Frei José Carlos Corrêa Pedroso
PROJETO FRANCISCANODE VIDA
Centro Franciscano de Espiritualidade
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parte segunda
5. Fazer a vontade do Pai - A Obediência
Para São Francisco, a obediência é mais importante que a pobreza - porque ele a enxerga como a atitude fundamental de Jesus. Para ele, a obediência é a conseqüência natural de ver a Deus como "Todo o Bem". Deus quer nos comunicar todo o Bem e obedecer é acolher todo o Bem que vem de Deus.
Foi Jesus quem nos trouxe a revelação completa de que Deus é todo o Bem. Jesus é modelo de como nós devemos ser obedientes, porque acolheu o Bem sem reservas, e assim nos ensina a viver em plenitude. Essa é a boa nova.
1. Com Jesus, descobrir o Bem
Ser obediente como Jesus é aprender a "descobrir" o bem que Deus espalha em nossa vida.
Jesus veio mostrar que temos no céu um Pai cheio de amor. Ele alimenta os passarinhos, veste de roupas bonitas as flores do campo, manda o sol e a chuva tanto para os justos como para os injustos, revela aos pequeninos sabedorias que ficam escondidas aos grandes deste mundo. Ele é o Pai que nos dá o pão de cada dia e abre para nós as portas do seu Reino. Jesus vivia dando graças ao Pai e dizendo que estava de acordo com a sua vontade cheia de amor.
Francisco fala muitas vezes em revelação e em inspiração. Foram revelações para ele, por exemplo, o que encontrou abrindo o evangelho com Bernardo e Pedro (1Cel 92), assim como a resposta de Clara e Silvestre a seu pedido de oração. Via em toda parte a ação de Deus (LM 12. 2). Achava que os frades vinham para a Ordem (RNB 2) ou pediam para ir para as missões (RB 12, 2) por inspiração divina. Dizia que os candidatos deviam dispor de suas coisas conforme a inspiração do Senhor (RB 2, 9). Os superiores deviam agir com os frades que pecassem como lhes parecesse correspondente à vontade de Deus (RNB 5), e os missionários teriam que agir como lhes parecesse mais agradável a Deus (RNB 16, 8).
São Francisco mostrou especialmente em seu Testamento como se deixava levar por Deus. Escreveu: "O Senhor me concedeu, a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência... E o próprio Senhor me levou para o meio dos leprosos... E o Senhor me deu tanta fé nas igrejas... Depois o Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes... E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que eu tinha que fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou... O Senhor me revelou que dissesse esta saudação... Como o Senhor me deu de dizer e de escrever a Regra e estas palavras...".
Ser obediente como Jesus é deixar-se atravessar e conformar pelo Bem que vamos descobrindo. O obediente vai ficando semelhante a Jesus Cristo.
2. Com Jesus, obedecer ao Bem
Jesus mostrou como se obedece ao Bem. Ele é modelo de como o homem devia ser antes do pecado. Ele é modelo do penitente depois da redenção.
Desde o primeiro encontro com o Crucificado em São Damião, Francisco quer ser obediente como Jesus que morreu na cruz. Ele se impressionou com o Jesus que disse: "Eis que eu venho para fazer tua vontade" (Hb 10,5-9). E observou: "o Senhor nosso Jesus Cristo deu sua vida para não perder a obediência do Pai santíssimo" (CtFi 6, 56).
Ainda que se comova até as lágrimas diante do amor com que Jesus enfrentou por nós as dores e humilhações da Paixão, o que mais toca Francisco diante de Jesus Crucificado é a sua demonstração de obediência.
Na Oração diante de Jesus Crucificado, uma das poucas em que faz pedido, todo o desejo de Francisco é ser iluminado na interioridade para ser obediente à vontade do Pai.
Fazer a vontade do Pai é essência da vida de Jesus segundo Francisco, que escreveu na Carta aos Fiéis: "ele entregou toda a sua vontade na vontade do Pai dizendo: Pai, seja feita a vossa vontade, não como eu quero mas como vós quereis" (CtFi 1, 11). Francisco lembra que Jesus: "se fez obediente até a morte, e morte de cruz" (Fil 2, 6-8; Hb 5, 8). É a partir da obediência de Jesus que vai falar em fidelidade à Regra: obedecemos a ela como Jesus obedece ao Pai: "Porque renunciamos ao mundo, não temos nenhuma outra coisa a fazer senão ser solícitos em cumprir a vontade do Senhor e agradar a Ele" (RNB 22, 9). A obediência é a melhor maneira de viver a pobreza interior escolhida por amor de Jesus Cristo.
Nas biografias também são ressaltados alguns momentos especiais de obediência por parte de Francisco: a) Na visão de Espoleto: "Voltou sem duvidar, já feito modelo de obediência e transformado pela renúncia da própria vontade de Saulo em Paulo" (2Cel 6; LM 1, 3; LTC); b) ao Crucifixo de São Damião: "Mas logo se dispõe a obedecer e se concentra todo nesse convite" (2Cel 10); c) quando foi inspirado a deixar os prazeres: "Logo, se sentiu como que induzido a seguir a ordem do Senhor e empurrado para fazer a prova" (2Cel 9); d) quando ouviu o evangelho da missão: "Apressa-se então o pai santo, todo cheio de alegria, a realizar o salutar conselho; não agüenta esperar nem um pouco para por em prática fielmente tudo que tinha escutado... (1Cel 22; LTC 25).
3. Obedecer ao Bem nos Irmãos
Para Francisco e Clara, o que começava a fazer um franciscano ou franciscana era sentir dentro de si a inspiração para buscar a fraternidade. Essa inspiração era um Bem de Deus que dava um irmão novo à fraternidade e uma fraternidade aos irmãos e irmãs que chegavam.
Responder ao Bem de Deus que está nos irmãos e nas irmãs é serví-los vendo neles a expressão da vontade de Deus. Por isso mesmo, Francisco chamava a obediência franciscana de obediência caritativa.
Foi por confiarem que os irmãos e as irmãs estavam disponíveis "para a unção do Espírito Santo, que os instrui e instruirá em todas as coisas" (LP 61), que deixaram de dar prescrições meticulosas, como faziam as regras anteriores.
Temos um bonito exemplo na Carta a Frei Leão:
"Frei Leão, o teu Frei Francisco te deseja saúde e paz. Eu te digo isso, meu filho, como uma mãe, que todas as palavras que nós dissemos no caminho, eu resumo nesta frase como um conselho; e depois, se te for necessário vir a mim para te aconselhares, vem, porque assim te digo: de qualquer maneira que te pareça melhor agradar ao Senhor Deus e seguir os seus passos e a sua pobreza, fá-lo com a bênção de Deus e com a minha obediência. E se achar necessário para o bem de tua alma, ou para ter conforto, vir a mim, e o queres, ó Frei Leão, vem!" (CtLe).
Achava que cada um vivia Jesus Cristo servindo seus irmãos e irmãs:
"Por caridade de espírito sirvam-se voluntariamente e se obedeçam mutuamente. E esta é a verdadeira e santa obediência do Senhor Jesus Cristo" (RNB 5. 16).
Diferentemente do que ensinavam outros movimentos religiosos, para eles a obediência não estava ligada à humildade, que fazia as pessoas se submeterem aos superiores, mas à caridade, que as levava a descobrir Deus Amor e Bem uns nos outros. Na Saudação às Virtudes, ele disse:
Senhora santa Caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a Obediência!
Como conseqüência, sempre que quiserem conhecer melhor a vontade de Deus, os franciscanos têm que ouvir os irmãos e as irmãs: eles são o nosso tesouro, porque é principalmente neles que Deus é o sumo Bem para nós.
Por isso, o grande momento da obediência franciscana é o Capítulo Fraterno. Os Irmãos se reuniam em geral no tempo de Pentecostes e nas províncias no tempo de São Miguel. As Irmãs reuniam-se todas as semanas. Eram reuniões feitas em um enorme sentido de fé, mas imensamente alegres pelo relacionamento fraterno. Era quando mais estavam abertos para acolher a vontade do Senhor.
3. Os ministros
A obediência fraterna era tão fundamental para Francisco que ele não quis que seus irmãos tivessem abades, priores ou qualquer tipo de superiores. Tinham ministros. Ministro, em latim, é um servidor pequeno, um empregadinho. Tratava-se de um irmão encarregado de reunir os outros para que todos pudessem falar e ouvir, descobrindo o Bem que Deus estava querendo deles.
Para Francisco, o cargo de ministro era tão baixo que ele chegou a dizer, na sua quarta Admoestação, que se alguém fosse tirado do cargo de ministro devia perturbar-se menos do que se lhe tirassem o cargo de lavar os pés dos outros. E qualquer um podia ser feito ministro.
Mas, quando não estavam reunidos em capítulo, o ministro representava a voz da fraternidade. Na sua terceira Admoestação, Francisco dá uns princípios muito interessantes para a obediência aos ministros.
Em primeiro lugar, considera que para ser discípulo de Jesus é preciso renunciar a tudo e que nós deixamos tudo e perdemos o egoísmo quando nos entregamos inteiros nas mãos do ministro. Depois apresenta três casos específicos:
No primeiro: é verdadeira obediência tudo que um irmão faz de bom, mesmo que o ministro não tenha mandado.
No segundo: se o irmão quer fazer uma coisa boa, mas o ministro mandou outra, deve deixar o que é seu e fazer o que foi mandado pelo ministro.
No terceiro, se o ministro mandou alguma coisa que é contra a Regra comum ou contra a consciência do irmão, este não pode obedecer, porque é evidente que o ministro não está passando o Bem de Deus.
Mas, mesmo nesse caso, Francisco dá um precioso ensinamento: Ainda que não obedeça, o frade não deve separar-se de seu ministro e de seus irmãos, uma vez que o bem é vivido na fraternidade. Não deve separar-se nem que sofra perseguição por não ter obedecido.
Esta última recomendação tem dramáticos testemunhos em alguns documentos. Lembra que, pouco antes de morrer, Francisco mandou por escrito uma "Última Vontade" para Santa Clara, em que disse que ela não devia afastar-se da pobreza pelo ensinamento de quem quer que fosse.
Claro, para ele, a pobreza de Jesus era um dos maiores bens vindos de Deus. Por isso Clara resistiu a Gregório IX, que queria faze-la aceitar propriedades e esclareceu com firmeza que Inês de Praga devia apresentar a mesma resistência.
Para Francisco e Clara, quem professava na Ordem estava entrando "na obediência", porque a Regra, para eles, era o Evangelho na aplicação prática que tinham decidido viver. Sua motivação constante é: "Como diz o Senhor no Evangelho...".
Obedeciam-se uns aos outros querendo ser, como Nossa Senhora, "uma serva do Pai Eterno". Seu modelo é o Jesus do Ofício da Paixão, apresentado constantemente como quem obedece ao Pai.
4. Obedecer ao Bem em todos os seres humanos
Clara e Francisco estavam constantemente falando no desejo: eles viviam o desejo de encontrar Deus que é o Sumo Bem. Por isso, tinham "olhos do Espírito" para ver a presença desse bem em todas as pessoas. A sua obediência não se limita aos irmãos e irmãs: abre-se para todas as criaturas humanas.
Como queriam obedecer sempre ao Altíssimo, professavam também estar submissos a toda criatura humana, que é sempre imagem e semelhança de Deus, é sempre uma presença viva de Jesus. Como a obediência é amor, expande-se para fora da fraternidade como o Amor de Deus se expandiu chegando até nós.
Evidentemente, o que pensavam não era em levar o bem a todas as pessoas, como tantas vezes nós pensamos: eles iam descobrir o bem em todas as pessoas.
Como Deus não faz acepção de pessoas, encontravam sua presença de bondade especialmente nos mais pequenos, que não costumam ser reconhecidos pelos demais porque são pobres, ignorantes ou excluídos. Estes até merecem atenção especial. Clara manda que se escutem e se elejam especialmente as "mais discretas" e Francisco diz que os frades de-viam sentir-se felizes no meio dos mais pobrezinhos.
É claro que, além de enxergar os bens numerosos que existem no meio do Povo de Deus, também se davam conta dos inúmeros bens que lhes estavam faltando, principalmente por muitos terem sido injustiçados. Isso exige que obedeçamos a Deus no seu Povo tanto valorizando seus bens como partilhando os nossos e mesmo clamando por justiça..
Mas obedecer a Deus em todas as pessoas não é só cuidar dos bens dos indivíduos, é saber descobrir os sinais da bondade de Deus nos acontecimentos, tanto nos cotidianos como nos que vão fazendo história. É essa atenção à vontade bondosa do Senhor que deve nos levar a transformar o mundo.
A obediência a todas as criaturas humanas levanta uma observação muito importante: só os Irmãos e Irmãs que se comprometeram com a vida franciscana tomam parte nos capítulos, em que a fraternidade se reúne para ouvir a vontade de Deus. Mas a lembrança dos bens e das necessidades do Povo deve estar presente no coração, na boca e nas ações dos irmãos.
Se passarmos a visão franciscana da obediência para todas as pessoas, deixaremos de conhecer tanta gente que acolhe a vida cristã como um conjunto de exigências, sem perceber as alegrias em que Deus nos mergulhou com bondade.
5. Obedecer ao Bem em todas as criaturas
No Processo de Canonização de Santa Clara, surpreendemo-nos com uma declaração da Irmã Angelúcia. Disse que:
Quando a santíssima mãe enviava as Irmãs servidoras fora do mosteiro, exortava-as a que, vendo as árvores bonitas, floridas e frondosas, louvassem a Deus; e semelhantemente, quando vissem os homens e as outras criaturas, louvassem a Deus por todas e em todas as coisas (ProcC XIV,9).
Para Francisco, segundo o testemunho de Celano, todas as criaturas pareciam clamar: Quem nos fez é ótimo!
É que Clara, como Francisco, enxergava todas as criaturas como manifestações da bondade de Deus. Quem faz isso não está apenas sendo contemplativo: sente-se amado e responde ao amor. Responder ao Amor nas criaturas é obedece-las.
Na Saudação às Virtudes, Francisco escreveu:
"A santa obediência... torna o homem submisso a todos os homens deste mundo, e nem só aos homens, senão também a todas as feras e animais irracionais, para que dele possam dispor a seu talante, até o ponto que lhe for permitido do alto pelo Senhor" (cf. Jo 19,11).
Mas o interessante é perceber que eles não só estavam recordando o que São João disse: "por ele foi feito tudo que foi feito, e nada do que foi feito foi feito sem ele", mas também estavam querendo submeter-se a todas as criaturas como Jesus se submeteu. Por nosso amor e para nos ensinar que vivemos do bem e para o bem.
Jesus foi obediente para ser salvador, trazendo o amor infinito de Deus para reinar neste mundo.
Como seguidores de Jesus em todos os seus passos, Francisco e Clara queriam ser obedientes como ele também para colaborar na salvação do mundo.
Nosso mundo está mal sempre que dizemos não ao amor de Deus ou sempre que nos apoderamos dos bens que ele distribuiu em toda parte mas para o uso de todos. A obediência inverte a situação recolocando-nos na vontade do Pai.
Saber usar com gratidão tudo que encontrarmos na natureza é obediência porque também é acolhimento da bondade do Senhor. Mas se nós nos apropriamos de alguma coisa, usando o mundo como se fosse nossa propriedade, temos que devolve-lo para que a natureza e a humanidade sejam salvas.
É preciso lembrar que os homens já abusaram demais da criação, às vezes fazendo das criaturas os seus deuses, muitas outras vezes destruindo-as a seu talante. Quem leva a mensagem da Paz precisa devolver o que tirou, tem que fazer com que todos os bens sejam devidamente aproveitados por todos.
É interessante observar que mesmo as pessoas mais afastadas da espiritualidade franciscana enchem-se de admiração pela capacidade que Francisco teve de viver como no paraíso terrestre, sendo até amigavelmente obedecido pelas outras criaturas. É graças à obediência que ele realmente merece ser o patrono da ecologia.
Os homens bem-aventurados (segundo o Cântico de Frei Sol) são aqueles que suportam em paz até as enfermidades e tribulações, como fez o próprio Jesus. Esses terão a "perfeita alegria" na terra e "serão coroados" por terem vivido com Jesus a "paixão": vir ao mundo para ser obediente a todas as criaturas.
6. Uma obediência original entre os franciscanos
Fica evidente que a obediência franciscana é diferente da que as pessoas prestam aos comandantes, aos patrões, e mesmo aos "superiores".
Em um sentido estrito, de submissão, há mais obediência no mundo leigo do que no religioso. E os mais livres ainda são os franciscanos.
Ser obediente, na visão franciscana, é buscar continuamente - como pessoas e como fraternidade - qual é a vontade de Deus, que se manifesta por inspiração, de muitas formas mas principalmente através dos irmãos.
Obedecer é fazer com que a vontade com que Deus ama seja sentida em toda a obra da criação e passe a ser vida e ação dos seres humanos na história do mundo em que fomos colocados.
Mas isso é uma novidade até para os franciscanos de hoje.
O grande número de frades que entrou na Ordem levou a uma perda do espírito por parte de muitos e a um relaxamento da disciplina fraterna, que não se mantém por leis e coerções. Os próprios ministros recorreram às vezes à Santa Sé para reforçar a disciplina, passando a adotar a mesma "obediência" cheia de ordens e licenças, que caracterizava outros grupos, onde a instituição era mais importante que o amor fraterno.
São Boaventura, ministro geral de 1257 a 1274, chegou a escrever:
"O prelado faz a parte da cabeça no corpo da comunidade. Enquanto os outros membros se aplicam às atividades próprias de cada um, o chefe preside e provê a todos, regulando a função de todos os sentidos, governando tudo e transmitindo sensação e movimento a todos os membros, através das ordens e das concessões da santa obediência" (De sex alis seraphim, c. 6. in Opuscula mystica, Quaracchi 1965).
Para voltar à obediência franciscana as diversas fraternidades vão ter que revigorar todo o seu projeto de vida nas linhas da espiritualidade franciscana e principalmente recuperar consideravelmente uma vida fraterna capaz de descobrir na contemplação e na oração comum toda a beleza do Bem que Deus nos quer.
No capítulo 9 deste caderno ainda vamos abordar alguns pontos sobre a obediência à Santa Mãe Igreja.
7. Pontos práticos
1. Para ser obediente, minha primeira atitude tem que ser o cultivo da contemplação capaz de ver a bondade de Deus em todas as pessoas, em todos os aconte-cimentos e até nos animais e nas coisas.
2. Também é fundamental a atitude evangélica de Jesus, que sabia observar e dar graças por todos os bens de Deus que ia encontrando mas também sabia ler neles a vontade do Pai.
3. Se a bondade leva o próprio Deus a se por a serviço de todas as criaturas, que é que eu posso fazer para que minha bondade também encontre sua realização servindo a todos e a tudo?
4. Deus me deu irmãos e irmãs. Será que eu conseguiria escrever a história de como a vida em fraternidade foi me transformando através dos anos? Essa seria a história de minha obediência, uma história que ainda não acabou e talvez tenha que tirar atrazos.
5. Como posso ser mais obediente? Como eu estou conhecendo cada dia melhor a vontade de Deus em minha vida, o valor de meus irmãos (as pessoas que Deus coloca no meu caminho), o sentido do serviço a todas as criaturas?
6. Sem nada de próprio
A Pobreza franciscana não se refere às coisas e aos bens mas a Deus. É a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A pobreza em que as pessoas têm carência das coisas e das possibilidades de viver humanamente é conseqüência do egoísmo humano. É contra Deus e tem que ser combatida. Combatê-la é uma exigência de quem diz que ama a Deus, mas não é só questão de caridade: é questão de justiça.
Por outro lado, sempre existiu uma outra "pobreza", religiosa, mesmo em outras religiões. Considerando que as coisas deste mundo passam com facilidade, as pessoas que mais pensaram em Deus trataram de não se prender aos bens perecíveis para estar com o Senhor, que não passa.
Essa pobreza por motivo de religião, não por necessidade, teve e tem formas muito variadas: a pessoa não tem nada e vive sozinha, o indivíduo não tem nada mas se apoia em uma comunidade, deixam-se de lado os bens supérfluos mas se mantêm os bens espirituais, procura-se renunciar até a alguns bens necessários.
1. Francisco e Clara não fizeram voto de pobreza
As Regras de Francisco e Clara falam em viver o Evangelho sem nada de próprio. Eles não achavam a pobreza interessante; seu interesse era por Jesus Cristo. Como Jesus veio ao mundo e viveu sem nada de próprio, eles julgaram que deviam segui-lo nesse caminho. Clara deixou isso evidente quando respondeu a Gregório IX, que queria dar-lhe propriedades e propunha dispensá-la do voto de pobreza: "Não me dispense de seguir o meu Senhor Jesus Cristo".
Cultivando um fervoroso amor ao Filho de Deus, eles tiveram a sensibilidade de perceber que, portador do Bem, de todo o Bem, do único Bem, ele nunca prendia bem nenhum: todo bem cerceado deixa de ser bem.
É interessante acompanhar a história da consciência no desenvolvimento do ser humano, como pessoa ou como povo.
Numa primeira fase (mágica), a pessoa se sente parte da natureza, não questiona a causa das coisas e vive como se fosse simplesmente mais uma realidade deste mundo.
Numa fase posterior (mítica), começa a descobrir quem fez as coisas, já se sen-te diferente das outras coisas e reza às entidades que causam as coisas para que as ajudem a saber usá-las.
Na fase mental, o homem já conhece as causas verdadeiras das coisas e não tem mais por elas nenhum temor. Por isso, se apropria de tudo que pode. Apropriando-se, quer mandar e, quanto mais manda, mais se sente importante e quer ser tratado como tal.
Francisco e Clara perceberam que Jesus nunca fez isso, que ensinou claramente em suas bem-aventuranças que não devemos possuir, mandar, exigir que nos tratem com importância. Mais, que em suas tentações, ele resistiu justamente a esses três impulsos. Afinal, que Jesus veio para servir e não para ser servido.
Foram radicais: decidiram "não se apropriar de nada" como Jesus e cortaram as tentações de mandar e ser importantes.
2. Movimentos pauperísticos
Francisco e Clara podem ser vistos dentro dos movimentos de pobreza de sua época, mas sua experiência foi bem original.
Os movimentos pauperísticos eram constituídos por pessoas que não eram pobres: estavam começando a ser ricas. Era uma opção consciente e as motivações eram fundamentalmente religiosas. Francisco e Clara também eram pessoas ricas que se fizeram pobres por motivação religiosa.
Mas os movimentos também contestaram as riquezas da Igreja e isso Francisco e Clara nunca fizeram, a não ser com suas atitudes. Eles partiram de uma dedicação pelos pobres e, posteriormente, de um encontro com Jesus Cristo pobre. A pobreza deles é com humildade e amor, coisa que em geral faltava nos movimentos do seu tempo. É uma união e identificação com o Cristo pobre, com o Altíssimo que se fez pequeno.
3. O Altíssimo se fez pequenoSanta Clara resumiu em sua quarta carta a Inês de Praga toda a sua admiração pelo Altíssimo pequeno:
Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4CtIn 17-22).
Francisco também destacava a pobreza de Jesus no presépio e na cruz mas insistia na pobreza de Jesus especialmente na Eucaristia:
Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real ao seio da Virgem, vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; desce todos os dias do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote (Adm 1,16-18).
Ó admirável alteza, ó dignação estupenda! Ó humildade sublime, ó sublimidade humilde! Que o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, assim se humilhe a ponto de se esconder, pela nossa salvação, na pouca aparência do pão. Olhai, irmãos, a humildade de Deus, e abri diante dele os vossos corações, humilhai-vos também vós, para que ele vos exalte. Não retende nada para vós, portanto, para que vos acolha todos aquele que a vós se dá todo (CtOr 2).
Foi o exemplo de Jesus pobre que motivou a vida franciscana:
Caríssimos irmãos, o Filho de Deus era mais nobre do que nós e entretanto se fez pobre por nós neste mundo. Por seu amor, escolhemos a vida de pobreza, por isso não devemos ficar com vergonha de sair mendigando (2Cel 74).
É evidente que o esvaziamento do Filho de Deus motivou todas as suas formas concretas de pobreza:
Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens (Fil 2, 6-7).
Francisco e Clara passaram a vida admirando e imitando com o mais profundo amor e entusiasmo a pequenez e a pobreza humilde do
...Verbo do Pai, o qual, sendo tão digno, tão santo e glorioso, tomou do seio da santa e gloriosa Virgem Maria a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade. Ele, sendo rico, quis acima de tudo escolher a pobreza para si e para sua beatíssima mãe (CtFi 4s).
4. O pobre tem um Pai nos céus
Jesus é pobre principalmente porque está totalmente entregue nas mãos do Pai, como podemos ver em cada página do Evangelho.
Esse Pai, que Jesus partilhou conosco, ensinando-nos a rezar o "pai-nosso", é toda a bondade e nunca vai nos deixar faltar nada. Nós podemos nos entregar totalmente à tarefa de fazer a vontade dele -- que a Bondade chegue a todas as pessoas e a todas as criaturas -- sem nos preocupar com nada, porque ele, que cuida dos passarinhos e das flores do campo, não vai deixar que nos falte o que for necessário. Aliás, a única coisa verdadeiramente necessária é Deus mesmo.
Um dos principais aspectos da pobreza franciscana que de nada se apropria é o da "restituição", sempre inculcada por São Francisco:
Bem-aventurado o servo que devolve todos os bens ao Senhor, porque quem guarda alguma coisa para si esconde em si o dinheiro do Senhor seu Deus, e o que julgava ter, vai ser tirado dele (Lc 8,18) (Adm 18).
A pobreza franciscana não é negação do bem, não nasce do desprezo das coisas, mas é uma restituição, porque Deus é o grande esmoler que dá tudo e nós temos a honra de ser os pobres que recebem e partilham
São Boaventura escreveu na sua biografia de São Francisco:
Estava convencido de que devia restituir-lhes (aos pobres) o que era deles... Em todos os pobres, ele que era pobre e de espírito cristão, via a imagem de Cristo... Viu a miséria do pobre e não se conteve: "É preciso, disse ele ao companheiro, que devolvamos a esse homem o manto que lhe pertence. Nós o recebemos emprestado até encontrar uma pessoa mais pobre do que nós" (LM 8,5).
Francisco inicia o último verso de seu Cântico do Irmão Sol com a palavra agradecei, que ele escreveu "rengratiate", com esse prefixo re-, que dá a idéia de devolução. Para ele, além de ser a presença do "Bom Senhor", Jesus chefia a nossa grande ação de graças na Eucaristia.
Para Francisco e Clara, não temos direitos de propriedade, somos feudatários de Deus, nosso Senhor:
Tributemos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e sumo, e reconheçamos que todos são dele, e por todos rendamos graças a ele, de quem provêm todos os bens... Devemos convencer-nos de que não pertencem a nós senão os vícios e pecados (RNB 17,17; 23, 93-28).
Um dos aspectos dessa pobreza que vive confiante na providência de Deus é admitirmos que somos "fracos e pequenos". No mundo em que vivemos, de competição para ver quem tem e quem manda mais, somos uma contradição se somos franciscanos. Mas somos um sinal de uma vida bem melhor:
Esta é, irmãos caríssimos, a excelência da altíssima pobreza, que vos constituiu herdeiros e reis do reino dos céus, fazendo-vos pobres de coisas e ricos em virtudes. Esta seja a vossa porção, que vos conduza à terra dos vivos (RB 6,5).
Ou, como diz Santa Clara:
Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas. Ó santa pobreza, aos que a têm e desejam, Deus prometeu o reino dos céus, e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e a vida feliz! Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito! Pois ele disse que as raposas têm tocas e os passarinhos têm ninhos, mas o Filho do Homem, Jesus Cristo, não tem onde reclinar a cabeça. Mas, inclinando a cabeça, entregou o espírito (1CtIn 15-18).
6. Pobreza concreta
São Francisco chegou a um ponto sem retorno na sua conversão quando entregou ao pai até a própria roupa; Clara, quando vendeu tudo que tinha, deu-o aos pobres e saiu de casa. E essa foi a exigência para todos que quiseram seguí-los:
O senhor Bernardo, que era muito rico, foi e vendeu tudo que tinha, apurando muito dinheiro, que distribuiu inteiramente aos pobres da cidade (LTC 29).
Mas eles ainda vigiaram constantemente para que seus seguidores não co-meçassem a juntar outros bens:
O Senhor ordena no Evangelho: Cuidado, guardai-vos de toda malícia e avareza; e guardai-vos das preocupações deste mundo e dos cuidados desta vida. Por isso nenhum frade, onde quer que esteja, e onde quer que vá, de maneira alguma leve consigo ou receba de outros ou permita que sejam recebidos pecúnia ou dinheiro... (RNB 8, 1-2).
Evidentemente, não era uma recomendação só para os indivíduos. Eles também precisavam ser concretamente pobres como fraternidade:
Guardem-se os frades de aceitar absolutamente igrejas, pobres moradias e tudo que for construído para eles, se não forem como convém à santa pobreza, que prometemos na Regra, sempre nelas se hospedando como forasteiros e peregrinos (Test 28).
E uma pobreza concreta não se avaliava só por dinheiro, moradia ou objetos que se possuíam. Francisco e Clara não queriam saber nem de situações privilegiadas.
Santa Clara sempre pediu aos papas o "privilégio" de que ninguém jamais pu-desse obrigar suas Irmãs a terem qualquer propriedade. E São Francisco quis cortar o mal pela raiz quando insistiu no seu Testamento:
Mando firmemente por obediência a todos os frades, onde quer que estejam, que não ousem pedir carta alguma na Cúria romana, diretamente ou por meio de outra pessoa, nem para igrejas, nem para outros lugares, nem por motivo de pregação, nem por perseguição de seus corpos, mas, onde não forem recebidos, fujam para outras terras para fazer penitência com a bênção de Deus (Test 30-32).
A pobreza concreta é um testemunho que os franciscanos têm obrigação de dar a todos e que o Povo de Deus tem o direito de exigir deles. Como cristãos, temos que mostrar esse valor escatológico: já estamos na situação definitiva. No céu, ninguém vai ter propriedades, porque vamos partilhar todo o Bem.
A situação da sociedade e os sistemas de vida são, hoje, muito diferentes do que eram no tempo de Francisco e Clara. São situações que podem variar: quando os europeus chegaram à América espantaram-se de ver os índios conseguirem viver sem dinheiro e sem propriedades pessoais. Mas o seguimento de Jesus Cristo não muda e temos que descobrir for-mas sempre novas de viver a pobreza.
Em uma sociedade de consumo, vamos testemunhar que podemos passar sem tantos supérfluos. Em cidades em que as pessoas se amontoam, principalmente as mais pobres, temos que dar testemunho de partilhar socialmente o espaço que os mais antigos nos deixaram. A criatividade deve mostrar caminhos.
Mas uma pobreza material de verdade precisa estar ligada à minoridade, ao serviço, à humildade. Se o fato de eu ser mais pobre não me coloca a serviço dos outros (principalmente daqueles de quem ninguém cuida) eu estou é cuidando egoistamente de mim mesmo e não sou nem cristão, quanto mais seguidor de Francisco e Clara de Assis!
7. A Senhora Pobreza
O fato de Francisco ter mitificado a pobreza como uma donzela, a Senhora Pobreza, mostra como ela atuou em sua interioridade para levá-lo ao Graal: ser um servo como Jesus Cristo.
A pobreza de Jesus era vista como uma pobreza material, mas assumida por motivos espirituais: para ser como o Jesus do presépio, o Jesus da Eucaristia e o Jesus da Cruz. Evidentemente, tudo isso pressupõe que a pessoa tenha se esvaziado por dentro.
Por isso, Celano lembrou:
A quem queria entrar na Ordem o santo ensinava a repudiar antes de tudo ao mundo, oferecendo a Deus primeiro os bens externos e depois fazendo o dom interior de si mesmos (2Cel 80).
Certa vez disse que um homem de grande cultura deveria resignar, de certa forma, até à ciência, quando entrava na Ordem, para que, despojado dessa posse, se lançasse despido aos braços do Crucificado (2Cel 194).
Na Admoestação 14, o próprio Francisco escreveu, com muita sabedoria:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Há muitos que perseveram nas orações e trabalhos, fazendo muitas abstinências e suportando aflições em seus corpos. Mas, por uma só palavra que parecer injúria para o seu próprio eu, ou por alguma coisa que tirarem deles, logo se perturbam, escandalizados. Esses não são pobres de espírito; porque o verdadeiro pobre de espírito odeia a si mesmo e ama os que batem em seu rosto (Adm 14).
De fato, é na interioridade que uma pessoa "ilumina as trevas do seu coração" e vai descobrindo como se transformar dia a dia em um novo Cristo. Por isso Francisco dizia que não nos devemos apropriar nem dos bens espirituais.
Acima de tudo, para sermos humanos de verdade, precisamos ser pessoas livres. Ora, é impossível ser livre quando se tenta apropriar-se do que quer que seja, principalmente quando queremos nos apropriar das pessoas. Tudo que existe neste mundo foi colocado aí por Deus para nós usarmos mas, quando nos apropriamos, quando queremos fazer das coisas ou das pessoas uma posse particular, nós violentamos as coisas, nós desumanizamos as pessoas.
Você acha que não possui nem tenta possuir ninguém? Já pensou que nossos problemas fraternos, desentendimentos, etc., são justamente porque queremos impor nossa vontade, isto é, possuir?
Por não sermos pobres uns com os outros, vivemos nos prendendo e impedindo. Pior ainda: tudo que nós prendemos nos amarra. Só é verdadeiramente livre quem, como Jesus, como Francisco e Clara, consegue passar pela vida usando tudo que for preciso com reconhecimento e alegria, mas sem guardar nem carregar nada.
Não é verdade que tudo que você possui: lugar de onde não pode mudar, trabalho que não pode deixar, objetos de que não consegue se livrar, opiniões que nunca pode mudar... não é verdade que isso tudo está acabando com a sua liberdade?
Os quase oito séculos de história franciscana são uma longa história da pobreza. Nossa família sempre se dividiu, se reuniu, cresceu e se multiplicou em torno de problemas e até de lutas por causa da pobreza. Filhos e filhas de São Francisco e Santa Clara, sempre fomos e continuamos a ser questionados pela pobreza. É isso que nós estamos vivendo hoje? É esse o testemunho que nós damos? Como é possível viver a pobreza hoje?
8. Conclusões
Pouco antes de morrer, São Francisco escreveu um bilhete para Santa Clara:
Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe, e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja.
Essa é a proposta franciscana. A maior dificuldade que os seguidores de Francisco e Clara encontraram para seguí-la, desde o tempo deles até hoje, foi o fato de viverem em um mundo que não a entende nem quer saber dela.
É possível que, hoje em dia, o problema tenha se agravado, por vivermos em uma sociedade consumista e em um mundo globalizado, que dá mais valor às riquezas que às pessoas e a Deus. Somos muito influenciados pelo mundo em que vivemos.
Mas, tudo que refletimos neste capítulo, mostra que não podemos nos limitar a lutar para ser pobres apesar de todas as dificuldades. Nós também temos que convencer todas as outras pessoas de que a proposta da pobreza é profundamente humana e pode resolver os problemas do mundo, ainda que não seja fácil.
Estamos convencidos de que podemos pelo menos acender uma vela na escuridão para convencer algumas pessoas a começarem a não se apropriar tanto, a não querer dispor tanto dos outros, a não terem tanta sêde de serem admiradas e cultuadas pelos outros.
Mas a visão franciscana também nos convence de que não podemos ser pobres só ou principalmente por razões sociais. Mesmo que não houvesse pobres que exigissem nossa presença e serviço, nós deveríamos ser pobres, porque Jesus foi pobre. Temos que estar com os pobres mas, mesmo que todos fossem ricos, nós deveríamos ser pobres: porque os bens de Deus não se prendem, são para partilhar.
9. Propostas práticas
1. Nosso projeto franciscano de vida pede que nunca deixemos de buscar for-mas de sermos mais pobres, pobres de verdade, como Jesus pobre. Precisamos conhecer melhor o Cristo que encontramos nos Evangelhos.
2. Não recorrer às pessoas poderosas na hora do aperto. Cultivar amigos que não podem ajudar materialmente. Não confiar no futuro por causa do dinheiro, dos diplomas, das habilitações. Considerar mais a pobreza do Jesus do Evangelho e ser filhos confiantes do Pai eterno.
3. Precisamos cultivar o vazio da nossa interioridade, porque ele é o lugar de Deus em nós. Nós o abandonamos quando nos enchemos de atividades e de preocupações. Santa Clara ensina que podemos aumentar nossa virgindade, nossa consagração a Deus aumentando o espaço para ele em nossa vida.
4. Precisamos cultivar a austeridade: aprender a viver sem supérfluos de qualquer tipo. Podemos fazer uma lista de todas as coisas que estamos carregando conosco e poderiam muito bem ser usadas por outras pessoas. Temos que restituí-las quanto antes.
5. Rever as coisas, lugares, opiniões, trabalhos, pessoas... que temos dificuldade para largar. Essa atitude não é sinal de falta de confiança no Deus que é Pai? Será que Deus não tem mais nada para nos dar? A experiência não nos ensinou que Deus é sempre novidade?
7. Deus me deu irmãos
Em seu Testamento, com toda aquela sua visão de que era Deus quem agia em sua vida, Francisco deixou essa frase significativa: "Depois que o Senhor me deu irmãos...".
De fato, o que conhecemos de sua história anterior não fazia prever que ele fosse buscar irmãos para a sua forma de vida. Foi presente. Foi, talvez, a maior presença do Deus Sumo Bem na nova proposta que estava sendo feita à Igreja.
Foi quando Bernardo de Quintavalle e Pedro Cattani se juntaram a Francisco que começou o movimento franciscano, e eles descobriram juntos os princípios evangélicos que haveriam de norteá-los. A vinda de Clara e suas Irmãs enriqueceu mais ainda o movimento, que se ampliou também com os irmãos e as irmãs da penitência, a ordem terceira.
Mas, nas pessoas, o Bem de Deus não é apenas um presente: é um questionamento que provoca um dar e receber, um relacionamento semelhante ao que existe na vida da Trindade.
1. A Fraternidade renasce na Idade Média
Descobrir irmãos e irmãs em todas as pessoas foi a maior novidade do cristianismo. Eles chamaram de ágape esse amor novo, que permitia descobrir a riqueza da imagem e semelhança de Deus em qualquer ser humano. E as pessoas começaram a festejá-lo com alegria nos seus encontros de Eucaristia. A Eucaristia alimentava a fraternidade.
Na Alta Idade Média, pouco antes do tempo de Francisco e Clara, houve um renascer dos movimentos fraternos, que, provavelmente, também contribuiu para que houvesse um renascimento da devoção e da prática eucarísticas.
Surgiram muitos movimentos fraternos. Talvez possamos atribuí-los à reforma da Igreja feita pelo papa Gregório Magno (1073-1085), mas foi certamente um "sinal dos tempos", mostrando que Deus não se esquece do seu Povo.
Era o ambiente propício para que surgisse o movimento franciscano.
Celano, contando a adesão de Bernardo de Quintavalle, comenta:
São Francisco teve uma alegria enorme com a chegada e a conversão de um homem de tanto valor, pois reconheceu que o Senhor cuidava dele, já que lhe mandara um companheiro tão necessário e um amigo tão fiel (1Cel 24).
Mas nem ele poderia imaginar onde Deus queria chegar. A vida fraterna que se reuniu em torno dele cresceu em número e em qualidade. O mesmo biógrafo comenta mais adiante:
Que caridade enorme abrasava os novos discípulos de Cristo! ... O fato é que, tendo desprezado todas as coisas terrenas e estando livres do amor próprio, consagravam todo o seu afeto aos irmãos, oferecendo-se todos para atender às necessidades fraternas. Reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos; para eles era pesado estarem separados, o afastamento era amargo e o partir doloroso... (1Cel 38-41).
Não há dúvida de que os irmãos e irmãs de Clara e Francisco, nas suas três Ordens, crescendo aos milhares em poucos anos, trouxeram uma renovação profunda a toda a Igreja. A consciência da fraternidade divina, trazida por Jesus Cristo, cresceu.
2. A originalidade dos franciscanos
A novidade dos franciscanos foi que formaram, de fato, um novo tipo de ordem religiosa. A Igreja do Ocidente, só conhecia, até então, os monges e cônegos, que viviam uma "vida comum" ou comunidade. O novo grupo ia escolher a "vida fraterna", formando fraternidades.
No Oriente havia monges de São Basílio e de São Pacômio. Os do Ocidente, seguiam todos a Regra de São Bento. Eram uma família chefiada pelo Abade (abbá = pai), que vivia à semelhança de uma pequena Igreja. Retiravam-se do mundo e era essencial para eles viver sob um teto comum, com dormitório, refeitório, roupas, trabalho, tudo em comum.
Tinham surgido também os cônegos, que seguiam uma proposta de vida orientada pelos princípios de Santo Agostinho. Eram encarregados de manter a celebração do Ofício Divino nas igrejas catedrais e colegiadas e, por isso, também tinham que viver uma vida em comum numa casa próxima à igreja.
A vida em comum era sustentada pela "observância regular", um conjunto de normas que previa horários, métodos de trabalho, relacionamento contínuo.
Embora tenham sido levados posteriormente a aceitar a vida comum, os franciscanos não nasceram para isso. Sua proposta era a da vida fraterna: o que importava não era a observância regular mas o irmão.
Uma das primeiras manifestações concretas do novo espírito foi receber com facilidade e alegria quem chegasse, não importando se fosse nobre ou plebeu, preparado ou sem estudos: só olhavam que era um irmão, mandado por Deus, porque fora inspirado a procurá-los pelo Espírito Santo que morava neles. O cardeal Jacques de Vitry, uma testemunha de fora da Ordem escreveu:
Recebem em sua religião, aberta a todos, sem fazer nenhuma dificuldade e com confiança tanto maior quanto não têm nenhum temor, porque se confiam totalmente à munificência e providência divinas. Aos que vêm dão o cíngulo e a túnica, deixando o resto por conta de Deus (Historia Occidentalis 11).
Eles não tinham nem uma casa comum, pois se abrigavam cada dia onde conseguiam. Também não tinham trabalho comum: cada dia iam descobrir no que podiam trabalhar, no meio das outras pessoas do "mundo". Costumavam sair para pregar dois a dois, ou em pequenos grupos. Reuniam-se em grupinhos para rezar e o que chamavam de "capítulo" era uma reunião anual, no tempo de Pentecostes, em que, acima de tudo, partilhavam a vida fraterna.
Em vez de "observâncias regulares" como os outros religiosos, o que organizava sua vida consagrada era o modo de viver com os irmãos. Por isso, Francisco foi estabelecendo princípios como estes:
Cada um ame e nutra o seu irmão, como a mãe ama e nutre o seu filho, nas coisas que o Senhor lhe der a graça... Se a mãe ama e nutre o seu filho segundo a carne, quanto mais solicitamente deverá cada um amar e nutrir seu irmão segundo o espírito" (RNB 9,13; RB 6,10).
Bem-aventurado o servo que ama e respeita seu irmão quando ele está longe do mesmo jeito que quando ele está perto, e não diz nada por detrás dele que não possa dizer com caridade na sua frente (Adm, 25).
Era uma contínua descoberta do Deus Bondade na vida dos irmãos:
E cada um manifeste ao outro as suas necessidades, para que o outro encontre as coisas necessárias e as dê (RNB 9,3; RB 4,6).
Principalmente o sentido de hierarquia foi completamente invertido, porque Francisco não queria que a fraternidade tivesse abades, priores, ou superiores. Inventou os "ministros", palavra que indica um empregado subalterno. E ensinou:
E os ministros os acolham com caridade e benevolência, e mostrem para com eles tanta familiaridade que possam falar com eles como patrões com os seus servos; de fato, assim deve ser, que os ministros sejam servos de todos os frades (RB 10, 6-7).
Mesmo as coisas mais importantes eram habitualmente deixadas a critério de cada irmão ou irmã. Clara, tão ciosa da pobreza, escreveu em sua Regra:
Se for mandada alguma coisa a alguma Irmã por seus parentes ou por outros, a abadessa faça com que lhe seja entregue. Ela, se tiver necessidade, pode usar; se não, partilhe caridosamente com a Irmã que precisar (RSC 8,9).
O importante era que vivessem um espírito aberto de partilha fraterna. Segundo Tomás de Celano, Francisco disse:
"Quero que meus frades mostrem que são filhos da mesma mãe. Que cada um dê com liberalidade ao outro o hábito, o cordão, qualquer coisa que ele pedir. Ponham em comum os livros e tudo que possam desejar, insistindo com os outros a que tomem o que precisam". E era sempre o primeiro a fazer tudo isso (1Cel 180).
3. Testemunhos de fraternidade por parte de Francisco
Francisco tinha um conceito tão elevado da fraternidade cristã que até escreveu em sua Regra:
E quem quer que venha a eles, amigo ou inimigo, ladrão ou bandido, seja recebido com bondade (RNB 7,15).
Era uma atitude bem diferente da dos ascetas antigos, que faziam até os candidatos esperarem dias fora da porta para confirmarem sua vocação.
Aliás, não muito tempo antes de Francisco e Clara, Santa Hildegarda tinha escrito:
Quem reuniria todos os seus animais em um só rebanho, num só estábulo, sem distinção entre bois, asnos, ovelhas e cabras? Por isso também nós temos que nos ater a uma nítida distinção... O próprio Deus estabeleceu essas distinções no seu povo, não só na terra mas também no céu.
A alegria de Francisco e Clara era justamente acolher tanta variedade de dons em irmãos e irmãs tão diferentes. O Espelho de Perfeição diz que Francisco queria juntar, para formar o frade ideal:
A fé de Frei Bernardo, que a tinha tão perfeita quanto seu amor à pobreza; a simplicidade e a pureza de Frei Ângelo, que foi o primeiro cavaleiro a entrar na Ordem e foi dotado de grande cortesia e gentileza; a distinção e o bom-senso natural de Frei Masseu com sua bela e piedosa eloqüência; o espírito elevado à contemplação que Frei Gil teve em toda a sua perfeição; a prece virtuosa e constante de Frei Rufino, que rezava constantemente, sem parar: fosse dormindo ou trabalhando seu espírito estava sempre com o Senhor; a paciência de Frei Junípero... que tinha constantemente na consciência a evidente realidade de sua própria vileza e um ardente desejo de imitar a Cristo... o vigor corporal e espiritual de Frei João das Laudes, que no seu tempo suplantava em força corporal os outros homens; a caridade de Frei Rogério, cuja vida inteira e conversão foram inspiradas por uma fervente caridade; enfim, a inquietação de Frei Lúcio... que não queria ficar em um mesmo lugar mais que um mês, pois quando começava a gostar de um lugar punha-se de novo a caminho, dizendo: "Não temos morada aqui, mas no céu" (EP 85).
É só lembrar sua atitude quando um frade, ainda nos tempos de Rivotorto, gritou de noite que tinha fome: ele acordou todos para fazerem uma refeição fora do programa, para que o pobrezinho não ficasse envergonhado. Da mesma forma, quando um doente lhe disse que tinha vontade de comer uvas, foi com ele até uma vinha e o ajudou alegremente.
4. Testemunhos de fraternidade por parte de Clara e suas Irmãs
Clara entrou na Ordem para viver o projeto franciscano de vida mas teve a surpresa de, três anos depois, ter que aceitar a regra beneditina, que não falava do seu principal ideal, a pobreza, nem tinha a sua visão de fraternidade.
Por isso, é surpreendente a Regra que ela apresentou trinta e três anos depois de ter tido que obedecer as adaptações da Regra feitas para ela pelo cardeal Hugolino e pelo Papa Inocêncio IV.
Os papas exigiam o mais rigoroso silêncio perpétuo, e ela defendeu diversas possibilidades de conversar, porque a vida fraterna depende da comunicação.
Os regulamentos anteriores pareciam supor que as Irmãs eram menores de idade, e ela confiou totalmente nelas, inclusive criando o cargo de vigária ou vice, o conselho da fraternidade e o capítulo semanal em que todas tinham voz. Foi a primeira pessoa que fez isso na Igreja. Nem os frades conheciam essas idéias.
Além de lutar pelo privilégio da pobreza, que impedia a discriminação dentro de casa, porque ninguém tinha que trazer dote, valorizou a palavra de todas as Irmãs, mesmo as mais discretas.
Por isso, Celano pôde comentar sobre as suas Irmãs Pobres logo no início:
Antes de tudo, elas possuem a virtude da mútua e constante caridade, unindo a tal ponto suas vontades que, vivendo em número de quarenta ou cinqüenta em um mesmo lugar, o mesmo querer e não querer parece fazer de todas um só espírito (1Cel 19).
Clara dispôs que "todas as responsáveis por cargos no mosteiro" fossem escolhidas "por comum acordo" e que a primeira característica de seu serviço era "conservar a unidade do amor mútuo e da paz" (RSC 4, 22).
A solicitude materna que Clara espera da abadessa é manifestada em atenções como providenciar roupa adequada "com discrição... como lhe parecer exigido pela necessidade" (RSC 2, 16) e dispensar do jejum as jovens, as doentes, ou as que trabalham fora do mosteiro.
Os trabalhos eram distribuídos "diante de todas" (RSC 7, 3-5). A abadessa devia não só estar pronta para ajudar as que estavam aflitas no espírito (RSC 4, 11-12), mas evitar cuidadosamente amizades particulares que quebram o grupo (RSC 4, 10).
No seu Processo de Canonização, as Irmãs apresentam numerosos exemplos de suas atenções fraternas. Uma dessas atenções talvez esteja no fato de mandar rezar o Ofício "sem canto" (RSC 3, 2), porque na sua casa, onde não havia distinção de Irmãs que rezavam o Ofício e Irmãs que cuidavam dos trabalhos domésticos, nem se podia pensar nos longos ensaios que a liturgia cantada pressupunha.
Por isso ela pôde escrever:
Admoesto e exorto no Senhor Jesus Cristo que se guardem as Irmãs de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissensão e da divisão. Antes, sejam sempre solícitas em conservar, umas com as outras, a unidade do amor mútuo, que é o vínculo da perfeição (RSC 10, 6-7).
A Regra de Santa Clara pode ser vista como um desenvolvimento da Forma de Vida que Francisco lhe deu em 1212 e com a Antífona de Nossa Senhora: tudo é pen-sado para levar à prática quotidiana o exemplo de vida de Nossa Senhora em seu relacionamento com a Santíssima Trindade. E tudo é celebrado numa liturgia fraterna.
Mesmo não escondendo os defeitos das Irmãs, ela mostra todo o seu amor:
Se acontecer, tomara que não, que surja alguma vez entre duas Irmãs uma ocasião de perturbação ou de escândalo por causa de alguma palavra ou gesto, a que tiver causado a perturbação imediatamente, antes de oferecer o dom de sua oração diante do Senhor, não só se prosterne humildemente aos pés da outra, pedindo perdão, mas também rogue com simplicidade que interceda por ela diante do Senhor para que a perdoe. Mas a outra, lembrando a palavra do Senhor: Se não perdoardes de coração também o Pai dos céus não vos perdoará, perdoe generosamente sua irmã por toda ofensa que lhe tenha feito (RSC 9, 6-10).
5. Testemunhos na história
Além das biografias de São Francisco e do Processo de Santa Clara, que apre-sentam muitos exemplos da bonita vida fraterna que era vivida por seus primeiros seguidores, temos outros testemunhos esparsos, mesmo de fora da Ordem.
Jacques de Vitry, que nos dá informações de 1216, diz que os frades se reuniam em capítulo uma vez por ano no lugar estabelecido, para alegrar-se no Senhor e comer juntos, tirando desses encontros notáveis benefícios (Carta 1216).
Mas poderíamos destacar também os preciosos exemplos que podemos ler nas crônicas de Jordão de Jano e de Tomás de Eccleston, referentes, respectivamente, aos primeiros frades na Alemanha e na Inglaterra.
Entre outros casos, Jordão de Jano fala da humildade de um Frei Nicolau, que não queria ser guardião mas, no ofício, era amável para com todos participando dos trabalhos domésticos e fazendo com os irmãos as penitências que lhes impunha (47-49). Outro guardião, Frei João, "cuidava com carinho e dirigia todos os seus irmãos como uma mãe a seus filhos e uma galinha a seus pintinhos, na paz e na caridade, e em toda consolação" (55).
Falando do capítulo geral de 1221, Jordão comentou: "Quem pode explicar como era grande a caridade entre os irmãos nesse tempo, e a paciência, humildade, obediência e carinho fraterno? (16).
Tomás de Eccleston louvou os frades antigos, que serviam a Deus "não por meio de constituições" mas com fervor e "os livres afetos de sua devoção" (Ec 5)
Eccleston também conta que, quando Frei Estêvão governou em Salisbury, "a caridade mútua floresceu de um jeito especial", pois "não deixava que ninguém ficasse triste, usando toda a sua habilidade" (7). Havia também um Frei João, com tanto jeito para confortar os irmãos que "muitos de outras províncias que estavam desolados vieram a ele e pareciam prosperar com os seus cuidados" (9). A caridade para com os doentes estava presente em grau heróico no caso de Frei Guilherme, que ficou com um irmão atacado pela peste mesmo quando os outros fugiram, e que morreu por causa disso (13). Os irmãos mal podiam suportar a separação provocada por receberem novos destinos e muitas vezes acompanhavam um ao outro até a nova missão e depois iam embora em lágrimas (5).
Aliás, muitos irmãos e irmãs franciscanos teriam numerosos casos para contar sobre os exemplos vivos de vida fraterna que existiram em todos os tempos da família franciscana, mesmo quando se enfrentaram episódios tristes.
6. Fraternidade com todas as pessoas
Viver como irmãos é a grande utopia da humanidade, parece que é um desejo contido no coração de todos os povos. Mas as pessoas de nosso mundo desacreditaram da possibilidade de viver esse ideal. Nós temos que ser testemunhas para os que estão na Igreja e para a toda a humanidade.
Para os cristãos, viver a fraternidade não é uma meta, é um ponto de partida, porque Jesus já nos adotou como irmãos e filhos de Deus.
Para nós e para os outros, temos que saber cultivar o mistério do outro. Quem se abre para o mistério do outro descobre Deus e a si mesmo com mais facilidade e mais objetividade.
7. Fraternidade com todas as criaturas
No final de sua vida, São Francisco integrou no Cântico de Frei Sol todas as criaturas como nossas irmãs, inclusive formando pares de masculino e feminino.
Nossa fraternidade se estende a todos os seres, incluindo os animais, as plantas, os minerais e os outros corpos do universo. O mistério da bondade do Criador que nelas se esconde e se revela é fundamental para a compreensão de nosso próprio mistério. Ajuda a iluminar as "trevas do nosso coração".
Especialmente em nossos dias, essa visão das criaturas pode contribuir validamente para a defesa da vida, para a preservação de tantas espécies animais em extinção, para um posicionamento diferente diante de todos os outros seres.
Precisamos voltar à paz com a natureza para poder construir a paz entre nós mesmos, e dentro de nós.
8. Elementos concretos da vida fraterna
Os irmãos e irmãs franciscanos se reúnem um uma fraternidade de comunhão com Deus, com todas as pessoas e com todas as criaturas que, é ao mesmo tempo, uma fraternidade de culto e uma fraternidade apostólica.
Para isso, temos que acolher sem diferenças todos os irmãos e colocar toda a nossa confiança e segurança na fraternidade.
São Francisco ensina que devemos nos alegrar com os bens de Deus que venham em qualquer pessoa como se viessem em nós mesmos.
9. Pontos práticos
1. Recuperar o sistema fraterno, baseado nos irmãos e irmãs e não na organização ou na observância regular. Não é tão seguro, exige muita criatividade, mas é a nossa vocação e pode fazer-nos crescer muito mais.
2. Acolher cada irmão ou irmã como a presença questionadora de Deus em nossa vida. Cada pessoa trazida pelo Senhor para nossa fraternidade vem para mante-la viva, sem deixá-la estagnar.
3. Recordar testemunhos de nossa fraternidade que nos formaram na vida franciscana. Os exemplos das pessoas vão dando os princípios da vida fraterna.
4. Examinar até que ponto toda a minha vida está confiada aos irmãos e irmãs que Deus me deu. Ou se os meus pontos fortes de confiança estão em outras realidades ou mesmo fora da fraternidade.
5. Não deixar de recordar cada dia, antes de dormir, todos os dons que recebemos através de nossos irmãos e irmãs. Deve ser a nossa principal oração de louvor.
8. Livres para amar - a Castidade
Francisco e Clara disseram em suas Regras que queriam viver o Evangelho em castidade.
Quando professamos na Família Franciscana fazemos voto de castidade e é bom lembrar que um voto nunca é negativo: é um ato de culto em que nos comprometemos com um bem possível e melhor.
A Igreja deixou tudo isso bem mais claro quando, a partir do Concílio Vaticano II, disse que os religiosos são testemunhas da vida eterna.
1. Um voto de vida fraterna
É interessante recordar que, antes do Vaticano II, a Igreja, que se definia como uma sociedade perfeita governada pelo Papa e pelos Bispos, apresentava os religiosos como pessoas que, seguindo os conselhos evangélicos, tinham entrado em um estado de perfeição: queriam ser santas.
Com a Lumen Gentium, a Igreja se apresentou como um povo a caminho de Deus, como um povo que é "luz para todos os povos". Nessa perspectiva, ensinou que todos são chamados à santidade, e reservou para os religiosos o papel de testemunhas da vida eterna.
Testemunhar a vida eterna é ser uma prova viva, para todo o Povo de Deus, de que o amor fraterno que vamos viver na eternidade é um bem possível e uma enorme felicidade. Os religiosos são as pessoas que já começaram a viver agora o que todos vão viver depois.
O seguimento dos conselhos evangélicos passou a ser visto como um "dom" de Deus, ou um "carisma": uma graça que a pessoa recebe em benefício de todo o Povo. Isto é, ter o dom da castidade é um compromisso pelo bem de todas as outras pessoas: é uma maneira de ajudar o mundo a viver na esperança.
2. Um coração puro
São Francisco fala muito pouco em castidade: para ele são castas a Irmã Água e a Irmã Cinza. Mas fala muito em ter um "coração puro". Clara, nas mesmas circunstâncias, fala na virgindade.
Em primeiro lugar, é bom observar que "pureza" não tem, para Francisco, o mesmo sentido que tem para nós hoje: isto é, não está ligada diretamente a um comportamento sexual. É mais ampla. Vejamos alguns textos:
Mas na santa caridade, que é Deus, peço a todos os frades, tanto ministros como os outros, que, afastando todo impedimento e, pondo de lado toda preocupação e todo afã, do modo que melhor puderem, devem servir, amar, adorar e honrar o Senhor Deus, com coração puro e mente pura, o que ele mesmo pede acima de todas as coisas" (RNB 22, 26).
"São verdadeiramente limpos de coração os que desprezam as coisas terrenas, buscam as celestiais e não deixam de adorar e ver sempre o Senhor, Deus vivo e verdadeiro, com coração e alma limpa" (Adm 16).
"Amemos portanto a Deus e o adoremos com pureza de coração e de mente, porque os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade" (CtFi II, 3, 19-20).
"Adoremo-lo com coração puro, porque é preciso orar sempre sem nunca se cansar: de fato, o Pai procura esse tipo de adoradores..." (RNB 22).
Fica evidente que puro é simplesmente o que não tem mistura: coração puro é o que ama a Deus sem misturar nenhum outro interesse passageiro. Para Francisco, olha tudo com pureza quem está totalmente livre para amar. Poderíamos falar em um "voto de liberdade".
Santa Clara, equivalentemente, prefere falar em virgindade: quanto maior o espaço livre que conseguimos reservar para Deus em nossa vida, maior a nossa virgindade.
O fundamento dessa maneira de falar é a expressão de São Paulo: a mulher casada tem que pensar em Deus e no marido e está dividida, mas a virgem pode dedicar-se só a Deus, sem divisões.
A idéia de Francisco fica bastante clara quando escreve na Carta a toda a Ordem:
Por isso rogo no Senhor a todos os meus frades sacerdotes... que, quando quiserem celebrar a missa, puros, na pureza ofereçam com profundo recolhimento o verdadeiro sacrifício do santíssimo corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, com intenção santa e limpa, não por motivos terrenos ou por temor ou amor de alguma pessoa, como se tivessem que agradar aos homens (CtOr 1, 15-18; cf. 1Cel 114).
Aliás, mais adiante na mesma carta, ele conclui o pensamento:
Seria uma grande miséria, um mal miserável se, tendo-o assim presente, vos preocupásseis com qualquer outra coisa no mundo inteiro!... Se alguém agir diferentemente, torna-se um Judas traidor e se faz réu do corpo e do sangue do Senhor (CtOr 2, 32; 2, 19).
Outras atividades ou dedicações podem nos prender e desviar a atenção mais do que o casamento e a família. Muitas vezes os pais dos religiosos são pessoas que cuidaram de uma família grande e mesmo assim foram mais orantes do que seus filhos que foram liberados para isso. Nosso testemunho devia ser como o de São Francisco.
São Boaventura viu nele um "homem novo", que imitou a pureza dos anjos (LM Prólogo 2) porque estava em perfeita harmonia com Deus em corpo e alma. Numa harmonia que se estendia a todas as criaturas. Vejamos o que ele disse:
Calcule a maravilhosa pureza e as virtudes deste homem, se um aceno dele moderava o calor do fogo, a água mudava o sabor, os anjos ofereciam o conforto de suas melodias e a luz divina dava sua orientação. Parece de verdade que toda máquina do mundo se pôs a serviço dos sentidos, então já tão santificados, desse homem" (LM 5, 12).
Essa pureza de coração é uma proposta a todo seguidor de Francisco e Clara. Como lembra a Regra não bulada, nasce da experiência de Deus "que é o único benigno, inocente e puro" (RNB 23, 29). Quem a vive descobre o caminho da verdadeira liberdade pessoal.
3. Livres para amar
Os biógrafos contam que, quando Francisco foi pedir a aprovação da Regra, o Papa admirou nele "a pureza e a simplicidade de ânimo" (LM 3, 97). Para ele, isso era um programa. Ele queria mesmo "unir à inocência da vida uma simplicidade de pomba" (2Cel 241). Por isso também ele admirou a "simplicidade e à pureza de Leão, que refulgiu verdadeiramente de santíssima pureza" (EP 85; cfr. 1Cel 102).
É interessante essa união da pureza com a simplicidade. Na Saudação às Virtudes, Francisco cumprimenta a "Rainha Sabedoria com sua irmã, a pura Simplicidade". Que é simplicidade?
Etimologicamente, a palavra simples vem do latim "sine plica", isto é, sem pregas, sem duplicar, sem triplicar, nem complicar. O verdadeiro sábio é simples, deixa tudo fácil e livre.
Uma castidade verdadeira não é algo que prende, que reduz. Pelo contrário, é um verdadeiro voto de liberdade para amar, tanto a Deus como as outras pessoas. O documento conciliar Perfectae Caritatis diz:
A castidade abraçada pelo reino dos céus... torna livre de maneira especial o coração do homem; de maneira que inflama cada vez mais a caridade para com Deus e para com todos os homens... Será mais seguramente guardada se os religiosos, na vida comum, souberem praticar um verdadeiro amor fraterno entre si (PC 12).
O que costuma tolher nossa afetividade é o medo de amar e de ser amado. Por que haveríamos de ter medo? Porque percebemos que aquilo que muitas vezes passa por "amor" prende.
Isso é sinal de que não aprendemos a amar direito. Amar é dar-se, não é tomar para si. Quem vive a castidade tem que começar libertando a própria interioridade. Se não for livre a partir do próprio coração, sempre tenderá a cercear também a liberdade dos outros. O verdadeiro livre não é quem não depende dos outros, é quem não depende de si mesmo. Não há cadeia que prenda uma pessoa interiormente livre.
Mas é evidente que uma pessoa não pode ser livre só na afetividade. É preciso que não se sinta presa por não conhecer a si mesma ou por ser limitada por preconceitos. Quem é livre, em primeiro lugar é disponível. É livre também para deixar cargos, passar para outro trabalho, mudar de cidade, começar tudo com outras pessoas.
Em nosso mundo não é fácil viver o amor com liberdade, porque estamos sob um bombardeio de posse sexual e afetiva, principalmente pelos meios de comunicação. Nosso ambiente é consumista até no sexo e no amor. Parece que o apelo sexual é um dos maiores recursos de quem quer vender qualquer coisa.
Justamente por isso, as pessoas precisam de um testemunho positivo. Precisam acreditar que é possível viver com liberdade e deixar viver com liberdade toda a plenitude afetiva e toda expressão sexual.
O Deus da Bíblia se apresenta ao seu povo com todas as formas de afeto, principalmente fazendo-se seu esposo. Mas ele é um Deus libertador, como vemos por toda a história bíblica, que tem uma de suas mais belas expressões no Cântico dos Cânticos.
Para entender a liberdade e a castidade na perspectiva franciscana é preciso recordar que nela tudo se lê a partir da pobreza: sem se apropriar.
4. Afetividade e sexualidade
Deus é amor, e nos fez para amar. Ele mesmo vai construindo nossa história do amor, se nos dispusermos a colaborar com as suas iniciativas.
Ele já se revela Deus de Amor quando chegamos ao mundo e somos acolhidos de graça na vida por nossa mãe. E se revela na fé quando vamos saindo de nós mesmos, caminhando e crescendo, pela confiança em nossos pais.
Quando nos descobrimos homens ou mulheres, Deus está nos provocando a sair não só de nossa casa como de nossa interioridade, para nos expressarmos no amor. Em tudo que formos e fizermos, seremos profundamente homens ou mulheres.
Deus nos ajuda a dar mais um passo quando descobrimos a amizade: o mistério de Deus se revela em uma outra pessoa que consegue entrar em nossa interioridade e nos permite entrar na sua.
Com a vinda de Jesus, Deus nos revelou mais um passo enorme no amor: que somos todos filhos de Deus e que o descobrimos na fé dentro de qualquer ser humano. No amor fraterno, já temos a possibilidade de ir vivendo a situação definitiva da Pátria eterna.
5. São Francisco e o Feminino
A leitura das biografias antigas pode fazer-nos pensar que Francisco tinha aderido à maneira de ver as mulheres em outros tempos, que as chamava de "doce mal", "veneno meloso", ou "máscara de satanás". Especialmente os ns. 112 e 113 da segunda biografia de Tomás de Celano podem dar essa impressão.
Mas logo percebemos que se trata de idéias do biógrafo, referentes ao tempo em que escreveu essa biografia, vinte anos depois da morte de Francisco, porque a história do santo apresenta fatos muito significativos.
Quando insiste com os frades sobre o valor da vida fraterna, faz uma comparação com o amor materno: "Se a mãe ama e nutre o seu filho segundo a carne, quanto mais deverá cada um amar seu irmão segundo o espírito?".
Quando escreve a Regra para os Eremitérios, diz que os frades orantes vão fazer o papel de Maria e de Marta, vão ser os "frades mães" e os "frades filhos", mandando que se alternem nessa função.
Quando foi pedir a aprovação de Inocêncio III para a sua Ordem, contou-lhe a parábola da moça pobre e bonita que morava no deserto e se identificou com ela.
Em certa ocasião, na planície de Rocca de Campiglia, foi saudado por três moças como "Senhora Pobreza" e ficou muito consolado por isso.
Contava seus sonhos com liberdade. Num deles, comparou-se a uma galinha choca. Noutro, viu sua própria alma como a estátua de uma mulher bonita.
Não permitia que os frades o chamassem de Pai Francisco, lembrando que Jesus dissera: "A ninguém chameis de pai nesta terra, porque um só é o vosso Pai, o que está nos céus". Mas não se importava que o chamassem de "Mãe Francisco". Numa carta a Frei Leão, ele mesmo colocou: "Frei Leão, eu te escrevo como uma mãe...".
Um homem que tem todas essas atitudes chegou evidentemente a um alto equilíbrio interior, só pode ter a mais elevada consideração pelas mulheres e mostra porque é tão admirado, oitocentos anos depois, mesmo por pessoas de outras religiões.
É ou não é um exemplo de quem vive a castidade na maior plenitude e na maior liberdade?
6. São Francisco e as Irmãs
No capítulo 11 da Regra bulada São Francisco diz:
Ordeno severamente a todos os meus irmãos que não tenham familiaridade ou relações suspeitas com mulheres, nem entrem em mosteiros de freiras, exceto aqueles a quem foi dada licença especial da santa Sé Apostólica; nem se façam compadres de homens ou mulheres, para que daí não resultem escândalos entre os irmãos ou por causa dos irmãos.
Para compreendermos bem o alcance desse texto, é preciso lembrar que a Ordem tinha crescido muito em número e pouco em formação mas também é preciso
conhecer algumas passagens significativas da biografia de Francisco. Tomás de Celano conta que os frades reclamaram, certa vez, que ele estava visitando pouco as suas irmãs clarissas, e ele disse:
Não penseis, caríssimos, que não as ame com perfeição. Se fosse pecado ajudá-las em Cristo, não seria um pecado maior te-las unido a Cristo? Não as haver chamado não seria mal nenhum, mas não cuidar delas agora que foram chamadas seria a maior maldade. O que eu quero é dar bom exemplo, para que façais o que eu faço. Não quero que ninguém se ofereça para ir visitá-las, mas ordeno que só sejam homens espirituais, provados por um comportamento digno e longo, contra sua vontade e só quando resistirem bastante (2Cel 205).
As biografias também falam da grande amizade que uniu Francisco a Jacobba de Settesoli, uma dama da aristocracia romana, e também a Praxedes, uma eremita que também vivia em Roma.
Mas uma das páginas mais bonitas da história, não só da Igreja mas da humanidade, foi escrita pela extraordinária amizade de São Francisco e Santa Clara.
A própria Legenda de Santa Clara, atribuída a Celano, conta:
Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo, movida pelo Pai dos espíritos, de quem um e outra, embora de modo diferente, tinham recebido os primeiros impulsos. Ele, conhecendo a fama de tão agraciada donzela, não tinha menor desejo de ver e falar com ela para ver se podia arrebatar essa presa do século malvado e reivindicá-la para seu Senhor (LSC 5).
É pena que seja pouco conhecido um santo medieval, o monge trapista Aelred de Rievaulx e o seu trabalho "Diálogos sobre a Amizade". Ele aprofunda o tema da amizade dentro do cristianismo, mostrando como ela pode ser enorme e indizível quando duas pessoas, não importando o sexo de uma ou de outra, sabem descobrir Jesus Cristo em si mesmo e uma na outra. É o caso de Francisco e Clara.
Quem demonstrou ter compreendido isso muito bem foi o Papa João Paulo II, em um inspirado discurso de improviso que fez em Assis, no centenário de São Francisco, ao visitar as clarissas:
O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Tudo tomou corpo aqui. Não se trata só de espírito; não são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Ficou o modo como Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa perfeitíssima do Espírito Santo, Maria Santíssima. Não é só uma lenda humana, mas uma lenda divina digna de ser contemplada com categorias diferentes, de se contemplar na oração... Urge redescobrir a lenda divina de Francisco e Clara (L'Osservatore Romano, 14 de março de 1982, p. 3; Fontes Clarianas, p. 228-9).
Esse é um excelente exemplo da liberdade para amar que é conquistada pelas pessoas que sabem viver o dom da castidade em plenitude. Também foi vivido por outras pessoas como Francisco de Sales e Joana de Chantal, por Teresa de Ávila e João da Cruz, mas é fundamental para nós que tenha sido vivido por Francisco e Clara, justamente as duas pessoas a quem Deus passou o dom do nosso projeto de vida.
O amor por Jesus Cristo e a entrega na pobreza abrem realmente para um carisma que pode renovar o mundo.
7. O coração dos Irmãos e das Irmãs
Somos imagem e semelhança de Deus principalmente porque fomos feitos para amar. Se não estivermos conseguindo, nosso coração está frustrado. Precisa ser libertado para amar por uma castidade bem compreendida. Em todos os níveis, com todas as pessoas.
Em primeiro lugar, só pode amar em plenitude quem tem um coração que não se apropria, que não tem necessidade de dominar, que não faz questão de ser considerado maior. Qualquer atitude dessas mescla interesses que são incompatíveis com o amor.
A vida em fraternidade não é refúgio para frustrados; exige corações maduros. Mas, se alguém se descobrir frustrado, sempre é tempo de começar a recuperação pela libertação. E a libertação se faz mediante a maior abertura possível diante dos irmãos e irmãs.
As pessoas que se comprometeram conosco na mesma vida, que têm os mesmos ideais, são as primeiras que Deus colocou em nosso caminho para construir-mos um amor mais profundo.
Um amor fraterno verdadeiro não precisa ter medo de amizades: elas só são falsas quando incluem uma invencível necessidade de posse e exclusividade.
Todas as pessoas precisam do apoio de outras pessoas, mas ninguém precisa ser dependente, nem deve.
O amor que se cultiva dentro da fraternidade é a raiz de todos os amores que devem se expandir para muitas pessoas, para todas as pessoas que puderem ser atingidas pela nossa presença.
Em tudo, cada um de nós é profundamente um homem, profundamente uma mulher. Mas a amizade vai muito além da sexualidade. Todas as diferenças que existirem entre as pessoas podem até ajudar uma amizade a ser mais profunda.
O importante é que, em qualquer situação, nosso coração busque fundamentalmente descobrir o amor na sua fonte: é o Deus Amor, o Deus que é todo o Bem. Ele se manifesta em tudo. Mais ainda nas pessoas. Mas fundamentalmente na figura única de Jesus, a figura humana de Deus. Quem o estiver procurando nunca vai se enganar.
8. Propostas práticas
1. Para ser testemunhas da vida fraterna, é preciso reconhecer com muita alegria os dons da bondade de Deus que recebemos na pessoa de cada irmão ou irmã. Examinar se damos um testemunho alegre e otimista. Se sabemos dizer com facilidade os dons de cada irmão ou irmã.
2. Cuidar da pureza de nosso coração. Que interesses egoístas podemos estar misturando na oração e nas boas atitudes que tomamos com nossos irmãos? De que é que estamos nos apropriando?
3. Cultivar a liberdade de amar. Que preconceitos carregamos desde a infância ou desde a nossa formação? Quanto aos outros (raça, cor...) ou com nossas próprias qualidades (corporais, psicológicas...).
4. Agradecer a Deus porque nos fez homens ou mulheres, porque colocou em nossa vida as pessoas que passaram por ela, porque está sempre abrindo nossos horizontes por gente nova que vamos conhecendo.
5. Como são nossos relacionamentos com as pessoas? Temos amigos a quem permitimos ajudar-nos a conhecer nossa própria interioridade? De quem aceita-mos críticas e observações sem nos desequilibrar?
9. Restaura a minha Igreja
A primeira vez em que Francisco se sentiu fortemente interpelado pela Bondade de Deus, foi em São Damião. O Senhor comunicou que estava faltando alguma parte boa em sua Igreja e mandou que Francisco a restaurasse:
"Francisco, vai e repara a minha casa, que, como vês, está em ruínas" (2Cel 10).
Teve uma impressão fortíssima e pediu ao Senhor que iluminasse as trevas do seu coração para que ele pudesse cumprir a sua vontade. São Boaventura comenta:
Voltando finalmente a si, tratou de obedecer, concentrou-se todo na missão de reparar a igreja de pedras, embora a palavra divina se referisse principalmente à Igreja que Cristo conquistou com o seu sangue, como o Espírito Santo o haveria de fazer entender e como ele mesmo revelou depois aos frades (LM 2,1).
1. A Igreja Santa e Pecadora
De fato, a maior obra da bondade de Deus, que é o seu Povo, podia ser comparada a um edifício vistoso, mas com sérios reparos a serem feitos.
Tinha conseguido um prestígio e uma liberdade nunca antes igualadas, possuía homens de grande valor, como Inocêncio III, o papa desse tempo. Passara até pela reforma gregoriana no século XI e estavam florescendo interessantes reformas monásticas e numerosos movimentos leigos.
Mas também estava ligada demais ao sistema militar e econômico do feudalismo, favorecendo entre os seus "príncipes" uma luta pela riqueza, pelo poder e pela competição. Os movimentos leigos criticavam-nos com razão, mas acabaram enveredando por contestações teológicas e terminaram na heresia. O clero comum era mal preparado e de maus costumes.
Francisco foi verdadeiramente um chamado por Deus, que soube valorizar todos os aspectos bons e, sem críticas nem contestações, veio a criar um movimento que continuou a curar os males da Igreja por muitos séculos. Ele a restaurou colocando dentro dela uma multidão de pedras vivas, sem ter que derrubar nada.
A Igreja é mesmo santa e pecadora, porque nela estão Deus e os seus santos, mas também os que ainda não se abriram totalmente ao bem, ou lhe resistem.
2. Fiel à Igreja Romana
Santa Clara escreveu em seu Testamento que Francisco ainda nem tinha irmãos ou companheiros quando, "visitado plenamente pela graça do Senhor e impelido a abandonar o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo", profetizou:
Venham me ajudar na obra do mosteiro de São Damião, porque nele ainda haverão de morar umas senhoras cuja vida famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial em toda a sua santa Igreja (TestC 10-14).
Desde os primeiros tempos de sua conversão esteve ligado à Igreja, pois o vemos ser denunciado pelo pai diante do bispo, que o protegeu e foi seu amigo até a morte.
Quando apareceram os dois primeiros companheiros, levou-os à igreja para descobrirem nas páginas do Evangelho o que Cristo teria para lhes dizer.
Quando os frades chegaram a doze, Francisco logo lhes disse:
"Irmãos, vejo que o Senhor misericordioso quer aumentar a nossa comunidade. Vamos então a nossa mãe, a santa Igreja romana, e comuniquemos ao sumo pontífice o que o Senhor começou a fazer por meio de nós, para continuar a nossa missão segundo a sua vontade e as suas disposições" (LTC 46; cf. 1Cel 32).
É importante saber que nunca um fundador tinha ido ao papa pedir aprovação do seu projeto de vida. Em Roma, ele foi apresentado pelo bispo de Assis ao cardeal João de São Paulo que, depois de o haver interrogado, testemunhou diante de Inocêncio III:
Encontrei um homem de extraordinária virtude, que se empenhou em viver o ideal evangélico, observando em tudo a perfeição expressa no Evangelho. Estou convencido de que o Senhor quer, por meio dele, reformar em todo o mundo a fé da santa Igreja (LTC 48; LM 3,9).
Os primeiros franciscanos prometeram obediência ao papa e aos seus sucessores e saíram com um mandato de pregação. Mais tarde, Francisco escreveu em sua Regra:
Todos os frades sejam católicos e vivam e falem catolicamente. Se alguém se afastar da fé e da vida católica por palavras ou atos, e não se emendar, seja expulso totalmente de nossa fraternidade (RNB 19, 1-2).
Quando os tempos se tornaram mais difíceis, depois de ter conhecido e merecido a amizade do cardeal Hugolino de Segni, o Pobrezinho pediu ao papa um cardeal que o representasse de perto, ou, como escreveu na Regra definitiva:
que seja governardor, protetor e corretor desta fraternidade; para que sempre súditos e sujeitos aos pés de mesma santa Igreja, estáveis na fé católica, observemos a pobreza, a humildade e o santo Evangelho do Senhor Jesus Cristo, que prometemos firmemente (RB 12,4).
3. Segundo a forma da Santa Igreja Romana
De início, é muito importante sublinhar que Francisco não confundia Igreja com hierarquia. Em sua Regra não bulada, ele escreveu:
A todos os que querem servir ao Senhor Deus na santa Igreja católica e apostólica: todas as ordens eclesiásticas: os sacerdotes, os diáconos, subdiáconos, acólitos, exorcistas, leitores, ostiários, e todos os clérigos, todos os religiosos, as religiosas, todas as crianças, os pobres e miseráveis, os reis e os príncipes, os trabalhadores, os camponeses, os servos e os patrões, todas as virgens, as viúvas e as casadas, os leigos, os homens, as mulheres, todos os meninos, os adolescentes, os jovens, os velhos, os sãos, os doentes, todos os pequenos e grandes, e todos os povos, as gentes, as raças, as línguas, todas as nações e todos os homens da terra, que há e haverá, nós todos frades menores, servos inúteis, humildemente rogamos e suplicamos que perseverem na verdadeira fé e na penitência, porque senão ninguém poderá ser salvo" (RNB 23, 16).
É claro que nós todos, da criança ao papa, temos que viver na fé segura que a Igreja nos dá e nas propostas de conversão evangélica que ela nos oferece. Francisco também demonstrou esse seu espírito abrangente e universal nas cartas que dirigiu a clérigos e a leigos, a governadores de todo o mundo tanto quanto a seus irmãos.
Um exemplo interessante está no fato de Francisco mandar que
Os clérigos rezem o Ofício segundo o rito da santa Igreja Romana (RB 3,1).
Alguém podia pensar que se tratava simplesmente de uma norma prática, porque a Igreja ensinava como rezar e publicava os livros, mas ele também disse no Testamento, pouco antes da morte:
E se encontrassem frades que não rezam o ofício segundo a regra ou quisessem variá-lo, ou não fossem católicos, todos os frades... sejam obrigados a entregá-lo ao custódio (Test 36).
Para entender melhor isso, é preciso saber que o Ofício Divino consta principalmente de Salmos e os cátaros daquele tempo ensinavam que todo o Antigo Testamento era do deus do mal, o diabo.
Quando tratou do mesmo assunto na Carta a toda a Ordem, Francisco insistiu:
Os meus frades que não quiserem observar estas coisas não os tenho como católicos nem meus frades: eu não os quero ver, não quero falar com eles enquanto não tiverem feito penitência (CtOrd 6).
Quem lembra o que o Pobrezinho ti-nha escrito na Carta a um Ministro, insistindo em até oferecer misericórdia para quem tivesse pecado, pode perceber que, para ele, estar fora da Igreja é muito pior do que ter caído em pecado.
Para Francisco a adesão à santa Mãe Igreja pode garantir a observância perfeita do Evangelho. A "boa nova" não é uma simples "filosofia de vida", um livro com boas idéias para uma auto-ajuda. O Evangelho é uma proposta diante da qual a pessoa adere ou não adere. A Jesus Cristo. Se aderir, forma um povo novo, que tem que ser luz para todos os povos. Entra na linha do Antigo Testamento, que constituiu o Povo de Deus.
O Santo, que sempre reforçava com adjetivos suas idéias mais importantes, costumava falar em santa Mãe Igreja Romana (LTC 46), porque achava que, de fato, a Igreja tinha um amor materno e cuidadoso para com seus filhos. Muitas vezes ele a via identificada no papa e nos bispos, mas as suas atitudes sempre mostraram que sua compreensão de Igreja era amplamente histórica e abrangia a todos.
4. Jesus Palavra e Jesus Eucaristia
Para São Francisco, isto era muito objetivo: sem Igreja, não temos Jesus Cristo, porque não temos a Bíblia (Jesus Palavra), nem a Eucaristia (Jesus presença real, o seu corpo e o seu sangue).
Administradora dos sacramentos, a Igreja é, ela mesma, o primeiro sacramento, porque foi instituída por Jesus Cristo e é um sinal visível e eficaz de sua presença.
Daí a exigência apresentada pela Regra franciscana para a admissão de novos frades:
Os ministros os examinem diligentemente quanto à fé católica e aos sacramentos da Igreja. E se crerem em todas essas coisas e as quiserem professar e observar fielmente até o fim... (RB 2,3-4).
Era por isso, também, que o santo exigia que se cuidasse da Eucaristia segundo as normas da Igreja:
E se o santíssimo corpo do Senhor estiver colocado de modo miserável em qualquer lugar, de acordo com o preceito da Igreja, seja posto por eles em um lugar precioso e seja guardado e levado com grande veneração e dado aos outros como se deve (CtCus 7).
5. Papa, bispos, padres
Francisco e Clara certamente tinham consciência de que Hugolino, seu grande amigo, e boa parte da hierarquia viviam no luxo mas nunca quiseram considerar nem comentar isso. A gente tem que saber o que é erro e o que não é, mas não deve criticar, e muito menos se separar da comunhão da Igreja, que é guiada por seus pastores.
Falando do processo de canonização de Francisco, Celano usou uma série de palavras para se referir ao papa que bem podiam ter sido pronunciadas pelo santo:
Ouviu e compreendeu tudo isso o Romano Pontífice, o maior de todos os pontífices, o guia dos cristãos, o senhor do mundo, o pastor da Igreja, o Cristo do Senhor, o Vigário de Cristo (1Cel 121).
O Santo tinha todo esse respeito por esse homem que representava todo o Povo de Cristo, mas também era muito simples ao tratar com ele. Vejamos o que disse ao papa Honório III, quando o cardeal Hugolino o levou à sua presença:
Senhor, compadeço-me de vós pela solicitude e trabalho contínuo com que deveis velar sobre a Igreja de Deus, e muito me envergonho que tenhais tanta preocupação e solicitude por nós, irmãos menores. De fato, enquanto muitos nobres e ricos e muitos religiosos não podem chegar a vós, grande deve ser o nosso receio e escrúpulo, pois que somos os mais pobres e desprezíveis entre todos os religiosos, já não digo por comparecer diante de vós, mas por estar à vossa porta e ter a presunção de bater ao tabernáculo da fortaleza dos cristãos (LTC 65).
Tinha a mesma reverência pelos bispos, e escreveu na Regra:
Os frades não preguem na diocese de bispo algum quando isso lhes tiver sido proibido por eles (RB 9, 2).
A segunda biografia de Celano traz um exemplo interessante de como Francisco foi pedir autorização de pregação ao bispo de Ímola. O bispo recusou. Ele voltou por outra porta e disse: "Senhor, se um pai põe um filho para fora por uma porta, ele tem que entrar pela outra". Vencido, o bispo disse:
Tu e todos os teus frades podeis pregar de agora em diante em minha diocese com uma licença geral de minha parte. Isso foi conseguido pela tua santa humildade (2Cel 147).
Quanto aos simples sacerdotes, são até mais conhecidas suas atitudes, pois escreveu no Testamento:
E hei de respeitar, amar e honrar a eles e a todos os outros como a meus senhores. Nem quero olhar para o pecado deles, porque neles reconheço o Filho de Deus e são meus senhores. E procedo assim porque do mesmo altíssimo Filho de Deus nada enxergo corporalmente neste mundo senão o seu santíssimo corpo e sangue, que eles consagram e somente eles administram aos outros (Test 8-10).
Outros textos recordam seu respeito aos sacerdotes por serem administradores da Palavra (2CtFi 34-35) e do sacramento da Penitência ((RNB 20,1-6). Mas um texto forte é o da Admoestação 26:
Bem-aventurado o servo que tem fé nos clérigos que vivem retamente segundo a forma da Igreja Romana. E ai daqueles que os desprezam pois, mesmo que sejam pecadores, ninguém deve julgá-los, porque o próprio Senhor reservou o direito de os julgar.
6. Ser Igreja anunciadora
Francisco, que se sentia amparado pela Igreja, tinha plena responsabilidade também por ser parte viva da Igreja. Segundo Tomás de Celano
Dizia que não havia coisa mais importante que a salvação das almas... Daí seu esforço na oração, sua pregação constante e seu excesso nos exemplos que dava (2Cel 172).
A Legenda dos Três Companheiros põe estas palavras em sua boca:
Irmãos caríssimos, consideremos a nossa vocação. Deus, em sua misericórdia, chamou-nos não só para nossa salvação mas também para a de muitos outros. Vamos então pelo mundo, exortando a todos, com o exemplo mais do que com as palavras, a fazer penitência de seus pecados e a lembrar os mandamentos de Deus" (LTC 36).
Celano também conta que
Enchia toda a terra com o Evangelho de Cristo de tal maneira que em um único
dia chegava a passar por quatro ou cinco povoados, ou mesmo cidades, anunciando a todos o reino de Deus, e edificando os ouvintes tanto pela palavra como pelo exemplo, pois pregava com toda a sua pessoa (1Cel 97).
Pelo mesmo sentimento de ser Igreja, ordenou na Regra que os frades fossem anunciar a boa-nova aos infiéis (RNB 16; RB 12). O cronista Jordão de Jano tem u-ma passagem interessante sobre o testemunho dos frades no tempo de uma guerra entre o papa e o imperador:
...duramente perseguidos... expulsos... muitos encarcerados, outros até mortos, porque às ordens da Igreja, obedientes como filhos de uma Santa Mãe, ficaram virilmente firmes; o que nenhum outro dos religiosos ousou fazer, fora dos frades menores (Jordão 73).
E ainda quero acrescentar mais dois trechos que falam da força do santo na sua querida Santa Mãe Igreja:
O santo de Deus, como um rio caudaloso de graça celeste, derramando a chuva dos carismas, enriquecia o campo de seus corações com as flores das virtudes. Pois era um artista consumado que apresentava o exemplo, a Regra e os ensinamentos de acordo com os quais, tanto nos homens como nas mulheres, a Igreja de Cristo rejuvenescia e triunfava o tríplice exército dos predestinados. A todos propunha uma norma de vida e demonstrava com garantias o caminho da salvação (1Cel 37).
Cobria-se de confusão a perversa heresia, triunfava a fé da Igreja e, enquanto os fiéis rejubilavam, os hereges se escondiam. Pois nele se viam tantos sinais de santidade que ninguém ousava contradizê-lo, porque a multidão só olhava para ele. Ele mesmo insistia acima de tudo na conservação, respeito e prática da doutrina da santa Igreja Romana, na qual somente está a salvação para todos. Venerava os sacerdotes e reverenciava com profundo afeto toda a hierarquia eclesiástica (1Cel 63).
7. Ter uma visão histórica
No Antigo Testamento, talvez se possa dizer que o grande sacramento de Deus era a história. Na história o Povo tinha o sinal concreto e eficaz da presença do Senhor em sua vida.
Na história, dá para ver que é Deus que conduz a Igreja, apesar de tudo que nós mesmos possamos estar fazendo de errado ou menos acertado. Já passamos por épocas e crises bem piores do que as de hoje e sempre saímos.
É preciso conhecer bem a história da Igreja. Tanto o passado como o presente. Que passos já demos? Que passos estamos dando hoje? Quais os próximos passos e os futuros? Minha pergunta tem que ser: que consciência eu tenho dos passos que estão sendo dados, dos que devem ser dados e qual está sendo a minha contribuição.
Somos um povo que marcha na direção da esperança porque temos uma base na memória. Vamos para diante porque confiamos nas promessas de Deus. Confiamos porque ele sempre cumpriu suas promessas no passado. Temos que saber perceber em que pontos Deus está fazendo essa caminhada acontecer. Lemos a história com espírito contemplativo.
O cristão sempre tem que saber dar as razões da sua esperança, como dizia São Pedro: "...reconheçam de coração o Cristo como Senhor, estando sempre prontos a dar a razão de sua esperança a todo aquele que a pede a vocês" (1Pd 3, 15). Quem não souber, não está sendo cristão.
É preciso lembrar constantemente a proposta de Francisco: nossa esperança é chegar a viver plenamente a vida da Trindade, como Nossa Senhora. O Concílio Vaticano II confirmou isso.
8. Conclusões
Francisco e Clara não foram pessoas simplórias, sem espírito crítico. É preciso lembrar que ele escreveu na sua Última vontade para Clara, que ela não devia deixar-se desviar da pobreza, "pelo conselho de quem quer que fosse". E que Clara, nessa mesma visão, resistiu a Gregório IX que queria faze-la aceitar propriedades, como também escreveu a Inês de Praga para, em caso semelhante, respeitar quem merecesse respeito, mas não obedecer. Também foi firme quando Roma cerceou, em 1230, seu direito de ter a assistência dos frades.
Como Francisco, nós temos que continuar restaurando a Igreja, mas isso não se faz com críticas de quem se sente fora, distante dos erros. Reconstruímos a Igre-ja como nossos santos fundadores aju-dando-a a se renovar nas pessoas. De acordo com o próprio Vaticano II (Lumen gentium) a Igreja é um povo, mais do que uma instituição. O que faz um povo são as pessoas.
Não é questão de substituir os indivíduos: as pessoas têm é que melhorar a partir de dentro.
Em um projeto franciscano de vida, em que nos propomos a ser novos cristos e chegar a viver a plenitude da Trindade como Nossa Senhora, é fundamental uma fidelidade cada vez maior à Igreja, uma vez que só temos Jesus Cristo porque temos a Igreja. Maria é a "parte do Povo de Deus que já chegou lá".
Ter um projeto é caminhar para uma meta. Para essa meta nós caminhamos como Povo e com o Povo, ou então não caminhamos, porque Cristo, que é o caminho, é a cabeça do Povo.
Em nosso país, a Igreja está passando por uma crise importante. Crise não é si-
nal de doença, é sinal de resistência do organismo. Nós nascemos como parte da cristandade desde que fomos colonizados pelos portugueses. Ser brasileiro queria dizer ser católico, tanto quanto ter que falar português.
Depois da proclamação da república não é mais preciso ser católico para ser brasileiro. Temos vivido um processo de esvaziamento em número. A saída de tantos irmãos e irmãs certamente questiona o testemunho que nós lhes demos. Mas também é uma oportunidade de nos levar a construir uma Igreja mais consciente e responsável.
9. Propostas práticas
1. Francisco e Clara estão renovando a Igreja há oitocentos anos porque conseguem renovar pessoas. Que é que você tem feito para que seus irmãos e irmãs formem aos poucos uma Igreja viva?
2. Enumere os sinais da bondade de Deus presentes em sua Igreja. Enumere também os pontos em que essa bondade está fazendo falta.
3. Você pode dizer que é um cristão que conhece a história da Igreja e está por dentro dos documentos que ela publicou, tanto atuais como passados?
4. A exemplo de São Francisco, conheça sempre todos os pontos positivos da Igreja em que você vive Jesus Cristo. Assim quando falarem mal dela, mesmo que você tenha que concordar com as críticas, poderá mostrar também os sinais de esperança.
5. Não é preciso tentar derrubar os que, dentro da Igreja, se mostrarem sequiosos de poder. Isso poderia ser outra forma, mesmo velada, de procurar poder. Insista sempre nos dons de graça que o Senhor nunca deixa faltar.
10. Viver como os apóstolos
Hoje em dia, usamos a expressão "apostolado", "fazer apostolado", porque pensamos nas tarefas a realizar. São Francisco pensou mais em viver como os apóstolos viviam do que em fazer o que os apóstolos fizeram. Por isso, fala em vida apostólica.
A palavra "apóstolo" quer dizer enviado, mandado da parte de alguém. O evangelho conta que Jesus enviou os apóstolos para anunciarem o Reino.
Mas é preciso lembrar que Jesus também foi enviado pelo Pai. É ele o grande apóstolo e é ele a transmissão de todo o Bem, que é Deus.
O Bem, por sua própria natureza, comunica-se, expande-se. Os apóstolos de todos os tempos, como Jesus, têm que ser a expressão do Bem, mais do que comunicadores do Bem. Não podemos nos esquecer de que Jesus foi enviado pelo Pai porque já vivia com o Pai, e de que os apóstolos só foram enviados por Jesus depois de terem vivido com ele.
Jesus tornou o Pai presente. Nós tornamos Jesus presente. Só Deus pode atuar no coração das pessoas.
Sobre o pensamento de São Francisco a respeito, Celano refere:
Certa vez, disse que um homem de grande cultura deveria resignar, de certa forma, até à ciência, quando entrava na Ordem, para que, despojado dessa posse, se lançasse despido aos braços do Crucificado. "A ciência - dizia - torna muitas pessoas indóceis, fazendo com que alguma coisa rígida nelas resista aos ensinamentos humildes. Por isso gostaria que o homem letrado começasse por me dizer esta prece: Irmão, vivi muito tempo no mundo e não conheci de verdade o meu Deus. Peço que me concedas um lugar afastado do barulho do mundo, para que possa rever meus anos na dor, para que recorde as dispersões de meu coração e me reforme para o que é melhor. Que pensais que vai acont