Se já me convenci de que Jesus Cristo é todo o meu desejo, e de que a fonte do desejo é o Espírito que fez o seu templo dentro de mim, é muito importante que eu queira descer a essa fonte: a interioridade.
Mas o reino da interioridade fala uma linguagem diferente, a linguagem simbólica que Jesus usou para falar do seu “Reino de Deus”, e nós vamos aprender essa linguagem.
Através dela vamos penetrar em um mundo interior densamente habitado, que repete e até ultrapassa o universo que admiramos do lado de fora.
O Jesus a quem clamamos veio ao nosso encontro, transformou-se em "Deus conosco" e nos anunciou o "Reino de Deus", o "Reino dos Céus", ou a "Vida". Antes de começar a sua pregação, foi precedido pelo Batista, que clamava: "Fazei penitência (metanoêite) porque o Reino de Deus chegou" (Mt 3,2).
Quando os escribas e os fariseus resolveram perguntar-lhe como poderiam confirmar a chegada do Reino, ele disse: "O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poder dizer: "está aqui' ou "está alí", porque o Reino de Deus está dentro de vós (endós hymôn estín)" (Lc 17,20-21). Através dos séculos, foi muito acatada primeiro a tradução "dentro de vós" e, mais recentemente, a tradução "no meio de vós". Gramaticalmente, as duas estão corretas. Na realidade, o Reino de Deus deve ser construído no meio de nós e deve chegar a toda as criaturas, mas só tem começo dentro de cada um de nós. Estava mesmo dentro de cada fariseu. Só que precisa ser descoberto.
E é fundamental recordar que Jesus afirmou na hora solene do seu julgamento: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). E que todo o ensino do Novo Testamento vai dizer que Deus mora lá dentro de nós, que somos "templo do Espírito Santo" (Cfr. Rm 8,1-11).
Jesus o comparou a um tesouro: "O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo: um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai e vende tudo que possui e compra aquele campo" (Mt 13,44). Faço notar que Santa Clara apresenta uma interpretação dizendo: "tesouro escondido no campo e nos corações humanos" 1. Será que não podemos entender que esse Reino é principalmente a nossa interioridade? Que temos lá dentro um tesouro pelo qual vale a pena vender tudo? largar tudo? Reparemos que o homem que o encontrou vendeu tudo "com alegria".
Uma parábola paralela é a do comerciante de pérolas: "O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra" (Mt 13,45-46). Essa parábola poderia ser uma simples versão diferente da do tesouro no campo, mas é bem outra coisa: ela não diz que o Reino é semelhante a uma pérola preciosa, como era semelhante a um tesouro. Neste segundo caso, o Reino é semelhante ao comerciante. Então, podemos pensar como muitos já o interpretaram na Antiguidade, que o comerciante é Deus e que nós somos, cada um de nós, as pérolas mais preciosas, pelas quais o próprio Deus quis dar sua vida.
Também há uma porção de parábolas que falam de um crescimento, certamente um crescimento interior, antes de tudo. Um exemplo é a parábola do grão de mostarda, que "embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é maior do que qualquer hortaliça e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam em seus ramos (Mt 13,31-32)". Se deixarmos de ser "Maria-vai-com-as-outras", estaremos ligados à fonte de energia que vem de lá de dentro de nossa interioridade e que é o próprio Deus. Então, não tem limites nem o crescimento, nem a criatividade e nem mesmo, é bom lembrar, a nossa própria saúde espiritual e corporal.
Na mesma linha vai a parábola do fermento: "Disse ainda: "A que compararei o Reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Lc 13,20). Observemos que o fermento é um pouco de massa apodrecida que, devidamente usada, traz vida para o nosso pão. Mas é bom lembrar que Jesus usou o fermento em sentido simbólico também quando mandou "tomar cuidado com o fermento dos fariseus" (Cfr. Mt 16,5-12 e Mc 8,15).
Outra parábola que pode ajudar-nos bastante nessa experiência de leitura interior é a do Bom Samaritano (Lc 10,30-35): "Descia um homem de Jerusalém a Jericó. Pelo caminho caiu em poder de ladrões que, depois de o despojarem e espancarem, se foram, deixando-o semimorto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote. Vendo-o, passou ao largo. Do mesmo modo, um levita, passando por aquele lugar, tam-bém o viu e passou adiante. Mas um samaritano, que estava de viagem, chegou a seu lado e, vendo, sentiu compaixão. Aproximou-se, tratou-lhe as feridas, derramando azeite e vinho. Fê-lo subir em sua própria montaria, conduziu-o à hospedaria e teve cuidado dele. Pela manhã, tirando duas moedas de prata, deu ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele e o que gastares a mais, na volta te pagarei".
No fim, Jesus perguntou quem parecia ter-se tornado o próximo daquele que caiu em poder dos ladrões, mas nós também podemos perguntar se não é verdade que todos os personagens desse drama costumam morar em nossa interioridade. Refletindo sobre eles, poderemos conhecer muito melhor o nosso mundo interior, que também é cheio de personagens, como as outras parábolas, como os mitos, como os sonhos.
Nas parábolas, Jesus sempre diz que o Reino é "como" alguma coisa com que o compara. Nunca diz que o Reino "é" isto ou aquilo. Temos que começar prestando atenção a esses elementos de comparação.
Jesus teve que falar sobre o seu "Reino de Deus" em parábolas, isto é, em linguagem simbólica. Todas as grandes realidades, como Deus e a nossa interioridade, são grandes demais para nossa limitada linguagem lógica. Por isso, um de nossos primeiros esforços de contemplação vai ser começar a recuperar essa linguagem que já foi natural para nós na infância e continua a ser para a maioria dos povos não ocidentais. É uma maneira bem interessante de se preparar para "receber o Reino de Deus como uma criança" (Lc 18,15-17).
Para ouvir Deus e até mesmo para expressar o que sabemos de Deus, não basta a nossa linguagem lógica normal. Essa é uma linguagem da ciência e nós chegamos a pensar que seja a linguagem "popular" e "normal", mesmo em nosso mundo ocidental. Mas não é. A linguagem lógica é muito clara, muito definida, muito certinha e, por isso, embora tenha seu valor para as coisas exatas com que lidamos, não serve para falar de Deus, nem com Deus, nem a respeito das coisas mais profundas da vida, como o amor e o medo, por exemplo. Para isso, precisamos da linguagem simbólica, que usa comparações - como Jesus nas parábolas - e que nos leva a ultrapassar a toda hora um verdadeiro alçapão, entrando em um mundo que é real mas não é o mundo físico nem o da reflexão.
A linguagem lógica vai na linha da cabeça: define, mede, calcula, limita, fecha. Uma coisa nunca pode ser e não ser ao mesmo tempo. A linguagem simbólica vai na linha do coração: insinua, abre, lança pontes. Tudo pode ser. A linguagem lógica focaliza, conclui, vence, diz qual é o gênero próximo e a diferença específica: é solar e masculina. A linguagem simbólica é difusa: propõe, entrega-se, une dois pontos quaisquer para comparar: é lunar e feminina. Na linguagem lógica, cada coisa é tirada do leito confuso da vida, isolada, esclarecida, identificada: o operador trabalha como o mecânico, com o motor parado. Na linguagem simbólica as coisas são deixadas na vida, misturadas, vivas, latejantes, implicadas umas com as outras - quem a usa trabalha como o cirurgião: com o organismo vivo e funcionando. A linguagem lógica colhe e seca a flor para classificá-la: é a linguagem das ciências e da matemática, das conquistas planetárias. A linguagem simbólica relaciona-se com a flor viva, irmã das abelhas, transformando-se em fruto: é a linguagem do encontro, do envolvimento com a vida, da contemplação. Na linguagem lógica, o exemplo é um caso definido: o beija-flor é uma ave. Na linguagem simbólica, o exemplo é uma simples alusão à vida: o reino é "como" uma semente.
Na vida de São Francisco, encontramos este trecho bem característico da necessidade de linguagem simbólica: "... embora não pudesse calar por causa da grandeza do amor que lhe fora inspirado, era com cautela que comunicava alguma coisa, falando em parábolas. Assim como falara ao amigo íntimo de um tesouro escondido, aos outros procurava falar por analogias" 2. Mas ele passou a vida toda mergulhado no mundo dos símbolos:
"Depois do irmão Fogo, amava de modo todo particular a água, porque simboliza a santa penitência e as tribulações pelas quais as almas enxovalhadas são purificadas e porque a primeira ablução da alma se faz com a água do batismo.
Quando lavava as mãos procurava um lugar apropriado de modo que a água que caísse não fosse calcada aos pés. Quando andava por sobre pedras, fazia-o com grande reverência e respeito por amor àquele que disse ser pedra.
E quando recitava o Salmo "Sobre o rochedo me ergueste..." fazia-o com grande respeito e devoção, e dizia: "Sobre o rochedo debaixo de meus pés tu me ergueste".
E recomendava ao irmão que cortava e preparava a lenha para o fogo que jamais abatesse a árvore inteira, mas cortasse de maneira que lhe restasse sempre uma parte intata por amor daquele que quis realizar nossa salvação sobre o lenho da cruz.
Costumava dizer ao irmão que tomava conta do jardim que não ocupasse todo o terreno com legumes, mas reservasse uma parte para as árvores que, em seu tempo, produzem nossas irmãs as flores, por amor para com aquele que disse: "a flor dos campos e os lírios dos vales".
Recomendava ainda ao jardineiro que reservasse sempre uma parte do jardim para as ervas odoríferas e plantas que produzem belas flores a fim de que, em seu tempo, elas convidassem ao louvor de Deus os homens que vissem tais ervas e flores. Pois toda criatura diz e proclama: "Deus me criou para ti, ó homem". Nós que vivemos com ele vímo-lo rejubilar-se interior e exteriormente à vista de todas as criaturas. Era tal o seu amor por estas maravilhosas criaturas que, ao tocá-las ou vê-las, seu espírito parecia não mais pertencer à terra, mas ao céu" 3.
Símbolo é uma palavra grega que fala da união surpreendente de duas coisas que ajustam como duas metades. Os romances gregos do período alexandrino tinham muitas histórias de medalhões partidos e reunidos transformando o sentido de uma vida. Michel Foucauld fez um interessante estudo, a partir do mito de Édipo, sobre as múltiplas "metades" que podemos ir sempre descobrindo nas coisas e nos abrem um universo de descobertas. E todos nós sabemos que a grande força de nossa criatividade, da mais elevada poesia à mais corriqueira anedota está toda na descoberta desses dois lados de uma ponte que abre para um mundo inesperado, surpreendente, maravilhoso ou alegre. Só podemos entender a aversão de São Francisco pelo dinheiro, sua proibição de andar a cavalo, seu diálogo com as estátuas de neve, o ritual com que fez a acolhida de Clara... se percebermos como ele viveu mergulhado no mundo dos símbolos, contemplando as realidades do espírito.
Esse é o mesmo mundo em que vivem as crianças, os índios e grande parte dos povos não ocidentais. Neles o exterior e o interior estão muito próximos e podem confundir-se a qualquer momento. Só temos que tomar cuidado com o uso recente de uma multidão de "símbolos" que, muitas vezes, não passam de sinais de mensagens muito claras do mesmo mundo exterior em que eles são usados.
Ninguém pode assumir a obra evangélica do Reino de Deus se não a entender primeiro como um Reino “dentro de nós”. Acho que poderemos entender isso bastante facilmente se lermos as parábolas como algo que se passa totalmente na nossa interioridade: Por exemplo, em vez de tentar ver o filho pródigo (Lc 15,11-32), seu pai e seu irmão mais velho no mundo que nos cerca, por que não tentamos descobrir os três dentro de nós? E o reino chegando quando o deixamos aflorar lá do fundo de nós mesmos.
É importante notar que é em nosso interior que conhecemos de verdade tanto Deus como o nosso próximo. Se eu não souber nem quem sou eu mesmo, como posso conhecer, ter uma idéia real dos outros? como poderei respeitá-los como são? Como poderei chegar a construir, ou ajudar a construir o Reino de Deus que está “no meio de nós” no mundo fora? Creio que temos falhado na construção do Reino de Deus no mundo em que vivemos porque não começamos lá dentro.
Em linguagem psicológica moderna, podemos falar da realidade interior lembrando que temos um mundo infinito de “inconsciente” lá dentro de nós. Todos podemos perceber, principalmente pelos atos falhos, mas muito especialmente pelos sonhos, que não sabemos tudo que somos, nem conseguimos entender e dirigir tudo que acontece conosco, mesmo no mundo que as outras pessoas não podem alcançar. Neste século, Freud falou-nos do subconsciente e Jung foi mais longe descortinando todo um mundo do inconsciente pessoal e até de um inconsciente coletivo, onde penetramos na região infinita dos complexos e dos arquétipos. É o mundo do encontro universal consigo mesmo, com os outros e com o próprio Deus.
O Espírito de Deus é a energia que flui em nossa interioridade. Como disse Jesus: “Quem crê em mim... do seu interior correrão rios de água viva” (Jo 7,38). E nós estamos precisando descobrir esse nosso mundo interior, que é tão real quanto o mundo físico e quanto o mundo intelectual. É algo que nossa civilização ocidental perdeu bastante, inclusive pela influência de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino que, ao sistematizar o saber humano, ignoraram essa realidade interior, sempre reconhecida por todos os povos antigos e, ainda hoje, pelo menos fora do Ocidente europeizado.
São Francisco tinha uma maneira pitoresca de se referir a isso, dizendo: ' ...onde quer que estejamos ou por onde andarmos, levamos conosco a nossa cela, que é o irmão corpo: e a alma é o eremita, que mora lá dentro para orar e contemplar o Senhor" 4. Nesse mesmo sentido, ele fez a oração diante do Crucifixo: "Ó glorioso Deus Altíssimo, iluminai as trevas do meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Dai-me, Senhor, o reto sentir e conhecer, a fim de que possa cumprir o vosso santo e verdadeiro mandamento" 5.
Não se trata de fugir da realidade, muito pelo contrário. A proposta é resolver os problemas do mundo dentro do coração da gente, na interioridade, em vez de fazer como tantos, que resolvem seus problemas interiores projetando-os sobre o mundo e aumentando a complicação da humanidade. Afinal, "a palavra de Deus é viva, eficaz, e mais cortante do que uma espada de dois gumes. Penetra até a divisão da alma e do espírito..." (Hb 4,12).
As grandes renovações e revoluções só têm resultado duradouro quando feitas por pessoas que já se renovaram em profundidade dentro delas mesmas, trabalhando pela plenitude e a totalidade interiores. Mesmo esquecendo, por um momento, toda a linguagem dos mitos, dos contos populares, da poesia e da arte em geral, no contexto das parábolas do Reino ouvimos falar continuamente dessa totalidade e dessa profundidade de dentro do ser humano pelo menos através de dois elementos bastante curiosos: os números e os peixes.
Comecemos prestando atenção nas parábolas que falam de plenitude. Por exemplo: a da moeda perdida (Lc 15,8-10). Uma mulher tinha dez moedas de prata e perdeu uma. Apesar de ser uma coisa de pouco valor, ela revirou a casa e, quando encontrou a moeda, chamou as amigas e vizinhas para festejar. Parece um pouco estranho todo esse reboliço só por causa de uma moeda, mas alguém já explicou que, naquele tempo, as mulheres recebiam dez moedas no marido no dia do casamento: guardá-las era um ponto de honra para elas. Perder, mesmo uma só, era perder tudo. Mas não é só isso: a Bíblia está cheia de comparações que usam a força interna dos números e Santo Agostinho chega a dizer que essa ciência da numerologia é uma das poucas coisas que a gente pode aprender com os pagãos.
Neste caso, tomando o número fundamental, que é o 1, somando-o ao 2, que apresenta a primeira oposição, somando-os ao 3, que apresenta a primeira perfeição, somando-os ainda ao 4, que é o símbolo da plenitude porque tem dois pares de opostos, temos o 10, que seria um símbolo da totalidade. O mesmo símbolo aparece na parábola das dez moças (Mt 25,1-13) convidadas a uma festa de casamento e também no 10 X 10 = 100 das cem ovelhas (Mt 18, 12s) do pastor que perdeu uma ou dos cem grãos de trigo (Jo 12,24) produzidos pelo grão que morreu.
E é interessante que a plenitude interior pode admitir até a presença do “mal”. Basta lembrar a parábola do campo de trigo (Mt 13,24-30), em que um “inimigo” semeou o joio. Temos o inimigo lá dentro: é a nossa “sombra”, como dirão os junguianos, ou o conjunto de tudo que rejeitamos e que ficou (mal) guardado no nosso subconsciente. Jesus ensina que não é o caso de erradicar o mal, o que pode acabar também com o que é bom. Temos é que reconhecer o inimigo e cuidar da plantação até o dia da colheita.
O episódio da pesca milagrosa (Jo 21,1-14) também pode abrir-nos para uma porção de insinuações simbólicas no Reino da interioridade, pois o peixe é um ser vivo que mora dentro da água, que, por sua vez, é símbolo da profundidade misteriosa do nosso inconsciente. E o peixe, além de ter sido usado como símbolo de Cristo pelos primeiros cristãos, aparece em muitos pontos do Evangelho: na pesca, na escolha dos bons para vender (Mt 13,477-50), no encontro da moeda para pagar o imposto (Mt 17,27), na refeição que Jesus estava preparando na praia depois da ressurreição (Jo 21,9), na que ele comeu no cenáculo com os apóstolos (Lc 14,41-42), na comida que ele multiplicou para a multidão (Mc 8,7 e 6,41), etc. Podemos fazer uma verdadeira re-leitura em que o peixe parece ser apresentado como alimento espiritual, ao lado do pão, alimento material.
O símbolo da água está muito presente em toda a Bíblia e especialmente no Evangelho. Além da água lustral do batismo, Jesus, por exemplo, faz este convite: “Se alguém tem sêde, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: do seu interior correrrão rios de água viva” (Jo 7,37-38).
E todo o mundo mitológico, historicamente anterior a Cristo e mesmo incorporado pelos cristãos desde os primeiros séculos, está repleto de relacionamentos com a água que abre para a profundidade da interioridade, como o Rei Pescador da história de Parsifal na descoberta do Graal. Até hoje são conhecidíssimas as sereias, seres não tanto fantásticos quanto simbólicos, pois unem uma metade mulher (humana mas misteriosa) com uma metade peixe ou ave, capaz de conhecer os segredos das águas profundas e do azul infinito. Além das sereias foram conhecidas as ondinas, as mulheres cisnes e tantas outras manifestações de que o homem sempre se preocupou com essa presença tão próxima e tão abissal de seu mundo interior.
Tudo isso fala da nascente de nossos desejos mais radicais e por isso sempre falou com clareza ao povo mais simples, ajudando-o a descobrir insuspeitadas dimensões do humano. Nós estamos buscando nesses veios da nossa rocha os caminhos da oração contemplativa. E vamos continuar.
Para uma vida de oração mais séria, sempre se recordou o valor do silêncio. De fato, o sentido do silêncio está em saber isolar-se do exterior - ou ultrapassá-lo - para mergulhar no interior.
Para nos movermos no mundo do silêncio ou da interioridade, temos que aprender a sua língua: a dos símbolos.
E é nessa língua que se expressa com liberdade, propondo o seu Reino, o Cristo que é centro de toda a nossa oração.
É preciso aproveitar os valores da intelectualidade mas sem deixar que ela nos domine o coração. Não entendemos nem nossos próprios desejos se perdermos sua ligação com a fonte, na interioridade.
Experimente fazer alguns tempos de oração - preferivelmente longos - em que simplesmente deixe fluir em liberdade o seu mundo interior, mesmo que isso pareça distração. Assista na companhia de Deus.
Tente identificar os símbolos que mais aparecem quando você fala ou escreve. Dê um tempo para que cada um deles fale mais: tudo que quiser.
Relendo as parábolas, procure ver o que tem sido o "Reino de Deus" através de sua vida.
Senhor, eu ouvi o apêlo forte do profeta do deserto: quero me refazer inteiro porque a oportunidade de entrar no Reino de Deus chegou.
Quero mergulhar numa água mais funda que a do Jordão, porque preciso ir renascer na fonte de todo o meu desejo. Quero ir sem medo, e até com o maior prazer, ao encontro de todo o universo de realidades, fatos, e principalmente de pessoas que povoam o oceano que está dentro de mim mesmo.
Eu sei que é lá que vou abrir o tesouro de onde vai sair o Reino que eu também terei que anunciar para fazer florir o deserto que se perde de vista no mundo dos meus irmãos.
Ajudai-me a descobrir e a abrir todas as portas: eu sei que tudo que posso ver e tocar no mundo de fora tem outra metade escondida que penetra no infinito.
Dai-me a coragem de atravessar essas pontes, guiado pelo pobrezinho de Assis e por todos os outros simples deste mundo, porque eu não posso mais ficar longe de vossa terra.
Quero morar no país de dentro, onde posso vos encontrar continuamente tão próximo, para poder clamar todos os dias, com palavras e com atos eficazes: Venha a nós o vosso Reino!
1 Terceira carta a Inês de Praga 7. Fontes Clarianas, p. 207.
3 Espelho de Perfeição, 118. Vozes p. 978.
4 Legenda Perusina 80. Vozes p. 809-810. cfr. Espelho de Perfeição 65. Vozes p. 914.
5 Oração diante do crucifixo. Vozes p. 130.