5ª PARTE - A REALIZAÇÃO
Na última fase do processo de contemplação vivida, chego a entender que os desejos de Deus, manifestados em mim como em todos os outros seres humanos da história, tendem a construir um mundo novo diferente e de irmãos, o mundo da hesed ou misericórdia, que foi revelada pelo encontro com a Cruz de Jesus Cristo. O Reino de Deus, que nasce lá dentro, tem que ser amplamente vivido lá fora.
Francisco e Clara, duas criaturas tão tomadas de desejo em tudo que empreenderam, também souberam aprender a misericórdia no encontro com o Crucificado - vivo na Cruz e no leproso - e ajudaram a humanidade a dar um passo importante nessa realização do reino da misericórdia. Foram passos de complementação na realização do Cristo total e deixaram uma ampla família de irmãos e irmãs que continuaram a sonhar com o mundo novo através de todos estes oito séculos.
Foi entre os seguidores de Francisco e Clara que esse sonho - partilhado, é claro, também pelos outros cristãos e, em diferentes graus, por qualquer ser humano - tomou a forma de uma Idade Futura diferente porque os homens trabalhariam a transformação de si mesmos e do mundo. Chegou a ser chamado de Reino do Espírito Santo, ou de outros nomes, mas houve um franciscano secular, o chanceler inglês Santo Tomás More, que a concretizou em um livro famoso, com o nome de Utopia.
Utopia não deve ser a quimera de algo irrealizável mas, pelo contrário, a antevisão do que julgamos poder realizar, juntando os sonhos de todos, mesmo que tenha que ser a longo prazo. O mundo fica diferente para quem enxerga a realidade com os olhos de misericórdia que só Deus tem e para quem olha tudo vivendo intensamente mas sem possuir.
Na utopia, que é uma maneira concreta de falar da Parusia, da Revelação, do Apocalipse, é que o Povo vai chegar à realização do sonho do Espírito que vinha insuflando vida desde o começo para que a humanidade chegasse ao Cristo e por ele fosse ao Pai. É a realização do Cristo histórico total.
Esta quinta e última parte de nosso roteiro vai ser desenvolvida em quatro capítulos: 17. Uma ampla utopia possível. 18. Celebrar - como se constroi o povo novo da Utopia. 19. Maria, a Mãe do Reino futuro. Para nascer, este Povo precisa de uma Mãe. 20. Penitência e conversão: o anúncio da utopia. Este Povo tem que mudar.
Toda utopia começa dentro de alguém, como se fosse um jardim interior cultivado com muito carinho. Pode até começar parecendo um sonho irrealizável, mas vai ficar cada vez mais concreto na medida em que conseguir sair do recinto murado e abrir-se a todos os outros jardins para transformar o mundo. Começa como um sonho e tem que ser realidade, ou então será simples loucura. Não há contemplação sem realização.
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UTOPIA, UM SONHO POSSÍVEL
INTRODUÇÃO
O homem nasce com um desejo enorme e tem que aprender que seu sonho só é realizável pela misericórdia, que tem seu ponto alto na Cruz.
Todo sonho vale pelas realidades simbólicas que vão sendo colocadas dentro dele, mesmo quando se sonha, por exemplo, em construir uma casa própria. Mas agora falamos de como sonhar a realização da misericórdia. Jesus Cristo sonhou com o Reino das parábolas, anteviu o das bem-aventuranças, falou do seu desejo ardente e abriu um Reino concreto: o seu Povo.
Vamos ver a utopia de Francisco e Clara e como ela está sendo vivida na utopia da família franciscana. Quanto mais concreto, melhor. A longo, mas também a curto prazo. Por isso, vamos dar umas pistas de como se constroi uma utopia.
1. A UTOPIA DE FRANCISCO E CLARA
Francisco e Clara viveram, evidentemente, um sonho maravilhoso, porque viveram um desejo ardente. Viveram-no para si mesmos, viveram-no para seu grupo de irmãos e irmãs, mas também há pontos em que o viveram para toda a humanidade, e mesmo para todo o mundo das criaturas. Por isso, podemos falar que tiveram uma utopia.
São Francisco dizia: "Tanto sabe o homem quanto transforma em obras, e tanto sabe orar um religioso quanto o pratica..." É notável que o conjunto de seus escritos use trinta e duas vezes a palavra orar e quase duzentas vezes as palavras agir, fazer, operar...
Um dos pontos mais marcantes de sua utopia é a fraternidade. Devagar, levados por Deus, eles foram abrindo horizontes para um mundo de irmãos e de irmãs. Deu em uma fraternidade que não se limitou aos seus companheiros ou companheiras de aventura espiritual e nem sequer se restringiu a todas as criaturas humanas mas extravazou para as outras criaturas, como vemos no Cântico do Irmão Sol.
Eles se irmanaram com as pessoas da periferia, porque, vazios, estavam muito afastados do poder. Os franciscanos vão ser fiéis a eles justamente na medida em que, através da história, chegarem mais perto ou se afastarem dos irmãos das mais diversas periferias. Mas Francisco e Clara reconheceram os poderes constituídos, não só da Igreja como também do mundo civil. Francisco até escreveu aos governantes dos povos, Clara libertou sua cidade dos opressores.
Um aspecto de sua utopia é o de um mundo sem proprietários, sem dinheiro e, por isso mesmo, sem guardas e sem exércitos. No mundo sem dinheiro, a esmola, expressão da "éleos" divina é entendida de uma forma muito positiva.
No mundo da sua utopia, o trabalho é uma graça, a graça de trabalhar. Não é mercadoria. Por isso, dá um valor todo diferente aos irmãos do seu mundo. E, com isso, eles estão questionando o mundo, embora não pareçam ter muita consciência de que estão sendo questionadores.
O mundo da utopia de Francisco e Clara é, acima de tudo, o mundo da Misericórdia de Deus. Misericórdia não é só compaixão, nem é só piedade, é todo o amor de Deus. Viver a "éleos" é viver o amor trinitário no meio do povo. Essa é a visão contemplativa de Francisco e de Clara. Talvez possamos dizer que esse mundo da "éleos" é expresso por eles no binômio Ternura-Vigor.
Outro aspecto fundamental: Eles viveram no mundo da misericórdia de Deus como "peregrinos e forasteiros". Não tiveram pátria definitiva, estiveram sempre caminhando, estiveram no deserto (éremos), quer na solidão, quer no meio do povo. Tanto dentro de uma caverna ou de um mosteiro, ou de um eremitério, como convivendo com as irmãs e os irmãos.
Mas todo o seu mundo utópico nasce do Evangelho e, por extensão, da Bíblia. É nesse mundo que eles anunciam a Paz e o Bem: os elementos da misericórdia de Deus. Para eles, são bem-aventurados os que vivem em paz. Serão coroados por Deus.
O Lobo de Gúbio pode bem ser uma alegoria em linguagem simbólica para mostrar como Francisco trouxe uma utopia concreta ao mundo. Naturalmente, uma utopia de pobre, muito menos pretensiosa (mas não menos eficaz) que a de Tomás More.
Mas sua utopia também é missionária, mesmo a de Clara. Eles querem ir a todo o mundo. Não é só para dar a vida por Cristo, também é para levar uma nova visão de mundo. Seu mundo tem que incluir os infiéis, os pobres, os poderosos, os senhores e os servos. Por isso mandam cartas: a irmãos e a irmãs, aos fiéis, aos clérigos, aos governadores. Mas os pobres são os primeiros a ser valorizados.
Francisco também tem bem-aventuranças e admoestações, anotadas pelos contemporâneos, em que procura mostrar como deve ser a vida em um mundo melhor.
2. A UTOPIA DE JESUS CRISTO
Jesus já nasceu no meio de um Povo que, libertado da escravidão do Egito e levado para Canaã pelo Senhor, tinha aprendido a história do Paraiso terrestre como uma utopia, uma imagem de como deveria ser a vida dos humanos na terra.
Mas ele trouxe muita novidade. Falou do reino de Deus que estava chegando, explicou-o em parábolas, concretizou-os nas bem-aventuranças.
Além disso, mandou seus amigos fazerem discípulos em todos os povos e disse que esperava reunir toda a humanidade como um único rebanho guiado por um só pastor. Sem judeus nem gregos, sem senhores e servos, com propostas muito concretas, que os seus seguidores haveriam de ir realizando muito lentamente através dos séculos.
Também falou de um reencontro final, quando, depois de esgotadas todas as oportunidades, seriam excluídos da Utopia os que realmente não a quisessem aceitar. Depois disso, todos iriam ver como seria plena a sua utopia no Reino da Trindade, que poucos parecem conseguir enxergar enquanto estamos nesta peregrinação.
Ele não renegou a história do Povo antigo mas a ampliou em todos os sentidos e nos deixou uma visão muito forte de um Cristo místico realizado através de toda a extensão da História.
Jesus também ensinou a rezar todos os dias pedindo a realizaço da sua utopia: "Venha a nós o vosso Reino!" e assumiu todos os que o quisessem como seus colaboradores. Ele não matou os nossos sonhos. Pelo contrário, iluminou-os e deixou-os encarregados de concluir o seu com todas as nossas utopias.
Jesus também propôs caminhos bem concretos, como o de sermos como as crianças para entrar no reino, como a indicação de que os desprezados - prostitutas e publicanos - podiam até entrar mais depressa. Sua mensagem parece ter sido pouco ou nada entendida por alguns, tanto que o evangelista chegou a dizer que ele era a Luz mas não tinha sido recebido pelas trevas.
Mas todos sabemos que as primeiras comunidades de cristãos já começaram a realizar pontos consideráveis da sua utopia e sempre foram seguidos por uma multidão que às vezes acabou no testemunho do martírio e que até cometeu erros através da história. Mas que não deixou morrer a utopia de Jesus. Ela ainda é luz para nós e ainda está sendo realizada. Não temos dúvida de que ainda tem um longo caminho pela frente, mas podemos ter a certeza de que é concreta, viva, realizadora.
Os próprios fatos da história, muitas vezes totalmente independentes de nossa atuação, demonstram que Deus também trabalha para a realização dos sonhos de Jesus Cristo. A Igreja nos ensinou a ler esses "sinais dos tempos" nos acontecimentos que nos cercam. Também nos ensinou que as alegrias e as tristezas dos nossos contemporâneos são alegrias e tristezas de quem constroi o Reino.
Muitas vezes fica difícil acreditar que é preciso vender tudo, dar tudo aos pobres, tomar a cruz e seguir Jesus absolutamente sem nada de próprio. Mas muitos têm acreditado nisso e a utopia de Jesus tem continuado a se realizar.
3. A UTOPIA DOS FRANCISCANOS
Desde o começo de sua história, encontramos os franciscanos envolvidos em um sonho de um mundo melhor que, para muitos deles, identificou-se, durante séculos, com a idade do Espírito Santo prevista por Joaquim de Fiore. Francisco foi até visto como anjo do sexto selo, de que fala o Apocalipse, mesmo por um doutor da altura de São Boaventura.
Os franciscanos sempre se sentiram como uma comunidade que voltava aos ideiais da Igreja Primitiva porque acreditava que, assim, o mundo seria renovado. Suas idéias novas sobre fraternidade, trabalho, mundo da misericórdia, foram transformando o mundo das periferias em que eles sempre viveram. Periferias da Cristandade quando forampara as missões, periferia dos grandes impérios, periferia das cidades e periferias do poder. Mas eles não excluiam nem os poderosos dos seus sonhos: pregavam que eles precisavam ser pobres como Jesus Cristo - com a sua palavra e muito mais com o seu exemplo.
É verdade que nem sempre foram fiéis à utopia de Jesus, de Francisco e de Clara porque muitas vezes cederam às tentações das ideologias reinantes. Como outros cristãos. Esse é um risco constante. Mas o sonho não morreu e um mundo novo construído a partir dos pequenos e dos fracos demora mesmo para ser construído.
Os franciscanos conseguiram deixar exemplos admiráveis da construção de um povo novo especialmente em algumas de suas missões, particularmente entre os índios da América, logo nos primeiros tempos. Mas a sua visão do mundo da misericórdia também foi crescendo em todos os outros setores onde se concentrava o sofrimento: entre os leprosos, os doentes, os desprezados.
Um contribuição muito boa que começaram a dar foi a da fraternidade. Inclusive com uma outra visão, muito mais fraterna, da mulher. Mas, é claro, tudo isso é uma utopia que ainda está em construção.
Para entender a construção da utopia franciscana é imprescindível recordar que os filhos de Francisco e Clara não são apenas os frades e as religiosas das inúmeras famílias franciscanas. No concreto, suas maiores realizações ficaram por parte da Ordem Franciscana Secular, que nem sempre revelou a identidade franciscana de grandes construtores da utopia, como Tomás More e outros governantes, políticos, profissionais, não só na área leiga como entre os clérigos e até no meio dos papas e dos bispos.
4. COMO CONSTRUIR UMA UTOPIA
Uma utopia, longamente sonhada e construída com a participação não só de pessoas sem conta mas de tantas gerações através de tantos séculos, não pode ser improvisada. É preciso reencontrar sempre as suas bases, continuar as suas linhas, saber rever os caminhos, ter, afinal, pontos muitos claros de sua concretização.
Uma das bases fundamentais é que o Deus da Bíblia sempre trabalhou com a utopia de todo um Povo, aliás, de todo o Povo humano em toda a história. A perspectiva tem que ser universal, sem excluir nenhuma cultura, nenhuma religião, nenhuma ovelha do rebanho. O seu Povo tem que se estender por toda a “oikoumene” numa verdadeira e ampla visão ecumênica.
Também parece claro que nossa utopia do Evangelho tem que ser profundamente livre - ela se baseia em pessoas livres - e não pode ficar presa a nenhuma ideologia. As ideologias são sempre o sonho de algum grupo de poderosos, não o sonho dos pobres e fracos de Jesus Cristo e de Francisco.
Em nossa época, para uma perspectiva de Povo, um dos primeiros pontos a trabalhar é o do melhor relacionamento de justiça entre o homem e a mulher. Podemos dizer que este é um dos sinais dos tempos novos e temos que dar-lhe todo impulso, porque suas raízes interiores precisam ser curadas.
A perspectiva de nossa Utopia tem que aproveitar todas as realidades positivas e se balizar pelas experiências negativas e pelas carências do povo. Precisa partir dos fracos. Não trabalhamos com poderes mas com pessoas. Nossa utopia parte sempre da Cruz de Jesus Cristo, que assumiu as nossas.
É muito importante ter metas concretas realistas. Para isso é imprescindível trabalhar a utopia universal a partir das bases reais de nossas famílias, comunidades, cidades e nações, levando em conta as capacidades e os recursos do povo mais simples.
Um dos pontos fundamentais da utopia que os franciscanos podem oferecer ao mundo de hoje e de sempre é o de uma comunidade humana livre da compulsão de comprar tudo que aparece, sem consumismo, um dos maiores males da sociedade contemporânea.
A partir do mundo dos desprotegidos, eles também podem mostrar que o mundo dos meios de comunicação e da grande opinião dirigida pode ser o do dinheiro, pois essa é a utopia dos fortes que, para realizá-la, têm o poder de mexer no mapa das nações e podem dividí-las segundo os seus critérios, mas os fracos também estão construindo o seu mundo. E não é fácil prever se a grande utopia final vai ser construída com mais elementos dos fortes ou com a contribuição lenta e, muitas vezes, mais humana, dos fracos.
CONCLUSÃO
Só tem uma utopia na perspectiva de Deus quem enxerga o mundo com os olhos do espírito. Esse, não pode deixar de ver o que Deus está fazendo. É contemplativo.
O contemplativo também se distingue porque age na sua interioridade e transforma o mundo, em vez de transformar o mundo para se sentir satisfeito.
Como não parte do poder - e sim da fraqueza - a utopia do contemplativo nunca vai ser opressiva.
PRÁTICAS
A partir dos noticiários dos jornais e da televisão, tente anotar ítens para construir a utopia dos homens de hoje, considerando os seus anseios. Mas não a confunda com a utopia dos donos das notícias.
Imagine-se na montanha com Jesus e tente redigir as bem-aventuranças para o mundo que o rodeia. Bem concretas.
Faça um balanço dos dois mil anos de cristianismo anotando objetivamente o que já foi realizado do Reino de Deus na terra. E o que está faltando.
LADAINHA DA UTOPIA
Senhor da misericórdia infinita, ajudai-nos a construir um mundo novo:
Que todos sejam, de fato, irmãos, sem divisões, sem ódios, sem racismos e com o maior respeito pelo diferente. Que não haja mais um terceiro mundo... um quarto... Que ninguém seja lançado em nenhum tipo de periferia da humanidade. Que nenhuma cultura seja esmagada, mas integrada.
Que ninguém morra de fome, que todos comam do que é bom e gostoso... Que ninguém morra de violência, nem da guerra, nem do trabalho, nem do atropelo das cidades.
Que todos possam viver a arte e o lazer. Que todos tenham acesso ao estudo. Que ninguém tenha que buscar fugas artificiais. Que todos possam vestir-se com dignidade e limpeza.
Que todos tenham acesso a uma boa saúde, que ninguém tenha que viver de favor e mendicância.
Que todos tenham uma gostosa família. Que ninguém se sinta desamado. Que todos possam sonhar como um povo cheio de esperança.
Que cessem as divisões e haja uma união crescente. Que não haja prepotência. Que não haja machismo nem patriarcalismo. Que reine a paz no mundo, nas nações, nas famílias, no coração de cada um.
Que ninguém semeie ódio nem discórdia. Que a justiça seja mais vivida. Que o homem não seja escravo do dinheiro. Que haja alegria e prazer sem medo nem abusos. Que a natureza seja respeitada e amada. Que se respeitem todas as religiões.
Que Jesus Cristo seja reconhecido e amado por todo mundo. Que todos tenham Vida em plenitude. Que se realizem as bem-aventuranças. Que o sonho dos nossos desejos frutifique em nossa interioridade e se abra para o mundo inteiro.
Que seja feita a vossa Vontade e venha, cada vez mais, o vosso Reino. Amém.