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JESUS CRISTO:
O SONHO DE SER HUMANO
INTRODUÇÃO
A Bíblia termina com o Espírito e a Esposa clamando juntos: “Vem, Senhor Jesus, vem! (Ap 22,17 e 20). Ele é o desejo maior de cada um de nós e de todos juntos como Povo.
É o desejado porque tudo em nós pede plenitude, e Ele é a plenitude do humano. Nós sentimos mil desejos em nosso corpo e em nosso espírito, mas ainda precisamos ter consciência de que ser humano é realizar o Cristo total, como indivíduo e como povo.
É o Espírito que, em nós, pede a presença de Cristo. E é Cristo que, em nós, pede a presença total de Deus na oração. Ele é a nossa Vida, Vida em plenitude.
1. DEUS SE FEZ CARNE
A verdade mais fundamental do cristianismo, a de que Deus assumiu a nossa carne, não é levada a sério pela maioria dos cristãos. Dizemos que Deus é puro espírito e é isso mesmo que, em geral, pensamos sobre Jesus Cristo: Ele está lá no alto, lá longe, pouco ou nada tem a ver conosco a não ser pelas suas qualidades de todo-poderoso.
Acreditar que Deus assumiu a nossa carne é acreditar que, para ser humano, tenho que ser como Jesus Cristo. Quem de nós pensa isso a sério? Quem quer ser um humano que não ri, não canta nem dança, parece não partilhar nossos mais cotidianos prazeres? (É claro que Jesus não é assim, mas essa é uma imagem muito comum que se faz dele). Quantos estão dispostos a ficar pobres para merecer a felicidade do Reino de Cristo? Quantos pensam seriamente que têm que viver o Reino de Deus proposto no Evangelho aqui mesmo, sem deixá-lo para depois da morte?
O Cristo que muitas vezes se formou em nossas mentes não passa do resultado de uma pregação teórica, exposta por pessoas intelectualmente instruídas mas sem experiência viva do que estão falando. Preocupamo-nos demais com uma pureza de doutrina que pode estar a anos luz de nossa prática sem que isso nos cause a menor preocupação.
Aliás, talvez até evitemos compreender um Deus que se faz homem de medo que nos questione demais e de que nos impeça de sonhar com a pura irrealidade. Alguns anos atrás, o arcebispo de Milão, Martini, recordava no Natal que parecemos fazer de tudo para que Jesus volte atrás: deixe de ser carne e fique pura palavra, nada mais que um conceito.
Mas ele passou frio no presépio e teve que ganhar a vida como carpinteiro num povoado do fim do mundo. Falou do céu mas se comoveu com a fome, a doença e a morte, tocando-as de perto. Alegrou-se com as mil pequenas alegrias dos pobres e numa festa de casamento cuidou de arranjar o melhor vinho. Compreendeu não só os que sofrem mas também os que erram. Foi parar no patíbulo como o pior dos criminosos e, para o acerto final de contas, prometeu cuidar só das coisas mais fundamentalmente humanas: quem deu pão, água, roupa, abrigo, quem deu amizade e amor.
Menos desencarnado está o nosso povinho simples que se identifica com o Cristo da sexta-feira santa e nos seus cânticos sabe expressar os clamores de justiça. Na medida em que temos um Cristo desencarnado, nós mesmos estamos sendo pouco humanos.
2. O CRISTO DE FRANCISCO E CLARA
Em Francisco e Clara encontramos um Cristo muito concreto, em que a base doutrinária é sólida mas o esqueleto da doutrina é abundantemente revestido de carne: eles choram e se comovem com o seu Cristo, eles se transformam pelo seu Cristo, eles transformam o próprio Cristo. O seu Cristo é muito real, muito ortodoxo, sempre recordado como Pessoa da Santíssima Trindade mas também é nitidamente particularizado, pessoal. É um Cristo generoso, no presépio, na Eucaristia e na Cruz, mexendo com o quotidiano de suas vidas, dando sentido, continuamente, ao desejo enorme de felicidade sem limites que os avassalava.
Todos os escritos e biografias de Francisco estão impregnados do no-me e da presença de Jesus. "Sua alma inteira tinha sede do seu Cristo, e a ele dedicava não só todo o seu coração, mas também todo o seu corpo"1. Mas há uma passagem de Celano especialmente significativa:
"Os frades que conviveram com ele sabem que estava todos os dias e continuamente falando sobre Jesus, e como sua conversação era doce, suave, bondosa e cheia de amor. Sua boca falava da abundância do coração, e a fonte de amor iluminado que enchia todo o seu interior extravasava. Possuía Jesus de muitos modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os membros. Quantas vezes, ao sentar-se para almoçar, ouvindo ou falando ou pensando em Jesus, esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a respeito de um santo: "Vendo não via; ouvindo não ouvia". Também foram muitas as vezes em que estava viajando e, pensando em Jesus ou cantando para ele, esquecia-se do caminho e convidava todos os elementos para louvarem a Jesus. E porque conservava sempre com amor admirável em seu coração Jesus crucificado, foi marcado por seu sinal..." 2.
De fato, é um Jesus Crucificado e despojado, que ele já encontra no presépio e na Eucaristia, que transforma toda a sua vida, fazendo crescer uma experiência pessoal que vai chegar a uma empolgante visão do Cristo Pantocrator no seu "Cântico do Irmão Sol".
O Jesus de Clara não é menos concreto. Atravessa todos os momentos e todas as atitudes de sua vida e se extravasa em alguns momentos como o da sua experiência profunda da sexta-feira santa ou em trechos escritos a Inês de Praga, como estes:
"Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. Olhe que ele se fez desprezível por seu amor e siga o exemplo, tornando-se também desprezível por amor dele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com ele, vai reinar com ele, se chorar com ele, com ele vai se alegrar, se morrer com ele na cruz da tribulação, vai ter com ele uma mansão celeste nos esplendores dos santos" 3.
"Você desposou de um modo maravilhoso o Cordeiro imaculado que tira o pecado do mundo, deixando todas as vaidades desta terra. Feliz é você, que pode participar desse sagrado banquete para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha" 4.
O que os tocou profundamente foi o fato de Deus, Altíssimo, querer ser pequeno, menor que todos. Eles queriam ser como Cristo. Viam nele, numa identificação total com ele, toda a felicidade. Ele era o objeto de todo o seu desejo. Por isso era tratado como seu verdadeiro esposo 5. E não era visto apenas como um desejo pessoal deles, mas de cada um, de todo o povo.
3. TEM QUE NASCER E CRESCER
A presença desse Cristo real, concreto, ardente, é toda a base da oração de Francisco e Clara de Assis. Eles estavam tão convencidos da necessidade que todos temos de estar em contacto contínuo com um Cristo que vive e cresce em cada um, que até pensavam em ser nada menos que "mães de Jesus Cristo" nas outras pessoas. São Boaventura diz, a esse respeito:
"Mas, embora atraído espontaneamente por todas as criaturas, seu coração o levava especialmente às almas resgatadas pelo sangue precioso de Cristo Jesus, e quando nelas percebia qualquer mancha de pecado, chorava sua desgraça com uma sensibilidade tão patética que as gerava todo dia, como uma mãe, em Cristo" 6.
Mas é o próprio Francisco quem o explica: "Somos suas mães, se com amor e consciência pura e sincera o trazemos em nosso coração e no nosso corpo e os damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo aos outros" 7. E Clara chega a dizer a Santa Inês de Praga: "Assim como a gloriosa Virgem das Virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e da pobreza, sem dúvida alguma, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas..." 8.
Clara diz nessa carta a Inês que a considera "uma auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes do seu corpo inefável" 9. Porque, tanto ela como Francisco viam em todos a imagem e semelhança do próprio Cristo 10.
Essa é a base. Ainda que tenhamos um verdadeiro renascimento em Cristo por ocasião de nosso batismo, todos os seres humanos, mesmo os que nunca ouviram falar em Jesus Cristo, existem porque foram feitos à sua imagem e semelhança. E é essa imagem que reza, mesmo no índio e no budista. Mas a oração será tanto mais viva quanto mais a pessoa desenvolver todos os seus aspectos de "humana".
Mas ser tanto mais humano quanto mais se vive a semelhança de Cristo que está em cada um não vale só para a contemplação ou qualquer outro tipo de oração. Aliás, qualquer oração em Cristo é impossível sem uma vida em Cristo, que é sempre salvador. São Francisco, que, segundo Celano, foi "transformado não só em orante mas na própria oração" 11 usa as palavras "oração" e "orar" trinta e duas vezes em seus escritos, onde encontramos setenta e quatro vezes a palavra amar ou equivalentes e quase duzentas vezes palavras do tipo "agir", "operar", "fazer".
Como veio ao mundo e nasceu no presépio, o Cristo da vida em plenitude tem que nascer dentro de cada um de nós e ir crescendo. Nós temos, eu tenho, uma necessidade vital de um Cristo bem palpável, que funcione no meu dia a dia. Que mostre que, porque ele existe e eu acredito nele, as coisas são muito diferentes, não param de se tornar diferentes, vivas, palpitantes de sangue.
4. OS CRISTOS DO NOSSO POVO
É interessante que o povo cristão mais simples sempre teve um Cristo muito concreto, por mais falho que possa ter sido na plenitude da doutrina. As pessoas simples sempre contemplaram com devoção os mais diversos Cristos representados nas igrejas: Pantocrator, Coração de Jesus, Rei do Universo... e até os levaram para casa. Mas o seu Cristo de verdade é sempre o Bom Jesus, aquele sofredor flagelado na coluna, humilhado como rei de irrisão, pregado na cruz e conduzido morto na sexta-feira santa. Podem se encantar com o Menino Jesus no presépio ou nos braços de Maria ou dos santos mas, na hora da verdade, o Cristo que sofre é aquele com quem todos podem se identificar.
É curioso como os padres e religiosos lutam para fazer esse povo simples centralizar-se mais no Cristo da Ressurreição e da Eucaristia. Creio que, quando não o conseguiram ainda, é porque o seu Cristo é muito teórico e irreal, anunciado por pessoas que chegaram ao domingo de Páscoa sem passar pela sexta-feira santa.
Cada um de nós, quando se encontra com essa figura central da História que é Jesus, o Filho de Deus feito homem, enxerga-o sempre diferente, porque o vê desde seu especial ponto de vista: desde tudo aquilo que situa cada um de nós no tempo e no espaço, na cultura e nas vicissitudes históricas de nossa própria vida.
De certa forma, podemos dizer que cada um de nós modifica Jesus Cristo para compreendê-lo de acordo consigo mesmo. Mas, por outro lado, quanto mais entramos em contacto com Jesus Cristo, seja qual for o nosso ponto de partida, ele também vai nos modificando. Modificados, temos uma outra visão, mais ampliada, desse Deus que se fez nosso irmão. E assim por diante, vai sendo repetido o processo de amadurecimento constante do nosso Cristo pessoal e do nosso próprio eu, que entrou em contacto com Jesus. É uma espiral dinâmica, que não cessa nunca. A menos que nós mesmos tenhamos abandonado nosso caminho de ser cada vez mais humanos.
Podemos considerar esse processo na própria história do povo. Cada época e cada circunstância regional criou, através dos séculos, um Jesus Cristo muito próprio. Muito real mas também muito adequado às situações dos homens e mulheres do tempo e do lugar. Podemos ter uma idéia disso repassando brevemente algumas das figuras históricas mais conhecidas de Jesus.
Uma das mais difundidas deve ser o Coração de Jesus, com estampas e imagens por toda parte. Muitas casas fizeram a sua entronização e o povo teve, até recentemente, o costume de fazer as nove primeiras sextas-feiras. É interessante saber que esta devoção nasceu no século passado, em oposição ao racionalismo: um Jesus centrado no coração, com o coração até para fora, tentando fazer as pessoas usarem mais o coração que a cabeça. Foi devidamente acompanhado pelo “Coração de Maria”, que trazia um sentimento de ternura para a prática da religião.
O Cristo Rei nasceu neste século, com a ação católica. É o Cristo dos famosos cantos: “Levantai-vos, soldados de Cristo...”, “Do Prata ao Amazonas...” e outros de tipo militante, quase beligerante. Esse foi o Cristo de uma época de debates, de um desejo de reafirmação da cristandade. Os membros da Ação Católica eram chamados justamente de “militantes”. O Cristo Redentor do Corcovado perpetuou esse símbolo de uma época. Também é uma figura que já passou.
O Cristo medieval também era rei, mas expressando uma realeza diferente, pois era do tempo dos senhores feudais, dos reis e dos suzeranos, com o imperador e o papa na cabeça da pirâmide. Esse foi o Cristo que fez transformar nossas igrejas em salas do trono, com todas as etiquetas que se usavam nos palácios medievais.
Antes desse Cristo, o mais difundido foi o Pantocrator, ainda hoje dominante nas igrejas do Oriente. Um Cristo todo-poderoso que não tinha nada que ver com o rei medieval nem com o da Ação Católica. E é fácil perceber que, anterior a tantos debates e à proclamação dos grandes dogmas, era bastante diferente o Cristo dos Atos dos Apóstolos. Para não falar do Cristo que os judeus encontraram nos tempos evangélicos, tão diferente das suas expectativas, e que continua a ser a figura central dos nossos encontros.
Mas o Cristo do povo brasileiro e latino-americano é mesmo o Bom Jesus, introduzido nos tempos coloniais. Flagelado, coroado de espinhos, vivo ou morto, é sempre Jesus. Mesmo os não praticantes e os não católicos acorrem a ele. Seus santuários ainda são meta de peregrinações.
5. JÁ SOMOS CRISTO - TEMOS QUE SER PLENOS
Um encontro com o Jesus dos Evangelhos sempre nos impressiona. Porque vemos nele, com facilidade, a realização de todos os ideais que filósofos e psicólogos têm traçado ultimamente para a figura ideal do homem pleno, maduro, bem equilibrado. Tanto que podemos perceber que nem dá para falar em uma pessoa madura e santa fora dos exemplos de Jesus de Nazaré.
Ele se destaca por apresentar de imediato uma rara ou única manifestação do equilíbrio do que os antigos chamavam de “luz solar” e “luz lunar”: uma capacidade de atenção algumas vezes extremamente focalizada, como no ideal do masculino, e outras tantas vezes perfeitamente difusa, acolhedora, como no ideal do feminino. No Jesus dos Evangelhos nós nos encontramos todos: homens e mulheres e criaturas humanas que estão em todos os passos para se tornarem plenos na masculinidade e na feminilidade.
Porque Jesus é a expressão tangível, audível, visível de Deus na carne humana, ele é o caminho pelo qual podemos encontrar Deus. Toda as-sociação com a vida de Jesus traz a graça para nos capacitar a vencer nossas fraquezas humanas e para nos elevarmos ao alto nível de vida exigido pela maturidade. Cada palavra ou ação de Jesus é um sacramento que tem o poder de colocar-nos em contacto direto com Deus, trazendo assim a graça divina para nossa luta contra os obstáculos ao longo de nossa vida. Pela cegueira e desordem causadas pelo pecado, nós não podemos esperar alcançar a plena maturidade sem contactos freqüentes com Jesus. Cada vez que nos expomos de uma maneira receptiva às palavras e atos de Jesus no Evangelho, absorvemos um pouco da energia divina que Jesus trouxe ao mundo. "Pois nele habita corporalmente toda plenitude da divindade e nele fostes levados à plenitude... e ele vos vivificou juntamente com Cristo... e esse é o único jeito de alcançarmos o pleno crescimento em Deus" (Cl 2,9,13,19).
Se abrirmos o nosso ser para a verdade, a bondade e a beleza de Jesus Cristo, ele vai se tornar uma linha direta de comunicação entre Deus e nós. Isso é que vai fazer crescer o amor em nossa interioridade e no mundo exterior ao nosso redor. Só assim, procurando imitar Jesus no que o nosso ser interior for mais parecido com ele, vamos ser filhos adultos do Pai que está nos Céus. "Então, já não seremos crianças, jogados pelas ondas e levados para cá e para lá por qualquer vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e pela astúcia com que eles nos induzem ao erro. Ao contrário, vivendo amor autêntico, cresceremos sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça. Ele organiza e dá coesão ao corpo inteiro, através de uma rede de articulações, que são os membros, cada um com sua atividade própria, para que o corpo cresça e construa a si próprio no amor" (Ef 4,14-16).
6. O CRISTO QUE PODEMOS DESEJAR
Ele é o nosso protótipo, como que o paradigma de uma pessoa realizada. Todas as suas palavras e ações demonstram plenitude, integridade, uma capacidade de decisão livre e madura. Seu corpo e sua alma estavam submetidos a sua vontade, que só queria fazer a vontade do Pai. Sempre demonstrou confiança em si mesmo e uma capacidade única de conduzir cada situação com que precisou defrontar-se. Mesmo diante da hostilidade e da opressão nós o vemos transparente e tranqüilo. Todos nós podemos dizer que gostaríamos de ser como Jesus e, olhando para ele, isso nos parece mais possível do que considerando qualquer outra grande figura de santo ou de herói de toda a história.
É interessante observar como o homem, cuja tentação é ser "como Deus", foi desafiado por Cristo, um Deus que se fez "como o homem".
E como, em vez de ouvir o apêlo para mudar, o homem resolveu mudar o Cristo, em que se projetou. Todo o pecado do homem é pecado de idolatria, porque ele quer ser Deus e se faz Deus. O homem não aceita um Deus menino, pobre, humilde, pequeno, amigo dos pecadores.
Nós sabemos que essa imagem perfeita de Deus está realizada em Jesus Cristo: nele temos a demonstração de que vamos chegar lá e também a força de que vamos necessitar. Temos que considerar como ele conseguiu unir tão bem o humano ao divino, como foi capaz de se associar igualmente a pobres e a ricos, como demonstrou plenitude, integridade e ordem. Precisamos ver como tomava suas decisões livres e maduras, retirando-se à oração para obter a ajuda de Deus, seu Pai. Tem que gritar aos nossos olhos e mexer com a nossa vida isso de en-contrarmos um homem em quem toda a natureza está ordenada, sob seu domínio, porque ele também está sujeito à vontade do Pai. Temos que aprender com ele como enfrentar adversários e obstáculos de maneira tão eficaz e positiva.
Mas Jesus não é apenas um modelo que a gente olha como uma obra de arte. Ele é um amigo muito real, muito humano, com quem nós podemos nos relacionar tão bem como com qualquer outra pessoa, e até melhor. Porque ele fez sair de dentro de nós, de uma maneira nunca antes suspeitada, o que há de mais importante em nossa vida: a capacidade de viver Deus. Ele mostrou que esse Deus é relação, porque são três pessoas que se amam, são a base de tudo que, em nós, fala de amor, de amizade, de relacionamento, de crescimento, de prazer e de alegria. Nessa perspectiva, ele mesmo é o Reino para nós. Ele é a pessoa que vem falar da Trindade e trazê-la para o meio de nós. Veio ser a viva presença do perdão de Deus, de sua misericórdia, de toda a possibilidade de construirmos um mundo novo, o das bem-aventuranças.
Com ele, ficamos conhecendo um Deus totalmente novo, abrangendo muitos elementos dos deuses antigos, que já eram uma pálida revelação, mas ultrapassando-os infinitamente. E, para nossa surpresa, esse Deus não é mais distante nem mais complicado. Pelo contrário: parece que está mais próximo do que quando "passeava de tarde com Adão e Eva no paraíso..." Um Deus de amor que pede para retribuir o mal com o bem, que ensina as pessoas a se confrontarem com seus pecados e egoismo para serem livres, que parece fraco e ineficaz diante do mundo, que não foi entendido pelos poderosos. "Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1Cor 1,25).
Quando o Espírito e a Esposa clamam: Vem, Senhor Jesus! estão pedindo a libertação do Povo em Deus e para Deus. Jesus é o Caminho da Libertação. Foi por isso que ele encarnou o "servo de Javé", o "anaw", o "cordeiro de Deus" prometido desde o Antigo Testamento: aquele que deu a vida para que nós fôssemos salvos. Ele teve um amor de predileção pelos pobres, pelos sofredores, oprimidos, pelos marginalizados, pelos esquecidos, por todo o povinho deste mundo. Anunciou as "bem-aventuranças" justamente aos que precisavam de libertação.
"O amor de Deus e a humanidade manifestadas na vida, sofrimentos e morte de Jesus têm que ser demonstrados para um mundo secularizado através do exemplo de incontáveis cristãos. Senão, o sentido do amor vai ficar cada vez mais apagado e cada geração vai ficar históricamente cada vez mais afastada do acontecimento salvador que é a vida de Jesus. Nossa responsabilidade, portanto, é nos tornarmos semelhantes a Cristo na maneira mais completa que for possível. Nenhum ser humano pode imitar Jesus totalmente em todas as facetas da personalidade infinita e divina de Cristo. Mas, com a experiência e uma certa dose de habilidade intuitiva, podemos transpôr a vida de Jesus, do jeito que está descrita nos Evangelhos, para nossa situação atual" 12.
Quando chamamos Jesus de "Palavra" ou "Encarnação de Deus", queremos dizer que ele expressou perfeitamente a natureza de Deus. Mas sua vida na terra foi muito breve e não deu para expressar adequadamente a plenitude da natureza infinita de Deus. Por isso, todos nós somos chamados a ser "encarnações" e "palavras" de Deus sendo semelhantes a Cristo na medida de nossa capacidade levando assim à mais plena expressão os tesouros infinitos e inesgotáveis de Deus. "Para aperfeiçoar os santos... para a edificação do Corpo de Cristo, até que alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem Perfeito na medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4, 12-14)".
CONCLUSÃO
Jesus Cristo é uma força dinâmica dentro de mim para eu me realizar como ser humano. Ele liberta e é plenitude. O Espírito me leva a desejar ser Cristo completo.
Sua oração sai de mim como o desejo profundo de ser. Nele o desejo pessoal se esclarece, confirma, deixa de me confundir com meus pequenos desejos.
Eu me relaciono com Cristo como povo. Sou pessoa como membro de um povo. Eu mesmo sou “povo” na minha interioridade.
PRÁTICAS
Tente descrever o Cristo de sua fé, mostrando os pontos em que ele é realmente concreto.
Enumere todos os seus maiores desejos reais. Depois pergunte o que é que Jesus Cristo tem que ver com isso.
Assista, em silêncio, o Cristo do evangelho passando através de sua vida. Em outro dia, assista-o passando através da vida de seus conhecidos, de seu povo.
ORAÇÃO
Pai, que bom poder chamar-vos de Pai! Que bom que o Jesus que se encarnou na Palestina e ensinou os apóstolos a rezarem continua a estar encarnado em mim e me ensina a rezar! Que bom que a presença do vosso Espírito brota lá do fundo do meu ser, acende em mim o desejo do Reino e me faz invocar e bendizer vosso nome pela voz de Jesus Cristo!
Quero dizer-vos o meu Sim! com tudo que eu sou. Quero enxergar o vosso Reino sendo construído em cada pessoa e na longa caminhada de vosso Povo e quero colaborar com todo o meu ser. Quero ter essa vontade de transformar o céu e a terra para que o vosso desejo seja totalmente realizado.
Quero agradecer pelo pão de cada dia, que nunca me faltou, e quero lutar para que não falte para mais ninguém. Quero ficar contente com o pão de hoje sem me preocupar tanto com o dia de amanhã porque quero estar completamente entregue em vossas mãos de Pai.
Perdoai-me, Pai, principalmente por ter sido tantas vezes omisso e desinteressado, por ter cuidado sozinho do que eu achava que era o meu. Abri o meu coração para todos os irmãos e para todas as criaturas. Perdoai-me, Pai, por ter sido tão duro de acolher o diferente, de compreender o faltoso, tão pouco dedicado em levantar os caídos.
Aumentai o meu desejo do bem, acendei a minha vontade de ser um Cristo completo, ensinai-me a desejar vossa presença, a sonhar com a vossa vontade. Ensinai-me a orar de verdade. Amém
NOTAS.
1 Segunda Celano 94. Vozes p. 354.
2 Primeira Celano 115. Vozes pp. 263-264.
3 Segunda Carta a Inês de Praga 18-21. Fontes Clarianas, pp. 205-206.
4 Quarta Carta a Inês de Praga 8-14. Fontes Clarianas p. 211.
5 Cfr. para Francisco, por exemplo, Segunda Celano 94, e para Clara, Quarta Carta a Inês de Praga. Fontes Clarianas, p. 210, e a introdução ao Processo, Fontes Clarianas p. 60.
6 Legenda Maior 8,1. Vozes p. 515.
7 Carta aos Fiéis (2) 9,53. Vozes p. 87.
8 Terceira Carta a Inês de Praga 24-26. Fontes Clarianas p. 209.
9 Terceira carta a Inês de Praga 8. Fontes Clarianas, p. 207.
10 Cfr. por exemplo Legenda Maior 3,7. Vozes, p. 625.
11 Segunda Celano 95. Vozes p 355.
12 Michael, C. and Norrisey, M., Arise, The Open Door , Charlottesville, 1984; p. 46-47.