Frei José Carlos Corrêa Pedroso

PROJETO FRANCISCANO DE VIDA

Centro Franciscano de Espiritualidade

Av. Independência, 776

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PIRACICABA - SP

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parte primeira

PROJETO DE VIDA?

Há um momento da vida em que começamos a perguntar: O que eu vou ser?

É assim que começa um projeto de vida: se queremos vir a ser uma coisa que ainda não somos, estamos dispostos a enfrentar uma transformação. E toda transformação vai pedir tempo e dedicação.

Todo projeto é dinâmico: a gente tem que saber como é que se faz e tem que planejar como é que vai distribuir a atuação através do tempo.

As pessoas costumam fazer projetos para quase tudo que pretendem realizar, inclusive construir uma casa ou tirar férias. Quando a pergunta não é: O que eu quero fazer? mas: O que eu quero ser? a gente também fala em vocação.

Nesse caso a gente acredita que Deus ou o nosso ser interior estão nos chamando para realizar uma missão.

Foi pensando nisso que Clara de Assis escreveu no seu Testamento:

Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita mais a Ele é devida... O Filho de Deus se fez para nós o caminho, que nosso bem-aventurado Pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo.

Ela expressou o projeto de vida nessa forma de caminho e disse que o Caminho era Jesus Cristo. Francisco de Assis também dizia que o seu caminho era seguir os passos de Jesus Crucificado e Pobre.

De fato, Jesus já abriu os tempos definitivos: o cristão é alguém que está sempre construindo o futuro hoje. Ser cristão é estar no caminho final.

Os santos antigos muitas vezes falaram em seguir um caminho. Em nosso tempo, o psicólogo Carl G. Jung falou em um "Processo de Individuação", isto é, um caminho para a pessoa realizar o indivíduo único que só ela pode ser.

Foi por isso que São Boaventura escreveu um "Itinerário da mente a Deus".

Neste caderno, nós estamos falando em um projeto franciscano de vida. Pensamos em todas as pessoas que um dia disseram: Eu quero ser um franciscano, uma franciscana.

Procuramos apresentar, de maneira concreta e simples, os principais pontos da proposta franciscana. Assim os jovens que estão começando podem ver se o seu projeto combina com o de Francisco e Clara de Assis. Também os que já iniciaram a caminhada podem fazer uma revisão do que já conseguiram até agora. E mesmo os já adiantados poderão ver que sempre há novas perspectivas.

No final do Testamento, Clara disse:

E como é estreito o caminho e apertada a porta por onde se vai e se entra na vida, são poucos os que por aí passam e entram. E se há alguns que nele andam por um tempo, são pouquíssimos os que nele perseveram. Mas felizes são aqueles a quem for dado andar por ele e perseverar até o fim .

Tomemos cuidado, portanto, para que, se entramos pelo caminho do Senhor, de maneira alguma nos afastemos dele em algum tempo por nossa culpa e ignorância, para não ofendermos a tão grande Senhor, a sua Virgem Mãe, o nosso bem-aventurado pai Francisco, à Igreja triunfante e mesmo à militante.

Para Clara, viver sem projeto é uma ofensa a Deus e a todo o seu Povo.

Se você quiser manter o seu projeto franciscano de vida, faça o seguinte:

1. Ponha por escrito os seus sonhos de vida: materiais, espirituais, culturais, profissionais... tudo que você lembrar.

2. Reveja tudo isso à luz dos ideais de Francisco e Clara, que são principalmente seguir o caminho de Jesus Cristo, chegar à união com Deus, viver como irmãos com todas as criaturas... afinal, todos os grandes pontos que estão neste caderno.

3. Estabeleça objetivos concretos para você, nas circunstâncias em que você vive, com os recursos que você tem.

4. Marque algumas metas a curto prazo: o que é que você pretende fazer ainda neste ano...ou até neste mês.

5. Partilhe tudo isso com algum bom amigo ou boa amiga dispostos a ouvir com seriedade e espírito de colaboração.

6. Reveja todos os anos (ou mesmo com mais freqüência) todos esses seus planos. Peça a ajuda de seu amigo, amiga ou de outra pessoa que possa fazer isso.

7. Reze sempre tudo isso diante de Deus. Peça a iluminação dele. Agradeça por cada passo dado. Reconheça diante dele cada falha que acontecer. Pergunte a Ele como poderia aprofundar o seu projeto... e escute longamente no silêncio.

No fundo, só uma coisa importa: todos nós temos que ser pessoas plenamente realizadas, isto é, temos que ser um outro Jesus Cristo.

Santa Clara também tem uma proposta muito interessante para o acompanhamento do projeto: que a pessoa contemple todos os dias a si mesma no espelho de vida que é Jesus Cristo.

Olhando no espelho de Clara com os olhos do espírito, vemos exteriormente a imagem de Cristo que nós somos e vemos interiormente a semelhança de Cristo que nós somos. Nosso projeto é realizar plenamente essa imagem e essa semelhança. Quando formos semelhantes a ele, veremos a Deus face a face, diz São João.

Vamos apresentar o Projeto Franciscano de Vida em dez capítulos curtos e claros:

Como Nossa Senhora - O ponto de chegada é a plena comunhão com Deus, com o próximo, com todas as criaturas.

Deus é todo o Bem - Como é que Francisco e Clara viveram o mistério de Deus, e como é que nós podemos viver dele.

E quem sou eu? - Descobrir sempre as grandezas e limitações de ser humano.

Orar como Jesus e com ele - A oração é a expressão da comunhão. Orar com Jesus na comunhão da Trindade.

Fazer a vontade do Pai - A Obediência franciscana é uma tremenda novidade. O Bem, que é Deus, tem que ser difundido.

Sem nada de próprio - Seguir Jesus Cristo pobre é a condição do nosso caminho. Como não se apropriar das pessoas e das coisas.

Deus me deu irmãos - A fraternidade, entre os irmãos e irmãs que Deus nos deu, mas também com todas as pessoas e com todas as criaturas.

Livres para amar - Uma visão muito positiva da castidade: como viver o amor com uma liberdade cada vez maior.

Restaura a minha Igreja - A missão que Jesus deu a Francisco em São Damião continua viva e importante.

Viver como os apóstolos - O movimento franciscano nasceu no dia em que Francisco ouviu Jesus enviando os apóstolos.

1.- Chegar a viver como Nossa Senhora

1. Introdução - Maria é o Paraíso

No Gênesis, o autor sagrado criou um paraíso terrestre imaginando uma situação de "Terra sem males". E explicou que só não estamos vivendo isso porque pecamos mas, se voltarmos à amizade com Deus, podemos esperar uma felicidade sem limites.

No começo do sec. XVI, um santo franciscano da Ordem Terceira, Tomás More, escreveu um livro que ainda é famoso: A Utopia. Ele era primeiro ministro da Inglaterra e, considerando os problemas do país, sonhou uma nação totalmente oposta, encontrada por um navegador nos mares longínquos: foi a sua maneira de estimular os ingleses a pensar na possibilidade de transformar o país. A palavra utopia ficou em nossas línguas, ainda que os pessimistas a entendam como "um sonho impossível". É justamente o contrário: se sonharmos o possível, vamos poder realizá-lo.

A Utopia de Tomás More era profundamente calcada no ideal franciscano. Mas o sonho franciscano ainda vai mais longe, porque projeta a sua Forma de Vida para ir realizando desde já a visão da Pátria definitiva, que Jesus veio trazer.

Francisco começou a esboçar o seu programa na medida em que foi sendo conduzido por Deus no caminho da conversão. Em 1209, quando já tinha um grupo de doze irmãos, foi apresentar ao papa o seu sonho, que juntava umas poucas passagens do Evangelho e se chamava Forma de Vida.

Francisco e os frades foram elaborando essa Forma de Vida até 1221. Mas foi em algumas atuações paralelas que ele mostrou com clareza aonde queria chegar: queria viver o "paraíso" eterno em que Nossa Senhora já vive em plenitude.

2. A Forma de Vida para Santa Clara

Em 1212, quando Clara e as primeiras Irmãs entraram na Ordem, Francisco deu-lhe uma Forma de Vida, que ela guardou para sempre. Dizia:

Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai Celeste, e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com o Santo Evangelho, eu quero e prometo por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles.

Muita gente ainda acha que esse texto, citado por Santa Clara no cap. 6 de sua Regra, deve ser só um trechinho da Forma de Vida dada por Francisco. Mas ele tem tudo. Basta confrontar o que lemos com a Antífona de Nossa Senhora que Francisco fez para o seu Ofício da Paixão:

Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mulheres neste mundo, filha e serva do altíssimo Sumo Rei e Pai celeste, Mãe do santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes do céu e todos os santos junto a vosso santíssimo e dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre!.

Aí está o nosso projeto, em duas grandes etapas: na final, nós vamos estar na maior comunhão com o Deus Trindade, como Nossa Senhora já está; na inicial, que estamos fazendo agora, estamos vivendo essa comunhão por sermos Povo de Deus, com os anjos e santos do céu e no meio de todas as criaturas da terra.

Por isso, numa outra oração que fez para Nossa Senhora, a Saudação à Mãe de Deus, Francisco diz que ela é a "Virgem feita Igreja".

Nós seremos pessoas plenamente realizadas na medida em que formos de fato, como Nossa Senhora, filhos e servos do Pai Eterno, recebendo dele a vida divina e correspondendo ao Bem que nos comunica; em que formos esposos do Espírito Santo, tomando parte ativa na história do Povo de Deus; em que formos Mães de Jesus Cristo, ajudando-o a nascer e crescer em nós mesmos e em todas as pessoas que chegarem ao nosso alcance.

Quarenta anos depois de ter recebido esse pequeno documento de Francisco, Clara apresentou à Igreja a sua Forma de Vida, ou Regra, toda trabalhada em cima e em torno do projeto inicial de Francisco, aproveitando tudo que pôde do carisma que ela e Francisco tinham recebido de Deus como um dom para renovar a sua Igreja.

A Forma de Vida propõe a Vida da Trindade. A partir dela, Clara construiu toda a sua Regra. Viver como clarissa é começar na terra a viver a vida da Trindade.

No seu Testamento, Clara destacou a vocação (ou forma de vida) que recebeu de Francisco com um dos maiores benefícios que Deus nos faz cada dia. E demonstrou com clareza como esse projeto consiste em entender Jesus Cristo como um caminho que seguimos com perseverança e com todo entusiasmo. Quem vive esse projeto transforma-se em um outro Cristo.

3. A Primeira Carta aos Fiéis

Pouco depois de ter dado às Irmãs Pobres a sua Forma de Vida, Francisco pas-sou-a também para os homens e mulheres que, mesmo não podendo deixar suas casas e famílias, queriam viver o mesmo projeto franciscano de vida.

Desta vez, o documento ficou conhecido como Carta aos Fiéis. Uns dez anos depois, essa carta foi consideravelmente ampliada em uma nova versão, mas o essencial ficou, e se lê até com mais facilidade na cópia mais antiga.

Didaticamente, Francisco começa distinguindo as pessoas entre as que fazem e as que não fazem penitência: são as que aderem ou deixam de aderir à proposta de Jesus Cristo; sentem ou deixam de sentir a falta de Jesus, começam a vida trinitária ou não percebem o seu valor, preferindo ficar com os bens pequenos de que são capazes de se apoderar.

Francisco diz que os penitentes são filhos do Pai Eterno, esposos do Espírito Santo, mães de Jesus Cristo, exclamando:

Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável, e sobre todas as coisas desejável: nosso Senhor Jesus Cristo! (1CtFi).

Mas ainda torna a proposta mais concreta explicando:

Somos esposos quando, pelo Espírito Santo, une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus. Mães quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo, pelo amor divino e pela consciência pura e sincera, e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar a todos com o exemplo (ibidem).

Como se vê, é a Antífona de Nossa Senhora, do Ofício da Paixão, que nos ajuda a ler a Forma de Vida dada tanto à segunda quanto à terceira Ordem. Deve ajudar também numa releitura das Regras bulada e não bulada da Ordem primeira.

4. A comunhão de Maria com a Trindade

Maria de Nazaré tornou-se plenamente filha do Pai Celestial. A adoção como filhos de Deus foi um dom que Jesus nos trouxe e que ela acolheu em plenitude. Para nós, ser filhos de Deus tem que ser uma conquista de cada dia. Também é uma conquista de cada dia sermos servos, isto é, conseguirmos corresponder a todo bem que Deus derrama sem cessar em nossa vida.

Maria é a figura por excelência do Povo de Deus, tanto que São João a viu como a esposa coroada com as doze estrelas, já na sua situação plena do Apo-calipse. Ela e o Espírito Santo já clamam juntos, como diz a Bíblia em suas últimas palavras. Nós ainda estamos na caminha-da: todos os dias temos que ser o Povo nos passos que ele está dando agora.

Maria foi Mãe de Jesus Cristo gerando, dando-o à luz, cuidando dele: já fez o que nós ainda estamos construindo cada dia - o cristo de cada um de nós e o cristo da história da humanidade.

Em tudo isso ela é modelo e exemplo para nós. Ensina como nos relacionamos cada dia com Deus para estar em união com Ele.

Francisco expressou muito bem essa maneira de ver quando disse, em sua Saudação à Virgem Maria:

Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo bem!

Esse trecho, e outras expressões que o completam na Saudação, clamam a sua visão de que Deus está dentro de nós, como reza no seu Comentário ao Pai nosso:

Que estais nos céus: nos anjos e nos santos, iluminando-os para o conhecimento, porque vós, Senhor, sois luz; inflamando-os para o amor, porque vós, Senhor, sois amor; morando neles e plenificando-os para a bem-aventurança, porque vós, Senhor, sois o sumo bem, eterno, do qual vem todo bem, sem o qual não há nenhum bem.

Essa comunhão interior é o sonho ou utopia que vai continuar dando sempre sentido a tudo que empreendemos. Se eu tenho o céu lá dentro, não tenho que esperar: estou é construindo o futuro no meu presente.

Santa Clara reforçou esse pensamento quando escreveu a Inês de Praga:

Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e da pobreza, sem dúvida alguma, poderá traze-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas (3CtIn 24-26).

Todo cristão sabe que, desde o batismo, carrega dentro de si a vida da Trin-dade, chamada de a vida da graça. Francisco e Clara procuram trabalhar essa vida da graça lembrando muitas vezes por dia o exemplo de Nossa Senhora. Nós trabalhamos a própria interioridade quando vamos tomando consciência dela na medida em que a tornamos vida concreta fora de nós, em comunhão com as outras pessoas e as outras criaturas.

Nós nos relacionamos como família, como fraternidade, como nação, como comunidade dos povos. Nosso modelo é o relacionamento da Trindade, em que Pai, Filho e Espírito Santo entregam-se inteiros à relação, sem guardar nada individualmente. Por isso, Deus é a comunhão perfeita.

Como cultivamos o amor na família e a caridade na vida fraterna, é fundamental que saibamos muito bem, em nosso projeto, como cultivar a vida interior com a Santíssima Trindade.

5. O relacionamento especial com Jesus

Maria não é um caso à parte, nem uma maravilha em si mesma: ela faz parte do tremendo mistério da Encarnação. Francisco lembrou:

O Altíssimo Pai anunciou que este seu Verbo, tão digno, tão santo e glorioso, viria do céu. Anunciou-o por meio do arcanjo Gabriel à santa e gloriosa Virgem Maria, da qual recebeu a carne de nossa frágil humanidade (CtFi 1, 4).

É interessante observar que a Antífona de Nossa Senhora, embora exalte a figura de Maria de uma maneira singular, na realidade está centralizada em Jesus Cristo, porque o verbo central de todo o período é rogai por nós junto a vosso Filho. Jesus Cristo é o centro da antífona como é o centro de toda a vida de Maria.

Mesmo o nosso acesso à Santíssima Trindade só é feito através de Jesus Cris-to, a única das três Pessoas que se encarnou e se fez um de nós.

Francisco estava sempre recordando essa motivação de sua devoção mariana:

Cercava de um amor indizível a mãe de Jesus porque tinha tornado nosso irmão o Senhor da majestade (2Cel 198; LM 9,3).

Clara, que em seus escritos até lembra a Mãe de Deus mais vezes do que Francisco, também não perde de vista essa razão fundamental. Recordou-o a Inês de Praga:

Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal filho que os céus não podem conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro de seu santo seio e o carregou no seu regaço de menina (3CtIn 17-18).

Essa importância de Nossa Senhora já devia estar presente na consciência de Francisco desde o começo, porque, segundo Celano, o primeiro frade, Frei Bernardo, entrou na Ordem quando testemunhou que Francisco tinha passado a noite quase inteira sem dormir, "louvando e agradecendo a Deus e sua gloriosa Mãe" (cf. 1Cel 24).

Mas, apesar de perceber a grandeza da mulher Maria por estar tão ligada à divindade, ele não esquece a pequenez assumida pelo Filho de Deus quando se encarnou na pobrezinha de Nazaré. Celano lembra:

Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas (1Cel 84).

E um dos pontos mais altos em sua admiração pela Eucaristia estava justamente na recordação desse fato:

Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real ao seio da Virgem... (Adm 1, 16).

Na Saudação à Mãe de Deus, Maria recebe sete Salves! Começa como Rainha, é palácio, é tabernáculo, é morada do Senhor. Mas parece que os títulos vão descendo como o Deus que se fez carne: Maria também é o manto, também é a serva, embora o título de Mãe e a transformação pela graça acabem reposicionando todos esses títulos.

Francisco e Clara sempre lembram que Maria foi pobre como Jesus foi pobre. Parece que, no concreto, principalmente para Clara, essa é a maior razão de seu amor pela Virgem Mãe de Deus.

Quando eles pedem para sermos mães de Jesus, põem toda a força na sua proposta de vida: Jesus Cristo tem que ser buscado em tudo e essa é a maior função de Maria em nossa vida.

Também é preciso lembrar que os dois santos, que queriam ser como Jesus na oração, repetiam a antífona de Nossa Senhora catorze vezes por dia. Lembrar Maria ajudava-os a rezar com Jesus.

6. A comunhão de Maria com a Humanidade

Além da Antífona de Nossa Senhora, do Ofício da Paixão, vamos ler outra oração dedicada à Mãe de Deus:

Salve, ó senhora, Rainha santa, Mãe santa de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita Igreja, e escolhida pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou com seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó palácio do Senhor! Salve, ó tabernáculo do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó manto do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve, ó Mãe do Senhor, e salve vós todas, ó santas virtudes, derramadas, pela graça e iluminação do Espírito Santo, nos corações dos fiéis, transformando-os de infiéis em fiéis do Senhor! (Saudação à Mãe de Deus).

Chamar Nossa Senhora de Virgem feita Igreja é uma de suas maiores originalidades e demonstra que a viu realmente como uma imagem do Povo de Deus:

Como o povo de Israel, que Deus escolheu entre os mais desconhecidos da terra, Maria era uma virgem quando o Senhor a escolheu: na cultura antiga, não sendo homem nem sendo a mãe ou a esposa de alguém, era fraca, não tinha importância, era nada.

Mas ela foi feita cheia de graça por pura bondade do Senhor, como o povo que era escravo no Egito, e Deus assumiu como sua esposa.

E ela foi a primeira dentro de todo o Povo a receber a plenitude da vida de Deus, essa vida trinitária que Ele quer que chegue a todos.

Nela ficou claro que toda essa união com a divindade transforma-a, eleva-a, mas não absorve sua personalidade nem a tira de sua normalidade, como deve acontecer com todo o povo.

Como deve acontecer com todo o Povo, ela se tornou um novo cristo, uma colaboradora no anúncio do Bem (começou com Isabel, passou por Caná, acompanhou Jesus pobre, foi para a casa de João...).

Por tudo isso, como lembra o magnífico capítulo 8 da Lumen Gentium, Maria merece, muito mais que Eva, ser chamada a "Mãe dos Viventes". Francisco prefe-riu chamá-la Virgem feita Igreja.

Somos nós que temos que fazer o Povo do nosso tempo ir sendo transformado numa Igreja feita Maria. É o nosso campo de trabalho: nossas ações diárias são capazes de construir a comunhão da humanidade.

Para Francisco, Maria é um ponto de chegada muito claro para o Povo: nós vamos ser aquela esposa descendo do céu coroada com doze estrelas. Ele lembrou isso no cântico Ouvi, pobrezinhas!, que escreveu para as clarissas:

Porque cada uma será rainha no céu, coroada com a Virgem Maria!

E também o propôs como o ponto mais alto a alcançar no Cântico de Frei Sol:

Bem-aventurados os que as suportam em paz, que por vós, Altíssimo, serão coroados!

Mas Francisco e Clara ainda viram Maria como o Povo evangelizador, que assumiu ser o Cristo místico. Viram-na como peregrina acompanhando Jesus pelo mundo, pobre e vivendo de esmola.

Por isso, o Fundador também a fez Advogada da Ordem e pediu que os frades nunca abandonassem a Porciúncula, a casa de Nossa Senhora em que a Ordem nasceu.

A humanidade vai se realizar quando for a Cidade de Deus. Maria é a figura dessa Pátria total e definitiva.

7. A comunhão com toda a criação

Quando pensamos que em uma criatura como Maria "residiu e reside... toda plenitude do Bem", não devemos lembrar só o Bem em si, Deus, mas todos os seus bens, presentes no mundo. Nossa Senhora está em comunhão com a Trindade, com a humanidade e com todos os seres. Como nós fomos chamados a estar: na mais perfeita comunhão.

Ela está em união com São Miguel Arcanjo, as Virtudes dos céus e todos os santos. É Rainha dos Anjos. Mas também está em união com os astros e com os insetos, com as plantas e com os animais, porque tudo é obra da bondade de Deus, tudo "foi feito por meio da Palavra e nada do que foi feito se fez sem ela".

Uma criatura humana equilibrada sabe dar sentido a todos os seres, mesmo irracionais e inanimados, porque nem os diviniza nem os escraviza, mas entra em comunhão com eles. Como na situação do paraíso terrestre: e Maria é a nova Eva.

De um lado, nós vamos encontrar Deus em todas as obras de suas mãos. De outro, nós estamos incluindo tudo no nosso sonho de vida em plenitude.

Como agir com Maria ordenando todos os bens encontrados no mundo para a Trindade? Em primeiro lugar, a gente entra em comunhão com eles; depois, integra-os no bem das pessoas e de todo o universo, sem desrespeitá-los nem agir contra a sua própria natureza.

O Francisco que, segundo São Boaventura, parecia ter voltado ao estado de bem-aventurança primitiva, começou integrando a imagem de Maria na Trindade. Mas foi a visão da onipresença de Deus que o fez ser o amigo da cigarra e do coelho do mato, que o mundo de hoje tanto admira.

No seu projeto, ele propõe que, a partir da comunhão com a Trindade, con-sigamos a comunhão com todos os seres.

8. Propostas práticas

1. Nós somos pessoas que assumiram, diante da Igreja, que é o Povo de Deus, cultivar uma vida-testemunho de como é possível e bom aderir totalmente ao Evangelho. Você tem tido uma consciência diária de que seguir o carisma de Francisco e Clara é cuidar dessa responsabilidade no concreto?

2. Você pode dizer que está cultivando, dentro de você, a união cada vez maior com o Deus Trindade? Você está conseguindo iluminar o seu mundo interior para fazer com que todas as suas forças se relacionem e criem uma comunhão intensa do íntimo do seu ser?

3. Como é que Maria pode ajudar você a ser mãe de Jesus? Lembre os casos em que você ajudou positivamente algumas outras pessoas a serem cada vez mais cristos. Lembre a história de como você está conseguindo realizar a imagem e se-melhança de Deus que está em você para ser de verdade um novo cristo.

4. Como foi que, até agora, você ajudou as pessoas a serem povo de Deus? Como é que você tem cultivado as suas raízes como povo e como é que tem buscado a integração com um Povo que caminha seguro na direção da esperança porque está firme na memória do que Deus já realizou no passado?

5. Tente contemplar cada animal, cada planta, como se todo o universo existisse só por causa deles. Contemple-os longamente para entender como é o bem de Deus que se reflete neles. Tente ser uma pessoa integrada na Trindade, como Maria, para imaginar como ela integraria no seu mundo essa criatura.

2.- Deus é todo Bem, é o único Bom

Maria é ponto de chegada no Deus Trindade. Começamos com Maria, mas o que interessa é Deus, que é o Alfa e o Omega. A luz de Deus vai iluminar todo o nosso projeto franciscano de vida.

1. O Deus de Jesus Cristo

Francisco e Clara amadureceram ouvindo com amor as palavras do Evangelho. Nele encontravam Jesus e o admiravam falando com tanto carinho no Pai dos Céus e no Espírito Santo. Para eles, Deus é antes de tudo o Deus-Trindade.

Por isso a Trindade está sempre presente em seus escritos e orações: quando não a lembram explicitamente, usam o número três para simbolizá-la em todo tipo de arranjos.

Mas eles conheciam o Evangelho especialmente através da liturgia e foram desenvolvendo uma liturgia muito pessoal com suas próprias orações.

Uma das que melhor expressam esse amor trinitário de Francisco é a oração de Louvores para todas as Horas, que ele dividiu em três partes, subdividindo as duas primeiras em outras três partes, terminando cada uma com um louvor explícito à Trindade e concluindo tudo com a sua melhor oração sobre Deus como único Bem.

Nós já vimos como a Trindade é o núcleo da Antífona de Nossa Senhora, da Forma de Vida para Santa Clara, da Carta aos Fiéis. Mas não se tratava de considerar Deus trino lá longe no céu: era uma for-ma de vida. Eles sabiam que nossos relacionamentos humanos são um reflexo da vida trinitária de Deus e os cultivavam assim. E, como tinham experimentado o Deus Trindade em suas vidas, queriam também que fosse anunciado a todos. Francisco escreveu na Regra não bulada:

E todos os meus frades podem anunciar esta ou semelhante exortação e louvor, quando lhes aprouver, entre quaisquer pessoas, com a bênção de Deus: Temei e honrai, louvai e bendizei, dai graças e adorai o Senhor Deus onipotente na trindade e na unidade, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo (RNB 21, 1-2).

Ele mesmo, quando a saúde não lhe permitiu mais correr os povoados falando do seu querido Deus Pai, Filho e Espírito Santo, teve a inspiração de escrever muitas cartas que mandava distribuir:

...me propuz, por meio desta carta e de mensageiros, anunciar-lhes as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Palavra do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida (2CtFi 3).

Quando rezava o Pai-nosso, Francisco lembrava a Trindade inteira logo de início, dizendo: Santíssimo Pai nosso: criador, redentor, consolador e salvador nosso... unindo dessa maneira os atributos que a teologia católica reserva a cada Pessoa do único Deus.

Na Oração com que concluiu a Carta a toda a Ordem, deixa claro que quer seguir os passos de Jesus para

chegar, só por vossa graça, a vós, Altíssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples, viveis e reinais...

Mas é provável que sua oração mais comovida seja o trecho dos Louvores a Deus Altíssimo, que escreveu logo depois de receber os estigmas, onde diz:

Vós sois trino e uno, Senhor Deus dos deuses, vós sois o bem, todo bem, o sumo bem, Senhor Deus vivo e verdadeiro.

Para ele, Deus é tudo, é o Bem.

2. O Deus de Francisco é o Sumo Bem

Nos Louvores para todas as Horas, que repetia sete vezes por dia, Francisco concluía:

Onipotente, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, que sois todo o bem, o sumo bem, a plenitude do bem, que só vós sois bom, nós vos tributamos todo o louvor, toda a glória, toda a ação de graças, toda exaltação e todo bem.

Dá para perceber que, no fundo, ele está se deliciando com diversas variantes do tema "só Deus é bom", evidentemente escutado na página de Lucas (19, 18-19) em que Jesus dá uma resposta a quem o chamara de "bom mestre".

Mas ele faz isso o tempo todo, como podemos testemunhar mesmo dando só algumas citações:

Tributemos ao Senhor Deus altíssimo e sumo todos os bens, e reconheçamos que todos os bens são dele... Porque todo bem é dele e só Ele é bom (RNB 17, 17s.).

Nada mais desejemos, nada mais queiramos... se não o único verdadeiro Deus, que é plenitude do bem, todo bem, verdadeiro e sumo bem. Ele que é o único bom (RNB 23, 27s.).

No Comentário ao Pai nosso, insiste em que todos os bens vêm de Deus:

Que estais no céu... Vós, Senhor, sois o sumo bem, eterno bem, do qual vem todo bem, sem o qual não há nenhum bem.

A partir daí é que vai se desdobrar em louvores e convidar ao louvor, como vemos, por exemplo, na 2 Carta aos Fiéis, 61-62:

E porque nos deu tantos bens e ainda vai dar no futuro, toda criatura que está no céu e na terra... renda a Deus louvor... porque ele é o único bom.

É a mesma atitude de Santa Clara no início de seu Testamento:

Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo... (TestC 2).

Mas são os Louvores a Deus Altíssimo, escritos no Alverne, que vão mostrar toda comoção de Francisco ao dizer:

"Vós sois o bem, todo bem, sumo bem".

A idéia de Deus bom também está presente nas outras culturas e é freqüente nos Salmos. Mas, em Francisco, ela se torna centro de toda a sua visão de Deus: o que existe no Deus-Trindade é uma eterna comunicação de todo o Bem, o que explica todo o nosso relacionamento com Deus é a "obediência", que consiste em responder abertamente a todo Bem que vem de Deus.

3. Uma experiência sofrida

Não podemos pensar que foi fácil a experiência do Deus Bom para Francisco e Clara. Eles viveram em um dos tempos mais difíceis da história para essa verdade. Os cátaros, expressão do maniqueísmo no seu tempo, arrastavam multidões convencendo-as de que havia um deus bom e outro mau. Diziam até que o Deus do Antigo Testamento era o deus mau e que, por isso, todas as obras da natureza eram presença da maldade.

Francisco e Clara puseram em suas Formas de Vida que os candidatos deviam ser examinados na fé católica justamente por causa da grande difusão do catarismo. A segunda versão da Carta aos Fiéis, escrita mais para o fim da vida de Francisco, mostra como ele teve que esclarecer os seus seguidores para que não acreditassem em um deus do mal. Isso reforça a importância de sua experiência do Deus Bom que se expande em bondades em todas as criaturas.

4. Deus Bom nas coisas boas

É neste ponto que se compreende porque a experiência de Deus vivida por São Francisco fala tanto às pessoas de hoje: ele não é um teórico que apresenta idéias abstratas de Deus: experimenta-o nas criaturas.

Tomás de Celano comentou:

Exultava em todas as obras das mãos do Senhor e enxergava a razão e a causa vivificantes através dos espetáculos que lhe davam prazer. Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo, e que todas as coisas boas clamavam: "Quem nos fez é ótimo!" (2Cel 165).

Encontrava em toda parte motivos para lembrar-se do Filho de Deus que se fez homem por nosso amor. Podemos citar alguns exemplos dados pelo Espelho de Perfeição:

Recomendava ao irmão que cortava e preparava a lenha para o fogo que jamais abatesse a árvore inteira, mas cortasse de maneira que lhes restasse sempre uma parte intata por amor daquele que quis realizar nossa salvação sobre o lenho da cruz.

Costumava dizer ao irmão que tomava conta do jardim que não ocupasse todo o terreno com legumes, mas reservasse uma parte para as árvores que, em seu tempo, produzem nossas irmãs as flores, por amor para com aquele que falou "nas flores dos campos e nos lírios dos vales".

Recomendava ainda ao jardineiro que reservasse sempre uma parte do jardim para as ervas odoríferas e plantas que produzem belas flores a fim de que, em seu tempo, elas convidassem ao louvor de Deus os homens que vissem tais ervas e flores. Pois toda criatura diz e proclama: "Deus me criou para ti, ó homem" (EP 118).

Mas a razão fundamental de todo seu amor às criaturas, que chamava de irmãs, era a concepção clara de que o Deus de Bondade se apresentava nelas como em todas as boas ações das pessoas.

O teólogo São Boaventura, observou, a esse respeito:

Em cada uma das criaturas... percebia, com extraordinária piedade, a fonte única da bondade de Deus e, como a harmonia preestabelecida por Deus entre as propriedades naturais dos corpos e suas interações lhe pareciam uma música celestial, exortava todas as criaturas, como o profeta Davi, ao louvor de Deus (LM 9, 1).

Para Francisco, Jesus, a Palavra de Deus, continua sempre vivo na natureza, Cada flor que se abre é Jesus falando, cada pedra é uma manifestação dele, cada animal é uma expressão de sua vida infinita. Nós vivemos envolvidos no Bem que é Deus.

No final da vida, quando a doença e a marginalização dentro da Ordem o haviam reduzido a quase nada, doente em São Damião, ele acaba tendo uma das maiores graças de Jesus Cristo: a revelação de que sua salvação eterna estava garantida. Prorrompe, então, no Cântico de Frei Sol. E canta a própria morte como irmã.

Parecia ter-se integrado profundamente com tudo. Sentia-se parte da criação: era o homem sonhado por Deus, cristificado.

Por isso, São Boaventura apresentou muito bem o resultado de sua maneira de ver e viver Deus:

A verdadeira piedade... enchera o coração de Francisco, compenetrando-o tão intimamente, que parecia dominar a personalidade do homem de Deus. Nasciam daí a devoção, que o elevava até Deus, a compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas, que lembra nosso estado de inocência primitiva (LM 8, 1).

É a isso que se refere o antigo lema franciscano: Meu Deus e meu tudo.

5. Deus Bom dentro de nós

Depois de muito pensar em Deus, o homem acabou concluindo, nas mais diversas culturas, que Deus é mistério.

É uma pena que muitos entendam que mistério é alguma coisa impossível de en-tender, é como uma porta fechada por onde não se pode passar. Francisco e Clara nos ensinam que essa porta é aberta, e continuará sempre aberta se nós percebermos Deus como a presença do Bem dentro de nós e nunca quisermos ser donos desse bem.

Na oração com que concluiu a Carta a toda a Ordem, Francisco disse:

Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai a nós, miseráveis, fazer, por vós mesmo, o que sabemos que vós quereis, e sempre querer o que voz apraz, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e acesos no fogo do santo espírito, possamos seguir os vestígios de vosso dileto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e chegar, só por vossa graça a vós, Altíssimo...

Uma primeira coisa a observar é que Deus é misericordioso e nós somos os miseráveis. Isso tem que ser entendido na perspectiva bíblica, não em nossa linguagem moderna. Deus é misericordioso porque é um Amor que se dá sem limites; nós somos miseráveis porque recebemos esse amor e vivemos dele.

Em outras palavras: todo bem que há em nós, até o bem que somos nós mesmos, vem gratuitamente de Deus. Como o bem de Deus é gratuito, nós temos que recebe-lo de graça e dá-lo de graça.

O homem que quer ser dono dos bens de Deus percebe que não é possível abarcá-los todos e diz que Deus é um mistério impossível. Mas o que só se maravilha com os bens, sem querer ser dono deles, continua a descobri-los sem fim. Para ele,

Deus é um mistério sempre aberto, do qual podemos tirar de tudo sem nenhum limite. No mistério de Deus, descobrimos o mistério de nós mesmos, o mistério do próximo, o mistério de todas as criaturas.

Francisco expressou essa situação recordando o pecado de Adão e Eva:

Pois come da árvore da ciência do bem aquele que se apropria de sua vontade e se exalta pelos bens que o Senhor diz e opera nele... (Adm 2).

Isto é, quando nos apropriamos dos bens que descobrimos em nós e nos exaltamos por causa deles, fechamo-nos para Deus que é fonte de todo bem. Por isso, ele insistiu, em outra Admoestação:

...Nada te pertence e de nada podes gloriar-te; mas disto podemos gloriar-nos: de nossas fraquezas e de carregar todos os dias a santa cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Adm 5).

E indicou como devemos ficar abertos também para o mistério de Deus no nos-so próximo:

Todo aquele que inveja seu irmão pelo bem que o Senhor diz e faz nele, incorre em pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo, que diz e faz todo bem (Adm 8).

Somos um bem tão grande de Deus, que passamos a vida toda sem chegar a descobrir tudo. Nem dentro de nós mesmos, nem dentro dos outros.

Diante do Crucificado de São Damião, Francisco começou a perceber que precisava da luz de Deus para enxergar toda a bondade de Deus que tinha dentro de si mesmo. Deus está o dia inteiro presente dentro de nossa vida, relacionando-se conosco.

Mesmo a presença do mal deve nos fazer pensar que estamos diante de uma ausência de Deus que cabe a nós preencher.

6. O Altíssimo se fez pequeno

O grande impacto de Deus na vida de Francisco e Clara foi dar-se conta de que seu amor foi tão grande que Ele, o Altíssimo se fez pequeno: humilde e pobre.

De fato, o Deus Bom se manifesta em Jesus Cristo, que foi pobre e humilde no presépio, pobre e humilde em sua vida na Palestina, pobre e humilde na morte da Cruz e continua pobre e humilde na Eucaristia.

Falou profundamente na vida deles a passagem da Epístola aos Filipenses que lembra o esvaziamento de Deus:

Tenham em vocês mesmos os sentimentos que havia em Jesus Cristo: Ele tinha a condição divina mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz! (Fil 2, 5-8).

Clara, que via constantemente a Deus e se via constantemente em Deus no espelho que é Jesus Cristo, ensinou:

Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4CtIn 19-23).

Francisco entoou com Jesus Cristo o seu Cântico de Frei Sol, em que celebra esse fato começando com a palavra Altíssimo e terminando com a palavra humildade. Mas teve uma sensibilidade especial para o esvaziamento, a pequenez e a humildade de Deus de uma maneira toda própria na Eucaristia:

Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real ao seio da Virgem; vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; desce todos os dias do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote (Adm 1, 16-18).

Mas uma atitude concreta que transformou Francisco e Clara diante do Altíssimo que se fez pequeno foi o fato de Ele se ter feito um servidor: O Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir, e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos (Mt 20,28).

Isso fez não só com que Deus, em Jesus Cristo, se entregasse à morte por nós, mas se submetesse na obediência e fosse, acima de tudo, o menor e o pobre.

Essa foi a motivação constante de Clara, e fez Francisco escrever aos Fiéis:

Esta Palavra do Pai, tão digna, tão santa e gloriosa, o altíssimo Pai a enviou do céu, por seu arcanjo São Gabriel, ao seio da Santa Virgem Maria, de cujo seio recebeu a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade. E, sendo rico acima de toda medida, preferiu escolher, com sua bem-aventurada Mãe, a pobreza (2CtFi 4).

É importante observar que essa concepção evangélica do Altíssimo que se faz pequeno por nosso amor e vem nos servir é justamente o oposto -- até vai na contra-mão -- de uma concepção hoje em dia tão em voga de procurar um Deus útil: que esteja sempre à mão, que seja rápido e eficiente para fazer o que nós esperamos que ele faça com o seu poder. Se não, somos capazes de mudar de religião.

É ele quem se faz pequeno e nos ensina. Nós não podemos diminuí-lo.

7. O nosso Deus

As considerações que fizemos sobre o Deus de Francisco e Clara mostram que, para viver um projeto franciscano de vida, precisamos questionar profundamente que Deus estamos vivendo.

Em nossos dias, há menos dúvidas de que Deus existe. A religiosidade parece ter aumentado. Muitas desilusões atuais trouxeram uma "volta" de Deus. Inclusive a desilusão com a onipotência das ciências, com ideologias como o marxismo. Mas há situações novas.

Os "sábios" de hoje não pensam em um deus metafísico, como os da Idade Média. A opinião das "autoridades" também não é acatada.

As pessoas comuns querem "experiência" de Deus, querem sentir Deus. Não querem teorias. Daí a facilidade com que se inventam movimentos e religiões novas, que podem ser bastante efêmeras, ou mesmo puramente pessoais. Daí a facilidade com que muitos podem ser explorados religiosamente.

Todos os povos antigos aprendiam sobre Deus dentro de suas próprias culturas. A religião era sempre uma expressão da cultura. Hoje, esse quadro mudou.

As culturas ficaram amplas, pluriformes, multirraciais. Ficamos liberados para ter o Deus e a religião que quisermos.

Mas ainda há muita coisa sobre Deus e a religião que nós aprendemos foi com a cultura que, na realidade, nunca foi puramente evangélica.

A razão é a fonte de todas as religiões não bíblicas, mesmo que se fale em intuições. Para nós, as fontes do conhecimento de Deus estão na Bíblia, nos santos, na nossa própria experiência, incluindo o ensinamento da Igreja. Mas Deus continua a ser mistério sem fim.

Cada um de nós tem que trabalhar o mistério de Deus dentro de si mesmo: Quem é Deus para mim? Quem sou eu para Deus? Nós vamos usar todos os recursos da revelação e da tradição, todos os exemplos dos santos, mas temos que descobrir Deus a partir de nossa solidão interior. É de lá que Ele tem que nos abrir para um mundo sem limites.

Porque o mistério de Deus está ligado ao mistério de mim mesmo: qual é o meu autêntico eu? Posso ser deus de mim mesmo? posso ser deus dos outros?

Está ligado com o mistério do próximo: quem é cada pessoa para mim? E está ligado ao mistério de todas as criaturas: não são meus deuses, nem eu sou o deus de nenhuma criatura.

8. Propostas práticas

1. Anote todos os pontos principais que expressam concretamente para você quem é Deus. Tente lembrar onde e como você aprendeu cada um desses pontos. Observe como cada aspecto influencia em sua vida concreta.

2. Quais as principais características do Deus de Jesus Cristo que a gente só conhece pelo Evangelho? A leitura do Evangelho está enriquecendo sua vida com Deus? Como?

3. De cada Irmão ou Irmã com quem você está convivendo agora, o que é que você aprende de bonito sobre Deus? E das outras pessoas, dos animais, das obras da natureza, o que você aprende?

4. Quais os pontos concretos em que, para você, Deus é mesmo Todo-o-Bem? Como tem resolvido os pontos em que encontra dificuldade para admitir isso?

5. Como é que você comunica às outras pessoas (mais pela vida do que pelas palavras) qual é o Deus que você tem no coração?

3.- E quem sou eu?

Nas Considerações sobre os estigmas, há uma oração em que São Francisco diz:

Quem sois vós, Senhor, e quem sou eu?

Em um projeto de vida, se quero transformar minha existência, tenho que saber o que eu penso sobre mim mesmo, como é que eu me avalio.

O Salmo 8, também já perguntava:

Que é o homem para te lembrares dele? e o filho do homem para cuidares dele? (Sl 8,5).

O que costumamos pensar sobre o valor de ser gente? Vale a pena ser gente? Nossa sociedade valoriza ser gente? todos os tipos de gente? Ou deixa de valorizar quem não tem posses, quem não manda, quem não é importante?

Vivemos cercados de visões pessimistas ou otimistas do ser humano. Nem sempre nos damos conta de que, para a maioria, o homem é o centro do mundo e até Deus está ou deveria estar a serviço dele ou é apenas uma de suas dimensões.

1. Ser humano é maravilhoso

Para São Francisco, que é um místico, o homem é um ser maravilhoso por diversas razões:

a) Foi criado por Deus. É obra das mãos de Deus. Já na Regra não bulada ele rezou:

Onipotente, santísssimo, altíssimo e sumo Deus, Pai santo e justo, Senhor rei do céu e da terra, por vós mesmo vos damos graças, porque por vossa santa vontade e por vosso único Filho com o Espírito Santo, criastes todas as coisas espirituais e corporais, e nós, feitos à vossa imagem e semelhança, colocastes no paraíso (RNB 23, 1-3).

Para ele, o homem não é diminuido por ser uma criatura. Pelo contrário: sua grandeza vem de ser uma expressão do Bem que é Deus.

b) Mas a segunda razão ainda é mais forte: somos imagem de Deus segundo o corpo; semelhança segundo o espírito. Na quinta Admoestação, Francisco ensinou:

Considera, ó homem, em que grande excelência te pôs o Senhor Deus, porque te criou e formou à imagem do seu dileto Filho segundo o corpo e à sua semelhança segundo o espírito (Adm 5,3).

É interessante a originalidade do seu pensamento: quanto ao corpo, somos iguaizinhos ao Filho de Deus. O espírito que nos anima é diferente, mas sempre é parecido com o de Deus.

c) A terceira razão da grandeza do homem é porque Deus, encarnando-se como um de nós, dignificou mais ainda o que já nos tinha feito por natureza. Se o Filho de Deus assumiu "a carne da nossa fragilidade" é porque deu valor ao que nós já éramos por natureza. Com isso, nós passamos a ser irmãos de Jesus e se abriram as portas para nossa participação na vida trinitária.

d) Uma outra razão da grandeza do homem foi porque o Filho de Deus, depois de dizer que a maior prova de amor é dar a vida por aqueles a quem se ama, entregou-se à morte por nós.

No já citado capítulo 23 da Regra não bulada, Francisco também rezou:

E vos damos graças porque, assim como por vosso Filho nos criastes, assim por vosso santo amor, com que nos amastes, fizestes que ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nascesse da gloriosa sempre virgem beatíssima Santa Maria, e quisestes que nós, cativos, fôssemos redimidos por sua cruz e sangue e morte (RNB 23, 5-6).

e) Francisco ainda conseguiu lembrar mais uma quinta razão para achar que o ser humano é maravilhoso: a Eucaristia. Nela Deus repete todos os dias a Encarnação para estar a serviço dos homens. Todos os dias, ele acha que vale a pena ser humano. Como todos os dias continuam a nascer crianças, todos os dias Deus continua a nascer humano sobre o altar.

Creio que podemos concluir que, para Francisco e seus seguidores, o homem é uma obra maravilhosa por duas grandes razões: Primeiro, porque nele se expres-sam diversos aspectos da comunicação do Deus-Bondade; segundo, porque o homem está à altura de ser uma resposta plena a todo esse amor.

Mas ainda é preciso lembrar a fundamental admiração de Francisco e Clara por Jesus feito pobre para lembrarmos que, na visão deles, nenhuma criatura humana deixa de ser maravilhosa: mesmo que seja frágil, pequena, desprezada por todos os outros.

Creio que foi com otimismo que Francisco, mesmo falando da humildade, disse:

Quanto é o homem diante de Deus tanto é e não mais (Adm 19,2).

2. Nosso corpo é bom

Para compreendermos melhor o que é o homem na visão franciscana, é bom vermos como Francisco e Clara tinham uma visão surpreendemente positiva sobre o corpo humano, ainda que algumas citações dos biógrafos e mesmo alguns modos de dizer do próprio Francisco às vezes possam levar a desacreditar nessa verdade fundamental.

a) Pode parecer negativo, por exemplo, o que Francisco diz sobre o corpo como instrumento do pecado:

Cada um tem em seu poder o inimigo, isto é o corpo, pelo qual peca (Adm 10, 2).

Ou, então, a passagem da Saudação às Virtudes, em que parece que o corpo é um rebelde:

A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito... (SalVir 14-15).

Mas nos convenceremos do contrário se, além de lembrar de que, nesses dois casos, ele se põe na posição de quem recebe o espírito de Jesus para contrastar o espírito do egoísmo, lermos os outros pontos que vamos apresentar adiante.

A história dos biógrafos, que ele teria pedido perdão, no fim da vida, ao "irmão burro" por ter exagerado nas mortificações, só reforça que sua visão foi diferente da comum em seu tempo.

b) Quem deu a Francisco uma excelente oportunidade de deixar clara a sua atitude positiva diante do corpo humano foi a heresia dos cátaros, amplamente espalhada em seu tempo.

Os cátaros ensinavam que o corpo e tudo que era material tinha sido criação do Deus do mal, em sua luta contra o Deus do Bem. Francisco nunca os atacou diretamente, mas é evidente que escreveu a segunda versão de sua Carta aos Fiéis só para mostrar que os católicos precisavam crer que todas as coisas materiais foram feitas com amor pelo Deus único, que é todo o Bem.

Um exemplo: ele sempre insiste em lembrar que Jesus foi concebido no útero da Virgem Maria, porque os cátaros sus-tentavam que, vindo do Deus bom, ele só poderia ter sido concebido por um sopro na orelha.

Quando Francisco diz, na Regra, que os frades podem comer de tudo que lhes puserem na frente, está lembrando, contra o ensinamento dos cátaros, que Jesus disse que não é o que entra no homem que é mau, mas o que sai de seu coração. Uma das razões que o fizeram voltar às pressas do Egito foi saber que os seus substitutos tinham introduzido na Ordem a proibição total de comer carne.

c) Para compreendermos Francisco e Clara temos que lembrar que sua maneira de ver era a bíblica, aprendida especialmente na liturgia.

Ora, para a Bíblia, não há divisão entre corpo e alma. Esse dualismo vem da cultura grega e só começou a ter entrada nos ambientes católicos no século XII.

Por isso, quando lemos os seus escritos, não podemos confundir carne com corpo nem espírito com alma. "Carne" é o egoísmo do ser humano que se rebelou ou esqueceu de Deus; "espírito" é o sopro de Deus que leva para a direção do Criador, contrária à da "carne".

Francisco também distingue entre criaturas corporais, como o sol, o fogo, as plantas e os animais (que ele admirava e chamava de irmãs), e criaturas espirituais, como os anjos e os homens, que podem obedecer ao espírito de Deus.

d) Mas o pensamento franciscano fica mais claro quando mostra que nós precisamos do corpo.

É graças ao corpo que podemos ver Deus que se encarnou, que se transforma em pão, e que recebemos na Eucaristia:

Do Altíssimo Filho de Deus não vejo mais nada corporalmente neste mundo a não ser o seu corpo e sangue... (Test 12).

Pois de fato nada temos e vemos neste mundo corporalmente do mesmo Altíssimo se não o corpo e o sangue, os nomes e as palavras mediante as quais fomos criados e remidos da morte para a Vida (CtCl 3).

O corpo permite também o nosso contato entre nós mesmos e com as outras criaturas. Francisco e Clara sempre souberam saborear as coisas da terra, como aparece em muitos de seus textos, e esperavam saborear Deus na eternidade, como Francisco recordou no seu Comentário ao Pai-Nosso.

Mesmo a sua conversão se completou quando "o que antes lhe parecia amargo converteu-se em doçura da alma e co corpo" (Test ).

e) O corpo é submisso ao espírito, mas forma uma unidade com a alma. Para o pensamento franciscano, a alma não é superior ao corpo, como tantos afirmavam no tempo de Francisco e Clara.

Mesmo quando Francisco diz que "o corpo é a cela e a alma é o eremita que mora dentro dele" (LP 108), está apenas falando em recolher-se na interioridade.

A Santa Obediência (que, para ele é uma virtude de Jesus Cristo que nós recebemos como um dom) submete o corpo que se tornou pecador para que se entregue à vontade de Deus: todo bem.

f) Concluindo, Francisco e Clara podem chamar o componente espiritual do homem de espírito, coração ou mente, mas, para eles, o "homem" é tanto corpo quanto alma. Deus se revela nos dois.

Seja feita a vossa vontade... destinando todas as nossas forças e os sentidos da alma e do corpo para o serviço do vosso amor e não para outra coisa (ExpPN 6).

...Do mesmo modo que a Virgem das virgens levou Cristo materialmente em seu seio, você também, seguindo os seus vestígios, especialmente da sua humildade e pobreza, pode sempre, sem nenhuma dúvida, levá-lo em seu corpo casto e virginal (3CtIn 24-26).

3. Nosso mal é o pecado

O homem se frustra quando peca e frustra a obra de Deus, que só quer transmitir o Bem. Para São Francisco, o pecado é desobediência a Deus que consiste em apropriar-se dos bens do Senhor. Ele comenta sobre Adão:

Podia comer de toda árvore do paraíso porque, enquanto não foi contra a obediência, não pecou. Pois come da árvore da ciência do bem aquele que se apropria de sua vontade e se exalta pelos bens que o Senhor diz e opera nele (Adm 2, 2-3).

Como o Bem de Deus é puro dar-se, o homem perde sua dignidade se deixa de ser resposta ao amor. Entendemos melhor a visão de Francisco lembrando a advertência que fez na Carta aos Fiéis:

"Olhai, ó cegos, enganados por vosso inimigos: a carne, o mundo e o diabo!" (CtFi I, 2. 11).

a) A "carne" não é o corpo humano mas o egoísmo que fecha o homem para Deus e o faz querer ser o dono de tudo que encontra no mundo. Podemos simplificar: é a tentação de dizer "Isto é meu!", apropriando-nos das coisas.

A conseqüência é que a pessoa se fecha para o mistério das coisas. Toda criatura torna-se pequena e reduzida quando conseguimos fechá-la na mão ou guardá-la no "bolso", ainda que seja em um enorme armazém ou numa polpuda conta no banco. Possuídas, as coisas deixam de ser descobertas em toda a sua plenitude.

Francisco dizia:

E devemos odiar nosso corpo (o egoísmo) com seus vícios e pecados, porque, vivendo segundo a carne, quer tirar-nos o amor de Jesus Cristo e a vida eterna, e quer perder a si mesmo com todas as nossas coisas... (RNB 22,5).

b) O "mundo" não é, evidentemente, a situação maravilhosa em que Deus nos colocou, mas o desastre que as pessoas criam quando se afastam do senhorio bondoso do Senhor por querer dispor até das outras pessoas. Simplificando, é a tentação de dizer: "Sou eu que mando!", apropriando-se dos outros.

A conseqüência é que a pessoa se fecha para o mistério do outro. Se já sabemos exatamente para que é que uma pessoa serve, perdemos a capacidade de descobrir toda a fonte de bens que ela é.

Por isso, Francisco escreveu na Regra:

Admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo que os frades se guardem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, dos cuidados e preocupações deste mundo, da detração e da murmuração (RNB 10,8).

c) O "diabo" é o egoísmo mais profundo, em que a pessoa se apropria de si mesma. A palavra diabo quer dizer "separador" e lembra que os anjos maus se separaram de Deus querendo ser tão importantes como Ele. Segundo a tradição, o arcanjo expulsou-os dizendo: "Mi ca el", isto é: "Quem é como Deus?".

Podemos simplificar mostrando que é a tentação de dizer: "Eu sou importante!" Conseqüência: a pessoa se fecha ao mistério de si mesma, perde o caminho da própria interioridade e não consegue mais descobrir a fonte inesgotável de bens que Deus faz brotar em seu coração.

São Francisco advertiu seus irmãos:

Guardemo-nos bem da malícia e da astúcia de satanás, que quer que o homem não tenha a mente e o coração voltados para Deus, e deseja... cegar o coração do homem... e aí morar (RNB 20, 20-24

Diante de tanta cegueira e egoísmo para apropriar-se das coisas, das pessoas e de si mesmo, esquecendo-se do Deus que é todo Bem, o Pobrezinho concluiu:

E sabemos firmemente que a nós só pertencem os vícios e pecados (RNB 17,7).

4. Nossa salvação é a penitência

São Francisco tem uma consciência aguda de que o pecado é uma calamidade que acaba com o ser humano: recebemos um convite para o Bem e o rejeitamos.

Por isso, chega a dizer que

...todos nós, miseráveis pecadores, não somos dignos nem sequer de pronunciar vosso nome (RNB 23, 9).

De fato, por si, nosso pecado não tem volta. Mas, como o Amor de Deus não se limita, ele vem ao nosso encontro e nos dá mais uma oportunidade: a de fazer penitência.

No fim da vida, Francisco escreveu em seu Testamento:

Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E, quando me retirei deles... o que antes parecia amargo se converteu em doçura da alma e do corpo (Test 1-2).

Ele sempre se considerou um penitente e, quando começaram a perguntar a seus irmãos o que eles eram, mandou dizer: "Somos homens penitentes da cidade de Assis".

Certamente teve uma grande consciência da penitência pregada por João Batista e pelo próprio Jesus e foi a completa transformação da mente (a metánoia do Evangelho) o que ele procurou e propôs aos seus seguidores.

O seu documento mais interessante a esse respeito é a Carta aos Fiéis. Dividiu-a em dois capítulos: 1) "Dos que fazem penitência", e 2) "Dos que não fazem penitência".

Fica bem claro que "fazer penitência" não consiste em entregar-se a mortificações, ainda que elas possam ajudar o penitente. Os que fazem penitência são "felizes e benditos" porque são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo". Os que não fazem penitência "são cegos, porque não vêem a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo".

Jesus, que era o modelo do homem antes do pecado, também é o exemplo do homem penitente, depois da redenção.

Um dos aspectos fundamentais do projeto franciscano é ser anunciador da penitência, pelo exemplo e pela palavra, para que as pessoas sintam vontade de voltar para Deus e nele se realizarem.

Ora, essa pregação da penitência tem que estar fundamentada em uma convicção inabalável de que toda pessoa é capaz de se converter pela graça de Deus: diante dessa capacidade, não há nenhum ser humano que possa ser considerado menos humano do que os outros.

5. Contribuição franciscana para uma melhor visão do homem

Meu projeto também tem que abranger a missão de levar as pessoas do meu mundo a terem uma visão melhor do homem segundo Deus.

a) O cientificismo dos últimos tempos sempre partiu do princípio de que o ser humano é o centro de tudo. Agora, começa a ter medo de encontrar outras civilizações em outros planetas, que questionariam esse antropocentrismo.

A proposta franciscana reconhece a Deus como princípio e fim e mostra que o homem não precisa ser centro do mundo. Nem tem estrutura para isso.

Essa visão pode ajudar a vencer o egoísmo nos relacionamentos humanos e a impedir o aproveitamento e desrespeito às outras criaturas, que vai destruindo constantemente a natureza.

b) Vivemos uma cultura em que a pessoa humana só é levada em consideração quando é útil, enquanto está produzindo. Precisamos crer para nós mesmos e mostrar aos outros que qualquer vida humana é um dom, vale por ser uma parte da obra de Deus em sua bondade. Os anciãos, os doentes e mesmo outras pessoas que nos parecem limitadas são um louvor de Deus só por existirem.

Qualquer pessoa é um desafio para nós: o mistério de sua existência nos ques-tiona e nunca se esgota.

c) Muitos vão a um outro extremo e acham que uma pessoa só tem valor em função da sociedade, da raça, das causas sociais ou da política. Francisco e Clara nos ensinam a valorizar cada pessoa como templo de Deus. Chamadas por Deus, as pessoas formam a fraternidade e nela se expressam, mas nunca são tijolos de uma parede ou elementos perdidos na massa.

d) A pessoa se valoriza na doença. Francisco e Clara foram modelos de pessoas enfermas mas altamente positivas. Ensinaram a cuidar bem dos doentes e de seus problemas mas também que não devemos ser exigentes demais e estar prontos a ver diminuírem algumas de nossas forças e mesmo a cuidar da vida que não tem fim.

d) O ser humano é pessoa. Não vai deixar de ser pessoa única e irrepetível nem quando morrer.

6. O homem e o trabalho

O trabalho é uma graça, não é um castigo, nem deve ser um privilégio reservado a uma minoria. O homem não foi feito para trabalhar, para fazer, mas deve poder trabalhar para realizar os seus sonhos. Todo homem deve ter a graça do trabalho.

São Francisco escreveu em sua Regra:

Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção, de maneira que afugentem o ócio, inimigo da alma, e não percam o espírito de oração e piedade, ao qual devem servir todas as coisas temporais (RB 5).

Em nosso tempo, precisamos evitar fugir da realidade pelo trabalho exagerado e garantir a todos o direito de trabalhar.

7. Propostas práticas

1. Precisamos nos convencer profundamente de que a criatura humana é maravilhosa justamente por ser uma criatura: traz em si sinais incontáveis da perfeição da bondade que a criou. É em nossa interioridade que nos aguarda o maior tesouro.

2. Nosso corpo, com tudo que o constitui, é bom. Precisamos ajudar as pessoas marcadas por uma cultura negativa a valorizar o seu corpo e a recuperar uma visão positiva. Temos que aprender a adoecer e a morrer positivamente.

3. Para nos valorizarmos como humanos, precisamos de uma consciência clara do pecado: não dos pecados formais que as culturas criaram mas da desgraça de nos estarmos negando ao Bem ou cerceando o Bem.

4. Temos que ser penitentes. Nossa vida precisa de uma mudança radical, em que, de fato, nos centralizemos em Deus. Somos humanos na medida em que abrimos nossa vida para que "Deus seja" e nós cumpramos a sua vontade.

5. Começaremos um novo humanismo valorizando nossa fraternidade por cada um de seus membros, seja qual for a sua idade, formação, raça ou maneira de pensar. Quanto mais diferentes, mais nos enriquecem.

4.- Rezar com Jesus

Ensinando Inês de Praga a contemplar (3CtIn 12-13), Santa Clara escreveu:

Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória, ponha o coração na figura da substância divina, e transforme-se, inteira, pela contemplação, na imagem da divindade .

A contemplação é a oração em seu grau mais elevado. E a oração é, mais do que tudo, uma transformação da pessoa. Nós somos orantes quando nos transformamos no Cristo orante.

1. O diálogo

A oração é o encontro entre Deus e o ser humano. Atenção para o que estamos dizendo: não é apenas a pessoa buscando Deus, porque Deus também vem ao nosso encontro.

Francisco e Clara nos ensinam fundamentalmente a sermos pessoas que olham para Deus, que escutam Deus, porque é sempre Ele quem toma a iniciativa. Nossas orações costumam ser falhas porque não damos tempo a Deus para falar.

Temos que deixar que Deus nos conduza, porque o diálogo não é uma conversa a dois: é um processo de transformação.

Na oração mais antiga de São Francisco, que conhecemos, a que fez diante do Crucificado de São Damião, ele se abriu para Deus pedindo que o iluminasse por dentro e lhe desse todas as disposições necessárias para pudesse realizar o que Deus queria dele:

Altíssimo e glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração e dai-me uma fé direita, esperança certa e caridade perfeita, bom senso e conhecimento, Senhor, para que faça vosso santo e verdadeiro mandamento.

Embora não possamos datar com segurança as diversas orações de São Francisco que conhecemos, podemos, através delas, perceber com clareza que ele realmente foi sendo cada vez mais iluminado em sua interioridade, mais transformado em sua totalidade, até explodir na oração luminosa que é o Cântico de Frei Sol.

Na oração que escreveu como conclusão da Carta a toda a Ordem, ele mostrou qual era o caminho:

...dai a nós... fazer... o que sabemos que vós quereis, e sempre querer o que vos apraz, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e acesos no fogo do santo espírito, possamos seguir os vestígios de vosso dileto Filho....

"Interiormente purificados" foi sua maneira de expressar a primeira etapa do caminho ensinado pelos ascetas cristãos desde o séc. IV: a "via purgativa", em que a pessoa vai se purificando de tudo que não é de Deus.

"Interiormente iluminados" foi como expressou a segunda etapa, chamada de "via iluminativa", em que a pessoa começava a ser esclarecida por Deus no seu caminho.

"Interiormente acesos" foi como se referiu à terceira etapa: a pessoa já está na "via unitiva": ora em união com Deus, como Maria que vive a Trindade.

São Boaventura escreveu um trabalho admirável, o livrinho "Itinerário da Mente a Deus" para explicar a maneira franciscana de crescer no caminho da contemplação a partir do mundo fora de nós, passando pelo mundo dentro de nós e chegando ao mundo acima de nós.

2. Orar com e como Jesus

Dissemos que nos tornamos orantes quando nos transformamos no Cristo orante. Todo o caminho de transformação vivido na oração é um verdadeiro "processo de cristificação".

Foi Jesus, o Cristo, que nos veio oferecer a oportunidade de entrar em comunhão com a Trindade: viver a oração é viver a Trindade. Mas, para nós, isso tem que ser um processo dinâmico, histórico, tem que ser um projeto.

Jesus deu exemplo de tudo isso. Ele cultivou essa oração que era, também para ele, um processo progressivo de cristificação. Ele também foi ficando cada vez mais "cristo", foi se transformando cada vez mais no ungido, no messias.

Quando refletimos sobre as orações que Francisco nos deixou, percebemos que ele teve uma consciência clara desse processo. Ele realmente quis orar com Jesus e como Jesus. Foi assim que se tornou um "outro cristo".

Um dos melhores exemplos que nos deixou foi certamente o Ofício da Paixão, em que percebemos que tentou colocar-se em diversas situações de toda a vida de Cristo na terra (no seu tempo chamavam de "paixão" toda a vida de Jesus neste mundo) para imaginar como Jesus teria rezado em cada uma delas. Foi assim que criou ou reaproveitou quinze Salmos em que mistura essas orações do Antigo Testamento com exclamações do Novo Testamento ou muito pessoais dele mesmo, para estar na situação de Jesus.

No famoso Cântico de Frei Sol também é fácil perceber que o orante é Cristo. Francisco declara logo no início que "homem algum é digno de vos mencionar".

Ora, ele tinha dito a mesma coisa no cap. 23 da Regra não bulada:

E porque nós todos, miseráveis e pecadores, não somos dignos de dizer vosso nome, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo... vos dê graças, como agrada a vós e a ele (RNB 23, 9-10).

De fato, a tradição da Igreja, como podemos apreciar especialmente pelas mais antigas orações litúrgicas, sempre nos ensinou que a oração se dirige ao Pai, chega a ele por Jesus Cristo, com quem estamos unidos pela comunhão criada entre nós e ele pelo Espírito Santo. Não esperamos que Deus entre na nossa oração para ajudá-la -- nós é que entramos na oração de Deus.

Quem reza com Jesus Cristo, além de já entrar na vida da Trindade, está fazendo exercícios reais de ser Jesus Cristo. É principalmente na oração que nos identificamos com Jesus Cristo. Sem ela, é inútil pensar em atuar com Jesus Cristo sobre o mundo, porque é nela que aprendemos a enxergar o mundo como Jesus o vê.

É toda a nossa vida que é uma oração. Não podemos confundir esse processo com os nossos momentos de oração, em que nos recolhemos, sozinhos ou em grupos, para tomar consciência mais clara de como o processo está sendo realizado e para expressar isso com pensamentos, palavras, cânticos e gestos rituais. De vez em quanto, nós explodimos em comunicação, louvor, ação de graças, ou gritos de angústia, súplica e perdão.

No nosso projeto franciscano de vida é muito importante que cada pessoa procure repassar a história de sua existência para ver como Deus atuou nela a avaliar se sua resposta foi crescendo numa transformação que a está identificando com Jesus Cristo.

A oração é a fé que se expressa, é um conhecimento que cresce, é um comprometimento que não pára de crescer.

3. Oração interior

São Francisco começou sua vida santa quando, depois da falência de seus sonhos militares, sentiu-se perdido por um bom tempo e se refugiou na solidão. Os biógrafos comentam que "começou a sentir dentro dele um espírito novo que o levava a orar ao Pai".

Ele gostou da experiência e começou a procurar grutas e outros lugares solitários para rezar. Celano comenta:

Esforçava-se para que ninguém soubesse o que fazia lá dentro, para que o segredo fosse causa de maior bem, e buscava só a Deus em seu santo propósito. Orava com devoção para que Deus eterno e verdadeiro dirigisse seu caminho e o ensinasse a cumprir sua vontade. Sustentava em sua alma uma luta violenta e não conseguia parar enquanto não realizasse o que tinha resolvido em seu coração (1Cel 6).

Evidentemente, essa oração era mais do que tudo uma escuta, uma abertura à vontade de Deus, como ficou evidenciado pela oração que ele fez diante do crucifixo de São Damião. É na interioridade que a pessoa enfrenta o mistério de Deus aprendendo a andar no mistério de si mesma.

Nós somos o que somos por dentro. É dentro de nós, na verdade de nosso ser, que vive a verdadeira oração, que é o nosso caminho com Deus.

Nossas orações comunitárias e vocais têm que ser expressão e cultivo da oração interior. Correm o risco de serem apenas formalidade, que nos escondem mais ainda a verdade interior.

Um dos grandes meios de cultivar a oração interior é o recolhimento na solidão. São Francisco aproveitou a experiência dos eremitas, que já existiam na Igreja pelo menos desde o sec. IV e eram muito conhecidos no seu tempo. Deixou uma interessantíssima Regra para os Eremitérios, em que institui o eremitério fraterno, com dois frades mães e dois frades filhos. Es-tabeleceu vários eremitérios. Freqüentava-os tanto que ainda hoje podem ser visitados mais de vinte lugares onde o santo esteve em retiro eremita.

Ele queria que os frades vivessem como em um eremitério mesmo quando estivessem viajando em suas missões apostólicas. Uma passagem da Legenda Perusina atesta que ela ensinava:

Seja santo o vosso conversar, como se estivésseis no vosso eremitério ou na vossa cela, visto que, onde quer que estejamos ou por onde andarmos, levamos conosco a nossa cela, que é o irmão Corpo; e a Alma é o eremita, que mora lá dentro para orar e contemplar o Senhor. Se a Alma não consegue descobrir o silêncio e recolhimento interior de sua cela, de pouco aproveita ao religioso a outra cela, construída pela mão do homem (LP 80).

Podemos dizer que a experiência de Santa Clara foi viver com suas Irmãs em um eremitério perpétuo.

Na solidão, a gente assiste Deus agindo em nossa vida e assiste nossa vida reagindo a Deus. Se aprendemos a vive-la, conseguimos interferir para estar mais abertos para Deus e para dar-lhe uma resposta cada vez mais generosa.

Para Francisco, descobrir Deus na interioridade era como descobrir o caminho do castelo do Graal, que empolgava os contos de cavalaria do seu tempo. Era a busca incessante de um tesouro, de um bem cujo gosto - a proposta do amor de Deus - a gente já conseguiu vislumbrar.

Os biógrafos mostram Francisco rezando na solidão como quem conversava, ou cantava, ou tocava violino, ou dançava. A oração que vem de dentro nunca é formal.

4. Orações comunitárias

Deus ama a cada um de nós mas nos conduz como um Povo. É dentro da história do povo que a história de cada um é conduzida por Deus. Por isso, nós sempre ouvimos, assistimos Deus atuando sobre nós como povo, como conjunto de irmãos, e sempre respondemos a Deus como povo, como conjunto de Irmãos.

A oração oficial do povo católico é a Liturgia. Dentro dela destacam-se a celebração da Eucaristia e a Liturgia das Horas. Mas também são importantes as outras orações comuns, como os terços, as via-sacras, os cânticos, as peregrinações e procissões, que nos fazem tomar parte em grupos menores dentro do grande povo de Deus.

Francisco dava um valor especial à Missa e ao Ofício Divino. O principal é viver o ano litúrgico, entrar na torrente dinâmica do Povo de Deus que faz o seu êxodo para chegar à Terra Prometida.

O fundamento de toda a oração comunitária é a Palavra de Deus, que São Francisco chamava de "as odoríferas palavras do Senhor", ou, como diz na Carta aos Fiéis,

As palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Palavra do Pai, bem como as palavras do Espírito Santo, que são "espírito e vida" (2CtFi 3).

A celebração da liturgia faz de nós um povo que caminha entre a memória e a esperança, que ouve junto o que Deus tem para dizer e pode ser luz para todos os outros povos.

A oração comunitária serve tanto como fundamento e apoio de nossa oração pessoal como de expressão necessária de nossa fé em comum.

É claro que, nas orações comunitárias nós sempre ouvimos Deus e falamos com Deus, mas também nos envolvemos com nossos irmãos e irmãs. Nossa vida em comum deve encontrar seu sentido no fato de nos sentirmos uma comunidade de culto.

A fraternidade franciscana sempre foi unida na oração, desde os seus primeiros dias. Os biógrafos dizem que, mesmo quando não tinham breviários ou outros livros, eles rezavam juntos Pai-nossos e outras preces que Francisco inventava.

Celano também testemunha:

Porque caminhavam com simplicidade diante de Deus... inflamados pelo Espírito Santo, estavam cantando suplicantes o pai-nosso sobre uma melodia religiosa, pois não rezavam só nas horas marcadas mas em qualquer hora, uma vez que não tinham preocupações terrenas (1Cel 47).

São Boaventura também comenta que Francisco os havia ensinado a ler os livros do Evangelho, da cruz e da natureza:

Mas, no lugar desses livros, liam ininterruptamente, folheando e repassando, o livro da cruz de Cristo, dia e noite, instruídos pelo exemplo e pela palavra do pai, que lhes fazia continuamente o discurso da cruz de Cristo (LM 4,3).

Naturalmente, precisamos saber valorizar não só as orações comunitárias mas todo tipo de oração em que nos envolvamos com uma ou mais pessoas. Da mesma forma, temos que ouvir as preces dos outros e interceder por eles junto de Deus.

Na Regra não bulada, ficou esta calorosa exortação:

"E em toda parte, nós todos, em todo lugar, a toda hora, em todo tempo, todo dia, sem cessar creiamos verdadeiramente e humildemente e tenhamos no coração e amemos, magnifiquemos e agradeçamos o altíssimo e sumo eterno Deus, Trino e Uno, Pai e Filho e Espírito Santo, Criador de todas as coisas..." (RNB 23, 32-33).

5. Francisco ensina a rezar

Um tesouro precioso que nos sobrou são as orações que São Francisco compôs e chegaram até nós.

Na Oração diante de Jesus Crucificado, aprendemos a pedir a luz interior para descobrir que Deus mora em nossa interioridade. E nos colocamos em total disponibilidade para seguir o exemplo do Cristo da cruz, cumprindo a vontade do Pai.

Na Adoração a Jesus na Cruz, a nossa tão universal oração "Nós vos adoramos, santíssimo Senhor Jesus Cristo..." somos levados a nos lembrar a todo momento do amor de Deus por nós na cruz e a bendize-lo.

A Exortação ao Louvor de Deus é uma singela oração que São Francisco escreveu em uma tábua, misturando louvores bíblicos que aprendera na liturgia com motivos de louvor que ia descobrindo ao seu redor.

As Orações de Louvor para todas as Horas constituem um magnífico invitatório franciscano que nos prepara para aproveitar melhor o Ofício Divino. É o louvor trinitário mais acabado que Francisco compôs e contém a oração Onipotente, um de seus melhores momentos de exaltação de Deus Sumo Bem.

O Comentário ao Pai-nosso e a Saudação à Mãe de Deus ensinam a rezar melhor nossos habituais Pai-nossos e Ave-marias, mostrando todo o tesouro que podemos tirar de orações que, muitas vezes, rezamos distraídamente.

Também é muito rica a Saudação às Virtudes, especialmente se nos dermos conta de que ele está exaltando as virtudes de Jesus Cristo, que nós recebemos como um dom. Talvez fosse uma forma típica de pregação de Francisco.

Um dos pontos mais altos da oração de São Francisco está nos Louvores a Deus Altíssimo, a oração arrebatada e simples que ele escreveu em um bilhete para Frei Leão, pouco depois de ter passado pela tremenda experiência de receber as chagas de Cristo no Alverne.

Mas uma das mais preciosas orações de São Francisco é certamente o Ofício da Paixão, muitas vezes ignorado por seus filhos e filhas. Ele e Clara rezavam esse ofício todos os dias. Era a sua maneira de acompanhar toda a aventura terrena de Jesus: do Natal até a Ascensão. Francisco acompanha as horas canônicas e os tempos litúrgicos, tentando imaginar como Jesus rezaria em cada circunstância, para estar em oração com ele.

Dentro do Ofício da Paixão temos que destacar a repetição constante da Antífona de Nossa Senhora, que, como já vimos, encerra o ponto alto do projeto franciscano de vida.

Todos os Escritos de São Francisco estão permeados de orações, como se pode ver especialmente na Regra não bulada, em que seria preciso destacar especialmente o capítulo 23.

Também suas cartas voltam-se constantemente para Deus. Mas chamamos a atenção especialmente para a Oração que está na conclusão da Carta a toda a Ordem, por indicar com clareza e profundidade o caminho franciscano de oração.

A oração mais famosa de São Francisco deve ser o Cântico de Frei Sol, em que, quase no fim da vida, ele conseguiu expressar toda a luminosidade que tinha ocupado as "trevas do seu coração". Junto dela é bom lembrar o cântico Ouvi pobrezinhas, feito para as clarissas na mesma ocasião. São orações que nos ensinam a cultivar um coração franciscano e aberto para Deus.

6. O Louvor

Só duas orações de São Francisco: a que fez diante do Crucificado e a que encerra a Carta a toda a Ordem, contêm pedidos. Todas as outras são de adoração, ação de graças e, principalmente, de louvor.

Não é errado pedir. Jesus mesmo disse para pedir. Mas é preciso pedir com ele, ou, como ele ensinou, pedir "em seu nome". Isso quer dizer que primeiro precisamos querer nos identificar com ele, ansiar e pedir para nos identificar com ele em todas as atitudes possíveis.

Nas duas orações em que fez pedidos, Francisco queria luz interior e força para seguir os passos de Jesus e ser obediente como ele. Naturalmente, podemos pedir todas as outras coisas que nos parecerem necessárias ou oportunas, mas, se estivermos identificados com Cristo, vamos deixar as respostas nas mãos de Deus, tentando entende-lo com todo amor.

É interessante observar que algumas orações de louvor feitas por São Francisco, inclusive as que ele propõe na Regra, têm uma forma especial que se chamava "laudas". Era a sua maneira de pregar ao povo. Ele pregava exortando ao louvor de Deus.

Para o nosso bem pessoal e para o bem dos nossos irmãos e irmãs, nós devemos ser sempre capazes de indicar razões concretas e verdadeiras para louvarmos a Deus. Uma boa sugestão é não ir dormir sem louvar e agradecer a Deus por todas as coisas boas que aconteceram durante o dia. Mesmo pelas que parecem sem importância, se nos deram prazer.

7. Nossa oração hoje

Talvez o maior problema de nossas orações hoje em dia seja que se tornaram demasiado formais ou nós as fazemos de

maneira muito formal, como quem tem que cumprir uma obrigação.

Não temos que tornar as orações menos formais: temos que transformar a nós mesmos, principalmente cultivando a oração interior, ou contemplação.

Cada pessoa tem que descobrir o seu próprio caminho, mas é imprescindível que se reserve sempre alguma forma de estar na escuta de Deus, de maneira sossegada e receptiva.

Mas nossa oração nunca pode ser um fechamento em nós mesmos. É ela que mais deve abrir-nos para todo o mundo.

8. Propostas práticas

1. Rezar com Jesus Cristo, entrando na comunhão da Trindade. Para isso, temos que conhecer bem o Jesus dos Evangelhos e dar espaço e tempo para que Deus se comunique como Ele quiser.

2. Rezar com os irmãos e irmãs. Não só nas orações comunitárias marcadas. Também buscando companhia para a oração ou mesmo rezando unidos pela intenção ainda que separados pelo espaço. Também podemos rezar a própria vida de nossos irmãos e irmãs: eles são a comunicação mais viva e mais próxima de Deus para nós.

3. A nossa interioridade deve ser o ponto de encontro onde nos relacionamos com Deus, com o próximo, com as criaturas, e também com nós mesmos. É um mundo em que trabalhamos o que recebemos e o que vamos levar para fora.

4. Minha vida é uma oração. Como eu tenho vivido com Deus desde que nasci: isso é a minha oração. O que eu posso fazer é -- tendo consciência do que acontece -- melhorar minha oração.

5. Fazer uma lista dos motivos que eu tenho para louvar a Deus.