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O ENCONTRO COM DEUS
ATRAVÉS DO EROS

INTRODUÇÃO

Para sermos livres no amor e em todo relacionamento humano, o ca­-minho de redenção tem que começar na polaridade entre os arquétipos do masculino e do feminino, que residem na interioridade.

A criatividade humana, maior que a maternidade e a paternidade, começa em um cruzamento entre opostos que consegue enriquecer a humanidade quando desvenda primeiro o inconsciente coletivo.

Toda a espiritualidade do coração, que caracteriza a escola franciscana, nasce desse mergulho aberto no envolvimento das raízes para se envolver com Deus, o próximo e as criaturas.

1. REDESCOBRIR O EROS

É a partir da interioridade que o ser humano se interessa pelas pessoas do outro sexo, de maneira bastante diferente dos animais, que se unem por instinto reprodutivo. O homem e a mulher têm um ideal bem mais elevado.

É interessante recordar a passagem de São Mateus 22, 24-30, quando os saduceus perguntam a Jesus de quem seria, na ressurreição, uma mulher que tivera sete maridos, e Ele responde: "Na ressurreição eles não se casam, nem elas se dão em casamento, mas são todos como os anjos do céu" (v.30). Indo além da interpretação popular, que conclui que os anjos não têm sexo, podemos entender que, tanto como eles, também nós, na ressurreição, teremos a plenitude humana do masculino e do feminino. Isso, a meu ver, leva-nos também de volta à expressão do Gênesis, 1, 26 e 27, recordando que fomos feitos à imagem de Deus como homens e mulheres e chegaremos à sua semelhança na plenitude total.

Uma das realidades básicas que precisamos recuperar em nosso caminho de crescimento e de salvação é a dimensão masculino-feminino de nosso ser humano. Masculino não é apenas o que diz respeito ao homem e aos animais machos, como feminino não é só o que se refere à mulher e aos animais fêmeas. A realidade é muito mais profunda: a Bíblia diz que somos masculinos e femininos por termos sido criados à imagem e semelhança de Deus: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele os criou, homem e mulher (masculino e feminino) ele os criou" (Gn 1,27).

Depois de milhares de anos de evolução, desenvolvimento e reflexão sobre si mesmo, o homem de hoje tem a possibilidade de vencer visões estreitas para compreender o que afirma a psicologia moderna: todos os seres humanos somos masculinos e femininos. A mulher afirma-se fisica e psiquicamente como feminina, enquanto o homem se afirma física e psiquicamente como masculino, mas, na profundidade de seu interior, o homem é "ánima" e a mulher é "ânimus", isto é, o espírito que vem de dentro equilibra cada um de nós na riqueza desses dois opostos.

As idéias aqui desenvolvidas não são originais nem peregrinas, por novidadeiras que possam parecer a quem as esteja encontrando pela primeira vez. Diversas circunstâncias culturais impediram o homem de apresentá-las de maneira científica e técnica antes do nosso século, mas os seus conceitos básicos já estavam amplamente desenvolvidos nas mitologias antigas e até nos rituais das mais "primitivas" religiões.

Temos que devolver o sentido bom, rico e criativo da palavra eros. O outro nos dá a conhecer uma barreira em nosso próprio eu e nos convida a ultrapassá-la. No fundo, a atração pelo outro, alem de ser uma força de coesão progressiva da humanidade, é fundamentalmente uma força de aprofundamento em si mesmo, de superação de si mesmo.

2. IRMÃO SOL, IRMÃ LUA

Os antigos, com a sua linguagem simbólica que consegue ir tão mais longe, já se referiam, há muitos séculos, ao mistério do masculino-feminino como a um casamento do Sol com a Lua. A luz do sol é brilhante, concentrada e tão forte que pode queimar e até calcinar. A luz da lua é suave, difusa e tão delicada que nunca fere. A luz do sol é tão esclarecedora que pode ser comparada com o Logos, a razão. A luz da lua, sem ferir a escuridão, é tão aconchegante que pode ser comparada com Eros, o relacionamento.

O sol lembra a energia criativa que fecunda a natureza e faz a vida crescer. A lua lembra a mãe Terra, que se deixa fecundar, que acolhe as águas do céu e se abre para a vida nascer. O sol é de uma criatividade ativa, transformadora. A lua é de uma criatividade receptiva, que se transforma. O sol é agressivo e tem que controlar-se todos os dias. A lua é compreensiva, acolhedora e muda devagar no correr de todo um mês. O sol é firme como tem que ser a firmeza psicológica dos pais. A lua é jeitosa como as mães, acolhe e nutre a vida, tem que se ajeitar para que a vida não pereça.

O sol é símbolo dos lutadores que estabelecem metas e alcançam-nas a ferro e fogo. A lua é símbolo dos pacientes, que chegam às metas dando voltas sem ferir ninguém. O sol torra os obstáculos. A lua contorna-os com paciência. À luz do sol, tudo é nítido mas, se olharmos detidamente os objetos iluminados, ou se nos voltarmos para o seu disco de fogo, ele nos destruirá a vista. A lua é muito menos clara, mas podemos olhar com calma todos os detalhes ao redor e contemplá-la direta e sossegadamente.

O sol, na maior parte das culturas, é masculino. A lua é feminina. Mas, não podemos dizer que todos os homens são solares e que todas as mulheres são lunares. Como não podemos dizer que alguém, homem ou mulher, é sempre solar ou é sempre lunar. Cada um de nós é um misto muito pessoal de atitudes solares e de atitudes lunares, ainda que, talvez, se possa dizer que os homens são comumente um pouquinho mais solares e as mulheres, também comumente, um pouquinho mais lunares.

Se ele fosse unilateralmente solar, sem noite e sem lua, daria, provavelmente, um intelectual brilhante, mas acadêmico e estéril. Poderia ter idéias bem claras, mas estaria alheio ao mundo das realidades. Seria mais obstinado que firme, mais cabeçudo que razoável.

Se ela fosse unilateralmente lunar, sem dia nem sol, teria, provavelmente, um coração enorme, mas devorador. Mais que receptiva, seria uma fraca, mais que capaz de um relacionamento profundo, seria possivelmente uma hipersensível. Lua demais, seria mais caprichosa que compreensível, mais mesquinha que atenciosa para os detalhes.

Homem e mulher, temos que viver o dia e a noite, ser o sol e ser a lua.

Mesmo uma observação pouco aprofundada pode demonstrar que, comumente, homens e mulheres relacionam-se com as pessoas e mesmo com as outras realidades de maneira diferente. Podemos dizer que há um jeito masculino e um jeito feminino de se relacionar. De fato, é comum as mulheres se relacionarem com pessoas e situações deixando-se envolver muito mais, porque tendem a identificar-se ou a buscar pontos de identificação com o novo, com o outro. Os homens comumente se relacionam a maior distância, porque tendem a se distinguir ou a buscar pontos de distinção com tudo: não só se distinguem das outras realidades mas até buscam distinções dentro das outras realidades.

Uma explicação que se dá para esse fenómeno recorda que, desde bebês, somos levados a tomar uma posição desse tipo diante da primeira realidade, da primeira pessoa com quem nos defrontamos: nossa mãe. Tanto o menino como a menina precisam aprender a se distinguir dela como pessoa, mas a menina pode continuar a identificar-se com ela como mulher, enquanto o menino é levado a uma distinção muito mais profunda. Tal atitude continuaria a repetir-se pela vida a fora, de alguma maneira.

As duas atitudes de relacionamento são boas e complementares. Uma proporciona uma maneira mais quente e imediata, mais total e envolvente, mais "humana", poderíamos dizer. Outra proporciona uma maneira de ser mais distanciada, mais parcial, mais intelectualizada e racional.

Qual é melhor? As duas. Por algo mais profundo, mas também porque fomos educados no grupo dos meninos ou no das meninas, com muito peso social e histórico, desenvolvemos preferentemente uma dessas atitudes, mas, no fundo, podemos desenvolver as duas. Elas são complementares também no interior de cada um.

Quando uma pessoa se envolve mais profundamente com outra pessoa, ou com uma situação, porque é levada naturalmente a descobrir identificações pessoais com a outra realidade, é muito mais fácil tomar decisões concretas, práticas, vivenciais. Quando a pessoa permanece preferivelmente no nível do raciocínio, no mundo dos conceitos, podem sair muitas palavras ou até escritos e poucas conclusões realizadas.

É fácil ver que o nosso tipo de formaçâo ocidental é muito intelectua­lista, muito "masculino", muito claro mas muito distante de certas me­didas concretas que são a única coisa que uma pessoa espera quando se encontra em dificuldades. Não seria o caso de tornar a própria socie­-dade mais "feminina" nesse ponto de vista? Ou, melhor: Não é o caso de procurarmos equilibrar em cada um de nós mesmos essas duas maneiras de fazermos considerações e de ser efetivos?

As vezes também nos desentendemos, acusando-nos mutuamente de falta de objetividade ou de frieza e distanciamento. Porque uma data foi esquecida, por exemplo, ou porque não se soube calcular bem o tempo para alguma atividade ou compromisso. Isso poderia ser melhorado se nos recordássemos de que há uma maneira mais "feminina" e ou tra mais "masculina" de entender o próprio tempo. Uma mulher tenderá mais a dizer: "Quando as crianças eram pequenas", ou "Quando estive na casa da vovó", ou "Quando a árvore do jardim estava florida". Nesses casos, o tempo é mais sentido do que calculado. Um homem tenderá a considerar o tempo mais como conceito, como elemento de cálculo, tendo dificuldade para ligar datas a acontecimentos de caráter “emotivo”.

3. APAIXONAMENTO E HIEROSGAMOS

Aí está um valor da caminhada comum não só entre os homens e as mulheres em geral mas principalmente de um homem com uma mulher que se amam. Quando duas pessoas se apaixonam, projetam uma na outra a imagem complementar que possuem lá dentro: o homem a de ánima, a de feminino; a mulher a de ânimus, a de masculino. É na convivência diária com amor, e com consciência de caminho, que um pode ajudar o outro a partir de sua projeção, para que vá corrigindo a rota e se encaminhando para a plenitude pessoal com segurança.

Levando em consideração o que dissemos até agora, ouso propor que um bom casamento seria o que soubesse integrar o marido em sua dimensão masculino-feminina e a mulher em sua dimensão feminino-masculina. Em outras palavras, um casamento a quatro: duas pessoas mas quatro aspectos profundos da personalidade.

Além disso, não se levando em conta que o homem projeta inconscientemente sua visão de feminino sobre a mulher que ama, e que a mulher faz o mesmo com seu marido, projetando sobre ele sua imagem de masculino, todo casamento corre sério risco, porque a pessoa amada não é exatamente "aquela".

É preciso fazer ver que, quando um homem encontra uma mulher pela qual se apaixona, normalmente ele já vem com todo um ideal de feminino formado a partir de sua mãe, irmãs, colegas, leituras, trabalhos, conversas, sonhos... E o mesmo, respectivamente, acontece com a mulher quando encontra o homem pelo qual se apaixona. Traz consigo uma "idéia" de como deve ser o homem.

Apaixonam-se justamente porque encontraram, um no outro, muito daquele ideal que traziam lá dentro. Muito, mas não tudo, e pode ser que nem seja o mais essencial, o mais consistente. Se se parar aí, mesmo que o casamento não se rompa, pode ser muito mal vivido, porque cada um estará exigindo do outro atitudes que competem ao ideal que têm na cabeça mas não à pessoa real.

Mas o mais importante não é isso. O amor é necessário para vivermos, mas a paixão não é. O casamento pode ser uma vocação muito comum, a mais comum, mas certamente não foi feito para todos. Mas todos, cada um de nós, homem ou mulher, como tinham descoberto os sábios de milhares de anos atrás, têm que realizar um "casamento interior" ou o "hierosgamos" (matrimônio sagrado) entre o sol e a lua que vivem na sua interioridade. Se chegamos a isso, reconhecendo conscientemente o bastante de nosso mundo inconsciente para aceitar e combinar esses dois polos fundamentais do nosso ser, teremos lá dentro o fluxo de energias necessárias para a realização de cada um no caminho pessoal que lhe for próprio: no casamento ou no celibato, sem projeções.

4. ÂNIMUS E ÁNIMA

A psicologia contemporânea, principalmente a partir de Jung, divulgou e confirmou as expressões "ânimus" para a presença do masculino na interioridade da mulher, e "ánima" para a presença do feminino na interioridade do homem. Tanto homens como mulheres têm o seu interior de certa forma preenchido por presenças mais ou menos nobres do sexo oposto, e a literatura, como todas as artes, é riquíssima de exemplos. Poderíamos citar Helena de Tróia ou a Beatriz de Dante, mas a multidão de heróis e heroinas é sem conta.

Tento colocar aqui alguns dos principais elementos do que constitui o ânimus e a ánima. Sirvo-me de algumas citações de Marie Louise Von Franz, uma das mais preclaras discípulas de Jung, em quem me baseio também para os outros pontos que apresento.

"Ánima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem - os humores  e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente. Não foi por mero acaso que antigamente utilizavam-se sacerdotizas (como Sibila, na Grécia) para sondar a vontade divina e estabelecer comunicação com os deuses".

"Nas suas manifestações individuais, o caráter da ánima de um homem é, em geral, determinado por sua mãe. Se o homem sente que sua mãe tevesobre ele uma influência negativa, sua ánima vai expressar-se, muitas vezes, de maneira irritada, depressiva, incerta, insegura e suscetível. No entanto, se ele for capaz de dominar essas investidas de cunho negativo, elas poderão, ao contrário, servir para fortalecer-lhe a masculinidade" 1.

A manifestação mais freqüente da ánima é a que toma a forma de uma fantasia erótica. É um aspecto grosseiro, mas que só se torna compulsivo quando o homem não cultiva suficientemente suas relações afetivas, mantendo-se infantil diante da vida. Mas muitos outros pontos são positivos. É a ánima que ajuda a escolher uma esposa certa. Também é ela que, quando o espírito lógico do homem se mostra incapaz de discernir os fatos escondidos em seu inconsciente, ajuda-o a identificá-los. Também sintoniza a mente masculina com os seus valores positivos, abrindo caminho para uma penetração interior mais profunda. Por isso, tem um papel de guia, ou de mediador com o mundo interior.

"A personificação masculina no inconsciente da mulher - o ânimus - apresenta, tal como a ánima no homem, aspectos positivos e negativos. Mas o ânimus não costuma manifestar-se sob a forma de fantasias ou inclinações eróticas; aparece mais comumemente como uma convicção secreta "sagrada". Quando uma mulher anuncia tal convicção com voz forte, masculina e insistente, ou a impõe às outras pessoas por meio de cenas violentas reconhece-se, facilmente, a sua masculinidade encoberta. No entanto, mesmo em uma mulher que exteriormente se revele muito feminina o ânimus pode também ter uma força igualmente firme e inexorável. De repente, podemos nos deparar com algo de obstinado, frio e totalmente inacessível em uma mulher".

"Um dos temas favoritos do ânimus, e que este tipo de mulher remói sem cessar é: "A única coisa no mundo que eu desejo é amor e ele não me ama"; ou "nesta situação existem apenas duas possibilidades e ambas são igualmente más" (o ânimus nunca aceita exceções). Dificilmente podemos contradizer uma opinião do ânimus porque em geral é uma opinião certa; no entanto, raramente enquadra-se numa determinada situação individual. É uma opinião que parece razoável, mas que está fora de propósito".

"Assim como o caráter da ánima masculina é moldado pela mãe, o ânimus é basicamente influenciado pelo pai da mulher. É o pai que dá ao ânimus da filha convicções inconstestavelmente "verdadeiras", irretrucáveis e de um colorido especial - convicções que nunca têm nada a ver com a pessoa real que é aquela mulher" 2.

O ânimus tem quatro estágios: primeiro é uma simples personificação da força física - por exemplo, um atleta; depois, adquire iniciativa e capacidade de planejamento; a seguir, torna- se "o verbo", aparecendo muitas vezes como professor ou clérigo; na quarta manifestação, o ânimus é a encarnação do "pensamento". Torna-se, como a ánima, mediador de uma experiência religiosa: dá à mulher uma firmeza espiritual e um invisível amparo interior. Na sua forma mais desenvolvida, relaciona a mente feminina com a evolução espiritual da sua época, tornando-a mais receptiva que o homem a novas idéias criadoras. Por isso, em muitos países, cabia às mulheres a tarefa de advinhar o futuro, a vontade dos deuses.

Aqui, quero chamar a atenção para o fato de que ânimus e ánima, os primeiros arquétipos que encontramos depois de enfrentar a sombra, são os grandes intermediários da comunicação com o mundo interior. Abrem as portas da profundidade para o encontro com Deus na solidão profunda do ser de cada um. Abrem para a plenitude da pessoa.

Em geral, por força da cultura, temos medo de que nos vejam como homens com qualidades efeminadas ou mulheres com qualidades masculinizadas. Não se trata absolutamente disso. Pelo contrário, na medida em que vivermos mais intensa e conscientemente nossa interioridade, seremos muito mais verdadeiramente homens ou verdadeiramente mulheres, porque as qualidades estarão integradas, sob nosso controle e a nosso serviço, e não dominando-nos como acontece com homens efeminados por estarem à mercê da ánima ou mulheres masculinizadas por estarem sob o domínio do ânimus.

5. SÃO FRANCISCO E A FEMINILIDADE

A família franciscana é uma instituição marcada pela valorização do feminino deste o começo. Quando São Francisco foi pedir a Inocêncio III a primeira aprovação de sua fraternidade, contam as fontes, o Papa não se deixou convencer por argumentos e nem mesmo pelo entusiasmo do santo. Mas recomendou que ele fosse rezar e se dobrou, aí sim, quando Francisco, depois de ter invocado a ajuda de Jesus, contou-lhe esta parábola:

"Uma mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto. Um rei se apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, uniu-se muito feliz a ela e teve com ela filhos muito bonitos. Quando já estavam adultos e nobre­-mente educados, a mãe lhes disse: "Não vos envergonheis, meus queridos, por serdes pobres, pois sois todos filhos daquele grande rei. Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que precisais". Ficaram admirados e felizes quando ouviram isso e, orgulhosos pelo conhecimento de sua real estirpe, sabendo que seriam herdeiros, reputaram riqueza toda a sua pobreza. Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era parecido com  o deles. Vendo essa semelhança, o rei perguntou, admirado, de quem eram filhos. Quando afirmaram que eram filhos daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo: “Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo! Se até estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda”. E deu ordem à mulher levasse, para serem alimentados em sua corte, todos os seus filhos" 3.

Na versão dos Três Companheiros, Franciso conclui dizendo: "Eu sou, senhor, aquela mulher pobrezinha que Deus por sua misericórdia tornou formosa em seu amor..." 4. E, mesmo deixando de lado outros textos em que usa apropriações femininas, há mais dois outros episódios fortemente significativos em sua vida. O primeiro é o das três mulheres que o saudaram como Senhora Pobreza:

"Viajando o pobre de Cristo, São Francisco, de Rieti para Sena, para cuidar dos olhos, atravessava a planície da Rocha de Campília, tendo como companheiro de viagem um médico ligado à Ordem. Apareceram três pobrezinhas junto ao caminho, na passagem de São Francisco. Eram tão semelhantes no tamanho, na idade e no rosto, que pareciam três exemplares feitos na mesma forma. Quando São Francisco se aproximou, dobraram reverentemente suas cabeças e o saudaram com um cumprimento novo: "Bem-vinda, Senhora Pobreza!" O santo se encheu na mesma hora de incontável alegria, porque não havia nenhuma saudação que mais gostasse de ouvir do que a que elas tinham escolhido..." 5.

O segundo foi um sonho carregado de valor simbólico, com uma interpretação muito interessante:

"Certa noite, depois de longa oração, acabou adormecendo. Sua santa alma foi levada para o santuário de Deus e viu em sonhos, entre outras coisas, uma senhora que assim se apresentava: parecia ter a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre de cristal e, daí para baixo, de ferro. Era de estatura alta, talhe esbelto e bem proporcionada. Mas cobria suas belas formas com um manto muito pobre. Quando se levantou, pela manhã, o bem-aventurado pai contou a visão ao santo homem que era Frei Pacífico, mas não explicou o que ela pretendia. Muita gente já deu suas interpretações, mas não acho fora de propósito apresentar a que foi dada pelo próprio Frei Pacífico, sugerida pelo Espírito Santo, quando ouviu o caso. Disse: "Essa mulher formosa é a bela alma de São Francisco. A cabeça de ouro é a contemplação e a sabedoria das coisas eternas. O peito e os braços de prata são as palavras de Deus meditadas no coração e postas em prática. A dureza do cristal demonstra sua sobriedade e o esplendor, sua castidade. O ferro é a firmeza da perseverança. E podemos crer que o manto  miserável é o pobre corpo que continha aquela preciosa alma..." 6.

São Francisco é universalmente reconhecido como um dos maiores místicos da história, como dono de um talento poético seguramente notável e nunca foi tido por menos homem porque se comparou com a moça bonita do deserto, ou com a galinha choca preta que juntava os pintainhos, ou por ter sido saudado como a "Senhora Pobreza", ou porque disse que os frades devem fazer o papel de mães nos eremitérios e amar seus irmãos segundo o espírito mais do que uma mãe segundo a carne ama seus filhos.

Pelo contrário, essas e outras imagens mostraram ao mundo um homem que chegou tão longe na união com Deus que tem sido escolhido como modelo por milhões de pessoas em todo o mundo há quase oitocentos anos. É com forte impacto e imenso respeito que lemos hoje sua exclamação ardente de que somos "mães" de Jesus Cristo, e seu tratamento arrebatado de Jesus Cristo como seu "esposo".

Um dos aspectos concretos mais essenciais da feminilidade que São Francisco soube aproveitar com equilíbrio de seu contacto mais íntimo com Deus está em sua atitude fraterna. Ele se envolve com os irmãos, com todas as pessoas e mesmo com todas as criaturas em um relacionamento íntimo de quem se vê dentro da mesma unidade em que todas as criaturas vivem com o seu Criador e em que, de certa forma, já é realidade o sonho da unidade perfeita que Jesus expressou na última Ceia. É muito diferente do frio relacionamento intelectual, tão freqüente entre nós, que descobre todas as coisas que nos distinguem antes de perceber a profusão de laços que nos unem. Nesse mesmo fato, vejo a raiz da extraordinária criatividade de São Francisco. E, claro, mais um convite aberto para um encontro sem limites com Deus e com todas as criaturas lá dentro da solidão mais interior de cada um.

Só se pode conquistar o equilíbrio porque cada um, embora de forma diferente, ou com predominância complementar, goza da presença desses dois opostos. E a complementariedade é justamente o estímulo com que homens e mulheres podem provocar uns aos outros para crescer, para tornar realidade o caminho de salvação. Cada um tem que realizar a sua plenitude.

CONCLUSÃO

Muitos de nossos problemas nos grupos religiosos e na sociedade em geral são devidos a uma falta de liberdade interior que nos leva a atitudes desequilibradas no relacionamento.

A espiritualidade franciscana pode ser anunciadora da paz por ter essa base envolvente com Deus e com todas as criaturas que só pode nascer de uma polaridade feminina assumida.

Mas o seu vigor evangélico, que a tornou capaz de sobreviver aos embates de oito séculos, também é devido à polaridade masculina assumida.

PRÁTICAS

Tente identificar em você manifestações concretas da ánima ou do ânimus. Peça a ajuda de amigos.

Procure enunciar por escrito as principais dificuldades de seu relacionamento com as pessoas. Tente ver se podem ser explicadas pela falta de integração da ánima ou do ânimus.

Estude, no Evangelho, as atitudes solares e as atitudes lunares manifestadas no comportamento de Jesus Cristo.

ORAÇÃO

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, vossos são o louvor, a glória, a honra e toda bênção.

Louvado sejais, meu Senhor, com todas as vossas criaturas, especialmente pelo senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz ilumina até o nosso mundo interior. Ele é beleo e radiante, transmite luz e calor, dá vida e alimenta, com grande esplendor. Audaz, vigoroso, orientador e forte, ele é bem a vossa imagem.

Louvado sejais, meu senhor, pela irmã Lua, que no céu formastes clara, preciosa e bela. Dentro de nós vós a fizestes maternal e acolhedora, fonte de ternura. Compreensiva e atenciosa, ela é capaz de cuidar de todos os detalhes. Compassiva e gentil, está sempre ponta a nos abrigar na paz de sua sombra.

Irmão Sol e Irmã Lua, que estais dentro de mim, e meu ajudais a ser quem eu sou, dai-vos as mãos, acertai entre vós o tempopara que eu seja sempre luz, sempre calor, e ajude o mundo a ser um hino de louvor.

Louvai e bendizei a meu Senhor. Retribui com gratidão. E servi-o com grande humildade. Amém.

NOTAS

1 Von Franz, M.L. Ánima, o elemento feminino in O homem e seus símbolos, pp.177.

2 Von Franz, M.L., Ânimus: o elemento masculino interior, ibidem, p. 189.

3 Segunda Celano 16. Vozes p. 299.

4 Três Companheiros 21. Vozes p. 682.

5 Segunda Celano 93. Vozes p. 353.

6  Segunda Celano 82. Vozes p. 346.