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A ENERGIA DOS POLOS OPOSTOS

INTRODUÇÃO

Descendo à interioridade para descobrir o choque dos desejos, chegamos agora à lei da polaridade. Costumamos assustar-nos com essa presença de opostos, mas vamos tentar ver, aqui, como ela é positiva.

A tensão entre os opostos é geradora de uma energia de vida. Tentamos ir além das energias físicas e mesmo psíquicas, para dar um passo a mais na abordagem da tensão entre o homem e Deus, entre o consciente e o incons­-ciente, entre o bem e o mal.

Vamos procurando a identificação com o Cristo que mora em nós.

1. TENSÃO E ENERGIA

Uma observação da natureza que nos rodeia revelará que tudo está disposto em polos opostos, que exercem pressão um sobre o outro, gerando energia. Nem sempre são polos imediatamente visíveis, como o masculino e o feminino ou como os polos de um ímã, mas são o que dá sentido de equilíbrio a tudo que existe. Até mais: as coisas não estão simplesmente existindo, na prática, elas estão constantemente sendo criadas, numa energia de vida que também faz pressupôr polos ainda mais poderosos e vastos.

O princípio da polaridade está em ação em todas as lâmpadas, em todos os aparelhos elétricos que usamos. Em toda reação química a tensão ou polaridade entre dois ou mais elementos produz uma síntese dos elementos originais formando alguma coisa nova. Mas não é só isso. De alguma maneira misteriosa, a interação e a síntese dos dois polos parece levar adiante o trabalho da criação tanto na matéria não-vivente quanto nos seres vivos.

Os polos geram energia porque um exerce atração sobre o outro, porque há uma pressão que deixa a situação entre os dois cheia de tensão. Tensão é força passando: é energia. Não sabemos exatamente, ou pelo menos não sabemos sempre, porque certas coisas exercem pressão sobre as outras, porque têm força de atração. Mas pelo menos podemos descobrir que isso acontece, podemos sentir a energia que é produzida e podemos até mesmo aproveitá-la. Não só quando usamos, por exemplo, a força da gravidade da água ou os polos da eletricidade, mas também quando descobrimos a tensão lá dentro de nós entre o bem e o mal, entre a nossa natureza humana e a presença divina.

Se os dois polos puderem seguir a atração que sentem um pelo outro e se unir, haverá uma transferência de energia de um para outro que vai produzir uma nova realidade. Os dois opostos convergem numa síntese que produz nova vida e aumenta a energia e atividade dos dois participantes originais que entraram na união. Os dois polos com tendências opostas fundem-se em uma união que é mais viva, mais rica e mais plena do que cada uma das partes tinha sido quando sozinha.

Normalmente, queremos escapar das pressões, não gostamos de viver em tensão. Ou, pelo menos, não gostaríamos de ter que suportar ao mesmo tempo tantas tensões. Um dos exemplos é o esforço que demonstramos, às vezes, para destruir o mal. Parece que preferiríamos viver sem a presença do mal. Ora, isso é impossível: sem o mal parece que também não há bem. Para vivermos sem tensões precisaríamos desligar pelo menos um dos polos mas isso é o mesmo que introduzir a morte. Vida é energia, e energia é tensão.

A polaridade é necessária para a origem de toda a vida, crescimento, força e criatividade. Enquanto for possível manter o equilíbrio certo entre os dois opostos, a união permanecerá efetiva e capaz de criar uma nova energia.

Cada um de nós tem sua energia e tem sua criatividade, porque cada um tem, em determinado tempo, sua capacidade de suportar tensões. E também cada um tem uma história única no encontro de polos opostos naquilo que vai vivendo. O segredo é manter tanto o equilíbrio como a tensão sem destruir nenhum dos polos. "Capacidade de tensão" é a habilidade tanto de um objeto inanimado como de um ser vivo para suportar a pressão e a tensão. Quanto mais alta for a capacidade de tensão, mais produtiva será a síntese. É claro que, se submetermos alguém ou alguma coisa a uma tensão maior do que aquela que pode suportar, nós o estaremos condenando à morte.

Mas também, por mais baixa que seja a capacidade de tensão, ela tem que ser posta em equilíbrio com uma força oposta proporcional: se não, vai se tornar completamente estéril e inútil. Se quisermos crescer na maturidade e chegar à plenitude a que fomos destinados, é essencial desenvolver nossa capacidade de tensão. É com um equilíbrio adequado que cada um pode prosperar. E é claro que, sabendo observar as circunstâncias, podemos fazer com que a tensão cresça em pontos determinados, aumentando a energia e a criatividade. É um processo que podemos conduzir.

2. POLOS FÍSICOS E ESPIRITUAIS

A vida de oração de Francisco de Assis dividiu-se entre dois pontos opostos que nos surpreendem. Nos seus vinte anos de vida religiosa, ele esteve, sempre por períodos de quarenta dias, em mais de vinte lugares tão ermos que mesmo hoje em dia não são de fácil acesso. Mas também percorreu uma inifinidade de aldeias e chegou a viajar para o exterior. Encontrou Deus com a mesma intensidade vivendo na solidão do eremitério e no contacto direto com o povo simples e sua vida cheia de trabalhos. Clara, que parece ter assumido apenas o extremo da vida retirada, foi quem o ajudou a tomar essa posição dupla. Mas essa oração extendida entre dois focos tão opostos tem por base a natureza que nos cerca.

A Terra gira em torno de um eixo que acumula energia em seus polos. Os astros todos têm posições dinâmicas uns em relação aos outros, mantendo um equilíbrio que só pode ser devido a um balanço exato entre forças opostas muito consistentes. Por outro lado, sabemos que a água, de que tanto vivemos, é a combinação, em devido equilíbrio, de dois outros elementos: o oxigênio e o hidrogênio. Se cessar o equilíbrio, ou um dos polos exercer um pouco mais de força, desaparece a água.

Os orientais falam do Yin e do Yang. Nós reconhecemos o masculino e o feminino, o sadío e o doente, o poderoso e o dependente. Mas há muito mais polaridade para relacionar. Vida é energia física, mas também energia espiritual. Para viver em plenitude, temos que conhecer, reconhecer e respeitar os polos, mesmo os mais recônditos de nossa natureza.

Ora, essa mesma polaridade atua no mais profundo de nós mesmos, na interioridade de nossa alma. E é isso que vai nos interessar neste trabalho. Por exemplo, deve ser encontrado um equilíbrio entre o consciente e o inconsciente, entre o indivíduo e a comunidade, entre masculinidade e feminilidade. Todo atributo existe em um estado de tensão com uma característica oposta em nossa personalidade. Quanto maior a tensão que puder ser tolerada entre essas qualidades, maior será a criatividade e produtividade. Assim, a fé em Deus precisa estar equilibrada com a fé em si mesmo; o amor próprio tem que existir em tensão com o amor pelos outros.

A pessoa bem equilibrada e madura será capaz de usar tanto a liberdade quanto a submissão, tanto a independência quanto a dependência. Saberá quando ser introvertida e quando ser extrovertida; além disso, a gente deve manter o equilíbrio entre o físico e o espiritual, entre o pensamento e o sentimento, entre sensação e intuição, entre conhecimento e amor, entre organização e espontaneidade. Como descobrir esses polos, como reconhecer essa energia, como aproveitar essa criatividade em um sentido sempre positivo, cada vez mais positivo.

Mesmo a capacidade de viver símbolos depende da sensibilidade para descobrir polaridades entre o exterior e o interior: a criação do símbolo depende de uma metade ou de um polo que conhecemos na exterioridade e que está em relação de energia com outra metade ou polo que intuimos na interioridade.

Plenitude e integridade de uma pessoa é a unidade resultante de um equilíbrio harmonioso de todas as potencialidades que ela possui. Se houver a devida ordem em uma personalidade, as diversas qualidades vão ser simetricamente arranjadas em polos opostos a outras qualidades igualmente boas. Através da interação ou do diálogo entre esses atributos, uma pessoa cresce em plenitude. Se a capacidade de tensão de uma pessoa for forte, serão possíveis muitos encontros entre essas energias de vida para o benefício dela mesma e dos outros. Por exemplo, é pelo mútuo relacionamento entre a caridade e a justiça que crescemos em maturidade e damos conta das obrigações de nosso estado de vida. A mesma polaridade deve ser mantida entre as outras tensões em nossa vida: Deus e o homem, o indivíduo e a comunidade, a autoridade e a obediência, a coragem e a prudência, a cabeça e o coração.

3. A HUMANIDADE EM TENSÃO COM A DIVINDADE

Essa é provavelmente nossa maior tensão: não somos deuses mas fomos criados para Deus. Ele exerce formidavel pressão sobre nós, justamente para crescermos e sermos plenos, mas não quer destruir nossa identidade. Até que ponto teremos que dar vez à graça de Deus? Até que ponto temos que viver como se tudo dependesse de nossa natureza humana? Mesmo reconhecendo que a natureza humana já é um dom de Deus, temos que aceitar que há outra presença de Deus que nos põe em tensão para o nosso crescimento.

Desde o século quinto da era cristã, os teólogos já discutiam a relação entre a graça divina e o esforço humano. Pelágio sustentava a bondade natural da natureza humana e a necessidade de exercitar nossa vontade humana e outras forças da natureza para crescer na virtude. Santo Agostinho insistia em que a natureza humana estava corrompida pelo pecado original e que era impossível crescer na virtude por nossas próprias forças sem um auxílio adicional de Deus, a "graça atual". O texto principal em que Santo Agostinho se apoiou foi Filipenses 2,13: “Pois é Deus que opera em vós o querer e o agir, segundo a sua vontade”. Sua teoria foi adotada pela Igreja; o ensinamento de Pelágio, ou pelagianismo, foi declarado herético.

Os teólogos de hoje preferem diminuir a antítese entre a natureza e a graça, entre o natural e o sobrenatural. Deus é visto como autor tanto de nossos dons naturais como desses auxílios especiais chamados “graças atuais”. A natureza humana já não é mais vista como corrupta mas antes como enfraquecida pelos efeitos herdados dos pecados de nossos ancestrais e pelos nossos próprios pecados.

Um estudo da Bíblia vai revelar a paradoxal insistência na dependêndia de Deus para conseguir a salvação. A insistência contínua sobre a oração mostra claramente nossa necessidade de Deus. “Pedi e será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe, o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá” (Mt 7,7-9). Mas, logo adiante, Jesus insiste para “entrar pela porta estreita... porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram” (Mt 7,13-14).

O esforço humano e a graça divina têm que estar presentes como polos opostos para qualquer crescimento na maturidade e na santidade. A virtude humana é uma combinação dos dois. Sabemos que Deus quer que alcancemos nossa plena capacidade de amar. “Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). A única incerteza é a nossa cooperação.

A natureza e a graça deveriam estar em harmonia perfeita dentro de cada pessoa. Entretanto, muitos, e até santos canonizados, são imaturos, talvez por causa de experiências traumáticas ou por falta de amor na infância. Mas, quando fazem o melhor que podem para usar todas as forças da natureza e da graça à sua disposição, Deus não pode negar-lhes a graça da santidade. Em vez de nos desesperarmos por nossa falta de santidade ou de maturidade, temos é que trabalhar a capacidade de tensão, usando todas as forças que estão ao nosso alcance.

Na vida de Jesus encontramos todas as tensões muito bem equacionadas: não só a tensão entre o esforço humano e a graça, mas também entre o consciente e o inconsciente, e uma tensão extra que ninguém de nós tem que enfrentar - a de viver as duas naturezas, a divina e a humana. Para resolver e manter um equilíbrio correto entre as nossas tensões, nós vamos precisar sempre mergulhar na vida de Jesus, que é o modelo de nossa vida.

4. A TENSÃO ENTRE CONSCIENTE E INCONSCIENTE

Conhecemos o Ego e o mundo do Consciente. Mas sabemos que, em nós, há todo um outro mundo que reconhecemos só por algumas manifestações. Essa parte desconhecida exerce violenta pressão sobre nós, especialmente com o passar dos anos. É ela que vai nos levar à individuação, ou à realização do indivíduo único que cada um de nós é. Como poderíamos entrar em contacto com esse outro polo misterioso? Como estabelecer o ponto de equilíbrio?

Durante os primeiros vinte e cinco anos de vida, temos que manter um bom equilíbrio entre polaridades de nossa vida consciente: corpo e espírito, inteligência e vontade, pensamento e sentimento, introversão e extroversão. Depois da puberdade, as áreas inconscientes precisam ser descobertas, estudadas e conduzidas a uma síntese e a um equilíbrio com nossa vida consciente. Quando as forças vitais inconscientes começam a se manifestar, começa o trabalho do equilíbrio entre o consciente e o inconsciente.

Como já vimos, mas é bom repetir, consciente refere-se à parte do nosso ser de que temos pleno conhecimento e sobre a qual temos algum controle. Quando falamos em "inconsciente", referimo-nos a tudo que está no nosso ser interior e de que não nos damos conta imediatamente. Inclui não só as experiências passadas que esquecemos mas principalmente o vasto potencial de energia psíquica ainda não desenvolvida. Todas as experiências pessoais reprimidas ou esquecidas são chamadas por Jung de "inconsciente pessoal".

Além disso, cada um de nós carrega um vasto cabedal de experiências de nossos ancestrais, a que Jung deu o nome de "inconsciente coletivo", chamando seu conteúdo de arquétipos: as imagens primordiais implantadas na psique humana através de repetidas experiências de centenas de gerações. Essas experiências são a origem dos instintos e dos hábitos herdados, presentes em todas as criaturas vivas.

Alguns exemplos de arquétipos são: a mãe, o pai, a criança, o heroi, o rei, o super-homem, a morte, o casamento, etc. Através dos séculos, artistas, poetas e outros que estiveram em especial contacto com esses arquétipos conseguiram dar-lhes forma através de histórias, lendas, mitos, dramas, contos de fada, épica, literatura religiosa. Dessa forma, esses arquétipos foram revestidos de carne e se tornaram temas ao redor dos quais foi construído o conjunto da história humana. Eles são como negativos fotográficos que têm que ser revelados através de nossas experiências conscientes para poderem ser usados e aproveitados.

Há certos arquétipos que estão especialmente ligados ao crescimento na maturidade e à capacidade de amar, como os papeis que temos que  representar e que Jung chamou de máscaras ou de persona; ou a sombra inconsciente de nossas faltas reprimidas; ou a masculinidade e feminilidade (ânimus e ánima). Jung também desenvolveu bastante a idéia dos complexos (de inferioridade, materno, etc.). Um complexo é um arquétipo ao redor do qual ajuntou-se um certo número de experiências reprimidas de nosso inconsciente pessoal que agora estão dando côr a nossos sentimentos, ações, decisões e até a nossas percepções da realidade, sem que tomemos consciência dessa distorsão. Esses complexos precisam ser resolvidos para podermos ter um bom relacionamento pessoal de amor com os outros.

Os conflitos que surgem entre nossa vida consciente e o inconsciente não podem ser resolvidos ignorando ou negando um ou outro. As forças inconscientes têm que ser trazidas uma por uma à superfície de nossa consciência, olhadas de frente e depois levadas a um equilíbrio adequado e a uma união com os conteúdos de nossa vida consciente. É impos­-sível e indesejável manter esses conflitos reprimidos a vida toda. Mesmo que o conseguíssemos, o resultado seria a frustração do destino único para o qual fomos criados.

A tarefa de conciliar o consciente com o inconsciente não acaba nunca, mas é preciso tomar cuidado para não proceder muito depressa ou muito devagar. Há um tempo apropriado para cada nova tarefa. Se tentamos expôr muito cedo as profundidades do inconsciente, o conflito poderá nos desencorajar e fazer abandonar toda busca da maturidade.Por outro lado, se adiarmos demais o processo de individuação, perderemos muitas oportunidades de crescer no amadurecimento.

A tensão é sempre entre o que somos de verdade e o que podemos ser. Nossa competição não tem que ser com os outros mas entre o que já realizamos de nossos talentos e habilidades e o vasto, praticamente ilimitado potencial de amor, bondade, inteirez, que ainda está enterrado dentro de nosso inconsciente.

5. TENSÃO ENTRE O BEM E O MAL

Uma das páginas do Evangelho que melhor ilustram o equilíbrio humano de Jesus fala da presença do mal entre nós até o fim:

“O Reino do Céu é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Uma noite, quando todos dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu, e as espigas  começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: "Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?" O dono respondeu: "Foi algum inimigo que fez isso". Os empregados lhe perguntaram: "Queres que arranquemos o joio?" O dono respondeu: "Não. Pode acontecer que, arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo. Deixem crescer um e outro até a colheita. E no tempo da colheita direi aos ceifadores: arranquem primeiro o joio, e o amarrem em feixes para ser queimado. Depois recolham o trigo no meu celeiro" (Mt 13,24-30).

Entre outras, podem ser consultadas também as seguintes passagens bíblicas: 1Cor 4,9-13; 2Cor 4,8-12; 6,4-10; 11,23-29; 12,7-10).

A tensão entre o bem e o mal é a mais forte no campo moral. Nós, de certa forma, precisamos do mal. Sem o mal não existe o Bem. Mas nós nos sentimos atraídos pelo Mal e destinados ao Bem. O Bem que praticamos é sempre o resultado de um equilíbrio com nossa tensão para o mal. É claro que temos que aprofundar devidamente esse ponto.

Podemos definir o mal ou o pecado como uma desordem: como a falta de um equilíbrio adequado entre virtudes opostas. A desordem do pecado é muitas vezes o resultado de uma falta de decisão para suportar a necessária tensão. Muitas vezes a razão para evitar ou dissolver uma tensão não é tanto a falta de vontade quanto a incapacidade de suportar a pressão de forças em conflito: mas isso vai ter trágicos resultados.

A fé e a experiência cristãs sugerem que muitas dessas tragédias não-pecaminosas podem ser ligadas a uma pecaminosa negligência passada de alguma pessoa que deixou deliberadamente de dar o devido valor à auto-disciplina para chegar à maturidade. A baixa capacidade de tensão que muitos de nós têm é devida pelo menos em parte aos pecados de nossos antepassados que optaram pela mediocridade, pelo compromisso, escapando da responsabilidade em vez de assumir a heróica batalha das tensões. Igual recusa por nossa parte, hoje em dia, poderá ter desastrosas conseqüências para as gerações futuras.

O mal tem tamanho poder que só através do sofrimento, voluntaria e amorosamente acolhido, podemos fazer com que ele solte sua garra. Se quisermos seguir o exemplo de Cristo e experimentar o choque dos opostos em nossa própria vida, haverá esperança para o mundo, à beira de um precipício.

Os persas antigos trataram de explicar o choque entre o bem e o mal imaginando duas divindades opostas, uma do bem, da luz e do espírito, e outra do mal, das trevas e da matéria. Até hoje encontramos em nosso meio vestígios dessa maneira de pensar. As religiões africanas presentes entre nós parecem não ver grandes problemas de incorporação do bem e do mal em uma pessoa. As religiões asiáticas, em sua maior parte, olham o bem e o mal como simples graduações da mesma realidade e procuram escapar delas como de uma ilusão, pelo estado de nirvana. Nós não podemos fugir. Nem devemos.

A solução cristã não consiste em uma negação simplória da realidade do mal mas na manutenção de uma tensão constante entre bem e mal dentro de nós mesmos e dentro do mundo. Em vez de ir atrás de uma perfeição terrena livre do pecado e da culpa, precisamos aceitar pacientemente a natureza dividida de nossa personalidade. Essa tensão não é má: sem o desafio que nos é apresentado constantemente pela presença do mal, bem depressa estaríamos psicologica e espiritualmente mortos.

Somos verdadeiros seguidores de Cristo quando não queremos deixar que as forças do mal vençam sempre e assumimos, com ele, o papel de vítimas, com um amor verdadeiramente desinteressado. Só por uma graça especial de Deus as vítimas da perseguição e as vítimas do amor são capazes de dar a outra face e amar e rezar sinceramente por seus perseguidores. Em nosso tempo, Martin Luther King e Gandhi de­-ram um excelente exemplo, assumindo a libertação de seus irmãos.

A responsabilidade de cada nova geração é fazer o possível para reverter a fuga da tensão e do sofrimento. É tarefa nossa construir nossa capacidade de tensão, de firmar o nosso chão e de resolver e conciliar a pressão e o conflito sem destruir a força ou perder a energia que vem da interação dos dois polos. Através dos anos, nossa responsabilidade pelo crescimento na maturidade exige que enfrentemos novas tensões, tenhamos um proveitoso encontro entre os opostos e integremos o crescimento e energia que daí advêm em nossa personalidade.

Serei uma pessoa madura e plena quando estabelecer um equilíbrio bem razoável - para não dizer perfeito - entre todos os polos de minha existência. Entre outras coisas, vou sendo maduro, pleno e criativo na medida em que for conseguindo equilibrar meu tipo com o oposto localizado em minha interioridade.

CONCLUSÃO

Como a tensão que corre entre um polo e outro é vida, também os choques entre os nossos desejos e os desejos dos outros podem ser vida.

É a tensão que nos ajuda a buscar o justo equilíbrio que permite todos os avanços e todas as conquistas.

Nossa linguagem tem que ser "Sim, sim e não, não", mas a nossa ca­-minhada tem que ser para o bem através de todo o mal, deixando o joio crescer junto ao trigo até o dia da colheita.

PRÁTICAS

Procure dar-se tempo para sentir, em seu corpo e em sua alma, as tensões que demonstram que somos seres vivos. Por exemplo: na respiração, na impaciência.

Reveja, na sua oração, o que você costuma jogar para Deus resolver. Reveja a parte que você assume para realizar com os dons já recebidos.

Tente anotar qual o equilíbrio que existe em sua vida de oração entre a atividade e a passividade.

Tome como objeto de reflexão e oração algum ponto de tensão que você vive com alguma pessoa.

ORAÇÃO

Toda a força do meu desejo é uma atração infinita. Eu me sinto arrastado para vós, ó Pai, como o Cristo que vive em mim e em união com ele. O meu desejo é ser absorvido em vós mas, ao mesmo tempo, sei que tenho que manter para sempre esta energia que é vida. Vivê-la é viver o Espírito que fez em mim o seu templo.

Eu sei que estão dentro de mim as sementes do bem e do mal. Quero caminhar para vós que sois o Bem, o Sumo Bem, todo o Bem. Quero acolher todo o bem que de vós recebo, quero integrá-lo em minha vida, quero extendê-lo a todas as pessoas e a todas as coisas, sem limite. Mas eu sei que é a ausência do bem que me provoca, que me dá vida, que me faz crescer, que me leva a me multiplicar pelo mundo. Ajudai-me a não preencher esse vazio de bem com as mil coisas que costumo inventar. Ajudai-me a não estancar essa fonte de Bem. Não me deixeis sentir-me saciado enquanto não chegar à plenitude de todo bem, que sois vós.

Mantende acesos em mim os fogos de todos os opostos. Não me deixeis envelhecer antes do tempo fugindo da luta. Não deixeis que nenhum mal e nenhuma pessoa me derrubem mas não permitais que eu fuja de nada nem de ninguém. Somos todos juntos que estamos construindo o vosso Reino. Dentro de cada um e no universo inteiro. No meio do joio e com o joio até dentro de nós, esperando o dia da colheita.