3ª PARTE - A CRUZ

Nesta terceira parte, chegamos à medula da oração de Francisco e Clara. Eles se identificaram com Jesus Crucificado assumindo com ele todo o amor e toda a dor pela vida plena da humanidade. E, com Jesus Crucificado, entraram na mais alta contemplação da Trindade.

Nada intelectualizada, muito humana e sensível, sua oração, como a do Messias que se fez humano na Palestina, penetra como uma espada até o mais íntimo do homem para descobrir que a cruz já está lá dentro por natureza e que somos salvos a partir da interioridade quando assumimos, na dor e também na alegria, esse símbolo que pode nos revelar toda a nossa identificação fundamental com o Filho Primogênito de Deus.

Francisco foi convidado pelo Crucificado de São Damião a restaurar a sua Igreja e, além de fazê-lo, restaurou tanto a imagem de Cristo em si mesmo que acabou sendo identificado a ele na plenitude seráfica dos estigmas. As lágrimas da dor e do amor de Jesus Crucificado esculpiram nele o Pobre que deixou toda a Igreja diferente depois dele.

Clara não ficou tão famosa, nem teve os estigmas no corpo, mas viveu a mesma experiência, sem que nos seja dado saber se em intensidade menor ou maior. Teve seu dia de Alverne numa sexta-feira santa em que passou vinte e quatro horas suspensa no mistério da Paixão do Senhor, acreditando ter vivido então "o sonho que sempre tinha desejado tanto".

Para Francisco e Clara parecia inconcebível que o mundo não percebesse que o Amor não era amado. Foi por isso que eles tornaram concreto para nós como Jesus nos deu vida em plenitude justamente quando enfrentou a morte, porque ensinou a lição fundamental: viver a cruz é viver o maior dom da humanidade. Cruz não é morte, é vida, porque é onde o homem enfrenta, desde a profundidade de si mesmo, a energia dos polos opostos.

Todo desejo leva a múltiplos cruzamentos e todo desejo é vida quando, como as águas de um rio, continua mais límpido e vivo depois de atravessar as pedreiras acidentadas do caminho. Temos a tentação de fugir da cruz porque, à primeira vista, ela é o símbolo de uma dilaceradora separação. Mas os que nela perseveram experimentam porque o mesmo Cristo que em sua mais solene oração pediu: "Pai, que todos sejam um", disse um dia com a nítida certeza que sempre o caracterizou: "Eu não vim unir, vim separar...".

A Cruz é o ponto em que a vida humana nasce, cresce e amadurece, chegando não só a construir o Povo de Deus na união dos irmãos mas também a realizar as núpcias eternas do Cordeiro. É quando o homem se despoja e desapropria de tudo que Deus preenche o seu vazio e o torna ao mesmo tempo realizado e libertador do mundo.

Para caminhar nesta parte vamos partir do símbolo da Cruz, contemplá-lo no espelho de Clara e Francisco, chegar com eles à união mística e ao porquê de sua "altíssima pobreza".

9

O SÍMBOLO DA CRUZ

INTRODUÇÃO

Choques por conflitos de desejos são estruturais: estão dentro de nossa vida. Pode ser que, às vezes, nos levem à morte, mas é deles que a vida nasce e se sustenta.

Jesus Cristo ensina, mais com o exemplo do que com palavras, que o caminho de salvação está em assumir a cruz.

Não temos que assumir a Cruz glorificada por Cristo mas a que ele assumiu: a cruz da vida de todos os "lascados" deste mundo, isto é, de todos os que não temos vida em plenitude. Para que a tenhamos.

1. A CRUZ QUE NÓS USAMOS

A contemplação de Francisco de Assis, apesar de seu imenso e conhecido entusiasmo pela natureza, é uma contemplação de Jesus Crucificado. É centralmente no Filho de Deus entregue por nosso amor que Francisco vê Deus e isso, certamente, é uma dificuldade para nós que, por um lado, resistimos a toda aceitação do sofrimento e, por outro, estamos por demais acostumados a ostentar cruzes e crucifixos no mundo que herdamos da cristandade. Por isso, este é um dos pontos fundamentais que precisamos aprofundar numa redescoberta da contemplação franciscana.

Nós vivemos em um mundo enfeitado e dominado por cruzes: no peito, na parede, no telhado, não só nas igrejas mas até em ambientes leigos e em repartições públicas. A Cruz marca o nosso nascimento e a nossa sepultura. Até dizemos que somos uma "civilização cristã". Mas é bom lembrar que isso é o resultado de uma guerra muito grande, de um empreendimento em que tomaram parte cruzados, conquistadores, mercadores de escravos, missionários, educadores. Foi uma conquista que levou séculos.

Sinal de escândalo, de loucura, de dor, acabou sendo, para os "cristãos", um sinal de honra e de glória. Para Jesus Cristo, foi uma dor e uma humilhação sem tamanho, que conquistaram para nós a vida. Para os sarracenos do tempo das cruzadas, para os índios do tempo das conquistas, para os negros do tempo da escravidão, para tanta gente desclassificada, privilegiada por Jesus mas não por seus seguidores, ainda continuou a ser símbolo de confusão, de dor, de humilhação.

Muita gente levou e leva vantagem ostentando a cruz. Eu não gostaria de falar das "vantagens" sociais que a cruz possa trazer, mas estou profundamente convencido das vantagens interiores pessoais que ela pode trazer a todos os que acolhem o Reino de Deus e se empenham na sua construção.

Com Francisco de Assis, podemos encontrar no instrumento de suplício do Filho de Deus um caminho real para a contemplação. É um caminho de interioridade que costuma ser muito pouco usado. Porque, como tantas outras coisas, a cruz, e o Homem que nela vence a morte, são daquelas realidades que estão em toda parte diante de nossos olhos e costumam não ser enxergadas.

2. A CRUZ DE SÃO FRANCISCO E DE CLARA

Jesus Crucificado foi o tema central da contemplação de São Francisco, como podemos constatar, abundantemente, em suas biografias. Tanto os Fioretti como São Boaventura vão ao cerne da contemplação franciscana quando dizem:

"Foi por eles ainda ouvido e visto deplorar em altas vozes a paixão de Cristo, como se ele corporalmente a visse" e "...ouviram-no chorar em altas vozes como se estivesse presenciando a dolorosa paixão do Senhor" 1.

Nos Fioretti, temos a citação de uma fundamental oração de Francisco, justamente um pouco antes de sua estigmatização:

"Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores" 2.

Nessa oração encontramos três pontos fundamentais que nos ajudarão a construir nossa própria vida de contemplação: a dor de Jesus Crucificado, o amor de Jesus Crucificado e uma conseqüente identificação com Jesus Crucificado. Também é importante a aparição, no episódio dos estigmas, do Serafim crucificado, por toda a carga simbólica que tem na Bíblia:

"...começou a contemplar devotissimamente a paixão de Cristo e a sua infinita caridade: e crescia tanto nele o fervor da devoção, que todo ele se transformara em Jesus pelo amor e pela compaixão. E estando assim e inflamando-se nesta contemplação... viu vir do céu um Serafim" 3.

Recordo que os Serafins são os anjos que estão continuamente diante do trono de Deus e, por isso, têm o rosto e todo o corpo em brasa (a palavra seraf quer dizer justamente incandescente, abrasado). Mas seraf era também o nome da serpente de bronze erguida por Moisés no deserto para curar os israelitas que tinham sofrido mordidas ardentes de cobras - e Jesus se comparou a essa serpente ao dizer: "Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim". Por isso é por demais significativo que Jesus Crucificado apareça para Francisco em forma de Serafim, dando-lhe para sempre o atributo de "seráfico".

Celano diz que ele já tinha sido transformado pelas palavras do Crucificado em São Damião:

"Desde essa época, domina-o enorme compaixão pelo Crucificado, e podemos julgar piedosamente que os estigmas da paixão desde então lhe foram gravados não no corpo mas no coração" 4.

Esse foi o caminho seguido pelos santos franciscanos, aberto para todos os seus seguidores, para quem a Paixão de Cristo é apresentada como o tema central da vida de oração. Como ensina Clara de Assis, em páginas monumentais que vamos citar adiante, o crucifixo era o "espelho" em que eles contemplavam.

Precisamos sublinhar que, entrando em tão grande identificação com Jesus Crucificado, Francisco e Clara, que chegaram a esse ponto arrastados pelo Espírito de Deus, a que se entregaram sem reservas, ensinam seus seguidores a entrar na oração de Jesus que intercede diante do Pai pela nossa salvação. É o cerne da oração contemplativa que, colocada nesse cruzamento fontal da Trindade, não tem mais como nem porquê usar raciocínios, palavras ou mesmo conceitos.

3. VALORES SIMBÓLICOS DA CRUZ

Na linguagem quotidiana de nossos dias, cruz tornou-se sinônimo de sofrimento e até mesmo de castigo: "Esta é a minha cruz!", dizem as pespessoas, de cara compungida. E também ficamos com a impressão de que esse símbolo só se espalhou pela humanidade como sinal dos cristãos depois que Jesus foi supliciado numa cruz pelos romanos. Mas a verdade não é bem assim.

A cruz deve ser o mais antigo e mais difundido símbolo humano de que se tem conhecimento, muito antes da vinda de Jesus Cristo na carne. Nós a encontramos nas seculares mandalas do Tibete, nos tapetes da Pérsia, nos desenhos e na arquitetura de todos os povos. Achamos a coisa mais natural reforçar nossos móveis e construções com barras cruzadas ou assinalar nossas opções em papel com uma cruzinha. Justamente porque está no âmago de nossa natureza enfrentar o corte e o cruzamento que simbolizam a tensão entre os opostos.

Viver a cruz pode até ser duro, mas sempre é vida. Morte existe quando se foge da cruz, quando se faz cessar a tensão entre os polos opostos. Mesmo as nossas grandes alegrias e até os nossos prazeres, desde os mais pequenos, são uma vivência da cruz. Nos nossos jogos, por exemplo, parece fundamental a existência de adversários que joguem contra, e os parceiros, sempre semelhantes e sempre em alguma oposição, são os que nos dão gosto de viver. É uma insensatez ver na cruz apenas um símbolo de dor, e até negativo, quando ela é o verdadeiro símbolo positivo de tudo que é bom na vida.

Não devemos ver na cruz um símbolo de Jesus Cristo só porque ele morreu em uma. Ela é o seu símbolo porque ele assumiu a nossa natureza da forma mais excelente e veio nos ensinar que estávamos perdendo a vida por querer fugir da cruz. Foi por isso que ele alertou que: "Quem ama a sua vida vai perdê-la", e nós ficamos sem entender. Quem pensa que pode viver melhor longe da luta da vida já se entregou à morte.

A cruz é mistério. Desde o tempo de São Paulo, a cruz tem sido o maior símbolo cristão: "Que eu jamais possa orgulhar-me de coisa nenhuma a não ser da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por ela o mundo foi crucificado para mim e eu para o mundo" (Gl 6,14). De fato, Jesus tinha dito que ninguém pode ser seu seguidor se não tomar sua cruz e o seguir (Lc 9,23). Qual é o mistério da cruz? O que é que ela simboliza? Simboliza, com suas duas traves que se atravessam, a dilaceração do cristão entre Deus e a humanidade, entre o bem e o mal, como todas as outras tensões da vida. Francisco expressou isso muito bem em sua famosa exclamação: "O Amor não é amado!" E, para Jung, símbolo é aquilo que representa a melhor expressão possível em determinado tempo para alguma coisa que é essencialmente desconhecida.

A cruz é amor. Ela expressa a misteriosa necessidade da conjunção de opostos em toda existência. Todas as formas de energia, inclusive a psíquica e a espiritual, são o resultado dessa interação entre opostos. A cruz é o símbolo que melhor expressa a união de opostos que precisa acontecer em toda vida saudável e madura. A cruz é um símbolo muito positivo quando consideramos a vida nova que dela brota. Sem a cruz não pode haver crescimento no amor ou maturidade, nem plenitude ou equilíbrio, nem vida e energia, nem relacionamento pessoal entre Deus e a humanidade. O amor, a plenitude e a santidade só se tornam autênticos e ativos na presença de uma tensão sempre crescente.

A cruz é dor. Também significa luta, conflito, sofrimento e até a própria morte. A crucifixão de Jesus foi a expressão suprema do amor de Deus por nós. Nossa expressão de amor por Deus e pelos outros inclui uma crucifixão semelhante. "Eu lhes garanto solenemente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, vai ficar um simples grão de trigo. Mas, se morrer, vai produzir muito fruto. O homem que ama sua vida perde-a, enquanto o que odeia sua vida neste mundo guarda-a para a vida eterna" (Jo 12,24-25). A reconciliação de opostos sempre envolve sofrimento e luta mas a tensão produz uma nova energia psíquica ou espiritual. Algumas vezes, só a morte vai livrar-nos da dor; mas mesmo então vamos ser donos de uma vida ressuscitada.

A cruz é identificação. Eu, cristão, tenho que ser um outro Cristo. Na cruz. Minha vida está atravessada na vida de Jesus Cristo e é constantemente questionada pela vida de Jesus Cristo. Viver a cruz é viver essa comparação constante, que exige a minha conversão contínua.

A grande tentação do ser humano - que deveria ser vencida fundamentalmente pelo cristão - é fugir da cruz. Peca e rejeita Deus quem foge da cruz e renega a Vida. É inútil e falso querer encontrar outros culpados, como fez Adão no paraiso: "A mulher que me destes me levou a pecar". O que o levou a pecar foi querer ser como Deus, imaginando poder viver sem contrastes.

4. ASSUMIR JESUS CRUCIFICADO

O primeiro passo foi dado por Jesus quando se deixou crucificar porque a humanidade estava crucificada no mal e condenada à morte. Ele morreu para que fôssemos livres do mal e não das cruzes. Por isso, assumir o Crucificado é assumir todos os crucificados, especialmente os que sofrem hoje as conseqüências da injustiça e da pobreza.

"A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem e poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós. Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos" (1Cor 1,18,22-23).

A Cruz não foi loucura para São Francisco, como para nenhum santo. Para nós, corre o perigo de não ser nem loucura nem sabedoria e muito menos escândalo, porque vivemos em um mundo já tão acostumado com cruzes que as usa indiferentemente, até para ostentar poder e humilhar povos "subdesenvolvidos".

Talvez não sejamos melhores que os judeus que pediam provas e os gregos que queriam lógica. Estamos precisando descobrir o caminho dos santos. E não só dos santos: de todos os que não edificaram seu mundo sob o signo de uma lógica fria, calculista, exata e... morta.

Para curar o mal, é preciso ir lá dentro. Encontrar a cruz em que agonizam ou morrem aos milhares os filhos de Deus deste século e descer às raízes. Lá só entram os que acolhem a dor, amam a dor, partilham a dor, a mesma dor que é inteira de Jesus Cristo porque ele assumiu todas as dores do mundo. Com essa chave, podemos chegar ao mundo da interioridade e curar os males que afligem nossa base viva lá no subterrâneo da dor. Nascendo nesse parto para dentro, descobre-se o sentido salvador da Cruz: Deus morrendo para que a vida seja plena, Deus brotando através de cada pessoa e de cada manifestação da natureza. Lá no fundo, a gente descobre que irrisória é essa morte que parece tão horrível, quando comparada com a plenitude da Vida, com toda as possibilidades de Vida que podemos haurir para nós mesmos e para todos.

A cruz é a chave da história humana e da história de cada um. O sofrimento simbolizado pela cruz não é a meta da vida mas um meio de praticar um amor como o de Cristo. Deus deu-nos o exemplo de aceitar o sacrifício de si mesmo pelo bem dos outros. Jesus resolveu o problema do mal fazendo-se vítima das forças do mal. Por seu amor desinteressado, conseguiu redirecionar as energias do mal para uma ressurreição em nível mais alto. Algo semelhante acontece com cada um de nós quando aceitamos voluntaria e amorosamente as cruzes de nossa vida.

Para muitas pessoas a situação em que estão vivendo é abundante fonte de sofrimento. Algumas das cruzes indesejadas que experimentam são: ter que viver com um cônjuge difícil, trabalhar em um serviço desagradável, lidar com filhos que rejeitaram os valores dos pais, sofrer a rejeição de um amigo, perder a saúde, ser mal compreendido ou mal interpretado, sofrer oposição, perseguição, senilidade, velhice, perda de energia ou de memória, falhar nos negócios ou em outros projetos. Nos-projetos. Nossa atitude nessas situações pode ser transformada pela aceitação e o amor, vindo a ser um trampolim para nossa passagem a uma existência mais elevada de realização e plenitude.

Mesmo que cometamos enganos a respeito da vontade de Deus ou sobre as cruzes que escolhemos, nossa vida pode ser um sucesso se a vivermos com amor e integridade. Jesus, em sua agonia e mais ainda quando provou o sentimento de abandono, chegou a pensar que sua vida tinha sido um fracasso. Deve ter sido um sofrimento maior do que a dor física. Mas ele viveu com tão grande honestidade, virtude e amor, que chegou à vitória sobre o mal através de sua morte e ressurreição.

5. SER UM NOVO CRUCIFICADO

A cruz é a conseqüência que o gênero humano, com seus hábitos arraigados de egoismo e violência, tem que carregar. As omissões e as repetidas opções por metas erradas criaram maus hábitos na própria constituição de nossa natureza e muitos estão tão afundados neles que não conseguem desvencilhar-se sozinhos. Os outros, que fizeram alguns progressos, têm que correr em seu auxílio seguindo o exemplo de Jesus. Para sanear nossa geração e as futuras de sua fatal propensão para a violência, a guerra e o ódio; para a crueldade e a tortura; para a injustiça e a desonestidade; para o egoismo, a inveja e a glutoneria; para o medo e a opressão - precisamos de um exército de pessoas dispostas a oferecer a si mesmas em um sacrifício de amor. "Agora eu me alegro de sofrer por vocês, pois vou completando em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo, a favor de seu corpo, que é a Igreja" (Col 1,24).

Oferecer-se é seguir o caminho da não-violência diante da injustiça. É fazer como São Paulo: "De muito boa mente me gastarei e desgastarei em favor de vocês" (2Cor 12,15). É seguir literalmente o Sermão da Montanha: "Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, por minha causa, mentirem, dizendo contra vós todo mal. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a recompensa" (Mt 5,12). É dar a outra face, andar um quilómetro a mais, dar a camisa a quem pediu o paletó (Mt 5,38-42). É amar os inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, abençoar os que nos amaldiçoam, rezar pelos que nos maltratam (Cfr. Lc 6,27-28).

Um dos maiores problemas é o abuso da força e da autoridade de uma pessoa sobre as outras. Os que estão com o poder tendem a au­-mentá-lo e a levá-lo muito além do necessário para o bem comum. Isso se aplica também aos pais, professores, e até aos amigos! Para contrabalan­çar os abusos do poder, é preciso que alguém siga o exemplo de Jesus es­va­ziando-se de todo poder. “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo: Ele tinha a condição divina mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se...” (Fl 2,5-7).

O sofrimento é o preço da possibilidade de amar desinteressadamente. Sofremos para vencer as inclinações de auto-indulgência, a mania de colocar nossa vontade e nossos desejos acima da vontade de Deus e do bem dos outros. Temos que trabalhar contra os hábitos arraigados de mal em nossa personalidade. Essa tarefa nunca é fácil porque o amor de si mesmo tem inclinação natural para levar de roldão o amor de Deus e o amor do próximo, vindo a ser mais destrutivo do que construtivo.

Infelizmente, são poucos os que sabem dar valor ao sofrimento. Mas, se nos acostumarmos a fugir sempre da dor, vamos perder muitas oportunidades de vencer nosso egoismo e de sublimar as energias da vida para um amor não egoista que verdadeiramente valha a pena. Temos que conservar um equilíbrio adequado em nossa atitude para com o prazer de maneira a podermos entregar-nos de coração a saboreá-lo sempre que parecer a melhor coisa que temos a fazer. Mas, porque tornar-se escravo da busca do prazer é muito fácil, não podemos nos entregar demais a isso. Temos que negar a nós mesmos, de alguma maneira, todos os dias: "Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a vida, vai perdê-la; mas quem perder a vida por amor de mim, esse a salvará" (Lc 9,23-24).

Minha proposta é aprender a contemplar reconhecendo que as raízes do povo crucificado - de todos os tempos e de todas as nações - são raízes da Cruz de Jesus, isto é, a morte e a ressurreição que celebramos porque nos libertam para vida. Viver a Cruz é viver a Eucaristia, o memorial da Cruz. Mas não seremos capazes de viver a Eucaristia se não formos capazes de distinguir a vida da morte nas raízes de nosso povo. Que é morte e que é vida? São duas realidades misturadas e cruzadas, que estamos continuamente celebrando. O povo simples celebra nascimentos e mortes, festivais e funerais. Celebra as estações do ano e também as da vida. Sabe como juntar alegrias e sofrimentos, festas e calamidades. São sempre celebrações em que, conscientes ou não, equilibramo-nos entre a vida e a morte, como se fossem uma única realidade.

Que lugar tem em nossa Eucaristia essa morte que se transforma em vida? Que presença tem, por exemplo, a brutal mortalidade infantil do terceiro mundo? Ou o não-à-vida do mundo que se crê civilizado? Como é que vivemos em nossa própria cruz, doentes no corpo ou na alma, com algum mal que nos devora pouco a pouco, muitas vezes por nossa culpa?

É interessante observarmos que um Deus que morre e ressuscita nunca foi novidade para quase nenhum povo. O exemplo mais conhecido é o de Osiris, no Egito, mas até as tribos indígenas e africanas sabem que o problema é vencer o mal. E as culturas sempre apresentaram o mal sob formas muito variadas, que poderíamos resumir numa só figura: o dragão. Um heroi tinha que degolar o dragão. Mas os dragões refaziam suas cabeças degoladas ou reapareciam vivos, nem que fosse depois de mil anos.

Esse é o valor original da Cruz. Jesus Cristo também encontrou o dragão da maldade. Mas não o degolou. Deixou que ele o matasse. E venceu a morte, o dragão e a maldade. Para sempre. Os mártires e os santos sempre entenderam isso. Neste mundo há milhões de homens e de mulheres suficientemente simples e ilógicos para entender isso. Francisco até se transformou num crucificado, com chagas e tudo.

CONCLUSÃO

Ser cristão é ser dilacerado entre contradições. É preciso ter consciência disso e assumí-lo com generosidade, sem negativismo, porque a Cruz é vida.

O cristão é luz que as trevas não aceitam, é amor que não é amado, é bandeira de paz em um mundo de guerra.

Mas também traz a contradição dentro de si mesmo. Fala de uma fraternidade que ainda não conseguiu viver, quer uma santidade que não possui, anuncia a boa nova e não deixa de contribuir para manter um mundo iníquo. Ostenta a cruz e a torna ridícula. Mas tem que vivê-la.

PRÁTICAS

Tente identificar os principais conflitos da vida que você está vivendo. Procure representá-los nos braços atravessados de uma cruz. Veja que vida pode tirar disso.

Tente fazer uma lista das cruzes que são vividas pelos grupos humanos a que você pertence. Veja quanto você já as assumiu. Quanto pode assumir ainda.

Quais são as cruzes da vida ao seu redor que você levou mais vezes para confrontar com o Cristo que você encontra na Eucaristia. Quais têm sido os resultados desses encontros?

ORAÇÃO

Hoje eu quero vos agradecer, Senhor, pelo Cristo que nasceu em Belém. Pobre e despojado, como os humanos não gostam de ser, ele já nos estava ensinando a assumir a nossa cruz: a luta de querermos possuir e de ser vazios.

Quero agradecer por toda a nossa situação de conflito que ele assumiu em toda a sua vida, desde a escolha de um fim de mundo a da família de um operário para nascer. Quero agradecer todos aqueles nossos acontecimentos quotidianos que ele usou para nos mostrar que o Reino de Deus estava nas nossas mãos, dentro de nós, e nós o procurávamos lá fora.

Quero agradecer porque ele assumiu ser sinal de contradição. Porque foi amigo a ponto de dar a própria vida.

Eu estou muito feliz porque, graças à cruz do vosso Cristo, eu posso viver em plenitude.

Mas eu hoje também venho pedir coragem. Não tenho mais cara para olhar o Cristo da cruz e continuar cuidando só de mim mesmo. Já não consigo aceitar mais que o Cristo entrou tão profundamente dentro de mim para me dar vida e eu tenho me dado tão pouco para que todos tenham vida.

Iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé simples e direta, uma esperança segura para que eu cumpra a vossa vontade, que é verdadeira e santa. Amém.

NOTAS

1 I Fioretti, Primeira Consideração. Vozes pp. 1196-1197. Legenda Maior X, 4. Vozes p. 534.

2 I Fioretti, Terceira Consideração. Vozes p. 1210.

3 Ibidem, Vozes p. 1210.

4 Segunda Celano 6,10. Vozes p. 294.