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MÃE DA CONTEMPLAÇÃO,
DO REINO, DA UTOPIA

 

INTRODUÇÃO

O Povo que sonha e realiza a utopia precisa de uma Mãe, porque é uma imensa família. Maria é a Mãe do Povo porque é a Mãe do Cristo, cabeça desse povo.

Ela torna reais os sonhos da multidão que vai sendo organizada e lhe dá forças para ser anunciadora eficaz do Reino. A contemplação é transformadora porque transforma o homem em transformador.

Maria também tem uma missão que se realiza com cada um de seus filhos. Humana e pequena, ela ensina que Deus escolheu os fracos para confundir os fortes. Daí vem a força interior, força de Deus.

1. OS PASSOS DE DEUS NA HISTÓRIA DO POVO

Deus é o agente de nossa dimensão contemplativa. Pede a nossa colaboração, que vem a ser acima de tudo uma aceitação, e vai desenvolvendo em grandes passos toda a ação que nos transforma para a Vida.

Dá o primeiro passo quando nos faz nascer humanos. O humano é um ser que desperta para a presença de Deus: pode sintonizar a onda que vem das origens do Universo e enxergar, em cores, numa progressão sem fim, o Amor que começou primeiro e constitui a Vida. Nascemos humanos e nascemos povo: é impossível ser humano sem viver uma relação com os outros seres.

Dá o segundo passo quando, ao redor e dentro de cada indivíduo, vai acendendo de fato as luzes dos olhos e do coração: quando desperta cada um de nós para o seu tempo, o seu meio, os objetos, a vida, as pessoas que cada dia nos encontram e nos transformam. Abrem-se os olhos da matéria, os da cultura, os das raízes espirituais, os de um Povo visível que já é sinal claro do Cristo de Deus.

Dá o terceiro passo quando, já na dimensão mais interior, mostra que nos transformou e nos uniu profundamente a Ele. Numa união que vai "celebrava com incrível alegria, mais que todas as outras solenidades, o Natal do Menino Jesus, pois afirmava que era a festa das festas, em que Deus, feito um menino pobrezinho, dependeu de peitos humanos... Queria que nesse dia os pobres e os esfomeados fossem saciados pelos ricos, que se concedesse uma ração maior e mais feno para os bois e os burros... Não podia recordar sem chorar toda a penúria de que esteve cercada nesse dia a pobrezinha da Virgem. Num dia em que estava sentado para almoçar, um dos frades lembrou a pobreza da Virgem bem-aventurada e a miséria de Cristo seu Filho. Ele se levantou imediatamente da mesa, soltou dolorosos soluços e comeu o resto de pão no chão nú, banhado em lágrimas. Dizia que essa virtude era real, pois brilhava de maneira tão significativa no Rei e na Rainha" 1.

Francisco achava que Maria dava maior valor à pobreza evangélica de seu Filho que a qualquer outra coisa. Quando lhe pediram para conservar parte dos bens dos noviços para a acolhida dos frades de passagem, respondeu:

"Se não houver outro meio de atender aos indigentes, despe o altar da Virgem e tira os seus ornatos. Podes crer que é melhor guardar o Evangelho de seu Filho e despojar o altar do que deixar o altar ornado e seu Filho desprezado. O Senhor mandará que alguém restitua à sua Mãe o que ela nos tiver emprestado" 2.

Para ele Maria era uma pobre tão unida à pobreza de Jesus que enviou esta exortação a Clara e suas irmãs:

"Eu, frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e da sua santíssima Mãe, e nela per­-severar até o fim. E rogo a vós, minhas senhoras, e vos aconselho a viver sempre nesta santíssima vida e pobreza. E guardai-vos muito bem de afastar-vos jamais dela de modo algum por ensino ou conselho de alguém" 3.

Clara pensava do mesmo jeito e fez a mesma associação muitas vezes. Colocou em sua Regra essa "vontade" de Francisco, e ainda a terminou com o desejo de que ela e as irmãs observassem "sempre a pobreza e a humildade de nosso Senhor Jesus Cristo e da sua santíssima Mãe" 4. E também une Mãe e Filho na redenção:

"Medita sem cansar o mistério da cruz e as dores da Mãe em pé junto à cruz" 5.

Francisco amava os pobres porque neles contemplava Jesus e Maria: "Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. Também nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa!" 6. E Clara concordava: "E por amor do santíssimo e diletíssimo Menino, envolto em fraldas e reclinado no presépio, e de sua santíssima Mãe, admoesto, suplico calorosamente e exorto as minhas irmãs a vestir sempre roupas vis" 7.

3. UNIDOS AO ESPÍRITO COMO MARIA DE NAZARÉ

Essa virgem de Nazaré era mais uma figura do Povo, paralela daquela menina enjeitada, símbolo de Jerusalém, que alguém tinha jogado no monturo da cidade e estava destinada a ser devorada pelos corvos se Deus não a recolhesse, como disse ao profeta Ezequiel (Ez 16,1-15). Como lemos no profeta, o Senhor do Céu e da Terra veio a casar-se com a enjeitada.

Que, além de enjeitada, tinha mau caráter, ou pelo menos más inclinações: quando se viu sadia e bem vestida, foi logo tratando de arranjar outros companheiros (Cfr. Ez 16, 16-34), figura de um povo que procurou outros deuses e perdeu a utopia do seu Senhor. Deu muitas dores de cabeça, através dos séculos, mas o Senhor, que não precisava dela, também não desistiu dela. Na etapa final da revelação, ficamos sabendo que ainda vai ser santa, uma mulher vestida de sol, com a lua embaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas, mãe do Rei dos Séculos.

Para isso, foi preciso que o Senhor escolhesse uma outra mocinha concreta e não apenas simbólica, desta vez repleta de todos os dons do Altíssimo. Quando a convidou para ser Mãe, fez com que se unisse ao seu próprio Espírito, de uma forma tão inédita que nem temos pontos de comparação para explicar. Maria, símbolo da Esposa bíblica que é o miserável povo de Israel destinado à glória eterna, foi levada aos céus, onde tem um lugar no trono da Trindade. Em Maria, é todo o Povo que já chegou ao "ómega", à salvação e à santidade definitiva.

A história dessa enjeitada que virou rainha é a história de cada um dos contemplativos. O Espírito de Deus age como um vento irresistível, vai construindo Maria dentro de cada um deles, e leva cada um dos pobres a gritar Maranathá em uníssono com ele. Maria do silêncio, aquela que sabia "conferir as coisas em seu coração" (Lc 2,52), é que sabe abrir cada um a uma visão contemplativa que abrange o mundo.

Essa deve ter sido a perspectiva de Francisco e Clara, que recitavam todos os dias uma antífona de Nossa Senhora em que ela é vista em integração perfeita com a Santíssima Trindade e, destacadamente, como "Esposa do Espírito Santo". A antífona fazia parte do Ofício da Paixão, que ele compôs e é a seguinte:

"Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a vós, filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito santo. Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e com todas as virtudes do céu e todos os santos junto a vosso santíssimo e dileto Filho, nosso Senhor e Mestre" 8.

Esse pensamento de Maria tão profundamente unida a Deus foi sempre a luz para Francisco e Clara. Ele chegou a escrever-lhe um bilhete em que vê Clara e as irmãs como outras Marias, também elas esposas do Espírito Santo. Mas, sem perder a visão dessa união profunda - a do casamento místico - preferem, reverentemente, falar dos esponsais com Jesus Cristo. Clara escreve a Inês que ela devia unir-se "como virgem pobre ao Cristo pobre" 9 e fala do Esposo com o maior entusiasmo em todas as cartas. Francisco pode até ter aprendido com ela o que depois escreveu na Carta aos fiéis: "Somos esposos quando, no Espírito Santo, a alma fiel está unida a Nosso Senhor Jesus Cristo" 10.

A contemplação ensinada por Francisco é toda pelos olhos e extremamente concreta, objetiva. Por isso a Maria que ele e Clara conhecem não tem nada de teorias e não se perde no mundo dos conceitos. É verdadeiramente um espelho prático em que enxergam a atuação do Espírito de Deus. Voltando aos seus poucos mas tão ricos escritos, vemos que a pobreza, a humildade, a caridade e a obediência que eles viviam eram suas "senhoras", como Senhora era a Mãe de Deus. A sabedoria, irmã da simplicidade, fazia com ela um par de rainhas, como Rainha é a Mãe de Deus.

Maria, "em quem esteve e está a plenitude da graça e todo bem", era uma realização viva do desejo incontível de Francisco e Clara. Nela morava "aquele que os céus não podem conter". Era dentro dela que podiam encontrar o ambiente da adoração perfeita, o sentido puro da criatura humana que se tornou terra fértil para o Criador. Ela não desejava mais nada e não se apropriava de dom nenhum, pois era simplesmente habitada pelo Senhor. E foi numa de suas casas, a Porciúncula, que eles viveram os episódios mais significativos de suas vidas.

"Era uma velha igreja dedicada à Virgem Mãe de Deus, abandonada e sem ninguém que dela cuidasse. Francisco era grande devoto de Maria Senhora do Mundo, e quando viu a igreja naquele desamparo, começou a morar ali permanentemente a fim de poder restaurá-la... suplicando-lhe em instantes e contínuas preces que se tornasse sua advogada. E pelos méritos da Mãe de misericórdia... ele também concebeu e deu à luz o espírito da verdade evangélica" 11. "Sempre amou esse lugar acima de qualquer outro no mundo, pois foi aí que ele principiou humildemente, progrediu na virtude e atingiu a culminância da felicidade. Foi esse lugar que ele confiou aos irmãos ao morrer como particularmente caro à Santíssima Virgem" 12.

A Legenda de Santa Clara, recordando que ela foi acolhida em Santa Ma­ria dos Anjos, onde se despojou de sua vida secular e foi consagrada pe­lo corte dos cabelos, comenta: "Assim aparece claramente que foi a Mãe da misericórdia que deu à luz em sua casa a uma e à outra Ordem"13. Porque a devoção de Francisco e Clara para com Maria foi justamente essa: aprender a acolher Cristo para dá-lo à luz do mundo. Com eles e em sua casa, Maria se tornou Mãe de toda a família franciscana.

4. MÃES DO POVO, COMO MARIA DE NAZARÉ

A mocinha escolhida em Nazaré foi feita Mãe do Messias que entrou na história dos homens mas também Mãe de todo o Povo a quem chamamos de Cristo Místico. Gerou o corpo de Jesus de Nazaré e gera o espírito de cada um dos filhos de Deus até ficarem parecidos com o Primogênito de Deus.

É através dela que se faz cada um dos cristos pessoais e é através dela que todos esses cristos constituem o Cristo único, Rei imortal de todos os séculos. Como uma mãe terrena acolhe a criança de graça na vida desta terra e a ensina a viver e a gostar de viver, Maria, Mãe da Graça, acolhe cada um de nós na vida da Graça e nos ensina a vivê-la com praprazer. Ela, que se preocupou com os noivos que "não tinham vinho", certamente tem obtido de seu Filho uma torrente de Graça quando é cultuada e amada na variedade imensa das devoções populares que sempre se multiplicaram através dos séculos e dos continentes.

Ninguém chega à plenitude nem à totalidade humana sem desenvolver todos os dons que o fazem crescer à imagem e semelhança do Eterno ou que realizam toda a medida do homem perfeito: Jesus Cristo. Também por isso, Maria é Mãe de todos os contemplativos. Símbolo da Jerusalém celeste em sua fase final, de santidade, Maria é aquela Jerusalém a que alude o salmo 87,5: "E de Sião será dito: todo homem aí nasceu". Ela não será apenas uma irmã de nossa raça a quem encontraremos no céu em posição privilegiada: Mãe de todo o Povo de Deus, ela poderá ser comparada ao próprio Céu.

É ela quem está por trás até mesmo da inspirada parábola de São Francisco sobre a moça bonita que morava no deserto, personificação da Pobreza e mãe dos seus cavaleiros. Francisco, além de outros elementos que se encaixam muito bem, devia ter em mente a passagem de Oséias 2,16: "Agora sou eu que vou seduzí-la, vou levá-la ao deserto e conquistar seu coração", tantas vezes empregada pelos místicos e contemplativos.

Francisco e Clara contemplavam em Maria o mistério da encarnação, sem separar Jesus de sua Mãe. De fato, sem essa mulher, o Cristo seria um maravilhoso salvador sem bases históricas, pois é nela que se en­contram a divindade e a humanidade. Clara se comove porque "tão grande e glorioso Senhor quis descer ao seio da Virgem" 14. Francisco transborda de reconhecimento pela mulher que tornou possível a descida de Deus e da qual "recebeu verdadeiramente, em seu seio, o corpo da nossa frágil humanidade" 15.

Para Clara, Maria é o tabernáculo da Nova Aliança 16, a tenda em que Deus veio morar entre nós. Nela, a humanidade acolheu Deus e nela Deus é humanidade. Aquele pequenino envolto em fraldas, aquela criança com as feições de Maria, que com ela aprendeu a falar e a andar é Deus feito homem, transformação da história dos homens. Maria mostra como se humaniza Deus e se diviniza o homem. Francisco "amava com um amor indizível a Mãe de Cristo Jesus porque tinha tornado irmão nosso o Senhor da majestade. Em sua honra cantava louvores particulares, entoava orações e ofertava afetos tantos e tais que língua humana não poderia expressar" 17. Arrebatada é sua "Saudação à Virgem":

"Salve, ó Senhora santa, rainha santíssima, Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita Igreja, eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó palácio do Senhor!

Salve, ó tabernáculo do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó man­to do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve, ó Mãe do Senhor! e salve vós to­das, ó santas virtudes derramadas, pela graça e iluminação do Espírito san­to, nos corações dos fiéis, transformando-os de infiéis em fiéis de Deus!"18.

Era o mesmo louvor que continuava na sua "Saudação às Virtudes":

"Salve, rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a pura simplicidade! Senhora santa pobreza, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a obediência! Senhora santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a obediência. Santíssimas virtudes todas, guarde-vos o Senhor, de quem procedeis e vindes a nós! Não existe no mundo inteiro homem algum em condições de possuir uma só de vós, sem que ele morra primeiro. Quem possuir uma de vós e não ofender as demais, a todas possui..." 19.

Todos os filhos de Deus são filhos de Pai e Mãe. São formados na escola da cabeça e na escola do coração. Quando rezam com o coração, são contemplativos.

Justamente por isso, um dos veios fundamentais da torrente da contemplação é o da feminilidade. Uma feminilidade que, como dom de Deus a ser desenvolvido, foi plantada dentro de todos os humanos: homens e mulheres.

A figura de Maria de Nazaré muitas vezes é endeusada por nosso povo. Isso pode ficar absolutamente fora de lugar se ela for confundida com uma das antigas deusas pagãs, como uma divinização da feminilidade humana, quer como mãe, quer como virgem. Os próprios membros de uma igreja mais culta e formal sempre tiveram a tendência de um endeusamento de Maria como inconfessado sucedâneo de um feminino reprimido. Mas o senso do povo está muito perto do que Deus realizou e não dá para expressar em terminologia lógica. Maria é uma criatura cheia de graça, feita Mãe do Jesus Cristo histórico e do Jesus Cristo Povo: com razão é vista em relação íntima com a Santíssima Trindade.

Criados masculinos e femininos, à imagem e semelhança de Deus, temos que ir reconhecendo um Deus em que encontramos tanto o masculino como o feminino, a relação. O anjo enviado a Nazaré para anunciar a Maria que seria Mãe de Jesus continua a ser enviado à pobre e esquecida (não para Deus) Nazaré de nossa interioridade para anunciar ao feminino que está lá dentro que podemos, cada um de nós, ser mães do Cristo que ora junto ao Pai. E é esse feminino que desperta, gera, dá à luz, amamenta e faz crescer a dimensão contemplativa de todo ser humano.

Em Francisco e Clara, fazendo eco a Paulo que disse: "Eu vos gerei em Cristo", é constante o convite a viver espiritualmente a maternidade que Maria viveu pessoalmente. Como quando Clara escreve a Inês e Francisco a todos os fiéis:

"Do mesmo modo que a gloriosa Virgem das virgens carregou Cristo materialmente em seu seio, você também, seguindo os seus vestígios, especialmente os da sua humildade e da sua pobreza, pode sempre, sem dúvida alguma, levá-lo espiritualmente no seu corpo casto e virginal" 20. "So­mos mães de Cristo quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo através do amor e da pura e sincera consciência e o geramos através da santa operação, que deve resplandecer como exemplo para os outros" 21.

E esse era um exemplo que eles mesmos davam. Clara, "plantinha" e "serva", escreveu em sua bênção: "Eu as bendigo em minha vida e depois de minha morte, como posso e mais do que posso, com todas as bênçãos com que cada pai e mãe espiritual abençoou e abençoará seus filhos e suas filhas espirituais" 22. E Celano contou sobre Francisco: "Tinha todo amor pelo pequeno rebanho... Achava que não teria glória se não fizesse gloriosos em sua companhia aqueles que lhe tinham sido confiados, pois os estava dando à luz do espírito muito mais trabalhosamente que suas mães os tinham posto no mundo" 23.

Nessa maternidade tão fecunda, vivida em Maria porque ela, Mãe de Cristo, é a figura viva da Igreja que dá os novos cristos à luz e fica escondida, eles geraram multidões de filhos e filhas através de todos estes últimos oito séculos. E foi nela que descobriram o amor, a fé, a pobreza e a adoração que deu a base de toda a sua vida de contemplação e de ação sobre o mundo.

5. NA MISSÃO DE DEUS COM MARIA DE NAZARÉ

A contemplação da vida de Nossa Senhora parece ter alimentado toda a vida evangélica de Francisco e Clara. Desde que o Espírito Santo entrou na vida de Maria e ela teve que perguntar "Como vai ser isso?" até situações duras como a do reencontro: "Filho, nós o procuramos há três dias", ela caminhou na escuridão e na dor até a Páscoa, mas também já foi sendo anunciadora desde a visita a Isabel até Caná, até o Calvário. Foi por enxergar tão claramente como Maria estava sendo o Povo de Deus em sua aventura da busca de Deus que Francisco deve ter ex­-clamado: "Virgem feita Igreja!".

De fato, Maria foi a primeira criatura humana a acolher o Reino da salvação. Ficou cheia de graça e transbordante de todas as virtudes da Boa Nova. Ela tinha que ser toda especial para Francisco e Clara, quando a viram rica de "todas as santas virtudes que, pela graça da iluminação do Espírito santo, são difusas no coração dos fiéis e que, infiéis como somos, tornam-nos fiéis a Deus". Essa é a base de toda a sua missão, pois ensina tanto a acolher o Reino de Jesus como a fazê-lo nascer no coração de cada um.

Uma das originalidades de Francisco foi lembrar Nossa Senhora como uma missionária batendo estradas com Jesus e os apóstolos. Escreveu na Regra não bulada: "Quando for preciso, que vão pedir esmola. Nem se envergonhem disso, mas antes recordem que nosso senhor Jesus Cristo, o Filho e Deus vivo todo-poderoso... foi pobre e peregrino, e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" 24.

De fato, ele a via como uma espécie de duplo feminino de Jesus: pobre como ele, mas também senhora e rainha como ele era rei e Senhor. Comprendeu que, sem Maria, a redenção teria sido impossível. Ela, nossa irmã, representou toda a humanidade acolhendo a Redenção. E já o acompanhou na kênose, o fato determinante para Francisco e Clara:

"Ele que era rico acima de tudo, quis escolher neste mundo, junto com  beatíssima Virgem, sua mãe, a pobreza" 25.

Ser apóstolo não é só levar Jesus Cristo onde ele não está mas também - e principalmente - saber descobrir e proclamar a presença do Verbo onde ela se tornou manifestação clara de adesão ao Reino. Francisco foi inspiradamente apostólico quando escreveu a Clara e a suas irmãs: "Desde que, por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho..." 26. Nessa carta ele usou para as irmãs os mesmos qualificativos que reservava a Nossa Senhora na sua antífona do Ofício da Paixão.

Deve ter sido por essa maneira de considerar as irmãs integradas com a atitude de Maria e Maria tão envolvida no mistério da salvação que Francisco pediu que elas não jejuassem nas festas marianas 27. Ele mesmo comemorava essas festas e "em Maria, depois de Cristo, depositava toda a sua confiança; por isso a constituiu advogada sua e de seus irmãos" 28.

Os filhos de Francisco e Clara continuaram essa tradição e produziram, através dos séculos, algumas das mais significativas homenagens à Mãe de Deus. A Imaculada Conceição já foi defendida por seus grandes mestres muitos séculos antes da proclamação do dogma. Acredita-se que o Ângelus teve origem no próprio Francisco e foi amplamente difundido pelos franciscanos, que seriam responsáveis inclusive pela "Santa Maria", a segunda parte da oração mariana. A tradição guardou jóias marianas como o "Stabat Mater" de Jacopone de Todi e as homenagens de toda uma galeria de grandes pregadores de Nossa Senhora. Foi ela quem sempre deu forças para anunciarem a expansão dessa família de que era Mãe a toda a humanidade.

CONCLUSÃO

Francisco e Clara contam entre seus filhos o autor da "Utopia" e milhares de homens e mulheres que plantaram a convicção do Reino no coração dos desprotegidos, justamente por serem tão unidos à Mãe do Povo de Deus.

Foi ela que os ensinou a partir do vazio da pobreza, unir-se a Deus no mais perfeito amor e ser mães de cada um dos pequenos seguidores de Jesus ricos de seu sonho do Reino da Boa Nova.

Nessa perspectiva, utopia deixa de ser um sonho irrealizável: atinge cada um dos pequeninos que nunca vão deixar nome, mas fazem o Reino crescer de verdade, porque ele sempre começa no coração de cada um.

PRÁTICAS

Procure ser pequeno como a Mãe de Deus: assuma as tarefas mais humildes da família ou do grupo a que você pertence.

Tente reconhecer e anotar as características do Cristo que vive em cada uma das pessoas mais próximas. Seja mãe de Deus nessas pessoas ajudando-as a viver esse Cristo.

Para tomar consciência, anote as principais transformações que já foram feitas em sua vida pela presença do Espírito de Deus que mora em você.

ORAÇÃO

Santa Maria, Mãe de Deus, quero ter o mesmo amor e a mesma devoção que Francisco e Clara tiveram por vós.

Ensinai-me a ser pequeno entre meus irmãos, sem nunca perder a consciência de que Deus mora dentro de mim e é justamente Ele que se faz pequeno.

Ensinai-me a ser mãe do Cristo que está nascendo e crescendo cada dia nos menores de meus irmãos.

Ajudai-me a me soltar inteiro para a ação do Espírito de Deus que vive em mim e não cessa de me fazer anunciador da vida nova do seu Reino. Amém.

NOTAS

1 Segunda Celano 199-200. Vozes p.427-428.

2 Segunda Celano 67. Vozes p. 336.

3 Regra de Santa Clara 6,3. Fontes Clarianas p. 180.

4 Regra de Santa Clara 12,13; 2,18; 6,3. Ib. p. 188,174,180; Testamento 46,75. Ib. p. 194.197.

5 Carta a Ermentrudes de Bruges 12. Fontes Clarianas p. 214.

6 Segunda Celano 85. Vozes p. 348.

 7 Regra de Santa Clara 2,24. Fontes Clarianas p. 175  Testamento 45. Fontes p. 194..

8 Cfr. São Francisco de Assis, Escritos e Biografias. Vozes p. 117.

9 Segunda Carta a Inês de Praga 18. Fontes Clarianas, p. 205. 

10  Carta aos Fiéis (1)  8. Vozes p. 80.

11 Legenda Maior 2,8-3,1. Vozes p. 473-475.

12 Legenda Maior 2,8. Vozes p. 473.

13 Legenda de Santa Clara 8. Fontes Clarianas p. 35.

17 Segunda Celano 198. Vozes p. 427.

18 Saudação à Mãe de Deus. São Francisco de Assis, Escritos e Biografias. Vozes p. 165.

19 Elogio das Virtudes. São Francisco de Assis, Escritos e Biografias. Vozes p. 166.

20 Terceira Carta a Inês de Praga 24-26. Fontes Clarianas p. 208-209; Cfr.1CtIn 12,24.

21 Carta aos Fiéis (2) 53. Vozes p. 87.

22 Bênção de Santa Clara 11-13. Fontes Clarianas p. 198.

23 Segunda Celano 174. Vozes p. 410.

24 Regra não bulada 9,3-6. Vozes p. 148.

25 Carta aos Fiéis (2) 1,5. Vozes p. 83.

26. Cfr. Regra de Santa Clara 6, 3.Fontes Clarianas p. 180.

27 Cfr. Terceira carta a Inês de Praga 33-36. Fontes Clarianas p. 209.

28 Legenda Maior 9,3. Vozes p. 526.