6. A Pobreza nos "Fioretti"
1. INTRODUÇÃO
O chamado de Deus para que Francisco e Clara reconstruíssem a sua casa foi acolhido pelos franciscanos e franciscanas através dos séculos.
Mas, é claro que as circunstâncias mudam com os tempos e, no século XXI, seguindo os mesmos princípios, vamos enfrentar situações muito diferentes das do século XIII. Para ajudar a perceber essas diferenças, vamos estudar, neste capítulo e no seguinte, dois exemplos antigos de como os franciscanos se adaptaram aos tempos.
Começamos fazendo uma leitura comentada do interessante Capítulo 13 do livro "As Florinhas de São Francisco", ou, como muitos preferem, os "Fioretti".
Recordamos que se trata de um livro escrito entre os anos 1331 e 1337, por Frei Hugolino de Montegiorgio, também chamado Frei Hugolino de Santa Maria. Originalmente, era um livro em latim, com o nome de "Actus beati Francisci et sociorum eius", que poderíamos traduzir por "Feitos de São Francisco e de seus companheiros".
Mas o livro ficou conhecido no mundo inteiro não em sua versão original latina e sim em uma preciosa tradução italiana, muito livre, feita ainda na Idade Média. Foi essa tradução italiana que recebeu o nome de "Fioretti". Na linguagem da época, "flores", ou "florinhas" era uma maneira poética de se referir a fatos soltos, como flores colhidas aqui e ali em um campo, sem formar uma biografia ordenada. Foi uma boa tradução para a palavra "Actus", do original.
A tradução brasileira, feita pelo poeta Durval de Morais, também é considerada quase clássica.
Seria interessante ler primeiro o texto todo, ou diretamente nas Fontes, ou juntando em seqüência tudo que, neste capítulo, está em letras menores. Numa segunda leitura, é bom incluir os nossos comentários.
2. OS FIORETTI
Para uma boa compreensão do texto que apresentamos, é bom lembrar que foi escrito bem na época em que os franciscanos, movidos pelo pensamento dos "espirituais", e o papa João XXII estavam em aberta controvérsia. Um Capítulo Geral da Ordem, realizado em Perusa, em 1322, tinha declarado que Jesus e os Apóstolos nem tinham direito de propriedade. Praticamente, condenavam a atitude do papa. João XXII condenou a tese dos franciscanos e chegou a excomungar o Ministro Geral, Miguel de Cesena.
Os franciscanos, que já tinham sido aprovados tantas vezes por Roma, e até pelo mesmo Papa João XXII, acharam que o pontifíce estava perdendo a legitimidade. Este capítulo dos "Fioretti" reflete bem o problema que estava sendo vivido agudamente no seu tempo.
3. O TÍTULO DO CAPÍTULO
Nos Fioretti, todos os títulos são longos e resumem o assunto do capítulo:
Como São Francisco e Frei Masseo puseram sobre uma pedra junto a uma fonte o pão que haviam mendigado, e São Francisco muito louvou a pobreza. Depois rogou a Deus e a São Pedro e a São Paulo que lhes dessem o amor da santa pobreza; e como lhes apareceram São Pedro e São Paulo.
3. A CONFORMIDADE COM JESUS
O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, monsior São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo o que diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir; depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois. E, para lhes dar o exemplo de verdadeira obediência, começou ele primeiramente a ir a exemplo de Cristo, o qual começou primeiramente a fazer do que a ensinar. Pelo que, tendo designado aos companheiros as outras partes do mundo, ele, tomando Frei Masseo por seu companheiro, seguiu para a província da França.
Chamo a atenção para as palavras: "para se conformar perfeitamente com Cristo". Revela um modo de ver que perpassa todas as biografias antigas do Santo: que ele teria sido uma verdadeira cópia de Jesus, teria vivido em perfeita "conformidade" com o modelo histórico que foi Jesus Cristo. Essa maneira de ver começou, provavelmente, quando as pessoas descobriram que o cadáver de Francisco tinha as chagas. Chegou ao ponto de afirmar que Francisco nasceu, como Jesus, em uma estrebaria.
Chamo a atenção para o "exemplo de verdadeira obediência". Na época, era comum exaltar a "obediência cega", que, afinal, é uma obediência material e simplesmente exterior. São Francisco, de fato, ensinou-nos a ser obedientes como Jesus, que "veio para cumprir a vontade do Pai", isto é, para realizar a nossa salvação, obra em que nunca podemos ser cegos. Francisco se fez pobre para seguir Jesus, que obedecia ao Pai.
É uma visão devota, mas, o próprio Francisco sempre fala apenas de "seguir os passos de Jesus", ou de "imitar Jesus". Podemos falar em "conformidade" se a entendermos sempre como um esforço de Francisco para viver como Jesus ensinou.
Observamos que a narrativa não tem nenhuma preocupação de ser histórica no sentido atual do termo. Na primeira vez que enviou seus discípulos, Francisco somava oito com eles e Frei Masseo ainda não tinha entrado na Ordem. Há, aqui uma preocupação de comparar Francisco com Jesus e os doze apóstolos.
4. A MENDICÂNCIA
E, chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte e Frei Masseo por outra. Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco. Mas a Frei Masseo, pelo fato de ser um homem alto e cheio de corpo, deram muitos e bons pedaços grandes e pães inteiros.
Observe-se que Regra diz que podem pedir esmolas quando não lhes for dado nada pelo trabalho. Nesse tempo, um século depois de São Francisco, a narrativa se ressente da luta dos franciscanos e de outros "mendicantes" pelo direito de pedir esmolas, que lhes era contestado por muitos na Igreja.
Quanto ao fato de darem mais esmolas a Frei Masseo, que era forte, e menos a São Francisco, que era frágil, a narrativa não se importa muito com a natureza dos fatos: quer apenas estabelecer pontos de oposição entre São Francisco e seu companheiro. Vai usar sempre esse expediente para ressaltar seu ensinamento.
5. A ÁGUA E A PEDRA
Acabada a mendigação, reuniram-se fora da cidade para comer em um lugar onde havia uma bela fonte e junto uma bela pedra larga, sobre a qual cada um colocou as esmolas recebidas. E vendo São Francisco que os pedaços de Frei Masseo eram em maior número e mais belos e maiores que os dele, mostrou grande alegria e disse assim: "Ó Frei Masseo, não somos dignos deste grande tesouro". E, repetindo estas palavras várias vezes, respondeu-lhe Frei Masseo: "Pai, como pode chamar tesouro, onde há tanta pobreza e falta de coisas que necessitamos? Aqui não há toalha, nem faca, nem garfo, nem prato, nem casa, nem mesa, nem criada, nem criado". Então disse São Francisco: "Isto é o que considero grande tesouro, porque não há coisa nenhuma feita pela indústria humana; mas o que aqui existe é feito pela Providência divina, como se vê manifestamente pelo pão mendigado, pela mesa de pedra tão bela e pela fonte tão clara: por isso quero que peçamos a Deus que o tesouro da santa pobreza tão nobre, o qual tem Deus para servir, seja amado de todo coração".
A água é um símbolo amplamente usado para o infinito, que é Deus. Lembra Jesus Cristo, fonte da vida, lembra a água que brota de dentro de quem tem fé, como afirmou Jesus à samaritana. A pedra pode ser tanto símbolo de Jesus, a pedra angular que foi rejeitada, como de Pedro, a rocha sobre a qual foi construída a Igreja. Também podemos lembrar que Pedro, o chefe da Igreja, foi pescador.
Francisco, contemplativo, vê tudo isso como um tesouro, mas explica algumas das suas razões, logo em seguida.
Toalhas, talheres, criados, era o que havia na casa dos ricos, como os papas e os bispos desse tempo.
A "indústria humana" pode recordar o "espírito da carne", oposto ao "espírito do Senhor", providência divina.
A observação de que o próprio Deus serve o tesouro da pobreza pode lembrar a passagem evangélica em que o patrão se cinge e serve o empregado que encontrou vigilante quando voltou para casa de noite. São Boaventura, em sua carta às clarissas, também diz que, no céu, Deus vai servir-lhes "o peixe assado na cruz".
6. O ESPÍRITO SANTO
E ditas estas palavras e rezada a oração e tomada a refeição corporal com aqueles pedaços de pão e aquela água, levantaram-se para ir à França, e, encontrando uma igreja, disse S. Francisco ao companheiro: "Entremos nesta igreja para orar". E S. Francisco se pôs em oração atrás do altar: e nesta oração recebeu da divina visita tão excessivo fervor, que inflamou tão fortemente sua alma no amor da santa pobreza que, pela cor da face como pela boca excessivamente aberta, parecia lançar chamas de amor. E vindo assim como abrasado ao companheiro, disse-lhe: "A. A. A., Frei Masseo, entrega-te a mim". Assim disse três vezes; e na terceira vez S. Francisco com o hálito levantou Frei Masseo no ar, e o lançou diante de si à distância de uma comprida lança; de que Frei Masseo teve grandíssimo espanto, e depois contou aos companheiros que naquela impulsão e suspensão, que lhe deu São Francisco com o hálito, sentiu tal doçura da alma e consolação do Espírito Santo como nunca em sua vida sentira tanta.
A igreja "na beira do caminho" pode lembrar a igreja itinerante do pensamento de Francisco. No seu Salmo XV ele também diz que Jesus nasceu "à beira do caminho". Observe-se que a igreja não tinha padre nem missa.
Neste trecho, o mais importante é a intervenção do Espírito Santo, ponto central de toda esta narrativa sobre a pobreza. Observe-se que Francisco ficou abrasado como um serafim e que Frei Masseo, que tinha recebido mais pão, ganhou menos Espírito Santo.
7. O TESOURO DA POBREZA
E feito isto disse São Francisco: "Companheiro caríssimo, vamos a São Pedro e São Paulo, e roguemos-lhes que nos ensinem e nos ajudem a possuir o desmesurado tesouro da santíssima pobreza; porque ela é tesouro tão digníssimo e tão divino que não somos dignos de possuí-lo em nossos vilíssimos vasos; atendendo a que ela é a virtude celeste, pela qual todas as coisas terrenas e transitórias são calcadas aos pés e pela qual todo obstáculo se afasta diante da alma, a fim de que ela se possa livremente unir com o Deus eterno. É ela esta virtude, a qual faz a alma presa à terra conversar no céu com os anjos. Esta é aquela que acompanhou Cristo na cruz; com Cristo foi sepultada, com Cristo ressuscitou, com Cristo subiu ao céu, e a qual, e ainda nesta vida, concede às almas, que dela se enamoram, agilidade para voar ao céu; para o que ela ainda guarda as armas da verdadeira humildade e da caridade.
Francisco e Masseo estavam viajando para a França, onde, no tempo em que foram escritos os Fioretti, estava o papa, então João XXII. Mas o Espírito Santo manda-os para Roma, onde estão de verdade os chefes de uma Igreja que não muda, São Pedro e São Paulo.
Observe-se que a pobreza é considerada um tesouro "desmesurado" porque é uma qualidade de Deus. Só se é pobre de verdade por um dom de Deus.
Cristo é o verdadeiro pobre. Não se trata de pobreza econômica ou social, na visão do autor dos Fioretti, mas da pobreza de quem não se arvora em "ser como Deus".
É interessante que o texto lembre, como Francisco e Clara, que a verdadeira pobreza está sempre ligada à humildade e à caridade. Mas a prática dos frades em luta com João XXII parece ter esquecido essa verdade.
8. SÃO PEDRO E SÃO PAULO
E por isso roguemos aos santíssimos apóstolos de Cristo, os quais foram perfeitos amadores desta pérola evangélica, que nos mendiguem esta graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que pela sua santíssima misericórdia nos conceda o merecimento de sermos verdadeiros amadores, observadores e humildes discípulos da preciosíssima, amantíssima e evangélica pobreza". E com este falar chegaram a Roma e entra-ram na igreja de São Pedro; e São Francisco se pôs a orar em um canto da igreja, e Frei Masseo em outro; e conservando-se muito tempo em oração com muitas lágrimas e devoção, apareceram a São Francisco os santíssimos apóstolos Pedro e Paulo com grande esplendor e disseram: "Pois que pedes e desejas observar aquilo que Cristo e os santos apóstolos observaram, nosso Senhor Jesus Cristo nos envia a ti para anunciar-te que tua oração foi escutada e te foi concedido por Deus, a ti e aos teus seguidores, perfeitissimamente o tesouro da santa pobreza. E ainda de sua parte te dizemos que a todo aquele que a teu exemplo seguir perfeitamente este desejo está assegurada a beatitude eterna; e tu e todos os teus discípulos sereis por Deus abençoados".
Os apóstolos são exemplo de pobreza porque deixaram tudo para seguir Jesus. Este trecho, embora de maneira disfarçada e jeitosa, parece querer mostrar a oposição entre Roma e Lião, entre uma verdadeira Igreja, que está na terra de Pedro e Paulo e é pobre, e uma Igreja falsa que se estabeleceu na França e é rica.
Observe-se que, mais uma vez, São Francisco pede a pobreza como um dom. Só Deus pode concedê-la. E ele recebe a bênção, com os seus discípulos, que eram os "mendicantes".
9. VOLTA PARA CASA
E, ditas estas palavras, desapareceram, deixando São Francisco cheio de consolação. O qual se levantou da oração e voltou ao companheiro e perguntou-lhe se Deus lhe havia revelado alguma coisa; e ele respondeu que não. Então São Francisco lhe disse como os santos apóstolos lhe haviam aparecido, e o que tinham revelado. Do que, cada um cheio de letícia, determinaram volver ao vale de Espoleto, deixando de ir à França. Em louvor de Cristo. Amém.
Para quem tivesse a capacidade de entender, no seu tempo, os Fioretti estão dizendo que a verdade não estava com o Papa da França mas com a Igreja que tinha aprovado a Ordem franciscana e sua pobreza, em Roma.
10. ALGUMAS CONCLUSÕES
Não podemos nem devemos escapar às condições específicas do nosso tempo.
A pobreza exigia, naquele tempo, alguns pontos que não exige hoje. Hoje exige outros pontos com os quais nem se sonhava naquele tempo.
Os poderosos eram outros, contando muitos dos chefes da própria Igreja..
Naquele tempo, não consideraram os pobres por necessidade, só os que se fizeram pobres por opção. Hoje é mais gritante a situação dos miseráveis.
Apelar para a pobreza dos apóstolos pode ser por causa das Cruzadas e por causa do texto evangélico do envio, que São Francisco escutou na Porciúncula.
A perspectiva da "conformidade". Admiravam muito São Francisco e o usavam para defender suas posições, mas não aprenderam a humildade e a caridade de Jesus, em que Francisco e Clara tinham insistido tanto.
Só São Francisco ouviu os Apóstolos. Ele era um privilegiado. Sua santidade não é para nós. Parece ser essa a mentalidade do tempo.
Escreveram de maneira velada e cifrada para não serem castigados. Ou teria sido por delicadeza?
As questões de Pobreza parecem ter unido toda a Ordem diante de João XXII
11. PROPOSTAS PRÁTICAS
1.
Seguir Francisco e Clara, hoje, também pressupõe uma verdadeira luta para pedir e para não perder o dom da pobreza.2.
Para não nos deixarmos levar pelo consumismo, é importante valorizar tudo que já está ao nosso uso, sem desperdícios. Para isso, é preciso saber agradecer a Deus pelo que Ele tem posto à nossa disposição, por limitado que pareça.3.
É fundamental recordar com freqüência que estamos sendo servidos pelo próprio Senhor, que se fez nosso servo. Nossa inteligência e nossa fé são apenas alguns dos pedaços de pão que Ele colocou em cima de nossa pedra. Tantas boas oportunidades são a água límpida que não cessa de correr junto de nós, mesmo nos tempos mais difíceis.4.
Se pedirmos e nos abrirmos ao Espírito do Senhor, é claro que teremos a força de um sopro capaz de lançar para trás todas as seduções para nos acomodarmos a um mundo de "riquezas" que sabemos quanto são perecíveis.5.
Mesmo em nosso dias, ainda que recorramos aos recursos mais modernos, é preciso lembrar que nossa eficácia apostólica não está neles mas em nossa capacidade de deixar tudo para seguir o Cristo Pobre.