai e o Filho. Dentro do coração de seus filhos, Deus Pai Criador e Jesus Salvador amam um ao outro no amor que é o Espírito, aquele que mora em nós e nos faz reconhecer o Senhor. Enxergar isso, na mudez do espanto, é contemplar.
7. A HISTÓRIA DE AMOR EM SÃO FRANCISCO
Em Francisco de Assis podemos acompanhar a caminhada vibrante do amor de Deus crescendo. Ele começa muito marcado pelo amor de uma mãe toda especial, como foi Pique de Boulermont. Tem que enfrentar, a duras penas, um relacionamento constrastante com o pai Bedro de Bernardone até aprender a dizer livremente: "Pai nosso, que estais nos céus!".
Também sabe integrar o amor éros com uma perfeição extraordinária, apesar de tudo que nos possa parecer estranho na maneira medieval (mais dos agiógrafos que dele) de referir-se à mulher. Não sabemos ao certo que papel tiveram as mulheres em suas aventuras antes da conversão, mas vemos como luta às claras com a tentação no famoso e interessante episódio dos bonecos de neve e o vemos estabelecer um relacionamento maduro com Santa Clara de Assis e com Jacoba de Settesoli. Mas a parábola da moça bonita que morava no deserto, o sonho da estátua de metal e a saudação como Senhora Pobreza por parte das três mulheres que encontrou no caminho mostram muito bem porque encontramos nos seus escritos todo o equilíbrio de uma presença do feminino bem integrada. Veremos tudo isso melhor no capítulo seguinte.
Foi por isso, por ter passado tão positivamente pelo amor píetas e pelo amor éros, apesar de não ter encontrado moleza, que Francisco conseguiu dar ao mundo uma de suas mais grandiosas contribuições: a do vibrante amor fraterno, que estava contido nos evangelhos mas tinha sido tão pouco vivenciado até então. Aliás, continua pouco vivenciado, porque teimamos em querer passar para o amor fraterno tentando escamotear o encontro com o amor éros.
Mas Francisco não parou aí. Destaca-se também pelo amor seráfico, próprio daqueles anjos que se incendeiam como brasas porque vivem o contacto mais direto com Deus. Santo popular depois de oito séculos e em todos os continentes, mesmo no meio de outras religiões, ele é justamente o exemplo de um homem que fez o caminho inteiro. Partiu do mundo exterior mas soube entrar com vigor no mundo interior, acabou subindo seraficamente ao mundo superior, o de Deus-Hesed. É por isso que nós o estamos tomando como guia e exemplo para esta nossa proposta de contemplação.
CONCLUSÃO
Deus, que é Amor, está continuamente se revelando em nossa vida, principalmente a partir dos movimentos interiores. Só nos falta ter olhos para ver isso e a comunicação se estabelecerá.
Cada experiência de amor transforma o ser humano tanto quanto é capaz de arrancá-lo lá de dentro para se abrir aos outros.
Todo amor nasce no mais profundo de cada pessoa e cresce na direção de uma convergência total em que encontramos Deus definitivamente.
PRÁTICAS
Conte quantos amigos você tem. São todos os que têm a coragem de mostrar positivamente os seus defeitos e todos que você deixa fazer isso.
Escolha a pessoa do seu conhecimento que mais lhe parece difícil, insignificante ou repugnante. Enumere o que você pode fazer para reconhecer nela um filho ou uma filha de Deus.
Nos relacionamentos mais difíceis, tente viver a misericórdia: deixe-se amar por Deus e dê tudo do Deus que mora em você.
ORAÇÃO
Eu ainda não sabia que estava na vossa presença mas, abri os olhos e vos enxerguei. Uma presença que continuo a experimentar durante toda a minha vida. Eu estou mergulhado na misericórdia.
Vós sois a terra onde eu germinei e onde vou penetrando com minhas raízes. Vós sois o mundo onde brotei, cresci, e abro os braços em folhas, flores e frutos, que alimentam as pessoas, em quem vós também viveis.
Tudo é misericórdia e amor gratúito que vai me penetrando como o óleo vai me abrindo para uma partilha cada vez mais completa com todos os meus irmãos. Ao calor do vosso amor, estamos sendo todos transformados para viver a plenitude do sem fim. Sempre saciados, vamos nos tornando cada vez mais insaciáveis.
Em tantas oportunidades, meu caminho foi atravessado, continua a cruzar com outros caminhos. Nem sempre eu soube distinguir amigos, mas agora vejo que a presença foi sempre a vossa.
Pai, fazei que eu esteja sempre aberto como terra boa para essa chuva de vosso amor sem fim, que não cessa de renovar a humanidade. Fazei que eu nunca deixe de ser canal dessa graça infinita que é a vossa Misericórdia.
NOTAS
1 Segunda Celano 172. Vozes p. 409.
2 Três Companheiros 61. Vozes p. 690. Cfr. LM 7,7, 1Cel 74 e 75, por exemplo.