Mal nasce, a criança já demonstra o desejo de se alimentar e, bem depressa, começa a mostrar, pelos desejos, que não é igual a todas as crianças, nem aos seus irmãozinhos.
Mas, na medida em que começa a ter consciência dos próprios desejos, em que começa a saber o que deseja, já se encontra diante de um drama: os outros também têm desejos e até mesmo desejos a respeito dela. Pai e mãe já tinham sonhos para os filhos antes que eles nascessem, e não estão dispostos a ceder. Depois, vem o choque: viver é um encontro contínuo com os desejos desencontrados de todas as outras pessoas e até da sociedade como um todo.
Como fica o desejo inicial? É isso que importa saber. Fernando Pessoa chega a dizer que nós somos "o intervalo entre os nossos desejos e o que os desejos dos outros fizeram de nós". Se, de fato, ficarmos nesse intervalo, não nos realizaremos. Mas, ainda que tenhamos realizado bem os desejos dos outros também não nos teremos realizado, porque viemos ao mundo para ser a presença do desejo único que Deus só tem uma vez em cada um de nós.
Uma das grandes manifestações desses "choques" é o que chamamos de tentações: quando nos sentimos atraídos com força para fazer o que não combina com nosso desejo fundamental. A biografia de São Francisco conta um fato interessante:
"Um frade, que era assediado por uma tentação, disse ao santo, um dia em que estavam sós: "Reza por mim, meu bom pai, porque eu acho que serei libertado imediatamente de minhas tentações se te dignares rezar por mim. Estou sofrendo acima de minhas forças e sei que isso não te é oculto". São Francisco respondeu: "Crê em mim, filho, porque isso me faz acreditar ainda mais que és um servo de Deus, e podes ficar sabendo que, quanto mais fores tentado, mais gostarei de ti". E acrescentou: "Na verdade, digo-te que ninguém pode dizer-se servo de Deus enquanto não passar por tentações e tribulações. Uma tentação vencida é como um anel com que o Senhor desposa a alma de seu servo. Há muitos que se satisfazem com os méritos de muitos anos e se alegram por não terem encontrado tentações. É bom que saibam que o Senhor levou em conta a fraqueza de seu espírito, para não morrerem só de susto, antes do combate. Os duros combates só se dão onde há virtude per-feita" 1.
Mas o mesmo santo escreveu: "Peço ao irmão enfermo que por tudo dê graças ao Criador, e seu próprio desejo seja de ser assim como Deus quiser, são ou doente; pois todos os que Deus predestinou para a vida eterna, disciplina-os por estímulos e flagelos e enfermidades e pelo espírito de compunção, conforme diz o Senhor: "Eu repreendo e corrijo os que eu amo" 2.
Por traz de nossas grandes dificuldades na oração, como na vida, costumam estar os desejos não realizados. Se não estivermos sendo aquilo que Deus espera de nós, se cada dia não estivermos crescendo com amor na vocação que dele recebemos, nossa contemplação não pode mesmo ter lugar, porque ela é o ato único realizado por quem recebeu um lugar especial na arquibancada para assistir o espetáculo do Senhor e do seu universo.
É claro que o choque com os desejos dos outros pode ser especialmente benéfico para acertar, confirmar e integrar o rumo de cada um e sua colaboração no conjunto universal. Sem choque, nenhum desejo se tempera e nenhuma vocação humana se supera.
O drama acontece quando o choque impede a planta de arrebentar a semente, de sair da terra, de estender os ramos para o infinito e as raízes para as bases comuns da humanidade.
Nesta segunda seção vamos enfrentar o problema dos choques para a entrada no Reino de Deus, e vamos tentar abrir caminhos para que esses choques, - longe de ser evitados - possam ser positivos.
O fundamento do desejo é o amor: amar e ser amado. Os primeiros grandes problemas surgem, mais do que tudo inconscientemente, quando nos encontramos com a necessidade de ceder para ser amados.
Mas esse ceder inconsciente é o que mais fecha as portas do Reino, que é um tesouro interior.
Tentamos dar elementos para ajudar a recuperação pessoal e para animar também a recuperação social.
Ouvindo Jesus que fala, nos Evangelhos, sobre o Reino de Deus que veio trazer à terra, sentimos despertar o desejo de entrar nesse Reino. Mas ficamos sabendo que nem sempre é fácil, especialmente quando ouvimos as palavras duras de Jesus contra os fariseus, a quem chama de "sepulcros caiados" (Lc 11,39-40), bonitos por fora e cheios de podridão por dentro, e de "filhos de víboras".
É importante aprofundar a dificuldade de Jesus com os fariseus, a quem ele chamou muitas vezes de hipócritas. São os poucos que podemos dizer que mereceram uma condenação da parte de Jesus, e essa condenação foi muito forte. Para confrontar, é preciso lembrar que ele não condenou nem a mulher adúltera (Jo 8, 1-11), dizendo apenas que não pecasse mais. Ele chega a dizer que "se a nossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus hipócritas não poderemos entrar no Reino de Deus" (Mt 5,20).
Uma violenta série de "ai de vós!" proclamada por Jesus contra os fariseus (Mt 23,13-36) começa justamente com esta crítica muito característica: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que fechais aos homens o reino dos céus! Nem entrais vós nem permitis entrarem os que desejam!" (Mt 23, 13; cfr. Lc 11,52).
Creio que os fariseus tinham dificuldade para entrar justamente por causa de seu principal defeito, o que mais foi fustigado por Jesus: eram "hipócritas". Ora, hipócrita é a palavra grega usada naquela época para designar os atores, a quem até hoje definimos como "pessoas que fin-gem". Eram hipócritas porque usavam, no exercicio da sua profissão, uma máscara, que servia para caracterizar as personagens que representavam e até para aumentar a voz nos antigos teatros ao ar livre.
Ter uma máscara é mostrar para os outros e, pior, para nós mesmos, que somos algo que na realidade não somos. O drama começa quando pensamos que, para sermos aceitos, temos que nos mostrar como sendo tal ou tal coisa. Continua porque, se temos uma máscara, estamos na situação de um país em guerra: temos que manter os melhores homens na defesa do exterior, para que não derrubem nossas muralhas, e perdemos energia de vida na interioridade. A criatividade é a primeira que sofre. Além disso, o uso da máscara faz com que joguemos para o inconsciente tudo que for contra ela: vamos acumulando em uma região que está fora do nosso alcance direto toda uma força que vamos sentir como algo desconhecido e contra nós, que nos acompanhará como uma sombra.
Só por aí já dá para ver porque o fariseu não entra no Reino de Deus: ele não pode ir lá para dentro da interioridade porque está tendo que defender a máscara, as aparências. Também já dá para ver porque não conseguimos amar com o amor profundo do Evangelho: é um amor que nasce e vive lá na interioridade.
Esse é um dos nossos grandes problemas, seguramente. Nossa vida é um verdadeiro baile de máscaras, onde as pessoas procuram fingir que não vêem as máscaras umas das outras para que as suas também sejam respeitadas. É desde crianças que vamos sendo levados a criar nossas máscaras. E podemos chegar a um ponto em que nem sabemos mais distinguir em nós mesmos o que é máscara e o que é legítimo, verdadeiro.
Freud chamou de subconsciente o "lugar" onde vamos amontoando todas as opções não assumidas, todas as escolhas preteridas e principalmente todos os aspectos não aceitos de nossa personalidade. Para ele tudo se acumulava aí como resultado da não aceitação de nossa libido. Jung preferiu dar ao mesmo conteúdo o nome de "inconsciente pessoal", distinguindo-o do "inconsciente coletivo" que temos em comum com todos os humanos. Também teve uma visão mais aberta, mostrando que a energia que rege tudo isso não é apenas o impulso sexual mas toda a energia de vida. E chamou de "sombra" a figura que pode personificar esse nosso fantasma interior e até aparecer em nossos sonhos. Na visão de Jung, a sombra não é necessariamente negativa, mas é nela que se originam as projeções.
As máscaras são devidas à necessidade de ser amado. Como não nos aceitam com a cara que temos, tentamos apresentar outro rosto, mais aceitável. E acabamos nos enganando e perdendo contacto com a nossa interioridade.
Neste ponto, é interessante recordar a figura de São Francisco, que teve tanto amor a Deus e se sentiu tão amado por Deus. Sempre fez ques-tão de não ser mascarado nem hipócrita. Uma vez, declarou: "Quero viver diante de Deus, no ermo ou em qualquer parte onde estiver, como se sentisse sobre mim o olhar dos homens. Pois tendo-me eles por santo, seria hipócrita se não levasse a vida que a santo convém" 1 . É por isso que sua vida está cheia de episódios em que contava ao povo, em pregação, que tinha recebido comida preparada com banha, ou outros alimentos especiais que lhe haviam dado por estar doente. Também fez questão de mostrar com um remendo exterior que estava usando uma pele por baixo do hábito2.
Em grego clássico, máscara era "prósopon", a mesma palavra que em latim se dizia "personna" e que deu a nossa palavra pessoa, e até mesmo personalidade. É claro que cada um de nós precisa ter o que os psicólogos ainda chamam de "persona" e que nos identifica tanto diante dos outros como diante de nós mesmos. A persona não é falsa, como nem todas as máscaras são falsas. Mas pode estar muito envolvida com falsidades. Até certo ponto, é natural e legítimo colocar algumas máscaras. Às vezes, temos que "fazer cara" de alguma coisa. Muitas vezes precisamos mesmo impedir que nosso rosto revele o que estamos pensando ou sentindo. É claro que um juiz, por exemplo, tem que ter cara de juiz no tribunal. Só não é compreensível que ele continue com cara de juiz na rua ou em casa.
Quando a máscara nós impede de ver alguma coisa em nós mesmos, nós a projetamos e a enxergamos fora, nos outros. Se a minha máscara for a da humildade, vou ver sempre as manifestações de orgulho nos outros e não em mim mesmo. Se eu tiver vestido a máscara de uma criatura angélica e pura, que nunca tem sequer dificuldades sexuais, vou enxergar sempre os problemas sexuais nos outros, falando escandalizado na sem-vergonhice que grassa por este mundo.
Se eu for um ditador mascarado, vou lutar com o mundo porque está cheio de dominadores, de arbitrários. Só que a projeção vai lá para fora mas a sua imagem fica na profundidade de nossa sombra. Se não for capaz de aceitar a feminilidade de meu interior, preocupado com meu exterior machista, posso até projetar de maneira agradável essa feminilidade em uma mulher no exterior, mas a terei como energia problemática na minha sombra (e estarei enganado) enquanto não ajustar lá dentro de mim o encontro equilibrado entre o masculino e o feminino. Isso tudo, além de me prejudicar lá dentro, faz com que eu tenha uma visão distorcida do outro.
Mas não é só isso, não. Há algo pior. Quem usa máscara também se recusa a ver os próprios defeitos, pois não tem cabimento ostentar uma máscara de bonzinho e aceitar que estamos cheios de defeitos lá dentro. Mas a gente vê nos outros os defeitos que não consegue ver em si mesma. É o que se chama de "projeção", porque a gente projeta inconscientemente nos outros tudo que a gente acha que ficaria feio na gente. É desse jeito que a gente vai acumulando uma porção de coisas rejeitadas: achamos que somos bonzinhos e só vemos as maldades nos outros; achamos que somos puros e vemos todas as sem-vergonhices nos outros.
Ao contrário do que costumamos pensar, aquelas coisas feias que encontramos nas poucas vezes em que nos arriscamos ou fomos forçados ao silêncio e ao recolhimento não ocupam todo o nosso interior. Ocupam bem pouco. A quase totalidade do nosso mundo interior é constituída por nossa riqueza de "imagens de Deus". Quem vive lá dentro é o próprio Cristo, "medida do homem perfeito". Ele nos abre para as possibilidades sem fim de cada um de nós. Possibilidades e potencialidades que só começarão a crescer de verdade quando entrarmos no Reino. Porque entrar no Reino é "conhecer o Pai e Jesus Cristo que Ele enviou".
São Francisco, que viveu profundamente essa alegria que vem de dentro, deixou escrito na Regra não bulada: "Guardem-se os irmãos de se mostrarem em seu exterior como tristes e sombrios hipócritas. Mas antes comportem-se como gente que se alegra no Senhor, satisfeitos e amáveis, como convém" 3.
A sombra é constituída pelas qualidades opostas às da persona, pois o que a força são os pontos que não podemos aceitar por estarem em oposição à máscara com que já nos acostumamos. Mas, como nem tudo na persona é bom, também nem tudo na sombra é mau. Não se trata de bondade ou maldade em si mesmas mas do que, em nosso mundo, passa por mau. Daí a importância de saber lidar com a sombra, e principalmente de saber aprender com ela.
Por mais que tivermos trabalhado nas tarefas da maturidade e da autenticidade, sempre haverá algumas partes de nossa natureza que não conseguiremos trazer à superfície da consciência, porque foram muito reprimidas. Repressão, o oposto de confissão, é o jeito fácil de nos livrarmos de alguma decisão desagradável ou de alguma situação embaraçadora. Como estamos envergonhados, preferimos semi-conscientemente olhar para o outro lado e recusar admitir que alguma falta ou hábito grosseiro nos pertencem. Depois de algum tempo, todo esse mecanismo de repressão faz-se em um instante sem que tenhamos consciência do que estamos fazendo.
Ora, essas coisas reprimidas ficam lá dentro e nos acompanham sempre: por isso, são até chamadas de nossa sombra. Muitas vezes, é justamente por isso que não gostamos da solidão. Se pararmos, é muito provável que esses problemas rejeitados e escondidos comecem a pôr a cabecinha de fora. Ficamos com medo e tratamos de arranjar bastante atividade fora para não ver e não ter que acertar o que anda lá por dentro.
Quanto mais nos tornamos identificados com as máscaras que usamos e com os papéis que precisamos desempenhar, mais somos levados a negar e a reprimir os aspectos de nossa personalidade que não combinam com o caráter que assumimos. Quanto mais perfeitos nos imaginamos conscientemente, tanto mais escura e profundamente escondida tornar-se-á nossa máscara. Criamos uma sombra, que é o oposto da imagem que gostaríamos que os outros pensassem que temos; não é necessariamente má mas contém as partes de nossa personalidade que estão subdesenvolvidas, primitivas, infantis ou desadaptadas à sociedade educada. A persona é a cortina de fumaça que lançamos inconscientemente para esconder a sombra.
Mas essas partes refreadas de nossa personalidade podem de fato ser positivas e criativas. Freqüentemente elas são a origem de nossas melhores inspirações e a fonte de vitalidade para nossa vida. Entretanto, como elas não combinam com o padrão de vida que escolhemos, são rejeitadas por nossa consciência e relegadas ao nosso inconsciente. Isso por sua vez vai nos deixar embaraçados sempre que esse lado de nossa personalidade se mostrar. Por isso nós procuramos cada vez escondê-la melhor não só dos outros mas até de nós mesmos. Mas essa repressão não faz com que a sombra vá embora ou diminua. Pelo contrário, ela vai ficando cada vez mais forte e mais independente de nossa vontade consciente e de nossa atenção.
As intuições que chegam a nós sem se anunciar são na verdade o trabalho do lado positivo de nossa sombra. Entretanto, toda rejeição da sombra pode tornar nossa personalidade apática e sem vida, destruindo nossa criatividade, espontaneidade, vitalidade e entusiasmo.
Essa rejeição de uma interioridade escura e problemática é certamente o problema de muitas pessoas que desejam viver uma vida religiosa e têm a tentação de já quererem começar a se ver como santas. Na vida de São Francisco encontramos diversas oportunidades em que ele corrige seus primeiros companheiros nesse sentido:
"Uma vez viu um de seus frades com semblante aborrecido e triste e, sem conseguir suportá-lo, disse: "Um servo de Deus não deve mostrar-se triste ou perturbado, mas sempre honesto. Resolve teus problemas em teu cubículo, chora e geme na frente do teu Deus. Quando voltares para junto dos irmãos, deixa de lado o aborrecimento e trata de te conformares com os outros". E acrescentou, um pouco depois: "Os inimigos da salvação humana me odeiam bastante e estão sempre procurando perturbar meus companheiros porque não o conseguem comigo" 4.
Se uma máscara me domina, os outros, para mim, não passam de espectadores, de platéia: existem para me ver, para me aprovar. Se, por isso mesmo, uma sombra desconhecida me domina, os outros não passam de objeto das minhas projeções. No fundo, o outro vem a ser alguém que eu tento enganar e que, na prática, está sendo a maneira de eu me enganar. Ora, o outro deveria ser, para mim, justamente a maneira de eu me conhecer, pois está sempre me apresentando muitos pontos de comparação pelos quais eu posso ir crescendo em minha individuação, na identificação de mim mesmo. Além disso, se o outro for realmente um OUTRO, eu tenho possibilidade de amar e de ser amado, realizando a maior riqueza de meu ser humano. E, na medida em que eu encontro os outros, na verdade, é que posso encontrar tanto a mim mesmo quanto ao próprio Deus, que é o outro por excelência.
É fácil entender que, desse jeito, não é possível pensar em amor, nem de Deus nem dos irmãos. E o amor é a essência do Reino. Como posso dizer que amo alguém se não o conheço direito, inclusive porque estou jogando defeitos e falhas em cima dessa pessoa? Como posso dizer que amo alguém se não conheço nem mesmo o que acontece dentro de mim?
Freqüentemente, a causa original de escondermos partes desagradáveis de nossa personalidade foi a falta de boas experiências de amor na infância e na juventude. Em um ambiente sem amor, fomos forçados a confiar totalmente em nossas reservas conscientes para sobreviver em um mundo hostil. Dessa maneira, recusamos aceitar o fato de que todo ser humano é uma mistura tanto de bem como e mal, tanto de traços positivos como de negativos.
Quanto menos conscientes formos desse lado escuro de nosso caráter, mais problemas ele vai criar. Por isso, é fundamental ir ao encontro de nossa sombra. Descobrí-la quanto antes para trabalhar com ela. Nossa sombra é sempre mais agradável a Deus do que a imagem falsa que temos de nós mesmos. É melhor ser autêntico com nosso eu real, por mais limitado que ele possa ser, do que tentar viver falsamente além de nossas capacidades. Quanto mais cedo descobrirmos nossas fraquezas interiores que ameaçam ou impedem nosso crescimento, tanto maior a oportunidade de chegar à plenitude a que fomos destinados. Enquanto não tivermos tido o choque de ver-nos como somos de verdade, não poderemos dar o primeiro passo para encontrar nossa realidade individual.
"Há muitas maneiras de descobrir nossa sombra e de aceitar essas partes de nossa disposição que estivemos reprimindo. Por exemplo, quais são as partes desagradáveis de nossa personalidade de que não gostamos de falar, procuramos esconder, ou de que nos desculpamos? O que é que nos faz corar quando trazido à nossa atenção, ou que nos enche de lágrimas de auto-compaixão, ou que nos faz pedir desculpas ou nos enchermos de explicações quando é recordado pelos outros? Quando é que sentimos humilhação, embaraço, ou desejamos que a terra se abra para nos engolir? Quando queremos fugir, esquecer, ir para a cama, ou ficamos com vontade de morrer? Quando dizemos: "Não me importo, não faz mal" e lá no fundo sabemos que que é muito, muito importante? Quando nós somos mais relutantes em aproveitar oportunidades e em nos arriscar? Quais são as coisas que mais nos deixam zangados ou nos levam a protestar mais veementemente se nos são lembradas? Quais são as experiências desagradáveis que nos dão coceiras, causam uma dor de cabeça ou nos deixam com a nuca dolorida? Se pudermos responder a essas questões honestamente, estaremos no bom caminho para descobrir nossa sombra 4.
Outro jeito de descobrir nossa sombra é estudar as faltas dos outros que nos deixam mais zangados e aborrecidos. O que não podemos admitir em nós mesmos muitas vezes encontramos nos outros. Ficamos excessivamente perturbados com toda pessoa que expresse exteriormente as faltas particulares ou fraquezas que andamos procurando esconder. Em vez de reconhecer que possuimos essas mesmas faltas achamos mais confortável dirigir nossa atenção e ira para outra pessoa que parece ter o mesmo defeito. Muito das críticas, respostas atravessadas, comentários maldosos e julgamentos precipitados que temos para com os outros são na verdade evidências de nossa sombra reprimida. Quanto mais veemente e irracional for nossa crítica mais claramente vai emergir o retrato de nossa própria sombra.
Outro modo de descobrir nossa sombra é estudar a personalidade das pessoas que, em nossos sonhos, são do nosso sexo. Invariavelmente, são representações simbólicas de nossa sombra. De que é que não gostamos na personalidade dessas figuras de nossos sonhos? Como nos parecemos com elas na vida real? Os sonhos são o meio natural de revelar-nos coisas sobre nós mesmos que de outra maneira não ficaríamos conhecendo.
O desejo de amar e de ser amado é o elemento mais profundo, mais forte e mais escondido em todas as ações e em todo comportamento humano. A esperança de ser parte da corrente de vida e de amor da humanidade está por traz do medo, do ódio e da rebelião que encontramos tantas vezes nos outros ou em nós mesmos. Se pudermos pelo menos chegar a compreender que o problema é o desejo de amar e de ser amado, haverá uma boa razão para esperar que vamos resolver nossa sombra e vencer os demônios do desespero e do ódio. Quando tivermos reconhecido que a presença de um amor não correspondido está movimentando as forças por traz de nossos medos, ódios e rebeliões e a sombra que daí resulta, estará aberto o caminho para o crescimento no verdadeiro amor e na maturidade.
Para desenvolver nossa capacidade de amar, temos que encontrar a coragem de identificar nossa sombra pessoal e de transformar suas rudes energias em traços valiosos de nosso caráter. Em suas raízes, os lados reprimidos de nossa personalidade são todos bons. Nossa tarefa é trazer para a consciência essas energias selvagens e ensiná-las a serem caminhos do amor. A energia que está por trás de cada falta é boa: só precisa ser transformada e recanalizada.
Para entrar em um relacionamento de amor, temos que nos decidir a revelar tudo a respeito de nós mesmos a um amigo ou pessoa amada. Se tivermos o amor e o encorajamento de um bom amigo, a crise de enfrentar nossa sombra será muito mais fácil. Começamos a perceber que, se essa outra pessoa ainda nos ama, a despeito da sombra que ela vê e admite como parte de nós mesmos, é sinal de que não somos tão maus quanto imaginávamos. O importante é nem nos desculparmos nem nos condenarmos mas tentar descobrir como podemos usar da melhor maneira possível a energia que está por traz da falta que chamou nossa atenção. Uma vez que tivermos decidido aceitar nossa própria sombra tanto quanto a sombra da pessoa que amamos, estaremos aptos a amar e a ser amados sem medo de traição.
Precisamos desse auxílio porque os outros tão freqüentemente nos vêem melhor do que nós mesmos. Podemos pensar que estamos escondendo deles nossa insegurança e nosso egoismo; mas muitas vezes isso é apenas aparente. A longo prazo é melhor aceitar as verdades desagradáveis que já conhecemos a respeito de nós mesmos e encorajar os outros a contar o que eles vêem em nós. Se pudermos encontrar um amigo ou conselheiro que queira criticar-nos de um jeito amigável e não egoista, teremos um tesouro que nos ajudará em nosso crescimento na autenticidade. Até os assim chamados nossos inimigos, que têm uma certa satisfação egoista de nos picar em pedaços podem trazer uma incalculável ajuda para descobrir nossa sombra reprimida. Não precisamos aceitar ao pé da letra tudo que disserem sobre nós mas bem que podemos tentar descobrir os elementos de verdade que há em suas palavras. Se formos bons escutadores e não tivermos pressa de apresentar desculpas, poderemos ajuntar muitas informações a respeito de nossa realidade a partir do que os outros dizem de nós.
A graça de Deus também é necessária para chegar à verdade plena a respeito de nós mesmos. Se rezarmos sinceramente todos os dias para
crescer em auto-conhecimento, a providência de Deus dará um jeito de nos prestar o auxílio necessário e dar-nos a coragem de expor à luz do dia essas partes que estamos escondendo. O único remédio para as máscaras é um verdadeiro amor: um amor que não se detenha nas aparências mas penetre lá dentro, sabendo descobrir nossos valores mais profundos, sabendo ver que, bons ou maus, somos filhos de Deus.
Ora, a chave do amor fraterno está justamente aí. Jesus veio nos ensinar que devemos amar a todas as pessoas, mesmo antes de conhecê-las e de saber que qualidades boas possuem, porque todos os seres humanos são igualmente filhos de Deus e Deus os ama com amor infinito, como se cada um fosse o único.
Se, através do nosso amor gratúito, começarmos a fazer as pessoas acreditarem que não precisam de máscaras para serem amadas, se os outros nos convencerem de que não precisamos desses recursos para sermos estimados, as máscaras irão caindo, as pessoas irão voltando para o centro de sua interioridade, e o amor fraterno vai começar a existir: estaremos entrando no Reino.
Creio que um dos aspectos mais importantes da Boa Nova e do Reino é justamente esse: agora os pecadores são amados - o amor vai ser o seu caminho de conversão e de redenção.
Para realizar o desejo é preciso sonhar e nenhum sonho se constroi sem luta. É melhor sofrer algumas derrotas do que fugir através das máscaras.
Para que o Reino venha, tanto para mim como para os outros, precisamos todos ter a coragem de abrir as portas da interioridade.
Também precisamos amar sem cálculos de retorno. Os outros nos amarão se e na medida em que forem amados por nós.
Tente enumerar, por escrito, tudo que você acha que os outros querem que você seja. Depois converse com esses "outros" para ver se é isso mesmo.
Enumere também os choques que você tem mais freqüentemente com os outros. Analise por quê.
Liste também os defeitos dos outros que você menos suporta. Pergunte aos seus melhores amigos o que acham dessa lista.
Pense nas pessoas que você menos suporta. Na solidão, reze por elas tentando amá-las pelo amor de Deus que é Bom.
Tenho medo, meu Pai. Tenho muito medo de levantar o tapete para debaixo do qual tenho varrido todo o lixo de minha vida. Temo ter carregado tantas máscaras que, ainda que conseguisse começar a me livrar delas, me veria como uma cebola, com cascas e mais cascas sobrepostas. E com receio de não encontrar mais nada lá dentro.
A minha única certeza é bastante teórica. Li tantas vezes no Evangelho que vós sois Amor, que não tenho nenhuma razão para duvidar. Mas eu sei que sempre acreditei nisso com a cabeça (até ensinei os outros!) mas levei muito pouco a sério na prática de minha vida.
Ajudai-me a reconhecer com gratidão que só estou vivo até hoje porque recebi muito amor, um imenso amor, que me destes através de meus irmãos. Só cresci e me desenvolvi porque houve muito amor sincero. Dos outros e meu. E em tudo isso vós estivestes presente.
Ajudai-me a recolher e a multiplicar esse amor. Ajudai-me a entrar com coragem no mundo da minha interioridade para vos encontrar. Ajudai-me a me entregar sem reservas aos meus irmãos.
Prefiro ser o último dentro do vosso Reino que o mais conceituado fora dele.
Ajudai-me a acreditar de verdade nisso tudo, meu
Pai!
1 Segunda Celano 118. Vozes p. 372.
2 Regra não bulada 10,3-6. Vozes p. 149.
1 Legenda Perusina, 40. Vozes p. 770-771.
2 Cfr. Legenda Perusina,40 passim, e Espelho de Perfeição 62. Vozes 910.
3 Regra não bulada, 7. Vozes p. 147.
4 Segunda Celano 128. Vozes p. 379.
4 Michael, C. and Norrisey, M., Arise, The Open Door, Charlottesville, 1984, pg. 90.