O caminho interior vai sendo aprofundado e os olhos do espírito vão se abrindo para a vida, o Reino, a nova criatura. Brota com força a necessidade de anunciar a transformação que Deus está operando no mundo.
Passamos pela conversão quando vivemos a experiência da misericórdia de Deus. Daí nasce o mandato de ir por toda a terra multiplicando os amigos de Deus e ajudando-os a ser discípulos.
Põem-se a caminho os "pés dos que anunciam a paz". A utopia vai ser realidade porque foi descoberto o segredo de como viver todos os desejos, da humanidade e da natureza, no desejo único de quem nos fez com amor.
Depois que São Francisco passou pela experiência do encontro com os leprosos, contam os Três Companheiros que ele costumava retirar-se a uma caverna, "onde foi tomado por um novo e singular espírito que o fazia orar ao Pai" 1. Essas experiências transformaram-no profundamente e o levaram ao encontro com o Crucificado e à reforma das igrejas de São Damião e da Porciúncula. Mas ele ainda estava inquieto, porque não sabia exatamente o que devia fazer. Foi então que aconteceu mais um fato significativo:
"Leu-se certo dia, naquela
igreja, a página do Evangelho que conta como o Senhor enviou os seus discípulos
a pregar. O santo de Deus estava presente e escutava atentamente todas as
palavras. Depois da missa pediu encarecidamente ao sacerdote que lhe
explicasse esse Evangelho. Ele explicou tudo e Francisco, ouvindo que os discípulos
não deviam possuir ouro, prata ou dinheiro, nem levar bolsa ou sacola, nem pão,
nem bastão pelo caminho, nem ter calçados ou duas túnicas, mas pregar o
reino de Deus e a penitência, entusiasmou-se imediatamente no espírito de
Deus: "É isso que eu quero,isso que procuro, é isso que eu desejo fazer
de todo o coração"
2.
Como o profeta Daniel, ele tinha sido um "homem de desejos" desde o começo. Mas foi depois de ouvir essa palavra que o desejo se tornou bem concreto pela primeira vez. E o biógrafo prossegue:
"Depois disso começou a pregar a todos a penitência, com grande fervor de espírito e alegria da alma, edificando os ouvintes com a linguagem simples e a nobreza de coração. Sua palavra era um fogo ardente que penetrava no íntimo do coração..." 3.
É muito significativo que Francisco se tenha dedicado a pregar imediatamente depois de ter descoberto definitivamente sua vocação. "Mais que uma pregação, era um anúncio simples e alegre, cheio de sinceridade e de fervor, da mensagem de penitência, como uma comunicação da própria experiência de Deus, de seu amor, de seu perdão, do mistério de Cristo..., feita em linguagem vulgar, sem aparato retórico, em diálogo direto. Era a pregação chamada penitencial, à qual cada cristão podia sentir-se chamado pela participação no profetismo da Igreja, diferente da pregação doutrinal, reservada aos teólogos e pregadores classificados" 4.
Esse anúncio é tão fundamental na proposta franciscana que os primeiros companheiros de Francisco foram instruídos por ele a se apresentarem como "penitentes da cidade de Assis". Mais tarde o nome "Ordem da Penitência" acabou sendo reservado só ao ramo leigo do movimento franciscano, mas ele tem que caber como uma luva em toda a imensa família dos seguidores de Francisco e Clara, porque expressa o transbordamento da sua experiência de Deus. Esse foi o primeiro mandato que os irmãos receberam do Pobre de Assis:
"Por esse tempo, ingressou na
Ordem um outro homem piedoso, che-gando a oito o número de irmãos. Então
São Francisco chamou-os todos a si e, tendo-lhes falado muitas coisas sobre o
reino de Deus, o desprezo do mundo, a abnegação da própria vontade e a
mortificação do corpo, separou-os dois a dois pelas quatro partes do mundo e
lhes disse: "Ide, caríssimos, dois a dois, por todas as partes do mundo,
anunciando aos homens e a paz e a penitência para a remissão dos
pecados..." 5.
Sua experiência da doçura do Senhor - depois que a prática da misericórdia transformou em doce o que era amargo - foi tão grande que ele chegou a pensar que deveria dedicar-se mais totalmente à oração. Mas consultou Clara e Silvestre, dois dos maiores mestres de oração que tinha a seu alcance, e eles disseram que ele tinha que continuar a anunciar a penitência salvadora 6. Ele uniu as duas maneiras de ser "peregrino e forasteiro", e ensinou aos irmãos:
"O pregador tem que haurir primeiro na oração, feita em segredo, aquilo que depois vai derramar em palavras sagradas. Tem que se esquentar primeiro por dentro, para não proferir palavras frias" 7.
Com o tempo, a Ordem começou a ter também pregadores mandatados para ensinar a doutrina, mas todos os irmãos continuaram a ser sempre anunciadores da penitência e da paz justamente às pessoas mais simples. Foi nesse sentido que ficou gravado na Regra:
"Também admoesto e exorto os mesmos irmãos a que, nos sermões que fazem, seja a sua linguagem ponderada e piedosa, para utilidade e edificaão do povo, ao qual anunciem os vícios e as virtudes, o castigo e a glória, com brevidade, porque o Senhor, na terra, usou de palavra breve" 8.
É uma pena que a palavra penitência soe, para a maior parte das pessoas, como algo negativo: sacrifícios, renúncias, mortificações. De fato, em latim, a palavra queria dizer "agüentar o castigo", ou sofrer uma pena. Mas a palavra grega que está no texto original do Evangelho, tanto na boca de João Batista quanto de Jesus, é "metánoia", que fala de uma reviravolta completa na mentalidade, na maneira de ver as coisas. E está sempre ligada ao anúncio do "Reino de Deus" (nos sinóticos), da "Vida" (em São João), do "homem novo" (em São Paulo). Penitência é o anúncio maravilhoso de que Deus veio transformar-nos completamente para uma vida nova, feliz, abundante de plenitude.
A vida nova, conquistada pela doação da vida de Jesus, é o fruto da Hesed, o amor especial de Deus, que no hebráico fala das entranhas maternas da bondade do Senhor. Na forma grega "Éleos" (de onde vêm nossos conhecidos Kyrie eléison e esmola) lembra o óleo que mitigava a dor das feridas. Em latim, "misericórdia", fala de um coração que se compadece dos sofredores. Francisco teve a experiência viva desse amor quando foi levado aos leprosos e "usou com eles de misericórdia". Depois disso, o que era amargo virou doce e ele não suportou mais a necessidade de anunciar o alegre valor da "penitência", que trazia mais suspirada paz.
Nesse sentido, um dos primeiros aspectos que precisamos recordar sempre é o de dar e receber esmolas, de até imitar Jesus e Maria que, segundo Francisco, teriam pedido esmolas. Ele tinha bem vivo no coração que esmola (do grego eleemosyne, através do latim elemosina) é uma vivência gratúita de Éleos, a Hesed de Deus. Por isso escreveu:
"E devem estar satisfeitos quando estão no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua. E quando for preciso, que vão pedir esmola. Nem se envergonhem disto, mas antes recordem que Nosso senhor Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo todo-poderoso, "enrijeceu sua face como pedra duríssima" (Is 50,7) e não se envergonhou de se tornar para nós pobre e peregrino; e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" 9.
A pregação franciscana é uma alegre comunicação aos homens da vida evangélica vivida. Não se trata de um anúncio a ser feito falando, a não ser quando isso também é oportuno 10. O grande valor do anúncio de Francisco e de seus irmãos está no fato de eles poderem se apresentar como "homens novos", isto é "cheios de vida plena", pessoas que já participam do "reino de Deus" e estão construindo a sua utopia. Por isso, Celano pôde dizer:
"O velho mundo se decompunha na podridão do vício; todas as classes da Igreja, entorpecidas, dormitavam, ao invés de seguir as pegadas dos apóstolos; a noite do pecado, na sua maior escuridão, havia reduzido ao silêncio as sagradas disciplinas, quando, repentinamente, despontou na terra um "homem novo" (cf.Ef 4,24) e ao súbito aparecimento de um "novo exército", os povos se encheram de estupor diante dos sinais da renovada era apostólica" 11.
"Porque o novo evangelista dos últimos
tempos, como um dos rios do paraiso, irrigou o mundo inteiro com as fontes do
Evangelho e pregou na prática o caminho do Filho de Deus e a doutrina da
verdade" 12.
Mas pregar a penitência não é apenas uma das expressões do maior desejo dos franciscanos. Quando Francisco obteve a primeira aprovação da Igreja, a ordem nascente recebeu um mandato oficial do Papa Inocêncio III:
"Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: "Ide com o Senhor, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e vos encarregarei com segurança de cargos maiores" 13.
Esse mandato da Igreja acabou de dar forma a um dos aspectos básicos da nova experiência de Deus que os irmãos menores estavam começando. Porque eles queriam ser "apostólicos". Só que, para eles, essa palavra tinha uma plenitude muito maior do que costuma ter para nós. Não se tratava apenas de ter um "apostolado" para fazer mas de viver a mesma vida que os apóstolos tinham vivido com Jesus. Aquela mesma vida de anunciadores ambulantes e totalmente entregues nas mãos do Pai. Como diz São Boaventura, "São Francisco escolheu a regra traçada pelo Senhor para os Apóstolos quando os enviou a pregar" 14. Mas, com a palavra da Igreja, eles passaram a ser, por mais um título, continuadores da missão dos apóstolos. Foi por isso que Francisco "o homem apostólico" 15, teve que complementar em sua Regra:
"Nenhum dos irmãos pregue contra a forma e a doutrina da santa Igreja nem sem a permissão de seu ministro..." 16.
Mas eles viviam como os apóstolos no mundo amplo e aberto dos pobres e, como diz Celano, Francisco "sempre exigiu que seus filhos observassem as leis dos peregrinos: abrigar-se sob teto alheio, passar em paz, ansiar pela pátria" 17.
E a missão de penitência e paz, nascida do Espírito e confirmada pela Igreja, tinha que se estender até entre os infiéis. E foi isto que ficou na Regra:
"Se pois houver irmãos que quiserem ir para entre os sarracenos e outros infiéis, que vão com a licença de seu ministro e servo. Se o ministro reconhecer que eles são idôneos para serem mandados, dê-lhes a licença e não a recuse; pois terá que dar contas ao Senhor (cf. Lc.16,2), se nisso ou em outras coisas agir sem a devida discrição. E os irmãos que partirem poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis: O primeiro modo consiste em absterem-se de rixas e disputas, submetendo-se "a todos os homens por causa do Senhor" (1Pd 2,13) e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor" 18.
Em muito pouco tempo, os irmãos ficaram tão conhecidos como anunciadores do Evangelho, que uma qualificada testemunha externa dos primeiros tempos, como foi o cardeal Jacques de Vitry, chegou a chamá-los de "ordem dos pregadores", título mais tarde reservado aos dominicanos:
"Esta é a religião dos verdadeiros pobres do Crucificado, a Ordem dos pregadores, que chamamos dos Frades Menores" 19.
Francisco, mesmo retirando-se aos lugares ermos em três ou quatro períodos de quarenta dias em cada ano, foi uma testemunha tão viva do anúncio da utopia do Evangelho que, falando de sua morte, o biógrafo pôde escrever:
"No ano de 1226... tendo completado vinte anos de perfeita adesão a Cristo e de seguimento da vida apostólica, saiu do cárcere do corpo e voou todo feliz para as habitações dos espíritos celestiais, terminando com perfeição o que tinha empreendido" 20.
O melhor resumo do anúncio do Reino está no sermão da montanha, e principalmente nas bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Por isso, os pobres em espírito que surgiram como penitentes da cidade de Assis tinham que ser mensageiros da Paz. "Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9). E São Francisco, além de tomar a saudação da paz por lema 21, deu normas fundamentais para que seus irmãos fossem implantadores do Reino de Paz no meio da gente em que viviam. Uma das fundamentais, é claro, era a de andarem pelo mundo sem nada possuir:
"Quando os irmãos andarem pelo mundo, nada levem consigo para a viagem, "nem bolsa, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem bastão" (Lc 9,3). E "ao entrarem numa casa, digam primeiro: A paz esteja nesta casa. E, ficando nessa casa, comam e bebam do que aquela gente tiver" (Lc 10,5-7)" 22.
Mas, além de não se apropriar de nada, era preciso dar o exemplo de atitude pacífica. Foi assim que o texto ficou constando na Regra bulada:
"Aconselho, admoesto e exorto a meus irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo que, ao irem pelo mundo, não discutam, nem porfiem com palavras (cf.2Tm 2,14), nem façam juizo de outrem, mas sejam mansos, pacíficos, modestos, afáveis e humildes, tratando a todos honestamente, como convém. E não devem andar a cavalo, caso não os obrigue a necessidade ou enfermidade manifesta. Ao entrarem em qualquer casa, digam antes: "Paz a esta casa!" (Mt 10,12; Lc10,5)" 23.
Mas Francisco ainda foi mais longe e avisou que não deviam ter como próprios ou exclusivos nem os lugares em que permaneciam, mesmo de passagem:
"Cuidem os irmãos, onde quer que estejam, nos eremitérios ou em outros lugares, de não apropriar-se de qualquer lugar nem disputá-lo a outrem. E todo aquele que deles se acercar, seja amigo ou adversário, ladrão ou bandido, recebam-no com bondade" 24.
Não apropiar-se foi das mais fundamentais lições do homem "todo apostólico", porque esse princípio arranca as raízes de todos os conflitos. Mas ele ainda foi mais longe, dando uma visão toda evangélica do trabalho que, para ele, era uma verdadeira graça e não uma mercadoria, como entendemos até hoje em nossa sociedade:
"Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção" 25.
Eles podiam trabalhar em qualquer lugar e, de fato, bem depressa se fizeram presentes nos mais impensáveis locais de trabalho, testemunhando bem de perto a mensagem da paz. Mesmo aí, tinham que ser "menores", e por isso podiam construir o Reino:
"Nenhum irmão, onde quer que esteja para servir ou trabalhar para outrem, jamais seja capataz, nem administrador, nem exerça cargo de direção na casa em que serve... sejam os menores e submissos a todos os que moram na mesma casa... E podem ter as ferramentas necessárias ao seu ofício" 26.
É claro que essa paz tão querida era anunciada em todas as pregações, distinguindo a exortação constante dos pregadores franciscanos:
"Em todas as pregações, antes de propor aos ouvintes a palavra de Deus, invocava a paz dizendo: "O Senhor vos dê a paz". Anunciava-a sempre a homens e mulheres, aos que encontrava e aos que lhe iam ao encontro. Dessa forma, muitos que tinham desprezado a paz, como também a salvação, pela cooperação do Senhor abraçaram a paz de todo o coração, fazendo-se também eles filhos da paz, desejosos da salvação eterna" 27.
Mas é bom não esquecer que o Reino estava sendo construído por to-dos, mesmo que não fossem pregadores nos sentidos mais usuais dessa palavra: "No entanto, todos os irmãos podem pregar com as obras" 28. A missão de paz é tão constitutiva da família franciscana que o primeiro biógrafo de Francisco chegou a comentar, quando contou que Deus lhe deu companheiros:
"...Depois dele, também Frei Bernardo abraçou a missão de paz, correndo alegremente a ganhar o reino dos céus em seguimento do santo de Deus" 29.
O caminho interior vai percorrendo as profundidades numa ascensão em espiral que descobre e celebra os mistérios da autenticidade, da significância, da transparência e da solidariedade. Isto é, lá dentro, cada pessoa ilumina, festeja e vive, numa aventura crescente, o encontro consigo mesma, com Deus, com os irmãos e com todas as criaturas da natureza. Quem faz isso, é uma "nova criatura", porque descobre o Reino e tem a plenitude da Vida. O grande desejo de Deus, o impulso do Espírito em todos nós, é justamente isso: que encontremos a plenitude no protótipo do homem perfeito, que vivamos tudo que é possível na maior das plenitudes.
Mas nós tivemos oportunidade de ir vendo que esse caminho interior, longe de ser uma fuga egoista, consiste na capacidade de ir colocando os próprios desejos em choque com todos os outros desejos, numa cruz interior que liberta para a construção de um mundo novo.
Todo este trabalho quis ser uma espécie de mapa ou itinerário, talvez até uma espécie de guia turístico, destinado a animar irmãs e irmãos a descobrirem Deus, o próximo, as criaturas e eles mesmos dentro da sua interioridade.
Quem faz isso, sai com uma força avassaladora capaz de transformar o mundo. Creio que foi sobre todo esse processo e sobre toda essa presença renovadora que São Francisco falou quando se dirigiu aos seus irmãos para dizer: "A paz que anunciais com a boca mais deveis tê-la em vossos corações" 30.
Eles tinham. Muitos deles deviam ter. Até testemunhas externas tiveram a surpresa de dizer: "Os irmãos menores escolheram viver no meio dos homens" 31. E de constatar: "Esta religião vem aumentando bastante em número no mundo inteiro. E o motivo é que imitam simplesmente a forma de vida da Igreja primitiva e a vida dos apóstolos em tudo" 32.
Eles tinham e podem ter até hoje um novo olhar, uma nova compreensão. Como um novo amor, podem construir um mundo novo, o mundo da alegria e da paz. Com muita objetividade, podem cumprir a promessa de Jesus: "O Espírito Santo descerá sobre vocês, e terão forças para serem minhas testemunhas..." (Atos 1,8).
Foi cheio desse espírito que Francisco, já sem forças para sair anunciando com pregações, teve a idéia de escrever cartas em que dizia, parecendo encantado:
"A todos que receberem esta carta, rogamos na caridade, que é Deus (cf. 1Jo 4,16), que acolham benignamente, com divino amor, estas odoríferas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo" 33.
Aos irmãos ele ainda deixou uma outra maneira de anunciar o Reino de Paz trazido pela penitência, quando ensinou a pregar em forma de "laudas", verdadeiras celebrações de louvor, como encontramos nos capítulos 21 e 23 da Regra não bulada:
"Todos os meus irmãos podem anunciar estas palavras de exortação e lauda (louvor), com a bênção de Deus, sempre que quiserem, a todos os homens: Temei e honrai, louvai e bendizei, agradecei e adorai ao Senhor Deus onipotente..." 34.
O que abre os "olhos do espírito" é a vivência da misericordia, o amor que só Deus tem, mas mostrou que quer partilhar conosco.
Infinita, a misericórdia não cabe nem na nossa interioridade sem confins: tem quer ser anunciada e cresce quando é partilhada.
A dimensão contemplativa é uma dimensão de Paz. Será difundida na medida em que um número sempre crescente de pessoas tiver oportunidade de experimentar a misericórdia.
Prepare-se e, depois, procure alguém com quem você pode estabelecer um diálogo de conversão. Volte e anote os resultados, inclusive por que seu diálogo não converte.
São Francisco ainda consegue converter pessoas oitocentos anos depois de morto. Experimente, como ele, viver primeiro o seu mundo interior.
São João mandava tirar a roupa, sepultar-se na água, começar uma vida nova. São Francisco fez isso mil e duzentos anos depois: mudou de roupa, deixou calçados, etc. Faça uma experiência no século XX.
Vós me seduzistes, Senhor, e eu me deixei seduzir. Eu abri os meus olhos lá dentro e comecei a vos descobrir. Sei que ainda falta muito, estou certo de que não vou terminar de me extasiar até o sem-fim da eternidade.
Eu sei que não posso guardar esta descoberta e tenho que comunicar. Eu sei que para isso é preciso renascer pobre, viver o amor mais despossuído, enfrentar todas as doenças e todas as enfermidades com entranhas de misericórdia.
Eu sei que vou ter que ser luz nas trevas e que, muitas vezes, vão me rejeitar. Eu sei que muitos não querem nem ouvir falar desse outro ângulo de visão. Eu sei que vou ter que arrancar e revirar a terra antes de poder plantar. Eu sei que não vou poder fugir da Cruz.
Mas o vosso fogo tomou conta das minhas veias e de tudo que posso dizer que vou descobrindo que eu sou. Tenho que gritar, tenho que anunciar. Nunca mais vou poder me calar.
1 Legenda dos Três Companheiros 4,12. Vozes p. 655.
2 Primeira Celano 22. Vozes p. 194.
3 Primeira Celano 23. Vozes p. 195.
4 L.Iriarte, A Vida Apostólica na Regra Franciscana in Estudios Franciscanos 75 (1974) 105. Traduzido de Selecciones de Franciscanismo 10 (1975) p.33.
5 Primeira Celano 29. Vozes p. 199.
6 Cfr. Legenda Maior 12,2. Vozes p. 548.
7 Segunda Celano 163. Vozes p. 402.
8 Regra bulada 9,3-4. Vozes p. 137.
9
Regra não bulada 9, 3-6. Vozes p.
148.
10 Cfr. Regra não bulada 16,7-8. Vozes p. 151.
11 Terceira Celano (Tratado dos Milagres) 1. Vozes p. 447.
12 Primeira Celano 89. Vozes p. 242.
13 Primeira Celano 33. Vozes p. 202.
14.Expositio super Regulam II,9.
15 Segunda Celano 220a.Vozes p. 444.
16 Regra não bulada 17,1. Vozes p. 154.
17 Segunda Celano 59. Vozes p. 330.
18 Regra não bulada 16, 3-8. Vozes p. 152.
19 Jacques de Vitry, Historia Occidentalis. Cf. Vozes p.1032.
20 Primeira Celano 88. Vozes p. 241.
21 Cf. Testamento 6. Vozes p. 169.
22 Regra não bulada 14,1-3. Vozes p. 151.
23 Regra bulada 3,10-13. Vozes p. 134.
24
Regra não bulada 7,12-13. Vozes p. 146.
25 Regra bulada 5,1. Vozes 135.
26 Regra não bulada 7,1; 3;8. Vozes pp. 146 e 142.
27
Primeira Celano 23. Vozes p. 195.
28 Regra não bulada 17. Vozes p. 154.
29 Primeira Celano. Vozes p. 195.
30 Legenda dos Três Companheiros 58. Vozes p. 687.
31 Testimonia Minora, Lehmens AFH 1 (1908) 76.
32 Jacques de Vitry, Carta de Damieta, 1220. Vozes p. 1030.
33 Carta aos Fiéis (1) 31. Vozes p. 81.
34 (RnB 21, 1...10).