Vamos entrar agora em um aprofundamento do mundo das raízes, mostrando que existem aí diversas bases concêntricas que podem ajudar-nos a desvendar a interioridade.
Começamos reconhecendo o terreno: a própria interioridade, que começa no consciente mas mergulha na maior profundidade do inconsciente.
Depois, vamos descobrindo os grandes marcos que, lá dentro, balizam a nossa caminhada para aproveitar bem a seiva que nos dá vida. São quatro encontros fundamentais: consigo mesmo, com Deus, com o próximo e com todas as criaturas.
A palavra consciência é muito usada. Dá a idéia de que sabemos quem somos e o que estamos fazendo no conjunto do meio em que vivemos. Quando uma pessoa desmaia, dizemos que "perdeu a consciência" ou que "ficou inconsciente", porque não pode dizer quem é, onde está, o que está fazendo... Consciência é o conjunto das as informações que alguém pode ligar ao seu eu: meu nome, meu endereço, minha profissão, meus desejos, meus gostos, etc.
É devagar que uma criança consegue descobrir e afirmar o próprio eu, na medida em que vai conseguindo ligar o maior número de informações sobre si mesma a esse centro. Durante a vida inteira pode crescer o campo do consciente, enriquecendo o domínio do eu, porque são praticamente infinitas as coisas de que podemos ter consciência.
Mas são mais numerosas ainda aquelas que acontecem conosco e de que não temos consciência. A começar pelas mais importantes funções de nosso corpo: o sangue circula em minhas veias, as comunicações correm pelas células nervosas, etc., e eu não preciso ter consciência disso.
Mas é no interior da psique que se encontra o maior acervo de inconsciente. Nós já falamos do mundo da sombra e também do mundo das raízes. São muitas coisas que podem aflorar à consciência, e muitas vezes afloram, mas nem sempre.
Na visão de Jung, além de um inconsciente pessoal, em que se acumulam as experiências já vividas por uma pessoa, há um inconsciente coletivo, em que se ajuntam as experiências de toda uma família, de todo um povo, ou mesmo de toda a humanidade.
Ele chama os conteúdos do inconsciente coletivo de arquétipos, uma palavra que, ao pé da letra, quer dizer "marcas fundamentais", ou "impressões mais antigas". Todos nós já nascemos com uma infinidade de arquétipos que, comuns a todos, depois são desenvolvidos de acordo com as experiências particulares de um povo, de uma família, e principalmente de uma pessoa. Para dar um exemplo, todos já chegamos à vida com um arquétipo de mãe. Depois, conforme as experiências mais próximas, cada um vai desenvolvendo seu conceito básico de mãe, de acordo com a mãe que teve, com as outras que pôde observar e continua observando, com a mãe que a própria pessoa pode eventualmente vir a ser, corporal ou espiritualmente.
Entrar na interioridade e descer às raízes é também entrar em con-tacto com os arquétipos. Nós precisamos fazer isso conscientemente, isto é, a partir do processo de individuação, que é a realização do indivíduo único que só cada um de nós pode ser em toda a história da humanidade.
Quatro desses arquétipos fundamentais podem receber os seguintes nomes: Autenticidade, Significância, Transparência e Solidariedade. São como círculos concêntricos que vão sendo cada vez mais abertos. Vamos considerar um por um, porque esse pode ser um dos caminhos mais válidos do cultivo de nossa interioridade.
"Há quatro arquétipos básicos que Jung insiste em que precisam ser trazidos para a consciência e postos em constante equilíbrio e tensão com o ego, o centro de nossa vida consciente. São: o "Self", o centro de nosso ser interior, inconsciente; Deus; outros indivíduos, especialmente os do sexo oposto; e a comunidade. A tarefa da individuação é conduzir a um casamento ou conjunção entre o ego e cada um desses quatro arquétipos. Jung chamou essas quatro tarefas: 1. AUTENTICIDADE DO EGO, isto é, um relacionamento harmonioso e honesto entre o ego e o self interior; 2. SIGNIFICÂNCIA, isto é, uma tensão equilibrada entre Deus e o nosso ego pela qual des-cobrimos nosso verdadeiro destino e Significância no plano total da criação de Deus; 3. TRANSPARÊNCIA, isto é, a abertura para os outros indivíduos; 4. SOLIDARIEDADE, isto é, a experiência de nossa unicidade dentro do resto da raça humana e mesmo dentro de toda a criação.
O processo de individuação é um crescimento em espiral que vai dando a volta em três distintos centros: nosso ego consciente, nosso self interior, e Deus, que é o centro de toda realidade. Para conseguir a maturidade, nossa história pessoal tem que refletir a espiral ascendente ao redor desses três centros. O girar dessa espiral para trás indica a pausa ou o descanso antes de proceder para diante e para cima na direção de um novo crescimento e não deve ser considerado uma regressão mas um patamar. Toda tentativa de evi-tar a tensão necessária para manter o equilíbrio necessário para o crescimento na plenitude tem como resultado uma supressão e reversão para uma maneira de viver mais infantil e imatura. Precisamos lutar a vida inteira para conciliar as tensões nas experiências de nossa vida e alcançar um harmonioso casamento ou conjunção desses opostos" 1.
São Boaventura mostra, num trecho bastante breve, a presença dessas quatro atitudes que realizaram a plenitude interior em São Francisco:
"A verdadeira piedade... enchera o coração de Francisco compenetrando-o tão intimamente, que parecia dominar totalmente a personalidade do homem de Deus. Nasciam daí a devoção que o elevava até Deus, a compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas, que lembra nosso estado de inocência primitiva" 2.
Com este arquétipo, trabalhamos no "Mistério do Eu". Autencidade é o que faz com que cada um de nós seja "ele mesmo" (em grego, hó autós). Quando nascemos, ainda não sabemos que somos alguém. Sentimo-nos parte de nossa mãe. Mas, graças ao arquétipo da autenticidade, devagar vamos descobrindo que há um sujeito de tudo que fazemos. Chegamos a descobrir o nosso eu consciente, o Ego. Ele é o centro de toda a nossa consciência.
Pouco a pouco, começamos a descobrir também que ignoramos muitas coisas sobre o que vai lá por dentro desse eu. Uma das leis de ouro dos antigos foi: "Conhece a ti mesmo". Porque, de fato, o nosso tesouro está lá dentro de nós.
Além disso, este arquétipo é que propicia uma tensão entre o consciente e o inconsciente, pela qual vamos podendo estabelecer um relacionamento harmonioso entre o Ego e o Self.
Como o centro da nossa consciência é constituído pelo Eu, supõe-se que o inconsciente seja centralizado por um eu interior, muito mais amplo e abrangente, a que Jung deu o nome de Self (= eu mesmo). O Self é um dos arquétipos, o arquétipo em torno do qual se constelam todos os outros. Por isso, o trabalho com a interioridade, que estamos continuamente chamando de "processo de individuação", pressupõe uma comunicação entre o Eu e o Self, da forma mais aberta que for possível.
É claro que se trata da comunicação que é uma tensão entre dois polos opostos: o Eu da exterioridade e o Eu da interioridade, o do consciente e o do inconsciente. Ser autêntico é viver da melhor forma possível essa tensão em toda a sua dinâmica e em toda a sua positividade. É claro que não somos autênticos quando o nosso eu está identificado com as máscaras exteriores, quando está perdido e à mercê de todos os impulsos do inconsciente que o jogam para todos os lados, sem sentido.
O trabalho da autenticidade consiste em integrar progressiva e positivamente ao nosso Eu tudo que pudermos ir descobrindo no espaço do nosso inconsciente. Ou em ir harmonizando o nosso mundo exterior cada vez mais com o nosso mundo interior.
Para descobrir o próprio Eu e o Eu Mesmo é preciso não confundí-los nem com máscaras, nem com forças ou pessoas externas, nem com nenhum deus. A tentação de "ser como Deus" é um temível engano porque começa impedindo a autenticidade.
É bom notar que temos que ser autênticos para nós mesmos. Não é um problema de relacionamento com os outros. Na visão cristã, cada um de nós é único e vai durar para sempre. Por isso, o desenvolvimento da autenticidade é tremendamente importante.
Em São Francisco, encontramos a oração: "Quem sou eu, Senhor?" com a resposta: "Sou um miserável vermezinho, um pecador". Mas é claro que ele não descobriu em si mesmo apenas coisas negativas, pois louva a Deus por todo o bem que lhe fez.
Um dos primeiros requisitos da autenticidade é querermos conhecer e aceitar a verdade sobre nós mesmos, com tudo que tiver de bom e de mau. Ninguém vai ter coragem de aceitar o que é mau se não tiver tido boas experiências do que possui de bom em sua interioridade. Mas não podemos querer esconder nada de nós mesmos. Para nossa saúde total,
é mais importante querer ser honesto do que querer ser bom. Porque, sem isso, nunca somos livres.
Outro requisito importante é que, na realidade, nunca posso dizer exatamente que "sou": estou "me tornando", porque a minha autenticidade é dinâmica e ainda não foi completada. Certamente não será completada em nosso período de vida terrena. O reconhecimento desta verdade é importante inclusive para entendermos que nossos erros podem ser aproveitados para irmos construindo os nossos acertos.
Também é fundamental reconhecer que, por mais insignificante que nos pareça nosso "papel", ele é sempre insubstituível: não temos que imitar ou pedir emprestado o papel de outros e nunca vamos ser felizes atuando em um papel falso. A felicidade é alcançada justamente quando se consegue viver só e unicamente o nosso papel verdadeiro. Sobre São Francisco, lemos na Legenda Maior: "Aos próprios olhos, era apenas um pobre pecador. Na realidade, porém, era o espelho resplendente de toda santidade. Como um arquiteto prudente, que começa pelas fundações, ele se empenhou de corpo e alma a construir unicamente sobre a humildade, conforme aprendera de Cristo... Gostava de repetir esta máxima: "O homem é o que é diante de Deus, nem mais nem menos" 3.
Um aspecto sério dessa verdade é convencer-nos de que é impossível destruir ou reprimir qualquer coisa que for real em nós mesmos. E que nós temos a tentação de fazê-lo quando ficamos olhando o papel dos outros achando-o melhor que o nosso. No caso, temos que ir trabalhando pacientemente com nossos problemas até descobrir como podemos encaminhá-los de uma maneira verdadeiramente positiva para nós.
É aqui que podemos falar do mistério de Deus. Significância é o que faz com que descubramos, pouco a pouco, o que é que nós significamos para Deus. E, evidentemente, o que é que Deus significa para nós. Aqui, já começa a ficar claro que não somos sozinhos no mundo.
A palavra é mesmo "Significância" e não "significado". Trata-se do valor de ter significado. É uma palavra que usamos pouco, apesar de conhecermos mais o seu antônimo: insignificância.
Na Significância, temos a oportunidade de manter uma tensão equilibrada entre Deus e o nosso ego, pela qual descobrimos o nosso verdadeiro destino e Significância no plano de Deus.
Para sermos plenos, temos que corresponder à imagem particular que Deus imprimiu em nosso coração. Temos que ser a expressão verdadeira do plano de Deus para nós. E isso é uma tarefa de toda a vida, em que é importante saber sempre onde estamos e quais são os próximos passos a ser dados.
É importante observar que estamos falando do relacionamento do Eu com o arquétipo de Deus, isto é, com Deus como o descobrimos em nossa interioridade. Deus é um ser em si mesmo, que não depende de mim nem de ninguém para existir. Mas eu o encontro na medida limitada de minha capacidade. "Tudo que é recebido, diziam os antigos, é recebido na medida do recipiente", isto é, de quem recebe. Eu me relaciono com a pessoa de Deus na mesma medida em que acolho e desenvolvo toda essa minha capacidade de acolher e viver Deus, que é o arquétipo.
Dai a importância de trabalharmos a nossa interioridade, fazendo crescer a presença do Senhor dentro de sua criatura, deixando que o nosso Eu seja cada vez mais adorador do Altíssimo.
Eu encontro Deus dentro de mim, mas Ele não está só aí, nem por isso é algo meu: um objeto de que eu posso dispôr ou uma força que eu tenho. Pelo contrário: eu sou uma criatura dele. Isso não me diminui: é toda a minha grandeza, porque Ele me criou com amor ao mesmo tempo infinito (pois se deu inteiro) e particular, pois me ama como se eu fosse o único.
Ser criatura é poder gerar energia com Deus na outra ponta. A graça e a natureza são os polos dessa energia. É como se fôssemos instrumentos musicais: se estivermos afinados com Deus, tudo que ele tocar ressoará em nós. E tudo que nós tocarmos terá sua ressonância em Deus. É assim que vai sendo criada a grande harmonia do louvor universal. Um louvor que nos realiza. De certa maneira, podemos dizer que Deus, depois de nos ter criado, "precisa" de nossa nota.
Em São Francisco, encontramos a outra parte da oração: "Quem sois vós, Senhor? O Altíssimo, o Santíssimo, Todo Poderoso, Todo Bom". Mas, uma vez, contou aos frades: "Roguei ao Senhor que se dignasse mostrar-me quando sou seu servo e quando não o sou, pois não desejaria ser outra coisa senão seu servidor. Então o Senhor se dignou responder-me: "És realmente meu servo quando ages e pensas santamente" 4. Santa-mente que dizer: completamente de acordo com o único Santo, que é Deus.
É a partir daqui que adquire sentido nossa preocupação com a Justiça, porque Deus é o parâmetro da nossa justiça, e não nós mesmos.
O encontro da Significância não serve apenas para dar um passo à frente. Ele também volta atrás, constituindo uma das maiores forças para nos autentificarmos. Com ele, a nossa existência adquire a dimensão do infinito.
Agora, podemos falar do mistério do Outro. Transparência é o arquétipo pelo qual conseguimos abrir-nos para os outros seres humanos. É o encontro do "alter ego", do irmão. Não sou só eu que existo, nem somos só Deus e eu.
Aqui, estamos em tensão com o outro. A primeira experiência de Transparência já começa diante de nossa própria mãe, cresce com o encontro do pai e vai se tornando real com o encontro dos irmãos e das outras pessoas que temos na mesma casa paterna. É onde se constroi o amor fraterno.
Essas primeiras experiências são as que vão gerar nossas máscaras, primeiro obstáculo para a Transparência. Mas são também os muitos encontros da vida que poderão ajudar a vencer as máscaras e a construir uma Transparência autêntica. Porque a Transparência vai ser a luz para confirmar e purificar tanto a Autenticidade quanto a Significância. O próximo não é eu e não é Deus.
Temos que nos convencer de que não fomos criados para nós mesmos mas para Deus, para os outros, para o mundo. Cada um de nós é a Transparência de um ponto especial, mesmo que muito pequeno no conjunto, da beleza, da bondade, da verdade de Deus. Nós precisamos ser essa Transparência, e os outros precisam dessa nossa Transparência. Somos seres em relação.
Faço aqui a mesma observação do parágrafo anterior: estamos tratando antes de tudo do relacionamento do nosso Eu com os arquétipos das outras pessoas como existem dentro de nós. Porque cada pessoa é também um mistério infinito, ou pelo menos indefinido, e nós a conhecemos na medida restrita que nos permitimos ter de cada um. Cada pessoa é sempre - mesmo que viva cinqüenta anos ou mais ao nosso lado - uma surpreendente revelação do Outro. O Outro é sempre alguém que tem muita semelhança conosco mas, fundamentalmente, não é quem nós somos. O Outro se revela e ao mesmo tempo nos reverevela. Tanto nos revela a nós mesmos quanto consegue revelar-se. E nós também o revelamos a si mesmo quanto conseguimos revelar-nos. Daí a fundamentalidade do arquétipo da Transparência, que torna todos os outros transparentes a nós na medida em que nós mesmos somos transparentes, para nós e para os outros.
Essa é uma das mais importantes bases da contemplação, porque contemplar é sempre enxergar através.
Nossa Transparência nunca é perfeita e límpida. Mas, se nós a trabalharmos, ela vai sendo uma revelação progressiva, que só se faz com muito amor - da nossa parte e da parte de outras pessoas - e esse vai ser o melhor tratamento para chegarmos a nossa própria autenticidade. Todos precisamos de pessoas que, a qualquer título, estejam o mais próximo possível de nós. Que tenham permissão para enxergar a verdade lá dentro, com o bem e com o mal. Todos precisamos de alguma forma de "confessor".
Se nosso desejo de amar for legítimo, vamos lutar para manter abertas todas as portas do nosso auto-conhecimento. Porque são as mesmas portas do amor. Não podemos escolher sempre a hora e o lugar de ficar conhecendo a verdade sobre nós mesmos. Temos que confiar que Deus saberá fazê-lo através de nossos amigos.
Uma imagem interessante para nossa reflexão: o espelho. É um objeto que reflete e não transparece. Nele nós vemos a nós mesmos, até quando temos os outros bem concretos na nossa frente. Por isso, nossa vida tem que ultrapassar os espelhos. Quando deixamos de ser transparentes ficamos isolados, vamos crer que somos deuses e que os outros não passam de reflexos dos nossos pensamentos.
É a partir daqui que adquire sentido nossa preocupação com a Paz, porque, se não há outros que nos equilibrem, não há entendimento e vamos querer dispôr das pessoas como se nos pertencessem. Quando não somos transparentes negamos nossa verdadeira imagem não só aos outros mas também a nós mesmos, porque é na Transparência de uns para com os outros que conhecemos a verdade.
Os outros sempre têm aspectos muito variados, em circunstâncias sempre surpreendentes, que revelam aspectos nossos que nós mesmos não conhecíamos.
É o arquétipo pelo qual experimentamos a nossa unicidade dentro do resto da raça humana e mesmo dentro de toda a criação. Trata-se, aqui,
do equilíbrio com todos os outros seres. Creio que é onde podemos falar mais verdadeiramente do "Mistério da Fraternidade". É onde descobrimos todas as criaturas.
Vou percebendo que não sou só eu, Deus e os outros perto de mim. Também a humanidade em geral, os animais e as "coisas" são importantes para o que nós mesmos devemos ser. Quanto mais temos oportunidade de nos compararmos com outros seres, mais nos aprofundamos em nossa própria autentificação. Até mesmo em nossa individuação.
Na solidariedade, descobrimos quanto somos relativos, porque nos damos conta de que a orquestra do louvor a Deus é sem fim e nós só temos uma nota no conjunto harmônico de toda a sinfonia da vida. São Francisco enriquece-nos, neste ponto, com o Canto do Irmão Sol, ou Cântico das Criaturas, onde todas elas são chamadas de irmãs. Celano captou bastante bem o porquê dessa atitude:
"Embora desejasse sair logo deste mundo como se fosse um exílio de peregrinação, este feliz viajante sabia aproveitar o que há no mundo, e bastante... Louvava o Criador em todas as suas obras e sabia atribuir os atos ao seu Autor. Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e enxergava a razão e a causa vivificantes através dos espetáculos que lhe davam prazer. Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo, e que todas as coisas boas clamavam: "Quem nos fez é ótimo!" Seguia sempre o Amado pelos vestígios que deixou nas coisas e fazia de tudo uma escada para chegar ao seu trono. Abraçava todas as coisas no afeto da sua devoção ímpar e falava com elas sobre o Senhor, convidando-as a louvá-lo. Poupava os candeeiros, lâmpadas e velas, porque não queria apagar com sua mão o fulgor que era um sinal da luz eterna..." 5.
Francisco foi aprendendo aos poucos o caminho da solidariedade, na medida em que experimentou contactos com os diversos "irmãos":
"... Daí para frente, passou a exortar com solicitude todos os pássaros, animais, répteis e mesmo as criaturas insensíveis para louvarem e amarem o Criador, porque, todos os dias, invocando o nome do Salvador, conhecia a sua obediência por experiência própria" 6.
Santa Clara, "quando mandava as irmãs auxiliares fora do mosteiro, exortava-as a que, quando vissem as árvores bonitas, floridas ou frondosas, louvassem a Deus; e fizessem o mesmo quando vissem os homens e as outras criaturas" 7. Não à-toa, escreveu a Santa inês de Praga: "Você e todas as criaturas estão contidas em Deus" 8.
Para nos darmos conta da importância deste arquétipo, basta recordar que, através da história, o ser humano já caiu nos extremos de fazer ídolos e fetiches de diversas criaturas e também de exterminar animais, florestas, minerais e até objetos com a mais estranha insensatez. Já se considerou rei indiscriminado das criaturas e se faz seu escravo com a maior facilidade. O homem já se mediu e se mede pela posse de terras, animais, metais... em que se coisifica e reduz seus horizontes.
É a partir daqui que adquire sentido nossa preocupação com a ecologia. O equilíbrio de todas as criaturas e de toda a natureza só pode ser apreciado e eficazmente desejado por quem sabe que papel tem no concerto de todas as obras do Senhor. E com um sentido histórico.
É impossível ser possuidor, proprietário indiscriminado ou idólatra e ser contemplativo, livre para ver o Senhor em todas as suas criaturas.
Com o estudo destes quatro arquétipos, começamos a descobrir e a pôr em ordem a nossa interioridade. Sempre por obra do Espírito, Ruah, que é a energia que move todas essas diversas polaridades de dentro de nós. E que nos faz viver o amor, em todas as suas dimensões.
Descobrimos melhor o desejo que somos aprendendo que não desejamos sozinhos.
Há outros desejando conosco - isso limita, mas também provoca, anima, ajusta, certifica.
Nós somos um desejo de Deus - e o desejamos mais do que tudo. Em nós mesmos há uma fonte mais profunda de desejo.
Há um desejo avassalador em tudo. Desejamos tudo e tudo nos deseja. Descobrir progressivamente esta espiral é um choque, mas é um choque bom.
Descobrir desejos inconscientes que me movem. Por exemplo: os impulsos que não controlo ou tenho dificuldade de controlar; as surpresas (agradáveis ou desagradáveis) que são causadas em mim por certas coisas, sem proporção aparente com a causa. Anotar indícios. Pelo menos descobrir que isso existe e faz parte do meu ser.
Que fatos posso apontar em minha vida, na minha história, para dizer que Deus está presente e me conduziu? Apontar e depois conversar sobre isso com alguém.
Momentos de presença marcante de algumas pessoas em minha vida. Como me marcaram para o mal e para o bem. E eu... como as marco? - Anotar. Possivelmente, conversar.
Influência do “mundo” em mim. Pessoas, mentalidades, animais, objetos, meio ambiente, verde, poluição, etc. Como me marcam. Depois de tantos anos... como marquei o mundo ao meu redor? - Anotar. Possivelmente, conversar.
Senhor, entrei no mundo maravilhoso da Terra Interior. Diante de tanta novidade, só reconheço a mim mesmo. Sou a única coisa aqui dentro que já conheço, que sei o que é. Mas também vou tendo a sensação de que sou muito mais do que pensava que era. Vou tendo a impressão de que tudo que está aqui dentro desta terra estranha também é parte de mim mesmo. Eu vivo disto tudo. Eu não sei mais o que eu mesmo sou.
Descubro dentro de mim um centro maior que o eu. Sou amado, não só amo. Descubro um amor infinito, mais forte que o meu desejo. Sou infi-nitamente amado.
Senhor, estou falando convosco porque descobri, num ambiente muito maior do que o meu, que também estais aí. Dentro de mim, fora de mim, além de mim. Eu vos sinto e isso me mostra ao mesmo tempo que não sou tudo, que de certa forma acabo onde vos vejo começar, mas também que continuo onde já sois e que penetrais até o mais profundo do que eu pensava que era só eu mesmo. Se eu existo é para vós, que me amais tanto.
No desejo dos outros, descubro concorrência, utilitarismo, mas também sou amado. O amor infinito é concreto no próximo. Senhor, mesmo aqui dentro vou descobrindo que muitos outros estão presentes. Estou vendo como as pessoas todas que eu conheço têm raízes nesta profundidade interior e como, aqui, são ainda mais numerosos os meus irmãos. Nós vivemos uns dos outros, é toda a sua vida que perpassa pela minha, sou eu todo inteiro que perpasso pela vida deles. Percebo, aqui dentro, como é sem sentido aquele acúmulo de máscaras que uso no mundo lá em cima, se todos os nossos olhares são atravessadores, se, até mais do que isso, é do olhar penetrante dos meus irmãos que eu preciso para viver, para ver. Neles, o meu ser se amplia, sem fim.
Senhor, vejo que todos os seres, tanto os animais como as coisas também têm suas raízes neste subterrâneo da vida, no mundo das raízes. Aqui eu me sinto um deles, um entre os animais, um entre as coisas, sendo e louvando vossa bondade previdente que nos ama para sempre. Aqui eu ergo meu canto de amor e tenho necessidade de cantar com todos eles, preciso do canto de todos eles, proclamando que aquele que nos criou e continuamente nos recria, é ótimo!
Em tudo há um infinito desejo presente. Recebo e sou solicitado. Sou procurado e me encontro. Não sou sozinho, nem dentro de mim mesmo. Tudo e todos vivem dentro de mim. E tudo isso vos louva. Amém.
1 Michael, C. and Norrisey, M., Arise,The Open Door, Inc., Charlottesville, 1984. p.29.
2 Legenda Maior 8,1. Vozes, p. 515.
3 Legenda Maior 6,1. Vozes p. 498-499.
4 Espelho da Perfeição 74. Vozes p. 928.
5 Segunda Celano 165. Vozes p. 404.
6 Primeira Celano 58. Vozes p. 221.
7 Processo de Canonização 14,9. Fontes Clarianas p. 123.
8 Terceira carta a Inês de Praga 3,26. Fontes Clarianas p. 209.