7. A Pobreza no "Sacrum Commercium"

1. INTRODUÇÃO

Um dos melhores documentos que comprovam como os franciscanos posteriores a São Francisco lutaram para viver a pobreza é o Sacrum Commercium beati Francisci cum Domina Paupertate, que podemos traduzir como: "A aliança sagrada entre São Francisco e a Senhora Pobreza".

Ainda que alguns manuscritos o tenham atribuído ao ano de 1227, logo depois da morte do santo, e também já tenha havido quem apontasse como seu autor os gerais da Ordem Crescêncio de Iesi e João de Parma, ou mesmo Santo Antônio de Lisboa, os estudiosos em geral concordam que não é possível determinar, hoje, quem o escreveu, e que é certamente uma obra feita entre os anos 1260 e 1280, mais provavelmente no fim desse período.

É um trabalho bonito e até fascinante, rico de linguagem simbólica e de alusões bíblicas. Podemos vê-lo como uma alegoria que quase forma um daqueles antigos "autos" representados na Idade Média, onde se destacam tanto a Pobreza como a cortesia.

Alguns bons autores vêem no Sacrum Commercium um tratado de eclesiologia. Há alguns pontos que nos levariam a isso, como a apresentação da Pobreza como Esposa de Deus e algumas de suas vicissitudes históricas, como a paz de Constantino. Preferimos a opinião dos que vêem no tratado uma forte defesa de que é impossível uma verdadeira experiência religiosa sem a pobreza. Além de faltarem alguns elementos importantes para uma verdadeira "ekklesía", isto é, para a convocação de um Povo, seria muito estranho ter que concluir que os patriarcas não pertenceram ao Povo de Deus e que os franciscanos foram uma seita de iluminados que se achavam a única Igreja verdadeira. Essa foi a opinião de alguns dos "espirituais", mas não podemos vê-la com evidência no Sacrum Commer-cium.

Francisco e os frades menores são apresentados como os que, na época, estavam fazendo a melhor aliança com a Pobreza e, por isso mesmo, abrindo uma experiência religiosa nova e muito mais livre.

O Sacrum Commercium teve uma visível influência em duas obras interessantes do século seguinte: no "Arbor vitae crucifixae Jesu" de Hubertino de Casale, e no Canto XI do Paraíso da Divina Comédia de Dante Alighieri.

2. UMA VISÃO HISTÓRICA

Um dos pontos altos do Sacrum Com-mercium é a revisão histórica que faz de toda a experiência de Deus na humanidade. Apresentada como a Esposa de Deus, a Pobreza já estava unida a Adão antes do pecado. Não tendo nada de próprio, Adão era todo de Deus. Seu pecado consistiu em apropriar-se, e a conseqüência foi o exílio da Pobreza.

Os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó estiveram longe dela. Só com Jesus Cristo ela voltou a restabelecer uma aliança com os homens. Depois, teve bons seguidores nos apóstolos e nos primeiros cristãos.

Veio a sofrer um grande golpe com a paz de Constantino, no começo do sec. IV, quando os religiosos começaram a Ter posses. Só não foi banida de uma vez porque foi ajudada por sua irmã, a Perseguição, que forçou muitos cristãos a viverem Deus na Pobreza.

Depois teve excelentes seguidores nos antigos religiosos, os monges, mas, mes-mo entre eles, começou a haver proble-mas quando surgiram os ataques de sua grande inimiga, a Avareza.

Para conseguir vencer muitos religiosos, a Avareza tratou de disfarçar-se como Discrição e Prudência. No fim por incrível que pareça, aliou-se até à Acédia, ou moleza espiritual, para expulsar finalmente a Pobreza para o alto de uma montanha inacessível.

Evidentemente, toda essa história é contada para mostrar como, nos últimos tempos, a Pobreza consegue fazer uma excelente aliança com São Francisco e seus seguidores.

Nós vamos aprofundar alguns pontos dessa história nos parágrafos seguintes.

3. VALORES DA POBREZA

Jesus proclamou que o reino de Deus é dos pobres em espírito. A Pobreza sobressai entre todas as virtudes que preparam um lugar e uma morada para Deus. Ela é o fundamento e a guardiã de todas as virtudes, a rocha sobre a qual todas se fundamentam.

Quem não se preocupa com as coisas terrenas, já vive do céu. Saboreia até as migalhas que caem da mesa dos santos anjos. Experimenta "Quão doce e suave é o Senhor" (1Pd 2,3; Sl 33,9).

O principal valor da pobreza é a liberdade. Francisco pôde começar uma nova vida religiosa libertada do sistema feudal. Sem claustros, sem fronteiras. Como disse São Paulo a Timóteo: "Nada trouxemos a este mundo como tampouco dele nada podemos levar; tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso" (1Tm 6, 7-8).

Assim, recorda o Sacrum Commercium, "Irmão, pensar nela é sabedoria consumada; e quem vela por causa dela em breve não terá mais cuidado" (SC 11). Por que "o plano divino de salvação com a Pobreza é extraordinário" (SC 13).

Foi ela que preparou um trono para Deus: a Virgem paupérrima. Por isso, Deus deixou o céu e veio procurá-la aqui na terra. Em compensação, ela ficou com Ele, mesmo quando todos os eleitos a abandonaram. Por isso, a Pobreza tem as chaves do Reino dos céus.

4. DIFICULDADES DA POBREZA

As principais dificuldades da Pobreza são as levantadas por um sistema estabelecido de enriquecimento dos poderosos. Um sistema que impede qualquer mudança, qualquer democratização, qualquer promoção dos mais miseráveis.

Sem a pobreza, o homem foi despojado da bondade da natureza depois de ter perdido a semelhança com o Criador. Por isso ficou vestido com peles de animais, isto é, com trajes mortais.

A Pobreza queixou-se:

"Daí em diante, andei como errante e fugitiva sobre a terra, chorando e lamentando muito. Desde aquele tempo não encontrei lugar onde pudesse descansar meus pés, enquanto Abraão, Isaac e Jacó e os demais recebiam, em promessa, riquezas e uma terra onde corre leite e mel. Em todos eles procurei um lugar de repouso e não encontrei".

A inimiga da Pobreza é a Avareza, ou o "desejo imoderado de ganhar ou conservar riquezas". Os falsos pobres deram-lhe "um nome mais decente", chamando-a de Sabedoria ou de Providência.

Foi a Avareza, disfarçada como Sabedoria ou Previdência que inventou as desculpas dadas por tantos maus religiosos:

É bom ser amigo dos reis e príncipes, ter familiaridade com os grandes, porque assim muitos vão ver e vão se converter para Deus.

É de boa vontade que os fiéis oferecem seus bens pela remissão dos pecados, e veneram cada vez mais os homens da Igreja.

Qual o mal de ter o necessário para a vida quando a gente se abstém do supérfluo? Dá para cuidar com maior sossego da própria santificação e da dos outros.

Qual é o mal de dedicar-se às obras de misericórdia, socorrendo os necessitados e dando alguma coisa para os pobres?

Deus não pára de aumentar o número dos religiosos. É preciso ter com que sustentá-los.

Se Jesus disse que é melhor dar do que receber, será que ele não vai gostar que a gente tenha com que ajudar os pobres?

Por que não aceitar esses bens se as pessoas vão ganhando o Reino dos Céus quando os dão?

A maldade não está nas coisas mas no coração. Quem tem riquezas mas não está apegado não precisa ter medo.

Muitos ricos usam mal os seus bens. Nas mãos dos religiosos eles podem ser melhor usados.

De fato, poderíamos pensar em quantos males já foram feitos pelas pessoas que, em nome de Deus, ostentaram ou manobraram riquezas, inclusive para oprimir as outras culturas, até com a desculpa de difundir o Reino de Deus.

Não deixa de ser interessante observar como os que se afastaram da pobreza evangélica estão justificando suas ações com as mesmas desculpas que já eram usadas há mais de oitocentos anos.

5. ALIANÇA COM FRANCISCO

Francisco inventou uma vida religiosa que, por ser pobre, era extremamente móvel. Bem adequada ao que se precisava no seu tempo, quando toda a sociedade estava se movendo.

Um dos valores principais dos franciscanos foi ter criado uma vida religiosa nova, sem claustros, sem refeitórios e sem salas de capítulos. Mas o grupo foi sendo forçado a assumir as formas de um sistema religioso mais conformado aos moldes antigos.

Os monges tinham apoiado o sistema feudal e eram apoiados por ele. Por isso, perderam muito de sua força verdadeiramente religiosa. O que salvou foram algumas grandes reformas, como as dos cistercienses, trapistas, etc.

A questão é como ter essa liberdade de acordo com as necessidades da Igreja do tempo e, ao mesmo tempo, ter fundamentos sólidos, que ajudem a manter as posições mesmo quando o sistema começa a reagir.

No Sacrum Commercium, a Pobreza deixa evidente que o seu problema era com os religiosos e não com toda a Igreja, pois diz que "no mundo, eles tinham sido bastante pobres" (SC 50). E conclui que "Na terra, permaneço com aqueles que para mim representam uma imagem daquele com quem estou desposada no céu" (SC 64).

Ela recorda que o povo os chamava de santos (SC 42) e pedem que se lembrem de sua "vocação".

Parece evidente o caráter polêmico do escrito, justamente no tempo em que muitas figuras importantes do clero e das universidades estavam questionando os religiosos "mendicantes" de vida nova. É interessante que, diante da oposição exterior, as lutas internas da Ordem tenham ficado bastante esquecidas.

6. OS EXCLUÍDOS

O "Sacrum Commercium" exclui de sua consideração, logo de início, os pobres por nascimento ou por desgraça. Para eles, falar em pobreza é usar uma língua estranha, porque estão precisando é sair da miséria.

A proposta é feita para os que buscam a perfeição evangélica e que, assim, têm o que vender e dar para os "pobres" antes de seguir Jesus. De fato, essa era a tônica presente nos "movimentos pauperísticos" medievais.

A Igreja de hoje conhece melhor os milhões de empobrecidos de todos os continentes e, pelo menos em alguns lugares, aprendeu a ouvi-los. Além de recordar que Jesus veio trazer a sua Boa Nova justamente para as vítimas da injustiça, sabemos que deles pode surgir uma nova força de evangelização. Aliás, muitos sempre foram evangelizadores.

Acredito que, antes de qualquer coisa, é preciso contar entre esses pobres não só os que não têm dinheiro mas todos os que foram excluídos ou tidos como inferiores em razão de sua raça, sexo, credo, cultura, doença, ou qualquer outra desculpa que tenhamos inventado para dividirmos os filhos de Deus.

7. POBREZA É LIBERDADE

O ponto alto da "aliança de São Francisco com a Senhora Pobreza" é que ela pôde se unir aos franciscanos porque eles não tinham nem casa: seu "claustro" era o mundo.

Mesmo erguidas em nome de Deus e com as melhores intenções, são as instituições e as estruturas pesadas que mais podem impedir nossa aventura com Deus. Tiram-nos a mobilidade que foi vivida pelos apóstolos e pelos primeiros franciscanos. Podem tornar-se equivalentes às práticas que impediam os fariseus de entrarem no Reino de Deus.

Mas não temos, na maior parte dos casos, que questionar as instituições e as estruturas. Temos que questionar nossa capacidade de nos libertar delas.

No século XIII, os franciscanos e alguns outros grupos foram um ar novo que renovou a vida do povo de Deus por estarem disponíveis para a mobilidade que começava a caracterizar um tempo diferente na história da humanidade.

No novo milênio, que estamos iniciando, quem estará livre para entender e corresponder aos novos anseios de um mundo altamente móvel, ainda que em outros campos?

Que tipo de homens e de mulheres vai conseguir falar do deus pobre para o mundo da velocidade supersônica, das comunicações imediatas pela internet, da globalização... em que as pessoas mudam de religião como, antes, se mudava de roupa?

8. UMA NOVA ALIANÇA

Quais seriam os elementos para uma nova aliança com a Pobreza, esposa de Jesus, no começo do século XXI?

Em primeiro lugar, observamos que não deve ser apenas uma aliança dos franciscanos e franciscanas, mas de todos os cristãos. Dos franciscanos e franciscanas só se espera que se sintam até mais desafiados do que os outros.

Uma aliança atual com a Senhora Pobreza precisa assumir um compromisso sério de austeridade, em que vamos deixar de ser consumistas e ajudar todos os outros a se livrarem da onda consumista.

Precisa assumir também a defesa contra todas as massificações promovidas tanto pelas ideologias quanto pelos poderes econômicos e pelos meios de comunicação social.

Precisa batalhar para que nem pessoas, nem grupos, nem países sejam excluídos de maneira alguma.

Precisa ajudar a construir comunidades vivas, com bases doutrinais sólidas, para que possam resistir a todas as investidas dos massificadores.

Precisa mostrar que é possível viver e crescer mesmo sem endeusar o dinheiro. Porque nossos maiores valores não são os que acumulamos mas os que transbordamos quando descobrimos o tesouro que temos lá dentro por sermos imagem e semelhança de quem soube inventar o Universo.

Precisa ensinar a dar as mãos a todos os filhos do Pai Eterno, que cuida de sua família principalmente através dos que confiam nele de verdade.

Acima de tudo, é importante não esquecer que toda aliança com a pobreza é uma aliança com Deus e, portanto, não é iniciativa nossa e sim uma resposta ao Deus das alianças.

Foi Deus quem estabeleceu a aliança fundamental com a humanidade em Adão e Eva, quem a restabeleceu com Moisés e com seu povo, para levá-la à plenitude em Jesus Cristo, o Rei Pobre.

Ele sempre procurou refaze-la através dos profetas, até que a firmou de uma vez com o profeta máximo, Jesus Cristo.

Agora é uma aliança selada com o seu sangue e garantida pela sua ressurreição.

Como foi por cada um de nós que ele morreu e ressuscitou, deve ser mais fácil, agora, saber que a aliança também é com o mistério inesgotável de cada um.

9. PROPOSTAS PRÁTICAS

1. Temos que fazer uma nova aliança com a Pobreza de Jesus Cristo. Possivelmente de toda a família franciscana, ou da congregação, pelo menos da província. Ou de nossa fraternidade. Em último caso, qual o meu pacto pessoal com a pobreza para transformar toda a minha vida em Cristo?

2. Que alternativa válida mas aceitável nós teríamos para apresentar a nossas famílias, grupos, paróquias, antes de pensar em toda a Igreja?

3. Que é que eu posso fazer para aliviar a desigualdade social, além de pôr a culpa no governo ou nos gananciosos? Quem não tem propostas concretas é que fica no campo das teorias, pensando que faz alguma cosia porque acusa alguns culpados.

4. Precisamos estar alertados para o perigo de sermos inocentes "inúteis" nas mãos dos marqueteiros das ideologias. Temos necessidade de uma reflexão séria. De uma leitura franciscana da conjuntura socio-ecônomica e política.

5. Política é bem comum. Não é trabalho para que este ou aquele grupo ganhe eleições. Há franciscanos pensando com todos os setores do espectro político. Se considerarmos bem, todos esses setores são econômicos, e não franciscanos.

6. Hoje em dia, se pensa quase tudo a partir da economia. O "homo eoconomicus" é o homem que possui. Como pensar em um homem que não possui, nem quer possuir e pode propor que outros também não possuam?

7. Se eu fosse santa Clara hoje, e um Gregório IX viesse dizer que eu precisava de propriedades, o que eu faria? O que falta para nós sermos uma nova Clara? Quem seria o Gregório IX de hoje?